de dança

Pediram pra eu fazer um post sobre balé, mais especificamente sobre como é fazer balé em idade adulta.

Olha: fazer balé em idade adulta é, obviamente, muito engraçado (eu dou muita sorte na vida, porque estou sempre rodeada de pessoas que me divertem). Minha turma é de iniciantes, ou seja, ou gente que nunca fez dança na vida, ou que fez muito pouco há trocentos anos, tipo eu, então boa parte da aula é passada reclamando ou gemendo ou sacaneando alguém. Diversão garantida. O fato de estar fazendo balé depois de velha não me incomoda em absolutamente nada, pois nunca entendi o conceito de ter vergonha de estar envelhecendo. Todo mundo envelhece; quem não envelheceu é porque morreu antes, o que claramente é uma merda. A gente fica cheio de dores novas e problemas de saúde que nunca tinha tido antes? Sim. Mas, cara, até bactéria semeada na placa cheia de nutrientes, sem predadores, com casa, comida e roupa lavada vai ficando murcha ao longo do tempo e para de se reproduzir. Tem tanta coisa errada no mundo, caceta; eu vou ficar perdendo meu tempo lutando contra cabelo branco? Mas nem fodendo.

Estou terminando uma pós-graduação na qual quase todos os professores são BEM mais jovens que eu, e minhas colegas de turma todas têm vinte e poucos anos. Mas só parei pra pensar nisso agora, porque a leitora perguntou como é fazer balé depois de velha. Isso jamais foi um problema pra mim. Se amanhã eu decidir que quero fazer curso de amarelinha e só tiver turma de criança, vou fazer, sem drama. Não é esse o problema.

O problema é que eu tenho uma relação de amor e ódio com a dança. Se por um lado eu AMO ver pessoas dançando, qualquer coisa que seja, e tenho uma curiosidade quase mórbida de entender a biomecânica dos movimentos, ao ponto de não conseguir fazer nenhuma atividade física sem imediatamente pensar em quais grupos musculares estou usando, por outro eu tenho plena consciência do enorme volume que ocupo no espaço, e da maneira bestialmente desprovida de graciosidade que tenho de me mover no mundo. Sempre fui gorda, toda torta e desajeitada; não conheço outra forma de ser, e não houve um dia sequer na minha vida em que eu não tenha acordado e ido dormir pensando em como será que é ser bonita e graciosa. Adoro ver homens e mulheres dançando, de igual maneira, mas meu olhar sobre dançarinas mulheres é diferente: é uma análise muito clínica e detalhada, praticamente cirúrgica, do que eu gostaria de ser, mas nunca fui, nem nunca vou ser. De modo que eu AMO ver, mas é sempre, sempre uma experiência muito dolorosa também.

Eu não danço. Nada. Nunca. Não sou uma pessoa que dança; meu corpo não faz o que eu quero do jeito que eu quero, o resultado que ele me oferece não é o que eu quero, porque ele não é o que eu quero. O que eu faço definitivamente não é dançar balé, é fazer balé. É uma tentativa muito meia-boca de executar, na ordem mais correta possível e de preferência no ritmo certo, sequências de movimentos que o professor manda a gente fazer. Eu me expresso bem com palavras, obrigada; o resto não funciona. Aí você se pergunta, macacos me mordam, por que essa cretina faz balé então? Faço balé porque amo balé, amo demais, e não sei nem explicar bem o motivo, já que normalmente fujo de coisas delicadas como o diabo da cruz. Talvez seja recalque mesmo. Lembro que em um livro de inglês que eu usava pra dar aula tinha um texto sobre Toulouse Lautrec, que tinha as pernas curtas e todas tortas por um problema genético (inclusive essa síndrome, que só foi compreendida muitos anos depois, leva o nome dele. Se você acompanha Outlander, você já sabia disso, inclusive. Just sayin’. ). Segundo o autor do texto, rola uma teoria de que ele frequentemente pintava dançarinas porque elas eram tudo o que ele não era: proporcional, bonito, gracioso. Talvez seja por isso que eu amo tanto o balé clássico: porque ele é exatamente o oposto do que eu sou, em absolutamente TODOS os sentidos. Leve, delicado, atlético, belo, elegante, exibido, glorioso. Praticamente um não-eu.

Faço balé porque quero entender a técnica, tenho uma sanha de compreender a passagem gradual de movimentos simples pra outros complexos, quero compreender a lógica de uma coreografia e a sua relação com a sua trilha sonora. Não tenho pretensão de dançar; eu não danço, não sei como. Tenho plena consciência do ridículo que é uma mulher ogra desse tamanho, toda errada, desproporcional, o baricentro lá na puta que pariu, tentar fazer movimentos que são, por definição, necessariamente delicados e graciosos. Como eu respondi no comentário à leitora que motivou esse post, minha solução pro dilema é tríplice: não me olhar no espelho, jamais (obrigada, propriocepção linda da tia que permite que eu faça aula sem me olhar); não usar roupa de balé, porque eu não suportaria a humilhação; não me apresentar, jamais, porque, né.

Acontece com a zumba também. Na zumba é mais fácil, porque eu modifico (leia-se adapto) tudo. Movimentos sexy: só não. Sambadinha: passinho de grupo de pagode. (inserir meme da Bela Gil com os dizeres VOCÊ PODE SUBSTITUIR A REBOLADA POR UM AGACHAMENTO, POR EXEMPLO)

Tem dias em que eu chego em casa da aula e vou chorar debaixo do chuveiro? Ô, se tem. Pode ser que um dia eu não aguente mais o tranco, largue tudo e fique só na musculação? Pode, né. Não sei. Por enquanto, vou fazendo. Porque a alternativa é não ter balé nem zumba na minha vida, e, embora eu não saiba explicar o motivo exato, isso eu não quero.

Então meu conselho é: arrume uma turma tão legal quanto a minha, e faça o que bem entender. O máximo que pode acontecer é você não gostar da experiência e não querer mais fazer. Pode dar aquela deprezinha, mas se você tiver os colegas certos, isso fica em segundo plano. Se sua turma for chata, troque de turma, de escola, de bairro. Junte uns amigos e vão, abram uma turma só pra vocês. Arrume um professor maravilhoso, uma bicha má com um cabelo lyndo e analogias tão boas pra reclamar do aluno que tá fazendo errado que a sua filha fica imitando depois. Preencha a turma com uma amiga que reclama, com uma amiga que quando sobe no palco ilumina tudo sozinha de tanta felicidade, com um amigo fauno, com um amigo que fala de Platão no meio do alongamento, com uma amiga novata que ri de nervoso quando a valsinha não sai, com uma amiga que tem um dedão do pé fodido. Se não rolar, não rolou. Às vezes não rola mesmo, e faz parte da vida.

