a volta da morta-viva

1 de fevereiro de 2010

Então.

Mamãe foi embora no sábado, depois de quase dois meses me ajudando aqui em casa com a Carol. Nesse período a Carolina passou de zumbi que nunca dorme a dorminhoca-mor, e também está comendo melhor. Está dando os primeiros passinhos sem apoio mas ainda está um pouco medrosa e às vezes se joga no chão de joelhos no meio de uma caminhada, porque afinal de contas gatinhar é bem mais fácil e rápido.

O aniversário de um ano foi superlight. Resolvemos não dar festa por vários motivos. Primeiro, porque é uma mão de obra danada, por mais que você terceirize as coisas. Segundo porque você acaba forçando uma compração de presentes que dá mais trabalho do que alegra, porque eu praticamente não gosto de NADA que ela ganha (tudo rosa, lógico, e tudo roupa, nada de brinquedos ou livros. Gente sem imaginação é foda) e tenho que sair trocando tudo depois. Terceiro porque ela ainda não anda, o que significa que não só não iria aproveitar nada como ainda provavelmente ficaria engatinhando no chão cheio de resto de comida que as crianças jogam no chão. Quarto porque ela não entende nada ainda, não tem noção do que é uma festa. Dois anos já é outra história, a criança já fala, já brinca com outras crianças (antes de uns 18 meses dificilmente rola interação entre elas), já entende melhor o que está acontecendo e se diverte, eu já vi. E quinto porque nessa merda de frio eu teria que arrumar um lugar pra enfiar a criançada, e festa em lugar fechado é um porre. A merda é que no Rio não dá por causa do calor hediondo, de modo que ano que vem vamos penar pra decidir como vamos fazer. E sexto porque temos pena dos outros pais, já que festa de criança é realmente um PORREEEEEEEEEEEEE. Pra quem não tem filho, então, é uma filial do inferno.

Mudando de pato pra ganso, andei dando umas escorregadas gastronômicas ultimamente (meu bodybugg praticamente parou de falar comigo), mas como minha massa muscular aumentou consideravelmente, e consequentemente meu metabolismo também, o efeito disso no meu peso, apesar de não estar conseguindo malhar regularmente, foi ZERO. Não engordei nada, não aumentei nada de peso nem de medidas, nada. Coisa linda, né não? A Chalene é uma mala, mas Muscle Burns Fat, ela tem razão. Como a Carolina anda dormindo bem melhor e estou com as manhãs bem light, aproveitei pra fazer um novo esquema de malhação pros próximos meses. Vou seguir a fase Lean for Life do ChaLEAN Extreme, apesar de que na verdade eu deveria refazer o programa desde o início pois ainda não estou no meu peso desejado. Mas não vou ter saco, então criei uma versão alternativa do Lean for Life, com as séries de cardio que eu gosto alternando com os polichinelos do ChaLEAN Extreme. De qualquer maneira, apesar dos escorregõs, de modo geral a minha relação com a comida mudou consideravelmente. Não sonho com comida há muito tempo, novidade total. Outra novidade é que atualmente me sinto melhor quando estou com uma fome leve e não depois de me empanturrar. Naturalmente passo mal quando escorrego, seja no tamanho da porção de peito de frango ou quando como uma fatia de pizza depois de tanto tempo comendo “clean”. Além de passar mal, me sinto lerda e sem forças no dia seguinte, mal conseguindo terminar as séries. Não bom.

Quando o tempo melhorar – essa noite nevou e tá um frio do cacete – vou comprar a cadeirinha pra levar a Carolina de bicicleta por aí. Ótimo exercício adicional, ela se distrai e aprende coisas novas, é de grátis e não polui, uma magavilha. O objetivo é estar sarada (ou relatively so) no meu aniversário. Porque o objetivo de 2009, que era passar o aniversário da Carolina com a roupa que eu quisesse e não a que coubesse, eu alcancei; caibo em todas as minhas roupas, inclusive as que comprei pouco antes de engravidar, quando estava no peso que estou agora mas que não é o peso que eu quero. Então passemos à fase dois do plano, que não é mais caber nas roupas do meu armário, mas ter que comprar outras menores. Hah! Vocês vão ver; aguardem e confiem.

