Fomos jantar na casa do Gianni e da Chiara hoje. Quando chegamos a Chiara tava borrifando o chão da varanda com água, pra refrescar. Sentei na cadeira da mesa da varanda e só levantei na hora de ir embora, morta. Jantamos bresaola com rúcula de entrada, depois salada fria de macarrão com mozzarella e tomates-cereja, depois panzanella, a tal salada maldita com pão velho molhado e outras coisas asquerosas. Batemos altos papos mas não resolvemos nada sobre a viagem de agosto. A opção número 1 é São Petersburgo e Moscou, mas se eles dois não decidirem logo quando podemos ir, vamos acabar não fazendo coisa nenhuma porque todos precisamos de visto, hotel reservado e pararatimbum. Detesto essa lenga-lenga, putz!
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forno
Cacete, essa semana o calor tá DEMAAAAIS. Recorde de temperatura em Perugia, 41 graus. Merda de cidade desgraçada: no calor é sempre um forno, no inverno é sempre uma das mais frias, por causa do vento gelado miserável que sopra no Corso (a rua principal).
Ontem juro que quase chorei de calor. Sentada na minha cadeira nova na sala dos tradutores, uma cadeira desconfortável e velha que esquenta feito o diabo, aboletada em três sentadores da IKEA que em casa usamos pra sentar no chão quando faltam cadeiras e que levei pro trabalho pra ficar mais alta na cadeira, eu sentia o suor escorrendo pelas costas. E olha que eu não suo nem em aula de aeróbica. Praticamente um ventilador por cabeça, mas ventilador que sopra ar quente não ajuda muito, vocês sabem. A nossa sala é a mais quente da casa, não sopra nem um fio de vento, e ainda por cima trabalhamos o dia inteiro 1) em escrivaninhas nada ergonômicas porque são 10 cm mais altas do que o normal, e tão espessas que mesmo que a cadeira subisse, as suas pernas não caberiam por baixo da mesa, 2) ouvindo o tlim tlim tlim dos sininhos no pescoço dos 3 cachorros fofos da casa ao lado, 3) ouvindo o telefone tocar o tempo todo na sala ao lado da nossa, onde trabalham a Retardada Contábil 1 e a Retardada Contábil 2, 4) sentindo o fedor da fumaça de cigarro da Chefa, da Laurinha e do Gostosão Gráfico, 5) tendo que responder o telefone da escola, que fica nas minhas mãos enquanto a Simona está de férias. Tudo isso traduzindo uns arquivos em PowerPoint chatíssimos de uma companhia de navios de cruzeiro. Coisas do tipo o que fazer depois de terminar de beber uma latinha de Coca? A) jogar no mar B) procurar uma lata de lixo C) jogar no chão. Eu mereço.
Essa noite não dormimos nada. Não tinha jeito, todas as janelas escancaradas, mas se o ar não se move, fazer o quê? O ventilador no máximo virado pra nossa cara, contrariando todas as Leis do Bom Senso Italiano que dizem que é melhor sentir calor do que tomar vento na cara, e nada. Passei o dia arrastando os pés como um zumbi. A única coisa legal foi a minha aluna farmacêutica legal, de Spello, que me trouxe um vasinho de flores porque hoje foi o último dia de aula dela, que em agosto vai pra Seattle com o marido, a trabalho. Achei um gesto tão simpático :)
jantarzim
Mirco me manda um torpedo no meio de uma aula dizendo que hoje vamos jantar em Spello. Sabendo que não adiantava perguntar por quê, onde, quando, com quem, etc, fiquei na curiosidade até ele aparecer no nosso ponto de encontro de costume, onde deixamos meu carro estacionado escondidinho. Ele tinha que fazer um orçamento pra um cliente novo na zona industrial de Foligno, e já que tinha que passar por lá mesmo, por que não jantar em Spello, que, dizem, é um dos melhores lugares na Umbria pra comer, junto com Spoleto? Então lá fomos nós inspecionar o tal caminhão, que tinha levado uma batida quando ladrões entraram na área do galpão pra roubar sei lá o quê. Eu já tava toda molamba por causa do calor insuportável durante o dia, e fiquei mais ainda depois da poeirada toda que levantava do chão do galpão. Mas depois que fomos direto pra Spello, estacionamos longe e fomos subindo a rua principal a pé a molambice até foi esquecida, porque a cidade é uma gracinha, e tava lotada de turistas.
