ode ao rio, 2012

Já virou meio que um ritual, mas é inevitável, portanto aturem-me, por favor.

Todo mundo sabe que o Rio tá bombando, tá com tudo e não tá prosa, tá vivendo um momento especial, tá na crista da onda. O Brasil, em geral, tá assim, mas pro Rio a vida anda uma beleza.

Eu vi a cidade muito mudada nos últimos poucos anos, e mesmo do ano passado pra cá achei tudo muito, muito melhor. Imaginem que só fui ver o primeiro pivete em Ipanema cinco semanas depois de chegar, e isso porque voltava da academia pra casa à noite todo santo dia. Me senti muito mais segura andando de ônibus. O metrô ainda deixa muito a desejar e sonho com o dia em que as linhas serão tantas que os nossos mapas do metrô serão dignos de virar souvenir, mas dá pro gasto. TO-DO-MUN-DO anda se locomovendo de bicicleta, normal ou elétrica, ou com as laranjinhas do Itaú. Achei as ruas mais limpas e, coisa importante, vi MUITA gente com cara de pobrinha jogando lixo na lata de lixo, coisa impensável até pouco tempo atrás. Falando das pessoas, fiquei impressionada como o pessoal mais pobre anda se vestindo melhor. Todo mundo de óculos novos, bons, bonitinhos, de cabelo feito, de roupas menos cafonas, usando sapatos bons e não aquelas coisas medonhas de plástico da Di Santinni. Achei até as babás nas pracinhas de nível melhor, falando menos errado.

A cidade está FELIZ. Claramente feliz. As pessoas estão de bom humor. Os turistas não são mais caminhoneiros alemães e desdentados, barrigudos nas suas camisetas encardidas à caça de menores de idade. Cruzei com inúmeras famílias com filhos, casais hetero e homo, jovens nórdicos vermelhos de sol curtindo a vida tomando chopp de Havaianas nos quiosques da praia, mochileiros indo pra albergue, gente arrastando mala pela rua com mapa na mão, crianças branquelas comendo Biscoito Globo na areia, falando línguas estranhas no parque Garota de Ipanema. Turistas normais, gente. Turistas comme il faut. Vocês não têm noção de quanto isso me deixa feliz. Tinha que me controlar pra não abraçar cada uma dessas pessoas normais e dizer, chorando de alegria, “Obrigada, obrigada por ser normal e estar visitando a minha cidade! Já comeu pão de queijo?”.

Meu amigo Hiro postou um momento banzo no Facebook esse ano, enquanto ele mesmo estava no Rio (nossas estadas overlapped um pedacinho e conseguimos nos ver a jato, antes dele voltar pra Londres). Eu tive um também, pela primeira vez desde que vim morar aqui no interior do Zaire. Mais precisamente, estava voltando da academia depois de fazer spinning e musculação, comendo uma muy amada banana prata. Virei a esquina da Garcia com a Visconde de Pirajá, ali mesmo onde fica a primeira filial do Bob’s, e tive um insight: minha filha, isso que é a sua casa, o resto é perfumaria. Vejam bem, sou feliz na Itália, me integrei ultra bem, a vida aqui tem muitas vantagens com relação à vida no Rio, mas casa é casa, né. Quem não tem saudade de casa bom sujeito não é.

E eu sinto muita falta de cidade grande. Assim, genérica. Basta ter uma cabeçada danada, muitos sinais de trânsito e precisar fazer mil baldeações no metrô pra me deixar feliz. Já falei isso aqui mil vezes, mas eu sou repetitiva mesmo e vocês sabem; quem não quiser ouvir outra vez que feche a janela. Eu sou um bicho urbano. Se por um lado tem coisas da roça que eu adoro, por outro eu amo o anonimato da cidade grande, que no Rio nem é tão anônimo assim porque na Zona Sul todo mundo se conhece e porque todo carioca é amigo íntimo instantâneo de todo mundo. Amo a bagunça. Amo a diversidade de tudo, de gente, de comidas, de rotas, de atividades culturais, de lazer.

No caso específico do Rio, amo as escolinhas de TUDO na praia, amo os onipresentes uniformes cariocas roupa de praia + Havaianas/roupa de ginástica, amo a feira, tão laidback, alegre e zoneada, amo como todo mundo se despede com beijo, tchau mesmo tendo acabado de te conhecer, amo o sotaque (lógico), amo a informalidade, amo aquela maluquice que é o centro da cidade, amo inclusive o fato da gente dizer “tenho que ir na Cidade resolver um negócio”, amo a SAARA de paixão, amo os caras que ficam batucando pros comensais do lado de fora do Bar Garota de Ipanema, amo como neguinho sai de cachecol quando a temperatura cai pra 20 graus, amo as crianças brincando maravilhosamente descalças na pracinha (se fosse na Itália neguinho chamaria a polícia, com acusação de maus tratos), amo os pinguins que aparecem no Arpoador e as piadas que neguinho fazia sobre eles, amo o restaurantinho mexicano administrado por um casal de estrangeiros, ali na Visconde, amo os cocos verdes pendurados nos quiosques (detesto água de coco mas acho o máximo existir água de coco no mundo), amo as novas estações de metrô, amo as conversas das manicures, divertidíssimas, amo ouvir todo mundo comentando a última da Carminha, amo a moda de tênis mega coloridos, amo as ruas das praias fechadas aos domingos pra neguinho caminhar e levar crianças, cachorros e velhos em cadeiras de rodas pra passear, amo as unhas coloridas. Claro que tem várias coisas chatas também, lógico, visto que paraíso não existe e que não sou cega nem burra, mas o clima anda tão bom pro Rio que prefiro não tocar nesse assunto.