Faz. E depois me conta como foi.

de música

Eu não sou uma pessoa musical. Você praticamente nunca vai me pegar ouvindo música. Estou sempre de fone, mas ouvindo podcasts (aliás, recomendo altamente, e estou disponível pra explicações e dicas várias, se quiserem). Antes de descobrir podcasts, não ouvia nada. Na Itália só ligava o rádio de manhã, no carro, pra ouvir Il Ruggito del Coniglio, um programa apresentado por dois comediantes maravilhosos. Quando ia ao cinema sozinha, à noite, botava Monobloco pra dar uma animada. E só. Honestamente, não sinto falta. Não ouço música, não canto, não danço. Nada, nunca. (Sim, sou chata)

Incompreensivelmente, quando por acaso me encontro em uma situação musical, ou dançal, costumo ficar extremamente emocionada, mesmo quando a música é agitada, animada, rápida, upbeat. Ver pessoas dançando me dá a mesma sensação de que o mundo está em harmonia, sabe. Não sei explicar, mas há algo de muito mágico em um certo número de pessoas cantando a mesma música, ou se movendo em conjunto, os corpos obedecendo ao comando mental, cortando o ar, ocupando espaços de maneira temporária, com ou sem coreografia, com ou sem improviso. Gosto de ver até gente que dança mal. Gosto de ver até danças com música que abomino (exceção é o sertanejo, que me dá urticária). Ano passado, quando fui ver minha turma de balé dançar, eu chorava e tremia tanto que mal conseguia segurar o celular. Mês passado fui ao concerto do CINDACTA e quase tive um treco; fiquei extremamente tocada. E nem foi pela playlist, que foi muito boa mas não particularmente emocionante; o que me deixa boba mesmo é exatamente essa coisa de conjunto, de todos fazendo um pouquinho pra chegar num todo muito foda, é a empolgação. Chegou um cara pra cantar uma música do Phil Collins; um negro alto, forte, sorridente, com a maior pinta de ser dono de um vozeirão estilo Mufasa. O timbre dele era bem mais agudo, de maneira alguma o que eu esperava, e o microfone ainda estava um pouco baixo demais, o que tornava a voz dele quase inaudível quando a orquestra subia. Mas cara, ele tava TÃO empolgado, tão claramente feliz de estar ali, estrela, protagonista, soltando a voz, karaokê, tão animado, tão tudo, sabe, tinha praticamente uma bolha de felicidade ao redor dele, era uma parada quase palpável, quase mensurável. Não era a minha música preferida da noite, mas certamente foi, pra mim, o melhor momento. Me deixou recarregada de felicidade por muitos dias. (obrigada pelo convite, família Andraus, seus lyndos!)

Uns meses atrás, não lembro mais o motivo, fui catar uns vídeos de Bollywood pra mostrar pra Carol. Detalhe que eu nunca tinha visto nenhum e mal sabia do que se tratava; ela deve ter me perguntado algo e eu fui procurar um vídeo pra ilustrar. Só que o negócio é altamente viciante, e não é só porque o algoritmo do YouTube fica te sugerindo mais e mais e mais – é que é uma coisa tão diferente que você fica naquele clima WHAT e acaba querendo ver mais e mais pra tentar entender. Fico absolutamente fascinada pelos tecidos, pelas jóias, pela grandiosidade dos cenários, pelo número de extras em cena, mas principalmente pelas coreografias. Os movimentos que eles usam são totalmente diferentes de qualquer coisa que nós, ocidentais, identificamos como passos de dança. As expressões faciais são claramente importantes pro contexto, mas não me perguntem o que significam, porque obviamente não sei. Mas mais do que tudo isso, eu vejo aquele grupo de pessoas fazendo aquele playback super fake, aquelas dezenas de pessoas dançando a mesma coreografia, e eu fico pensando como é possível uma espécie que cria isso, que chega nesse resultado, que consegue se juntar pra literalmente balançar o esqueleto ao mesmo tempo, como é possível essa espécie animal ser tão absurdamente escrota? A impressão que eu tenho é que deveria ser impossível um ser humano saber dançar ou cantar e ser uma pessoa merda. Sabe? É uma coisa tão maravilhosamente sensacional, tão elevadora de alma, tão transbordadora de peito com amor, tão estamos todos em harmonia, que é difícil conceber coisa mais maneira.

Desfile de escola de samba: eu choro. As alas coreografadas me matam do coração. As comissões de frente, o mestre-sala e a porta-bandeira acabam comigo. Me debulho em lágrimas mesmo quando a fantasia é incompreensível, a música acelerada demais, a letra repetitiva e vazia, o enredo ridículo. Show do Monobloco: choro. Trolls dançando disco music no final do filme: choro. Vídeo promocional dos DVDs do Guardiões da Galáxia 2: tá, num choro, mas fico embasbacada.

Então nesse momento estou fisicamente exausta depois de série nova de perninha na musculação, zumba, balé feito nas coxas porque eu mal me aguentava em pé, estou morrendo de sono, mas tô aqui fazendo o quê? Vendo isso aqui e chorando de felicidade. Boa noite.

falantes do mundo, uni-vos!

Farmácia, comprando meu metotrexate. Enquanto estou pagando, uma moça jovem passa atrás de mim com um bebê micro no colo e uma menina de uns três anos dançando entre as prateleiras. Me viro pra dar um oi pro bebê e ele boceja; eu digo “nossa, estou exausto!” e a mãe responde: estamos desde cedo na rua, viemos ao pediatra mas demorou horrores, ela tá super cansada. Obviamente me ofereço pra segurar a neném enquanto ela paga e pergunto se ela usa sling; ela diz que tem, mas ainda não achou o jeito certo de usar. Ela paga, pega a sacola, continuamos a conversar sobre crianças, ela joga na minha cara que eu sou carioca, ela é de Osasco, ela diz “todo mundo diz que curitibano é fechado mas eu nunca tive esse problema”, eu confirmo “nem eu”, rimos juntas com a cumplicidade de quem fala até com as paredes sabendo que as paredes irão responder. Uma senhora mais velha que também viu a cena se aproximou e se ofereceu pra levá-la até o ponto de ônibus, e foi levando a neném no colo e a bolsa de fralda no ombro. A jovem mãe agradeceu com um sorriso franco, me abraçou – me abraçou! (e eu fedendo do balé), quase chorei, “Meu nome é Camila, prazer em te conhecer”, “Leticia, o prazer foi meu!”, elas foram batendo papo até a rua paralela e eu segui pra casa.

Tem dias em que o mundo é um lugar legal. Obrigada, Camila.

tá difícil, amiguinhos.

Não existe coisa mais frustrante do que tentar conversar com quem não está interessado em trocar informações. Discutir o óbvio é das coisas mais cansativas que o ser humano pode experimentar, e eu não sei vocês, mas estou exausta.

