que parto

A Fabiola postou esse vídeo aqui hoje, que me deixou em lágrimas.

Chorei porque detesto ouvir gente contando que foi tratada mal por médicos e enfermeiros em um momento tão significativo. Mas acho que neguinho anda exagerando muito com esse negócio de “o parto é da mulher”, “parto ideal” e coisa e tal.

Vamos combinar uma coisa? O parto humano NÃO é legal. Ponto. Não cabe subjetividade aqui. Não é legal por um motivo muito simples: somos os únicos mamíferos que andam em posição ereta. Nossos cérebros se desenvolveram, precisávamos das mãos livres pra fazer coisas maneiras como temperar a carne assada, enfiar miçangas e bater no tambor, tivemos que ficar em pé. Mas a nossa esperteza aumentou muito mais rapidamente do que a nossa bacia foi capaz de se adaptar, de modo que hoje nós humanas sofremos o diabo a quatro pra parir, enquanto que todas as outras mamíferas vão ali, dão umas voltinhas, aparecem as perninhas do rebento e em dois minutos pluft, caiu no chão um filhote inteirinho e todo pimpão, que logo logo fica em pé e sai pulando sobre a crosta terrestre. O parto humano é uma merda. Cheio de fluidos nojentos – tem líquido amniótico, tem xixi, tem cocô, tem sangue, tem pedaço de placenta. No-jo. Quem fala que parto é uma coisa linda ESTÁ MENTINDO – ou pra si mesmo ou pros outros, pra parecer cool. O que é lindo é o neném que nasce, é o ato de dar vida a um outro ser humano, mas o processo todo até chegar lá é abominável e incrivelmente doloroso. Ou alguém acha que cagar na cara do obstetra é suuuuuper legal? Que é uma coisa linda escancarar as pernas ou acocorar pra criança sair? Que é o maior barato dar luz à placenta? Isso pra não falar nas complicações. Quem falar que parto é uma coisa natural só não vai levar uma trauletada porque claramente nunca estudou obstetrícia. Se o parto humano fosse uma coisa “naturalmente fácil” não haveria uma altíssima taxa de mortalidade de mulheres no parto em países sub, até hoje, e no mundo inteiro, ao longo da história da humanidade. Vai lá ver se tem vaca toda hora morrendo de parto. Tem não senhor. Claro que tem gente que tem partos mais lights – o meu, que foi relativamente light, já doeu pra cacete, imagina quem fica sei lá quantas horas ou dias em trabalho de parto. Mas a maioria sofre, porque contração DÓI para caráleo. Dói, dói, dói. As minhas duraram só umas quatro horas e mesmo assim pedi epidural, por um motivo muito simples: ninguém merece.

Olha só: dor é um sintoma. Sentir dor não enobrece porque a dor não serve pra absolutamente nada a não ser pra avisar que há alguma coisa muito errada acontecendo em alguma parte do seu corpo (se o que acontecer depois dessa dor vai ser positivo ou não é indiferente; seus receptores pra dor são democráticos e não fazem distinção). Todo o respeito do mundo por quem tem alta resistência à dor, dilata rápido e por isso prefere encarar sem anestesia, ou por quem tem fobia de agulha. Um pouco menos por quem acha que tem que sofrer pra “estar presente naquele momento”, porque acha que é mais mãe se sentir tudo, porque sei lá o quê. Eu não teria feito a menor questão de estar presente no meu próprio parto, se tivesse sido possível; só queria pegar a minha filha no colo assim que ela nascesse, mas não preciso sentir dor – nem as pernas – pra isso. Eu quero estar presente na vida dela, na educação dela. Se a mãe estava acordada ou não quando o filho nasceu não vai fazer a menor diferença na vida da criança, e sinceramente não vejo por que deveria fazer diferença na vida da mãe. Aliás, acho até que parto voluntariamente com dor tem consequências psicológicas a longo prazo bem negativas, porque EM ALGUM MOMENTO esse sacrifício todo vai aparecer e ser devidamente jogado na cara. Ou vão dizer que nunca ouviram uma mãe falar pro filho “puxa vida, eu aguentei nove meses de gravidez, X horas de trabalho de parto pra você agora me tratar assim?”. Minha mãe nunca me disse isso, mas eu já perdi a conta das vezes em que ouvi outras mulheres falando coisas desse tipo. Coisas que nunca, jamais deveriam ser faladas, sabe. Sentidas, sim, normal; mas faladas, não. Nunca. Mas na hora em que o calo aperta a gente bota o ressentimento pra fora, porque somos humanos. Então um grande viva ao parto sem dor. Detesto masoquismo.

Aí entra o lance da cesariana. Faz-se cesariana demais no Brasil? Não há dúvidas. O parto cesáreo é esse bicho de sete cabeças que neguinho fala? Nem de longe. Então por que essa choração toda se não deu tempo de fazer normal e teve que rolar cesáreo? Em outras palavras, WHAT THE FUCK é a diferença? A criança nasceu? Nasceu bem? Nasceu com saúde, Apgar maneiro, foi logo pro colo da mãe? Então neguinho está reclamando do quê??? Porque lhe foi negada a escolha? Pode ser; também fico puta quando não posso escolher. Mas a mulherada está levando essa parada ao extremo. Tem horas que parto normal simplesmente não é a melhor alternativa (se ainda não entendeu que o termo “normal” é completamente enganoso, volte e leia lá a parte das vacas), e a famosa escolha à qual elas acham que têm direito simplesmente não existe. Fico puta com histórias como a que uma das entrevistadas relatou – o médico marcou a cesárea pras cinco da manhã porque ele queria ir à praia depois. Pelotão de fuzilamento pra esse desgraçado. Sou contra cesárea com hora marcada, mas não sou contra cesárea. Acho inclusive mais civilizado, se vocês querem saber. Na verdade o que me deixou muito puta nesse lance toda desse vídeo foi a falta de respeito generalizada comum a todas essas histórias. A mulher que foi largada na sala de parto sozinha por três horas me deixou soluçando. O médico que entra na sala pra fazer um parto e não sabe o nome da paciente é um filho da puta. Mas tem horas que realmente só o médico sabe qual é a alternativa melhor, e nessa hora não dá mesmo pra ficar discutindo alternativas, de modo que cada caso é um caso e que o termo “violência obstétrica” não se encaixa em todas as situações. Pra quem quer uma analogia, normalmente pacientes leigos, por mais bem informados que sejam, não ficam discutindo técnica operatória com o cirurgião que vai lhes tirar um tumor/cisto/pinta/catarata/unha encravada. Acredito que informar e tratar com gentileza são coisas cruciais, e o oposto disso é, sim, uma forma de violência (leia-se abuso de autoridade, complexo de jaleco, como quiserdes), mas deixar a escolha nas mãos do paciente leigo, que aparentemente é o que neguinho quer, pelos comentários que leio por aí, já é um pouco demais.

