you are not so smart

Graças à Lara André, que além de salvar blogs indefesos contra terríveis malwares ainda dá ótimas dicas de livros e posta lindas fotos de bichos, baixei esse livro aqui no Kindle. É simplesmente a coisa mais interessante que já li nos últimos tempos.

Fiz um curso de roteiro cinematográfico com a Newlands há muitas eras glaciais atrás, e destrinchamos O Silêncio dos Inocentes cena por cena, fala por fala, close por close. Nunca mais consegui ver um filme sem fazer esse tipo de análise. Não, não tira a graça da coisa, muito pelo contrário: hoje sou capaz de apreciar de verdade um roteiro bem escrito, de entender como um bom diretor faz diferença, de identificar de maneira mais ou menos certeira de quem é a culpa quando o filme é uma merda.

Um dos meus livros preferidos é Orality and Literacy, que explica, entre muitas outras coisas, como é impossível voltar a pensar como analfabeto depois que você aprende a ler e escrever (falo de ler e escrever direito, não de gente que não entende o que lê e que só sabe escrever o suficiente pra garranchar “pagar ceguro do carro hoge” no calendário). Saber ler e escrever direito muda o seu modo de pensar, e você nunca mais vai conseguir voltar atrás. Não dá pra desaprender a pensar dessa nova maneira; não é possível voltar atrás.

Esse livro também é assim, do tipo que muda paradigmas. Você começa a ver com outros olhos a sua relação com os outros, com a mídia, com as suas próprias emoções. E nunca vai conseguir voltar a ser aquele pobre inocente (leia-se otário) de antes, porque quando o seu cérebro sabe que está sendo enganado, o engano acaba. Não sei se estou conseguindo me explicar direito, mas leiam porque é MUITO interessante. Ainda nem terminei, mas estou achando tão sensacional que resolvi compartilhar aqui em vez de escrever o post que está na minha cabeça há meses (vou ver se escrevo essa semana ainda).

Um trecho, que nem é o mais interessante do que li até agora mas acho que exemplifica bem a nossa idiotice nativa:

“In 1970, psychologists Bibb Latane and John Darley created an experiment in which they would drop pencils or coins. Sometimes they would be in a group, sometimes with one other person. They did this six thousand times. The results? They got help 20 percent of the time in a group, 40 percent of the time with one other person. They decided to up the stakes, and in their next experiment they had someone fill out a questionnaire. After a few minutes, smoke would start to fill the room, billowing in from a wall vent. They ran two versions of the experiment. In one, the person was alone; in the other, two other people were also filling out the questionnaire. When alone, people took about five seconds to get up and freak out. Within groups people took an average of 20 seconds to notice. When alone, the subject would go inspect the smoke and then leave the room to tell the experimenter he or she thought something was wrong. When in a group, people just sat there looking at one another until the smoke was so thick they couldn’t see the questionnaire. Only three people in eight runs of the group experiment left the room, and they took an average of six minutes to get up.

The findings suggest the fear of embarrassment plays into group dynamics. You see the smoke, but you don’t want to look like a fool, so you glance over at the other person to see what they are doing. The other person is thinking the same thing. Neither of you react, so neither of you becomes alarmed. The third person sees two people acting like everything is OK, so that third person is even less likely to freak out. Everyone is influencing every other person’s perception of reality thanks to another behavior called the illusion of transparency. You tend to think other people can tell what you are thinking and feeling just by looking at you. You think the other people can tell you are really worried about the smoke, but they can’t. They think the same thing. No one freaks out. This leads to pluralistic ignorance – a situation where everyone is thinking the same thing but believes he or she is the only person who thinks ti. After the smoke-filled room experiment, all the participants reported they were freaking out on the inside, but since no one else seemed alarmed, they assumed it must just be their own anxiety.

The researches decided to up the ante once more. This time, they had people fill out a questionnaire while the experimenter, a woman, shouted in the other room about how she had injured her leg. When alone, 70 percent of people left the room to check on her. When in a group, 40 percent checked. If you were to walk along a bridge and see someone in the water screaming for help, you would feel a much greater urge to leap in and pull them to safety than you would if you were part of a crowd. When it’s just you, all the responsibility to help is yours. The bystander effect gets stronger when you think the person who needs help is being harmed by someone that person knows. Lance Shotland and Margaret Straw showed in a 1978 experiment when people saw two actors, a man and a woman, pretending to physically fight, they often wouldn’t intervene if the woman shouted, “I don’t know why I ever married you!” People helped 65 of the time if she instead shouted, “I don’t know you!” Many other studies have shown it takes only one person to help for others to join in. Whether it is to donate blood, assist someone in changing a tire, drop money into a performer’s coffers, or stop a fight – people rush to help once they see another person leading by example.

One final, awesome example is the Good Samaritan experiment. Darley and Batson in 1973 got a group of Princeton Theological Seminary students together and told them to prepare a speech on the parable of the Good Samaritan from the Bible. The point of the parable is to stop and help people in need. In the Gospel of Luke, Jesus tells his disciples about a traveler who is beaten and robbed then left to die along a road. A priest and another man walk past him, but a Samaritan stops to help even though the man is Jewish and Samaritans weren’t in the habit of helping out Jews. After filling out some questionnaires, with the story fresh in their minds, some groups were told they were late to give the speech in a nearby building. In other groups the subjects were told they had plenty of time. Along their path to the other building an actor was slumped over and groaning, pretending to be sick and in need of help. Of the seminary students who had plenty of time, about 60 percent stopped and helped. The ones in a rush? Ten percent helped, and some even stepped over the actor on their way.

So the takeaway here is to remember you are not so smart when it comes to helping people. In a crowded room, or a public street, you can expect people to freeze up and look around at one another.

Knowing that, you should always be the first person to break away from the pack and offer help – or attempt escape – because you can be certain no one else will.”

mais carolinices

Eu: E aí, Carol, qual foi o almoço hoje na escola?
Carol: Minhoque com molho de tomate, depois carninha e come-flor.

