barba ensopada de sangue

Várias pessoas me recomendaram esse livro, nem lembro mais de todas, então agradeço coletivamente. O livro é muito legal, escrito de um jeito muito diferente. Altamente recomendado. Ah, é do Daniel Galera.

***

Velho, tu tá obcecado com essa história de renascimento. Vira o disco. Por que é tão importante pra ti saber se existe renascimento?

É importante saber que não existe. Todo o resto parece certo pra mim, mas esse detalhe estraga tudo.

Escuta, nadador. A questão do renascimento nem é muito importante no budismo original. Rolavam altas macumbas no Tibete quando o budismo caiu lá de paraquedas e uma parte da doideira ficou. Mas não é como a reencarnação kardecista. Se tu entende que uma pessoa é só uma aglomeração dinâmica de estados mentais, a ideia de uma alma que pode reencarnar deixa de fazer sentido. O que renasce, arredondando de um jeito grosseiro pra tu entender, são esses estados mentais, que seguem em frente e se recombinam até certo ponto. Assim como teu corpo alimenta plantas e vermes se tu for enterrado no chão. Assim como os átomos do teu corpo são poeira de estrelas.

Os átomos do meu corpo podem ser poeira de estrelas, mas isso não quer dizer que há estrelas em mim.

Parem de falar como hippies.

Entendeu o que eu quero dizer, Bonobo? A estrela morreu, eu vou morrer. Não faz diferença. Os átomos não eram dela. Meus estados mentais não são meus. E que porra é essa de mente? Acho que é só um jeito espertinho de acreditar em alma. É o restinho da permanência que os budistas guardam embaixo da cama.

Criamos um monstro, Bife.

Eu avisei antes. O ideal é nem começar.

A vida não pode continuar depois da morte. Não pode. Seria ridículo. Se provarem que continua eu me mato.

Mas aí não ia adiantar.

Tu é uma peça mesmo. O desgraçado mais cético que eu já vi.

Não sou cético. Só não acredito em qualquer coisa.

Se Deus existisse ele ia se divertir contigo.

Leopoldo ergue a garrafa de vidro e soluça.

Um brinde à crença apaixonada de que nada disso aí existe.

***

Mas minha parte preferida foi a que me fez ter um ataque de riso na escola de dança da Carol. É meio longuinho mas vale a pena.

***

(…) Beta começa a latir para o Bonobo. Depois de uma dúzia de latidos ela para com a mesma falta de motivo com que havia começado, lambe os dentes, olha em volta como se também estivesse positivamente surpresa consigo mesma e senta no tapete. O Bonobo diz que ela está feliz. Ele também acha. Estão enrolando as palavras e desistindo de frases no meio do caminho. Escuta com clareza o que pretende dizer dentro da cabeça mas a boca deforma as palavras na hora de enunciá-las. Por um longo período ficam em silêncio, deixam a cachaça de lado, apenas olham o mar escuro e a praia iluminada e escutam a trilha sonora épica e os efeitos sonoros violentos do jogo eletrônico no quarto ao lado. Tem a sensação de que esse instante se prolongará indefinidamente, que nada mais acontecerá, como se o mundo tivesse atingido alguma espécie de estado final na cena insignificante que estão protagonizando. O Bonobo pergunta com a voz baixa e circunspecta se ele também está sentindo aquilo. Ele pergunta aquilo o quê. Não tá sentindo nada diferente mesmo?, o Bonobo insiste com o indicador esticado como uma antena e o olhar oblíquo de quem está atento a algum fenômeno muito sutil. Ele presta atenção mas não capta nada além do rumor das ondas, a palpitação de suas têmporas, o espaço girando sob o efeito da bebida. E de repente ele sente. O fedor mais horrendo que já sentiu na vida, uma pestilência quase pastosa de metano concentrado que o faz engasgar no meio da tentativa de gritar um palavrão. O Bonobo gargalha, desmonta da janela com um salto mortal incompleto, bebe um gole da cachaça e faz uma dancinha com a garrafa na mão berrando Peido radioativo rapaziada, vambora! A vida é uma life e a night é uma baby! Ele foge para o banheiro, mija e depois lava o rosto tentando se recuperar do efeito do gás nauseabundo.

Tu tá podre por dentro, Bonobo.

Eu tô é pronto. Vamo pra festa.

Ele ri até perceber que o Bonobo tá falando sério.

Tem uma festinha no Rosa que deve tá começando a ficar animada agora mesmo. Fechamento de temporada de um sushi bar que fica ali perto da pousada. Vamos voltar pro quiosque e pegar o meu carro.

Tu tem carro?

Tenho. Bora. Chama o Altair ali.

Descobrem que Altair desmaiou com o controle do video game nas mãos. Está meio sentado e meio deitado entre a parede e o piso de azulejos castanhos com o jogo travado na tela de Continue?. Tentam acordá-lo sem sucesso. Derramam um copo d’água na sua cabeça. O Bonobo dá uns tapas no seu rosto. Altair não dá sinal nenhum de que possa despertar. Decidem deixá-lo no apartamento, deitado de lado em cima do tapete do quarto, com a chave reserva bem à vista na mesa da sala. Troca de camiseta e tranca as persianas enquanto o Bonobo tenta contatar pessoas no celular. Tem umas amigas minhas que iam pra lá, diz. As amigas não atendem. Outro conhecido atende e diz que o pessoal tá chegando. Tá começando a esquentar. Ele deixa Beta sair e tranca a porta por fora. Andam a passos largos pela trilha e depois pela areia. Dessa vez as gaivotas em repouso saem correndo em direção à água e algumas levantam voo. O Bonobo olha por cima do ombro.

Tu viu que a tua cachorra saiu junto? Ela tá nos seguindo.

Nem fudendo eu ia deixar ela trancada lá com o Altair.

Já passa da meia-noite e a cidade está vazia. Caminham por cima da faixa central da avenida até a esquina do quiosque de Altair. O Bonobo entra no terreno chutando as latinhas vazias e dando pulinhos.

O que tu foi fazer aí, ô sequelado? Cadê teu carro?

O Bonobo se aproxima da carcaça do Fusca e começa a forçar a maçaneta.

Não é possível.

Quê?

Isso é o teu carro?

Sim. É o Tétano.

Esse troço anda? Achei que era ferro-velho.

Anda pra caralho. Só toma cuidado quando entrar.

