adeus, clinique

Todo mundo aqui tá careca de saber que tenho psoríase. Ela vai e vem (normalmente vai embora de um lugar e vem pra outro), e é diferente nas diferentes partes do corpo afetadas. Por exemplo, tenho placas avermelhadas e que descamam nos cotovelos e na canela direita (já pegou a esquerda também, depois passou; já pegou os dois joelhos, depois passou; o cotovelo esquerdo ficou limpo por muito tempo, mas agora está acometido novamente), descamação e vermelhidão intensas mas sem crostas nas orelhas, e MUITA descamação e MUITA coceira no couro cabeludo. Há pouco tempo li em algum lugar sobre a necessidade urgente de criar clínicas do prurido, equivalentes às clínicas da dor, porque aguentar coceira O TEMPO TODO, 24 HORAS POR DIA, TODOS OS DIAS é de enlouquecer. Se eu não tomar meu anti-histamínico todos os dias simplesmente viro um cachorro sarnento e não faço outra coisa que não me coçar, chegando a acordar de madrugada por causa do prurido. Se esquecer de tomar, o corpo coça também, coisa que normalmente não acontece, e aí não consigo trabalhar, porque passo metade do tempo com as mãos ocupadas me coçando. Pra não falar do aspecto estético, néam. Enfim, uma be-le-za de doença.

Vamos pular pra cabelância da Carol, que é praticamente indomável (juro que já já a relação entre esses dois assuntos vai ficar clara). Sei bem como é porque eu também chorava horrores quando minha mãe penteava meu cabelo, até que ela, desesperada inclusive por causa das infinitas vezes que tive piolho, resolveu cortar meu cabelo curto. Como eu não tinha orelha furada, e além disso era uma criança medonha, TODO MUNDO perguntava se eu era menino ou menina. A coisa me traumatizou tanto que eu lembro da cara de todo mundo que me fez essa pergunta. Marcou a minha vida pra sempre, não posso nem pensar nisso que me dá vontade de chorar (ainda), e embora a Carol seja linda e esteja de orelhas furadas, não quero que ela corra o risco de passar por isso. Então vou testando tudo que é creme que aparece, pra ver se algum deles dá jeito na juba. Comecei a notar que os poucos cremes que realmente ajudavam a desembaraçar o cabelo demoravam MUITO pra sair. Ela fica lá de molho embaixo do chuveiro e nada do creme sair (tenho que enxaguar tudo, senão ela fica com a cabeça coçando). Cara, não é possível, pensei. Tem que ter um esquema melhor pra cuidar do cabelo.

Há alguns anos eu comprei um vidro de Wen nos EUA, mas não tinha coragem de usar porque você tem que usar MUITAS bombeadas pra fazer efeito, e com a minha quantidade de cabelo não era economicamente viável. Depois que cortei curto passei a usar, no lugar do shampoo. Quando comprei, mandei um e-mail pra eles explicando que tenho psoríase, couro cabeludo que coça e descama, cabelo ultra seco etc, e eles responderam rapidinho, recomendando o Tea Tree Oil (que não estou vendo no site agora, mas na Amazon deve ter). Gente… Que coisa mais linda. Primeiro que o cabelo fica hidratado legal, e com uma ótima sensação de limpeza, apesar do produto não ser/conter sabão. Segundo que a coceira diminuiu, pela primeira vez desde 2006, quando a psoríase apareceu na minha vida. Foi uma revelação. Mas o vidro começou a acabar, e fui procurar outras soluções.

Entra a Marcia, amiguinha de internet há muitos anos. Quando linkei o post sobre o meu cabelo curto no Face, ela me recomendou um livro no qual eu já tava de olho há muito tempo, mas achava que não ia adiantar nada (porque afinal de contas NADA resolve um cabelo merda). O livro era esse aqui (linkei pra Amazon brasileira, tá), e acabei comprando. A burralda aqui simplesmente não tinha percebido que uma das autoras é a criadora dos produtos Deva Curl, alguns dos quais eu já tinha testado. Uso esse aqui na Carol há o maior tempão e funciona muito bem, apesar do cheiro estranhíssimo. São SUPER caros, mas valem a pena. Se eu tivesse notado que a Lorraine era a autora do livro, já teria lido há séculos. Anta. Enfim, o livro é bem interessante, apesar das mil piadinhas amarelas com termos capilares, pelamordedeus, não queiram saber. No frigir dos ovos, a lição mais importante que eu aprendi com ela foi simplesmente continuar sem usar shampoo.

Parei de usar shampoo pra lavar a cabeça da Carol. Parei de usar esses cremes de supermercado (ou não; já usei muito creme/shampoo francês caro também, tudo igualmente merda) cheios de silicones, parabenos e coisas poluentes e tóxicas. E catando daqui, catando dali, acabei caindo nesse site, que é italiano mas que manda os produtos da Áustria.

Viciei TOTALMENTE. Agora aqui em casa eu e Carol só usamos tudo orgânico. Lavo a cabeça da Carol com esse creme, que tem um certo cheiro de remédio e não facilita muuuuuuito o desembaraçar, mas sai com uma enxaguada rápida e não resseca (já é alguma coisa). Estou lendo os reviews de outros produtos pra tentar achar um que realmente facilite o pentear, porque a Carol chora toda vez que lava a cabeça e tem que pentear, mesmo eu usando os dedos pra desembaraçar, segundo os ensinamentos do livro. Como leave-in, uso aquele da Deva Curl que linkei acima, misturado com algum óleo (a mais recente novidade é esse aqui). Passo o óleo no cabelo dela inclusive nos dias em que não lavamos a cabeça, e dá uma boa segurada no frizz. Esse aqui funciona super bem com a Carol, mas comigo não. Minha mãe usa há tempos e foi ela quem me deu a dica, é produto de salão mas consegui comprar o mega vidrão na Amazon inglesa. Só que de natural não tem nada, então só uso de vez em quando, pra mudar a rotina mesmo.

Estou usando esse óleo pra massagear o couro cabeludo pra ver se ajuda com a coceira e estou achando que, junto com o Wen (na verdade, junto com a ausência de shampoo), está ajudando sim. Tem um cheiro exótico, de especiarias, que acredito que nem todo mundo goste, mas não me incomoda. Passo à noite e no dia seguinte lavo. De qualquer maneira, a descamação melhorou MUITO.

Pra tomar banho estou usando o sabonete líquido orgânico da Coop, meu supermercado preferido. Abandonei o de lavanda da Granado da Carol (AMO AMO AMO AMO o cheiro, mas resseca bastante a pele e é totalmente químico) e ela está usando esse da Coop também. Não resseca, o cheiro é quase inexistente e não interfere com cremes ou perfumes, rende pra cacete e não polui o ambiente. Melhor que isso, só dois isso.

No corpo uso esse gel (que é líquido demais pra ser chamado de gel, mas vem com bombinha spray que resolve o problema) de babosa só nas áreas afetadas pela psoríase, e no resto do corpo um creme de hemp da The Body Shop que a vendedora me recomendou, em Orlando – ela também tinha psoríase e achava que hidratava bem. O cheiro é bizarro, mas me acostumei. E também estou usando esse aqui de vez em quando: é duro que nem uma pedra, quando você abre acha que vai morrer intoxicada com o cheiro fortíssimo (e maravilhoso) do óleo de lavanda, mas infelizmente o perfume dura pouquíssimo. Mas é pura manteiga de karité com puro óleo de lavanda, hidrata direitinho e não tem química bizarra nenhuma dentro. Por último, comprei esse óleo de jojoba também, que estou usando como hidratante pra área ao redor dos olhos. Várias usuárias relataram que os cílios cresceram e aumentaram de volume usando desse jeito, ainda estou esperando pra ver.

Pro rosto, uso esse soro aqui (três gotas são suficientes pro rosto e pro pescoço), que dá uma leve sensação de pele esticada, e depois esse creme aqui, que hidrata muito bem. Não vou dizer que funciona contra as rugas, porque todo mundo sabe que ruga não tem remédio, creme nenhum do mundo diminui ruga, mas que a pele fica ótima, isso fica. Simplesmente o melhor creme que eu já usei. Provavelmente nunca mais vou querer outro.