Essas últimas semanas foram de lascar. A polêmica do Santander, um episódio absolutamente inacreditável, foi tema de pseudodiscussões totalmente vazias entre pessoas que, como eu, nada entendem do assunto, mas que, ao contrário do que eu fiz, não foram buscar informações. Eu só fui formar a minha opinião depois de ler muitos artigos e ouvir três podcasts diferentes sobre o acontecido, porque não entendo absolutamente nada de arte e não me sentia segura em tomar uma posição sem entender como realmente estão as coisas.

Aí vem essa maluquice da liminar. Também demorei a me manifestar sobre porque não tinha entendido sobre o que se tratava. Meu irmão me indicou pra onde eu tinha que olhar – no caso, o último parágrafo da liminar, que diz:

“Sendo assim, defiro, em parte, a liminar requerida para, sem suspender os efeitos da resolução no 001/1990, determinar ao Conselho Federal de Psicologia que não a interprete de modo a impedir os psicólogos de promoverem estudos ou atendimento profissional, de forma reservada, pertinente à (re)orientação sexual, garantindo-lhes, assim, a plena liberdade cientifica acerca da matéria, sem qualquer censura ou necessidade de licença prévia por parte do CFP, em razão do disposto” etc etc

Vocês me desculpem, mas se até eu, alérgica a prolixidade e juridiquês, entendi que esse parágrafo quer dizer que NÃO PODE PROIBIR CURA GAY, não é possível que os reacinhas médios tenham entendido de outra forma. A liminar começa dizendo exatamente o contrário, que não existe cura gay, no mesmo estilo dos advogados das séries americanas, onde começa-se dizendo “sim, o réu é um merda, ele fez A, fez B, fez C e fez D. Mas não fez Z”. Sabem? Bora malhar o culpado, pra todo mundo achar que se até o advogado, que reconhece que o cara é um merda, acha que ele não fez Z, então não deve ter feito mesmo. A liminar é a mesma coisa: você começa achando “tá, é uma liminar sincera, ela diz que cura gay não existe, legal” – mas no final ela abre essa brecha nela mesma dizendo “cura gay não existe, mas não podemos proibir ninguém de fazê-la”. Sim, liminar não faz jurisprudência, mas o Judiciário faz algum sentido no Brasil? Segue as regras? Ou manda em si mesmo e faz como bem entende?

Essa brecha, esse precedente, é perigosíssimo. E mais perigoso ainda é a não-bolha estar achando tudo isso muito normal e inócuo. Se por um lado agradeço imensamente à Mamilândia, à Fê e ao Rafa, à minha mãe e ao meu irmão, por me ajudar a manter minha sanidade mental, por outro lado é só botar a cabecinha pra fora da bolha pra dar vontade de sentar e chorar.

Passei os últimos dois dias participando incrédula de uma discussão inacreditavelmente infrutífera sobre a liminar, que obviamente descambou pra um monte de outras coisas relacionadas vagamente com o assunto. A falta de conexão das pessoas – e estou falando claramente de homem brancos classe média, obviamente – com o mundo que as circunda é de cair o cu da bunda. Desprezar o feminismo como movimento, achar que ele não é necessário, achar que a liminar não é um problema, achar que a mostra do Santander era toda errada, achar que racismo é uma consequência espiritual (don’t ask, você vai querer distribuir cadeiradas nas gengivas alheias também), defender o Bolsonaro, negar o golpe e a ditadura que o seguiu – MEU ZEUS DO CÉU, O QUE ESSAS PESSOAS COMEM DE MANHÃ QUE AS DEIXA TÃO FORA DA CASINHA? O que acontece com as pessoas? Que falta total e absoluta de bom senso, de senso de observação, DE HUMANIDADE, CARALHO, acomete essas criaturas? O que é isso? O que podemos fazer pra parar essa maluquice que se alastra na velocidade da Escherichia coli?

A primeira mensagem que li hoje pela manhã foi de uma amiga muito querida da Mamilândia (que não tem Facebook), que, como eu, vem tendo sintomas físicos relacionados a essa maluquice toda, e que descobriu, com a terapeuta, que muito provavelmente essa onda empática, esse incômodo forte com os problemas alheios, vem do fato dela ter uma irmã lésbica. Fiquei pensando nisso a manhã inteira, e, como eu disse a ela, no meu caso em particular eu já sofria desse mal antes da saída do armário de pessoas próximas – enquanto mulher baranga e filha de socióloga, era meio inevitável a minha forte identificação com as minorias.

Fui levar a Carol à escola e no caminho da escola até a academia fui ouvindo esse episódio de Radio Ambulante. Quando cheguei na esquina da academia me dei conta de que estava chorando rios, pela Rosa Julia, pela crueldade alheia, pelo horror medieval que nos assola, e voltei pra casa. Não tive forças.

Ouçam o episódio. E depois venham na minha cara dizer que feminismo é mimimi. Mas prepare-se pra cadeirada nas gengivas que você vai levar. Porque eu não tenho mais paciência pra discussão amigável com quem nega o óbvio só porque não lhe atinge diretamente.

La Flor del Diablo

curitibano é fechadão #sqn

Disclaimer: Os fatos contados aqui são reais e devem ser lidos em Courier New.

EXTERNO
PONTO DE ÔNIBUS NA RUA ITUPAVA, ALTO DA RUA XV, CURITIBA

LETICIA está esperando o ônibus no ponto, sozinha, vestindo calça jeans, um suéter rosa de algodão e um foulard levinho com estampa de Star Wars, os fones de ouvido tocando Stuff You Should Know, mais especificamente o episódio sobre cinetose. Aproxima-se SENHORA, uns 70 anos, distinta, bem vestida, sobretudo pesado de lã.

SENHORA: Você sabe se o ônibus passou tem muito tempo?

LETICIA: Olha, eu cheguei tem uns deish minutosh e não tinha ninguém no ponto, devia ter acabado de passar recolhendo a galera. Vamos ter que esperar o próximo.

SENHORA, fazendo A Pergunta De Um Milhão de Dólares: Ah, carioca, é, tá sofrendo muito com esse frio?

LETICIA: Na verdade eu tô acostumada com coisas piores, morei muitos anos fora e fazia bem mais frio, por mais tempo.

SENHORA: Ah, sim? Onde?

LETICIA: Itália.

SENHORA: Ah, Itália, adoro! Minha filha adora a Itália, vive dizendo que só vai casar se for com um italiano.

LETICIA: Faz isso não.

O ônibus se aproxima, a SENHORA sobe, cumprimenta o motorista, LETICIA sobe, cumprimenta o motorista, senta-se em um banco de um lugar só na frente do banco onde a SENHORA se sentou e de onde a SENHORA olha ansiosamente para ela como quem diz “senta aí que temos muito o que conversar”.