O Bonobo consegue abrir a porta do motorista e se acomoda no banco. Ele dá a volta no Fusca e fica espremido entre o carro e o muro tentando abrir a porta do lado do passageiro. A maçaneta corroída precisa ser pressionada de um jeito bem certinho para acionar o mecanismo. A lataria está coberta de padrões fractais de ferrugem e tinta bege descascada. Do teto se projetam as duas forquilhas enormes de um suporte de bagagem capaz de acomodar um barco pequeno. Há furos e arestas pontiagudas por toda parte. Os pneus estão tortos, carecas e meio vazios. Entra com cuidado, tentando não se cortar. Do assento do banco do passageiro resta apenas uma armação de hastes de ferro maleáveis coberta por almofadas velhas e um papelão dobrado. O encosto de espuma mole está relativamente intacto. Em cima do painel há uma estatueta dourada de um buda sentado com um sorrisinho no canto da boca e lóbulos da orelha hipertrofiados caindo sobre os ombros. Assobia para Beta. A cachorra contorna o carro e sobe no colo dele com um salto. Ele a afaga, elogia sua disposição e a acomoda no banco traseiro, que está coberto por uma canga de praia do Grêmio. Vê a bateria acomodada atrás do banco do motorista no meio de um emaranhado barroco de fios elétricos. O Bonobo gira a chave na ignição. O motor do Fusca dá uma risada.

Demora um pouco pra pegar, mas depois que pega não apaga.

Na quarta tentativa o motor pega. O Bonobo acelera fundo e produz um ronco escandaloso até obter um par de explosões no escapamento.

Pega o meu tapa-olho ali no porta-luvas por favor.

Meu o quê.

Meu tapa-olho.

Abre o porta-luvas e encontra um tapa-olho feito de pano e elástico preto no meio de uma barafunda de lenços de papel usados, cartões, barras de parafina, camisinhas, uma estopa encardida, uns óculos de sol quebrados. O Bonobo pega o tapa-olho e o ajusta em volta da cabeça e em cima do olho direito.

É pra não enxergar duplo.

Somente então ele engata a primeira. O carro anda. O capim e os destroços do quiosque raspam no fundo. A sensação é de estar viajando dentro do próprio motor. Saem de Garopaba pela estrada estadual. Um carro cruza no sentido oposto e o asfalto iluminado surge sob seus pés através de um buraco no piso. O Bonobo ziguezagueia levemente na pista mas levando em conta seu estágio de embriaguez e o estado do veículo ele até que dirige de maneira reconfortante, compenetrado, em velocidade moderada, com a vista limitada pelo absurdo tapa-olho e debruçado sobre o pequeno volante de forma a quase encostar o nariz simiesco no para-brisa. Criaturas como uma vaca ou um ciclista ganham vida num clarão e voltam a ser assombrações quase no mesmo instante. Entram à esquerda no acesso da praia do Rosa. É necessário parar o Fusca quase totalmente para transpor os quebra-molas. O calçamento plano de lajotas dá lugar às ladeiras de chão batido. A embreagem do Fusca não retorna sozinha à posição normal depois de acionada. Para lidar com o problema o Bonobo amarrou um pedaço de corda de varal azul ao pedal e ao puxador da porta. A operação de tirar a mão esquerda do volante e puxar a corda no momento exato após cada troca de marcha é complicada e exige um tanto de ginga e sincronia. Nas manobras mais complexas o motorista lembra um titereiro controlando o boneco de um automóvel.

saúde na bota

Felizmente aqui em casa quase não ficamos doentes, mas pra quem precisa de atendimento médico sério a coisa deve ser muito, muito complicada. Vou contar a saga do otorrino pra vocês terem uma ideia de como anda a situation por aqui.

Apesar de ficarmos doente menos frequentemente do que todos os nossos amigos, esse ano o inverno foi longo e muito frio, todo mundo passou meses enfurnado em casa (e ainda estamos; 15 graus hoje, chovendo) e a TODO MUNDO ficou doente. Na escola da Carol passamos dez dias com metade dos alunos em casa com febre, as duas professoras E a assistente doentes também – em duas ocasiões diferentes. Na natação a turma dela se reduziu à metade. Enfim, um horror. E desde o final do ano passado que toda vez que ela fica resfriada e encatarradésima, fica completamente surda. Otite mesmo só rolou uma vez esse ano, felizmente, mas ela estava surda direto praticamente desde janeiro, quando começaram as ondas virais e bacterianas na escola, depois das férias de fim de ano. Sabemos que quando o catarro vai embora a audição volta, mas como foram muitos meses seguidos (e eu não aguentava mais ter que falar tudo gritando. ODEIO ODEIO ODEIO ODEIO ODEIO gente que berra), resolvemos procurar um otorrino pra avaliar melhor.

O procedimento pra pedir consulta com especialista é o mesmo em toda a Europa, creio: primeiro você tem que passar pelo seu médico de família, que costuma ser uma anta, ele faz o pedido num papelzinho especial e você vai nas agências do SUS (ou em algumas farmácias, no caso da Itália) e reserva. Então fomos à pediatra da Carol, que atende pelo SUS e é muito boa mas está sempre entupida de pacientes. A secretária nos encaixou na hora do almoço da médica juntamente com outras SEIS crianças, todas marcadas no mesmo horário e atendidas por ordem de telefonema. Logicamente a pediatra estava com um mau humor fenomenal, totalmente compreensível dada a situação, e nos atendeu à base de patadas, mas fez o raio do pedido. O Mirco foi direto à farmácia onde compramos todos os remédios desde que a Carol nasceu, porque é em frente à oficina dele, e tentou marcar a consulta. Data: SETEMBRO. Oi? Liguei pro departamento de otorrino do hospital de Perugia, porque o de Assis está fechando e não tem mais quase nada funcionando, e perguntei se tinha pronto-socorro de otorrino, porque aí eu aproveitava que ela estava com dor e entupida de catarro até a alma pra ter uma justificativa pra levá-la pro PS. Não, senhora, não há mais PS de otorrino. Puxa, mas só tem vaga pra consulta em setembro, eu precisava agora. Então pode marcar com o sistema Intramenia, senhora; tem vaga segunda que vem com o chefe do serviço, são 120 euros. Marquei.

O tal sistema Intramenia nada mais é do que uma maneira de evitar a evasão fiscal. Os médicos filhos da puta atendem poucos pacientes por dia e desviam os outros pros consultórios particulares, onde atendem sem nota fiscal; o hospital se prontifica a ceder sala e equipamentos e ganha uma parte desses 120 euros, que o médico tem que declarar porque o paciente paga no caixa no hospital. Todo mundo ganha, menos o paciente, como os dois manés aqui, que ou desembolsavam essa grana ou esperavam até SETEMBRO pra conseguir a porra da consulta. O problema é que a Umbria tem tipo quatro habitantes. Não, sério, a densidade demográfica aqui é baixíssima, o hospital de Perugia acabou de ser todo reformado e aumentado, e mesmo assim faltam leitos, falta pessoal e você só consegue consulta quando o cometa Halley passar de novo. Puta que pariu.