TOC

13 de janeiro de 2010

Eu sou uma pessoa cheia de TOCs. Cheinha. A maioria só incomoda a mim mesma, de modo que não faço muito esforço pra me livrar deles. Exemplos de TOC domésticos:

. Fazer a cama. Não sei começar o dia se a cama estiver desfeita. A primeira coisa que eu faço quando acordo, antes mesmo de fazer xixi, é fazer a cama. Tenho pavor de cama estilo ninho de rato.

. Esvaziar a pia da cozinha. O princípio é o mesmo do TOC acima: não consigo sequer começar a fazer nada na cozinha se a pia estiver cheia de louça suja, restos de comida etc. Também não consigo ir dormir sabendo que a cozinha está uma zona; quando vem gente comer aqui em casa eu só consigo ir pra cama depois de botar toda a louça na máquina e deixar a pia vazia, as cadeiras no lugar, as sobras devidamente tupperwarizadas na geladeira etc.

Exemplo de TOC trabalhais:

. Tenho que ter organizado completamente o trabalho antes de começar, não importa o nível de urgência. Primeiro escrevo no Moleskine o número do trabalho e o nome do cliente, depois escrevo as mesmas coisas na folha de Excel que no final do mês faz as contas sozinho de quanto trabalhei pra cada cliente, depois abro uma pasta nova dentro do diretório do cliente com o número do trabalho, o nome do cliente final e a combinação de línguas, depois salvo os arquivos dentro da pasta nova e mudo o nome, adicionando o número do trabalho, e só depois começo.

Exemplo de TOC de higiene pessoal:

. Não consigo dormir sem o meu ritual de beleza – lavar o rosto, passar demaquilante, passar meus creminhos, lavar as mãos, passar creminho nos pés, passar creminho nas mãos.

Tenho vários outros, lógico. Obviamente em certos momentos atrapalham bastante a minha vida, lógico. Mas cada louco com a sua mania, não é mesmo.

Copélia

9 de dezembro de 2009

Ontem fui ver um balé naquele teatro horroroso de Santa Maria, o mesmo onde vi o Rigoletto. Fui com Chiara, a irmã dela Valeria, uma prima delas, Azzurra, e o Yari, que ficou órfão depois do divórcio com a Annalisa e foi adotado por Gianni e Chiara, e ultimamente anda querendo experimentar de tudo – inclusive balé, que tanto o Gianni quanto o Mirco obviamente recusaram veementemente.

Eu ADORO balé clássico. Adoro, desde pequena, quando vivia no Municipal (um tio-avô trabalhava no teatro e arrumava entradas). O cheiro do teatro, o gosto do sanduíche de queijo e presunto do Assirius (que vinha em uma caixinha de papelão branca), a dissonância reinante enquanto a orquestra afinava os instrumentos, o zumzumzum das pessoas cochichando enquanto se sentavam em seus lugares, tudo isso está muito vivamente marcado na minha memória. Por isso nem pensei duas vezes quando a Chiara ligou perguntando se eu topava ir. Gostei muito, lógico, apesar de Copélia não ser mais meu balé preferido. Deu uma nostalgia danada, mas gostei. Maaaas…

O teatro. O teatro é aquele horror que eu já descrevi no lance do Rigoleto. A acústica é uma merda (não é frescura minha; fiquei sabendo de um cômico famoso que disse que ali não põe mais os pés enquanto não resolverem o problema). Não tinha orquestra, e espetáculos desse tipo com música de CD ficam meio o fim da picada, mas enfim. O palco é micro, o que acaba fazendo com que os bailarinos meio que restrinjam os movimentos, especialmente nas diagonais.

O corpo de baile. A companhia era russa, chamada “La Classique”, de Moscou. A única bailarina realmente, realmente talentosa era a Swanilda; de resto, vi muitos erros de timing imperdoáveis, um erro de figurino (uma das bailarinas de um pas de huit estava com um filó no braço de cor diferente das outras), e, horror dos horrores, um bailarino com quadris mais largos do que os ombros e rabo de cavalo (da série “no meu corpo de baile não entrava”).

