barba ensopada de sangue

Várias pessoas me recomendaram esse livro, nem lembro mais de todas, então agradeço coletivamente. O livro é muito legal, escrito de um jeito muito diferente. Altamente recomendado. Ah, é do Daniel Galera.

***

Velho, tu tá obcecado com essa história de renascimento. Vira o disco. Por que é tão importante pra ti saber se existe renascimento?

É importante saber que não existe. Todo o resto parece certo pra mim, mas esse detalhe estraga tudo.

Escuta, nadador. A questão do renascimento nem é muito importante no budismo original. Rolavam altas macumbas no Tibete quando o budismo caiu lá de paraquedas e uma parte da doideira ficou. Mas não é como a reencarnação kardecista. Se tu entende que uma pessoa é só uma aglomeração dinâmica de estados mentais, a ideia de uma alma que pode reencarnar deixa de fazer sentido. O que renasce, arredondando de um jeito grosseiro pra tu entender, são esses estados mentais, que seguem em frente e se recombinam até certo ponto. Assim como teu corpo alimenta plantas e vermes se tu for enterrado no chão. Assim como os átomos do teu corpo são poeira de estrelas.

Os átomos do meu corpo podem ser poeira de estrelas, mas isso não quer dizer que há estrelas em mim.

Parem de falar como hippies.

Entendeu o que eu quero dizer, Bonobo? A estrela morreu, eu vou morrer. Não faz diferença. Os átomos não eram dela. Meus estados mentais não são meus. E que porra é essa de mente? Acho que é só um jeito espertinho de acreditar em alma. É o restinho da permanência que os budistas guardam embaixo da cama.

Criamos um monstro, Bife.

Eu avisei antes. O ideal é nem começar.

A vida não pode continuar depois da morte. Não pode. Seria ridículo. Se provarem que continua eu me mato.

Mas aí não ia adiantar.

Tu é uma peça mesmo. O desgraçado mais cético que eu já vi.

Não sou cético. Só não acredito em qualquer coisa.

Se Deus existisse ele ia se divertir contigo.

Leopoldo ergue a garrafa de vidro e soluça.

Um brinde à crença apaixonada de que nada disso aí existe.

***

Mas minha parte preferida foi a que me fez ter um ataque de riso na escola de dança da Carol. É meio longuinho mas vale a pena.

***

(…) Beta começa a latir para o Bonobo. Depois de uma dúzia de latidos ela para com a mesma falta de motivo com que havia começado, lambe os dentes, olha em volta como se também estivesse positivamente surpresa consigo mesma e senta no tapete. O Bonobo diz que ela está feliz. Ele também acha. Estão enrolando as palavras e desistindo de frases no meio do caminho. Escuta com clareza o que pretende dizer dentro da cabeça mas a boca deforma as palavras na hora de enunciá-las. Por um longo período ficam em silêncio, deixam a cachaça de lado, apenas olham o mar escuro e a praia iluminada e escutam a trilha sonora épica e os efeitos sonoros violentos do jogo eletrônico no quarto ao lado. Tem a sensação de que esse instante se prolongará indefinidamente, que nada mais acontecerá, como se o mundo tivesse atingido alguma espécie de estado final na cena insignificante que estão protagonizando. O Bonobo pergunta com a voz baixa e circunspecta se ele também está sentindo aquilo. Ele pergunta aquilo o quê. Não tá sentindo nada diferente mesmo?, o Bonobo insiste com o indicador esticado como uma antena e o olhar oblíquo de quem está atento a algum fenômeno muito sutil. Ele presta atenção mas não capta nada além do rumor das ondas, a palpitação de suas têmporas, o espaço girando sob o efeito da bebida. E de repente ele sente. O fedor mais horrendo que já sentiu na vida, uma pestilência quase pastosa de metano concentrado que o faz engasgar no meio da tentativa de gritar um palavrão. O Bonobo gargalha, desmonta da janela com um salto mortal incompleto, bebe um gole da cachaça e faz uma dancinha com a garrafa na mão berrando Peido radioativo rapaziada, vambora! A vida é uma life e a night é uma baby! Ele foge para o banheiro, mija e depois lava o rosto tentando se recuperar do efeito do gás nauseabundo.

Tu tá podre por dentro, Bonobo.

Eu tô é pronto. Vamo pra festa.

Ele ri até perceber que o Bonobo tá falando sério.

Tem uma festinha no Rosa que deve tá começando a ficar animada agora mesmo. Fechamento de temporada de um sushi bar que fica ali perto da pousada. Vamos voltar pro quiosque e pegar o meu carro.

Tu tem carro?

Tenho. Bora. Chama o Altair ali.

Descobrem que Altair desmaiou com o controle do video game nas mãos. Está meio sentado e meio deitado entre a parede e o piso de azulejos castanhos com o jogo travado na tela de Continue?. Tentam acordá-lo sem sucesso. Derramam um copo d’água na sua cabeça. O Bonobo dá uns tapas no seu rosto. Altair não dá sinal nenhum de que possa despertar. Decidem deixá-lo no apartamento, deitado de lado em cima do tapete do quarto, com a chave reserva bem à vista na mesa da sala. Troca de camiseta e tranca as persianas enquanto o Bonobo tenta contatar pessoas no celular. Tem umas amigas minhas que iam pra lá, diz. As amigas não atendem. Outro conhecido atende e diz que o pessoal tá chegando. Tá começando a esquentar. Ele deixa Beta sair e tranca a porta por fora. Andam a passos largos pela trilha e depois pela areia. Dessa vez as gaivotas em repouso saem correndo em direção à água e algumas levantam voo. O Bonobo olha por cima do ombro.

Tu viu que a tua cachorra saiu junto? Ela tá nos seguindo.

Nem fudendo eu ia deixar ela trancada lá com o Altair.

Já passa da meia-noite e a cidade está vazia. Caminham por cima da faixa central da avenida até a esquina do quiosque de Altair. O Bonobo entra no terreno chutando as latinhas vazias e dando pulinhos.

O que tu foi fazer aí, ô sequelado? Cadê teu carro?

O Bonobo se aproxima da carcaça do Fusca e começa a forçar a maçaneta.

Não é possível.

Quê?

Isso é o teu carro?

Sim. É o Tétano.

Esse troço anda? Achei que era ferro-velho.

Anda pra caralho. Só toma cuidado quando entrar.