Essa história toda rendeu um breve thread no FB (quem quiser seguir dê uma olhada aqui) com um ponto de vista muito interessante da Amandita. Se as mulheres fossem melhor informadas sobre o que é a gravidez e como é um parto provavelmente não haveria esse debate todo, esses extremismos todos e esses traumas todos. E eu teria que aturar muito menos gente falando que gravidez e parto são coisas lindas. Porque gravidez é outra coisa altamente idealizada, né. A percentagem de mulheres com gestações ultra light é minúscula. Os sintomas mais comuns da gravidez incluem dor nos peitos, enjoo, vômitos, prisão de ventre, hemorróidas, varizes, burrice temporária (baby brain), excesso de emotividade, azia, insônia, sono durante o dia, edema generalizado, prurido (perguntem à Fabiola), aumento definitivo do tamanho dos pés, dor nas costas, hipersensibilidade a certos cheiros, gases e meteorismo, entre outros. Quero ver alguém ter coragem de dizer que passar quase um ano – porque estamos falando de 40 semanas marromeno; quase um ano, portanto – sentindo pelo menos uma dessas coisas é legal. Olha só, o que eu estou dizendo é que uma coisa é dizer “vale a pena passar um ano inchada, arrotando, enjoada, fazendo xixi a cada meia hora, com os peitos doendo e vomitando, faço tudo pelo meu filho” e outra, completamente diferente, é juntar as mãozinhas e recitar “ai, gravidez é uma coisa tão linda”. Façam-me o favor, né. Tanto não são coisas legais, gravidez e parto, que o nosso cérebro faz com que a gente se esqueça da intensidade das sensações desagradáveis desses dois eventos, porque senão mulher nenhuma teria mais que um filho. Tem que ser muito cara-de-pau pra dizer que a-do-rou ficar grávida. Eu achei maneiro o ato de estar dando origem a uma nova vida, porque realmente é muito maneiro, inclusive do ponto de vista biológico, mas todo o resto é só um grandíssimo pé no saco, e não deixa de ser pé no saco só porque o objetivo é a coisa mais linda do universo (porque todos os filhos são, claro). Eu acho que não é um conceito muito difícil de entender, mas eu tendo a fazer contorcionismos mentais meio bizarros. Bear with me please.

Di orecchini e babbo natale

Mia figlia non ha le orecchie bucate per gli orecchini. Devo ammettere che ci ho riflettuto parecchio prima di decidere di non farlo quando era neonata. In Brasile tutte le bimbe escono dall’ospedale già con gli orecchini installati. A me non l’hanno fatto; ho deciso di farmele forare, le orecchie, quando ero già grande, a forza di sentire altri bimbi chiedere a mamma se ero maschio o femmina perché portavo sempre i capelli corti e non ero particolarmente carina. Ho deciso io ed è stato un episodio epico nella mia vita: mi ricordo il vestito che portavo quel giorno, la farmacia, il dolore (ho vomitato, da quanto mi ha fatto male), la rottura di zebedei che è stato prendersi cura dei buchi appena fatti perché non si infiammassero (e tanto si sono infiammati lo stesso). Se me l’avessero fatto appena nata non avrei sentito tanto dolore (e probabilmente nessuno avrebbe chiesto a mamma se ero maschio o femmina), ma non rimpiango questa loro scelta. Anzi, li ringrazio per avermi rispettato. Perché credo che la libertà di scelta sia una delle cose più importanti che un genitore possa regalare a suo figlio – entro i limiti della ragionevolezza, ovviamente. Oggi sono una patita di orecchini e quando ne esco senza, normalmente per fretta, mi sento mezzo nuda e passo il giorno a toccarmi il lobulo, come se gli orecchini fossero degli arti fantasma.

Mia figlia ha quasi quattro anni e qualche giorno fa le ho detto che Babbo Natale è solo un personaggio fittizio. Personalmente non me lo ricordo come traumatico, il momento in cui ho scoperto che in realtà era un cugino che si travestiva ogni anno per portarci dei regali, che ci compravano i nostri genitori e nonni. Ma non ho neanche ricordi particularmente fenomenali dell’attesa per Babbo Natale. Forse perché né io né mio fratello eravamo molto focalizzati su questa cosa di regali. Ci piacevano, ovviamente, ma a noi basta poco per renderci felici (a me, in particolare, una penna colorata già mi rende la giornata più gioiosa). E quindi abbiamo deciso di dirlo subito a Carolina che Babbo Natale è un personaggio inventato, così come i Barbapapà, Nemo, le principesse Disney e tanti altri. Le abbiamo spiegato che i regali per Natale li comprano i genitori, e che visto che il Natale è, per noi, semplicemente un giorno in cui non si va a scuola e nient’altro, e considerando che lei ha già un mucchio di giocattoli e libri, che compriamo semplicemente quando li vediamo in giro e li troviamo interessanti, tutte queste cose di Natale, regali, Babbo Natale, Gesù Bambino e Befana sono una grandissima boiata. Il mondo è già abbastanza magico senza che abbiamo bisogno di raccontare le balle ai bambini, che si meritano decisamente più rispetto.

E parlando di rispetto (or lack thereof), un altro aspetto delle feste di fine anno che mi fa venire la spuma in bocca è la mania orrenda, idiota e antipedagogica di associare regali (e dolcetti) alle buone azioni. Come se alcun bambino si fosse mai comportato “bene” durante tutto l’anno solo con il pensiero di guadagnarsi un giocattolo e un torrone a Natale. E poi il concetto di “comportarsi bene” che cazzo significa? In Italia, o almeno in Umbria, comportarsi bene vuol dire non sporcarsi, non sudare, non correre. Mia figlia invece fa tutte queste cose – orrore, orrore, gioca addirittura con l’acqua a casa e si bagna tutta! – ed è felice, indipendente e intraprendente. Per me comportarsi bene vuol dire non rompere le scatole agli altri, punto. Categoria che ovviamente esclude “non sudare” e altre assurdità che sento spesso in giro. E quindi solo chi non si sporca ha diritto a regali? Con i quali giocheranno pochissimo, tra l’altro, visto che i bimbi si stufano subito e che è molto più divertente giocare, che ne so, con una stecca di legno? Bisogna essere come i soprammobili, reprimendo tutti i loro istinti infantili più primitivi di correre, saltare, ridere, imitare, fare i versi strani, per poter mangiarsi un ovetto Kinder? Ma fatemi il favore.