Muito bem. A consulta estava marcada pras 15:40 de hoje. Lá fomos nós voados de casa depois da escola pra chegar no hospital às 15. Demos uma mega cagada e conseguimos estacionar logo de cara, uma raridade porque o estacionamento é completamente subproporcional pro tamanho do hospital e neguinho estaciona em fila dupla, tripla, em cima dos canteiros, na baia do ônibus, numa fila central imaginária no meio das alamedas do estacionamento… Não sabíamos se tínhamos que passar no CUP (o caixa) antes, porque não tínhamos nenhum papel na mão pra comprovar a marcação, já que foi feita por telefone e não envolve nenhum número de protocolo nem nada. Resolvemos passar no CUP pra perguntar, disseram que era lá mesmo. Chegamos no caixa e a mulher não encontrou a Carol porque pelo telefone eu passei o sobrenome do Mirco, mais fácil de soletrar, mas no documento novo constam os meus sobrenomes também. Obviamente a mulher não foi capaz de extrapolar que o nome era sempre Carolina, logo deveria ser a mesma pessoa, e ligou lá pra otorrino pra perguntar. Depois de uma discussão meio longa, ela entendeu o que tinha acontecido e fez tudo direitinho, nos dando quatro páginas A4 impressas – duas cópias da fatura e duas que até agora não entendi pra que servem mas de qualquer forma são um desperdício ridículo de papel.

Agora a coisa começa a esquentar, prestem atenção. Quando marquei a consulta no telefone a moça falou pra ir pro bloco C, quarto andar, mas a mulher do CUP nos mandou pra aceitação (a.k.a. triagem) da otorrino, do outro lado do hospital (que é MONSTRUOSAMENTE GRANDE). Lá fomos nós pra aceitação, onde a mulherzinha nos olhou como se fôssemos alienígenas porque paciente marcado com Intramenia não passa pela aceitação e é atendido em outro lugar, não na enfermaria de otorrino onde a mulher do CUP falou, mas no corredor dos consultórios médicos no tal bloco C. Lá vamos nós procurar o tal bloco (a mulher no telefone tinha razão, afinal de contas). Olha que genial: em vários dos blocos os andares não se comunicam diretamente, você tem que mudar de bloco pra pegar o elevador ou as escadas pro andar que você quer. Legal, né? Andamos pelo hospital por QUINZE MINUTOS procurando a merda do bloco C, até que uma alma caridosa, um enfermeiro manco com um sotaque hediondo de Perugia, se ofereceu pra nos levar até lá, pois era mais ou menos pra onde ele estava indo mesmo. Chegamos no bloco e pegamos o elevador até o quarto andar, mas demos de cara com uma placa que dizia “Hemoterapia” e mais nada. Sai uma enfermeira do corredor, perguntamos onde fica a otorrino e ela não tem a menor ideia. Descemos de novo, perguntamos pra outra pessoa, pegamos outro elevador e fomos parar no bloco certo. Vimos um corredor com a placa “Consultórios Médicos” e saímos procurando a sala do chefe da otorrino. Como o conceito de recepcionista aqui é completamente desconhecido, você tem que sair perguntando pras pessoas nos corredores ou batendo nas portas feito um mendigo, até acertar; na sala marcada como secretaria de otorrino ninguém atendeu, mas ao bater na sala do chefe do serviço ele respondeu que era pra esperar um minutinho. A essa hora estávamos dez minutos atrasados de tanto rodar pelo hospital, mas beleza, o cara tá atendendo outro paciente, esperemos. A Carol vira pra mim e pede pra fazer xixi, com aquele timing maravilhoso que criança tem. Vou procurar um banheiro e vejo a placa: “banheiros públicos somente no andar térreo”. Pra não errar de elevador (eram 4, dispostos em cruz nesse encontro de corredores onde estávamos), descemos de escada. Não encontro o banheiro normal, só o de deficientes físicos, que tem aquela privada esquisita rebaixada na frente. Carol se molhou toda de xixi, a descarga estava quebrada e não tinha sabão nem papel pra secar as mãos; fomos de álcool gel mesmo.

Na volta arrisquei o elevador. Apertei o 4 mas ele parou no 3; como ninguém entrou, eu, com pressa, achei que já fosse o 4. Desci e não achei a merda do corredor dos consultórios médicos, acabei entrando na enfermaria de ortopedia, de onde fui sumariamente enxotada. Subimos até o quarto andar de escada e depois de um breve momento de desorientação, localizei o Mirco, que estava parado na porta do consultório. O médico tinha feito ele entrar e depois desceu pra resolver sei lá o quê não sei onde. A essa altura do campeonato já eram 17:10. Uma moça com o filho adolescente para na porta aberta e pergunta se esse é o consultório do Doutor Tal; respondemos que sim e ela FINALMENTE! Estou rodando há meia hora! Agora nem me importa ter que esperar, pelo menos sei que estou no lugar certo!

O médico aparece uns 10 minutos depois e bota os fones no ouvido da Carol pra fazer a audiometria, explicando igual à cara dele o que ela precisa fazer. Ela, que quando liga a modalidade Mega Timidez Ultra Plus fica esfregando os olhos e não fala absolutamente nada, não respondeu. A tentativa dele durou dez segundos; desistiu dizendo “ela não coopera, vamos fazer uma timpanometria” e ligou pro ambulatório pra ver se tinha algum técnico livre. Explicou onde ficava a maldita da sala da timpanometria e lá fomos nós.

O elevador que ele mandou pegar não estava funcionando. Pegamos outro, mas saímos em outro lado e as instruções que ele deu não valiam mais. Saímos de novo perguntando feito dois retardados, erramos o caminho três vezes mas finalmente achamos a sala. A técnica foi muito simpática e fez o exame rapidinho. Erramos o caminho mais uma vez pra voltar (OK, somos meio geograficamente tapados) e quando chegamos o médico estava atendendo a mãe do adolescente. Esperamos mais um pouco, entramos, conversamos cinco minutos e fomos embora. (Tudo OK com o zovido, por sinal).

Isso tudo nos custou 120 euros e a aula de dança da Carol, que perdemos – não teríamos perdido se tivéssemos encontrado logo o consultório, se ele não tivesse feito a gente esperar, se tivesse banheiro em todos os andares, se ele tivesse tido um pouco de paciência com a Carol e tivesse conseguido fazer a audiometria lá mesmo.