O Bonobo consegue abrir a porta do motorista e se acomoda no banco. Ele dá a volta no Fusca e fica espremido entre o carro e o muro tentando abrir a porta do lado do passageiro. A maçaneta corroída precisa ser pressionada de um jeito bem certinho para acionar o mecanismo. A lataria está coberta de padrões fractais de ferrugem e tinta bege descascada. Do teto se projetam as duas forquilhas enormes de um suporte de bagagem capaz de acomodar um barco pequeno. Há furos e arestas pontiagudas por toda parte. Os pneus estão tortos, carecas e meio vazios. Entra com cuidado, tentando não se cortar. Do assento do banco do passageiro resta apenas uma armação de hastes de ferro maleáveis coberta por almofadas velhas e um papelão dobrado. O encosto de espuma mole está relativamente intacto. Em cima do painel há uma estatueta dourada de um buda sentado com um sorrisinho no canto da boca e lóbulos da orelha hipertrofiados caindo sobre os ombros. Assobia para Beta. A cachorra contorna o carro e sobe no colo dele com um salto. Ele a afaga, elogia sua disposição e a acomoda no banco traseiro, que está coberto por uma canga de praia do Grêmio. Vê a bateria acomodada atrás do banco do motorista no meio de um emaranhado barroco de fios elétricos. O Bonobo gira a chave na ignição. O motor do Fusca dá uma risada.

Demora um pouco pra pegar, mas depois que pega não apaga.

Na quarta tentativa o motor pega. O Bonobo acelera fundo e produz um ronco escandaloso até obter um par de explosões no escapamento.

Pega o meu tapa-olho ali no porta-luvas por favor.

Meu o quê.

Meu tapa-olho.

Abre o porta-luvas e encontra um tapa-olho feito de pano e elástico preto no meio de uma barafunda de lenços de papel usados, cartões, barras de parafina, camisinhas, uma estopa encardida, uns óculos de sol quebrados. O Bonobo pega o tapa-olho e o ajusta em volta da cabeça e em cima do olho direito.

É pra não enxergar duplo.

Somente então ele engata a primeira. O carro anda. O capim e os destroços do quiosque raspam no fundo. A sensação é de estar viajando dentro do próprio motor. Saem de Garopaba pela estrada estadual. Um carro cruza no sentido oposto e o asfalto iluminado surge sob seus pés através de um buraco no piso. O Bonobo ziguezagueia levemente na pista mas levando em conta seu estágio de embriaguez e o estado do veículo ele até que dirige de maneira reconfortante, compenetrado, em velocidade moderada, com a vista limitada pelo absurdo tapa-olho e debruçado sobre o pequeno volante de forma a quase encostar o nariz simiesco no para-brisa. Criaturas como uma vaca ou um ciclista ganham vida num clarão e voltam a ser assombrações quase no mesmo instante. Entram à esquerda no acesso da praia do Rosa. É necessário parar o Fusca quase totalmente para transpor os quebra-molas. O calçamento plano de lajotas dá lugar às ladeiras de chão batido. A embreagem do Fusca não retorna sozinha à posição normal depois de acionada. Para lidar com o problema o Bonobo amarrou um pedaço de corda de varal azul ao pedal e ao puxador da porta. A operação de tirar a mão esquerda do volante e puxar a corda no momento exato após cada troca de marcha é complicada e exige um tanto de ginga e sincronia. Nas manobras mais complexas o motorista lembra um titereiro controlando o boneco de um automóvel.

you are not so smart

Graças à Lara André, que além de salvar blogs indefesos contra terríveis malwares ainda dá ótimas dicas de livros e posta lindas fotos de bichos, baixei esse livro aqui no Kindle. É simplesmente a coisa mais interessante que já li nos últimos tempos.

Fiz um curso de roteiro cinematográfico com a Newlands há muitas eras glaciais atrás, e destrinchamos O Silêncio dos Inocentes cena por cena, fala por fala, close por close. Nunca mais consegui ver um filme sem fazer esse tipo de análise. Não, não tira a graça da coisa, muito pelo contrário: hoje sou capaz de apreciar de verdade um roteiro bem escrito, de entender como um bom diretor faz diferença, de identificar de maneira mais ou menos certeira de quem é a culpa quando o filme é uma merda.

Um dos meus livros preferidos é Orality and Literacy, que explica, entre muitas outras coisas, como é impossível voltar a pensar como analfabeto depois que você aprende a ler e escrever (falo de ler e escrever direito, não de gente que não entende o que lê e que só sabe escrever o suficiente pra garranchar “pagar ceguro do carro hoge” no calendário). Saber ler e escrever direito muda o seu modo de pensar, e você nunca mais vai conseguir voltar atrás. Não dá pra desaprender a pensar dessa nova maneira; não é possível voltar atrás.

Esse livro também é assim, do tipo que muda paradigmas. Você começa a ver com outros olhos a sua relação com os outros, com a mídia, com as suas próprias emoções. E nunca vai conseguir voltar a ser aquele pobre inocente (leia-se otário) de antes, porque quando o seu cérebro sabe que está sendo enganado, o engano acaba. Não sei se estou conseguindo me explicar direito, mas leiam porque é MUITO interessante. Ainda nem terminei, mas estou achando tão sensacional que resolvi compartilhar aqui em vez de escrever o post que está na minha cabeça há meses (vou ver se escrevo essa semana ainda).

Um trecho, que nem é o mais interessante do que li até agora mas acho que exemplifica bem a nossa idiotice nativa:

“In 1970, psychologists Bibb Latane and John Darley created an experiment in which they would drop pencils or coins. Sometimes they would be in a group, sometimes with one other person. They did this six thousand times. The results? They got help 20 percent of the time in a group, 40 percent of the time with one other person. They decided to up the stakes, and in their next experiment they had someone fill out a questionnaire. After a few minutes, smoke would start to fill the room, billowing in from a wall vent. They ran two versions of the experiment. In one, the person was alone; in the other, two other people were also filling out the questionnaire. When alone, people took about five seconds to get up and freak out. Within groups people took an average of 20 seconds to notice. When alone, the subject would go inspect the smoke and then leave the room to tell the experimenter he or she thought something was wrong. When in a group, people just sat there looking at one another until the smoke was so thick they couldn’t see the questionnaire. Only three people in eight runs of the group experiment left the room, and they took an average of six minutes to get up.