***

Carol: Depois de hoje vem amanhã?
Eu: Vem.
Carol: E amanhã é carnaval?
Eu: Meu amor, sinceramente eu não sei.
Carol: Toda hora eu pergunto pra você quando é o carnaval e você nunca sabe!
Eu: Por que esse interesse todo pelo carnaval agora?
Carol: Porque eu quero me fantasiar de borboleta pra festa da escola.
Eu: Ué, não vai de Bela??? Como assim?
Carol: Não tô a fim não. Insetos são tão legais.

***

Eu: E aí, Carol, qual foi o almoço na escola hoje?
Carol: Almônicas.

***

Carol toda concentrada fazendo cocô:
– Mãe, não faz maluquice não porque se eu rir o cocô não vai sair, tá?

***

Carol: Estou desenhando uma girafa meio esquisita. Ela não tem nariz e gosta de comer mapas sujos.
Eu: wtf?

***

Carol vem com um desenho lindo de um caracol que ela fez.
Eu: Que lindo, meu amor! Quem te ensinou?
Carol: Eu aprendi sozinha, porque eu já tenho 4 anos e quem tem 4 anos já sabe desenhar caracol.

***

Eu: E aí, carol, qual foi o almoço na escola hoje?
Carol: Macarrão com tomate, alface com cenoura e frango assado.
Eu: Uau, que delícia!
Carol: É, frango assado é muito melhor
Eu: Melhor que o quê?
Carol: Melhor que frango não assado.

the impossible

Uma pequena elucidação sobre o background: hoje foi criado, oficialmente, o Clubinho das Pessoas Desesperadas Por Morar no Interior do Zaire. A facção feminina do clubinho é composta por esta que vos escreve, Fabiola e Marta, a mulher do Marc (o ítalo-americano e o sócio masculino do clubinho). Eu, carioca; Fabiola, que nasceu no interiorrrrrrrrr de São Paulo mas estudou na capital e é cidadã do mundo; Marta, que nasceu aqui no interior do Zaire mas estudou em Roma e casou com o Marc, criado em NY, of all places. Como terça-feira mulher paga menos no cinema aonde costumo ir com o Mirco há anos, decretou-se que terça-feira vai ser dia de cineminha pras moçoilas. A Marta já começou logo furando, porque a Melissa hoje acordou com diarreia E perebas várias (ninguém merece), de modo que fomos eu e Fabiola na sessão das 21:55 (que na verdade começa às 22:15 por causa dos quilômetros de trailers que mostram antes). Como vocês estão carecas de saber, eu assisto a qualquer porcaria, até filme em que a mulher acorda diva maquiada de cabelo escovado salto alto e hálito de mel. Mas a Fabiola é mais seletiva, gosta de filmes fora do circuito, umas paradas hard core iranianas, suecas, de arte, sei lá o que mais, então deixei que ela escolhesse. Pois ela escolheu The Impossible. Minhas considerações sobre o filme:

– Como é possível um casal de olhos azuis ter dois filhos de olhos castanhos? Pra quê que perdemos tanto tempo estudando aquela parada de azão/azão/azinho/azinho na escola?

– Leve lenços. Muitos. Você vai chorar e fungar terrivelmente o filme inteiro. Se puder levar um bicho de pelúcia pra apertar muito nos momentos de nervoso, leve.

– Se você tiver filhos, aconselho vivamente tomar alguma bebida alcoólica bem forte antes, em tempo de dormir logo no começo e perder o filme todo; assim você poupa os seus nervos e não fica o tempo todo elocubrando sobre o que aconteceria se fosse você numa situação dessas, que decisões tomaria, quanta dor aguentaria, quanta raça teria, o que aconteceria com seus filhos. Eu e Fabiola chegamos à conclusão de que desmaiaríamos imediatamente de nervoso e dor.

– Se você tiver estômago fraco, feche os olhinhos logo que a Maria e o Lucas saírem da água, depois do lance do colchão que aparece no trailer. A MEGA ferida na parte posterior da perna da mulher é si-nis-tra e muito bem feita, apesar de aparecer rapidinho; você vai ficar bolado(a).

– Não tenho ideia de como filmaram esse negócio, mas ficou MUITO bem feito. Tudo. As tomadas embaixo d’água, as feridas, as tomadas aéreas, tudo.

– Já se passaram 8 anos desde o tsunami, caráleo… Parece que foi ontem.

– As maiores calamidades naturais sempre pegam os mais pobres e fodidos do mundo, impressionante. Muito tocantes as tomadas de cima – aquela devastação toda é de cortar o coração. Lembro que quando aconteceu o tsunami fiquei horas em pé olhando pra televisão feito um zumbi, paralisada pela tristeza.

– O roteiro tem uma violação grave do esquema “show, don’t tell”, mas perdoei porque o resultado final ficou muito bom.

– Não exagere na cafungada no cangote nos seus filhos quando chegar em casa. Eu quase acordei a Carol.

carolinices

– Boa noite, Carol.
– Boa noite, mãe.

Apago as luzes. Ela começa a beliscar a minha mão, como sempre. Sinto a frequência respiratória dela cair, sinal que está pegando no sono. DO NADA ela começa a chorar.

– Caraca, quê que houve, amor?
– Tô com medo das bruxas!
– Que bruxas?
– As bruxas da montanha…
– Que montanha?
– Nenhuma…
– Mas de onde você tirou isso? Quem falou que existe bruxa?
– Ninguém…
– Onde você viu bruxa então?
– Lugar nenhum…
(mais choro)
– Tô com saudade da Manu…
– Puxa, eu também…
– Tô com saudade do Guigui…
– Eu também, meu amor.
– Tô com saudade da Marina…
– Somos duas.
– Tô com saudade da Vovó Telma…
– Idem.
– Tô com saudade do Tio Tuco…
– Eu também, querida.
(mais choro)
– Tô com dor na orelha…
– Ah é?
– Com dor no alto da cabeça…
– Ahn. Onde mais tá doendo?
– No meu dedo!
(mais choro por uns dois minutos, depois capotou)

***

Carol desenha um ônibus e o motorista segurando o volante.
Eu: Não tem nenhum passageiro não?
Carol: Não.
Eu: Puxa, coitado, ele vai ficar dirigindo sozinho?
Carol: Mãe, é importante aprender a ficar sozinho. Quando eu vou pro supermercado com o papai você fica sozinha em casa e não reclama, né? Então.