E é por isso que convenci o Mirco a passar o réveillon no Rio esse ano ;)

paris

Esse ano, como o ano passado, será um ano de viagens com os MEUS amigos, já que os nossos amigos aqui da Bota não vão a lugar nenhum, nunca (a ideia deles de ir “pro exterior” é passar uma semana torrando sob o sol, fechados num resort cheio de funcionários italianos e comendo comida italiana em Sharm-el-Sheik, no Egito, cercados de outros turistas italianos). A primeira viagem do ano, então, foi a Paris, com a Raquel, que não estudou com a gente na faculdade mas é como se tivesse, a mãe dela e a filha, Marina, quase um ano mais velha do que a Carol e simplesmente a criança mais esperta e figuraça do universo inteiro.

Elas ficaram baseadas em Londres, onde uma amiga da Raquel está morando há alguns anos e onde ficará até o final do ano. Os planos incluíam voltarmos juntas de Paris pra cá, mas mixou tudo e acabou que passamos juntos só a semana em Paris. Mas foi ótimo mesmo assim, lógico – Paris e boa companhia, o que mais você quer da vida?

Elas chegaram de manhã e foram direto pro apartamento que tínhamos alugado, esse aqui. Ano passado ficamos nesse aqui, do ladinho da Torre, e foi ótimo, mas acabou sendo melhor ter ficado nesse outro maior dessa vez, apesar de algumas diferenças.

Vantagens da agência Meu Paris (que usamos no ano passado; o apartamento em que ficamos estava alugado esse ano) e do apartamento Eiffel 3&4, onde ficamos:
. Administrada por brasileiros, o que torna mais simples a vida de quem não fala outra língua, além de facilitar a compreensão dos conceitos de limpeza, chuveiro decente etc, que nem sempre fazem sentido pra estrangeiros.
. Organização de nível profissional: cada apartamento tem um fichário com todas as informações de que você pode precisar, como números de telefones úteis, estações de metrô, supermercados, farmácias etc mais próximas, como funcionam os eletrodomésticos, como fazer com o lixo e coisa e tal.
. Cozinha melhor equipada com zilhões de utensílios e, importantíssimo, Tupperware. Pelo menos no apartamento onde ficamos em agosto do ano passado.
. Localização absolutamente perfeita, a dez passos da Torre.
. Máquina de lavar roupa e secadora, 2-em-1.
. Telefone fixo, perfeito pra chamar táxi (e pra ligar pro Brasil grátis também).

Vantagens do apartamento em que ficamos esse ano, da Paris Attitude:
. Uma sala! Tudo bem que ficava no segundo andar e eu odeio escadas, principalmente quando tem criança no meio, mas ter um espaço pras crianças brincarem enquanto nós fazemos as coisas de adulto é muito bom. No apartamento do ano passado a mesa de jantar ficava dentro do quarto, de modo que se alguém quisesse ver televisão até tarde, por exemplo, não rolava porque incomodava quem estava dormindo.
. Um quarto a mais. SUPER desconfortável, lá no sótão, com teto inclinado onde eu batia a cabeça toda hora, e ao qual se chega subindo uma escada impossível de usar sem sapato porque machucava os pés (vejam as fotos), mas que veio a calhar porque como as camas dos quartos são estreitas, a Carol dorme mal pra caramba (e nós idem), rolando pra lá e pra cá e nos chutando a noite toda. Houve noites em que dormi com a Carol nesse quarto lá em cima, outras em que o Mirco dormiu com ela lá, outras em que eu dormi sozinha lá e o Mirco embaixo com a Carol, outras em que o Mirco dormiu lá em cima sozinho e eu com a Carol lá embaixo. Quebrou um mega galho.

Desvantagens desse apartamento desse ano:
. Cozinha velhusca e vagabunda, portas sem puxador, barulhentas ao fechar. Poucos utensílios, nenhum Tupperware. Fogão maldito por indução que desligava sozinho no meio do cozimento.
. Fica no Marais, que não é o meu bairro preferido pra ficar em Paris. A padaria logo em frente do prédio era uma droga. Há dois supermercados próximos e a estação mais próxima (Rambuteau) fica realmente DO LADO, mas é uma zona feinha, cheia de lojas de bolsas e sapatos com chineses atrás do balcão.
. Nada de secadora: tinha um microvaral de chão mas não tinha lugar pra botar, então ligamos o aquecedor dos banheiros, botamos cadeiras em frente e penduramos as roupas. Favelão total.

Tentamos manter os programas o mais infantis que pudemos, pra não torrar o saco das crianças. Elas se divertiram horrores no Louvre, correndo pra lá e pra cá e tentando reconhecer as estatuinhas primitivas de animais na parte de arte do Oriente Médio. Adoraram a Ménagerie, o zoológico da cidade, que não conhecíamos; não há animais grandes (felizmente, coitados), mas vale a visita só pela quantidade de bichos esquisitos que eu nunca tinha visto ao vivo antes, como o takin (que conhecia de documentários), a lebre da Patagônia, as tartarugas rajadas de Madagascar e outros. Fiquei assanhadíssima. O reptilário deles é bem legal também. O Muséum d’Histoire Naturelle é bem legal; a Carol ficou impressionadíssima com o esqueleto de baleia pendurado no teto e a procissão de bichos empalhados (misturados com alguns falsos mesmo) é muito maneira. O próprio prédio é lindíssimo.

Fomos ao D’Orsay, rapidinho. Fomos ver Notre Dame (eu e Mirco ficamos olhando as meninas na praça em frente enquanto a Raquel e a mãe dela foram visitar a igreja). Fomos a Monmartre ver a Sacré Coeur (eu e Mirco com as meninas brincando na pracinha enquanto a Raquel e a mãe dela foram visitar a igreja. Adoramos people watching; as caras das meninas enquanto viam – e ouviam – as crianças francesas brincando de Lego na praça eram impagáveis). Fomos à La Défense, que é sempre um lugar interessante, não só pela vista (tem uma Muji no shopping, yay).