The findings suggest the fear of embarrassment plays into group dynamics. You see the smoke, but you don’t want to look like a fool, so you glance over at the other person to see what they are doing. The other person is thinking the same thing. Neither of you react, so neither of you becomes alarmed. The third person sees two people acting like everything is OK, so that third person is even less likely to freak out. Everyone is influencing every other person’s perception of reality thanks to another behavior called the illusion of transparency. You tend to think other people can tell what you are thinking and feeling just by looking at you. You think the other people can tell you are really worried about the smoke, but they can’t. They think the same thing. No one freaks out. This leads to pluralistic ignorance – a situation where everyone is thinking the same thing but believes he or she is the only person who thinks ti. After the smoke-filled room experiment, all the participants reported they were freaking out on the inside, but since no one else seemed alarmed, they assumed it must just be their own anxiety.

The researches decided to up the ante once more. This time, they had people fill out a questionnaire while the experimenter, a woman, shouted in the other room about how she had injured her leg. When alone, 70 percent of people left the room to check on her. When in a group, 40 percent checked. If you were to walk along a bridge and see someone in the water screaming for help, you would feel a much greater urge to leap in and pull them to safety than you would if you were part of a crowd. When it’s just you, all the responsibility to help is yours. The bystander effect gets stronger when you think the person who needs help is being harmed by someone that person knows. Lance Shotland and Margaret Straw showed in a 1978 experiment when people saw two actors, a man and a woman, pretending to physically fight, they often wouldn’t intervene if the woman shouted, “I don’t know why I ever married you!” People helped 65 of the time if she instead shouted, “I don’t know you!” Many other studies have shown it takes only one person to help for others to join in. Whether it is to donate blood, assist someone in changing a tire, drop money into a performer’s coffers, or stop a fight – people rush to help once they see another person leading by example.

One final, awesome example is the Good Samaritan experiment. Darley and Batson in 1973 got a group of Princeton Theological Seminary students together and told them to prepare a speech on the parable of the Good Samaritan from the Bible. The point of the parable is to stop and help people in need. In the Gospel of Luke, Jesus tells his disciples about a traveler who is beaten and robbed then left to die along a road. A priest and another man walk past him, but a Samaritan stops to help even though the man is Jewish and Samaritans weren’t in the habit of helping out Jews. After filling out some questionnaires, with the story fresh in their minds, some groups were told they were late to give the speech in a nearby building. In other groups the subjects were told they had plenty of time. Along their path to the other building an actor was slumped over and groaning, pretending to be sick and in need of help. Of the seminary students who had plenty of time, about 60 percent stopped and helped. The ones in a rush? Ten percent helped, and some even stepped over the actor on their way.

So the takeaway here is to remember you are not so smart when it comes to helping people. In a crowded room, or a public street, you can expect people to freeze up and look around at one another.

Knowing that, you should always be the first person to break away from the pack and offer help – or attempt escape – because you can be certain no one else will.”

and now to something completely different

Olha, esse povo zen me tira do sério. Vocês acham (aham dona Alice) que eu sou muito radical, mas eu não tenho ideias radicais, o lance é que defendo radicalmente as ideias que eu considero corretas. Vejam só se neguinho não anda levando esse negócio de vida alternativa e natureba muito a sério: num grupo que acompanho no Facebook porque volta e meia aparece alguma coisa interessante, alguém abriu um thread perguntando aos outros se viam algum problema em deixar o filho “smash” um montinho de batata-doce amassada em vez de bolo na sua festa de aniversário de um ano, porque ela é “contra o açúcar”. Cara, na boa, eu mandar essa mulher tomar no cu pra deixar de ser mala sem alça é ser radical? Ou radical é ela e por isso mesmo é uma mala? Eu não tenho tolerância com gente intolerante, infelizmente. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, né não? Tento não comer (nem dar à Carol) coisas horrorosas cheias de açúcar, gordura trans e coisa e tal, mas não posso deixar que isso governe a minha vida, né não? Sou patrulheira da gramática e de nada mais.

Então vamos mudar de assunto porque não tenho saco pra discutir parto com quem não entende nada do assunto e entra em transe sexual quando está parindo; se tem uma coisa que eu detesto é riponga era de aquário.

***

Estou lendo um livro que o meu amigo Marc, ítalo-americano e referente do círculo de Perugia da UAAR, me recomendou. Tenho com ele as conversas mais interessantes da minha vida, atualmente; passamos de filologia a filosofia e história com a maior naturalidade, e como lemos coisas muito diferentes, embora tenhamos muitos interesses em comum, acabo sempre aprendendo alguma coisa com ele (e ele comigo, espero). O último livro que ele me recomendou foi esse, The Swerve, que fala da importância da redescoberta de um poema de Lucrécio que aparentemente mudou o rumo de hm, tudo. Ainda estou bem no comecinho, e é prosa interessante e bem escrita mas que tem que ser lida com atenção, mas já sublinhei várias coisas. A julgar pelo rumo que o livro está tomando e pelo resumo que o Marc me deu, é uma versão singular do How the Irish Saved Civilization, que eu AMO de paixão e vivo relendo. A história desse poema, em particular, é bem interessante, e acaba caindo no lance do quanto a religião é absolutamente desnecessária se simplesmente aceitarmos que somos pó de estrelas e isso deveria dar e sobrar, mas quando terminar o livro vou ter mais detalhes pra comentar esse aspecto específico do livro. Enquanto isso copio aqui dois parágrafos que sublinhei integralmente agora há pouco.

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Benedict did not absolutely prohibit commentary on the sacred texts that were read aloud, but he wanted to restrict its source: “The superior”, the Rule allows, “may wish to say a few words of instruction”. Those words were not to be questioned or contradicted, and indeed all contention was in principle to be suppressed. As the listing of punishments in the influential rule of the Irish monk Columbanus (born in the year Benedict died) makes clear, lively debate, intellectual or otherwise, was forbidden. To the monk who has dared to contradict a fellow monk with such words as “It is not as you say”, there is a heavy penalty: “an imposition of silence or fifty blows.” The high walls that hedged about the mental life of the monks – the imposition of silence, the prohibition of questioning, the punishing of debate with slaps or blows of the whip – were all meant to affirm unambiguously that these pious communities were the opposite of the philosophical academies of Greece or Rome, places that had thrived upon the spirit of contradiction and cultivated a restless, wide-ranging curiosity.