O público. Jeca é uma merda, né; neguinho aplaude toda hora, a gente perde pedaços de música e tal, mas nada grave. O mais engraçado foi que em um certo momento, pouco antes do final do segundo intervalo, o senhor que estava atrás de mim disse assim: “senhora, por que a senhora não pinta o cabelo como aquela senhora ali?”. Todos nós olhamos pra onde ele estava apontando e imediatamente entendemos do que ele estava falando: uma criatura com os cabelos todos feitos tipo algodão-doce, bem no estilo cinquentona italiana, e vermelhos quase fluorescentes. Caímos na risada enquanto o cara continuava: que cor é essa, meudeus, me incomoda muito, a vocês não? Hohohoho : )

A Carol, que tinha passado a tarde inteira na Arianna (emendamos o almoço – era feriado – com o jantar), foi pra casa com o Mirco e estava acordadíssima quando cheguei, lá pra meia-noite. Mandou ver na mamadeira mas ainda demorou uma hora pra dormir. Putz.

o bicho tá peganuuuuu

2 de dezembro de 2009

Rapaz, a coisa aqui na Bota anda emocionante que é uma beleza.

Vocês sabem que o Berlusca anda tentando de todos os modos passar uma lei que livre o seu próprio rabo, já que está envolvido, como sempre, em trocentos processos judiciários. O Lodo Alfano, que dava imunidade aos quatro mais poderosos do governo, estranhamente não foi aprovado. Agora ele anda doidinho pra aprovar uma outra lei que oficialmente serve pra desatolar o sistema judiciário italiano, que em termos de processos atrasados é pior do que o de Uganda (segundo pesquisas publicadas nos jornais). Não oficialmente, como todo mundo sabe, serve pra reduzir o tempo necessário pra que um processo prescreva. E vejam só que coisa curiosa, se for aprovada os processos nos quais ele é acusado, direta ou indiretamente, vão entrar em prescrição, por pouco. Engraçado, né.

Aí isso dá origem a várias coisas. Uma vai ser o No-B Day (no Berlusconi Day), protesto em Roma que não sei quando vai ser. Outra foi o escândalo que rolou ontem, que na verdade escândalo não seria se esse fosse um país normal. O presidente da Câmara, Fini, ex-fascistoso mas que ultimamente me parece ser a única pessoa lúcida desse país, foi pego comentando com um colega que Berlusconi está confundindo aprovação popular com imunidade total. Em um país normal, esse comentário teria a mesma importância que se ele tivesse dito que o céu é azul, já que em ambos os casos trata-se de uma coisa tão óbvia e indiscutível que não tem nem graça. Mas como a Bota é a Bota, aaaaah, crianças, fez-se um escarcéu, um escândalo, os jornais só falam disso e Berlusca, muito puto da vida, petulantemente disse que Fini “tem que se explicar, senão está fora”.

Esse aspecto do “ou comigo ou contra mim” é a coisa mais idiota, estúpida, maniqueísta, prejudicial da política italiana. Nesse ponto a Itália e o Brasil são praticamente gêmeos, já que em terras tupiniquins a coisa funciona do mesmo jeito, até onde eu sei. Há meses – há VARIOS meses – não se faz mais nada nesse país que não seja legislar contra ou a favor do Berlusconi. Não se faz absolutamente NADA pelo país, pra conter a crise, pra ajudar quem tá na merda, pra modernizar essa carroça medieval que é esse país, nada. Nada, nada, nada; o governo trabalha pra livrar a bunda do Berlusconi e a oposição trabalha pra tentar pulverizar esse filho da puta. Todo o resto ficou esquecido.

Depois ainda reclamam quando a imprensa de outros países sacaneia.

Incidência de TSI em espécimes de Carolinus filhadepacae

26 de novembro de 2009

Abstract

O presente estudo analisa a incidência e o caráter de Terríveis Semanas Insones (TSI) em espécimes de Carolinus filhadepacae, com o objetivo de determinar suas causas e de identificar possíveis soluções. Episódios de TSI tem grande importância econômica e de saúde pública, visto que genitores com déficit de sono rendem menos no trabalho e tendem a dirigir mal, comportar-se mal com terceiros, comer mal e pular sessões de exercícios físicos.

Materiais e métodos

O estudo foi realizado observando um espécime de Carolinus filhadepacae no seu habitat natural, em dois meses consecutivos (outubro e novembro de 2009).

Descrição

No mês de outubro de 2009 o espécime em questão apresentou somente uma TSI, após a qual voltou a sleep through the night (STTN) como vinha fazendo anteriormente. Durante a TSI de outubro o espécime não só despertava várias vezes durante a noite, mas não era capaz de adormecer novamente, permanecendo por longos períodos (de 1 a 3 horas) em um estado que os observadores chamaram de “assanhamento intenso”. Tal estado incluía ficar em pé, falar, rir, escalar os genitores e procurar brinquedos. Entretanto, era claro o estado de necessidade intensa de sono, pois o espécime continuava a esfregar os olhos com as mãos e a coçar a cabeça, sinais claros de vontade de dormir.