Depois de me dar muito bem com essas coisas todas, resolvi testar a maquiagem orgânica. Resultado: aprovada com louvor. Uso esse blush (testei esse também, mas é ruim de aplicar, fica concentrado num lugar só, é difícil de espalhar), um BB cream de uma marca que não estou mais vendo no site mas que acabei de achar aqui (bem denso e meio chato de espalhar, mas com resultado final ótimo), rímel da mesma marca (nada de orgânico é à prova d’água, mas fora isso o produto é ótimo). Batom não testei porque uso pouco e ainda tenho muitos da Clinique (vieram de brinde com outras coisas desnecessariamente caras que comprei há tempos) na gaveta dando sopa. Lápis de olho infelizmente ainda não testei, porque eu só gosto dos retráteis, e não achei nenhuma marca de orgânicos que fizesse esse tipo de lápis. Então uso os da Sephora mesmo, que por mais que você lave e use removedor sempre te deixam com cara de guaxinim no dia seguinte, mas é só lavar de novo que sai. São maravilhosas de aplicar e as cores são lindas. Aproveitei a promoção do dia das mães pra comprar praticamente um de cada cor com um belo desconto, mas olhando agora no site americano estou vendo que lá tem mais cores do que no site italiano. Morry! Tenho a pele extremamente sensível mas nunca me deram alergia. Um rímel magavilhoso que a Marcinha (a dos cachorros; mwah, amiga!) me deu, da L’Óreal, me deu DOR nas pálpebras uma vez, então só uso quando sei que vou ficar pouco tempo maquiada.

Enfim: viva o orgânico. Nada é testado em animais, quase todos os fabricantes usam matérias-primas oriundas de esquemas eticamente sustentáveis, poluem pouco ou nada o ambiente, e, não sei se vocês notaram, custam MENOS do que as coisas de marca. Óbvio: o preço não inclui propaganda com celebridades photoshopadas e nem pesquisas mirabolantes de laboratório que resultam em produtos que nada fazem além de hidratar a pele, alguns mais, outros menos. As embalagens dos produtos orgânicos costumam ser simplesmente horrorosas, de dar pena mesmo, mas parece que gradualmente estão aprendendo que não é só porque uso creme natural que tendo à cafonice hippie, e agora alguns rótulos estão vindo mais bonitinhos. Se tudo isso ainda me ajudar a me coçar e descamar menos, o meu nível de satisfação vai às estrelas. Se melhorar, estraga. Recomendo altamente.

P.S.: Comprei pasta de dentes orgânica pra Carol também e ela adorou. E ninguém mais usa desodorante aqui em casa, só bicarbonato de sódio (descoberta da minha mãe também).

minha saga capilar

Eu detesto cabelo enrolado. DETESTO. É chato de pentear, se tiver particularmente feio em um certo dia você tem que lavar de novo, em vez de dar só uma escovada básica, e, o pior de tudo, dá um ar selvagem que eu abomino. Parece que a pessoa está eternamente naquele momento em que acabou de acordar. Odeio, odeio. Sempre odiei, desde pequena, continuo odiando e vou morrer odiando. Há anos venho dizendo que um dia vou ficar tão de saco cheio do meu cabelo que vou raspar a cabeça. Não raspei ainda, mas dei um corte radical ano passado. BEM curto. Curto mesmo, não dá pra prender nem em rabinho cotó, cortado bem curto com máquina atrás e uma pseudofranjona mais comprida na frente, que nem chega na ponta do nariz. Curto, pois.

Gente, que revolução na minha vida. Coisa mais linda. A quantidade de tempo que eu ganhei é uma coisa incalculável. Lavo a cabeça a cada banho, seco em dois segundos esfregando a toalha em vez de ficar tomando cuidado pra não desmanchar as porcarias dos cachos, não uso mais creme, pente, leave-in, óleos, o cacete a quatro. Lavo com o shampoo que tiver, não levo mais nada desses apetrechos cabelais quando viajo, perdi a paranóia do elástico everywhere (na verdade ainda levo um elástico em cada bolsa, na carteira, na nécessaire, pra prender a cabelância da Carol quando a juba tá muito descontrol), ESQUECI que o cabelo existe. Uso um arco (qualquer um) só pra não ficar cabelo caindo na testa, que me incomoda horrores, e mais nada. ESQUECI QUE O CABELO EXISTE.

Vocês não têm ideia do quão libertador é. Nunca imaginei que fosse fazer assim tanta diferença na minha vida. Sempre ouvi dizer que era prático, mas prático doesn’t quite cover it. Gente, o tempo que nós mulheres perdemos com essas bobeiras é uma coisa enlouquecedora. Se investíssemos o que gastamos de tempo, dinheiro e energia nos preocupando com a depilação, o buço, as sobrancelhas, o cabelo, as unhas, a maquiagem, a barriga, a celulite, as rachaduras nos calcanhares, o cacete a quatro, em coisas mais úteis, seríamos nós a dominar o mundo, e não os homens. Nós somos é um bando de idiotas por nos submetermos a essa maluquice, a essa escravidão da beleza. Um bando de idiotas. É a gente contando calorias e eles ganhando dinheiro. Somos umas antas.

meus pitacos cubanos

Eu bato nessa tecla há trocentos anos: a gente precisa fazer as coisas pelos motivos certos, senão cedo ou tarde dá merda. Dou sempre o exemplo, bem italiano e brasileiro, do fulano que estaciona na vaga direitinho só quando sabe que tem guarda multando, em vez de estacionar SEMPRE na vaga direitinho porque assim não incomoda ninguém. Pois isso se aplica também, a meu ver, a essa história dos médicos cubanos.

Vou logo adiantando: sou contra. Mas é aí que entra a minha teoria: as pessoas (principalmente os médicos brasileiros) são contra pelos motivos errados.

A ideia de que os cubanos sejam comunistas infiltrados pra estabelecer uma ditadura de esquerda no Brasil é risível, obviamente. Ora bolas, o Brasil é governado pela esquerda há dez anos, por que haveria de inventar infiltração de esquerda quando tudo estava indo bem (até onde eu sei esse projeto Mais Médicos é anterior às manifestações de junho)? Então não tem sentido ser contra os médicos cubanos com essa desculpa paranóica de complô comunista. Não é o motivo certo pra ser contra.

A Cora postou uma coisa interessante sobre o lance da revalida (perdi o post, catem no FB dela) – basicamente segundo ela não tem problema os médicos cubanos não terem intimidade com as modernidades da medicina porque não vão trabalhar com modernidade nenhuma lá nos cafundós do judas. Concordo em parte: se por um lado vejo com desconfiança gente formada em um país onde trocar ideias com colegas estrangeiros é complicado e onde tudo cai aos pedaços, por outro lado é verdade que lá nos buracos do tatu pra onde serão mandados eles vão precisar de bem poucos conhecimentos técnicos, já que as condições de trabalho são nível interior da Namíbia. Mas também é verdade o que alguns memes dizem, que é sacanagem não exigir um certo nível de competência dos médicos que vão trabalhar lá na puta que pariu só porque vão trabalhar lá na puta que pariu. De qualquer forma, acho que protestar contra a vinda dos estrangeiros usando o lance da revalida como argumento não tem sentido, até porque isso não ameaça os médicos brasileiros (pelo menos em teoria), que não vão lá pra puta que pariu.

Outra coisa que a Cora falou foi que a barreira linguística não é um problema. Ela cita como exemplos os Médicos Sem Fronteiras e outros profissionais que trabalham em zona de guerra. Em teoria, concordo. Na prática, não – uma necessidade IMENSA dessas áreas carentes é a medicina preventiva, e explicar uma coisa a uma pessoa que fala outra língua é muito diferente de operar um paciente baleado em zona de guerra, que está desacordado e não precisa entender nada mesmo. Eu, particularmente, tenho grande dificuldade em entender o espanhol sul-americano (não ouvi todas as variantes, mas de pelo menos uns 4 países, sim, e não entendo nada). E acho que, por uma questão de justiça até, se todo profissional de qualquer área precisa provar que fala a língua local quando vai morar fora, não vejo por que os médicos desse projeto estão livres disso. E se é verdade que a necessidade faz o ladrão, não podemos comparar a situação dos cafundós brasileiros com a de uma região em guerra. Se em caso de emergência realmente não importa que língua o médico está falando, o mesmo não pode ser dito de uma situação que é, sim, crítica, mas definitivamente longe de ser um campo de batalha. De qualquer forma, a barreira linguística pode ser contornada e não é um motivo certo pra protestar contra a vinda dos médicos estrangeiros.