***

A avó do Mirco morreu há um mês. Estava senil mas fisicamente OK. Acordou com falta de ar; quando cheguei lá ela já estava sendo descida das escadas pra entrar na ambulância. A médica disse pra gente torcer pra ela não precisar ser internada, porque não havia leito em lugar nenhum, o mais próximo disponível era em Città della Pieve, longe PRA CACETE, lá nas montanhas, depois de uma estrada cheia de curvas onde é impossível ultrapassar morrinha e que fica intransitável quando neva. Vou repetir: não tinha leito nem em Foligno, que é um hospital novinho em folha (onde a Carol nasceu), nem em Perugia, que é GIGANTESCO e foi reformado há coisa de dois anos. Pode isso, Arnaldo?

dom quixote

Como de hábito depois da última terça-feira do mês, aqui vai meu parecer sobre o balé da noite anterior, assistido no cinema. Como não interessa a ninguém, é mais um diarinho pra mim mesma, pra não esquecer.

– Nunca tinha assistido antes. É um balé muito alegre, não há adágios, os pas de deux são poucos, breves e alegres, tem muita pantomima, poucos tutus e coreografia muito interessante.

– Figurinos bonitos, mas continuo achando o Bolshoi bem inferior ao Mariinsky, ao Royal Ballet, ao La Scala, ao Opéra de Paris nesse quesito. Entendo o uso dos tons quentes, mas chega uma hora que cansa.

– A Osipova é a coisa mais deliciosa do mundo de assistir, parece ter nascido pro papel de Kitri (e funciona muito bem como Copélia também), embora não consiga imaginá-la em papéis mais dramáticos. Não é esquelética, é muito expressiva, tem ótima extensão e putaquepariu como salta! A entrada dela em cena no primeiro ato é de matar de felicidade.

– O Vasiliev, que faz o Basilio, é MUITO bom, mas é microscópico e desproporcional, com coxas excessivas. Não é o rei do ballon mas salta muito bem, arrancou muitos aplausos da plateia (inclusive de nós poucos gatos pingados no cinema).

– A história é completamente sem pé nem cabeça e Dom Quixote aparece só como elemento de conexão entre os atos, mas foi uma experiência interessante. Não foi paixão amor eterno fulminante à primeira vista como La Bayadère ou Le Corsaire, balés que eu saí do cinema e encostei na parede ali mesmo pra comprar o DVD imediatamente pela Amazon porque pre-ci-sa-va ver de novo. Mas é muito alegre, tecnicamente interessantíssimo de ver porque as coreografias são rapidíssimas, cheias de saltos e muito diferentes dos balés mais tradicionais, não há um ato de ballet blanc, a música é bem diferente também. Gostei.

– As cenas dos bastidores são sempre ótimas. Aprendo um monte de coisas sobre o balé e sobre o Bolshoi – por exemplo, é a única escola de dança que tem a matéria Danças Características, de modo que os bailarinos aprendem danças típicas do mundo inteiro. Ver os bailarinos se aquecendo com moletom e Uggs por cima dos tutus e das sapatilhas de ponta é muito engraçado; o espetáculo abriu com o Gamache todo paramentado vestido de rico bebendo água de um bebedouro no corredor enquanto uma bailarina chegava de jeans e bota. O público no teatro pediu tanto bis que chegou uma hora que a Osipova, por trás da cortina, fez com a cabeça uma cara de “não, chega, pelamordedeus, num guento mais”. Aliás, ela é um amor, mas parece que usa dentadura ou aparelho fixo na arcada superior, fica fazendo um negócio estranho com a boca como que pra esconder os dentões com o lábio.

– Mês que vem tem La Bayadère, que espero que seja com a Zakharova. Já sei o balé de cor e a Carol também adora (principalmente a parte da cobra), mas eu só tenho a versão do La Scala e parece que a do Bolshoi é bem diferente. Mal posso esperar :)

“haters gonna hate”, my ass

Vocês sabem que eu adoro a Chalene. Adoro como fitness instructor; acho-a ótima motivadora, os programas dela são deliciosos de fazer, as músicas são maneiras. Mas desde que ela passou a se concentrar mais no mundo da auto-ajuda, ficou insuportável. Diz minha amiga americana que agora nos Turbo Camps (que mudaram de nome e viraram Camp Do More, bem focalizados nas palestras de auto-ajuda mesmo e muito menos na malhação) ela cobra até pra tirar foto, e que anda com dois guarda-costas, como se fosse o Tony Stark. Sigo a mulher no Instagram porque ela posta fotos ótimas de exercícios diferentes, de comidas, de roupas. Mas com esse lance de investir na motivação, nessa palhaçada de que é só querer que você consegue tudo e que a gente tem que melhorar o tempo todo e coisa e tal (estou lendo um livro ótimo sobre isso, falarei dele em outro post), ela criou um culto à personalidade que chega a ser assustador. TU-DO o que a mulher posta – QUALQUER COISA – gera instantaneamente uma infinidade de comentários mais ou menos desse teor: “OMG I SO WANT THAT!”, “OMG that’s gorgeous!” “OMG you’re gorgeous!” “OMG you’re my inspiration I want to be like you so much it hurts”, “OMG that’s ab fab!”. Mas sabe TU-DO? Ela pode postar uma foto de um copo de shake de proteína com um canudo que neguinho pergunta onde ela comprou o copo, o canudo, o shake e se bobear o guardanapo também. E ainda pedem link pro aplicativo que ela usou pra editar a foto. Um dia ela postou uma foto dela com a melhor amiga, uma feia que nem a fome (de origem colombiana, tem bem aquela cara de asteca mesmo) mas engraçadíssima, usando roupas parecidas e tamancos anabela gi-gan-tes-cos. Imediatamente neguinho começa: “OMG I want those wedges!” “OMG where did you get those?” e por aí vai. Eu, que gosto muito das roupas, bolsas e jóias que ela posta mas tenho pavor do cabelão B-52’s que ela usa e mais pavor ainda de plataforma, dei um like mas comentei que pra mim plataforma = drag queen. Aaaaaaaaaaaaaaaaaah, pra quê. “Don’t you listen to her, haters gonna hate!”. “She’s envious of your bod Chalene!”. “Jesus will forgive you anyway hun!”.