Non voglio nemmeno entrare più di tanto nell’argomento battesimo, che considero la più grande mancanza di rispetto nel confronto dei bambini. Sono completamente, totalmente atea, ma anche se non lo fossi non credo che avrei battezzato mia figlia. Perché le decisioni che ci cambiano la vita, come bucarsi le orecchie e entrare a far parte di una setta, sono assolutamente personali e fatte con cautela e cognizione di causa. Trovo il battesimo dei bambini una pratica schifosa (e con “battesimo” voglio dire l’inserimento del bambino in qualsiasi realtà religiosa, con o senz’acqua in testa). Il mio disprezzo per le religioni – tutte, senza eccezione – non è una novità per chi mi conosce, ma ho particolare antipatia per questa imposizione religiosa ai bimbi. La trovo disgustosa, e mancante di rispetto tanto quanto dire ai figli che è la Befana che gli porta i dolcetti. Non si mente ai bambini, punto. Non per paura di creare dei traumi irrisolvibili, ma perché non si fa, per principio. Mentire è brutto e se diciamo a loro di dire sempre la verità, con quale faccia tosta gli lanciamo queste bugie natalizie e bibliche? Io questa faccia tosta non ce l’ho. E quindi niente Babbo Natale, niente Befana, niente Bambino Gesù (che secondo me Carolina ha sentito nominare solo in mezzo alle bestemmie del padre e del nonno). Non abbiamo nemmeno un albero di Natale, che anche se è microscopico non riesco a trovargli un posto; preferisco occupare gli spazi della sala con la cucinetta di legno di Carolina e la sua propria Billy piena di libri e DVD. Capisco l’importanza, per l’essere umano, di feste e rituali, ma, come dico sempre, una cosa buona fatta per il motivo sbagliato, per me, è meglio non farla proprio. Facciamo festa quando ci sentiamo di farla. Per festeggiare un compleanno, un viaggio, la bella canzone che abbiamo ascoltato in macchina. Basta e avanza, no?

de música, eutanásia e fim do mundo

Ontem calhou de ler esse post da Dri e de ouvir essa música

no mesmo dia, e comecei a pensar sobre o assunto morte. Não de maneira mórbida (engraçado que “morbido” em italiano quer dizer “macio”); eu sou uma pessoa pragmática, com formação médica e non-believer até a raiz dos cabelos, de modo que encaro a coisa de maneira muito natural. Nosso destino é virar húmus, e não consigo imaginar nada de mais nobre e poético. De modo que deixo aqui, em público, pra todo mundo ver, minha vontade de, quando chegar a hora, que logicamente espero que demore muito pra vir, 1) ser eutanasiada, se for o caso; não acho que sentir dor enobrece e passar anos feito um pé de couve murcho numa cama não é pra mim; 2) ser cremada, porque ocupar espaço depois de morto é totalmente out, néam; 3) OBVIAMENTE não ter missa de nada, senão eu volto do além pra puxar a perna de quem tiver encomendado um só rosário que seja; e 4) que qualquer que seja a cerimônia de adeus, por favor toquem essa música acima (caprichem no coral, tá) e/ou essa aqui, também deles, que tem uma letra linda.

“With a nuclear fire of love in our hearts” é um dos versos mais lindos que eu já li. As letras do Live são todas meio malucas, porque o Ed tende ao esotérico-espiritual-era de aquário, mas ele já escreveu tantos versos lindos que eu volta e meia me pego repetindo uma frase dele, como um mantra. Run to the Water, em particular, sempre me traz lágrimas aos olhos. Como disseram num thread de comentários de outro vídeo deles no YouTube, a sensação que a música deles me dá não é de tristeza; não são lágrimas de tristeza ou de felicidade ou de raiva, mas de sentimento puro e simples. Tinha muito tempo que eu não ouvia Live. Não vai acontecer de novo de passar tanto tempo assim sem ouvi-los; de vez em quando preciso de umas sacudidas sentimentais assim pra acordar.

Run to the Water

Oh desert speak to my heart
Oh woman of the earth
Maker of children who weep for love
Maker of this birth
’til your deepest secrets are known to me
I will not be moved
I will not be moved

“don’t try to find the answer
When there ain’t no question here
Brother let your heart be wounded
And give no mercy to your fear”

Adam and eve live down the street from
Me
Babylon is every town
It’s as crazy as it’s ever been
Love’s a stranger all around

In a moment we lost our minds here
And lay our spirit down
Today we lived a thousand years
All we have is now

Run to the water
And find me there
Burnt to the core but not broken
We’ll cut through the madness
Of these streets below the moon
These streets below the moon

And I will never leave you
’til we can say, “this world was just a
Dream
We were sleepin’ now we are awake”
’til we can say

In a moment we lost our minds here
And dreamt the world was round
A million mile fall from grace
Thank god we missed the ground

Run to the water
And find me there
Burnt to the core but not broken
We’ll cut through the madness
Of these streets below the moon
With a nuclear fire of love in our hearts

Yeah, I can see it now lord
Out beyond all the breakin’ of waves
And the tribulation
It’s a place and the home of ascended
Souls
Who swam out there in love!

Run to the water
And find me there
Burnt to the core but not broken
We’ll cut through the madness
Of these streets below the moon
With a nuclear fire of love in our hearts
Rest easy baby, rest easy
And recognize it all as light and rainbows
Smashed to smithereens and be happy
Run to the water (and find me there)
Run to the water

carabinierices

Ligam-nos dos Carabinieri (a polícia militar daqui) pedindo pra gente comparecer ao quartel pra assinar uns documentos relacionados à Carolina. Sabendo que a coisa se referia ao pedido de adicionar os meus sobrenomes, fomos. Somos atendidos por um Carabiniere pedaço de mau caminho, muito educado e gentil como todos os Carabinieri que já encontrei e que já me pararam no trânsito ou já me atenderam de alguma maneira. Ele pega uma folha de papel quadriculado (inexplicavelmente eles aqui usam papel quadriculado pra tudo), daqueles vagabundos que de tão fino não se pode usar caneta pilot porque senão mancha o que estiver por baixo, e começa a anotar os nossos dados. Anotados os números das carteiras de identidade e os nomes dos dois no tal papel vagabundo, dá-se o seguinte diálogo.

Carabiniere Pedaço de Mau Caminho: Mas vem cá, isso tudo aqui é sobrenome?