Muito se fala sobre os médicos “coxinhas”, que não querem largar o conforto do eixo Rio-SP pra ir lá pra puta que pariu. Minha primeira pergunta é: por que essa cisma com os médicos? É só de médicos que os cafundós precisam? Ou é de enfermeiros, de engenheiros, de dentistas, de PROFESSORES também? Não é só uma questão de querer, mas de ser remunerado pra isso. Tenho colegas de faculdade que se despencaram lá pro fim do mundo, atraídos por salários decentes, mas simplesmente PARARAM DE RECEBER e tiveram que voltar. Você ficaria num lugar onde não há nada pra fazer, com infra-estrutura zero, condições ridículas de trabalho, sem ganhar NADA? Duvido. Minha segunda pergunta é: há algo de errado nisso? No mundo inteiro populações migram há séculos dos cafundós pras cidades. É uma coisa natural, porque ninguém quer morar em lugar bunda. Não há nada de errado em não querer ir morar em lugar bunda. Se você quer que neguinho vá pra lugar bunda, vai ter que pagar. Se não pagar, neguinho não vai. É uma equação bem simples. Aí você vem com aquela entrevista do médico cubano que diz que vai trabalhar nos cafundós por amor à profissão. E eu respondo assim: VAI PENTEAR MACACO, VAI. TO-DO mundo trabalha por dinheiro, senão não se chamaria trabalho, mas sim voluntariado. Lógico que há quem ame o que faz e consiga juntar o útil ao agradável, mas vamos combinar que são uma minoria ínfima. Lógico que há muitos médicos (e outros profissionais) que dedicam parte do seu tempo a atividades pro-bono, mas se fizessem só isso morreriam de fome. Então não me venham com essa de ir lá pra puta que pariu por amor à profissão que comigo não cola. Quem vai pros cafundós vai pra ganhar dinheiro, pra ganhar experiência, pra ganhar currículo, porque foi obrigado a ir, porque esse é o único jeito de sair do seu país (hint hint). Eu só acho o seguinte: acho pouco provável que os médicos estrangeiros fiquem muito tempo lá nos cafundós. Aposto que em breve as grandes cidades estarão cheias deles.

Quanto ao comentário da jornalista que falou que as médicas cubanas têm cara de empregada doméstica, infelizmente ela tem razão. Não sejamos hipócritas – no Brasil, onde nível social e etnia estão indissoluvelmente ligados, onde a elite é branca e onde preto só usa o elevador de serviço, ninguém olha pra uma pessoa de cor e acha que ela é formada em alguma coisa, porque de acordo com as estatísticas ela provavelmente não é mesmo. Com o lance das cotas nas universidades a tendência é isso mudar, felizmente, e espero que em um futuro próximo tenhamos médicos, advogados, engenheiros, professores universitários, jornalistas, designers negros em número suficiente pra que a sua própria existência não nos surpreenda mais. Ainda não chegamos nesse nível, mas acredito que em breve estaremos lá. Por enquanto, acho que uma coisa positiva da vinda dos médicos cubanos vai ser fazer a gente pensar no porquê de preto, no Brasil, ser sinônimo de pobre. De repente isso ajuda a mudar alguma coisa, ajuda a ficha cair, ainda mais considerando o contexto atual de manifestações e de saco cheio generalizado.

(Parênteses pra lembrar do espanto dos pacientes do Gaffrée ao serem atendidos pelo Hamilton, nosso colega angolano que passou no vestibular no Brasil, andava alinhadíssimo e era um verdadeiro lord. O impacto inicial com os pacientes era meio estranho mas ele era de uma gentileza ímpar e todos gostavam dele. Não me lembro do sobrenome pra procurá-lo no FB, infelizmente).

Muito tem se falado também sobre o corporativismo dos médicos com relação ao Ato Médico. Que querem manter o poder, que se sentem superiores e coisa e tal. Vamos fazer um pouco de matemática juntos então: pra se formar em medicina no Brasil é necessário superar um vestibular absurdamente difícil (vamos deixar de lado o fato de que vestibular é uma coisa idiota, mas é o que temos pra hoje) que dá uma bela filtrada, dar plantão por fora pra aprender na prática, fazer 6 anos puxados e mais 2 ou mais de especialização, ganhando uma ninharia e ralando que nem um corno (eu não me especializei mas todos os meus amigos comeram o pão que o diabo amassou durante residências em várias especialidades diferentes). Outros profissionais de saúde enfrentam vestibulares fáceis e fazem cursos mais curtos e menos puxados. Quem você acha que é mais preparado? Quem estudou mais ou quem estudou menos? O que eu lia de barbaridade escrita por enfermeira no meu hospital-escola não tá no gibi. Claro que há médicos incompetentes, mas se uma pessoa que estudou esses anos todos pode sair um profissional ruim, imagine quem estudou a metade disso. Minha experiência real dentro da medicina foi curta, mas naqueles 4 anos de hospital (os 2 primeiros são teóricos) eu vi o suficiente pra nunca querer ser diagnosticada por outro profissional de saúde que não seja um médico, e mesmo assim olhe lá. Vejam bem, não é questão do médico ser ótimo e os outros uns merdas, é uma questão de um sistema educacional que é simplesmente um cu. Num país decente, todos os profissionais de saúde teriam ótima formação e poderiam perfeitamente dividir poder e responsabilidades. Não sou contra o Ato Médico a priori; sou contra o Ato Médico no Brasil, onde delegar poderes desse nível a quem não teve a oportunidade de se preparar pra isso, porque o sistema educacional é um cu, é ideia de jerico. Vai dar muita merda isso aí. Geral iatrogenia, uhuuuu.

Uma vez paramos pra abastecer em um daqueles plazas ao longo da estrada, aqui na Itália. Descemos do carro pra esticar as pernas e vimos uma placa – oficial, não improvisada – avisando pra não comprar objetos dos vendedores ambulantes porque costumam ser itens roubados. Na hora pensei: então assim, a solução deles pro problema dos roubos é avisar pra neguinho não comprar? O certo não seria IMPEDIR AS PORRAS DOS ROUBOS? Essa solução de importar médicos, a meu ver, segue essa linha de raciocínio. Porque o problema certamente não é falta de médicos nos cafundós, é o fato de que os cafundós são tão cafundós, e as verbas são tão desviadas, que ninguém quer ir pra lá. E aí você resolve importando médicos? Isso é solução desde quando? Pra mim isso é que nem botar placa avisando que uma estrada é esburacada, em vez de TAMPAR AS PORRAS DOS BURACOS. Ah, sim, mas a necessidade de médicos nos cafundós é urgente, urgentíssima, então tem que tapar o buraco de alguma maneira antes de resolver a causa do problema – não é urgente urgentíssima porque a situação lá pra cima sempre foi precária, e com a presença de médicos importados aí sim é que nada vai mudar mesmo. Colocada a placa, considera-se o problema resolvido, deixam-se os buracos, e os desavisados que se desviem. Legal, né.

A solução pra TO-DOS os problemas do Brasil é uma só: NEGUINHO PARAR DE ROUBAR. Porque não adianta o governo federal mandar verba que depois some. Vou desenhar, mesmo sendo repetitiva: o problema não é faltar médico que queira ir pros cafundós, o problema é a existência dos cafundós. Não deveriam existir cafundós, entenderam a diferença? É só por isso que sou contra a vinda dos médicos, cubanos ou de onde quer que sejam: não vão resolver o problema PORQUE O PROBLEMA NÃO É FALTA DE MÉDICOS, O PROBLEMA É QUE NEGUINHO ROUBA TANTO QUE TUDO QUE NÃO SEJA RIO E SP VIRA UM CAFUNDÓ DO JUDAS. Vai acabar o programa e aí? E aí? Resolveu-se o quê? E mesmo enquanto o programa estiver rolando, vai haver alguma providência anti-cafundó, na opinião de vocês? Ou será que os prefeitos, deputados, governadores ladrões, responsáveis pelo cafundosismo dos lugares que administram, vão considerar a vinda dos médicos importados como as placas avisando sobre os buracos, uma desculpa pra continuar não fazendo o que precisa ser feito? Algo me diz que a segunda opção é mais provável.

a jmj, o papa, os capiau, a praia

Vocês tão carecas de saber que eu detesto esse papa. Aliás, detesto todos; quem é “pope material” já sai com vários pontos negativos no meu conceito. Sabem também que acho o fim da picada a gente pagar pra esse velho de saia vir pra cá. Sim, tem seus lados positivos – o pessoal que vem costuma ser tranquilo, os ambulantes fodidos vão vender mais, talvez role uma discreta esquentada no comércio, pode ser que muitos desses visitantes de apaixonem pela cidade (porque vamos combinar, quem nunca, né?) e voltem outras vezes, enfim. Mas acho a despesa grande demais pra uma idiotice idem, e nem adianta dizer que a despesa é grande por causa da Mamação da Coisa Pública onipresente e tipicamente brasileira; o governo não poderia, na minha opinião, pagar nem meia mariola pra esse marketeiro que não paga imposto. Mas não era disso que eu queria falar.