E, claro, fomos à Disney Paris, que esse ano completou 20 anos. Chegar lá é facinho: fomos da nossa Rambuteau até Châtelet-Les Halles e de lá pegamos o trem pra Marne-la-Vallée/Chessy, a última estação da linha vermelha A4 da RER. Você desce praticamente dentro da Disney. Bom, Disney é Disney e não há muito o que dizer, mas vimos algumas diferenças: preços incrivelmente mais altos do que nos EUA, o que era de se esperar; vimos gente trocando os sacos de lixo das lixeiras, coisa que não se vê em Orlando; o parque é menor; encontramos muitos restaurantes do parque fechados (como assim?) mas acabamos comendo comida mexicana MUITO boa no Fuente del Oro. Não conseguimos ver o outro parque, o Walt Disney Studios, porque achamos que ia ser chato pras meninas. A Carol curtiu, mas menos do que eu estava imaginando; não gostou dos brinquedos mais barulhentos (como o do Buzz, do Pinocchio, do Peter Pan que estava muito escuro, o Piratas do Caribe) e adorou o Dumbo, o carrossel e a parada. O Disney Village parece ser legal, embora logicamente nada que se compare ao Downtown Disney de Orlando. Mas gostamos da experiência e pretendemos voltar, quem sabe um dia nos hospedando em um dos hotéis do parque, porque acabamos não vendo a parada noturna pois as crianças estavam moídas.

O único grande problema de Paris, além dos preços, lógico, é a falta de elevador e/ou escada rolante na imensa maioria das estações de metrô. Entendo que esse é um dos fatores que mantêm o povo magro, porque o que se anda e se sobe e se desce dentro das estações não tá no gibi, mas pra quem é cadeirante, tem dificuldades pra caminhar (a mãe da Raquel tem dores nos joelhos e sofreu um pouco), está com carrinho de criança ou simplesmente está cansado depois de um dia de trabalho, as escadas são de matar. No nosso caso fazíamos assim: eu e a Raquel levantávamos a barra de empurrar dos carrinhos e o Mirco levantava a parte dos pés, um carrinho em cada mão, e assim subíamos e descíamos as escadas. As meninas se acabavam de rir, se achando as princesas andando de liteira, e todo mundo ficava olhando e achando graça, mas não tinha outro jeito.

Eu particularmente não me canso nunca desse tipo de férias. O Mirco, habituado à vida na roça, fica logo estressado, e deixa toda a parte da navegação nas minhas mãos – ainda bem, porque eu adoro, como já cansei de comentar por aqui. Adoro aquela cabeçada toda, adoro ter que ficar fazendo roteiros e contando estações e programando baldeações, e sobretudo adoro mapas de metrô. Sou completamente tarada por mapas, de qualquer tipo, e os de metrô não são exceção. Adoro os nomes das estações, adoro a escolha de cores, fico imaginando a engenharia de trânsito louca por trás daquilo tudo, adoro, adoro. Então eu fico de copiloto, feliz da vida. E juro que não me canso, mesmo tendo que ajudar a levantar o carrinho. Posso passar o dia inteiro andando pela cidade, empurrando carrinho, subindo e descendo escada. Se estiver de sapatos confortáveis, posso andar até a lua sem reclamar, e as complicações normais de uma viagem, que são estressantes pro Mirco – tipo achar um restaurante decente, localizar a estação mais próxima, decidir que tipo de ingresso comprar etc – pra mim são só diversão.

E a viagem ainda teve uma cerejinha final: conseguimos, embora rapidamente, encontrar a Karla, uma americana que hospedamos no esquema de Couchsurfing antes da Carol nascer, e que está morando em Paris há três anos. Ela é um amor de pessoa e adorou ficar com a gente aqui no interior do Zaire, e fez um esforço de schedule pra nos encontrar. Levou baguettes e vários queijos fedorentos maravilhosos (e pretzels do Paul) e uma garrafa de vinho pro nosso apartamento e conseguimos bater um papo meio tabajara (porque as crianças interrompem toda hora) e rapidinho (porque a gente ia embora no dia seguinte e eu tinha que fazer as malas). Foi muito bom revê-la e legal manter esse contato – ela vai se mudar pra Los Angeles e já nos convidou pra visitar ;)

Nós voamos de easyJet dessa vez. Como sempre, deixamos o carro no estacionamento Park and Fly, que sai bem mais barato do que deixar dentro do aeroporto, e eles levam você de furgão até o aeroporto. Descemos em Orly e fomos de táxi até o apartamento; deu 35 euros, nada mal. A volta foi mais chata porque tínhamos que entregar o apartamento às 11 e o nosso voo só saía às 8 e meia da noite, de modo que passamos o dia inteiro no aeroporto, mas a Carol se comportou muito bem, correu, se cansou, dormiu pra caramba, acordou, lanchou, passou o voo desenhando e capotou assim que sentou no carro. Chegamos em casa quase uma da manhã, mas não importa. A viagem foi ótima.

E dia primeiro de junho vou pro Rio. Êeeeeee!

londres e outros bichos

Como eu disse ontem, passamos uns dias em Londres semana passada. Já comentei aqui que a primeira vez em que estive lá não gostei da cidade, na segunda vez desgostei um pouco menos, e dessa vez já comecei a gostar. Claro que estar com gente do lugar ajuda, e em boa companhia nem se fala, mas não é só isso. Acho que à medida em que envelheço sinto cada vez mais falta de um pouco de cosmopolitismo – e da bagunça também, admito. Em Paris, quando fiquei responsável pela navegação, já que meus sogros não entendem nada de coisa nenhuma, nem de francês, nem de metrô, nem de mapas, e que o Mirco se perde até dentro do banheiro se deixar, notei que simplesmente ADORO a maluquice logística de cidade grande. Até em lugares onde o transporte público funciona igual à minha cara, como o Rio, me divirto horrores calculando rotas pra chegar em tal e tal lugar. Mas é o metrô mesmo que me deixa doida.