Eu: É.

Carabiniere PMC: Tá… E é comum no Brasil ter cinco sobrenomes?

Eu: Não, é que a minha família é antiga mesmo e meu avô tinha mania de genealogia.

Carabiniere PMC: Tá… E vocês querem então que a sua filha tenha SEIS sobrenomes, cinco seus e um do pai?

Nós: Isso.

Carabiniere PMC: Motivo…?

Eu: Porque ela é filha de duas pessoas e não de uma só.

Mirco: Porque tem juízes na cidade dela com esse sobrenome, pode valer um pistolão no futuro, nunca se sabe.

Carabiniere PMC: Esse monte de sobrenome não vai complicar a vida dela não?

Eu: Nunca complicou a minha. Pelo contrário, todo mundo se lembra de mim. É só dizer “sou aquela dos cinco sobrenomes” que todo mundo sabe quem é.

Carabiniere PMC, sorrindo: Tem razão. Bom, era só isso, senhores.

Saímos, nos olhamos, começamos a rir. “Papel quadriculado???”, dissemos ao mesmo tempo. “Timbrado era pedir muito?”, disse o Mirco, sacudindo a cabeça.

No problem. O importante é que o processo siga adiante e ela ganhe os meus sobrenomes. Não importa se ela só vai conseguir decorar todos quando estiver na faculdade.

títchers

Ih, hoje é dia do professor? Caraca, que lista enorme de gente à qual preciso agradecer. Tia Anna Maria, da primeira série, que me deu de presente o livro Grimble (que tenho até hoje, com dedicatória e tudo. Aliás, acho que vou tirar uma foto e postar). Tia Arminda, da segunda série, que eu a-ma-va. Márcia, de português, que me inspirou com a sua caligrafia linda e não cafona a escrever de maneira linda e não cafona (hoje sou meio garranchenta de tanto digitar, mas se escrevo com calma minha letra é linda, tá). Os professores do Princesa Isabel, que de modo geral eu adorava; é incrível mas não consigo lembrar o nome do professor de biologia que me inspirou a fazer medicina (aliás, assunto pra outro post). Os da faculdade, que são tantos, muitos; muitos escrotos que deletei da memória e outros legais, e minha queridíssima prof de pediatria, a Maria Marta, uma pessoa realmente especial e pela qual tenha imensa admiração. Nem sei direito como ficamos amigas, porque eu detestava pediatria ;) Os professores do curso de italiano pra estrangeiros quando estudei em Perugia; esqueci TODOS os nomes mas o de literatura italiana contemporânea, apesar de dar uma aula meio chatinha, foi quem me iniciou na literatura italiana e quem me apresentou a Svevo e a Camilleri, e por isso lhe sarei eternamente grata. A prof maluca de história medieval, que conseguia a proeza de falar mais rápido do que eu mas dava uma aula bárbara, de um assunto que eu AMO (é meu período histórico preferido). Os professores de Comunicazione Internazionale, um curso interessantíssimo. E a minha mãe, que detesta ensinar mas me ensinou muitas coisas. Beijo.

carol e o português

Outro dia pedi pro pessoal no FB sugestões sobre temas pra postar aqui, porque estava sem inspiração. De início fui ignorada solenemente, mas depois de reclamar neguinho mandou algumas sugestões. Então hoje vou falar de bilinguismo, sugestão da Marcia. Desculpem se eu ficar muito técnica, mas é que eu adoro linguística, cês tão carecas de saber.

Primeiro, é importante definir alguns termos que aparecem frequentemente quando se fala desse assunto: língua majoritária é a língua mais falada no ambiente onde a criança se encontra (no caso da Carol, obviamente é o italiano); línguas minoritárias são as outras, às quais a criança é menos exposta. Até os dois anos e meio, quando ela entrou pra escolinha, o português era a língua majoritária porque ela passava o dia comigo e eu só falo em português com ela, desde que ela nasceu. Entrando pra escola, durante a manhã ouvia o italiano das professoras e dos amiguinhos; à tarde ficava em casa comigo e ouvia português, mas se saíamos pra jantar fora, por exemplo, ela era exposta mais ao italiano de todos os outros ao nosso redor do que ao português, que só vinha de mim. Agora que ela parou de dormir à tarde e fica até as 15 na escola, escuta menos português porque fica menos tempo comigo. De modo que esses conceitos, majoritário e minoritário, obviamente não são estáticos. Se nos mudássemos pro Brasil o italiano passaria a ser a língua minoritária, por exemplo. Outros termos que forem aparecendo eu vou explicando pelo caminho.

O negócio é o seguinte: não é fácil formar uma criança bilíngue. Não é fácil porque sem um mínimo de x horas de exposição por semana (há estudos sobre isso mas vocês sabem que eu não memorizo números direito) a uma determinada língua a criança não aprende. Então o grande desafio é encontrar maneiras de expor a criança à língua minoritária.

Na verdade é mais difícil do que parece. Nós aqui adotamos o método OPOL (One Parent, One Language, ou seja, cada genitor fala com a criança na sua própria língua) misturado com o método Hot House (dentro de casa só se fala uma língua): eu só falo português com ela, sempre, não importa quem estiver junto, não importa onde estivermos, não me interessa se os outros se sentem incomodados ou intimidados ou sei lá o quê. A minha língua com ela é o português e ponto final. Ela nunca OUSOU se dirigir a mim em italiano, e se um dia isso acontecer, vai ficar sem resposta. Ela sabe que eu falo italiano, lógico, até porque eu e o Mirco conversamos em italiano, mas nunca passou pela cabeça dela falar comigo em italiano. Provavelmente isso é porque sempre fui consistente com o português; nunca consegui me imaginar falando com ela em outra língua que não fosse a minha, e depois de ler alguns livros e artigos sobre o assunto o meu instinto, confirmado pela ciência, se solidificou totalmente. Além de achar absolutamente ridícula, pra não dizer desrespeitoso para com a parte brasileira da família, a ideia de ter uma filha que não fala a minha língua. Ela VAI FALAR PORTUGUÊS e acabou; pode um dia dispensar a cidadania brasileira e nunca mais querer botar os pés no Brasil, mas a língua ela vai aprender e pronto (logicamente sem forçar, a coisa tem que ser natural).