A mesma amiga americana que me apresentou aos programas da Chalene é a pessoa que mais complica a própria vida que eu já conheci. Atualmente ela se encontra em uma baita sinuca de bico porque largou o emprego antigo, começou a trabalhar com outra empresa que exigiu que ela se mudasse pra Califórnia e logo depois a demitiu, e agora está desempregada, com problemas de saúde, sem seguro, sem um puto no bolso, com o leasing da casa feito junto com a namorada dela, uma louca que recebe como inválida porque é mentalmente instável. Enfim. Um dia ela diz que adotou um segundo gato. Fiquei quieta. Depois comprou um Yorkshire. Fiquei quieta. Depois de um tempo, já nessa merda financeira total, ela comenta que precisa cortar o cabelo mas não tem dinheiro porque a porra do cachorro precisa ser tosado. Fico quieta. Uma semana depois ela conta que COMPRARAM outro cachorro. Comentei no thread que quem não tem dinheiro pra cortar o próprio cabelo precisa de tudo nessa vida, menos de outro cachorro. Pronto. Começou o desfile de comentários na linha “haters gonna hate”.

Estava vendo um vídeo de balé no YouTube e lendo os comentários, que costumam ser bem civilizados e muito instrutivos. Dessa vez alguém criticou a bailarina, que no vídeo fazia uns fouetées tortos e desequilibrados, terminando a série praticamente do outro lado do palco. Aí vem logo o idiota da vez respondendo “quero ver você fazer melhor!”. Felizmente o dono da crítica inicial foi educado mas manteve a sua posição de maneira firme. Ora bolas, só porque eu não sou bailarino não sou capaz de entender quando alguém fez um passo errado? Não tem nada de subjetivo no meu comentário; se você observar onde ela começou a girar e onde terminou vai ver que ela viajou um metro inteiro, e isso é um dado objetivo que nada tem a ver com a minha incapacidade ou não de fazer melhor que ela.

Pois então que essa síndrome de haters gonna hate vem me irritando deveras ultimamente. Não se pode criticar nada, não se pode ter uma opinião negativa sobre nada que logo vem alguém mandando você ir lá então fazer melhor. Qualquer crítica que você faz passa a significar que você tem inveja do outro. Qualquer sacode que você dá no amigo que tá fazendo merda vira “energia negativa”. Energia negativa de cu é rola, perdoem-me o galicismo. (Aliás, tem um artigo ótimo sobre essa palhaçada de pensamento positivo que li há alguns anos, vou tentar achar de novo porque vale a pena) Que porre! Como se não bastasse a chatura que virou viajar de avião agora tem essas modas chatonildas também! O mundo tá ficando um lugar muito chato de se morar, vou te contar. Só com muito brigadeiro de panela pra aturar, viu.

you are not so smart

Graças à Lara André, que além de salvar blogs indefesos contra terríveis malwares ainda dá ótimas dicas de livros e posta lindas fotos de bichos, baixei esse livro aqui no Kindle. É simplesmente a coisa mais interessante que já li nos últimos tempos.

Fiz um curso de roteiro cinematográfico com a Newlands há muitas eras glaciais atrás, e destrinchamos O Silêncio dos Inocentes cena por cena, fala por fala, close por close. Nunca mais consegui ver um filme sem fazer esse tipo de análise. Não, não tira a graça da coisa, muito pelo contrário: hoje sou capaz de apreciar de verdade um roteiro bem escrito, de entender como um bom diretor faz diferença, de identificar de maneira mais ou menos certeira de quem é a culpa quando o filme é uma merda.

Um dos meus livros preferidos é Orality and Literacy, que explica, entre muitas outras coisas, como é impossível voltar a pensar como analfabeto depois que você aprende a ler e escrever (falo de ler e escrever direito, não de gente que não entende o que lê e que só sabe escrever o suficiente pra garranchar “pagar ceguro do carro hoge” no calendário). Saber ler e escrever direito muda o seu modo de pensar, e você nunca mais vai conseguir voltar atrás. Não dá pra desaprender a pensar dessa nova maneira; não é possível voltar atrás.

Esse livro também é assim, do tipo que muda paradigmas. Você começa a ver com outros olhos a sua relação com os outros, com a mídia, com as suas próprias emoções. E nunca vai conseguir voltar a ser aquele pobre inocente (leia-se otário) de antes, porque quando o seu cérebro sabe que está sendo enganado, o engano acaba. Não sei se estou conseguindo me explicar direito, mas leiam porque é MUITO interessante. Ainda nem terminei, mas estou achando tão sensacional que resolvi compartilhar aqui em vez de escrever o post que está na minha cabeça há meses (vou ver se escrevo essa semana ainda).

Um trecho, que nem é o mais interessante do que li até agora mas acho que exemplifica bem a nossa idiotice nativa:

“In 1970, psychologists Bibb Latane and John Darley created an experiment in which they would drop pencils or coins. Sometimes they would be in a group, sometimes with one other person. They did this six thousand times. The results? They got help 20 percent of the time in a group, 40 percent of the time with one other person. They decided to up the stakes, and in their next experiment they had someone fill out a questionnaire. After a few minutes, smoke would start to fill the room, billowing in from a wall vent. They ran two versions of the experiment. In one, the person was alone; in the other, two other people were also filling out the questionnaire. When alone, people took about five seconds to get up and freak out. Within groups people took an average of 20 seconds to notice. When alone, the subject would go inspect the smoke and then leave the room to tell the experimenter he or she thought something was wrong. When in a group, people just sat there looking at one another until the smoke was so thick they couldn’t see the questionnaire. Only three people in eight runs of the group experiment left the room, and they took an average of six minutes to get up.

The findings suggest the fear of embarrassment plays into group dynamics. You see the smoke, but you don’t want to look like a fool, so you glance over at the other person to see what they are doing. The other person is thinking the same thing. Neither of you react, so neither of you becomes alarmed. The third person sees two people acting like everything is OK, so that third person is even less likely to freak out. Everyone is influencing every other person’s perception of reality thanks to another behavior called the illusion of transparency. You tend to think other people can tell what you are thinking and feeling just by looking at you. You think the other people can tell you are really worried about the smoke, but they can’t. They think the same thing. No one freaks out. This leads to pluralistic ignorance – a situation where everyone is thinking the same thing but believes he or she is the only person who thinks ti. After the smoke-filled room experiment, all the participants reported they were freaking out on the inside, but since no one else seemed alarmed, they assumed it must just be their own anxiety.

The researches decided to up the ante once more. This time, they had people fill out a questionnaire while the experimenter, a woman, shouted in the other room about how she had injured her leg. When alone, 70 percent of people left the room to check on her. When in a group, 40 percent checked. If you were to walk along a bridge and see someone in the water screaming for help, you would feel a much greater urge to leap in and pull them to safety than you would if you were part of a crowd. When it’s just you, all the responsibility to help is yours. The bystander effect gets stronger when you think the person who needs help is being harmed by someone that person knows. Lance Shotland and Margaret Straw showed in a 1978 experiment when people saw two actors, a man and a woman, pretending to physically fight, they often wouldn’t intervene if the woman shouted, “I don’t know why I ever married you!” People helped 65 of the time if she instead shouted, “I don’t know you!” Many other studies have shown it takes only one person to help for others to join in. Whether it is to donate blood, assist someone in changing a tire, drop money into a performer’s coffers, or stop a fight – people rush to help once they see another person leading by example.