All the same, monastic rules did require reading, and that was enough to set in motion an extraordinary chain of consequences. Reading was not optional or desirable or recommended; in a community that took its obligation with deadly seriousness, reading was obligatory. And reading required books. Books that were opened again and again eventually fell apart, however carefully they were handled. Therefore, almost inadvertently, monastic rules necessitated that monks repeatedly purchase or acquire books. In the course of the vicious Gothic Wars of the mid-sixth century and their still more miserable aftermath, the last commercial workshops of book production folded, and the vestiges of the book market fell apart. Therefore, again almsot inadvertently, monastic rules necessitated that monks carefully preserve and copy those books that they already possessed. But all trade with the papyrus makers of Egypt had long vanished, and in the absence of a commercial book market, the commercial industry for converting animal skins to writing surfaces had fallen into abeyance. Therefore, once again almost inadvertently, monastic rules necessitated that monks learn the laborious art of making parchment and salvaging existing parchment. Without wishing to emulate the pagan elites by placing books or writing at the center of society, without affirming the importance of rhetoric or grammar, without prizing either learning or debate, monks nonetheless became the principal readers, librarians, book preservers and book producers of the Western world.

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É ou não é interessante pacas?

mais TMI

O outro livro que mencionei, completamente oposto ao Skinny Bitch, é o Deep Nutrition. Apareceu, como a maior parte das coisas interessantes que passei a conhecer nos últimos anos, num thread de comentários de um review na Amazon (se não me engano o review era do Wheat Belly). Fiquei muito curiosa e comprei no Kindle pra ler logo; varei a madrugada lendo. E fiquei de boca aberta.

A autora é médica e baseou o seu livro em inúmeros estudos científicos sérios, ao contrário das duas grosseironas de Skinny Bitch. Mas a teoria dela é uma coisa muito doida.

Basicamente a coisa tem como base histórica o dentista Weston Price, que, bolado com a quantidade de gente com dentes tortos na sua prática clínica, resolveu sair pelo mundo pra ver se a prevalência de problemas odontológicos era homogênea nas diferentes “raças” humanas (na época ainda se falava de raça). Descobriu três coisas: uma, que quanto mais “primitivas” as populações, menos problemas nos dentes as pessoas tinham. Duas, que quanto mais primitivas as populações, menos problemas de saúde em geral as pessoas tinham. Três, que quanto mais primitivas as populações, mais bonitas eram as pessoas.

Corta pro futuro, pra um cirurgião plástico chamado Dr. Marquadt, que desenvolveu uma “máscara”, uma espécie de template indicando os ângulos e as proporções ideais pra um rosto bonito. Não importa a qual etnia uma pessoa pertença, se ela for considerada bonita é porque o seu rosto se encaixa nessas tais proporções matemáticas, pois o corpo cresceu de acordo com as regras matemáticas da natureza. Então a teoria da autora do livro é que a beleza não está nos olhos de quem vê, mas sim em uma estrutura óssea do crânio bem feita e bem proporcionada, o que também resulta em dentes perfeitamente posicionados, sem se acavalar ou se afastar, sem falta de espaço pros sisos, sem problemas de mastigação ou respiração ou digestão, e de modo geral em menos problemas de saúde. Já essa primeira teoria me deixou perplexa, essa conexão entre beleza e saúde que aparentemente é uma coisa muito clara e mensurável.

Depois ela entra no assunto de epigenética, assunto do qual tenho ouvido falar muito na rede ultimamente e que me interessa assaz. Trata-se, de maneira muito resumida, de alterações nos genes que podem ser herdadas pelas gerações seguintes. Não estamos falando exatamente da história do Lamarck e da girafa, mas é quase isso. É uma coisa meio complicada e como a autora é médica ela vai fundo na parte biológica da coisa; pra quem não tem formação nessa área imagino que seja meio cansativo de ler, mas vale a pena. Aparentemente os genes respondem ativamente a alterações ambientais, representadas sobretudo pela quantidade de essa ou aquela substância química que é resultado direto do que a gente come. E essas respostas MODIFICAM os genes, que são então herdados já modificados pela geração seguinte. É interessante pra caramba, leiam que vale a pena.

A partir daí ela continua nas suas próprias pesquisas e observações, descobrindo que quanto mais uma população se mantém fiel às próprias raízes gastronômicas, mais saudáveis (e bonitas) são as pessoas, pois todas essas dietas “primitivas”, tradicionais, embora sejam muito diferentes entre si, têm as mesmas 4 características em comum (explico já), fornecendo portanto todos os nutrientes mais importantes pra que os indivíduos acumulem alterações epigenéticas favoráveis e as passem pra frente, tendo filhos saudáveis e bonitos e por aí vai.

Essas quatro características, que ela chama de Four Pillars of World Cuisine, são: 1) carne com osso, 2) miúdos, 3) alimentos fermentados e germinados, 4) verduras e frutas frescas e cruas. Ela dá explicações, exemplos e estatísticas muito, MUITO convincentes pra cada um dos pillars. Dá vontade de sair correndo pra fazer uma faxina na geladeira e dar um pulo no mercadinho da esquina pra começar logo a comer tudo diferente. Ela diz pra reduzir carboidratos se você quiser perder peso e dá uma série de explicações perfeitamente plausíveis pra isso, mas não corta nada (a não ser, lógico, farinha/arroz/cereais em geral refinados e açúcar de cana, além dos óbvios alimentos processados). Ela também enfatiza muito a importância de fazer exercício físico, e fala dos HIIT (high-intensity interval training), que é a base do Turbo Fire, de maneira positiva. Fala de como é importante fazer musculação, sempre dando explicações biológicas plausíveis. Lendo o livro me senti como nos primeiros anos de faculdade, quando eu ainda estava empolgadíssima com tudo aquilo, descobrindo como as coisas funcionam. Na verdade ainda acho fisiologia uma coisa interessantérrima, patologia idem; meu problema com a medicina é outro e assunto pra um outro post, talvez, um dia, quem sabe.

Enfim, o livro é uma das coisas mais interessantes que eu já li nos últimos anos. Aprendi muito sobre nutrição e genética, pra não falar de antropologia gastronômica, mas não conseguiria jamais colocar em prática. Detesto ter que lidar com qualquer outra parte de bichos que não seja tecido muscular. Não tenho paciência pra ficar fazendo caldo disso, caldo daquilo. Como vocês estão carecas de saber, sou totalmente frutofóbica e acho salada um negócio muito triste (prefiro verduras cozidas; como praticamente um brócolis inteiro por dia e uma quantidade enorme de espinafre, cenoura, repolho, alho-poró, couve-de-Bruxelas, abobrinha e tal). Tudo de fermentado que eu já experimentei achei intragável; alguns alimentos germinados até rolam mas fermentado não dá.