***

Eu: Carooooool, já botou o tênis? Já pedi tem meia hora, cê tá parada na frente da televisão hipnotizada? Vai logo, vamos chegar atrasadas, bota esse tênis!
Carol: Mãe, você tem que aprender a es-pe-rar.

***

Carol: Mãe, quero ovo rosa.
Eu: Hein? Nunca vi ovo rosa, quequeísso?
Carol: Aquele que você abre e joga na panela e a gema fica rosa.
Eu: Ovo frito?
Carol: Pode até ser ovo frito, mas ele fica ovo rosa.

***

Eu: Qual foi o verde de hoje no almoço da escola?
Carol: Espinafre. Você faz espinafre pra mim no jantar?
Eu: Vou fazer outra coisa, tá, pra você não comer espinafre de novo.
Carol: Mas eu quero espinafre! E faz muito bem pra saúde! O cocô fica todo verde escuro.

***

Eu: Toma logo esse suco pra gente poder sair.
Carol: Ué, mas você não vive falando que suco faz mal, que é cheio de açúcar?

***

Carol tosse.
Eu: Bota a mão na frente da boca, tá?
Carol: Tem razão. Se tossir em cima do coração dá doença, né.
Eu: Amor, mas o coração fica dentro do peito, protegido, não dá pra tossir em cima dele a não ser em caso de cirurgia torácica a céu aberto.
Carol: Peito? Mas eu não tenho peito.
Eu: Peito é tudo isso aqui, ó (passo a mão pelo tronco dela). PeitoS, no plural, são esses aqui (mostro os meus). Você pode chamar peito de tórax também, se quiser.
Carol: Ah, então eu prefiro tórax.

distopias e zumbis

Outro dia admiti no Facebook que eu adoro all things zombies. Ano passado baixei, no Kindle, World War Z, que é absolutamente sensacional – uma série de entrevistas muito realistas sobre uma epidemia que transformou os seres humanos em zumbis. O outro livro do autor sobre o mesmo assunto, The Zombie Survival Guide, já não é lá grandes coisas, força um pouco a barra e tem várias piadas amarelas desnecessárias.

Meu filme preferido sobre esse assunto é, de longe, 28 days later, fenomenal, apesar do Cillian Murphy que pra mim tem uma cara de psicopata que vou te contar. Fotografia maravilhosa, roteiro excelente, várias cenas memoráveis. Altamente recomendável.

Ah, mas você não gosta de zumbis, ficção científica, ficção e coisa e tal. Não importa. O filme é ótimo com ou sem zumbis. Se preferir, substitua os zumbis por soviéticos malvados/terroristas árabes/mafiosos chineses/whatever. Mas assista, porque é muito bom. Muito bom porque é um mundo distópico muito bem aproveitado, e eu adoro uma distopia. Ótimos livros sobre o assunto são Oryx & Crake e The Year of the Flood, sobre o mesmo mundo distópico e, da mesma autora, o espetacular The Handmaid’s Tale, presente da queridíssima amiguinha eowyn. Esse último, em particular, não sei como ainda não foi transformado em filme, dado o imenso potencial estético e de roteiro. Daria um excelente filme do Guillermo del Toro. Outra distopia que li esse ano foi Wool, ótima dica do Cris Dias. Esse mundo distópico, bem original, é organizado em silos, onde as pessoas nascem, vivem, morrem e são recicladas como adubo, sem nunca saber direito como era o mundo antes dos silos, quem os inventou e construiu e por quê, o que ainda há lá fora.

Sou fascinada por distopias porque elas oferecem um leque imenso de oportunidades a serem exploradas, antropologicamente falando. Fora as coisas básicas, de nível prático, do tipo como sobreviver sem celulares, eletricidade, telefone, televisão, bibliotecas, escolas, GPS, hospitais e todas as instituições organizadas de uma sociedade estruturada, temos toda uma série de problemas típicos do ser humano quando no seu estado natural, bem Thomas Hobbes mesmo. Porque é quando o bicho pega que a gente sabe quem é quem. De modo que os dramas a serem explorados são muito intensos e interessantes; as regras mudam ou simplesmente deixam de existir quando só o que importa é sobreviver.

Desse ponto de vista, The Walking Dead está dando um show. Eu tinha visto alguns episódios no Rio esse ano, mas como não tinha pego a série no começo, não entendi nada e não achei muita graça além do fato do assunto ser zumbis. Devagarzinho estou assistindo desde o começo, e, acreditem em mim, é simplesmente uma das melhores coisas já feitas na televisão nos últimos tempos. Conflitos que em um mundo normal seriam resolvidos sem grandes problemas viram coisas enormes, escolhas de Sofia de verdade. Por exemplo: seu grupo capturou um rapaz que andava com um pessoal meio barra pesada, mas ele jura que só estava com eles pra ter mais chances de sobreviver. Ele está muito machucado em uma das pernas e não consegue andar. A fazenda onde o seu grupo está se escondendo está ameaçada por um exército de zumbis/soviéticos malvados/terroristas árabes/pés-grandes/alienígenas/Lucianos Hucks e você precisa fugir o mais rápido possível. Você não tem certeza sobre as intenções do rapaz, mas se ele for junto certamente atrasará o grupo porque 1) está com a perna fodida e 2) vai ter que ser vigiado o tempo todo. Por outro lado, ele é jovem e forte; se for um cara legal e a perna dele sarar, ele pode ser um valor agregado (lol) pro grupo. O que fazer? Deixá-lo amarrado no celeiro à espera dos zumbis? Matá-lo logo com um indolor tiro na fuça pra poupá-lo de um fim horrível nas mãos dos zumbis/soviéticos malvados/terroristas árabes/pés-grandes/alienígenas/Lucianos Hucks? Levá-lo com você? Se as duas opções preferidas pelo grupo forem as primeiras, que direito todo mundo tem de decidir o que fazer com a vida de outra pessoa? Mas, por outro lado, não existem mais juízes nem tribunais e é cada um por si. Outro exemplo: sua mulher fica grávida, e nem ela sabe se está grávida de você ou do seu melhor amigo, que achou que você estava morto e acabou virando o namorado da sua mulher. Aborta ou não aborta? É justo dar à luz uma criança nesse mundo pós-apocalíptico? Mais do que isso, é justo jogar mais esse fardo sobre os ombros do grupo, mais uma boca pra alimentar e pra proteger nesse mundo pós-apocalíptico? É justo com o seu filho mais velho, que precisa desesperadamente de orientação enquanto cresce nesse mundo pós-apocalíptico? Por outro lado, um bebê simboliza esperança, a ideia de que algumas coisa nunca vão mudar, mesmo nesse mundo pós-apocalíptico, e pessoas precisam de esperança. E agora, José, nesse mundo pós-apocalíptico?