A cidade está cheia de gente vindo pra essa JMJ. Todos com aquelas mochilinhas vagabundas verdes, amarelas ou azuis, com garrafa-saquinho de água pendurada na mochila com mosquetão, com caras simpáticas e boazinhas, muitos com aquele olhar pasmaceiro de quem nunca teve uma ideia original na vida e tem o Q.I. médio de uma uva sem caroço mas é feliz assim, então bom pra eles. Já dei informações pra alguns deles nas ruas, e tive sempre a impressão de que não são só jovens, são incrivelmente infantis. Minha impressão foi confirmada agora na praia, de onde acabei de voltar com a Carol. Bem na minha frente tinha um grupo bem grande de jovens, acredito eu já na casa dos 20, com jeito de criança de 12. Meninas altas, magras, bonitas, algumas bem branquelas, de sutiã de biquini e SHORT dentro d’água pulando desengonçadérrimas que nem a minha filha, que não tem nem 5 anos. Uma delas entrou de óculos de grau na água. Não vou dizer que fiquei com pena, porque elas estavam claramente se divertindo horrores, mas que foi engraçado foi.

considerações academico-ginasticais

Não sou uma esportista. Nunca fui. Mesmo quando estou fazendo um exercício do qual eu gosto, como Les Mills Combat ou spinning; mesmo lembrando de como me sinto bem depois do exercício, quando as endorfinas invadem a corrente sanguínea; mesmo sabendo que se eu não malhasse estaria mais gorda ainda; mesmo adorando sentir os músculos dos braços ficando mais fortes; mesmo curtindo a dor muscular do dia seguinte, quando mal consigo sentar pra fazer xixi ou levantar os braços pra prender o cabelo de tanto ferro que puxei; mesmo assim, se você me perguntar se eu preferiria estar fazendo outra coisa em vez de malhar, eu vou responder com duas páginas de coisas que considero mais aprazíveis. Mas não tem jeito, então eu malho.

As vantagens de se exercitar em casa são múltiplas. Primeiramente, não tem espelho. Segundo, malho na hora em que quiser (o que também é uma desvantagem, porque a tentação de deixar pra depois é muito grande). Terceiro, posso malhar de top e short (eu suo muito pouco, então MORRO de calor) em vez de bermuda e camiseta. Quarto, é muito mais barato. As desvantagens, bastante óbvias, são a necessidade de ter disciplina, a possibilidade de se machucar fazendo movimentos errados por não ter ninguém pra te corrigir (mas eu tenho ótima propriocepção e conhecimentos anatômicos razoáveis; nunca me machuquei), a ausência de socialização, que pra mim é a pior parte porque eu tenho meus momentos de eremita mas adoro bater papo.

Cheguei a frequentar academia na Itália, no meu primeiro ano lá. A academia mais famosa de Perugia, pertinho da estação de onde eu depois pegava o trem pra Santa Maria, dava desconto pra quem estudava na Università per Stranieri, e aproveitei por alguns meses. Depois nunca mais fiz, malho em casa desde então. Mas quando venho ao Rio me matriculo e vou pra academia, pra fazer coisas que em casa não posso ou não tenho saco – spinning, ioga, alongamento. Não faço step, que eu adoro, porque na minha filial não tem. E ainda não consegui fazer muay thai porque o horário é ruim pra mim, mas gostaria de pelo menos experimentar. O pessoal da Proforma é ótimo, as aulas são todas boas, os professores são uns a-mo-res, a estrutura é ótima. E até o ambiente de ratos de academia, que costuma irritar muita gente, me faz dar muitas risadas. Porque academia é que nem homem: é tudo igual, só muda o endereço, né. Os personagens se repetem num esquema praticamente shakespereano: tem o cara que urra a cada repetição na musculação, tem a piriguete que usa aqueles leotards medonhos da Kitanga, tem as velhas que MORAM na academia (normalmente fazem localizada, com caneleiras do peso de um rottweiler enroladas nos tornozelos), são íntimas dos professores e contam as repetições pra eles, tem os gordos que quando sobem na bicicleta os outros acham que vão pedalar dois minutos e cair estrebuchando no chão com insuficiência cardíaca mas que fazem tudo direitinho (essa sou eu), tem os adolescentes magrelos com a franja penteada pra frente que levantam pesos tamanho cotonete na esperança de ganhar corpo, tem os megamarombeiros que se alimentam praticamente de Amino 2222 e mais nada, tem velhos coroquérrimos que chegam se arrastando na academia mas todo dia estão cedinho lá puxando seus ferrinhos pra se manter de pé (na minha turma de spinning tem uma senhora de trocentos anos que vai de sapatilha especial pra spinning e pendura os oclinhos no guidon, botando-os nos olhos de vez em quando pra conferir o Polar; sensacional).

A fauna dos professores também segue um certo padrão: tem o professor que dá aula de localizada há anos pras mesmas velhas ressequidas e se comunica por código porque todo mundo já sabe a aula de cor, tem o pessoal da musculação que passa corrigindo os alunos que malham sozinhos e só falam de futebol, tem a personal que pariu anteontem e hoje já tá toda sequinha chicoteando a aluna que faz abdominal no BOSU, tem os entediados que ficam na sala de cardio sem fazer nada espiando as telas das alunas que fazem transport vendo Friends, tem sempre um professor velho destrambelhado ex-alguma coisa e grosseiro que dá a mesma aula há anos mas que todo mundo adora (no caso da minha academia, esse é o Juca, ex-professor de balé clássico que dá uma aula sem pé nem cabeça muito legal com um monte de exercícios de balé misturados com música francesa). Eu me divirto horrores e se deixar passo o dia na academia. Atualmente faço musculação cedo segundas, quartas e sextas, imediatamente seguida de spinning com o Fred, aula ótima com trilha sonora muito boa; às terças e quintas, spinning com o Fabão quando dá tempo, depois da natação da Carol, e ioga maravilhosa com a Bernadete seguida de alongamento mágico com a Lara à noite. Volto pra casa dormindo em pé de tão relaxada, e minha flexibilidade, que sempre foi boa, melhorou horrores. Só não perco peso, mas isso é um detalhe.

Mas as perguntas que não querem calar são: por que, ó céus, a pessoa entra na sala de spinning e vai direto sentar na ÚLTIMA bicicleta lá do fundo? Por que a pessoa passa a aula inteira no seu próprio ritmo, ignorando a música e as instruções do professor, e nunca volta pro banco? Se é pra fazer como lhe dá na telha, por que diabos não compra uma bicicleta e malha sozinha em casa? Por que, ó céus, ainda tem gente que insiste no maldito meião até o joelho? Por que, meldels, ainda tem mulher que malha de cabelo solto? (felizmente são poucas, pra ser sincera, mas me dão um nervoso indescritível). Por quê? Por quêeeeee?

barba ensopada de sangue

Várias pessoas me recomendaram esse livro, nem lembro mais de todas, então agradeço coletivamente. O livro é muito legal, escrito de um jeito muito diferente. Altamente recomendado. Ah, é do Daniel Galera.

***

Velho, tu tá obcecado com essa história de renascimento. Vira o disco. Por que é tão importante pra ti saber se existe renascimento?

É importante saber que não existe. Todo o resto parece certo pra mim, mas esse detalhe estraga tudo.

Escuta, nadador. A questão do renascimento nem é muito importante no budismo original. Rolavam altas macumbas no Tibete quando o budismo caiu lá de paraquedas e uma parte da doideira ficou. Mas não é como a reencarnação kardecista. Se tu entende que uma pessoa é só uma aglomeração dinâmica de estados mentais, a ideia de uma alma que pode reencarnar deixa de fazer sentido. O que renasce, arredondando de um jeito grosseiro pra tu entender, são esses estados mentais, que seguem em frente e se recombinam até certo ponto. Assim como teu corpo alimenta plantas e vermes se tu for enterrado no chão. Assim como os átomos do teu corpo são poeira de estrelas.