A parte do Hot House é assim: o Mirco também fala com ela em português. No português dele, claro, que é uma bosta, mas não importa. Isso tem duas consequências: uma, a Carol só fala com ele em português também, desde sempre, mesmo na presença de outras pessoas que não falam português e que estão conversando comigo e com o Mirco em italiano; duas, tem gente que acha estranho e pergunta por que ele não fala com ela em italiano, já que estamos na Itália. Essa segunda consequência me irrita uma quantidade, ao contrário da pergunta “você não se sente estranho falando em outra língua que não a sua?”, que eu entendo perfeitamente. Mas o Mirco já aprendeu a responder que ela já passa o dia na escola ouvindo italiano e precisa ouvir o máximo de português possível se quisermos que aprenda a língua.

Temos um problema meio chatinho aqui: a presença do dialeto, que aqui na Úmbria é medonho de se ouvir. Como meus sogros são semi-analfabetos, só falam em dialeto, que na verdade não é beeeeem dialeto mas simplesmente uma variante regional do italiano que todo mundo chama de dialeto. Em particular, aqui na província de Perugia todas as variantes locais (porque cada vilarejo tem a sua, lógico, pra simplificar…) têm em comum o fato de comer fonemas. Algumas particularidades do dialeto perugino nós também temos nos dialetos de Bastia e de Santa Maria (que são ligeiramente diferentes, apesar das cidades serem coladas uma na outra), como usar “gi’” em vez de “andare” (“ir”), “pia’” em vez de “prendere” (“pegar”), “magna’” em vez de “mangiare”, (“comer”), “lu” em vez de “lui” (“ele”), “lia” (ou “essa”, com o e fechado) em vez de “lei” (“ela”), “monno” em vez de “mondo” (“mundo”), “fo’” em vez de “faccio” (“faço”), entre outros horrores. Na escola, lógico, as professoras, ambas de Perugia, falam um italiano padrão, mas os amiguinhos, também expostos a pais e avós que falam em dialeto, acabam falando um italiano bem umbro que é feio de doer.

Além disso ela tem uma hora de inglês por dia na escola, o que na verdade é muito menos do que eu gostaria mas muito mais do que a maioria das outras escolinhas por aqui oferecem; normalmente ou não têm inglês at all ou só dão uma hora por semana. No nome a escola é bilíngue, mas na verdade não é porque as “aulas”, ou, no caso do jardim de infância, o tempo em que as crianças ficam com as professoras, é em italiano; essa hora diária de inglês é com musiquinhas, historinhas e tal, sem que as crianças entendam tudo e de eficácia duvidosa, na minha opinião. É uma coisa bem limitada, mas é a melhor alternativa aqui onde moramos. No final das contas, no caso particular da Carolina fica difícil dizer qual é a língua majoritária e quais são as minoritárias, porque a exposição dela ao italiano padrão está restrita às tias da escola, o português é só comigo e com o Mirco, o inglês é só durante aquela hora diária na escola e o dialeto é com os avós e os amiguinhos.

Pra aumentar a exposição dela ao português, em casa não se fala italiano, como eu disse lá em cima. Nada de televisão (não só porque tem propaganda, mas principalmente porque só tem em italiano), nada de música italiana, nada de livros em italiano (todos os que ela ganha ficam na casa da avó). Ela só vê DVD, quase sempre em português, embora tenhamos muitos em inglês e ela nunca tenha me pedido pra trocar de língua. Música, só brasileira ou em inglês (vocês sabem que ela adora Monobloco). Os livros são todos em português ou inglês (e alguns em espanhol e francês também). Sempre lemos uma história em português ou inglês antes de dormir; quando vou pra capoeira às quartas, o Mirco lê uma história em português pra ela.

Quando voltamos pra Itália, no final de julho, depois de dois meses no Rio, ela estava com um sotaque carioquérrimo muito engraçado. Já perdeu um pouco; os Ss continuam chiados e as vogais continuam alongadas, felizmente, mas de vez em quando ela solta um “einta” que me dá urticária, e está tendo problemas com o “ão” também, que ela tende a pronunciar como “on”. O R como H (como nos dois erres do português e no R pré-consoante do carioca) ela só consegue pronunciar no início de palavra e intervocálico, de modo que “rato” e “carro” saem direitinho mas “porta” sai “pota”. Ela às vezes duplica a consoante, principalmente em palavras que são parecidas nas duas línguas; por exemplo, ela pronuncia “cavalo” com dois Ls, como em italiano (“cavallo”). Parece besteira, mas a palavra acaba soando bem diferente, inclusive com alteração dos sons vocálicos que aparentemente nada têm a ver com a coisa. E ela faz umas maluquices com o português típicas do italiano, tipo começar a frase pelo objeto e não pelo sujeito (“isso a manu fez” em vez de “a manu fez isso”) – em italiano frequentemente o sujeito vai no meio ou no fim da frase, eles fazem uma bagunça danada. Ou então usa o presente do indicativo em vez de outros tempos, por exemplo, “eu pego?” em vez de “quer que eu pegue?”, porque em italiano se usa assim. Mas são detalhes que vão se ajeitando com o tempo e com muita paciência; no geral o português dela é ótimo, com um vocabulário bem, bem amplo.

O italiano dela tem algumas influências do português, lógico, mas não me preocupo com isso porque ela morando aqui vai acabar aprendendo a língua direito, querendo ou não querendo. E o inglês dela, ou melhor, as palavras em inglês que ela conhece, têm sotaque britânico porque a professora da escola é inglesa. Ela tem o maior interesse por inglês; quando assistimos juntas a A Bug’s Life ou Nemo, que só temos em inglês, ela me pergunta o significado de TUDO, e na maioria das vezes faz a pergunta certinha, distinguindo uma palavra no meio da frase.

Volta e meia ela comenta que uma coisa se diz assim em português e assado em italiano e reconhece perfeitamente o inglês quando o ouve em qualquer contexto. Faz o switch entre as línguas sem o menor problema quando eu e ela estamos com italianos, como por exemplo no almoço de domingo na casa da minha sogra. É uma frase em português comigo e uma em italiano com a avó, uma em português e outra em italiano, alternando direitinho, sem se confundir.

Quanto à alfabetização, todos os artigos que li são da opinião de que é melhor começar com uma língua só e depois adicionar outras. Ela conhece todo o alfabeto em português mas explico sempre que algumas letras têm sons diferentes em italiano e que na escola ela vai aprender a ler em italiano primeiro. Mais tarde entro com o português, quando ela já estiver lendo em italiano. O inglês vai ficar em terceiro plano, não porque seja menos importante (na verdade a menos importante das três é essa merda do italiano, que ninguém mais fala em lugar nenhum do mundo e não serve pra porra nenhuma) mas porque quem fala duas, fala três, e eu falando inglês fluentemente posso dar um mega suporte. Se ela tiver o mesmo jeito pra línguas que eu tenho, sem modéstia nenhuma porque você sabem que pra mim modéstia é coisa de gente hipócrita, vai aprender muito bem, obrigada, até por ser mais exposta do que eu fui.

