firenze

Nenhum de nós tinha visto o verdadeiro David do Michelangelo, então lá fomos nós cedinho pra Florença. Perdemos a manhã inteira na fila, eu e Mirco, enquanto mamãe e Margareth iam às compras. Margareth comprou apartamento no Rio e está num furor de decoração que dá até medo e saía comprando tudo o que era estatuinha que via pela frente. Mas quando finalmente conseguimos entrar e ver o homem, rapaz… Dá até arrepio. O resto do museo vimos meio correndo porque já passava da hora do almoço; o vendedor de uma loja de estatuinhas onde Margareth dizimou o estoque nos recomendou um restaurante honesto e freqüentado pelos locais, e encaramos. Não nos decepcionamos: pão delicioso feito em casa, azeite verdinho maravilhoso, um antipasto com cada salame divino, e massas gostosíssimas. Demos mais um giro rápido na cidade pra não voltar pra casa muito tarde, e ainda conseguimos jantar na sagra de Castelnuovo, com Marco e Michela. Assim que der boto fotos de Florença aqui.

mais uma

E aí hoje chegou a Margareth, amiga de infância da minha mãe, que mora há mais de 30 anos nos Estados Unidos. Nunca tinha vindo à Europa; quando soube que minha mãe vinha deu a louca e resolveu vir também. Chegou à tarde, descarregamos as coisas no hotel em Santa Maria de um amigo do Mirco aonde sempre mandamos todo mundo porque é uma gracinha, e fomos, adivinha, ver móveis. Acabamos jantando em casa, fiz penne alla Norcina que ficou bem gostoso apesar de improvisado e sem cogumelo, e depois ainda fomos tomar sorvete na praça em Santa Maria. Ô sábado gostosinho!

superpescheria

Descobrimos uma peixaria em Bastiola que é um show. Tudo congelado, mas congelado de um jeito esquisito, tipo supercongelado: como em A Lamb to the Slaughter do Roald Dahl, uma paulada na cabeça com um pedaço de bacalhau congelado é trauma craniano letal na certa, porque os bichos ficam mais duros que pedra. Os camarõezinhos todos congelados um a um, parecendo balinhas de jujuba que você pega com a pazinha de plástico e bota no saco. Uma variedade de coisas impressionante! Dá vontade de sair comprando tudo, desde as combinações de frutos do mar pra fazer macarrão, risoto e antipasto até os peixes em filé pra fazer no forno com batata e alecrim. Acabamos comprando camarão e mexilhões com aspargos e umas lulas pra rechear. Diliça!

E jantamos na casa da FeRnanda, pra mamãe conhecer Ripa na chulipa. Ficou encantada, porque Ripa é uma fofura mesmo.

sparafucile

Quando recebemos visitas é lógico que saímos pra comer, que é só o que há pra se fazer aqui. Então levamos mamãe, Stefania e Rob pra jantar no Sparafucile, em Foligno, aquele restaurante que não tem menu e onde você tem que comer o que te botam na mesa. Hoje foi o primeiro jantar com mesas outdoors do ano, já que só agora começou a esquentar, então o serviço estava péssimo (ele só tem uma garçonete e meia) e acabamos de comer tardíssimo. Mas vale a pena, sempre. Principalmente pelo petit gateau de chocolate feito em casa com sorvete de creme idem.

babel

E depois de uma manhã rodando em lojas de móveis e uma tarde trabalhando feito doida, fomos jantar na casa da Arianna. Só que a Stefania tinha chegado da Holanda com o Rob, o pai do Rob e a namorada do pai do Rob. Vocês não podem imaginar a quantidade de risadas que demos, e a dor de cabeça que nos ficou depois de uma soirée falada em 4 línguas diferentes – cinco, se contarmos o dialeto incompreensível do Ettore. Os pais do Rob são fofinhos, branquinhos, holandesinhos, cheirosinhos, arrumadinhos, e falam aquela língua estranha que ninguém entende. Gostaram de tudo, e olha que a comida nem tava essas coisas. Até fava crua com queijo pecorino eles comeram, porque o tio do Mirco insistiu. Nada de cachorros na sala porque a namorada tem medo; Leguinho e Demo ficaram lá fora chamando a gente de vez em quando. Mas foi um jantar muito divertido :)

bosta

Fiz uma boa prova de sociologia hoje. Pena que provavelmente não vou aproveitar pra nada, visto que provavelmente vou ter que desistir de tudo e recomeçar ano que vem por causa dos problemas burocráticos de sempre. À tarde dei a aula mais chata do mundo, pro aluno mais chato e burro do mundo. Pra comemorar o dia legal, jantamos na nossa pizzaria preferida, que pela primeira vez nos decepcionou. Simplesmente esqueceram de pôr topping na metade da minha pizza. Legal.