Vocês sabem como eu sou chegada num mapa. Não posso ver mapa que fico doida, não importa muito de onde seja. Tenho vários espalhados pela casa inteira: um de Paris na sala, um mapa-mundi adesivo na parede do corredor, um da França em forma de quebra-cabeças no escritório e mais um do Parque Nacional do Monte Subásio (o Monte Subásio é onde fica Assis), ímãs de geladeira e canecas com mapas de metrô, e já tem um tempo que estou de olho nesses aqui. Na casa da minha mãe no Rio tenho uma reprodução de um mapa antigo de Londres que aquela maluca da Tatiana me deu várias eras glaciais atrás. Gostaria imensamente de um mapa do Rio, mas até hoje só vi coisas tropicalmente cafonas e desisti de procurar (quem achar um bem estiloso e quiser me dar de presente, acho ótimo). Meu iPhone tem os mapas de metrô de tudo que é lugar do mundo, e volta e meia me pego estudando um ou outro só pelo prazer de olhar praquelas linhas coloridas cheios de nomes de estações que não conheço. Adoro nomes em mapas, adoro, adoro. Livro de fantasy pra mim sem mapa já perde vários pontos logo de cara.

Mas então. Qualquer deslocamento em cidade grande é complicado e demorado, mas é tão mais divertido. Sentar com um mapinha do metrô, escolher a estação de chegada, calcular a rota, levar em consideração as estações fechadas por um motivo qualquer, ler as placas nas estações, pra mim isso tudo é divertidíssimo e compensa até a chatice de ter que subir e descer escada com carrinho de criança.

E as lojas diferentes de tudo o que temos aqui? E os restaurantes “étnicos” (palavra idiota, putz)? Comemos um curry bem normal na véspera da viagem de volta e fiquei deliciada; aqui não tem nenhum restaurante indiano nenhum, os únicos diferentes são os chineses, todos uma merda. E as pessoas com as caras e cores mais diferentes, caminhando pela cidade? E o jeito completamente diferente de viver a cidade, dependendo de onde se vai? E, no caso de Paris, o desafio de pedir ou ler informações em uma língua que se conhece pouco? Fico toda arrepiada só de pensar :-) Eu sou um bicho urbano, não adianta. Na próxima encarnação vou vir como ratazana de metrô.

londres

Ah, Londres. A cidade mais antipática onde já botei os pés.

Mas dessa vez não fomos a Londres for London’s sake, mas sim pela companhia: a Lu estava lá passeando, Hiro e Barbara moram lá, e havia a promessa (semi-cumprida) de conhecer muita gente legal. E como além disso tudo tem voo pra Londres saindo diretamente do glorioso Aeroporto Internazionale di Perugia, que tem voos diretos pra Milão (realmente outro país), Romênia e Albânia, além dos voos regulares da Ryanair pra Londres o ano todo e pra Barcelona no verão, não podíamos dizer não. E fomos. (Tá igualzinho ao parágrafo do post de antes da viagem, eu sei, poupem-me, tá).

Voar com a Ryanair já foi uma coisa factível. Hoje em dia dá nos nervos. Tudo você paga: tem taxa pra pagar com cartão de crédito (que, vejam só, é a única forma de pagamento), pra levar mala na estiva (que se estiver 200 gramas mais pesada do que o limite resulta em pagamento de excesso de bagagem), pra bagagem de mão (que eles REALMENTE medem naquela merda daquela espécie de grade com as medidas certas, e se a porra da mala não couber direitinho, sem forçar, você paga 35 libras pra poder levar a bichinha na cabine), pra fazer check-in online, pra fazer fila prioritária, o cacete a quatro. O desconforto do avião, cujas poltronas nem reclinam, não incomoda porque os voos são sempre curtos. Incomoda a chatura das aeromoças toda hora pentelhando no alto-falante vendendo aquelas merdas de cartões telefônicos, calendários e outras bugigangas que nunca vi ninguém comprar, de modo que é impossível dormir. Incomoda o fato inevitável de que o avião está sempre cheio de italianos, lógico, e isso nunca é bom. Incomoda muito o fato do voo chegar em Stansted, um aeroporto comodamente localizado lá na puta que o pariu (estou cheia de francesismos hoje, notaram?), o que significa ter que pegar trem (caro) ou ônibus (menos caro) até a cidade, e de lá transporte pro seu hotel.

Nessa maluquice de deslocamento de pobre, acabamos perdendo o jantar na sexta, e consequentemente deixamos de conhecer algumas pessoas legais. O motorista de táxi nunca tinha ouvido falar do restaurante, cujo site maldito só dá o mapa pra chegar lá, em vez da porcaria do endereço; o cara nos deixou numa rua paralela, lá fomos nós arrastando uma malona, duas malas de mão e o carrinho da Carol pela rua, um frio desgraçado, até achar o bendito restaurante. Lá dentro, um calor infernal, um cheiro de fritura (que me deu fome) e um monte de funcionários na recepção que nunca tinham ouvido falar das pessoas que eu deveria encontrar, não tinham recebido nenhum recado sobre um pobre casal cheio de malas e uma criança cabeluda (o recado eu sei que foi dado, se foi processado já são outros 500), um fulano que me levou até a entrada dos salões no andar de baixo e me largou lá sozinha pra procurar o pessoal, eu que não achei ninguém. Desistimos, voltamos pras ruas geladas e entramos no primeiro restaurante aberto que vimos, que por sinal era italiano e muito gostosinho (Rosso di Sera, mas não me perguntem o endereço que eu não sei). Gabe ligou quando eu estava no meio das minhas orecchiette com brócolis e bacon, mas àquela altura do campeonato a última coisa que queríamos era arrastar mala e carrinho pela rua de novo, de modo que acabamos pegando um taxi direto pro hotel e perdemos a socialização. Bosta.