SENHORA: É verdade que os italianos são assim barulhentos e meio grosseirões?

LETICIA: Ô.

SENHORA: Menina, são terríveis mesmo. Sabe que eu ando paquerando um italiano, virtual, né, e papo vai, papo vem, ele pediu que eu tirasse a roupa pra ele na frente da câmera.

LETICIA, engasgando: Ah.

SENHORA: Mas ele era muito feio! Umas verrugas imensas no rosto, sabe. E pela aparência tinha jeito de quem fedia.

LETICIA: Ah.

SENHORA: Muito feio mesmo. Sabe, eu sou viúva, meu marido era piloto e a gente sempre namorava, entende?, pelo telefone ou pela internet quando ele estava viajando. Mas o italiano era muito feio mesmo.

LETICIA: Ah.

SENHORA: Bom, eu vou descer aqui na Zacarias, foi ótimo conhecê-la! A senhora mora por ali perto mesmo?

LETICIA: Moro, ainda vamos nos encontrar muitas vezes naquele ponto de ônibus.

SENHORA: Tomara, tomara! Um bom dia pra senhora!

LETICIA: Pra senhora também.

adeus, clinique

Todo mundo aqui tá careca de saber que tenho psoríase. Ela vai e vem (normalmente vai embora de um lugar e vem pra outro), e é diferente nas diferentes partes do corpo afetadas. Por exemplo, tenho placas avermelhadas e que descamam nos cotovelos e na canela direita (já pegou a esquerda também, depois passou; já pegou os dois joelhos, depois passou; o cotovelo esquerdo ficou limpo por muito tempo, mas agora está acometido novamente), descamação e vermelhidão intensas mas sem crostas nas orelhas, e MUITA descamação e MUITA coceira no couro cabeludo. Há pouco tempo li em algum lugar sobre a necessidade urgente de criar clínicas do prurido, equivalentes às clínicas da dor, porque aguentar coceira O TEMPO TODO, 24 HORAS POR DIA, TODOS OS DIAS é de enlouquecer. Se eu não tomar meu anti-histamínico todos os dias simplesmente viro um cachorro sarnento e não faço outra coisa que não me coçar, chegando a acordar de madrugada por causa do prurido. Se esquecer de tomar, o corpo coça também, coisa que normalmente não acontece, e aí não consigo trabalhar, porque passo metade do tempo com as mãos ocupadas me coçando. Pra não falar do aspecto estético, néam. Enfim, uma be-le-za de doença.

Vamos pular pra cabelância da Carol, que é praticamente indomável (juro que já já a relação entre esses dois assuntos vai ficar clara). Sei bem como é porque eu também chorava horrores quando minha mãe penteava meu cabelo, até que ela, desesperada inclusive por causa das infinitas vezes que tive piolho, resolveu cortar meu cabelo curto. Como eu não tinha orelha furada, e além disso era uma criança medonha, TODO MUNDO perguntava se eu era menino ou menina. A coisa me traumatizou tanto que eu lembro da cara de todo mundo que me fez essa pergunta. Marcou a minha vida pra sempre, não posso nem pensar nisso que me dá vontade de chorar (ainda), e embora a Carol seja linda e esteja de orelhas furadas, não quero que ela corra o risco de passar por isso. Então vou testando tudo que é creme que aparece, pra ver se algum deles dá jeito na juba. Comecei a notar que os poucos cremes que realmente ajudavam a desembaraçar o cabelo demoravam MUITO pra sair. Ela fica lá de molho embaixo do chuveiro e nada do creme sair (tenho que enxaguar tudo, senão ela fica com a cabeça coçando). Cara, não é possível, pensei. Tem que ter um esquema melhor pra cuidar do cabelo.

Há alguns anos eu comprei um vidro de Wen nos EUA, mas não tinha coragem de usar porque você tem que usar MUITAS bombeadas pra fazer efeito, e com a minha quantidade de cabelo não era economicamente viável. Depois que cortei curto passei a usar, no lugar do shampoo. Quando comprei, mandei um e-mail pra eles explicando que tenho psoríase, couro cabeludo que coça e descama, cabelo ultra seco etc, e eles responderam rapidinho, recomendando o Tea Tree Oil (que não estou vendo no site agora, mas na Amazon deve ter). Gente… Que coisa mais linda. Primeiro que o cabelo fica hidratado legal, e com uma ótima sensação de limpeza, apesar do produto não ser/conter sabão. Segundo que a coceira diminuiu, pela primeira vez desde 2006, quando a psoríase apareceu na minha vida. Foi uma revelação. Mas o vidro começou a acabar, e fui procurar outras soluções.

Entra a Marcia, amiguinha de internet há muitos anos. Quando linkei o post sobre o meu cabelo curto no Face, ela me recomendou um livro no qual eu já tava de olho há muito tempo, mas achava que não ia adiantar nada (porque afinal de contas NADA resolve um cabelo merda). O livro era esse aqui (linkei pra Amazon brasileira, tá), e acabei comprando. A burralda aqui simplesmente não tinha percebido que uma das autoras é a criadora dos produtos Deva Curl, alguns dos quais eu já tinha testado. Uso esse aqui na Carol há o maior tempão e funciona muito bem, apesar do cheiro estranhíssimo. São SUPER caros, mas valem a pena. Se eu tivesse notado que a Lorraine era a autora do livro, já teria lido há séculos. Anta. Enfim, o livro é bem interessante, apesar das mil piadinhas amarelas com termos capilares, pelamordedeus, não queiram saber. No frigir dos ovos, a lição mais importante que eu aprendi com ela foi simplesmente continuar sem usar shampoo.

Parei de usar shampoo pra lavar a cabeça da Carol. Parei de usar esses cremes de supermercado (ou não; já usei muito creme/shampoo francês caro também, tudo igualmente merda) cheios de silicones, parabenos e coisas poluentes e tóxicas. E catando daqui, catando dali, acabei caindo nesse site, que é italiano mas que manda os produtos da Áustria.

Viciei TOTALMENTE. Agora aqui em casa eu e Carol só usamos tudo orgânico. Lavo a cabeça da Carol com esse creme, que tem um certo cheiro de remédio e não facilita muuuuuuito o desembaraçar, mas sai com uma enxaguada rápida e não resseca (já é alguma coisa). Estou lendo os reviews de outros produtos pra tentar achar um que realmente facilite o pentear, porque a Carol chora toda vez que lava a cabeça e tem que pentear, mesmo eu usando os dedos pra desembaraçar, segundo os ensinamentos do livro. Como leave-in, uso aquele da Deva Curl que linkei acima, misturado com algum óleo (a mais recente novidade é esse aqui). Passo o óleo no cabelo dela inclusive nos dias em que não lavamos a cabeça, e dá uma boa segurada no frizz. Esse aqui funciona super bem com a Carol, mas comigo não. Minha mãe usa há tempos e foi ela quem me deu a dica, é produto de salão mas consegui comprar o mega vidrão na Amazon inglesa. Só que de natural não tem nada, então só uso de vez em quando, pra mudar a rotina mesmo.