O seriado é cheio de encruzilhadas morais assim. Às vezes a escolha feita dá certo; às vezes não. Ninguém é (só) o que parece, tudo é relativo, tudo precisa ser contextualizado. Estão aproveitando muito bem dilemas desse tipo e o elenco é FENOMENAL. O ator principal é simplesmente sensacional e merece todos os Grammys a que concorrer, porque realmente dá um show. E pensar que ele é inglês! Com seu sotaque caipira americano perfeito, deve ser parente do Hugh Laurie, que também enganou todo mundo com seu sotaque americano. Todos os outros atores são ótimos. A maquiagem dos zumbis é maravilhosa, e tão realista que alguns atores chegaram a chorar de nervoso durante a “transformação” na cadeira de maquiagem (perdi o link da entrevista). Os efeitos especiais todos são muito, muito bons. Estou adorando, e isso porque assisto meio de lado, enquanto trabalho, ou seja, perco muito dos diálogos. Vão na fé que vocês vão gostar.

***

Coisas que eu acho chatas nesses seriados: toda mulher é magra e linda e ninguém usa cabelo curto. Cara, a PRIMEIRA coisa que eu faria em caso de apocalipse, qualquer que fosse a causa, seria raspar a cabeça. Jamais conseguiria correr de zumbis/soviéticos malvados/etc com o cabelo suado colado na nuca, caindo na cara, entrando na boca. Conseguir manter a cabeça menos imunda é bem mais fácil quando os cabelos são poucos. Imagina eu correndo dos zumbis e me preocupando se vou conseguir achar condicionador na próxima farmácia abandonada que encontrar? E todo mundo usando calça jeans? Jesus, é simplesmente a roupa mais desconfortável do mundo, com aquelas costuras duras, a sua incrível capacidade de esquentar feito uma desgraça no calor e deixar as suas pernas geladas no frio, o seu peso quando molhado. De jeito nenhum! Roupa pós-apocalíptica é moletom ou legging (nesse caso as cariocas já estariam preparadas, já que esse é um dos uniformes perenes de qualquer mulher que mora no Rio de Janeiro).

Eu não sei se duraria muito num mundo desses. Não sei se aguentaria ficar imunda 24 horas por dia; juro que pra mim isso seria pior do que o pavor dos zumbis/Lucianos Hucks/alienígenas. A comida também seria um problema, lógico; lembro a alegria dos personagens quando viram uma cesta de batatas na fazenda do Hershel. “Nunca pensei que ficaria tão feliz ao rever uma batata”, diz um deles. Um mundo pós-apocalíptico é um mundo com poucos carboidratos; eu prefiriria a morte nas mãos de um Luciano Huck.

o hobbit

Quem me conhece sabe que eu sou fã de Tolkien e que já li TLotR umas 13 vezes. Tenho todos os filmes na versão extended, que já vi várias vezes, adoro. Pois segunda-feira lá fui eu sozinha ver O Hobbit no cinema Leblon, não o do shopping, aquele de rua mesmo. Fui a pé, nesse calorzão doido, pra encarar a sessão das 13:30. Além de mim, só outras três pessoas no cinema. Tirei meu micro pacotinho de M&Ms da bolsa, comprado numa Lojas Americanas no caminho, e botei os horrendos óculos 3D. Meu parecer:

– ODEIO ODEIO ODEIO ODEIO 3D. Que porre! Vejam bem, não sei se é a culpa do 3D ou dos 48 frames, mas o fato é que os efeitos especiais, embora não se tornem mal feitos, perdem muito do seu impacto. Na verdade o filme inteiro fica com aspecto de Sítio do Pica-Pau Amarelo, não sei se estou conseguindo me explicar. Muito esquisito.

– A música é muito boa (Howard Shore, baby). A balada Song of the Lonely Mountain é linda, e cantada (e hummed) pelos anões ficou mais bonita ainda.

– Os figurinos, pra variar, são tudo de bom.

– O Lindir é viado.

– O roteiro é bom, boa adaptação do texto original, o ritmo do filme ficou interessante. Tem bastante ação, e um monte de apelações e deus ex machina, mas o livro, completamente diferente do TLotR, é meio assim também, leve, cheio de gracinhas e trocadilhos e poesias irônicas, de modo que acho que o filme não fugiu muito do estilo do livro.

– O elenco é ótimo. O Ian McKellen está ve-lho, céus. Os olhos dele estão caídos estilo dacschund. Mas continua ótimo. O Bilbo está muito bom e os anões são todos ótimos, até o pitéu Kili e os bobões Bifur, Bofur e Bombur. Dos virtuais: o Gollum está meio diferente, mas sempre muito bom. O rei dos goblins é muito bem feito, embora eu ache que o seu tamanho combinasse melhor com uma voz mais retumbante. Os goblins todos, no geral, dão bem a ideia de maggots, de coisas rastejantes e infestantes, ficou bem legal.