Ficamos no Travelodge Waterloo, na Waterlood Road. O hotel é novinho em folha, mas é um Travelodge, ou seja, tem tudo o que você precisa e nada do que você não precisa, espartano mesmo. Como pra gente hotel só precisa ser limpinho e mais nada, deu pro gasto e ainda sobrou. Tomamos café lá dois dias, feijão, ovo mexido, bacon, tomate assado e linguiça, mais torradas, suco de laranja, iogurte, cereal, Nutella pra passar no pão, café etc pra quem toma. Por sete libras e meia, tava muito bom. Pagamos mais no Paul da Waterloo e comemos menos (mas que sanduba bão, nham…). Pena que não tinha absolutamente nenhum tipo de queijo, nem chocolate, quente ou frio que fosse, de modo que fiquei com aquela sensação de que tava faltando alguma coisa. Mas enfim: o hotel é muito bem localizado, a um passo da estação de Waterloo, que dá acesso a um monte de linhas e a trens, e está bem perto das principais atrações turísticas da cidade. Ótima pedida pra quem quer gastar pouco (relativamente, né, afinal estamos falando de Londres).

Não sei se foi a companhia, mas dessa vez desgostei menos da cidade. Também não vimos nada de tipicamente turístico, diga-se de passagem, porque não fomos pra turistar, mas mesmo assim achei tudo menos odioso do que da primeira vez. Até o sistema de transporte público, que me pareceu muito esquisito da outra vez, agora achei mais lógico (embora ainda prefira o de Paris). Comemos melhor do que da outra vez, mas acho que isso é porque estar com pessoas que conhecem a cidade faz toda a diferença do mundo.

Mas então: a Carolina brincou com a Julia e com a Vitoria, filha da Flávia, que adorei conhecer. Eu bati muito papo e gastei meu português. Sofremos um pouco com o frio horroroso, mas isso é detalhe. Encontrei a minha amiga suíça Susanne, que mora em Cambridge onde o marido dá aulas de física na universidade; o encontro foi rápido (por um erro de logística meu) mas ótimo pois gosto muito dela. Passamos a tarde de domingo na casa do Hiro, uma das minhas pessoas mais queridas do mundo, comendo curry vagaba de rua, conversando com a Barbara e babando no Jonas, que é o minijapa mais simpático do planeta. E na segunda voltamos pra casa sem problemas, com a maravilha adicional que é só precisar dirigir uns 8 minutos até em casa, em vez do perrengue que normalmente é a viagem pra pegar avião em Roma.

Resumindo, foi um fim de semana muito agradável. Tanto que estamos cogitando repetir a dose tipo assim todo ano, sabe. Ou pelo menos enquanto não sair um voo Perugia-Paris…

tipo assim…

…hoje vamos pra Londres, passar o fim de semana. Logicamente a coisa é muito menos chique do que parece, porque vamos de Ryan Air, a companhia aérea mais chata do universo, que cobra taxa extra pra você pagar com cartão de crédito (que é o único modo de pagar), pra fazer check-in online, pra embarcar antes, pra levar mala na estiva, pro cacete a quatro. Mas achamos passagens a bom preço e ainda por cima vamos sair do glorioso Aeroporto Internacional de Perugia, realmente internacionalíssimo, com voos pra Londres dia sim, dia não, voos pra Barcelona no verão, voos pra Romênia e Albânia de vez em quando, e dois voos diários pra Milão, que realmente parece outro país. Partimos hoje depois do almoço e voltamos na segunda de manhã.

O que diabos vamos fazer em Londres num fim de semana chuvoso, nevoso e gélido? Por que vamos voltar a essa cidade da qual nem eu nem o Mirco gostamos muito? Porque a Lu está lá, o Hiro e a Barbara estão lá, minha amiga suíça Susanne que mora em Cambridge com o marido vai lá me ver, e o meu Kindle está lá com o Hiro. Vai ser bom pra Carolina mudar de ares também pra ver se a chatice dela melhora um pouco.

Vamos passar Natal e Ano Novo em NJ, onde ficamos há uns três anos (ou dois, não lembro mais), na casa daquele amigo do Mirco. Dessa vez o Ettore e a Arianna vão também, de modo que vocês já podem ir imaginando as reações dos jecas em NY que depois eu conto. Mas estou achando ótimo eles irem porque já tava mais que na hora deles saírem desse buraco onde moramos e onde eles vivem enfurnados. Também vai um casal de amigos, Marco e Michela, com o filho de 5 anos, que é chatinho até não poder mais mas adora a Carolina (a recíproca não é exatamente verdadeira mas de repente ela se acostuma com a chatice dele, sei lá). Eles também nunca vão a lugar nenhum porque ele tem medo de voar e porque nenhum dos dois fala inglês, mas ela gosta tanto de viajar, coitada, que segundo o Marco em vez de estar escorbútica como sempre a menina anda dando show de simpatia, neguinho nem tá reconhecendo a coitada. Vamos ver no que vai dar.

Já sei no que vai dar a viagem do Carnaval: vamos pra Disney, na Flórida, com dois casais amigões da faculdade e as filhas pequenas. As meninas têm pouco mais de idade do que a Carolina e se deram muito bem, nos churrascos, nas dormidas, nos almoços a que fomos. Até lá espero que a madame já esteja falando alguma coisa, nem que seja só pra cantar as musiquinhas da Galinha Pintadinha no carro com as outras duas madames faladeiras. Mas já sei que vai ser a viagem mais divertida do universo, porque todos nós nos damos muito bem, as crianças são todas bem tranquilas e amigas, vamos ficar no mesmo apartamento, ou seja, vai ser meio que reviver os churrascos de festa junina no sítio do Bernardo em Cabo Frio nos primórdios da faculdade, com a diferença que temos que ficar de olho nas meninas. Está todo mundo animadíssimo, e eu, então, isolada aqui nesse fim de mundo, nem se fala. Looking forward to it, totalmente.

paris

Depois da canseira de ontem, acabamos acordando tarde hoje e resolvemos pegar leve com a andação. Mas não só acordamos tarde como fomos dormir DE NOVO depois de tomar café! Reacordamos só à uma da tarde e saímos pra, tchã tchã tchã tchãaaaaaaaaa, catar um lugar pra comer antes de ir ao Musée de l’Orangerie, que hoje era grátis por ser o primeiro domingo do mês. Então pegamos a La Tour Maubourg até a Pont des Invalides, viramos à direita na Cours La Reine até a Place de la Concorde, pegamos a Rue Royale e seguimos até a Madeleine, aquela igreja que é bonita por fora e cafona por dentro. Embocamos no Boulevard des Capucines e enfrentamos o vento forte pra dar uma zoiada nas brasseries. Acabamos descobrindo um lugar bem legalzinho, chamado Capucine mesmo, no número 39. Tudo novinho, bonito, confortável, garçons simpáticos (fomos atendidos por um português, ou filho de portugueses, com cara de nerd), comida boa (sopa de legumes deliciosa e um filé com molho de pimenta acompanhado de batatas fritas sequinhas) e por um preço justo (17 euros por pessoa, sem bebida). Saímos felizes da vida e voltamos pela Royale de novo até o museu, que fica dentro do Jardin des Tuileries.