Estou usando esse óleo pra massagear o couro cabeludo pra ver se ajuda com a coceira e estou achando que, junto com o Wen (na verdade, junto com a ausência de shampoo), está ajudando sim. Tem um cheiro exótico, de especiarias, que acredito que nem todo mundo goste, mas não me incomoda. Passo à noite e no dia seguinte lavo. De qualquer maneira, a descamação melhorou MUITO.

Pra tomar banho estou usando o sabonete líquido orgânico da Coop, meu supermercado preferido. Abandonei o de lavanda da Granado da Carol (AMO AMO AMO AMO o cheiro, mas resseca bastante a pele e é totalmente químico) e ela está usando esse da Coop também. Não resseca, o cheiro é quase inexistente e não interfere com cremes ou perfumes, rende pra cacete e não polui o ambiente. Melhor que isso, só dois isso.

No corpo uso esse gel (que é líquido demais pra ser chamado de gel, mas vem com bombinha spray que resolve o problema) de babosa só nas áreas afetadas pela psoríase, e no resto do corpo um creme de hemp da The Body Shop que a vendedora me recomendou, em Orlando – ela também tinha psoríase e achava que hidratava bem. O cheiro é bizarro, mas me acostumei. E também estou usando esse aqui de vez em quando: é duro que nem uma pedra, quando você abre acha que vai morrer intoxicada com o cheiro fortíssimo (e maravilhoso) do óleo de lavanda, mas infelizmente o perfume dura pouquíssimo. Mas é pura manteiga de karité com puro óleo de lavanda, hidrata direitinho e não tem química bizarra nenhuma dentro. Por último, comprei esse óleo de jojoba também, que estou usando como hidratante pra área ao redor dos olhos. Várias usuárias relataram que os cílios cresceram e aumentaram de volume usando desse jeito, ainda estou esperando pra ver.

Pro rosto, uso esse soro aqui (três gotas são suficientes pro rosto e pro pescoço), que dá uma leve sensação de pele esticada, e depois esse creme aqui, que hidrata muito bem. Não vou dizer que funciona contra as rugas, porque todo mundo sabe que ruga não tem remédio, creme nenhum do mundo diminui ruga, mas que a pele fica ótima, isso fica. Simplesmente o melhor creme que eu já usei. Provavelmente nunca mais vou querer outro.

Depois de me dar muito bem com essas coisas todas, resolvi testar a maquiagem orgânica. Resultado: aprovada com louvor. Uso esse blush (testei esse também, mas é ruim de aplicar, fica concentrado num lugar só, é difícil de espalhar), um BB cream de uma marca que não estou mais vendo no site mas que acabei de achar aqui (bem denso e meio chato de espalhar, mas com resultado final ótimo), rímel da mesma marca (nada de orgânico é à prova d’água, mas fora isso o produto é ótimo). Batom não testei porque uso pouco e ainda tenho muitos da Clinique (vieram de brinde com outras coisas desnecessariamente caras que comprei há tempos) na gaveta dando sopa. Lápis de olho infelizmente ainda não testei, porque eu só gosto dos retráteis, e não achei nenhuma marca de orgânicos que fizesse esse tipo de lápis. Então uso os da Sephora mesmo, que por mais que você lave e use removedor sempre te deixam com cara de guaxinim no dia seguinte, mas é só lavar de novo que sai. São maravilhosas de aplicar e as cores são lindas. Aproveitei a promoção do dia das mães pra comprar praticamente um de cada cor com um belo desconto, mas olhando agora no site americano estou vendo que lá tem mais cores do que no site italiano. Morry! Tenho a pele extremamente sensível mas nunca me deram alergia. Um rímel magavilhoso que a Marcinha (a dos cachorros; mwah, amiga!) me deu, da L’Óreal, me deu DOR nas pálpebras uma vez, então só uso quando sei que vou ficar pouco tempo maquiada.

Enfim: viva o orgânico. Nada é testado em animais, quase todos os fabricantes usam matérias-primas oriundas de esquemas eticamente sustentáveis, poluem pouco ou nada o ambiente, e, não sei se vocês notaram, custam MENOS do que as coisas de marca. Óbvio: o preço não inclui propaganda com celebridades photoshopadas e nem pesquisas mirabolantes de laboratório que resultam em produtos que nada fazem além de hidratar a pele, alguns mais, outros menos. As embalagens dos produtos orgânicos costumam ser simplesmente horrorosas, de dar pena mesmo, mas parece que gradualmente estão aprendendo que não é só porque uso creme natural que tendo à cafonice hippie, e agora alguns rótulos estão vindo mais bonitinhos. Se tudo isso ainda me ajudar a me coçar e descamar menos, o meu nível de satisfação vai às estrelas. Se melhorar, estraga. Recomendo altamente.

P.S.: Comprei pasta de dentes orgânica pra Carol também e ela adorou. E ninguém mais usa desodorante aqui em casa, só bicarbonato de sódio (descoberta da minha mãe também).

minha saga capilar

Eu detesto cabelo enrolado. DETESTO. É chato de pentear, se tiver particularmente feio em um certo dia você tem que lavar de novo, em vez de dar só uma escovada básica, e, o pior de tudo, dá um ar selvagem que eu abomino. Parece que a pessoa está eternamente naquele momento em que acabou de acordar. Odeio, odeio. Sempre odiei, desde pequena, continuo odiando e vou morrer odiando. Há anos venho dizendo que um dia vou ficar tão de saco cheio do meu cabelo que vou raspar a cabeça. Não raspei ainda, mas dei um corte radical ano passado. BEM curto. Curto mesmo, não dá pra prender nem em rabinho cotó, cortado bem curto com máquina atrás e uma pseudofranjona mais comprida na frente, que nem chega na ponta do nariz. Curto, pois.

Gente, que revolução na minha vida. Coisa mais linda. A quantidade de tempo que eu ganhei é uma coisa incalculável. Lavo a cabeça a cada banho, seco em dois segundos esfregando a toalha em vez de ficar tomando cuidado pra não desmanchar as porcarias dos cachos, não uso mais creme, pente, leave-in, óleos, o cacete a quatro. Lavo com o shampoo que tiver, não levo mais nada desses apetrechos cabelais quando viajo, perdi a paranóia do elástico everywhere (na verdade ainda levo um elástico em cada bolsa, na carteira, na nécessaire, pra prender a cabelância da Carol quando a juba tá muito descontrol), ESQUECI que o cabelo existe. Uso um arco (qualquer um) só pra não ficar cabelo caindo na testa, que me incomoda horrores, e mais nada. ESQUECI QUE O CABELO EXISTE.

