Acordei hoje de manhã com meu Facebook entupido de comentários dos meus ex-colegas de faculdade em Perugia, apavorados com a “guerrilha” que rolou ontem à noite na cidade.
Nós não frequentamos o centro histórico de Perugia há anos. Nos meus primórdios aqui no Zaire a gente ia bastante; às vezes ao cinema, às vezes só pra tomar um sorvete e dar uns rolés pelo Corso Vannucci (“Corso” é sempre uma rua de pedestres no centro histórico das cidades por aqui). No verão o Corso fica entupido de gente, jovens, velhos, casais com filhos, todo mundo subindo e descendo a rua, bem diversão de minhoca mesmo (“minhoca” sendo o termo que se refere ao pessoal “ali da terra” e que não tem nada de melhor pra fazer na vida a não ser desfilar, arrumadíssimos, pela rua principal). Ano passado fomos à Eurochocolate, um verdadeiro pesadelo, com Moreno, Marta e Petulla, que obviamente nunca tinha ido. Ao longo dos anos fomos notando que o público que frequentava o final do Corso (ou o começo, dependendo do ponto de vista), ali onde fica a famosa Fontana, considerada um dos mais belos chafarizes da Itália, estava ficando meio esquisito. A escadaria da igreja, bem em frente ao chafariz, ficava sempre povoada de “zeccheroni” (de “zecca”, carrapato, porque é gente que não toma banho) – ripongas, rastas, pseudopunks. Uma nuvem de maconha pairava no ar. E volta e meia ouvíamos histórias de brigas entre tunisianos e albaneses, rivais no tráfico de drogas que é muito intenso em Perugia, como em qualquer cidade universitária. Às segundas de manhã a escadaria acorda coberta de lixo e não é difícil encontrar seringas usadas. Não costumo ler jornais locais, mas às vezes ficávamos sabendo de bares depredados, brigas com gente que foi parar no hospital, vitrines quebradas e tal.
Pois ontem chegou a rolar tiroteio e uma pessoa foi esfaqueada. Quase todos os meus ex-colegas de faculdade estavam por ali, porque toda a vida social da cidade se dá no centro, e fiquei preocupada até ver que todos estavam bem, embora muito assustados. Nos comentários, muita gente comparando Perugia às favelas do Rio, de modo que achei que a coisa tinha sido realmente seríssima. Até que fui ver os vídeos do tiroteio que neguinho estava postando. Tipo esse.
Devo estar ficando surda e cega, mas não ouvi nenhum tiro nem vi nada de particularmente escabroso. Veja bem, não estou menosprezando o pânico das pessoas nem a preocupação dos habitantes, que estão gradualmente perdendo o centro histórico da cidade pros tunisianos e albaneses, estrangeiros que ninguém quer (nem eu). Eu já tenho pavor de gente gritando e ameaçando brigar, imagina ver, de verdade, uma pessoa ser esfaqueada na sua frente. Mas tenho a impressão que se o autor do artigo tivesse assistido a Tropa de Elite pensaria duas vezes antes de escrever “guerrilha”…