Todos os livros que eu já li sobre o assunto são meio chatinhos, embora interessantes; recomendo o Raising a Bilingual Child, que é o melhorzinho. Leiam também os ótimos posts da Bel (de Aruba) e da Lu (que vocês já conhece) sobre o assunto; são muito iluminantes.

de festas, paranóias e comidas

Estava lendo o post da Lu sobre a festa de aniversário da Julia na escola e me deu uma tristeza imensa essa maluquice calórica dos americanos. Mas também me deu uma tristeza imensa pensar em como as festas infantis são chatas por aqui.

Na escola da Carol vela pode, mas também é proibido levar comidas feitas em casa, não só por causa de alergias mas também porque se rolar alguma intoxicação alimentar, a comida tem que ser rastreada pra poder alertar o fornecedor e a Saúde Pública. Esse ano eu mandei fazer um bolo numa padaria aqui perto e colei a nota fiscal na caixa; foi o suficiente. Ninguém aconselha nada, cada um leva o que quiser. Na escola da Carol, que é meio “exótica”, todo mundo leva bolo de chocolate. Mas não é a norma.

A norma é assim: quem tem espaço em casa faz festa em casa, quem não tem faz em algum restaurante, de preferência com bem pouco espaço pras crianças brincarem. O cardápio é INEVITAVELMENTE de adultos; estranhamente, os italianos, que têm sobremesas específicas de carnaval, de Natal, de Finados, do cacete a quatro, não têm nenhuma comidinha específica pra festa de criança. Tudo bem que aqui a criançada come de tudo, mas puxa vida, um cardapiozinho especial não custaria nada, né não? Então nas festas tem pizza (normalmente margherita, cogumelos, branca – sem tomate – de alecrim e de cebola), torta al testo (uma espécie de pão achatado que só fazem aqui na nossa província, recheada com presunto cru e/ou linguiça e espinafre), linguiça e outras carnes grelhadas pra comer com o pão sem sal MALDITO que eles adoram por aqui, às vezes sanduíches com recheios bizarros tipo atum com alcachofra ou omelete, abobrinha grelhada (adoro, mas quer coisa menos festiva do que isso?), omelete de abobrinha (ou de outras verduras da estação), tomates recheados, salada de trigo com rúcula e tomates-cereja se for no verão, bruschetta de creme de cogumelos e/ou patê de fígado de galinha, uma especialidade da Itália central. Dependendo do horário tem gente que serve – tcham tcham tcham tcham – macarrão com molho de tomate. Vejam bem, não estou dizendo que isso tudo é ruim, muito pelo contrário – eles aqui são paranóicos com os ingredientes e costumam desprezar comidas industrializadas – mas fica faltando aquele tcham especial de festa, sabe. Pra mim, ocasiões especiais requerem comidas especiais. Da mesma forma que quando como fora nunca peço comidas que costumo fazer em casa. Se é pra comer macarrão com molho de tomate eu como em casa, ora bolas.

De doce temos bolos horrorosos cheios de chantilly, SEMPRE SEMPRE SEMPRE brancos com algum recheio bem bunda tipo crema pasticcera e docinhos de padaria (mini-bombas ou éclairs) com frutas e gelatina incolor em cima. Quase sempre tem refrigerante, mas sempreeeeeeeeeee em temperatura ambiente. Sempre. Tem onze anos que estou aqui e nunca fui a um evento social que tivesse servido refrigerante gelado. Normalmente a água mineral acaba cedo demais, e sempre tem mais água com gás (nojo!) do que sem.

Canta-se parabéns e tem velinha, mas quase ninguém faz decoração; normalmente o “tema” da festa se vê só no bolo de padaria e nos pratos de papel. Não sou particularmente fã de festas temáticas, mas acho que se é pra fazer, então que se faça direito. Brindes pras crianças, nem pensar; nunca ninguém ouviu falar disso. Convite também não rola, é tudo no boca-a-boca. Música? Como assim?

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Por isso que a festa de aniversário do Ettore, filhinho da Fabiola, foi especial. Também foi num restaurante, mas com mesas a céu aberto também e espaço atrás pras crianças brincarem. Se as comidas comidas mesmo foram de adulto, os doces, todos feitos por ela, eram infantilíssimos. Tinha brigadeiro, docinho de coco, bala de coco enrolada naquele papel com franjas (que comprei pra ela na SAARA), mousse de maracujá, brownie, cupcake; teve brinde pras criança tudo (M&M’s, balinha de paçoca também diretamente da SAARA, brinquedinho), teve faixa escrito parabéns, teve parabéns em português e em italiano, e teve música brasileira ao vivo. Carol se esbaldou de dançar. O aniversariante curtiu pouco, tadinho; acabou de fazer um aninho e estava saindo de uns dias de febre, mas todo mundo aqui de casa saiu de lá um pouquinho mais feliz.

ode ao rio, 2012

Já virou meio que um ritual, mas é inevitável, portanto aturem-me, por favor.

Todo mundo sabe que o Rio tá bombando, tá com tudo e não tá prosa, tá vivendo um momento especial, tá na crista da onda. O Brasil, em geral, tá assim, mas pro Rio a vida anda uma beleza.

Eu vi a cidade muito mudada nos últimos poucos anos, e mesmo do ano passado pra cá achei tudo muito, muito melhor. Imaginem que só fui ver o primeiro pivete em Ipanema cinco semanas depois de chegar, e isso porque voltava da academia pra casa à noite todo santo dia. Me senti muito mais segura andando de ônibus. O metrô ainda deixa muito a desejar e sonho com o dia em que as linhas serão tantas que os nossos mapas do metrô serão dignos de virar souvenir, mas dá pro gasto. TO-DO-MUN-DO anda se locomovendo de bicicleta, normal ou elétrica, ou com as laranjinhas do Itaú. Achei as ruas mais limpas e, coisa importante, vi MUITA gente com cara de pobrinha jogando lixo na lata de lixo, coisa impensável até pouco tempo atrás. Falando das pessoas, fiquei impressionada como o pessoal mais pobre anda se vestindo melhor. Todo mundo de óculos novos, bons, bonitinhos, de cabelo feito, de roupas menos cafonas, usando sapatos bons e não aquelas coisas medonhas de plástico da Di Santinni. Achei até as babás nas pracinhas de nível melhor, falando menos errado.