gubbio, de novo

E hoje mamãe encarou o cansaço pós-viagem e fomos a Gubbio ver a Festa dei Ceri. Já falei dela ano passado, quando fui com Mirco e Robertinha. Esse ano fomos mais cedo e acompanhamos a festa desde a Alzata (“levantada”), de manhã. Vimos desfile, cavalos, trombetas, estandartes e tudo o mais. E estávamos em ótima companhia: passamos o dia com o pessoal do curso de narração. Almoçamos na casa do Arturo e no meio da tarde saímos pras ruas pra pegar lugar e ver os Ceri passar. Dessa vez vimos de pertiiiiiiiiinho, aquele bicho enorme de madeira vindo todo torto voando pela rua, os hominhos carregando aquele troço com o rosto vermelho, as mãos cheias de bolhas, suor no suvaco, cabelo molhado de suor colado na testa, gritando, gemendo, grunhindo, e o pessoal aplaudindo e pulando uhuuuuuuuuuuu! É MUITO maneiro. Mas passa assim, ó, voando, e quando você vê, já passou, foi-se. Depois dessa primeira passada saímos correndo ladeira acima pra ver os Ceri antes da segunda e última pausa, no alto da ladeira antes da praça. A troca de carregadores na subida da ladeira é emocionante pacas. Arturo contou que no ano passado um dos carregadores do primeiro Cero, o de Santo Ubaldo, tava bêbado (porque a festa começa no dia anterior) e caiu; caiu todo mundo do Cero e os outros dois Ceri que estavam vindo se embolaram na muvuca e caíram também. Mas aí é só levantar e tirar a poeira e dar a volta por cima e correr pra praça, pra dar as três voltinhas e continuar subindo até a igreja. Se Santo Ubaldo chega muito antes dos outros, fecha a porta, dá mais três voltinhas lá dentro, reza um pouquinho e deixa os outros dois pamonhas lá fora, esperando a sua boa vontade. Esse ano parece que chegaram todos juntos, e assim entraram juntos na igreja.

Tipo assim, um evento cultural suuuuuuuuuupercompreensível e normal.

Recomendo altamente.

mamãe chegou!

Então almoçamos cedo e fomos buscar minha mãe no aeroporto em Roma. De lá fomos diretamente à IKEA, que ela não conhecia, pra dar uma namorada nas cozinhas. Sabe como é, pagar 10.000 euros por uma cozinha é o fim da picada, e temos uma boa referência: a irmã do Mirco trabalha com cozinha (restaurante em casa, catering, take-away, cursos de cozinha, you name it – se você mora em Rotterdam, é uma ótima pedida porque a comida é Ó-TE-MA) e se dá muito bem com a sua IKEA, obrigada. Foi tudo meio corrido porque depois fomos jantar na Arianna, mas já deu pra ter uma idéia legal.

Agora, é um porre morar no fim do mundo porque essa viagem até o aeroporto é um pé no sacoooooooooooooooooooooooooo!

truffe abbondanti

E a Bota tá pegando fogo essa semana.

Primeiro foi a condenação a dez anos de prisão pra Vanna Marchi e a hedionda filha, Stefania Nobile, duas “magas” que fizeram fortuna e construíram um império da picaretagem vendendo números de loteria e amuletos falsos na televisão – juntamente com um brasileiro, “Mago do Nascimento”, diga-se de passagem. As duas são absolutamente horrorosas, estranhas, com “PICARETA” escrito na testa, e foram denunciadas, nesse processo, por centenas de pessoas que gastaram fortunas, perderam casa, carro, patrimônio, comprando amuletos pra salvar a vida de parentes doentes. A coisa toda começou com o Striscia la Notizia, meu programa preferido, desmascarador de picaretões. Gravaram a conversa telefônica entre uma senhora, que já tinha torrado uma fortuna em sal mágico do Mar Morto (…), e a tal Stefania Nobile. A senhora dizia que não tinha mais um tostão, que não podia dar mais dinheiro, e a Stefania: a senhora merece todo o mal do mundo. A partir de hoje a senhora não dormirá nunca mais.