One final, awesome example is the Good Samaritan experiment. Darley and Batson in 1973 got a group of Princeton Theological Seminary students together and told them to prepare a speech on the parable of the Good Samaritan from the Bible. The point of the parable is to stop and help people in need. In the Gospel of Luke, Jesus tells his disciples about a traveler who is beaten and robbed then left to die along a road. A priest and another man walk past him, but a Samaritan stops to help even though the man is Jewish and Samaritans weren’t in the habit of helping out Jews. After filling out some questionnaires, with the story fresh in their minds, some groups were told they were late to give the speech in a nearby building. In other groups the subjects were told they had plenty of time. Along their path to the other building an actor was slumped over and groaning, pretending to be sick and in need of help. Of the seminary students who had plenty of time, about 60 percent stopped and helped. The ones in a rush? Ten percent helped, and some even stepped over the actor on their way.

So the takeaway here is to remember you are not so smart when it comes to helping people. In a crowded room, or a public street, you can expect people to freeze up and look around at one another.

Knowing that, you should always be the first person to break away from the pack and offer help – or attempt escape – because you can be certain no one else will.”

mais carolinices

Eu: E aí, Carol, qual foi o almoço hoje na escola?
Carol: Minhoque com molho de tomate, depois carninha e come-flor.

***

Carol: Depois de hoje vem amanhã?
Eu: Vem.
Carol: E amanhã é carnaval?
Eu: Meu amor, sinceramente eu não sei.
Carol: Toda hora eu pergunto pra você quando é o carnaval e você nunca sabe!
Eu: Por que esse interesse todo pelo carnaval agora?
Carol: Porque eu quero me fantasiar de borboleta pra festa da escola.
Eu: Ué, não vai de Bela??? Como assim?
Carol: Não tô a fim não. Insetos são tão legais.

***

Eu: E aí, Carol, qual foi o almoço na escola hoje?
Carol: Almônicas.

***

Carol toda concentrada fazendo cocô:
– Mãe, não faz maluquice não porque se eu rir o cocô não vai sair, tá?

***

Carol: Estou desenhando uma girafa meio esquisita. Ela não tem nariz e gosta de comer mapas sujos.
Eu: wtf?

***

Carol vem com um desenho lindo de um caracol que ela fez.
Eu: Que lindo, meu amor! Quem te ensinou?
Carol: Eu aprendi sozinha, porque eu já tenho 4 anos e quem tem 4 anos já sabe desenhar caracol.

***

Eu: E aí, carol, qual foi o almoço na escola hoje?
Carol: Macarrão com tomate, alface com cenoura e frango assado.
Eu: Uau, que delícia!
Carol: É, frango assado é muito melhor
Eu: Melhor que o quê?
Carol: Melhor que frango não assado.

the impossible

Uma pequena elucidação sobre o background: hoje foi criado, oficialmente, o Clubinho das Pessoas Desesperadas Por Morar no Interior do Zaire. A facção feminina do clubinho é composta por esta que vos escreve, Fabiola e Marta, a mulher do Marc (o ítalo-americano e o sócio masculino do clubinho). Eu, carioca; Fabiola, que nasceu no interiorrrrrrrrr de São Paulo mas estudou na capital e é cidadã do mundo; Marta, que nasceu aqui no interior do Zaire mas estudou em Roma e casou com o Marc, criado em NY, of all places. Como terça-feira mulher paga menos no cinema aonde costumo ir com o Mirco há anos, decretou-se que terça-feira vai ser dia de cineminha pras moçoilas. A Marta já começou logo furando, porque a Melissa hoje acordou com diarreia E perebas várias (ninguém merece), de modo que fomos eu e Fabiola na sessão das 21:55 (que na verdade começa às 22:15 por causa dos quilômetros de trailers que mostram antes). Como vocês estão carecas de saber, eu assisto a qualquer porcaria, até filme em que a mulher acorda diva maquiada de cabelo escovado salto alto e hálito de mel. Mas a Fabiola é mais seletiva, gosta de filmes fora do circuito, umas paradas hard core iranianas, suecas, de arte, sei lá o que mais, então deixei que ela escolhesse. Pois ela escolheu The Impossible. Minhas considerações sobre o filme:

– Como é possível um casal de olhos azuis ter dois filhos de olhos castanhos? Pra quê que perdemos tanto tempo estudando aquela parada de azão/azão/azinho/azinho na escola?

– Leve lenços. Muitos. Você vai chorar e fungar terrivelmente o filme inteiro. Se puder levar um bicho de pelúcia pra apertar muito nos momentos de nervoso, leve.

– Se você tiver filhos, aconselho vivamente tomar alguma bebida alcoólica bem forte antes, em tempo de dormir logo no começo e perder o filme todo; assim você poupa os seus nervos e não fica o tempo todo elocubrando sobre o que aconteceria se fosse você numa situação dessas, que decisões tomaria, quanta dor aguentaria, quanta raça teria, o que aconteceria com seus filhos. Eu e Fabiola chegamos à conclusão de que desmaiaríamos imediatamente de nervoso e dor.

– Se você tiver estômago fraco, feche os olhinhos logo que a Maria e o Lucas saírem da água, depois do lance do colchão que aparece no trailer. A MEGA ferida na parte posterior da perna da mulher é si-nis-tra e muito bem feita, apesar de aparecer rapidinho; você vai ficar bolado(a).

– Não tenho ideia de como filmaram esse negócio, mas ficou MUITO bem feito. Tudo. As tomadas embaixo d’água, as feridas, as tomadas aéreas, tudo.

– Já se passaram 8 anos desde o tsunami, caráleo… Parece que foi ontem.

– As maiores calamidades naturais sempre pegam os mais pobres e fodidos do mundo, impressionante. Muito tocantes as tomadas de cima – aquela devastação toda é de cortar o coração. Lembro que quando aconteceu o tsunami fiquei horas em pé olhando pra televisão feito um zumbi, paralisada pela tristeza.

– O roteiro tem uma violação grave do esquema “show, don’t tell”, mas perdoei porque o resultado final ficou muito bom.

– Não exagere na cafungada no cangote nos seus filhos quando chegar em casa. Eu quase acordei a Carol.

carolinices

– Boa noite, Carol.
– Boa noite, mãe.

Apago as luzes. Ela começa a beliscar a minha mão, como sempre. Sinto a frequência respiratória dela cair, sinal que está pegando no sono. DO NADA ela começa a chorar.