O episódio de TSI no mês de novembro de 2009 durou quase o mês inteiro, mas assumiu um caráter completamente diferente. De fato, não houve poucos episódios de despertar total com assanhamento intenso e atividade física acelerada, mas sim numerosos episódios de leve despertar, não necessariamente relacionados à perda da chupeta, rapidamente resolvidos com apenas alguns segundos de colo.

Conclusão

A diversidade dos episódios e a ausência de relações óbvias com eventos particulares levou os observadores a concluir que sua possível causa seja o aparecimento da primeira dentição, que apresenta sintomas claros (esfregação das gengivas, excesso de salivação, irritabilidade, resmungos contínuos).

Mais estudos são necessários para determinar possíveis soluções para o problema, visto que os tradicionais geis contra dor nas gengivas e paracetamol não foram eficazes. Espera-se, contudo, que não haja mais episódios de TSI nos próximos meses.

o crucifixo

5 de novembro de 2009

Essa semana aconteceu uma coisa extraordinária.

A Corte Europeia dos Direitos Humanos decidiu que crucifixo em sala de aula viola a liberdade de religião, e condenou o estado italiano a pagar uma quantia praticamente simbólica como indenização por danos morais à mulher que recorreu à Corte, uma finlandesa de cidadania italiana (a história completa está aqui, com a entrevista feita com a família, em italiano). Fiquei emocionada quando ouvi a notícia e mais ainda depois que soube que todo o suporte legal foi dado pelos advogados da UAAR, da qual sou sócia. Ficamos todos emocionados, embora tudo o que está acontecendo agora fosse altamente previsível.

De maneira geral, todos os políticos criticaram a decisão, lógico, porque ninguém tem coragem de ficar contra a Igreja. Berlusconi já disse que vai recorrer, claro. Vários prefeitos disseram coisas tão simpáticas quanto “podem morrer todos eles, mas o crucifixo fica”. Outros escreveram cartas aos diretores das escolas “convidando-os” a expor o crucifixo nas salas. Os argumentos de quem é contra a decisão são dois, e vamos combinar que são os clássicos argumentos de quem não pensa: 1) o cristianismo é uma tradição italiana (imediatamente neguinho comentou, no fórum da UAAR, “vamos pendurar uma pizza em cada sala de aula então!”), e 2) o crucifixo é o símbolo do laicismo italiano. Tipo assim, hellooooooooo crucifixo laico? Oquei, oquei, não dá pra discutir, lógica não é o forte dessa gente.

O problema, logicamente, não é o crucifixo propriamente dito. É um símbolo, de péssimo gosto, por sinal, e mais nada. O problema, como sempre, é o que está por trás dele. E o que está por trás é exatamente esse comportamento arrogante desses prefeitos que, em vez de obedecer a uma lei europeia que tem poder legal na Itália, e que está certa, visto que segundo a constituição italiana este país é laico, fazem comentários absurdos como esses acima. Vou contar outra historinha pra ilustrar melhor.

Há alguns dias morreu uma senhora idosa em Padova (Pádua). Declaradamente ateia e mãe de um membro ativo da UAAR, ela tinha declarado expressamente que não queria nenhum ritual religioso quando morresse. Mas o padre da paróquia local, que fica rondando o hospital onde a velha morreu, cismou que quer dar a extrema-unção. Não só cismou: disse que assim que a família relaxar a vigilância ele vai lá dar os paramentos escondido, que o hospital “é casa dele e ele faz o que quiser”.