Normalmente não acho que existam fórmulas one-size-fits-all em termos de saúde porque cada um é cada um, mas as explicações que a autora dá são tão plausíveis e tão bem fundadas cientificamente que eu juro que acredito que esse modo de comer que ela promove faria bem a qualquer um. Mas eu não consigo porque sou chata pra comer e preguiçosa ainda por cima, de modo que não dá, de jeito nenhum. Então preciso arrumar, no meio dessa quantidade cavalar de informações, um sistema que funcione pra mim, levando em consideração meus dois maiores problemas food-related, a compulsão alimentar e a psoríase. Como eu disse pro Roberto num comentário ali embaixo, pra uma pessoa normal tudo isso pode ser uma palhaçada gigante, pois basta comer um pouco de tudo e pronto, mas pra quem é viciado em comida “um pouco de *inserir alimento não exatamente saudável*” equivale a “uma cheiradinha só” no caso do viciado em cocaína. Não existe. Porque depois que você começa não consegue mais parar. Então é melhor simplesmente abolir mesmo, passar longe, viver como se só chegar perto desses alimentos pudesse causar um choque anafilático mortal.

Essas duas semanas que passei sem carboidratos foram muito instrutivas. Entendi duas coisas: a primeira é que não quero viver sem carboidratos porque vou morrer de tristeza. A segunda é que é muito provável que o glúten seja mesmo o meu inimigo número um, tanto em termos de compulsão, porque qualquer alimento com trigo que eu como imediatamente liga a começão desenfreada, quanto em termos da psoríase, que voltou a piorar depois que reintroduzi pão e macarrão na dieta. Também reparei que quando enfio o pé na jaca no pão, macarrão ou biscoitos, fico mole depois, sluggish, como se diz. Vou fazer o teste de intolerância ao glúten porque se der positivo pelo menos o SUS daqui me passa alimentos sem glúten de graça (são caros pra cacete), mas independentemente do resultado vou tentar ficar longe dele. Andei pesquisando receitas de pães e saladas com grãos germinados e achei muita coisa interessante. Agora que temos um supermercado novo cheio de coisas exóticas e uma nova loja “alternativa” em Santa Maria, ambos vendendo coisas que ninguém nunca ouviu falar por aqui, tipo quinoa, milhete e ghee, vai ficar mais fácil. A parte mais difícil vai ser arrumar tempo pra fazer tudo isso, mas dá-se um jeito.

De qualquer maneira, POR FAVOR LEIAM O LIVRO. Até porque estou desesperada pra falar dele com alguém mas não tenho ninguém :P Mas é muito thought-provoking, de verdade; no mínimo vai te deixar curioso/a pra pesquisar mais sobre nutrição.

Pra quem quiser mais informações, o site da autora é esse aqui.

leião!

And now she’s gripping the rail, waiting to see if I’ll do what fat Fanny Peatrow did to save herself. My own mother is looking at me as if I completely baffle her mind with my looks, my height, my hair. To say I have frizzy hair is an understatement. It is kinky, more pubic than cranial, and whitish blond, breaking off easily, like hay. My skin is fair and while some call this creamy, it can look downright deathly when I’m serious, which is all the time. Also, there’s a slight bump of cartilage along the top of my nose. But my eyes are cornflower blue, like Mother’s. I’m told that’s my best feature.

“It’s all about putting yourself in a man-meeting situation where you can-”

“Mama”, I say, just wanting to end this conversation, “would it really be so terrible if I never met a husband?”

Mother clutches her bare arms as if made cold by the thought. “Don’t. Don’t say that, Eugenia. Why, every week I see another man in town over six feet and I think, If Eugenia would just try…” She presses her hand to her stomach, the very thought advancing her ulcers.

I slip off my flats and walk down the front porch steps, while Mother calls out for me to put my shoes back on, threatening ringworm, mosquito encephalitis. The inevitability of death by no shoes. Death by no husband. I shudder with the same left-behind feeling I’ve had since I graduated from college, three months ago. I’ve been dropped off in a place I do not belong anymore. Certainly not here with Mother and Daddy, maybe not even with Hilly and Elizabeth.

“…here you are twenty-three years old and I’d already had Carlton Jr. at your age…” Mother says.

I stand under the pink crepe myrtle tree, watching Mother on the porch. The day lilies have lost their blooms. It is nearly September.

“The Help”, Kathryn Stockett

TMI!

Too much information! Estou ficando maluca!

A Fernanda deixou uma dica literária nos comentários outro dia, e ainda por cima fez a gentileza de me mandar o livro, que li em uma noite insone. Chama-se Skinny Bitch e tenho que admitir que odiei, pero no mucho.

Resumindo a ópera, elas dizem que pra emagrecer precisa virar vegano. Mas vamos por partes.

Odiei porque a linguagem é extremamente americana, extremamente arrogante, extremamente cheia de palavrões (olha que pra eu reclamar de excesso de palavrão é porque a coisa é excessiva MESMO), extremamente know-it-all, extremamente tudo de ruim. Não quero ser chamada de bitch nem de brincadeira e achei muito, muito desagradável a mania de chamar de idiota todo mundo que não segue os preceitos delas.

Odiei porque achei que o livro está cheio de incongruências, dando como certas informações que só estão certas na cabeça das autoras, sem absolutamente nenhuma referência científica (a parte dedicada à bibliografia só dá URLs, nenhum artigo peer-reviewed). Odiei porque elas não levaram em consideração coisas gritantes como o French Paradox e o Italian Paradox, pra não falar das dietas orientais – se produtos de origem animal fizessem tão mal à saúde assim, não existiria nenhum europeu ou asiático (fora os indianos) vivo na face da Terra. Se comer queijo, qualquer queijo, engordasse, como elas dizem de uma maneira muito agressiva em um certo ponto do livro, a França e a Itália já teriam desaparecido do mapa. Se pouco carboidrato fosse tão nocivo à saúde, os esquimós não teriam durado uma geração sequer. Se elas consideram qualquer carne carcaça, pois entra em putrefação assim que o animal morre, então por que não aplicar o mesmo raciocínio às plantas também, pois começam a morrer quando cortadas? Tudo muito dois pesos e duas medidas, sabe, e totalmente sem embasamento científico, o que me irrita profundamente, lógico, eu sendo totalmente anti-fé. Se querem que eu aceite alguma coisa, que me dêem uma explicação científica; esoterismo ou a Verdade Revelada por um ser superior (no caso, elas, teoricamente sabichonas) comigo não colam.