Digamos que saí bem contente do cinema. Semana passada vi 007 e também achei muito bom. Agora quero ver Argo, que todo mundo já viu e adorou, menos eu, mas não sei quando vou conseguir. Fico tão felizinha quando vejo filmes bons, vocês nem imaginam. Quando não são dublados em italiano, então, nem se fala.

and now to something completely different

Olha, esse povo zen me tira do sério. Vocês acham (aham dona Alice) que eu sou muito radical, mas eu não tenho ideias radicais, o lance é que defendo radicalmente as ideias que eu considero corretas. Vejam só se neguinho não anda levando esse negócio de vida alternativa e natureba muito a sério: num grupo que acompanho no Facebook porque volta e meia aparece alguma coisa interessante, alguém abriu um thread perguntando aos outros se viam algum problema em deixar o filho “smash” um montinho de batata-doce amassada em vez de bolo na sua festa de aniversário de um ano, porque ela é “contra o açúcar”. Cara, na boa, eu mandar essa mulher tomar no cu pra deixar de ser mala sem alça é ser radical? Ou radical é ela e por isso mesmo é uma mala? Eu não tenho tolerância com gente intolerante, infelizmente. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, né não? Tento não comer (nem dar à Carol) coisas horrorosas cheias de açúcar, gordura trans e coisa e tal, mas não posso deixar que isso governe a minha vida, né não? Sou patrulheira da gramática e de nada mais.

Então vamos mudar de assunto porque não tenho saco pra discutir parto com quem não entende nada do assunto e entra em transe sexual quando está parindo; se tem uma coisa que eu detesto é riponga era de aquário.

***

Estou lendo um livro que o meu amigo Marc, ítalo-americano e referente do círculo de Perugia da UAAR, me recomendou. Tenho com ele as conversas mais interessantes da minha vida, atualmente; passamos de filologia a filosofia e história com a maior naturalidade, e como lemos coisas muito diferentes, embora tenhamos muitos interesses em comum, acabo sempre aprendendo alguma coisa com ele (e ele comigo, espero). O último livro que ele me recomendou foi esse, The Swerve, que fala da importância da redescoberta de um poema de Lucrécio que aparentemente mudou o rumo de hm, tudo. Ainda estou bem no comecinho, e é prosa interessante e bem escrita mas que tem que ser lida com atenção, mas já sublinhei várias coisas. A julgar pelo rumo que o livro está tomando e pelo resumo que o Marc me deu, é uma versão singular do How the Irish Saved Civilization, que eu AMO de paixão e vivo relendo. A história desse poema, em particular, é bem interessante, e acaba caindo no lance do quanto a religião é absolutamente desnecessária se simplesmente aceitarmos que somos pó de estrelas e isso deveria dar e sobrar, mas quando terminar o livro vou ter mais detalhes pra comentar esse aspecto específico do livro. Enquanto isso copio aqui dois parágrafos que sublinhei integralmente agora há pouco.

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Benedict did not absolutely prohibit commentary on the sacred texts that were read aloud, but he wanted to restrict its source: “The superior”, the Rule allows, “may wish to say a few words of instruction”. Those words were not to be questioned or contradicted, and indeed all contention was in principle to be suppressed. As the listing of punishments in the influential rule of the Irish monk Columbanus (born in the year Benedict died) makes clear, lively debate, intellectual or otherwise, was forbidden. To the monk who has dared to contradict a fellow monk with such words as “It is not as you say”, there is a heavy penalty: “an imposition of silence or fifty blows.” The high walls that hedged about the mental life of the monks – the imposition of silence, the prohibition of questioning, the punishing of debate with slaps or blows of the whip – were all meant to affirm unambiguously that these pious communities were the opposite of the philosophical academies of Greece or Rome, places that had thrived upon the spirit of contradiction and cultivated a restless, wide-ranging curiosity.

All the same, monastic rules did require reading, and that was enough to set in motion an extraordinary chain of consequences. Reading was not optional or desirable or recommended; in a community that took its obligation with deadly seriousness, reading was obligatory. And reading required books. Books that were opened again and again eventually fell apart, however carefully they were handled. Therefore, almost inadvertently, monastic rules necessitated that monks repeatedly purchase or acquire books. In the course of the vicious Gothic Wars of the mid-sixth century and their still more miserable aftermath, the last commercial workshops of book production folded, and the vestiges of the book market fell apart. Therefore, again almsot inadvertently, monastic rules necessitated that monks carefully preserve and copy those books that they already possessed. But all trade with the papyrus makers of Egypt had long vanished, and in the absence of a commercial book market, the commercial industry for converting animal skins to writing surfaces had fallen into abeyance. Therefore, once again almost inadvertently, monastic rules necessitated that monks learn the laborious art of making parchment and salvaging existing parchment. Without wishing to emulate the pagan elites by placing books or writing at the center of society, without affirming the importance of rhetoric or grammar, without prizing either learning or debate, monks nonetheless became the principal readers, librarians, book preservers and book producers of the Western world.

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É ou não é interessante pacas?

que parto

A Fabiola postou esse vídeo aqui hoje, que me deixou em lágrimas.

Chorei porque detesto ouvir gente contando que foi tratada mal por médicos e enfermeiros em um momento tão significativo. Mas acho que neguinho anda exagerando muito com esse negócio de “o parto é da mulher”, “parto ideal” e coisa e tal.