Vocês não têm ideia do quão libertador é. Nunca imaginei que fosse fazer assim tanta diferença na minha vida. Sempre ouvi dizer que era prático, mas prático doesn’t quite cover it. Gente, o tempo que nós mulheres perdemos com essas bobeiras é uma coisa enlouquecedora. Se investíssemos o que gastamos de tempo, dinheiro e energia nos preocupando com a depilação, o buço, as sobrancelhas, o cabelo, as unhas, a maquiagem, a barriga, a celulite, as rachaduras nos calcanhares, o cacete a quatro, em coisas mais úteis, seríamos nós a dominar o mundo, e não os homens. Nós somos é um bando de idiotas por nos submetermos a essa maluquice, a essa escravidão da beleza. Um bando de idiotas. É a gente contando calorias e eles ganhando dinheiro. Somos umas antas.

meus pitacos cubanos

Eu bato nessa tecla há trocentos anos: a gente precisa fazer as coisas pelos motivos certos, senão cedo ou tarde dá merda. Dou sempre o exemplo, bem italiano e brasileiro, do fulano que estaciona na vaga direitinho só quando sabe que tem guarda multando, em vez de estacionar SEMPRE na vaga direitinho porque assim não incomoda ninguém. Pois isso se aplica também, a meu ver, a essa história dos médicos cubanos.

Vou logo adiantando: sou contra. Mas é aí que entra a minha teoria: as pessoas (principalmente os médicos brasileiros) são contra pelos motivos errados.

A ideia de que os cubanos sejam comunistas infiltrados pra estabelecer uma ditadura de esquerda no Brasil é risível, obviamente. Ora bolas, o Brasil é governado pela esquerda há dez anos, por que haveria de inventar infiltração de esquerda quando tudo estava indo bem (até onde eu sei esse projeto Mais Médicos é anterior às manifestações de junho)? Então não tem sentido ser contra os médicos cubanos com essa desculpa paranóica de complô comunista. Não é o motivo certo pra ser contra.

A Cora postou uma coisa interessante sobre o lance da revalida (perdi o post, catem no FB dela) – basicamente segundo ela não tem problema os médicos cubanos não terem intimidade com as modernidades da medicina porque não vão trabalhar com modernidade nenhuma lá nos cafundós do judas. Concordo em parte: se por um lado vejo com desconfiança gente formada em um país onde trocar ideias com colegas estrangeiros é complicado e onde tudo cai aos pedaços, por outro lado é verdade que lá nos buracos do tatu pra onde serão mandados eles vão precisar de bem poucos conhecimentos técnicos, já que as condições de trabalho são nível interior da Namíbia. Mas também é verdade o que alguns memes dizem, que é sacanagem não exigir um certo nível de competência dos médicos que vão trabalhar lá na puta que pariu só porque vão trabalhar lá na puta que pariu. De qualquer forma, acho que protestar contra a vinda dos estrangeiros usando o lance da revalida como argumento não tem sentido, até porque isso não ameaça os médicos brasileiros (pelo menos em teoria), que não vão lá pra puta que pariu.

Outra coisa que a Cora falou foi que a barreira linguística não é um problema. Ela cita como exemplos os Médicos Sem Fronteiras e outros profissionais que trabalham em zona de guerra. Em teoria, concordo. Na prática, não – uma necessidade IMENSA dessas áreas carentes é a medicina preventiva, e explicar uma coisa a uma pessoa que fala outra língua é muito diferente de operar um paciente baleado em zona de guerra, que está desacordado e não precisa entender nada mesmo. Eu, particularmente, tenho grande dificuldade em entender o espanhol sul-americano (não ouvi todas as variantes, mas de pelo menos uns 4 países, sim, e não entendo nada). E acho que, por uma questão de justiça até, se todo profissional de qualquer área precisa provar que fala a língua local quando vai morar fora, não vejo por que os médicos desse projeto estão livres disso. E se é verdade que a necessidade faz o ladrão, não podemos comparar a situação dos cafundós brasileiros com a de uma região em guerra. Se em caso de emergência realmente não importa que língua o médico está falando, o mesmo não pode ser dito de uma situação que é, sim, crítica, mas definitivamente longe de ser um campo de batalha. De qualquer forma, a barreira linguística pode ser contornada e não é um motivo certo pra protestar contra a vinda dos médicos estrangeiros.

Muito se fala sobre os médicos “coxinhas”, que não querem largar o conforto do eixo Rio-SP pra ir lá pra puta que pariu. Minha primeira pergunta é: por que essa cisma com os médicos? É só de médicos que os cafundós precisam? Ou é de enfermeiros, de engenheiros, de dentistas, de PROFESSORES também? Não é só uma questão de querer, mas de ser remunerado pra isso. Tenho colegas de faculdade que se despencaram lá pro fim do mundo, atraídos por salários decentes, mas simplesmente PARARAM DE RECEBER e tiveram que voltar. Você ficaria num lugar onde não há nada pra fazer, com infra-estrutura zero, condições ridículas de trabalho, sem ganhar NADA? Duvido. Minha segunda pergunta é: há algo de errado nisso? No mundo inteiro populações migram há séculos dos cafundós pras cidades. É uma coisa natural, porque ninguém quer morar em lugar bunda. Não há nada de errado em não querer ir morar em lugar bunda. Se você quer que neguinho vá pra lugar bunda, vai ter que pagar. Se não pagar, neguinho não vai. É uma equação bem simples. Aí você vem com aquela entrevista do médico cubano que diz que vai trabalhar nos cafundós por amor à profissão. E eu respondo assim: VAI PENTEAR MACACO, VAI. TO-DO mundo trabalha por dinheiro, senão não se chamaria trabalho, mas sim voluntariado. Lógico que há quem ame o que faz e consiga juntar o útil ao agradável, mas vamos combinar que são uma minoria ínfima. Lógico que há muitos médicos (e outros profissionais) que dedicam parte do seu tempo a atividades pro-bono, mas se fizessem só isso morreriam de fome. Então não me venham com essa de ir lá pra puta que pariu por amor à profissão que comigo não cola. Quem vai pros cafundós vai pra ganhar dinheiro, pra ganhar experiência, pra ganhar currículo, porque foi obrigado a ir, porque esse é o único jeito de sair do seu país (hint hint). Eu só acho o seguinte: acho pouco provável que os médicos estrangeiros fiquem muito tempo lá nos cafundós. Aposto que em breve as grandes cidades estarão cheias deles.