– Caraca, quê que houve, amor?
– Tô com medo das bruxas!
– Que bruxas?
– As bruxas da montanha…
– Que montanha?
– Nenhuma…
– Mas de onde você tirou isso? Quem falou que existe bruxa?
– Ninguém…
– Onde você viu bruxa então?
– Lugar nenhum…
(mais choro)
– Tô com saudade da Manu…
– Puxa, eu também…
– Tô com saudade do Guigui…
– Eu também, meu amor.
– Tô com saudade da Marina…
– Somos duas.
– Tô com saudade da Vovó Telma…
– Idem.
– Tô com saudade do Tio Tuco…
– Eu também, querida.
(mais choro)
– Tô com dor na orelha…
– Ah é?
– Com dor no alto da cabeça…
– Ahn. Onde mais tá doendo?
– No meu dedo!
(mais choro por uns dois minutos, depois capotou)

***

Carol desenha um ônibus e o motorista segurando o volante.
Eu: Não tem nenhum passageiro não?
Carol: Não.
Eu: Puxa, coitado, ele vai ficar dirigindo sozinho?
Carol: Mãe, é importante aprender a ficar sozinho. Quando eu vou pro supermercado com o papai você fica sozinha em casa e não reclama, né? Então.

***

Eu: Carooooool, já botou o tênis? Já pedi tem meia hora, cê tá parada na frente da televisão hipnotizada? Vai logo, vamos chegar atrasadas, bota esse tênis!
Carol: Mãe, você tem que aprender a es-pe-rar.

***

Carol: Mãe, quero ovo rosa.
Eu: Hein? Nunca vi ovo rosa, quequeísso?
Carol: Aquele que você abre e joga na panela e a gema fica rosa.
Eu: Ovo frito?
Carol: Pode até ser ovo frito, mas ele fica ovo rosa.

***

Eu: Qual foi o verde de hoje no almoço da escola?
Carol: Espinafre. Você faz espinafre pra mim no jantar?
Eu: Vou fazer outra coisa, tá, pra você não comer espinafre de novo.
Carol: Mas eu quero espinafre! E faz muito bem pra saúde! O cocô fica todo verde escuro.

***

Eu: Toma logo esse suco pra gente poder sair.
Carol: Ué, mas você não vive falando que suco faz mal, que é cheio de açúcar?

***

Carol tosse.
Eu: Bota a mão na frente da boca, tá?
Carol: Tem razão. Se tossir em cima do coração dá doença, né.
Eu: Amor, mas o coração fica dentro do peito, protegido, não dá pra tossir em cima dele a não ser em caso de cirurgia torácica a céu aberto.
Carol: Peito? Mas eu não tenho peito.
Eu: Peito é tudo isso aqui, ó (passo a mão pelo tronco dela). PeitoS, no plural, são esses aqui (mostro os meus). Você pode chamar peito de tórax também, se quiser.
Carol: Ah, então eu prefiro tórax.

distopias e zumbis

Outro dia admiti no Facebook que eu adoro all things zombies. Ano passado baixei, no Kindle, World War Z, que é absolutamente sensacional – uma série de entrevistas muito realistas sobre uma epidemia que transformou os seres humanos em zumbis. O outro livro do autor sobre o mesmo assunto, The Zombie Survival Guide, já não é lá grandes coisas, força um pouco a barra e tem várias piadas amarelas desnecessárias.

Meu filme preferido sobre esse assunto é, de longe, 28 days later, fenomenal, apesar do Cillian Murphy que pra mim tem uma cara de psicopata que vou te contar. Fotografia maravilhosa, roteiro excelente, várias cenas memoráveis. Altamente recomendável.

Ah, mas você não gosta de zumbis, ficção científica, ficção e coisa e tal. Não importa. O filme é ótimo com ou sem zumbis. Se preferir, substitua os zumbis por soviéticos malvados/terroristas árabes/mafiosos chineses/whatever. Mas assista, porque é muito bom. Muito bom porque é um mundo distópico muito bem aproveitado, e eu adoro uma distopia. Ótimos livros sobre o assunto são Oryx & Crake e The Year of the Flood, sobre o mesmo mundo distópico e, da mesma autora, o espetacular The Handmaid’s Tale, presente da queridíssima amiguinha eowyn. Esse último, em particular, não sei como ainda não foi transformado em filme, dado o imenso potencial estético e de roteiro. Daria um excelente filme do Guillermo del Toro. Outra distopia que li esse ano foi Wool, ótima dica do Cris Dias. Esse mundo distópico, bem original, é organizado em silos, onde as pessoas nascem, vivem, morrem e são recicladas como adubo, sem nunca saber direito como era o mundo antes dos silos, quem os inventou e construiu e por quê, o que ainda há lá fora.

Sou fascinada por distopias porque elas oferecem um leque imenso de oportunidades a serem exploradas, antropologicamente falando. Fora as coisas básicas, de nível prático, do tipo como sobreviver sem celulares, eletricidade, telefone, televisão, bibliotecas, escolas, GPS, hospitais e todas as instituições organizadas de uma sociedade estruturada, temos toda uma série de problemas típicos do ser humano quando no seu estado natural, bem Thomas Hobbes mesmo. Porque é quando o bicho pega que a gente sabe quem é quem. De modo que os dramas a serem explorados são muito intensos e interessantes; as regras mudam ou simplesmente deixam de existir quando só o que importa é sobreviver.