Vamos combinar uma coisa? O parto humano NÃO é legal. Ponto. Não cabe subjetividade aqui. Não é legal por um motivo muito simples: somos os únicos mamíferos que andam em posição ereta. Nossos cérebros se desenvolveram, precisávamos das mãos livres pra fazer coisas maneiras como temperar a carne assada, enfiar miçangas e bater no tambor, tivemos que ficar em pé. Mas a nossa esperteza aumentou muito mais rapidamente do que a nossa bacia foi capaz de se adaptar, de modo que hoje nós humanas sofremos o diabo a quatro pra parir, enquanto que todas as outras mamíferas vão ali, dão umas voltinhas, aparecem as perninhas do rebento e em dois minutos pluft, caiu no chão um filhote inteirinho e todo pimpão, que logo logo fica em pé e sai pulando sobre a crosta terrestre. O parto humano é uma merda. Cheio de fluidos nojentos – tem líquido amniótico, tem xixi, tem cocô, tem sangue, tem pedaço de placenta. No-jo. Quem fala que parto é uma coisa linda ESTÁ MENTINDO – ou pra si mesmo ou pros outros, pra parecer cool. O que é lindo é o neném que nasce, é o ato de dar vida a um outro ser humano, mas o processo todo até chegar lá é abominável e incrivelmente doloroso. Ou alguém acha que cagar na cara do obstetra é suuuuuper legal? Que é uma coisa linda escancarar as pernas ou acocorar pra criança sair? Que é o maior barato dar luz à placenta? Isso pra não falar nas complicações. Quem falar que parto é uma coisa natural só não vai levar uma trauletada porque claramente nunca estudou obstetrícia. Se o parto humano fosse uma coisa “naturalmente fácil” não haveria uma altíssima taxa de mortalidade de mulheres no parto em países sub, até hoje, e no mundo inteiro, ao longo da história da humanidade. Vai lá ver se tem vaca toda hora morrendo de parto. Tem não senhor. Claro que tem gente que tem partos mais lights – o meu, que foi relativamente light, já doeu pra cacete, imagina quem fica sei lá quantas horas ou dias em trabalho de parto. Mas a maioria sofre, porque contração DÓI para caráleo. Dói, dói, dói. As minhas duraram só umas quatro horas e mesmo assim pedi epidural, por um motivo muito simples: ninguém merece.

Olha só: dor é um sintoma. Sentir dor não enobrece porque a dor não serve pra absolutamente nada a não ser pra avisar que há alguma coisa muito errada acontecendo em alguma parte do seu corpo (se o que acontecer depois dessa dor vai ser positivo ou não é indiferente; seus receptores pra dor são democráticos e não fazem distinção). Todo o respeito do mundo por quem tem alta resistência à dor, dilata rápido e por isso prefere encarar sem anestesia, ou por quem tem fobia de agulha. Um pouco menos por quem acha que tem que sofrer pra “estar presente naquele momento”, porque acha que é mais mãe se sentir tudo, porque sei lá o quê. Eu não teria feito a menor questão de estar presente no meu próprio parto, se tivesse sido possível; só queria pegar a minha filha no colo assim que ela nascesse, mas não preciso sentir dor – nem as pernas – pra isso. Eu quero estar presente na vida dela, na educação dela. Se a mãe estava acordada ou não quando o filho nasceu não vai fazer a menor diferença na vida da criança, e sinceramente não vejo por que deveria fazer diferença na vida da mãe. Aliás, acho até que parto voluntariamente com dor tem consequências psicológicas a longo prazo bem negativas, porque EM ALGUM MOMENTO esse sacrifício todo vai aparecer e ser devidamente jogado na cara. Ou vão dizer que nunca ouviram uma mãe falar pro filho “puxa vida, eu aguentei nove meses de gravidez, X horas de trabalho de parto pra você agora me tratar assim?”. Minha mãe nunca me disse isso, mas eu já perdi a conta das vezes em que ouvi outras mulheres falando coisas desse tipo. Coisas que nunca, jamais deveriam ser faladas, sabe. Sentidas, sim, normal; mas faladas, não. Nunca. Mas na hora em que o calo aperta a gente bota o ressentimento pra fora, porque somos humanos. Então um grande viva ao parto sem dor. Detesto masoquismo.

Aí entra o lance da cesariana. Faz-se cesariana demais no Brasil? Não há dúvidas. O parto cesáreo é esse bicho de sete cabeças que neguinho fala? Nem de longe. Então por que essa choração toda se não deu tempo de fazer normal e teve que rolar cesáreo? Em outras palavras, WHAT THE FUCK é a diferença? A criança nasceu? Nasceu bem? Nasceu com saúde, Apgar maneiro, foi logo pro colo da mãe? Então neguinho está reclamando do quê??? Porque lhe foi negada a escolha? Pode ser; também fico puta quando não posso escolher. Mas a mulherada está levando essa parada ao extremo. Tem horas que parto normal simplesmente não é a melhor alternativa (se ainda não entendeu que o termo “normal” é completamente enganoso, volte e leia lá a parte das vacas), e a famosa escolha à qual elas acham que têm direito simplesmente não existe. Fico puta com histórias como a que uma das entrevistadas relatou – o médico marcou a cesárea pras cinco da manhã porque ele queria ir à praia depois. Pelotão de fuzilamento pra esse desgraçado. Sou contra cesárea com hora marcada, mas não sou contra cesárea. Acho inclusive mais civilizado, se vocês querem saber. Na verdade o que me deixou muito puta nesse lance toda desse vídeo foi a falta de respeito generalizada comum a todas essas histórias. A mulher que foi largada na sala de parto sozinha por três horas me deixou soluçando. O médico que entra na sala pra fazer um parto e não sabe o nome da paciente é um filho da puta. Mas tem horas que realmente só o médico sabe qual é a alternativa melhor, e nessa hora não dá mesmo pra ficar discutindo alternativas, de modo que cada caso é um caso e que o termo “violência obstétrica” não se encaixa em todas as situações. Pra quem quer uma analogia, normalmente pacientes leigos, por mais bem informados que sejam, não ficam discutindo técnica operatória com o cirurgião que vai lhes tirar um tumor/cisto/pinta/catarata/unha encravada. Acredito que informar e tratar com gentileza são coisas cruciais, e o oposto disso é, sim, uma forma de violência (leia-se abuso de autoridade, complexo de jaleco, como quiserdes), mas deixar a escolha nas mãos do paciente leigo, que aparentemente é o que neguinho quer, pelos comentários que leio por aí, já é um pouco demais.