Mas, como a grande maioria dos livros, obviamente excluindo Paulo Coelho e Dan Brown, há algo a se aprender nesse aqui. Apesar do tom sempre desagradavelmente agressivo, elas mencionam algumas verdades sobre o tratamento dos animais. Não só em termos de crueldade (essas partes eu pulo porque me dá vontade de vomitar), mas também da quantidade de substâncias químicas que acabam chegando na gente através dos produtos animais que comemos. Tudo bem que o caso americano é bem extremo; na Europa há leis severas quando o assunto é criação de animais, e eles são muito menos tolerantes aqui com alimentos geneticamente modificados e coisa e tal, e ainda se come de maneira muito mais tradicional, de modo que esses horrores que elas descrevem nos EUA precisam ser arredondados pra melhor quando se fala de Europa. Mas de qualquer forma todos esses são motivos válidos pra deixar de comer produtos animais, ou pelo menos a carne.

Eu não consigo, não consigo MESMO, não pretendo nem tentar porque já sei que não vai dar certo, viver sem ovo, mel e laticínios. Simplesmente não dá. Como ovo TODOS OS DIAS, ovo fresquinho das galinhas da minha sogra, que vivem num galinheiro grande e comem alface e cascas de fruta, felizes da vida. Quando as galinhas dela entram em greve, compro ovos orgânicos no supermercado, garantia de que pelo menos a galinha que os botou não come exclusivamente cereais ou ração de origem animal, coisas que ela não foi programada pra comer, mas sim vegetais. Não posso saber se a galinha foi criada no chão em vez de em gaiolas, porque ou você escolhe orgânico OU no chão (os ovos aqui vêm com um carimbo com um código indicando se são biológicos, de galinhas criadas na terra, de galinhas criadas em gaiola, qual o criador, em qual província etc, é bem legal), mas já é alguma coisa. Compro verduras e legumes orgânicos sempre que possível – nem sempre tem nos supermercados e os mercadinhos onde os produtores vendem diretamente ao consumidor ficam totalmente fora de mão pra mim, tenho que estacionar longe e ir andando, e nesse frio sinceramente não rola. No verão eu vou de bicicleta até a praça, proibida pra carros, e compro no hominho que planta ele mesmo, em pequena escala. Eu sinceramente não noto nenhuma diferença no sabor, mas pelo menos sei (ou espero) que ele use menos produtos químicos.

Também como queijo TODOS OS DIAS, no café da manhã. Quase sempre é um pedaço de Asiago ou scamorza pra derreter no pão, mas ao longo do dia às vezes também mando ver num cottage da vida no lanche, ou como proteína no jantar junto com espinafre no azeite e alho (juro que fica uma delícia). E tomo leite TODOS OS DIAS; simplesmente não consigo imaginar uma vida sem leite. Não é aquela coisa de “oh, se eu não tomar café de manhã eu não acordo”, ou “oh, se eu não tomar vinho no almoço parece que eu não comi”, esse negócio fanático que rola muito por aqui. Simplesmente acho a vida muito chata sem um copo de leite gelado com cacau sem açúcar. Chata, sabe, sem graça. Prefiro não viver sem.

Então vegano pra mim decididamente não rola, embora no caso delas haja a grande vantagem de poder comer porções maiores de carboidrato, porque senão você morre de fome. Mas não consigo, não quero nem começar.

Agora, ando paquerando o vegetarianismo há muito tempo. Em primeiro lugar porque realmente tenho pena dos bichos. Em segundo porque já como bem pouca carne mesmo, desde que vim morar aqui. Cortei a carne vermelha e de porco em outubro, quando comecei mais ou menos a seguir a dieta da psoríase, e não sinto a menor falta. Quero começar a cortar o frango também e ficar só no atum e no salmão, e gradualmente ver se consigo tirar tudo isso. Em terceiro lugar porque é facilmente compatível com a dieta da psoríase. Vai ser uma experiência interessante.

Amanhã ou depois falo do livro oposto a esse, o Deep Nutrition, que me deixou de boca aberta e acendeu aquela luz na minha cabeça, tudo fez sentido.

Beijomeliga.

como eu ia dizendo…

Pouco antes de sair do Brasil a Carol começou a dormir civilizadamente (i.e. sem acordar de madrugada pra tomar mamadeira). E continuou assim pelos 10 primeiros dias de Itália. Aí os malditos molares que faltavam começaram a dar o ar da graça de novo, mas só de leve, sabe, só aquele tiquinho suficiente pra deixar a garota irritada, hiporéxica de novo e, consequentemente, com insônia fome-related. De modo que ando um bagaço.

Ela vira outra criança quando os dentes saem. Fica chata, chata, chata. Normalmente ela acorda de bom humor, distribui beijos pra todo mundo, incluindo as capas dos DVDs preferidos dela, brinca sozinha por um certo tempo, precisando só da minha companhia no mesmo cômodo, ou seja, dá pra levar. Mas quando os dentes saem, ela entra na modalidade Insuportável Plus Deluxe, e já acorda choramingando, não posso sair de perto dela nem um segundo, pede colo o dia inteiro mas reclama e me expulsa quando dou um beijo nela, não quer nem saber do pai, chora de cortar o coração quando entra no carro do avô pra ir pra casa da Arianna, não quer sair de casa, não come merda nenhuma e me deixa enlouquecida, e ainda por cima acorda de madrugada – qualquer hora entre 2 e 5 da manhã – pra tomar a mamadeira salvadora. Sacooooooooo! O pior é que por duas semanas não posso nem contar com a Arianna pra ficar com ela durante a tarde pra eu poder respirar, porque ela e Ettore estão na Romênia tratando de assuntos odotológicos (don’t ask). E o pior ainda é que não para de chover praticamente desde que chegamos, de modo que não podemos ir a lugar nenhum (ela não quer sair de casa mesmo, mas quando o tempo melhora eu forço um pouco a barra e ela vai, nem que fique só meia hora correndo na rua). Quando consigo convencê-la a sair de casa é pra passear no shopping – atenção para o singular.

Mas como tudo na vida tem seu lado positivo, veja só que beleza: como tenho muita, mas digo MOOOITA dificuldade pra pegar no sono, principalmente quando acordo de madrugada, acabo ficando com as noites livres. Não tenho pego muito trabalho porque não dá mesmo, trabalhar de madrugada pra mim é suicídio, não consigo me concentrar, não tenho saco, não quero. Então eu fico lendo até o sono bater, ela acordar de novo ou me dar vontade de malhar, o que vier primeiro. E nessa consegui ler Hunger Games em três dias, um livro em cada madrugada.