Ficamos meia hora na fila, encarando o vento forte mas não gelado e um chuvisco chatíssimo. O museu é bem pequeno, são umas 150 obras de grandes artistas: tem umas ninféias gigantes do Monet, uns Picassos, uns Modiglianis, uns Renoirs, uns Rousseaus (descobri que o Rousseau é o Paulo Coelho da pintura, ô sucesso mais desmerecido, pelamordedeus! O cara é um horror!) e tal. Interessante, mas acho que não vale a pena pagar o ingresso, então foi ótimo entrar de graça. Alguns dos Picassos que fazem parte deste acervo já tinham sido levados pra tal mostra que vai começar no Orsay depois que eu sair, mas como havia reproduções em tamanho real no lugar delas, deu pra apreciar legal.

Quando saímos o tempo não tinha melhorado nada, mas mesmo assim fomos novamente ao Champs Élysées catar uns livros de francês pra mãe da Lulu na Virgin. Desnecessário dizer que ela não achou o que queria, mas eu saí de lá com vários livros de exercícios de francês e quatro Astérix.

Pausa para o momento reflexivo-intelecto-lingüístico.

Toda vez que eu vim à França eu voltei pra casa prometendo a mim mesma que na próxima vez eu estaria falando francês. Já comentei aqui n vezes que eu considero não falar francês uma lacuna intelectual das grandes, mas dessa vez a coisa está me irritando de maneira fenomenal mesmo. Porque a Lulu fala MUITO bem e bate altos papos com todo mundo (aliás, parênteses, TO-DOS os vendedores e funcionários de TO-DAS as lojas e TO-DOS os restaurantes em que entramos, TO-DAS as pessoas que paramos na rua pra pedir informações, enfim, TO-DAS as criaturas, 100% francesas ou imigrantes, com as quais falamos foram incrivelmente simpáticas – não falo de não ser antipático, mas de ser ativamente simpático: puxar assunto, brincar, sorrir com sinceridade, perguntar que língua falamos, onde a Lulu comprou a bolsa dela, etc. Ponto pros parisienses, muito muito muito muito mais legais que os londrinos chatões). E apesar de eu entender muito bem o francês escrito e um tiquinho do francês falado, não ser capaz de falar essa língua que eu AMO e desse país que eu admiro pra cacete é MUITO frustrante. Então pretendo me aplicar seriamente e estudar e aprender a falar, pra virar gente.

Fim da pausa.

Na Fnac compramos CDs de música francesa (Lulu) e DVDs baratos (eu; Amadeus e O Advogado do Diabo). Entramos em várias lojas de óculos pra catar óculos escuros pras amigas da Lulu, mas não encontramos nada. Entramos na Yves Rocher pra ver se encontrávamos o sabonete líquido de figo e ginseng maravilhoso que tem aqui em casa, mas não achamos e acabamos comprando creminhos de amora, kiwi, pêssego. Paramos no Brioche Dorée pra comer tartelette de chocolate com banana e chocolate quente (eu) e brownie com mocaccino (Lulu), porque o Paul estava lotado, e de lá tocamos direto pra casa, seguindo o mesmo trajeto que fizemos ontem e babando de novo nos prédios das maisons de moda, um mais desbundante do que o outro.

Pausa para reflexão estética.

As francesas têm um charme natural inexplicável tão grande que dá vontade de matar. Completamente diferentes das italianas, que também são bonitas mas tendem a exagerar nas roupas, nos saltos, nas maquiagens, nos perfumes, nos cortes de cabelo bizarros (tipo franja lisa e o resto do cabelo todo de baby-liss, essas aberrações assim). As francesas não têm nada de particular. São elegantemente magras, mas as italianas também são. Têm cabelo bom, mas as italianas também. Normalmente têm a pele linda, que as italianas também têm. Mas enquanto que as italianas têm que se produzir pra ficarem elegantes, as francesas não fazem nada. Nada. Usam roupas bem básicas, bem cortadas mas simples, jogam uma écharpe no pescoço e saem lindando pelas ruas, sem fazer nenhum esforço. Malditas.

Fim da pausa.

E agora com licença que amanhã é dia de shopping (a lista de compras da Lulu ainda não foi totalmente dealt with) e por incrível que pareça já estamos com sono de novo.

paris

Acordamos mais ou menos cedo e fomos direto pra padaria aqui na rua transversal comprar pão. Um horror, indecisão total, todos os pães absolutamente maravilhosos, no final foi uma escolha de Sofia: abrimos mão do pão de nozes (pelo menos por enquanto) e pedimos uma minibaguette de sete grãos, além de quatro das madeleines que eu estava paquerando desde que chegamos. Levamos pra casa e tomamos nosso café, felizes da vida. Não preciso nem dizer que o pão tava divino.

De barriga cheia, aproveitamos o dia lindo pra ir ao Musée Rodin (Rue de Varenne), já que muitas das esculturas de bronze ficam no jardim, maravilhoso, e passeio em jardim maravilhoso requer um dia lindo. Ficamos um tempão lá passeando, fazendo nada, curtindo o solzinho e os poucos visitantes, antes de finalmente entrar no museu propriamente dito. O acervo é ótimo; pra quem não sabe, não há só obras do Rodin (e da Camille Claudel, lógico), mas também tem algumas peças da coleção pessoal do escultor. Coisas lindas; o museu é bárbaro e vale muito a pena visitar.