Desse ponto de vista, The Walking Dead está dando um show. Eu tinha visto alguns episódios no Rio esse ano, mas como não tinha pego a série no começo, não entendi nada e não achei muita graça além do fato do assunto ser zumbis. Devagarzinho estou assistindo desde o começo, e, acreditem em mim, é simplesmente uma das melhores coisas já feitas na televisão nos últimos tempos. Conflitos que em um mundo normal seriam resolvidos sem grandes problemas viram coisas enormes, escolhas de Sofia de verdade. Por exemplo: seu grupo capturou um rapaz que andava com um pessoal meio barra pesada, mas ele jura que só estava com eles pra ter mais chances de sobreviver. Ele está muito machucado em uma das pernas e não consegue andar. A fazenda onde o seu grupo está se escondendo está ameaçada por um exército de zumbis/soviéticos malvados/terroristas árabes/pés-grandes/alienígenas/Lucianos Hucks e você precisa fugir o mais rápido possível. Você não tem certeza sobre as intenções do rapaz, mas se ele for junto certamente atrasará o grupo porque 1) está com a perna fodida e 2) vai ter que ser vigiado o tempo todo. Por outro lado, ele é jovem e forte; se for um cara legal e a perna dele sarar, ele pode ser um valor agregado (lol) pro grupo. O que fazer? Deixá-lo amarrado no celeiro à espera dos zumbis? Matá-lo logo com um indolor tiro na fuça pra poupá-lo de um fim horrível nas mãos dos zumbis/soviéticos malvados/terroristas árabes/pés-grandes/alienígenas/Lucianos Hucks? Levá-lo com você? Se as duas opções preferidas pelo grupo forem as primeiras, que direito todo mundo tem de decidir o que fazer com a vida de outra pessoa? Mas, por outro lado, não existem mais juízes nem tribunais e é cada um por si. Outro exemplo: sua mulher fica grávida, e nem ela sabe se está grávida de você ou do seu melhor amigo, que achou que você estava morto e acabou virando o namorado da sua mulher. Aborta ou não aborta? É justo dar à luz uma criança nesse mundo pós-apocalíptico? Mais do que isso, é justo jogar mais esse fardo sobre os ombros do grupo, mais uma boca pra alimentar e pra proteger nesse mundo pós-apocalíptico? É justo com o seu filho mais velho, que precisa desesperadamente de orientação enquanto cresce nesse mundo pós-apocalíptico? Por outro lado, um bebê simboliza esperança, a ideia de que algumas coisa nunca vão mudar, mesmo nesse mundo pós-apocalíptico, e pessoas precisam de esperança. E agora, José, nesse mundo pós-apocalíptico?

O seriado é cheio de encruzilhadas morais assim. Às vezes a escolha feita dá certo; às vezes não. Ninguém é (só) o que parece, tudo é relativo, tudo precisa ser contextualizado. Estão aproveitando muito bem dilemas desse tipo e o elenco é FENOMENAL. O ator principal é simplesmente sensacional e merece todos os Grammys a que concorrer, porque realmente dá um show. E pensar que ele é inglês! Com seu sotaque caipira americano perfeito, deve ser parente do Hugh Laurie, que também enganou todo mundo com seu sotaque americano. Todos os outros atores são ótimos. A maquiagem dos zumbis é maravilhosa, e tão realista que alguns atores chegaram a chorar de nervoso durante a “transformação” na cadeira de maquiagem (perdi o link da entrevista). Os efeitos especiais todos são muito, muito bons. Estou adorando, e isso porque assisto meio de lado, enquanto trabalho, ou seja, perco muito dos diálogos. Vão na fé que vocês vão gostar.

***

Coisas que eu acho chatas nesses seriados: toda mulher é magra e linda e ninguém usa cabelo curto. Cara, a PRIMEIRA coisa que eu faria em caso de apocalipse, qualquer que fosse a causa, seria raspar a cabeça. Jamais conseguiria correr de zumbis/soviéticos malvados/etc com o cabelo suado colado na nuca, caindo na cara, entrando na boca. Conseguir manter a cabeça menos imunda é bem mais fácil quando os cabelos são poucos. Imagina eu correndo dos zumbis e me preocupando se vou conseguir achar condicionador na próxima farmácia abandonada que encontrar? E todo mundo usando calça jeans? Jesus, é simplesmente a roupa mais desconfortável do mundo, com aquelas costuras duras, a sua incrível capacidade de esquentar feito uma desgraça no calor e deixar as suas pernas geladas no frio, o seu peso quando molhado. De jeito nenhum! Roupa pós-apocalíptica é moletom ou legging (nesse caso as cariocas já estariam preparadas, já que esse é um dos uniformes perenes de qualquer mulher que mora no Rio de Janeiro).

Eu não sei se duraria muito num mundo desses. Não sei se aguentaria ficar imunda 24 horas por dia; juro que pra mim isso seria pior do que o pavor dos zumbis/Lucianos Hucks/alienígenas. A comida também seria um problema, lógico; lembro a alegria dos personagens quando viram uma cesta de batatas na fazenda do Hershel. “Nunca pensei que ficaria tão feliz ao rever uma batata”, diz um deles. Um mundo pós-apocalíptico é um mundo com poucos carboidratos; eu prefiriria a morte nas mãos de um Luciano Huck.

o hobbit

Quem me conhece sabe que eu sou fã de Tolkien e que já li TLotR umas 13 vezes. Tenho todos os filmes na versão extended, que já vi várias vezes, adoro. Pois segunda-feira lá fui eu sozinha ver O Hobbit no cinema Leblon, não o do shopping, aquele de rua mesmo. Fui a pé, nesse calorzão doido, pra encarar a sessão das 13:30. Além de mim, só outras três pessoas no cinema. Tirei meu micro pacotinho de M&Ms da bolsa, comprado numa Lojas Americanas no caminho, e botei os horrendos óculos 3D. Meu parecer:

– ODEIO ODEIO ODEIO ODEIO 3D. Que porre! Vejam bem, não sei se é a culpa do 3D ou dos 48 frames, mas o fato é que os efeitos especiais, embora não se tornem mal feitos, perdem muito do seu impacto. Na verdade o filme inteiro fica com aspecto de Sítio do Pica-Pau Amarelo, não sei se estou conseguindo me explicar. Muito esquisito.

– A música é muito boa (Howard Shore, baby). A balada Song of the Lonely Mountain é linda, e cantada (e hummed) pelos anões ficou mais bonita ainda.

– Os figurinos, pra variar, são tudo de bom.

– O Lindir é viado.

– O roteiro é bom, boa adaptação do texto original, o ritmo do filme ficou interessante. Tem bastante ação, e um monte de apelações e deus ex machina, mas o livro, completamente diferente do TLotR, é meio assim também, leve, cheio de gracinhas e trocadilhos e poesias irônicas, de modo que acho que o filme não fugiu muito do estilo do livro.

– O elenco é ótimo. O Ian McKellen está ve-lho, céus. Os olhos dele estão caídos estilo dacschund. Mas continua ótimo. O Bilbo está muito bom e os anões são todos ótimos, até o pitéu Kili e os bobões Bifur, Bofur e Bombur. Dos virtuais: o Gollum está meio diferente, mas sempre muito bom. O rei dos goblins é muito bem feito, embora eu ache que o seu tamanho combinasse melhor com uma voz mais retumbante. Os goblins todos, no geral, dão bem a ideia de maggots, de coisas rastejantes e infestantes, ficou bem legal.

Digamos que saí bem contente do cinema. Semana passada vi 007 e também achei muito bom. Agora quero ver Argo, que todo mundo já viu e adorou, menos eu, mas não sei quando vou conseguir. Fico tão felizinha quando vejo filmes bons, vocês nem imaginam. Quando não são dublados em italiano, então, nem se fala.