A cidade está FELIZ. Claramente feliz. As pessoas estão de bom humor. Os turistas não são mais caminhoneiros alemães e desdentados, barrigudos nas suas camisetas encardidas à caça de menores de idade. Cruzei com inúmeras famílias com filhos, casais hetero e homo, jovens nórdicos vermelhos de sol curtindo a vida tomando chopp de Havaianas nos quiosques da praia, mochileiros indo pra albergue, gente arrastando mala pela rua com mapa na mão, crianças branquelas comendo Biscoito Globo na areia, falando línguas estranhas no parque Garota de Ipanema. Turistas normais, gente. Turistas comme il faut. Vocês não têm noção de quanto isso me deixa feliz. Tinha que me controlar pra não abraçar cada uma dessas pessoas normais e dizer, chorando de alegria, “Obrigada, obrigada por ser normal e estar visitando a minha cidade! Já comeu pão de queijo?”.

Meu amigo Hiro postou um momento banzo no Facebook esse ano, enquanto ele mesmo estava no Rio (nossas estadas overlapped um pedacinho e conseguimos nos ver a jato, antes dele voltar pra Londres). Eu tive um também, pela primeira vez desde que vim morar aqui no interior do Zaire. Mais precisamente, estava voltando da academia depois de fazer spinning e musculação, comendo uma muy amada banana prata. Virei a esquina da Garcia com a Visconde de Pirajá, ali mesmo onde fica a primeira filial do Bob’s, e tive um insight: minha filha, isso que é a sua casa, o resto é perfumaria. Vejam bem, sou feliz na Itália, me integrei ultra bem, a vida aqui tem muitas vantagens com relação à vida no Rio, mas casa é casa, né. Quem não tem saudade de casa bom sujeito não é.

E eu sinto muita falta de cidade grande. Assim, genérica. Basta ter uma cabeçada danada, muitos sinais de trânsito e precisar fazer mil baldeações no metrô pra me deixar feliz. Já falei isso aqui mil vezes, mas eu sou repetitiva mesmo e vocês sabem; quem não quiser ouvir outra vez que feche a janela. Eu sou um bicho urbano. Se por um lado tem coisas da roça que eu adoro, por outro eu amo o anonimato da cidade grande, que no Rio nem é tão anônimo assim porque na Zona Sul todo mundo se conhece e porque todo carioca é amigo íntimo instantâneo de todo mundo. Amo a bagunça. Amo a diversidade de tudo, de gente, de comidas, de rotas, de atividades culturais, de lazer.

No caso específico do Rio, amo as escolinhas de TUDO na praia, amo os onipresentes uniformes cariocas roupa de praia + Havaianas/roupa de ginástica, amo a feira, tão laidback, alegre e zoneada, amo como todo mundo se despede com beijo, tchau mesmo tendo acabado de te conhecer, amo o sotaque (lógico), amo a informalidade, amo aquela maluquice que é o centro da cidade, amo inclusive o fato da gente dizer “tenho que ir na Cidade resolver um negócio”, amo a SAARA de paixão, amo os caras que ficam batucando pros comensais do lado de fora do Bar Garota de Ipanema, amo como neguinho sai de cachecol quando a temperatura cai pra 20 graus, amo as crianças brincando maravilhosamente descalças na pracinha (se fosse na Itália neguinho chamaria a polícia, com acusação de maus tratos), amo os pinguins que aparecem no Arpoador e as piadas que neguinho fazia sobre eles, amo o restaurantinho mexicano administrado por um casal de estrangeiros, ali na Visconde, amo os cocos verdes pendurados nos quiosques (detesto água de coco mas acho o máximo existir água de coco no mundo), amo as novas estações de metrô, amo as conversas das manicures, divertidíssimas, amo ouvir todo mundo comentando a última da Carminha, amo a moda de tênis mega coloridos, amo as ruas das praias fechadas aos domingos pra neguinho caminhar e levar crianças, cachorros e velhos em cadeiras de rodas pra passear, amo as unhas coloridas. Claro que tem várias coisas chatas também, lógico, visto que paraíso não existe e que não sou cega nem burra, mas o clima anda tão bom pro Rio que prefiro não tocar nesse assunto.

E é por isso que convenci o Mirco a passar o réveillon no Rio esse ano ;)

de olimpíadas e paralimpíadas

Quem me segue (que termo mais idiota…) no Facebook tá careca de saber que eu sou tarada por eventos esportivos internacionais. Durante o resto do ano não tenho o menor interesse em esporte nenhum, mas há algo pra mim irresistível nesse murundu de bandeiras, nomes bizarros, caras diferentes. A TV fica ligada o dia inteiro e assisto a toda e qualquer partida, não importa a nacionalidade dos competidores.

Na verdade não sei explicar essa minha obsessão. Sou uma couch potato de carteirinha. Nasci sem a parte do cérebro responsável pela competitividade. Torço por todos, sempre, e fico tristíssima por quem perde, mesmo que tenha perdido pro Brasil. JAMAIS teria o sangue frio necessário pra participar de evento esportivo nenhum, sou péssima perdedora, se ganhasse choraria tanto que provavelmente desmaiaria, ficaria muda na hora de dar entrevistas, colapso total ao ouvir o hino brasileiro. Também não sou dessas pessoas que gostam de superar limites; adoro meus limites, somos amicíssimos, íntimos, e não tenho a menor intenção de tentar deixá-los pra trás. Quem me conhece bem sabe que a minha preguiça atinge níveis estratosféricos e se houvesse uma modalidade olímpica pra quem tem menos vontade de se mexer, eu ganharia de lavada. Então por que diabos eu gosto tanto dessas competições internacionais?

As Paralimpíadas, então, nem comento. Fico grudada na televisão, fascinada por esses super-heróis que fazem coisas inacreditáveis. Fazem-me morrer de vergonha da minha preguiça insuperável, mas masoquistamente continuo assistindo e pensando PUTA QUE O PARIU. Hoje estávamos vendo uma prova qualquer de natação, categoria Muito Fodidos, e a Carol perguntou, ao ver um atleta com os braços amputados logo abaixo dos ombros e pernas amputadas logo abaixo dos joelhos: “mas como aquele moço vai nadar se ele não tem braços nem pernas?”. Caralho, exclamou a princesinha; não sei, não sei. Mas o fato é que o fulano nadou, ondulando a coluna, e não só nadou como chegou na frente de um outro que tinha antebraços. Ontem vi a prova de salto em altura pra pessoas com uma das pernas amputadas: os atletas não usam prótese, saem pulando em uma perna só, tipo Saci, e saltam lindamente por cima da barra. Um dos competidores, um indiano feio pra dedéu, tinha as duas pernas, mas uma era inutilizável, com o pé virado pra trás ENFIADO NUM CHINELO DE DEDO. Pois ele estava lá competindo pelo seu país, atleta internacional, aplaudido pelo público que lotava o estádio.