Como tínhamos comprado o passeport, o ingresso combinado Rodin-Orsay, lá pra hora do almoço saímos do Rodin, pegamos o Boulevard des Invalides até o Quai d’Orsay e fomos catar um lugar pra comer antes de entrar no museu. Seguimos a Rue de Bellechasse nos afastando do rio, pra procurar lugares que não fossem armadilhas de turista. Acabamos comendo num lugarzinho bem legal, no número 12, administrado por um jovem casal de chineses (ou talvez fossem irmãos, não sabemos) incrivelmente simpáticos e sorridentes. O lugar é todo novinho, limpo, arrumadinho, e a comida estava ótima: quiche de espinafre com salmão pra mim, espinafre e queijo de cabra pra Lulu. O preço foi bem razoável, o pedaço de quiche é grande o suficiente pra matar a fome, ao contrário de outros lugares que vimos por aí, e os chineses são realmente simpaticíssimos. O detalhe: mesmo entre eles, falavam um francês impecável, coisa que eu acho hilária. De barriga cheia, finalmente tocamos pro museu.

Não estava lotado, mas mesmo assim tinha uma filinha que nós, com nosso passeport em mãos, evitamos completamente. Tivemos bastante tempo pra apreciar o museu, que é grande mas não gigante, mas acabamos batendo tanto papo sentadas ali no corredorzão central, vendo as figuras que passavam, que acabamos não vendo tudo. Lulu vai voltar na quarta-feira, quando vou embora, que é quando começa uma exposição do Picasso (que eu logicamente vou perder).

Na saída já estávamos com fome de novo e voltamos nos chineses pra comer um croque monsieur (uma espécie de misto quente com queijo gratinado por cima, que eu encarei valentemente e adorei) e sorvete de limão (Lulu). Tava meio friinho mas resolvemos ir bater perna assim mesmo, e fomos andando até a Place de la Concorde, onde estava rolando uma espécie de festival de comemoração dos 100 anos da indústria aeroespacial francesa, uma cabeçada danada. Além da cabeçada, a cada rajada de vento subia uma poeirada desgraçada, de modo que apertamos o passo até o Champs Élysées. Entramos na Virgin pra fazer xixi (só 20 centavos; alguns lugares cobram um euro), demos umas voltas, sentamos num banco pra observar a fauna, e quando finalmente cansamos atravessamos pro outro lado, pegamos a Rue Pierre Charron, viramos à esquerda na François 1ère e fomos reto até a Place du Canada. Dali até a Pont des Invalides é um salto, e uma vez atravessado o rio foi só pegar a La Tour Maubourg e depois a terceira direita, que é a nossa. Paramos num chinês pra jantar (eu fui modesta e só comi dois ravioli grelhados; a Lulu foi de sopa de tofu picante e dois ravioli de camarão no vapor) e voltamos pra casa.

Estávamos exaustas, até porque os livros nas lojas dos museus são inevitáveis e carregar peso por toda essa distância não é mole, e nossos pés estavam em chamas de tanto andar. Enquanto eu falava com o Mirco no telefone, que tinha comido uma sopa velha que tava dando sopa (hohoho) em casa desde que eu saí de lá e passou mal a noite inteira na casa da mãe dele, a Lulu deitou no sofá com a desculpa de que ia ver televisão. Ahã. Nem chegou a ligar a bichinha; capotou rapidinho e quando eu desliguei o telefone ela levantou feito um zumbi e foi zumbizando pra cama. Eu ainda li um pouco do Nicholas que comprei ontem, mas estou com soninho e estou indo dormir. Bonne nuit.

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Hoje tomamos café em casa, com as coisas que compramos no supermercado ontem. Alimentadas e de banhinho tomado, saímos de casa e viramos à direita, pra pegar o Boulevard Saint-Germain. Subimos e descemos a Rue de Rennes até Montparnasse and back vendo as vitrines, depois embocamos na Rue Vaugirard e seguimos, passando pelo Jardin du Luxembourg, até o Boulevard Saint-Michel. Ali, quase na Rue des Écoles, pertinho da Sorbonne, paramos pra almoçar num Pomme de Pain. Eu encarei um sanduíche de hamburger fininho com queijo raclette em pão quentinho e crocante, suco de laranja e iogurte aromatizado com baunilha; Lulu foi de quiche de brócolis com salmão e bolinho de limão (reparem que vou falar de comida O TEMPO TODO, mas vocês já sabem, né).

Dali fomos ao Musée National du Moyen-Age, ou Museu Nacional da Idade Média, a.k.a. Cluny (porque fica no Castelo e Termas de Cluny). O museu não é grande e também não é muito badalado, de forma que as hordas de japoneses bobinhos com luvinhas e risadas infantilóides não o freqüentam. Eu sou chegadaça numa Idade Média, que é o meu período histórico preferido, e fiquei babando. A atração principal deles é a tapeçaria da Dama com Unicórnio, que tem uma história interessante e uma simbologia com altas explicações e tal, mas todo o acervo é maravilhoso, pra não falar do próprio prédio. Também não vou comentar sobre a lojinha do museu. Lojinhas de museus são a minha perdição. Até hoje um dos meus objetos pessoais mais queridos é uma trousse que reproduz a tapeçaria de Bayeux, que comprei na lojinha do museu homônimo. Ai ai.