Os átomos do meu corpo podem ser poeira de estrelas, mas isso não quer dizer que há estrelas em mim.

Parem de falar como hippies.

Entendeu o que eu quero dizer, Bonobo? A estrela morreu, eu vou morrer. Não faz diferença. Os átomos não eram dela. Meus estados mentais não são meus. E que porra é essa de mente? Acho que é só um jeito espertinho de acreditar em alma. É o restinho da permanência que os budistas guardam embaixo da cama.

Criamos um monstro, Bife.

Eu avisei antes. O ideal é nem começar.

A vida não pode continuar depois da morte. Não pode. Seria ridículo. Se provarem que continua eu me mato.

Mas aí não ia adiantar.

Tu é uma peça mesmo. O desgraçado mais cético que eu já vi.

Não sou cético. Só não acredito em qualquer coisa.

Se Deus existisse ele ia se divertir contigo.

Leopoldo ergue a garrafa de vidro e soluça.

Um brinde à crença apaixonada de que nada disso aí existe.

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Mas minha parte preferida foi a que me fez ter um ataque de riso na escola de dança da Carol. É meio longuinho mas vale a pena.

***

(…) Beta começa a latir para o Bonobo. Depois de uma dúzia de latidos ela para com a mesma falta de motivo com que havia começado, lambe os dentes, olha em volta como se também estivesse positivamente surpresa consigo mesma e senta no tapete. O Bonobo diz que ela está feliz. Ele também acha. Estão enrolando as palavras e desistindo de frases no meio do caminho. Escuta com clareza o que pretende dizer dentro da cabeça mas a boca deforma as palavras na hora de enunciá-las. Por um longo período ficam em silêncio, deixam a cachaça de lado, apenas olham o mar escuro e a praia iluminada e escutam a trilha sonora épica e os efeitos sonoros violentos do jogo eletrônico no quarto ao lado. Tem a sensação de que esse instante se prolongará indefinidamente, que nada mais acontecerá, como se o mundo tivesse atingido alguma espécie de estado final na cena insignificante que estão protagonizando. O Bonobo pergunta com a voz baixa e circunspecta se ele também está sentindo aquilo. Ele pergunta aquilo o quê. Não tá sentindo nada diferente mesmo?, o Bonobo insiste com o indicador esticado como uma antena e o olhar oblíquo de quem está atento a algum fenômeno muito sutil. Ele presta atenção mas não capta nada além do rumor das ondas, a palpitação de suas têmporas, o espaço girando sob o efeito da bebida. E de repente ele sente. O fedor mais horrendo que já sentiu na vida, uma pestilência quase pastosa de metano concentrado que o faz engasgar no meio da tentativa de gritar um palavrão. O Bonobo gargalha, desmonta da janela com um salto mortal incompleto, bebe um gole da cachaça e faz uma dancinha com a garrafa na mão berrando Peido radioativo rapaziada, vambora! A vida é uma life e a night é uma baby! Ele foge para o banheiro, mija e depois lava o rosto tentando se recuperar do efeito do gás nauseabundo.

Tu tá podre por dentro, Bonobo.

Eu tô é pronto. Vamo pra festa.

Ele ri até perceber que o Bonobo tá falando sério.

Tem uma festinha no Rosa que deve tá começando a ficar animada agora mesmo. Fechamento de temporada de um sushi bar que fica ali perto da pousada. Vamos voltar pro quiosque e pegar o meu carro.

Tu tem carro?

Tenho. Bora. Chama o Altair ali.

Descobrem que Altair desmaiou com o controle do video game nas mãos. Está meio sentado e meio deitado entre a parede e o piso de azulejos castanhos com o jogo travado na tela de Continue?. Tentam acordá-lo sem sucesso. Derramam um copo d’água na sua cabeça. O Bonobo dá uns tapas no seu rosto. Altair não dá sinal nenhum de que possa despertar. Decidem deixá-lo no apartamento, deitado de lado em cima do tapete do quarto, com a chave reserva bem à vista na mesa da sala. Troca de camiseta e tranca as persianas enquanto o Bonobo tenta contatar pessoas no celular. Tem umas amigas minhas que iam pra lá, diz. As amigas não atendem. Outro conhecido atende e diz que o pessoal tá chegando. Tá começando a esquentar. Ele deixa Beta sair e tranca a porta por fora. Andam a passos largos pela trilha e depois pela areia. Dessa vez as gaivotas em repouso saem correndo em direção à água e algumas levantam voo. O Bonobo olha por cima do ombro.

Tu viu que a tua cachorra saiu junto? Ela tá nos seguindo.

Nem fudendo eu ia deixar ela trancada lá com o Altair.

Já passa da meia-noite e a cidade está vazia. Caminham por cima da faixa central da avenida até a esquina do quiosque de Altair. O Bonobo entra no terreno chutando as latinhas vazias e dando pulinhos.

O que tu foi fazer aí, ô sequelado? Cadê teu carro?

O Bonobo se aproxima da carcaça do Fusca e começa a forçar a maçaneta.

Não é possível.

Quê?

Isso é o teu carro?

Sim. É o Tétano.

Esse troço anda? Achei que era ferro-velho.

Anda pra caralho. Só toma cuidado quando entrar.

O Bonobo consegue abrir a porta do motorista e se acomoda no banco. Ele dá a volta no Fusca e fica espremido entre o carro e o muro tentando abrir a porta do lado do passageiro. A maçaneta corroída precisa ser pressionada de um jeito bem certinho para acionar o mecanismo. A lataria está coberta de padrões fractais de ferrugem e tinta bege descascada. Do teto se projetam as duas forquilhas enormes de um suporte de bagagem capaz de acomodar um barco pequeno. Há furos e arestas pontiagudas por toda parte. Os pneus estão tortos, carecas e meio vazios. Entra com cuidado, tentando não se cortar. Do assento do banco do passageiro resta apenas uma armação de hastes de ferro maleáveis coberta por almofadas velhas e um papelão dobrado. O encosto de espuma mole está relativamente intacto. Em cima do painel há uma estatueta dourada de um buda sentado com um sorrisinho no canto da boca e lóbulos da orelha hipertrofiados caindo sobre os ombros. Assobia para Beta. A cachorra contorna o carro e sobe no colo dele com um salto. Ele a afaga, elogia sua disposição e a acomoda no banco traseiro, que está coberto por uma canga de praia do Grêmio. Vê a bateria acomodada atrás do banco do motorista no meio de um emaranhado barroco de fios elétricos. O Bonobo gira a chave na ignição. O motor do Fusca dá uma risada.

Demora um pouco pra pegar, mas depois que pega não apaga.

Na quarta tentativa o motor pega. O Bonobo acelera fundo e produz um ronco escandaloso até obter um par de explosões no escapamento.

Pega o meu tapa-olho ali no porta-luvas por favor.

Meu o quê.

Meu tapa-olho.

Abre o porta-luvas e encontra um tapa-olho feito de pano e elástico preto no meio de uma barafunda de lenços de papel usados, cartões, barras de parafina, camisinhas, uma estopa encardida, uns óculos de sol quebrados. O Bonobo pega o tapa-olho e o ajusta em volta da cabeça e em cima do olho direito.

É pra não enxergar duplo.

Somente então ele engata a primeira. O carro anda. O capim e os destroços do quiosque raspam no fundo. A sensação é de estar viajando dentro do próprio motor. Saem de Garopaba pela estrada estadual. Um carro cruza no sentido oposto e o asfalto iluminado surge sob seus pés através de um buraco no piso. O Bonobo ziguezagueia levemente na pista mas levando em conta seu estágio de embriaguez e o estado do veículo ele até que dirige de maneira reconfortante, compenetrado, em velocidade moderada, com a vista limitada pelo absurdo tapa-olho e debruçado sobre o pequeno volante de forma a quase encostar o nariz simiesco no para-brisa. Criaturas como uma vaca ou um ciclista ganham vida num clarão e voltam a ser assombrações quase no mesmo instante. Entram à esquerda no acesso da praia do Rosa. É necessário parar o Fusca quase totalmente para transpor os quebra-molas. O calçamento plano de lajotas dá lugar às ladeiras de chão batido. A embreagem do Fusca não retorna sozinha à posição normal depois de acionada. Para lidar com o problema o Bonobo amarrou um pedaço de corda de varal azul ao pedal e ao puxador da porta. A operação de tirar a mão esquerda do volante e puxar a corda no momento exato após cada troca de marcha é complicada e exige um tanto de ginga e sincronia. Nas manobras mais complexas o motorista lembra um titereiro controlando o boneco de um automóvel.

saúde na bota

Felizmente aqui em casa quase não ficamos doentes, mas pra quem precisa de atendimento médico sério a coisa deve ser muito, muito complicada. Vou contar a saga do otorrino pra vocês terem uma ideia de como anda a situation por aqui.