Essa história toda rendeu um breve thread no FB (quem quiser seguir dê uma olhada aqui) com um ponto de vista muito interessante da Amandita. Se as mulheres fossem melhor informadas sobre o que é a gravidez e como é um parto provavelmente não haveria esse debate todo, esses extremismos todos e esses traumas todos. E eu teria que aturar muito menos gente falando que gravidez e parto são coisas lindas. Porque gravidez é outra coisa altamente idealizada, né. A percentagem de mulheres com gestações ultra light é minúscula. Os sintomas mais comuns da gravidez incluem dor nos peitos, enjoo, vômitos, prisão de ventre, hemorróidas, varizes, burrice temporária (baby brain), excesso de emotividade, azia, insônia, sono durante o dia, edema generalizado, prurido (perguntem à Fabiola), aumento definitivo do tamanho dos pés, dor nas costas, hipersensibilidade a certos cheiros, gases e meteorismo, entre outros. Quero ver alguém ter coragem de dizer que passar quase um ano – porque estamos falando de 40 semanas marromeno; quase um ano, portanto – sentindo pelo menos uma dessas coisas é legal. Olha só, o que eu estou dizendo é que uma coisa é dizer “vale a pena passar um ano inchada, arrotando, enjoada, fazendo xixi a cada meia hora, com os peitos doendo e vomitando, faço tudo pelo meu filho” e outra, completamente diferente, é juntar as mãozinhas e recitar “ai, gravidez é uma coisa tão linda”. Façam-me o favor, né. Tanto não são coisas legais, gravidez e parto, que o nosso cérebro faz com que a gente se esqueça da intensidade das sensações desagradáveis desses dois eventos, porque senão mulher nenhuma teria mais que um filho. Tem que ser muito cara-de-pau pra dizer que a-do-rou ficar grávida. Eu achei maneiro o ato de estar dando origem a uma nova vida, porque realmente é muito maneiro, inclusive do ponto de vista biológico, mas todo o resto é só um grandíssimo pé no saco, e não deixa de ser pé no saco só porque o objetivo é a coisa mais linda do universo (porque todos os filhos são, claro). Eu acho que não é um conceito muito difícil de entender, mas eu tendo a fazer contorcionismos mentais meio bizarros. Bear with me please.

Di orecchini e babbo natale

Mia figlia non ha le orecchie bucate per gli orecchini. Devo ammettere che ci ho riflettuto parecchio prima di decidere di non farlo quando era neonata. In Brasile tutte le bimbe escono dall’ospedale già con gli orecchini installati. A me non l’hanno fatto; ho deciso di farmele forare, le orecchie, quando ero già grande, a forza di sentire altri bimbi chiedere a mamma se ero maschio o femmina perché portavo sempre i capelli corti e non ero particolarmente carina. Ho deciso io ed è stato un episodio epico nella mia vita: mi ricordo il vestito che portavo quel giorno, la farmacia, il dolore (ho vomitato, da quanto mi ha fatto male), la rottura di zebedei che è stato prendersi cura dei buchi appena fatti perché non si infiammassero (e tanto si sono infiammati lo stesso). Se me l’avessero fatto appena nata non avrei sentito tanto dolore (e probabilmente nessuno avrebbe chiesto a mamma se ero maschio o femmina), ma non rimpiango questa loro scelta. Anzi, li ringrazio per avermi rispettato. Perché credo che la libertà di scelta sia una delle cose più importanti che un genitore possa regalare a suo figlio – entro i limiti della ragionevolezza, ovviamente. Oggi sono una patita di orecchini e quando ne esco senza, normalmente per fretta, mi sento mezzo nuda e passo il giorno a toccarmi il lobulo, come se gli orecchini fossero degli arti fantasma.

Mia figlia ha quasi quattro anni e qualche giorno fa le ho detto che Babbo Natale è solo un personaggio fittizio. Personalmente non me lo ricordo come traumatico, il momento in cui ho scoperto che in realtà era un cugino che si travestiva ogni anno per portarci dei regali, che ci compravano i nostri genitori e nonni. Ma non ho neanche ricordi particularmente fenomenali dell’attesa per Babbo Natale. Forse perché né io né mio fratello eravamo molto focalizzati su questa cosa di regali. Ci piacevano, ovviamente, ma a noi basta poco per renderci felici (a me, in particolare, una penna colorata già mi rende la giornata più gioiosa). E quindi abbiamo deciso di dirlo subito a Carolina che Babbo Natale è un personaggio inventato, così come i Barbapapà, Nemo, le principesse Disney e tanti altri. Le abbiamo spiegato che i regali per Natale li comprano i genitori, e che visto che il Natale è, per noi, semplicemente un giorno in cui non si va a scuola e nient’altro, e considerando che lei ha già un mucchio di giocattoli e libri, che compriamo semplicemente quando li vediamo in giro e li troviamo interessanti, tutte queste cose di Natale, regali, Babbo Natale, Gesù Bambino e Befana sono una grandissima boiata. Il mondo è già abbastanza magico senza che abbiamo bisogno di raccontare le balle ai bambini, che si meritano decisamente più rispetto.

E parlando di rispetto (or lack thereof), un altro aspetto delle feste di fine anno che mi fa venire la spuma in bocca è la mania orrenda, idiota e antipedagogica di associare regali (e dolcetti) alle buone azioni. Come se alcun bambino si fosse mai comportato “bene” durante tutto l’anno solo con il pensiero di guadagnarsi un giocattolo e un torrone a Natale. E poi il concetto di “comportarsi bene” che cazzo significa? In Italia, o almeno in Umbria, comportarsi bene vuol dire non sporcarsi, non sudare, non correre. Mia figlia invece fa tutte queste cose – orrore, orrore, gioca addirittura con l’acqua a casa e si bagna tutta! – ed è felice, indipendente e intraprendente. Per me comportarsi bene vuol dire non rompere le scatole agli altri, punto. Categoria che ovviamente esclude “non sudare” e altre assurdità che sento spesso in giro. E quindi solo chi non si sporca ha diritto a regali? Con i quali giocheranno pochissimo, tra l’altro, visto che i bimbi si stufano subito e che è molto più divertente giocare, che ne so, con una stecca di legno? Bisogna essere come i soprammobili, reprimendo tutti i loro istinti infantili più primitivi di correre, saltare, ridere, imitare, fare i versi strani, per poter mangiarsi un ovetto Kinder? Ma fatemi il favore.