Bem alimentadas de arte e coisas lindas, andamos mais até o rio, parando pra tomar um sorvete de maracujá Berthillon num quiosque qualquer (o da Gelateria della Palma em Roma é melhor), e atravessamos a Pont au Change, que fica entre a Pont-Neuf e a Pont Saint-Michel. Atravessamos pra Rivoli, que subimos e descemos entrando e saindo de livrarias, e depois tocamos pro Carrousel du Louvre. A Lulu queria ir a uma loja que ela adorava, que vendia material de desenho e pintura, além de adesivos lindos pra parede, mas que descobrimos que virou o centro informático do museu, sei lá. Paramos pra comer nos restaurantezinhos lá da praça de alimentação, mas como era tarde pra almoçar e cedo pra jantar não tínhamos muitas opções. Acabamos caindo de boca em mini-hamburgers (hereges!!!). E aí, já exaustas, com sacolas pesadas cheias de livros e os pés doendo, resolvemos voltar pra casa, não sem antes tentar explicar pra um brasileiro perdido, que resolveu aproveitar a longa conexão pra Hong Kong e visitar Paris, como voltar de metrô e RER ao aeroporto. Algo me diz que o confundimos ainda mais, mas como tem que ser muito mongo pra não entender o transporte público de Paris, e de mongo o garoto não tinha nada (tinha vindo do aeroporto pro centro de táxi e não tinha entrado no metrô ainda), tenho certeza de que ele não perdeu o vôo.

Viemos caminhando ao longo do rio até a altura da ponte Alexandre III, pegamos o Boulevard de la Tour Maubourg, pegamos a nossa rua e demos de cara com a torre toda piscando e iluminada de azul. Ficamos pensando que mesmo a chatura do trabalho mais chato e do chefe mais irritante passa, ou pelo menos diminui, quando o sujeito volta pra casa “do selviço” e dá de cara com aquilo. Entramos no supermercado pra comprar água mineral, falei com o Mirco, que estava jantando no Gianni, pra tentar mostrar a torre pela webcam, mas a bichinha tava em greve (a webcam, não a torre), comemos e pronto, acabou-se o dia.

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A viagem pra Paris foi tranqüila. Eu e Lulu saímos com vôos diferentes, mas do mesmo aeroporto de Fiumicino, de modo que eu peguei o trem das 7:18 da manhã em Bastia e encontrei com ela em Roma, e dali pegamos a navetta até o aeroporto. Malas despachadas, fomos comer (lógico) e esperar a hora do embarque. Ela de Air France, eu de vôo de pobre com a Vueling, a low-cost espanhola, que achei ótima. Meu vôo atrasou meia horinha, depois levei o maior tempão pra chegar até o terminal dela no CDG, que era tipo exatamente no lado oposto do aeroporto, e depois táxi até o 7ème arrondissement, onde fica o apartamento que alugamos até quarta que vem.

Não vou comentar que o apartamento é bárbaro, todo ajeitadinho, com vista pra torre e num dos bairros mais chiques do centro. Nem que tem wi-fi e duas padarias maravilhosas e dois supermercados logo embaixo de casa. Nem da sensação que é dizer “vamos dar um pulinho em casa pra escovar os dentes antes de ir pro Cluny”, nem que seja só por uma semana. Não vou comentar nada disso pra vocês não ficarem com inveja, tá. Olha como eu sou legal.

Então hoje fizemos assim: café da manhã num bar aqui na esquina, servidas por um búlgaro sarado: meia baguete com manteiga, um croissant delicioso, um chocolate quente idem, um suco de laranja marromeno. Passamos em casa pra escovar os dentes, no caminho comprei um poncho, que é a coisa mais prática do mundo, e rumamos pra torre. Porque nem eu nem a Lulu, que já veio aqui pelo menos umas vinte vezes, tinha subido antes. Ficamos uma meia horinha na fila e subimos. Lá em cima, além da vista deslumbrante já esperada, um vento gelado de dissecar a pele do rosto. Quando botamos o pé lá embaixo, deu uma rajada de vento e granizo que neguinho saiu correndo feito uns loucos pela rua, catando lugares pra se esconder, que não havia. Uma loucura! Até os soldados com seus fuzis foram se refugiar debaixo das estreitíssimas marquises dos quiosques de quinquilharias, coitados. Esperamos a coisa dar uma acalmada e saímos andando ao longo do Sena.

E aí começou a chover. Seriamente. E depois parou. Re-chovia, e re-parava de chover. Como não somos italianas e enfrentamos desaventuras meteorológicas com a maior nonchalance, confiando nos nossos macrófagos e linfócitos, continuamos andando ao longo do Boulevard Saint-Germain na maior naturalidade (eu sozinha teria que ficar checando o mapa toda hora, mas Lulu é praticamente uma local). Fomos parar numa creperia na Saint-André-des-Arts (Crêperie Saint-Germain, no número 23) onde a Lulu sempre come crepes, e entendi por quê. Feitas de farinha de trigo sarraceno, como a da minha creperia preferida em Perugia, são absolutamente divinas. Eu fui de espinafre com emmenthal e nozes, Lulu de espinafre com queijo de cabra e mel, e ainda dividimos uma de banana e chocolate de sobremesa (foi mal, hein). Suco de laranja espremido na hora, pra vitamina C fixar o ferro do espinafre, e lá fomos nós caminhar novamente.

Andamos muito, crianças. Muito mesmo. Babamos em doze mil vitrines, porque vitrine francesa é uma coisa, vocês sabem, não importa o que está sendo vendido. Fomos à livraria do Instituto do Mundo Árabe, que é uma loucura. Fomos até o Le Bon Marché, lá na casa do chapéu. E depois pegamos a St. Dominique desde o começo e viemos andando pra casa. Paramos no supermercado pra comprar víveres e jantamos croissant com queijo gouda e presunto (eu) e sanduíche de salmão e pepino (Lulu), acompanhados de suco de manga com maracujá (eu) e multifrutas vitaminado (Lulu), com biscoitos de chocolate (eu) e financiers de laranja com chocolate (Lulu) de sobremesa. Da série “como o diabo gosta”.

E amanhã não sabemos ainda o que vamos fazer. Queremos ir ao Cluny e ao Rodin, que não conheço. Lulu tem umas compras pra fazer. Eu tenho Astérix pra comprar. Mas não temos compromissos, sabe, viemos pra rodar mesmo e absorver um pouco de civilização. Foi mal aí, tá.

Bonne nuit, chéries.