Apesar de ficarmos doente menos frequentemente do que todos os nossos amigos, esse ano o inverno foi longo e muito frio, todo mundo passou meses enfurnado em casa (e ainda estamos; 15 graus hoje, chovendo) e a TODO MUNDO ficou doente. Na escola da Carol passamos dez dias com metade dos alunos em casa com febre, as duas professoras E a assistente doentes também – em duas ocasiões diferentes. Na natação a turma dela se reduziu à metade. Enfim, um horror. E desde o final do ano passado que toda vez que ela fica resfriada e encatarradésima, fica completamente surda. Otite mesmo só rolou uma vez esse ano, felizmente, mas ela estava surda direto praticamente desde janeiro, quando começaram as ondas virais e bacterianas na escola, depois das férias de fim de ano. Sabemos que quando o catarro vai embora a audição volta, mas como foram muitos meses seguidos (e eu não aguentava mais ter que falar tudo gritando. ODEIO ODEIO ODEIO ODEIO ODEIO gente que berra), resolvemos procurar um otorrino pra avaliar melhor.

O procedimento pra pedir consulta com especialista é o mesmo em toda a Europa, creio: primeiro você tem que passar pelo seu médico de família, que costuma ser uma anta, ele faz o pedido num papelzinho especial e você vai nas agências do SUS (ou em algumas farmácias, no caso da Itália) e reserva. Então fomos à pediatra da Carol, que atende pelo SUS e é muito boa mas está sempre entupida de pacientes. A secretária nos encaixou na hora do almoço da médica juntamente com outras SEIS crianças, todas marcadas no mesmo horário e atendidas por ordem de telefonema. Logicamente a pediatra estava com um mau humor fenomenal, totalmente compreensível dada a situação, e nos atendeu à base de patadas, mas fez o raio do pedido. O Mirco foi direto à farmácia onde compramos todos os remédios desde que a Carol nasceu, porque é em frente à oficina dele, e tentou marcar a consulta. Data: SETEMBRO. Oi? Liguei pro departamento de otorrino do hospital de Perugia, porque o de Assis está fechando e não tem mais quase nada funcionando, e perguntei se tinha pronto-socorro de otorrino, porque aí eu aproveitava que ela estava com dor e entupida de catarro até a alma pra ter uma justificativa pra levá-la pro PS. Não, senhora, não há mais PS de otorrino. Puxa, mas só tem vaga pra consulta em setembro, eu precisava agora. Então pode marcar com o sistema Intramenia, senhora; tem vaga segunda que vem com o chefe do serviço, são 120 euros. Marquei.

O tal sistema Intramenia nada mais é do que uma maneira de evitar a evasão fiscal. Os médicos filhos da puta atendem poucos pacientes por dia e desviam os outros pros consultórios particulares, onde atendem sem nota fiscal; o hospital se prontifica a ceder sala e equipamentos e ganha uma parte desses 120 euros, que o médico tem que declarar porque o paciente paga no caixa no hospital. Todo mundo ganha, menos o paciente, como os dois manés aqui, que ou desembolsavam essa grana ou esperavam até SETEMBRO pra conseguir a porra da consulta. O problema é que a Umbria tem tipo quatro habitantes. Não, sério, a densidade demográfica aqui é baixíssima, o hospital de Perugia acabou de ser todo reformado e aumentado, e mesmo assim faltam leitos, falta pessoal e você só consegue consulta quando o cometa Halley passar de novo. Puta que pariu.

Muito bem. A consulta estava marcada pras 15:40 de hoje. Lá fomos nós voados de casa depois da escola pra chegar no hospital às 15. Demos uma mega cagada e conseguimos estacionar logo de cara, uma raridade porque o estacionamento é completamente subproporcional pro tamanho do hospital e neguinho estaciona em fila dupla, tripla, em cima dos canteiros, na baia do ônibus, numa fila central imaginária no meio das alamedas do estacionamento… Não sabíamos se tínhamos que passar no CUP (o caixa) antes, porque não tínhamos nenhum papel na mão pra comprovar a marcação, já que foi feita por telefone e não envolve nenhum número de protocolo nem nada. Resolvemos passar no CUP pra perguntar, disseram que era lá mesmo. Chegamos no caixa e a mulher não encontrou a Carol porque pelo telefone eu passei o sobrenome do Mirco, mais fácil de soletrar, mas no documento novo constam os meus sobrenomes também. Obviamente a mulher não foi capaz de extrapolar que o nome era sempre Carolina, logo deveria ser a mesma pessoa, e ligou lá pra otorrino pra perguntar. Depois de uma discussão meio longa, ela entendeu o que tinha acontecido e fez tudo direitinho, nos dando quatro páginas A4 impressas – duas cópias da fatura e duas que até agora não entendi pra que servem mas de qualquer forma são um desperdício ridículo de papel.

Agora a coisa começa a esquentar, prestem atenção. Quando marquei a consulta no telefone a moça falou pra ir pro bloco C, quarto andar, mas a mulher do CUP nos mandou pra aceitação (a.k.a. triagem) da otorrino, do outro lado do hospital (que é MONSTRUOSAMENTE GRANDE). Lá fomos nós pra aceitação, onde a mulherzinha nos olhou como se fôssemos alienígenas porque paciente marcado com Intramenia não passa pela aceitação e é atendido em outro lugar, não na enfermaria de otorrino onde a mulher do CUP falou, mas no corredor dos consultórios médicos no tal bloco C. Lá vamos nós procurar o tal bloco (a mulher no telefone tinha razão, afinal de contas). Olha que genial: em vários dos blocos os andares não se comunicam diretamente, você tem que mudar de bloco pra pegar o elevador ou as escadas pro andar que você quer. Legal, né? Andamos pelo hospital por QUINZE MINUTOS procurando a merda do bloco C, até que uma alma caridosa, um enfermeiro manco com um sotaque hediondo de Perugia, se ofereceu pra nos levar até lá, pois era mais ou menos pra onde ele estava indo mesmo. Chegamos no bloco e pegamos o elevador até o quarto andar, mas demos de cara com uma placa que dizia “Hemoterapia” e mais nada. Sai uma enfermeira do corredor, perguntamos onde fica a otorrino e ela não tem a menor ideia. Descemos de novo, perguntamos pra outra pessoa, pegamos outro elevador e fomos parar no bloco certo. Vimos um corredor com a placa “Consultórios Médicos” e saímos procurando a sala do chefe da otorrino. Como o conceito de recepcionista aqui é completamente desconhecido, você tem que sair perguntando pras pessoas nos corredores ou batendo nas portas feito um mendigo, até acertar; na sala marcada como secretaria de otorrino ninguém atendeu, mas ao bater na sala do chefe do serviço ele respondeu que era pra esperar um minutinho. A essa hora estávamos dez minutos atrasados de tanto rodar pelo hospital, mas beleza, o cara tá atendendo outro paciente, esperemos. A Carol vira pra mim e pede pra fazer xixi, com aquele timing maravilhoso que criança tem. Vou procurar um banheiro e vejo a placa: “banheiros públicos somente no andar térreo”. Pra não errar de elevador (eram 4, dispostos em cruz nesse encontro de corredores onde estávamos), descemos de escada. Não encontro o banheiro normal, só o de deficientes físicos, que tem aquela privada esquisita rebaixada na frente. Carol se molhou toda de xixi, a descarga estava quebrada e não tinha sabão nem papel pra secar as mãos; fomos de álcool gel mesmo.