Minha mãe diz que nesses casos é melhor deixar pra lá porque jogar aquela aguinha idiota e vomitar meia dúzia de palavras sem sentido sobre uma virgem que pariu um deus “não faz mal”. É claro que não faz mal, já que rezar tem o mesmo efeito de ler uma receita de sopa de cebola, ou um trecho do Código Civil, ou o manual da sua máquina de lavar roupa. O problema não está na reza propriamente dita, assim como não está no crucifixo propriamente dito. Está no poder intocável que esses parasitas católicos tem, no dinheiro que eles sugam, na lavagem cerebral que fazem, no atraso no qual insistem em deixar esse país (e metade do planeta) impedindo as pessoas de pensar por si mesmas e de criticar o que quer que seja. Isso tem que acabar. TEM QUE ACABAR. Essa gente horrível tem que entender que nem todo mundo pensa como eles, que nem todo mundo está cagando pro que eles dizem, que tem gente que quer que vão todos pra puta que o pariu e que parem de indoutrinar as crianças, que a religião é, de verdade, the root of all evil. Se ninguém fizer oposição nunca eles vão continuar intocáveis sempre. Toda revolta tem que começar de algum modo, e espero que esse tenha sido um sinal de que uma lenta mas decidida onda anticatólica está se formando.

O resultado do recurso vai sair em breve, e se a decisão da Corte não mudar essa vai ser a solução final pra história; não há mais possibilidade de recurso ou apelo. Se assim for, vai abrir precedentes. E o dia em que a Carolina entrar na escola, se tiver crucifixo na sala de aula o bicho vai pegar, amiguinhos.

piuí

2 de novembro de 2009

Eu adoro andar de trem. Acho um meio de transporte fenomenal. Além das vantagens óbvias – não polui, é mais barato – ele tem duas outras que eu considero fundamentais: é MUITO mais seguro do que andar de carro entre os motoristas selvagens aqui da Bota, e, putz, DÁ PRA LER! Dá-pra-ler. Dá pra ler no trem, cês tão entendendo? (Alguém vai dizer “ler ou trabalhar”, mas eu sou daquelas que acredita que o trabalho aborrece o homem, dá trabalho demais e atrapalha a vida, por isso tento pensar no assunto o menos possível. Além do mais acho que o lento passar da paisagem é perfeito pra descansar os olhos do livro, pra repetir mentalmente uma bela frase, pra tentar lembrar o nome de um personagem, pra absorver uma descrição e fazê-la funcionar no céLebro.)

Aqui na Itália, e em particular no interior da Libéria, onde eu moro, os trens são uma merda. São sujos (vocês devem lembrar da história dos carrapatos) e atrasam sempre, sempre, sempre. Não lembro se eu cheguei a comentar aqui, mas uma vez perguntei ao hominho da estação em Perugia por que raios o trem das 19:15 estava sem-pre atrasado, e a explicação dele me deixou de boca aberta. Vou tentar explicar brevemente antes de continuar com a minha reflexão ferroviária.

Os tipos de trem em circulação por aqui são os seguintes: diretto, regionale, inter-regionale, InterCity e Eurostar. Nunca entendi a diferença entre os três primeiros, que são os famosos catejecas. O InterCity é melhorzinho mas na única vez que peguei achei o trem velho demais pra diferença de preço. O Eurostar é o bam-bam-bam dos trens: custa beeem mais caro, tem beeeem menos paradas, em teoria é beeeem mais rápido e, ao contrário dos catajecas, seu bilhete tem dia e data pra usar e lugar marcado.

Pois então. O tal trem das 19:15 de Perugia pra Foligno, que era o que eu pegava pra descer em Assis, fazia conexão com um Eurostar que vinha de Milão. Como passageiro de Eurostar que perde conexão é reembolsado, a empresa prefere atrasar TODAS as conexões se o Eurostar partir com atraso pra não ter que reembolsar os passageiros desse trem. Os passageiros de todos os outros trens que se fodam. Então tá né.