Tá, tá, não tem nada de original, Lord of the Flies, Battle Royale etc e tal, li um monte de reviews na Amazon e já sei de tudo isso. Mas Hunger Games é MUITO bom. Muito mesmo. Não vejo a hora de sair o filme (ou os filmes, sei lá).

under heaven

Então. Como eu já tinha comentado aqui, eu tava me coçando toda pra ler Under Heaven, do Guy Gavriel Kay, meu escritor de fantasy preferido. Altas expectativas. Fui lendo meio aos trancos e barrancos, sabe como é, arrumar tempo pra fazer qualquer coisa que não seja Carolina-related é muito difícil, mas consegui. Gostei MUITO, ele escreve muito bem e tal, mas sinceramente não entendi o fuzuê todo ao redor do livro. Achei Tigana bem melhor; é um livro absolutamente sensacional. Não dá pra comparar os dois muito bem porque Tigana é bem mais fantasy (embora o fantasy do GGK seja pouco convencional), mas de qualquer forma continuo achando Tigana a obra-prima dele.

Quando acabei fiquei meio assim sem rumo e acabei seguindo o conselho da Meritxell, minha aluna de português (ela é espanhola; o nome dela é catalão. A quem interessar possa, o “e” se pronúncia “a” em catalão, segundo ela, de modo que o seu apelido poderia ser Mari): comecei La Catedral del Mar, de Ildefonso Falcones. Comprei há muito tempo aqui mesmo na Libreria Grande, depois vi a tal catedral em Barcelona e os meninos chegaram a comentar sobre o livro e disseram que eu absolutamente tinha que ler, mas não sei por que o bichinho ficou esquecido por aqui. Boba! Deveria ter lido antes! Estou adorando, adorando, adorando! Que mané The Pillars of the Earth o quê. Como jeito de escrever nem é nenhuma Brastemp (pense nas maravilhas que escreve o Zafón, por exemplo), mas a história é daquelas que colam e que você PRECISA continuar lendo pra saber o que acontece depois. Está acabando com a minha coluna, porque o livro é grosso e pesado e eu ainda levo um dicionário italiano-espanhol (comprado em Buenos Aires; uma merda mas é o menorzinho que eu tenho de espanhol) junto com ele pra cima e pra baixo. Mas vale a pena, vale a pena.

tem alguém aí?

Vou postar assim como se nada tivesse acontecido, como se isso aqui não estivesse abandonado, tá bom? Tipo, eu finjo que tenho uma vida normal, com tempo pra postar, e vocês fingem que acreditam.

Então. Minha mãe passou quase três meses aqui, desde o final do ano até o aniversário da Carol, e tive a oportunidade de fazer uma coisa que não rolava desde que pari (eu sei que a expressão é feia em português, mas é que em italiano é supercomum e já me acostumei a ouvir “Sabe quem pariu? A Fulana”): ler. Porque há coisas que dá pra fazer com filho em casa, tipo cozinhar, dar uma geral na casa, tomar banho (ela fica no berço dentro do banheiro brincando com as coisinhas dela), pendurar roupa na corda, essas coisa legais. E há coisas que são impossíveis na presença de criança, como ler, ver (ou ouvir) televisão, usar o computador, fazer ginástica. Essa segunda categoria de coisas eu faço quando ela está dormindo, ou então quando ela está na Arianna. Mas como deixar filho na casa da avó pra ler é meio tipo assim o fim da picada, a coisa não tava rolando mesmo. Só consegui quando minha mãe veio: ela ficava com a Carol, eu ia dormir pra me recuperar das noites em branco e lia uma meia horinha antes de pegar no sono.

Logicamente, a oportunidade era preciosa e não podia ser desperdiçada com paulo coelhos e dan browns, pé de pato mangalô três vezes. Então pensei, pensei, pensei e escolhi The Poisonwood Bible, que andava na minha estante há um bom tempo. Gostei MUITO. Muito legal acompanhar as mudanças, a evolução das personagens. Muito legal também aprender pequenas coisas sobre a África, no início, e depois coisas mais hardcore – política, guerras. O texto é muito bem escrito, as personagens são marcantes, os subplots que vão aparecendo conforme a história vai avançando se encaixam muito bem. Ótima pedida.

Depois desse eu dei um megamole e comecei a ler uma chatura que levei séculos pra terminar: The Book Thief, que se não me engano foi traduzido no Brasil como A Menina que Roubava Livros e, que se não me engano de novo, teve capa da Newlands. Caralho, exclamou a princesinha, QUE LIVRO CHATO! Eu não sei de onde tirei a ideia idiota de comprar um livro sobre a WWII. Detesto esse assunto, detesto, detesto, acho que já deu o que tinha que dar, chega, torrou a paciência, sim, tadinhos dos judeus e coisa e tal. Porreeeeeeee! Terminei porque sou teimosa e porque a ideia era razoavelmente original, então insisti. Mas jurei a mim mesma que nunca mais vou ler nada sobre esse assunto porque me irrita uma quantidade.

Pra me recuperar do trauma, voltei ao fantasy. Fui de The Steel Remains, que foi uma sensação quando lançado. Sim, o texto é bom; sim, tem algumas tiradas ótimas; não, não gosto das cenas de sexo desnecessárias e sobretudo da forçação de barra total sobre a homossexualidade do personagem principal. O cara é macho pra cacete, mas é bicha. E daí, você pergunta aos seus botões. Por que ficar jogando isso na nossa cara o tempo todo como se fosse uma coisa importantíssima? Ainda não decidi se vou continuar lendo a série.

Depois resolvi escolher um stand-alone, pra não ficar me desesperando enquanto o próximo livro não sai. Só que, sendo uma anta, não fui conferir na internet se o livro era realmente sozinho ou se parte de uma série. Adivinhem? É o primeiro de uma série. Adivinhem quando sai o próximo? Em DOIS MIL E ONZE! Puta que me pariu. De qualquer maneira, gostei pra caramba: The Name of the Wind. A resenha fala de uma mistura de Harry Potter com sei lá o que mais, porque uma parte da história se passa em uma universidade, mas achei o paralelo meio forçado. O cara escreve bem pra caramba, a história é envolvente e eu fiquei com ódio de mim mesma por ter escolhido um livro que acaba em cliffhanger e a continuação só sai ano que vem. Merda. Meu único problema com esse livro foram os nomes dos personagens. Kvothe? Que merda de nome é esse? Jack e David? Oi? Metade dos personagens tem nomes inventados de fantasy, quase sempre no mesmo nível de horror de “Kvothe”; a outra metade se chama Jack, Jimmy, Mary. Coisa mais broxante. Mas enfim, não se pode ter tudo, não é mesmo.