Na volta arrisquei o elevador. Apertei o 4 mas ele parou no 3; como ninguém entrou, eu, com pressa, achei que já fosse o 4. Desci e não achei a merda do corredor dos consultórios médicos, acabei entrando na enfermaria de ortopedia, de onde fui sumariamente enxotada. Subimos até o quarto andar de escada e depois de um breve momento de desorientação, localizei o Mirco, que estava parado na porta do consultório. O médico tinha feito ele entrar e depois desceu pra resolver sei lá o quê não sei onde. A essa altura do campeonato já eram 17:10. Uma moça com o filho adolescente para na porta aberta e pergunta se esse é o consultório do Doutor Tal; respondemos que sim e ela FINALMENTE! Estou rodando há meia hora! Agora nem me importa ter que esperar, pelo menos sei que estou no lugar certo!

O médico aparece uns 10 minutos depois e bota os fones no ouvido da Carol pra fazer a audiometria, explicando igual à cara dele o que ela precisa fazer. Ela, que quando liga a modalidade Mega Timidez Ultra Plus fica esfregando os olhos e não fala absolutamente nada, não respondeu. A tentativa dele durou dez segundos; desistiu dizendo “ela não coopera, vamos fazer uma timpanometria” e ligou pro ambulatório pra ver se tinha algum técnico livre. Explicou onde ficava a maldita da sala da timpanometria e lá fomos nós.

O elevador que ele mandou pegar não estava funcionando. Pegamos outro, mas saímos em outro lado e as instruções que ele deu não valiam mais. Saímos de novo perguntando feito dois retardados, erramos o caminho três vezes mas finalmente achamos a sala. A técnica foi muito simpática e fez o exame rapidinho. Erramos o caminho mais uma vez pra voltar (OK, somos meio geograficamente tapados) e quando chegamos o médico estava atendendo a mãe do adolescente. Esperamos mais um pouco, entramos, conversamos cinco minutos e fomos embora. (Tudo OK com o zovido, por sinal).

Isso tudo nos custou 120 euros e a aula de dança da Carol, que perdemos – não teríamos perdido se tivéssemos encontrado logo o consultório, se ele não tivesse feito a gente esperar, se tivesse banheiro em todos os andares, se ele tivesse tido um pouco de paciência com a Carol e tivesse conseguido fazer a audiometria lá mesmo.

***

A avó do Mirco morreu há um mês. Estava senil mas fisicamente OK. Acordou com falta de ar; quando cheguei lá ela já estava sendo descida das escadas pra entrar na ambulância. A médica disse pra gente torcer pra ela não precisar ser internada, porque não havia leito em lugar nenhum, o mais próximo disponível era em Città della Pieve, longe PRA CACETE, lá nas montanhas, depois de uma estrada cheia de curvas onde é impossível ultrapassar morrinha e que fica intransitável quando neva. Vou repetir: não tinha leito nem em Foligno, que é um hospital novinho em folha (onde a Carol nasceu), nem em Perugia, que é GIGANTESCO e foi reformado há coisa de dois anos. Pode isso, Arnaldo?

dom quixote

Como de hábito depois da última terça-feira do mês, aqui vai meu parecer sobre o balé da noite anterior, assistido no cinema. Como não interessa a ninguém, é mais um diarinho pra mim mesma, pra não esquecer.

- Nunca tinha assistido antes. É um balé muito alegre, não há adágios, os pas de deux são poucos, breves e alegres, tem muita pantomima, poucos tutus e coreografia muito interessante.

- Figurinos bonitos, mas continuo achando o Bolshoi bem inferior ao Mariinsky, ao Royal Ballet, ao La Scala, ao Opéra de Paris nesse quesito. Entendo o uso dos tons quentes, mas chega uma hora que cansa.

- A Osipova é a coisa mais deliciosa do mundo de assistir, parece ter nascido pro papel de Kitri (e funciona muito bem como Copélia também), embora não consiga imaginá-la em papéis mais dramáticos. Não é esquelética, é muito expressiva, tem ótima extensão e putaquepariu como salta! A entrada dela em cena no primeiro ato é de matar de felicidade.

- O Vasiliev, que faz o Basilio, é MUITO bom, mas é microscópico e desproporcional, com coxas excessivas. Não é o rei do ballon mas salta muito bem, arrancou muitos aplausos da plateia (inclusive de nós poucos gatos pingados no cinema).

- A história é completamente sem pé nem cabeça e Dom Quixote aparece só como elemento de conexão entre os atos, mas foi uma experiência interessante. Não foi paixão amor eterno fulminante à primeira vista como La Bayadère ou Le Corsaire, balés que eu saí do cinema e encostei na parede ali mesmo pra comprar o DVD imediatamente pela Amazon porque pre-ci-sa-va ver de novo. Mas é muito alegre, tecnicamente interessantíssimo de ver porque as coreografias são rapidíssimas, cheias de saltos e muito diferentes dos balés mais tradicionais, não há um ato de ballet blanc, a música é bem diferente também. Gostei.

- As cenas dos bastidores são sempre ótimas. Aprendo um monte de coisas sobre o balé e sobre o Bolshoi – por exemplo, é a única escola de dança que tem a matéria Danças Características, de modo que os bailarinos aprendem danças típicas do mundo inteiro. Ver os bailarinos se aquecendo com moletom e Uggs por cima dos tutus e das sapatilhas de ponta é muito engraçado; o espetáculo abriu com o Gamache todo paramentado vestido de rico bebendo água de um bebedouro no corredor enquanto uma bailarina chegava de jeans e bota. O público no teatro pediu tanto bis que chegou uma hora que a Osipova, por trás da cortina, fez com a cabeça uma cara de “não, chega, pelamordedeus, num guento mais”. Aliás, ela é um amor, mas parece que usa dentadura ou aparelho fixo na arcada superior, fica fazendo um negócio estranho com a boca como que pra esconder os dentões com o lábio.

- Mês que vem tem La Bayadère, que espero que seja com a Zakharova. Já sei o balé de cor e a Carol também adora (principalmente a parte da cobra), mas eu só tenho a versão do La Scala e parece que a do Bolshoi é bem diferente. Mal posso esperar :)

“haters gonna hate”, my ass

Vocês sabem que eu adoro a Chalene. Adoro como fitness instructor; acho-a ótima motivadora, os programas dela são deliciosos de fazer, as músicas são maneiras. Mas desde que ela passou a se concentrar mais no mundo da auto-ajuda, ficou insuportável. Diz minha amiga americana que agora nos Turbo Camps (que mudaram de nome e viraram Camp Do More, bem focalizados nas palestras de auto-ajuda mesmo e muito menos na malhação) ela cobra até pra tirar foto, e que anda com dois guarda-costas, como se fosse o Tony Stark. Sigo a mulher no Instagram porque ela posta fotos ótimas de exercícios diferentes, de comidas, de roupas. Mas com esse lance de investir na motivação, nessa palhaçada de que é só querer que você consegue tudo e que a gente tem que melhorar o tempo todo e coisa e tal (estou lendo um livro ótimo sobre isso, falarei dele em outro post), ela criou um culto à personalidade que chega a ser assustador. TU-DO o que a mulher posta – QUALQUER COISA – gera instantaneamente uma infinidade de comentários mais ou menos desse teor: “OMG I SO WANT THAT!”, “OMG that’s gorgeous!” “OMG you’re gorgeous!” “OMG you’re my inspiration I want to be like you so much it hurts”, “OMG that’s ab fab!”. Mas sabe TU-DO? Ela pode postar uma foto de um copo de shake de proteína com um canudo que neguinho pergunta onde ela comprou o copo, o canudo, o shake e se bobear o guardanapo também. E ainda pedem link pro aplicativo que ela usou pra editar a foto. Um dia ela postou uma foto dela com a melhor amiga, uma feia que nem a fome (de origem colombiana, tem bem aquela cara de asteca mesmo) mas engraçadíssima, usando roupas parecidas e tamancos anabela gi-gan-tes-cos. Imediatamente neguinho começa: “OMG I want those wedges!” “OMG where did you get those?” e por aí vai. Eu, que gosto muito das roupas, bolsas e jóias que ela posta mas tenho pavor do cabelão B-52′s que ela usa e mais pavor ainda de plataforma, dei um like mas comentei que pra mim plataforma = drag queen. Aaaaaaaaaaaaaaaaaah, pra quê. “Don’t you listen to her, haters gonna hate!”. “She’s envious of your bod Chalene!”. “Jesus will forgive you anyway hun!”.