Quanto ao comentário da jornalista que falou que as médicas cubanas têm cara de empregada doméstica, infelizmente ela tem razão. Não sejamos hipócritas – no Brasil, onde nível social e etnia estão indissoluvelmente ligados, onde a elite é branca e onde preto só usa o elevador de serviço, ninguém olha pra uma pessoa de cor e acha que ela é formada em alguma coisa, porque de acordo com as estatísticas ela provavelmente não é mesmo. Com o lance das cotas nas universidades a tendência é isso mudar, felizmente, e espero que em um futuro próximo tenhamos médicos, advogados, engenheiros, professores universitários, jornalistas, designers negros em número suficiente pra que a sua própria existência não nos surpreenda mais. Ainda não chegamos nesse nível, mas acredito que em breve estaremos lá. Por enquanto, acho que uma coisa positiva da vinda dos médicos cubanos vai ser fazer a gente pensar no porquê de preto, no Brasil, ser sinônimo de pobre. De repente isso ajuda a mudar alguma coisa, ajuda a ficha cair, ainda mais considerando o contexto atual de manifestações e de saco cheio generalizado.

(Parênteses pra lembrar do espanto dos pacientes do Gaffrée ao serem atendidos pelo Hamilton, nosso colega angolano que passou no vestibular no Brasil, andava alinhadíssimo e era um verdadeiro lord. O impacto inicial com os pacientes era meio estranho mas ele era de uma gentileza ímpar e todos gostavam dele. Não me lembro do sobrenome pra procurá-lo no FB, infelizmente).

Muito tem se falado também sobre o corporativismo dos médicos com relação ao Ato Médico. Que querem manter o poder, que se sentem superiores e coisa e tal. Vamos fazer um pouco de matemática juntos então: pra se formar em medicina no Brasil é necessário superar um vestibular absurdamente difícil (vamos deixar de lado o fato de que vestibular é uma coisa idiota, mas é o que temos pra hoje) que dá uma bela filtrada, dar plantão por fora pra aprender na prática, fazer 6 anos puxados e mais 2 ou mais de especialização, ganhando uma ninharia e ralando que nem um corno (eu não me especializei mas todos os meus amigos comeram o pão que o diabo amassou durante residências em várias especialidades diferentes). Outros profissionais de saúde enfrentam vestibulares fáceis e fazem cursos mais curtos e menos puxados. Quem você acha que é mais preparado? Quem estudou mais ou quem estudou menos? O que eu lia de barbaridade escrita por enfermeira no meu hospital-escola não tá no gibi. Claro que há médicos incompetentes, mas se uma pessoa que estudou esses anos todos pode sair um profissional ruim, imagine quem estudou a metade disso. Minha experiência real dentro da medicina foi curta, mas naqueles 4 anos de hospital (os 2 primeiros são teóricos) eu vi o suficiente pra nunca querer ser diagnosticada por outro profissional de saúde que não seja um médico, e mesmo assim olhe lá. Vejam bem, não é questão do médico ser ótimo e os outros uns merdas, é uma questão de um sistema educacional que é simplesmente um cu. Num país decente, todos os profissionais de saúde teriam ótima formação e poderiam perfeitamente dividir poder e responsabilidades. Não sou contra o Ato Médico a priori; sou contra o Ato Médico no Brasil, onde delegar poderes desse nível a quem não teve a oportunidade de se preparar pra isso, porque o sistema educacional é um cu, é ideia de jerico. Vai dar muita merda isso aí. Geral iatrogenia, uhuuuu.

Uma vez paramos pra abastecer em um daqueles plazas ao longo da estrada, aqui na Itália. Descemos do carro pra esticar as pernas e vimos uma placa – oficial, não improvisada – avisando pra não comprar objetos dos vendedores ambulantes porque costumam ser itens roubados. Na hora pensei: então assim, a solução deles pro problema dos roubos é avisar pra neguinho não comprar? O certo não seria IMPEDIR AS PORRAS DOS ROUBOS? Essa solução de importar médicos, a meu ver, segue essa linha de raciocínio. Porque o problema certamente não é falta de médicos nos cafundós, é o fato de que os cafundós são tão cafundós, e as verbas são tão desviadas, que ninguém quer ir pra lá. E aí você resolve importando médicos? Isso é solução desde quando? Pra mim isso é que nem botar placa avisando que uma estrada é esburacada, em vez de TAMPAR AS PORRAS DOS BURACOS. Ah, sim, mas a necessidade de médicos nos cafundós é urgente, urgentíssima, então tem que tapar o buraco de alguma maneira antes de resolver a causa do problema – não é urgente urgentíssima porque a situação lá pra cima sempre foi precária, e com a presença de médicos importados aí sim é que nada vai mudar mesmo. Colocada a placa, considera-se o problema resolvido, deixam-se os buracos, e os desavisados que se desviem. Legal, né.

A solução pra TO-DOS os problemas do Brasil é uma só: NEGUINHO PARAR DE ROUBAR. Porque não adianta o governo federal mandar verba que depois some. Vou desenhar, mesmo sendo repetitiva: o problema não é faltar médico que queira ir pros cafundós, o problema é a existência dos cafundós. Não deveriam existir cafundós, entenderam a diferença? É só por isso que sou contra a vinda dos médicos, cubanos ou de onde quer que sejam: não vão resolver o problema PORQUE O PROBLEMA NÃO É FALTA DE MÉDICOS, O PROBLEMA É QUE NEGUINHO ROUBA TANTO QUE TUDO QUE NÃO SEJA RIO E SP VIRA UM CAFUNDÓ DO JUDAS. Vai acabar o programa e aí? E aí? Resolveu-se o quê? E mesmo enquanto o programa estiver rolando, vai haver alguma providência anti-cafundó, na opinião de vocês? Ou será que os prefeitos, deputados, governadores ladrões, responsáveis pelo cafundosismo dos lugares que administram, vão considerar a vinda dos médicos importados como as placas avisando sobre os buracos, uma desculpa pra continuar não fazendo o que precisa ser feito? Algo me diz que a segunda opção é mais provável.

a jmj, o papa, os capiau, a praia

Vocês tão carecas de saber que eu detesto esse papa. Aliás, detesto todos; quem é “pope material” já sai com vários pontos negativos no meu conceito. Sabem também que acho o fim da picada a gente pagar pra esse velho de saia vir pra cá. Sim, tem seus lados positivos – o pessoal que vem costuma ser tranquilo, os ambulantes fodidos vão vender mais, talvez role uma discreta esquentada no comércio, pode ser que muitos desses visitantes de apaixonem pela cidade (porque vamos combinar, quem nunca, né?) e voltem outras vezes, enfim. Mas acho a despesa grande demais pra uma idiotice idem, e nem adianta dizer que a despesa é grande por causa da Mamação da Coisa Pública onipresente e tipicamente brasileira; o governo não poderia, na minha opinião, pagar nem meia mariola pra esse marketeiro que não paga imposto. Mas não era disso que eu queria falar.