Li também os dois primeiros da série Millenium, e adorei. Engraçado como livro sueco é tudo muito parecido em termos de estilo; não sei se é mérito da tradução em inglês que uniformiza tudo, mas todos os que eu já li até hoje, de vários autores diferentes, me pareceram muito semelhantes. Tipo, você lê meia frase e imediatamente sabe que é uma parada sueca, embora eu não saiba nada sobre a Suécia. De qualquer forma, o bom dos livros é obviamente a história, porque de literatura ali tem muito pouco. Claro que já comprei o terceiro, que chegou ontem, e não vejo a hora de ler. Por favor ignorem as capas.

Não resisti e voltei pro fantasy. Dessa vez peguei um Guy Gavriel Kay que tava me olhando da estante há o maior tempão: Ysabel. Não chega aos pés das outras obras-primas dele, mas dá bem pro gasto, principalmente porque se passa na França. Nham. E aí lembrei que tem um livro novo dele saindo, e os reviews são fenomenais, e acabei dando um pre-order na Amazon e agora estaria roendo as unhas de ansiedade pra ler o bichinho, se eu fosse o tipo de pessoa que come as unhas. Pra matar o tempo enquanto Under Heaven não vem, estou relendo Tigana, sempre dele, depois de muuuuito tempo. A edição que eu tenho foi um Couchsurfer que deixou de presente no ano retrasado; ele já tinha lido e não queria ficar carregando aquele murundu pra cima e pra baixo (mais uma razão pra você se inscrever no Couchsurfing: hóspedes frequentemente deixam livros que não querem levar durante as viagens). Tinha esquecido como esse livro é bom, putz.

Que horas eu leio isso tudo? Meia horinha (cof cof digamos que um pouco mais) antes de dormir. Infelizmente não tem outro jeito; tenho que abrir mão de horas de sono pra poder ler. Mas eu sou o que eu leio, e por isso prefiro dormir menos e passar o dia em zumbi mode, sinceramente. Quando leio Lúcia-Já-Vou-Indo pra Carol depois da mamadeira quem já vai indo sou eu, mas felizmente a Carolina agora pega no sono rápido e eu vou correndo pra baixo do meu edredom pra ler mais uns capitulozinhos básicos. E assim vamos que vamos.

muriel barbery

Depois do semitrauma que foi The Dresden Files (cinco livros que li com um certo sacrifício, mas rapidamente), fiquei um tempinho (digamos umas oito horas) sem saber o que ler depois. Acabei dando um pulo na minha livraria pra gastar meu bônus de fim de ano e comprei L’Eleganza del Riccio, de Muriel Barbery (L’Élégance du Hérisson, no original em francês, ou A Elegância do Ouriço, em português), que alguém me sugeriu há algum tempo mas já não lembro quem foi. Felizmente não tinha a edição em língua original, que eu não teria sido capaz de destrinchar. Há trechos filosóficos, poéticos, rebuscadinhos, mas sempre interessantes. Os personagens são ótimos. E esse trecho aqui me deixou sorrindo de orelha a orelha. Não ouso traduzir; vão lá ler o livro em português. É o capítulo décimo-quinto. Os negritos são meus.

**

Apro la busta e leggo questo breve messaggio, scritto sul retro di un biglietto da visita così patinato che l’inchiostro, trionfando invece su costernate carte assorbenti, si è sbavato leggermente sotto ogni lettera.

Madame Michel,
potrebbe, ricevere i pacchi della tintoria
questo pomeriggio?
Passerò a prenderli questa sera alla guardiola.
La ringrazio anticipatamente,

Firma scarabocchiata

Non mi aspettavo una simile ipocrisia nell’incipit. Mi lascio cadere sulla sedia più vicina per lo schock. Mi chiedo, tra l’altro, se non sono un po’ pazza. Quando capita a voi, vi fa lo stesso effetto?

Guardate:

Il gatto dorme.

La lettura di questa frase insignificante non ha risvegliato in voi nessun sentimento di dolore, nessun barlume di sofferenza? È legittimo.

Ora:

Il gatto, dorme.

Ripeto affinché non sussistano ambiguità:

Il gatto virgola dorme.

Il gatto, dorme.

Potrebbe, ricevere.

Da una parte abbiamo un uso prodigioso della virgola che, prendendosi delle libertà con la lingua, che di solito non l’ammette prima di una congiunzione coordinativa, ne esalta la forma:

Mi hanno rimproverato non poco, e per la guerra, e per la pace…

E dall’altra abbiamo le sbrodolature su carta velina di Sabine Pallières che trafigge la frase con una virgola divenuta pugnale.

Potrebbe, ricevere i pacchi dalla tintoria?

Se Sabine Pallières fosse stata una domestica portoghese nata sotto un fico di Faro, una portinaia recentemente emigrata da Puteaux, oppure una minorata mentale tollerata dalla sua caritatevole famiglia, avrei potuto perdonare di buon cuore questa colpevole trascuratezza. Ma Sabine Pallières è ricca. Sabine Pallières è la moglie di un pezzo grosso dell’industria bellica, Sabine Pallières è la madre di un cretino in montgomery verde bottiglia che, dopo due anni di preparazione per la Normale e dopo Scienze politiche, probabilmente andrà a diffondere la mediocrità delle sue ideucce in un gabinetto ministeriale di destra e, per di più, Sabine Pallières è figlia di una baldracca impellicciata che fa parte del comitato di lettura di una grandissima casa editrice ed è così bardata di gioielli che a volte mi aspetto che sprofondi.

Per tutti questi motivi Sabine Pallières non è scusabile. I favori della sorte hanno un prezzo. Per chi beneficia dell’indulgenza della vita, l’obbligo del rigore nella considerazione della bellezza non è negoziabile. La lingua, ricchezza dell’uomo, e i suoi usi, elaborazione della comunità sociale, sono opere sacre. Che con il tempo evolvano, si trasformino, si dimentichino e rinascano, che talora la loro trasgressione divenga fonte di una maggiore fecondità, non esclude affatto che prima di prendersi la libertà del gioco e del cambiamento occorra aver dichiarato loro piena sudditanza. Pertanto gli eletti della società, coloro che la sorte esclude da quelle servitù destinate al povero, hanno la duplice missione di adorare e rispettare lo splendore della lingua. In definitiva, che una Sabine Pallières usi la punteggiatura a sproposito è una bestemmia tanto più grave in quanto, al contempo, poeti meravigliosi nati in caravan puzzolenti o in baraccopoli nutrono per essa il santo rispetto che è dovuto alla Bellezza.

Ai ricchi il dovere del Bello. Altrimenti meritano di morire.

[…]

L’eleganza del riccio, de Muriel Barbery