Mirco tinha escolhido o restaurante assim ao acaso, abrindo a lista telefônica e escolhendo um lugar pra comer. Esse era o restaurante de um hotel, e tem uma varandona gigante que dá pra um pequeno vale escondido, com vista pra campos cultivados, uma grande casa de pedra antiga meio escondida por uma arvorona imensa, e, mais pro fundo, todo o vale iluminado. Acabou que a comida não tava nenhuma maravilha o pão era artesanal e valia a pena, mas o resto não era nada digno de nota mas de vez em quando soprava um ventinho muuuuuuito leve, fresquinho, e o jantar foi bem agradável. Com um vinhozinho branco gelado, então, nham.
Adoro essas escapadelas de meio de semana. E o bom de morar na Bota é que não importa aonde você vai, você acaba SEMPRE comendo alguma coisa gostosa e/ou vendo alguma coisa bonita. Spello é linda, venham.
nham
Ultimamente ando com mania de pão árabe e queijo branco que não é o queijo Minas, lógico, mas tem outros tipos de queijo fresco por aqui (o que não falta na Europa é queijo, vocês sabem). Quando consigo ir a Perugia, coisa rara ultimamente, aproveito pra comprar pão árabe no Kebab da esquina da faculdade. Não é nenhuma Brastemp, looooonge da delícia que é o pão árabe (e as esfihas… ui…) da lojinha de azulejos pretos e brancos na Cidade, mas dá pro gasto. Não fiz mais hamus porque tenho preguiça, mas boto queijo branco pra derreter na chapa até formar uma crostinha, e recheio o pão árabe. Rapaz… Bom é pouco.
tudo na mesma
O plebiscito decidiu que vai ficar tudo como está mesmo. Lógico que a direita já saiu malhando, dizendo que o país vai ficar atrasado (…), e coisa e tal. Agora é esperar as reformas econômicas que o novo governo TEM que implantar pra cobrir o rombo nos cofres públicos deixado por vários péssimos governos consecutivos. Rings a bell?
plebiscito
O tal plebiscito de que falei outro dia é o seguinte: o governo Berlusca tinha passado uma proposta pra alterar a Constituição. Queriam mais autoridade pro Presidente del Consiglio (ho ho ho), queriam mais autonomia pras regiões, e outras coisinhas. O plebiscito é pra aceitar essas alterações ou não. Então dou aqui o meu pitaco de quem não tem nada a ver com o peixe:
A idéia de dar mais autonomia às regiões seria até interessante; boa parte dos subsídios da União Européia já vai pras regiões (que não são necessariamente as regiões administrativas do país, mas é uma coisa determinada pela Comunidade Européia mesmo) sem passar pelo governo federal, e reforçar esse tipo de estrutura seria benéfico em termos de tempo e de finanças uma etapa a menos no caminho do dinheiro, afinal. Só que não estamos na Alemanha ou na Suécia. Aqui cada um cuida só e exclusivamente do próprio rabo e trabalhar em equipe, hein?, quequeísso?, tô cagando pro vizinho, meu negócio é me dar bem. Em uma cultura assim TEM que ter um governo central, bem mandão, pra botar um mínimo de ordem no furdúncio, porque senão vira casa da Mãe Joana. Se as alterações na Constituição ganharem o plebiscito, tenho certeza de que daqui a um ano os sistemas educacionais e de saúde entre as diversas regiões do país vão estar completamente incompatíveis. Tem mais: não sei se vocês lembram, mas atualmente a especulação imobiliária e a coleta de fundos da CE são as principais fontes de lucro das diferentes organizações mafiosas do sul. Imaginem se a grana não precisar passar por lugar nenhum, nunca, antes de chegar às regiões meridionais da Itália! Vai facilitar imensamente a vida da Cosa Nostra, que vai sugar mais fundos europeus ainda, como sempre sem nenhum benefício real aos habitantes locais, já que o dinheiro todo some mesmo e todo mundo sabe. Não é à toa que o sul da Itália é todo de direita.
A votação aqui dura sempre dois dias, um domingo e uma segunda. O título de eleitor deles é enorme, meia página A4 dobrada em 4, com espaços enormes pra carimbar a cada eleição. Acho engraçadíssimo. A carteira de motorista também é gigante, e DE PANO. Agora estão modernizando a minha já é tipo cartão de crédito, por exemplo mas quem ainda tem a de tecido não vai pagar pra tirar outra só porque é menor, então fica desfilando com aquele troço rosa ridículo na carteira. A identidade também é imensa; tão grande que não cabe na carteira e ninguém, NINGUÉM leva identidade pra lugar nenhum. Só serve pra votar e pra viajar dentro da Comunidade Européia. Vão ser resistentes à modernidade assim na casa do chapéu, vou te dizer.