A mesma amiga americana que me apresentou aos programas da Chalene é a pessoa que mais complica a própria vida que eu já conheci. Atualmente ela se encontra em uma baita sinuca de bico porque largou o emprego antigo, começou a trabalhar com outra empresa que exigiu que ela se mudasse pra Califórnia e logo depois a demitiu, e agora está desempregada, com problemas de saúde, sem seguro, sem um puto no bolso, com o leasing da casa feito junto com a namorada dela, uma louca que recebe como inválida porque é mentalmente instável. Enfim. Um dia ela diz que adotou um segundo gato. Fiquei quieta. Depois comprou um Yorkshire. Fiquei quieta. Depois de um tempo, já nessa merda financeira total, ela comenta que precisa cortar o cabelo mas não tem dinheiro porque a porra do cachorro precisa ser tosado. Fico quieta. Uma semana depois ela conta que COMPRARAM outro cachorro. Comentei no thread que quem não tem dinheiro pra cortar o próprio cabelo precisa de tudo nessa vida, menos de outro cachorro. Pronto. Começou o desfile de comentários na linha “haters gonna hate”.

Estava vendo um vídeo de balé no YouTube e lendo os comentários, que costumam ser bem civilizados e muito instrutivos. Dessa vez alguém criticou a bailarina, que no vídeo fazia uns fouetées tortos e desequilibrados, terminando a série praticamente do outro lado do palco. Aí vem logo o idiota da vez respondendo “quero ver você fazer melhor!”. Felizmente o dono da crítica inicial foi educado mas manteve a sua posição de maneira firme. Ora bolas, só porque eu não sou bailarino não sou capaz de entender quando alguém fez um passo errado? Não tem nada de subjetivo no meu comentário; se você observar onde ela começou a girar e onde terminou vai ver que ela viajou um metro inteiro, e isso é um dado objetivo que nada tem a ver com a minha incapacidade ou não de fazer melhor que ela.

Pois então que essa síndrome de haters gonna hate vem me irritando deveras ultimamente. Não se pode criticar nada, não se pode ter uma opinião negativa sobre nada que logo vem alguém mandando você ir lá então fazer melhor. Qualquer crítica que você faz passa a significar que você tem inveja do outro. Qualquer sacode que você dá no amigo que tá fazendo merda vira “energia negativa”. Energia negativa de cu é rola, perdoem-me o galicismo. (Aliás, tem um artigo ótimo sobre essa palhaçada de pensamento positivo que li há alguns anos, vou tentar achar de novo porque vale a pena) Que porre! Como se não bastasse a chatura que virou viajar de avião agora tem essas modas chatonildas também! O mundo tá ficando um lugar muito chato de se morar, vou te contar. Só com muito brigadeiro de panela pra aturar, viu.

you are not so smart

Graças à Lara André, que além de salvar blogs indefesos contra terríveis malwares ainda dá ótimas dicas de livros e posta lindas fotos de bichos, baixei esse livro aqui no Kindle. É simplesmente a coisa mais interessante que já li nos últimos tempos.

Fiz um curso de roteiro cinematográfico com a Newlands há muitas eras glaciais atrás, e destrinchamos O Silêncio dos Inocentes cena por cena, fala por fala, close por close. Nunca mais consegui ver um filme sem fazer esse tipo de análise. Não, não tira a graça da coisa, muito pelo contrário: hoje sou capaz de apreciar de verdade um roteiro bem escrito, de entender como um bom diretor faz diferença, de identificar de maneira mais ou menos certeira de quem é a culpa quando o filme é uma merda.

Um dos meus livros preferidos é Orality and Literacy, que explica, entre muitas outras coisas, como é impossível voltar a pensar como analfabeto depois que você aprende a ler e escrever (falo de ler e escrever direito, não de gente que não entende o que lê e que só sabe escrever o suficiente pra garranchar “pagar ceguro do carro hoge” no calendário). Saber ler e escrever direito muda o seu modo de pensar, e você nunca mais vai conseguir voltar atrás. Não dá pra desaprender a pensar dessa nova maneira; não é possível voltar atrás.

Esse livro também é assim, do tipo que muda paradigmas. Você começa a ver com outros olhos a sua relação com os outros, com a mídia, com as suas próprias emoções. E nunca vai conseguir voltar a ser aquele pobre inocente (leia-se otário) de antes, porque quando o seu cérebro sabe que está sendo enganado, o engano acaba. Não sei se estou conseguindo me explicar direito, mas leiam porque é MUITO interessante. Ainda nem terminei, mas estou achando tão sensacional que resolvi compartilhar aqui em vez de escrever o post que está na minha cabeça há meses (vou ver se escrevo essa semana ainda).

Um trecho, que nem é o mais interessante do que li até agora mas acho que exemplifica bem a nossa idiotice nativa:

“In 1970, psychologists Bibb Latane and John Darley created an experiment in which they would drop pencils or coins. Sometimes they would be in a group, sometimes with one other person. They did this six thousand times. The results? They got help 20 percent of the time in a group, 40 percent of the time with one other person. They decided to up the stakes, and in their next experiment they had someone fill out a questionnaire. After a few minutes, smoke would start to fill the room, billowing in from a wall vent. They ran two versions of the experiment. In one, the person was alone; in the other, two other people were also filling out the questionnaire. When alone, people took about five seconds to get up and freak out. Within groups people took an average of 20 seconds to notice. When alone, the subject would go inspect the smoke and then leave the room to tell the experimenter he or she thought something was wrong. When in a group, people just sat there looking at one another until the smoke was so thick they couldn’t see the questionnaire. Only three people in eight runs of the group experiment left the room, and they took an average of six minutes to get up.

The findings suggest the fear of embarrassment plays into group dynamics. You see the smoke, but you don’t want to look like a fool, so you glance over at the other person to see what they are doing. The other person is thinking the same thing. Neither of you react, so neither of you becomes alarmed. The third person sees two people acting like everything is OK, so that third person is even less likely to freak out. Everyone is influencing every other person’s perception of reality thanks to another behavior called the illusion of transparency. You tend to think other people can tell what you are thinking and feeling just by looking at you. You think the other people can tell you are really worried about the smoke, but they can’t. They think the same thing. No one freaks out. This leads to pluralistic ignorance – a situation where everyone is thinking the same thing but believes he or she is the only person who thinks ti. After the smoke-filled room experiment, all the participants reported they were freaking out on the inside, but since no one else seemed alarmed, they assumed it must just be their own anxiety.

The researches decided to up the ante once more. This time, they had people fill out a questionnaire while the experimenter, a woman, shouted in the other room about how she had injured her leg. When alone, 70 percent of people left the room to check on her. When in a group, 40 percent checked. If you were to walk along a bridge and see someone in the water screaming for help, you would feel a much greater urge to leap in and pull them to safety than you would if you were part of a crowd. When it’s just you, all the responsibility to help is yours. The bystander effect gets stronger when you think the person who needs help is being harmed by someone that person knows. Lance Shotland and Margaret Straw showed in a 1978 experiment when people saw two actors, a man and a woman, pretending to physically fight, they often wouldn’t intervene if the woman shouted, “I don’t know why I ever married you!” People helped 65 of the time if she instead shouted, “I don’t know you!” Many other studies have shown it takes only one person to help for others to join in. Whether it is to donate blood, assist someone in changing a tire, drop money into a performer’s coffers, or stop a fight – people rush to help once they see another person leading by example.

One final, awesome example is the Good Samaritan experiment. Darley and Batson in 1973 got a group of Princeton Theological Seminary students together and told them to prepare a speech on the parable of the Good Samaritan from the Bible. The point of the parable is to stop and help people in need. In the Gospel of Luke, Jesus tells his disciples about a traveler who is beaten and robbed then left to die along a road. A priest and another man walk past him, but a Samaritan stops to help even though the man is Jewish and Samaritans weren’t in the habit of helping out Jews. After filling out some questionnaires, with the story fresh in their minds, some groups were told they were late to give the speech in a nearby building. In other groups the subjects were told they had plenty of time. Along their path to the other building an actor was slumped over and groaning, pretending to be sick and in need of help. Of the seminary students who had plenty of time, about 60 percent stopped and helped. The ones in a rush? Ten percent helped, and some even stepped over the actor on their way.

So the takeaway here is to remember you are not so smart when it comes to helping people. In a crowded room, or a public street, you can expect people to freeze up and look around at one another.

Knowing that, you should always be the first person to break away from the pack and offer help – or attempt escape – because you can be certain no one else will.”