Non voglio nemmeno entrare più di tanto nell’argomento battesimo, che considero la più grande mancanza di rispetto nel confronto dei bambini. Sono completamente, totalmente atea, ma anche se non lo fossi non credo che avrei battezzato mia figlia. Perché le decisioni che ci cambiano la vita, come bucarsi le orecchie e entrare a far parte di una setta, sono assolutamente personali e fatte con cautela e cognizione di causa. Trovo il battesimo dei bambini una pratica schifosa (e con “battesimo” voglio dire l’inserimento del bambino in qualsiasi realtà religiosa, con o senz’acqua in testa). Il mio disprezzo per le religioni – tutte, senza eccezione – non è una novità per chi mi conosce, ma ho particolare antipatia per questa imposizione religiosa ai bimbi. La trovo disgustosa, e mancante di rispetto tanto quanto dire ai figli che è la Befana che gli porta i dolcetti. Non si mente ai bambini, punto. Non per paura di creare dei traumi irrisolvibili, ma perché non si fa, per principio. Mentire è brutto e se diciamo a loro di dire sempre la verità, con quale faccia tosta gli lanciamo queste bugie natalizie e bibliche? Io questa faccia tosta non ce l’ho. E quindi niente Babbo Natale, niente Befana, niente Bambino Gesù (che secondo me Carolina ha sentito nominare solo in mezzo alle bestemmie del padre e del nonno). Non abbiamo nemmeno un albero di Natale, che anche se è microscopico non riesco a trovargli un posto; preferisco occupare gli spazi della sala con la cucinetta di legno di Carolina e la sua propria Billy piena di libri e DVD. Capisco l’importanza, per l’essere umano, di feste e rituali, ma, come dico sempre, una cosa buona fatta per il motivo sbagliato, per me, è meglio non farla proprio. Facciamo festa quando ci sentiamo di farla. Per festeggiare un compleanno, un viaggio, la bella canzone che abbiamo ascoltato in macchina. Basta e avanza, no?

de música, eutanásia e fim do mundo

Ontem calhou de ler esse post da Dri e de ouvir essa música

no mesmo dia, e comecei a pensar sobre o assunto morte. Não de maneira mórbida (engraçado que “morbido” em italiano quer dizer “macio”); eu sou uma pessoa pragmática, com formação médica e non-believer até a raiz dos cabelos, de modo que encaro a coisa de maneira muito natural. Nosso destino é virar húmus, e não consigo imaginar nada de mais nobre e poético. De modo que deixo aqui, em público, pra todo mundo ver, minha vontade de, quando chegar a hora, que logicamente espero que demore muito pra vir, 1) ser eutanasiada, se for o caso; não acho que sentir dor enobrece e passar anos feito um pé de couve murcho numa cama não é pra mim; 2) ser cremada, porque ocupar espaço depois de morto é totalmente out, néam; 3) OBVIAMENTE não ter missa de nada, senão eu volto do além pra puxar a perna de quem tiver encomendado um só rosário que seja; e 4) que qualquer que seja a cerimônia de adeus, por favor toquem essa música acima (caprichem no coral, tá) e/ou essa aqui, também deles, que tem uma letra linda.

“With a nuclear fire of love in our hearts” é um dos versos mais lindos que eu já li. As letras do Live são todas meio malucas, porque o Ed tende ao esotérico-espiritual-era de aquário, mas ele já escreveu tantos versos lindos que eu volta e meia me pego repetindo uma frase dele, como um mantra. Run to the Water, em particular, sempre me traz lágrimas aos olhos. Como disseram num thread de comentários de outro vídeo deles no YouTube, a sensação que a música deles me dá não é de tristeza; não são lágrimas de tristeza ou de felicidade ou de raiva, mas de sentimento puro e simples. Tinha muito tempo que eu não ouvia Live. Não vai acontecer de novo de passar tanto tempo assim sem ouvi-los; de vez em quando preciso de umas sacudidas sentimentais assim pra acordar.

Run to the Water

Oh desert speak to my heart
Oh woman of the earth
Maker of children who weep for love
Maker of this birth
‘til your deepest secrets are known to me
I will not be moved
I will not be moved

“don’t try to find the answer
When there ain’t no question here
Brother let your heart be wounded
And give no mercy to your fear”

Adam and eve live down the street from
Me
Babylon is every town
It’s as crazy as it’s ever been
Love’s a stranger all around

In a moment we lost our minds here
And lay our spirit down
Today we lived a thousand years
All we have is now

Run to the water
And find me there
Burnt to the core but not broken
We’ll cut through the madness
Of these streets below the moon
These streets below the moon

And I will never leave you
‘til we can say, “this world was just a
Dream
We were sleepin’ now we are awake”
‘til we can say

In a moment we lost our minds here
And dreamt the world was round
A million mile fall from grace
Thank god we missed the ground

Run to the water
And find me there
Burnt to the core but not broken
We’ll cut through the madness
Of these streets below the moon
With a nuclear fire of love in our hearts

Yeah, I can see it now lord
Out beyond all the breakin’ of waves
And the tribulation
It’s a place and the home of ascended
Souls
Who swam out there in love!

Run to the water
And find me there
Burnt to the core but not broken
We’ll cut through the madness
Of these streets below the moon
With a nuclear fire of love in our hearts
Rest easy baby, rest easy
And recognize it all as light and rainbows
Smashed to smithereens and be happy
Run to the water (and find me there)
Run to the water