Mas então. Como eu já cansei de dizer aqui, a Itália é lanterninha europeia em praticamente tudo, e no caso dos trens também não faz por menos. Além do transporte de passageiros ser ridiculamente eficiente, o transporte de mercadorias por via ferroviária é um dos menores da Europa: só 10% de tudo o que circula no país viaja de trem. É muito, muito pouco. Isso eu fiquei sabendo ontem, vendo Report (que eles pronunciam “réport”…), o único programa de jornalismo investigativo da televisão italiana, aproveitando que a Carolina chapou às nove da noite depois de um megaprograma de índio (more on that later). Em um certo ponto do programa começou-se a falar do acidente em Viareggio que matou mais de trinta pessoas em abril desse ano. O trem de carga simplesmente saiu voando dos trilhos e foi parar entre as casas ao redor da ferrovia. Não se sabe exatamente o que houve ainda, mas basicamente o lance é o seguinte: uma peça de um dos vagões estava fodidaça, com uma rachadura gigante. Tinha sido construída em 1974, na Alemanha. Aí a parada começou a ficar interessante: o vagão tinha sido matriculado na Alemanha e mais tarde foi vendido a uma empresa americana, apesar de fazer a linha Novara-Nápolis e portanto jamais sair do país. Segundo os acordos entre a Ferrovia dello Stato e as empresas de transporte, o dono de cada vagão é responsável pela manutenção, de modo que a Ferrovia dello Stato diz que a culpa foi dos alemães que não fizeram a revisão com ultrassom, o que teria evidenciado a rachadura; a empresa alemã diz que fez a revisão em novembro de 2008 mas que não encontrou defeitos e que portanto o problema era outro. Disso tudo ficou certa uma coisa: o que circula de trem caindo aos pedaços por aí não tá no gibi, porque não é possível inspecionar todos os trens que entram na Itália vindo de outros países (inclusive porque eles não são capazes de inspecionar nem os trens deles mesmos…) e porque, com essa confusão de não saber de quem é o quê, fica difícil apurar quem é responsável por qual coisa. Tudo muito confuso. E muito perigoso.

Não pego trem há muito tempo, mas estávamos considerando ir de trem a Firenze pegar meu visto americano no final do mês e mudamos de ideia. Vai que o nosso vagão também foi construído em 1974 na Alemanha e não fizeram ultrassom nele…

máfia napolitana

30 de outubro de 2009

Vejam o vídeo de uma execução da máfia napolitana. Excelente o comentário do Saviano, pra quem fala italiano.

de ChaLEAN Extreme e coisas da bota

22 de outubro de 2009

O programa funciona assim, ó: são 90 dias no total, 3 fases de 30 dias cada. Burn Phase, Push Phase e Lean Phase. Cada fase tem 4 semanas com 5 dias de malhação e 2 de descanso. Dos 5 dias de malhação, 3 são de weight training (Burn Circuit 1, 2 e 3, Push Circuit 1, 2 e 3 etc) e 2 de cardio.

Praticamente acabei a primeira semana da Burn Phase porque amanhã é dia de descanso e a semana recomeça no sábado. Vamos às minhas impressões até agora, começando pelos pontos negativos:

. Cara, levantar peso É CHATO PRA CARALHO. Nem a Chalene consegue melhorar muito a coisa; é chato chato chato, prontophaley.

. Não tem musiquinha, lógico, porque não é aeróbica. E a falta de musiquinha faz a série ficar praticamente infinita. O tempo não passa, é um certo saquinho.

. E aí entra um outro problema: a Chalene é legal e tal, mas ela é PÉSSIMA em duas coisas, cueing e timing. Nas primeiras vezes que você faz a malhação e portanto ainda não conhece a coreografia, você perde um monte de coisas porque ela simplesmente sai pulando e não avisa qual o movimento a ser feito, pra qual lado, quantas vezes – ou seja, cueing. Como ela fala o tempo todo (aquelas coisas motivacionais de americano que a gente ignora solenemente), esquece de avisar a pobre gorda que agora ela tem que levantar os bracinhos 8 vezes pra esquerda. Também esquece de contar, e erra coreografia pra cacete, inclusive entrando errado na música – zero timing. Eu já conheço todas as séries de cor, então corrijo eu mesma e faço o mesmo número de repetições dos dois lados, mas se você for seguir exatamente o que ela faz é capaz de ficar sarada de um lado e gorda do outro ;) Tudo bem, totalmente contornável.

. O programa alimentar é impossível de seguir. É do tipo high-protein, low carb, e eu sou uma pessoa totalmente carb. Sinto MUITA falta da minha ração de 80 gramas de macarrão integral jogados na salada, da batata cozida pequena junto com o franguinho sem gordura, da minha fatia de pão integral no café da manhã. Aliás, o meu maior problema com programas rígidos assim é o café da manhã: quer acabar comigo é me privar da minha fatia de pão torrada com uma fatia fina de queijo e meia de peito de peru e meu copo de leite desnatado com uma colherinha de chá de cacau sem açúcar. Porque qualquer combinação pão + queijo pra mim é a melhor coisa do mundo, e leite com chocolate é a melhor bebida do mundo. Apesar das opções de café da manhã do programa serem bem legais (quase sempre omelete de claras com algum tipo de queijo e verduras, ou então ricota light ou cottage, que eu adoro), nada disso fica totalmente legal sem um pãozinho e um leitinho. De modo que estou penando – e ODIANDO. Como eu estava indo muito bem antes de começar o programa, comendo de tudo mas pouco e contando minhas calorias com o bodybugg, é isso que eu vou voltar a fazer. Vou só aumentar um pouco as proteínas, porque pegando peso não tem jeito mesmo; eu queria muito um shake de proteínas mas aqui no interior do Gabão essas coisas são impossíveis de achar.