Muitos outros relatos parecidos foram mostrados na televisão, e os repórteres de Striscia envolvidos na investigação foram chamados ao tribunal. O processo está rolando desde 2002 – o Mago do Nascimento fugiu em tempo pra Bahia e foi inclusive achado pelo Striscia outro dia – e finalmente as duas foram condenadas essa semana. As histórias paralelas são muitas, e as declarações das telefonistas são de arrepiar os cabelos, porque eram obrigadas a fazer terrorismo psicológico com os clientes, em sua maioria gente desesperada. Ter que dizer à mãe de um menino com leucemia que se ela não vender o carro e usar o dinheiro pra comprar um amuleto mágico o filho vai morrer não deve ser muito legal. Enfim, a coisa toda é muito nojenta e complicada, e a fortuna que essas duas fizeram é uma coisa impressionante, impressionante mesmo. Lógico que a condenação de dez anos de prisão, mais a proibição de vender qualquer coisa na televisão e o dever de devolver o dinheiro às vítimas mais lesadas, foram bem vistos pelo público, e a pena foi mais pesada do que a maioria do povão estava imaginando que seria, visto que aqui tudo acaba em pizza. Lógico que a TV está faturando horrores em cima do caso, com entrevistas exclusivas, cobertura ao vivo, debates, talk shows animadíssimos. Pessoalmente acho tudo de um mau gosto tão interplanetário, sobretudo por causa da infinita arrogância das duas (sempre de óculos escuros no tribunal, aaaaaaaah seu eu fosse juíza!), que não assisto a nada e mudo de canal assim que ouço alguma palavra sobre o assunto. Sabe nojo? Nojo.

A outra notícia, não menos nojenta, foi a descoberta de uma Picaretagem de Proporções Avassaladoras no mundo do futebol. Parece que a Juventus andou comprando partidas nos dois últimos anos, e o número de pessoas envolvidas cresce a cada dia. No meio desse bololô todo estão inclusive alguns árbitros italianos que iriam participar da Copa, e agora também parece que o goleiro Buffon anda metido num giro de apostas milionárias, e provavelmente não vai jogar no Mundial. Não preciso nem dizer que o Milan, aquele do Cavaliere Berlusca, também está no meio, né. Onde tem lama, olha o tricotransplantado ali chafurdando. O fato é que o futebol aqui é uma coisa muito séria, como no Brasil. Há pouquíssimas partidas transmitidas na TV aberta, e o dinheiro que rola com o pay-per-view das partidas (e no meio temos, além da Sky, a Mediaset; adivinha a quem pertence…) é colossal. Um mundo inteiro sendo sacudido pelas acusações mais sórdidas que o esporte pode oferecer. Pessoalmente estou cagando; sempre achei o fanatismo futebolístico uma idiotice ímpar e esse império construído em torno do marketing do esporte me enoja, então de uma certa maneira é bom ver essa merda toda no ventilador. Quem sabe neguinho acorda pra vida e passa a levar um pouco menos a sério coisas como esportes e entretenimento e coisa e tal. Esporte é esporte, caramba, não pode virar religião.

il carciofo (a alcachofra), ou o salame-mor

Poucas vezes na minha vida me senti tão mentalmente cansada quanto hoje.

Passei a manhã no concessionário Volvo em Perugia, estudando sociologia enquanto faziam o tagliando (tipo uma revisão) dos 60.000 quilômetros no carro do Mirco. Saí de lá às onze e vinte e voei pra chegar em Foligno pra aula do meio-dia com a Boquinha, a malona que lê Paulo Coelho. Mas o grande choque do dia foi a aula de duas horas logo depois da Boquinha.

O primeiro impacto não foi dos melhores. Tanto eu quanto Simona achamos o cara meio nojentão, com aquela cara de indiano, os lábios pretos, a barriga proeminente, os cabelos ensebados penteados pra trás, a voz baixa e profunda. Maior pinta de picareta. Ao telefone tinham dito à Simona que ele conhecia um pouco de inglês, e ele confirmou, dizendo que nunca tinha tido problemas quando viajava. Então lá fomos nós.

Crianças, em DUAS HORAS SEGUIDAS DE AULA nós só conseguimos fazer um terço de página do livro. E nessas duas horas ele NÃO:

. conseguiu memorizar as fórmulas de saudação “Nice to meet you” ou “How do you do”
. conseguiu entender que “Hi” e “Hello” são praticamente a mesma coisa – nunca tinha ouvido a palavra Hi, que ele pronuncia rigorosamente “í”
. conseguiu entender a diferença entre “How are you?” e “Nice to meet you”
. conseguiu entender que o pronome “it” não se usa só em substituição ao “è” italiano mas também se refere a objetos sem gênero
. conseguiu entender que “be” corresponde tanto a “ser” como a “estar”

entre outras coisas. Saí das duas horas exausta, como se tivesse acabado de fazer o vestibular pra Medicina da Unicamp. Cacetes estrelados! O melhor do episódio foi a pérola de sapiência e conhecimento dos processos de aprendizado lingüístico: ele tem uma reunião na quinta com o chefe que o mandará pra trabalhar em Bangladesh, e quer mostrar que melhorou o inexistente inglês. Então disse que é crucial fazer mais duas horas de aula na quarta, sabe, pra fazer bella figura no dia seguinte.

Já disse à Simona que o dê pra outro professor. Estou velha demais e sou foda demais pra agüentar essas coisas, sinceramente.