E os atletas cegos? Uma nadadora ontem não foi avisada de que a parede da piscina estava chegando e deu uma mega cabeçada que deve ter doído pacas, mas ganhou a prova. Os corredores que voam, com uma das mãos ligada à mão do guia com uma cordinha, são espetaculares. Aliás, tomei uma simpatia gigante pelos guias dos corredores cegos. Imagina você preenchendo um formulário qualquer e no campo “profissão” você escreve “guia de corredores cegos”. Sensacional!

E os ciclistas? Céus, o que são aquelas pessoas VOANDO nas suas bicicletas modernosas no velódromo, sem uma perna, pedalando com uma perna só? Ou com uma prótese? Ou com os cotos dos antebraços apoiados no guidon? Ou com problemas graves de coordenação e com movimentos involuntários, como um chinês todo torto que ganhou uma prova e bateu um recorde? Que tal o ciclista espanhol que não tem uma perna e um braço DO MESMO LADO? Como diabo esse cara consegue manter o equilíbrio na bicicleta?

COMO ASSIM? De onde vem essa força de vontade dessas pessoas? O que é isso, gente? Tem pra vender? Porque eu tô precisando.

Minha nova ídala é a Ellie Simmonds, a nadadora inglesa com acondroplasia (nanismo) que é simpática, alegre, faladora e uma puta de uma atleta que dá cada sprint final de arrepiar os cabelos. E os nadadores brasileiros, todos, que simplesmente dão um show.

Aliás, uma coisa maravilhosa das Paralimpíadas é que as medalhas são melhor distribuídas do que nas Olimpíadas. Por algum motivo que não consigo imaginar, vários países fodidos mandam muitos atletas pra esse evento, incluindo o Brasil, que se não me engano ganhou mais medalhas nas Paralimpíadas em Pequim do que nas Olimpíadas. Ontem quem ganhou a medalha na tal prova de salto em altura com uma perna só foi um cara das Ilhas Fiji. O melhor time de vôlei sentado aparentemente é o Irã, e hoje vi um jogaço aço desse esporte – Alemanha e Egito. Egito! Quem já viu o Egito concorrer em alguma coisa? E a Turquia, time favorito pro basquete de cadeira de rodas masculino? Democracia total. Estou adorando. Me sentindo um cocô preguiçoso também, mas adorando. De repente até me animo a sair da fase couch potato e entrar pra uma academia. Talvez faça uma aula experimental de capoeira amanhã. E seja o que Darwin quiser.

legolas, o melhor cachorro do mundo

Todo cachorro é o melhor cachorro do mundo. O seu também é. Mas o meu era mais.

Ele nadou no mar em Ipanema. Ele roeu e comeu muito coco. Ele levou folha de palmeira seca pra casa. Ele tinha um fã-clube enorme de porteiros, na Lagoa e na Tijuca. Ele amava andar de carro. Ele fez com que todas as amigas da minha avó perdessem o medo de cachorro. Ele uma vez roubou um filé mignon inteiro da pia da minha avó e apareceu todo murcho e arrependido ainda com o plástico pendurado na boca. Ele se jogou na Lagoa umas duas ou três vezes. Ele adorava dormir no ar condicionado. Ele vinha dormir no meu quarto de madrugada, fugindo dos roncos da minha avó. Todos os meus amigos da faculdade o conheciam e o adoravam. Ele ficava me encarando até eu acordar. Ele trazia tênis (sapato e chinelo não serviam, só tênis mesmo) pras visitas verem quando chegavam em casa. Ele veio de avião pra Itália e fez dez minutos de xixi no primeiro poste que viu quando chegou. Ele virou o melhor amigo do Demo. Uma vez peguei ele e Demo atravessando a rua em Santa Maria, na faixa de pedestres. Ele dormia sentado no galinheiro enquanto a Arianna dava comida pras galinhas. Ele ficava deitado na horta da Arianna, em meio às alfaces, feliz da vida. Na Itália, ele aprendeu a substituir os tênis por pedaços de lenha; uma vez, sem nenhum pedaço à mão, pegou uma lenha ACESA da lareira e saiu correndo pela casa com aquele negócio em brasa na boca, abanando o rabo e todo prosa. No verão, quando o calorão tá brabo, almoçamos na cozinha de baixo, que dá pro quintal, e os cachorros ficam aproveitando o fresco com a gente, em torno da mesa. Uma vez a Arianna tinha deixado uns jornais com piche embaixo dos móveis, pra pegar um camundongo que tinha sido visto no quintal; o Legolas deitou com o rabo bem embaixo do armário e o piche grudou no rabo dele. Só percebemos porque, quando lhe demos um pedaço de carne, ele ficou feliz e abanou o rabo e ouvimos o barulho do jornal. Tivemos que cortar um monte de pelos pra poder soltar o jornal. Ele era amigo dos gatos, que roubavam a sua ração. Ele adorava casca de fruta, principalmente de melancia. E adorava as frutas também. Gostava muito de peixe e devorava um frango assado inteiro em minutos. Nunca teve tártaro e nunca perdeu um dente sequer. Ele avisou à Arianna que o Demo tinha morrido, quando ela chegou em casa. Ele sempre ignorou a existência da Carol. Ele gostava de sorvete e de ovo cru. Ele “falava”, resmungando quando falávamos com ele. Ele não sabia uivar. Ele uma vez matou um pombo na casa da Arianna. Ele dormia horas no caminhão do Mirco, na oficina. E quando ficava muito sujo o Ettore limpava ele com jato de ar comprimido e ele nem ligava. Ele fazia muita companhia pra Arianna. Na primeira vez que viu neve ele a comeu. Ele bufava quando se jogava no chão. Ele ficava encarando a Arianna na horta até ela se tocar e lhe dar um pepino recém colhido. Ele deixava o Camillo sentar com a bunda na cara dele. Ele nunca reclamou de ter que tomar banho. Quando brincava de jogar bolinha ele nunca queria soltá-la, e, na dúvida sobre o que fazer com a bola, largava-a na tigela de água e depois não conseguia beber água porque a bola estava lá boiando e ocupando espaço. Ele tinha uma mancha preta na língua.

Então vocês me desculpem mas o meu cachorro foi o melhor cachorro do mundo e ponto final.