. As séries de cardio são UM PORRE, cheias de jairzinhos, polichinelos e outras coisas horríveis e pré-históricas que eu absolutamente abomino, além de queimar muito menos do que os Turbo Jams. Mas não podem ser substituídos por TJ porque incluem breves intervalos de muitas repetições com pesos leves pra aumentar muscle endurance, que o TJ não tem. Então o que eu estou fazendo é fazer um TJ nos dias dos três circuitos de peso (como eu já disse, a semana tem 3 circuitos de peso e dois de cardio chatão, um seguido de alongamento e outro de abdominais), pra poder ter uma queima calórica que me permita comer decentemente. Note to self: NÃO FAZER CARDIO DEPOIS DO CIRCUITO DE PESO, SUA ANTA! Porque o corpo não aguenta. Mesmo.

O ponto positivo:

. Funciona. De verdade. Em uma semana você sente os resultados; é uma coisa louca. No dia seguinte a um circuito de peso os quadríceps femorais gritam sem parar, socorro, socorro, é uma coisa linda. A parte posterior das coxas chora de dor, uma delícia. A sensação de satisfação, the endorphine kick que rola depois de malhar é mais duradoura porque o músculo fica dolorido muito, muito tempo depois que a parada acabou, ao contrário da aeróbica. E a sensação de poder é muito, muito boa. Você fica se achando, de verdade, e com razão: durante a malhação as pernas tremem, o suor escorre, os músculos berram, você faz um esforço a mais e aumenta o peso e consegue terminar as repetições. E aí você tem todo o direito de dizer EU SOU PHODA, FOI MAL AÊ.

Já perdi 9 quilos do meu peso máximo depois da gravidez. Semana que vem já vou conseguir entrar na minha bermuda-milestone (enquanto não couber nela significa que estou imensa), uma xadrez em tons outonais que custou 10 euros na Sisley e que uso com meia-calça e botas marrons. Vai ficar uma tchutchuca com o casaco fúcsia que comprei na H&M em Paris com a Lulu ano passado, mesmo mal podendo experimentar porque as minhas costas estavam tão largas que eu mal conseguia vestir. Experimentei outro dia pra ver se já estava fechando, e dei uma risada: está ó-te-mo, fechando facinho, acinturado, confortável – LARGO. Lindo.

. Um grupo do Facebook chamado “Uccidiamo Berlusconi” (”Matemos Berlusconi”) acabou de ultrapassar os 14.000 membros.

. Berlusconi cancelou um almoço com o rei da Jordânia porque estava com torcicolo. E no mesmo dia entrou num avião e foi pra Rússia numa viagem diplomática. Quando você acha que o cara já conseguiu ofender todo mundo, ele vai e prova que fundo do poço tem porão. Cacetes estrelados…

brasil II

15 de outubro de 2009

. Neguinho anda revoltadíssimo aqui porque “descobriram” que um senador italiano trabalha em média só 10 horas por semana.

. Depois que o Lodo Alfano foi recusado, Berlusca resolveu atacar de outro lado pra garantir a sua im(p)unidade e quer acelerar a reforma do sistema judiciário. Até aí tudo bem, já que a justiça italiana é lenta mesmo e volta e meia ouço na televisão que fulano foi condenado pelo crime cometido há vinte anos atrás (não tô brincando). O pequeno detalhe que faz a diferença é que essa reforma inclui a submissão do judiciário ao executivo. Então tá.

. Tava rolando uma proposta de lei que transformava homofobia em crime. Logicamente não foi aprovada, inclusive tendo votos contra da esquerda. Bafafá total e reprovação pública da UE.

. A UE deu outro pito na Itália por causa da dívida pública do país, que a UE chamou de “insustentável”.

Peraí, mas eu não tinha saído do Brasil e ido morar na Itália?