A cidade está cheia de gente vindo pra essa JMJ. Todos com aquelas mochilinhas vagabundas verdes, amarelas ou azuis, com garrafa-saquinho de água pendurada na mochila com mosquetão, com caras simpáticas e boazinhas, muitos com aquele olhar pasmaceiro de quem nunca teve uma ideia original na vida e tem o Q.I. médio de uma uva sem caroço mas é feliz assim, então bom pra eles. Já dei informações pra alguns deles nas ruas, e tive sempre a impressão de que não são só jovens, são incrivelmente infantis. Minha impressão foi confirmada agora na praia, de onde acabei de voltar com a Carol. Bem na minha frente tinha um grupo bem grande de jovens, acredito eu já na casa dos 20, com jeito de criança de 12. Meninas altas, magras, bonitas, algumas bem branquelas, de sutiã de biquini e SHORT dentro d’água pulando desengonçadérrimas que nem a minha filha, que não tem nem 5 anos. Uma delas entrou de óculos de grau na água. Não vou dizer que fiquei com pena, porque elas estavam claramente se divertindo horrores, mas que foi engraçado foi.

considerações academico-ginasticais

Não sou uma esportista. Nunca fui. Mesmo quando estou fazendo um exercício do qual eu gosto, como Les Mills Combat ou spinning; mesmo lembrando de como me sinto bem depois do exercício, quando as endorfinas invadem a corrente sanguínea; mesmo sabendo que se eu não malhasse estaria mais gorda ainda; mesmo adorando sentir os músculos dos braços ficando mais fortes; mesmo curtindo a dor muscular do dia seguinte, quando mal consigo sentar pra fazer xixi ou levantar os braços pra prender o cabelo de tanto ferro que puxei; mesmo assim, se você me perguntar se eu preferiria estar fazendo outra coisa em vez de malhar, eu vou responder com duas páginas de coisas que considero mais aprazíveis. Mas não tem jeito, então eu malho.

As vantagens de se exercitar em casa são múltiplas. Primeiramente, não tem espelho. Segundo, malho na hora em que quiser (o que também é uma desvantagem, porque a tentação de deixar pra depois é muito grande). Terceiro, posso malhar de top e short (eu suo muito pouco, então MORRO de calor) em vez de bermuda e camiseta. Quarto, é muito mais barato. As desvantagens, bastante óbvias, são a necessidade de ter disciplina, a possibilidade de se machucar fazendo movimentos errados por não ter ninguém pra te corrigir (mas eu tenho ótima propriocepção e conhecimentos anatômicos razoáveis; nunca me machuquei), a ausência de socialização, que pra mim é a pior parte porque eu tenho meus momentos de eremita mas adoro bater papo.

Cheguei a frequentar academia na Itália, no meu primeiro ano lá. A academia mais famosa de Perugia, pertinho da estação de onde eu depois pegava o trem pra Santa Maria, dava desconto pra quem estudava na Università per Stranieri, e aproveitei por alguns meses. Depois nunca mais fiz, malho em casa desde então. Mas quando venho ao Rio me matriculo e vou pra academia, pra fazer coisas que em casa não posso ou não tenho saco – spinning, ioga, alongamento. Não faço step, que eu adoro, porque na minha filial não tem. E ainda não consegui fazer muay thai porque o horário é ruim pra mim, mas gostaria de pelo menos experimentar. O pessoal da Proforma é ótimo, as aulas são todas boas, os professores são uns a-mo-res, a estrutura é ótima. E até o ambiente de ratos de academia, que costuma irritar muita gente, me faz dar muitas risadas. Porque academia é que nem homem: é tudo igual, só muda o endereço, né. Os personagens se repetem num esquema praticamente shakespereano: tem o cara que urra a cada repetição na musculação, tem a piriguete que usa aqueles leotards medonhos da Kitanga, tem as velhas que MORAM na academia (normalmente fazem localizada, com caneleiras do peso de um rottweiler enroladas nos tornozelos), são íntimas dos professores e contam as repetições pra eles, tem os gordos que quando sobem na bicicleta os outros acham que vão pedalar dois minutos e cair estrebuchando no chão com insuficiência cardíaca mas que fazem tudo direitinho (essa sou eu), tem os adolescentes magrelos com a franja penteada pra frente que levantam pesos tamanho cotonete na esperança de ganhar corpo, tem os megamarombeiros que se alimentam praticamente de Amino 2222 e mais nada, tem velhos coroquérrimos que chegam se arrastando na academia mas todo dia estão cedinho lá puxando seus ferrinhos pra se manter de pé (na minha turma de spinning tem uma senhora de trocentos anos que vai de sapatilha especial pra spinning e pendura os oclinhos no guidon, botando-os nos olhos de vez em quando pra conferir o Polar; sensacional).

A fauna dos professores também segue um certo padrão: tem o professor que dá aula de localizada há anos pras mesmas velhas ressequidas e se comunica por código porque todo mundo já sabe a aula de cor, tem o pessoal da musculação que passa corrigindo os alunos que malham sozinhos e só falam de futebol, tem a personal que pariu anteontem e hoje já tá toda sequinha chicoteando a aluna que faz abdominal no BOSU, tem os entediados que ficam na sala de cardio sem fazer nada espiando as telas das alunas que fazem transport vendo Friends, tem sempre um professor velho destrambelhado ex-alguma coisa e grosseiro que dá a mesma aula há anos mas que todo mundo adora (no caso da minha academia, esse é o Juca, ex-professor de balé clássico que dá uma aula sem pé nem cabeça muito legal com um monte de exercícios de balé misturados com música francesa). Eu me divirto horrores e se deixar passo o dia na academia. Atualmente faço musculação cedo segundas, quartas e sextas, imediatamente seguida de spinning com o Fred, aula ótima com trilha sonora muito boa; às terças e quintas, spinning com o Fabão quando dá tempo, depois da natação da Carol, e ioga maravilhosa com a Bernadete seguida de alongamento mágico com a Lara à noite. Volto pra casa dormindo em pé de tão relaxada, e minha flexibilidade, que sempre foi boa, melhorou horrores. Só não perco peso, mas isso é um detalhe.

Mas as perguntas que não querem calar são: por que, ó céus, a pessoa entra na sala de spinning e vai direto sentar na ÚLTIMA bicicleta lá do fundo? Por que a pessoa passa a aula inteira no seu próprio ritmo, ignorando a música e as instruções do professor, e nunca volta pro banco? Se é pra fazer como lhe dá na telha, por que diabos não compra uma bicicleta e malha sozinha em casa? Por que, ó céus, ainda tem gente que insiste no maldito meião até o joelho? Por que, meldels, ainda tem mulher que malha de cabelo solto? (felizmente são poucas, pra ser sincera, mas me dão um nervoso indescritível). Por quê? Por quêeeeee?