A Farewell to Arms, Hemingway
Now we will drink the other bottle and you will tell me about the war. He waited for me to sit down.
About anything else, I said.
You dont want to talk about it? Good. What have you been reading?
Nothing, I said. Im afraid I am very dull.
No. But you should read.
What is there written in war-time?
There is Le Feu by a Frenchman, Barbusse. There is Mr Britling Sees Through It.
No, he doesnt.
What?
He doesnt see through it. Those books were at the hospital.
Then you have been reading?
Yes, but nothing any good.
I thought Mr Britling a very good study of the English middle-class soul.
I dont know about the soul.
Poor boy. We none of us know about the soul. Are you Croyant?
At night.
Count Greffi smiled and turned the glass with his fingers. I had expected to become more devout as I grow older but somehow I havent, he said. It is a great pity.
Would you like to live after death? I asked and instantly felt a fool to mention death. But he did not mind the word.
It would depend on the life. This life is very pleasant. I would like to live forever, he smiled. I very nearly have.
We were sitting in the deep leather chairs, the champagne in the ice-bucket and our glasses on the table between us.
If you ever live to be as old as I am you will find many things strange.
You never seem old.
It is the body that is old. Sometimes I am afraid I will break off a finger as one breaks a stick of chalk. And the spirit is no older and not much wiser.
You are wise.
No, that is the great fallacy; the wisdom of old men. They do not grow wise. They grow careful.
Perhaps that is wisdom.
It is a very unattractive wisdom. What do you value most?
Some one I love.
With me it is the same. That is not wisdom. Do you value life?
Yes.
So do I. Because it is all I have. And to give birthday parties, he laughed. You are probably wiser than I am. You do not give birthday parties.
We both drank the wine.
What do you think of the war really? I asked.
I think it is stupid.
Who will win it?
Italy.
Why?
They are a younger nation.
Do younger nations always win wars?
They are apt to for a time.
Then what happens?
They become older nations.
You said you were not wise.
Dear boy, that is not wisdom. That is cynicism.
It sounds very wise to me.
Its not particularly. I could quote you the examples on the other side. But it is not bad. Have we finished the champagne?
Almost.
Should we drink some more? Then I must dress.
Perhaps wed better not now.
You sure you dont want more?
Yes. He stood up.
I hope you will be very fortunate and very happy and very, very healthy.
Thank you. And I hope you will live forever.
Thank you. I have. And if you ever become devout pray for me if I am dead. I am asking several of my friends to do that. I had expected to become devout myself but it has not come. I thought he smiled sadly but I could not tell. He was so old and his face was very wrinkled, so that a smile used so many lines that all gradations were lost.
I might become very devout, I said. Anyway, I will pray for you.
I had always expected to become devout. All my family died very devout. But somehow it does not come.
Its too early.
Maybe it is too late. Perhaps I have outlived my religious feeling.
My own only comes at night.
Then too you are in love. Do not forget that is a religious feeling.
You believe so?
Of course. He took a step toward the table. You were very kind to play.
It was a great pleasure.
We will walk up stairs together.
tadinhos
Essa semana 500.000 alunos do 2o grau italiano estão fazendo as provas da chamada maturità, um meio-irmão do vestibular. Meio-irmão porque não é um teste de acesso às universidades; é aplicado diretamente pelo Ministério da Educação e é igual pra todo mundo. Mas em termos de neurose é igualzinho: neguinho entra em pânico, tem quem emagrece, tem quem engorda, tem quem não dorme, tem quem prepara colas moderníssimas pra botar dentro do sapato, tem quem descubra os temas das redações e bote na internet, enfim.
Não entendo direito o sistema, porque cada tipo de 2o grau faz algumas matérias só (tipo, matemática pra quem fez o liceu científico, grego pra quem fez o liceu lingüístico, e por aí vai), que são decididas, parece, no último momento. A prova de italiano, essa sim igual pra todos, pode ser o comentário de um texto jornalístico, um tema livre, ou sei lá o quê mais. O que me choca é a quantidade de matéria inútil que esse pessoal estuda. Meus alunos estão todos subindo pelas paredes. O Filho do Dentista revisou Biologia OITO vezes, fez curso preparatório em Palermo e sei lá o quê mais, e provavelmente na prova geral dele só teve UMA questão de biologia, já que a prova específica pro liceu dele foi matemática.
O sistema de educação italiano é absolutamente ridículo, e eu detestaria ter filhos que estudassem aqui e ficassem bobos como os italianos. A quantidade de dever de casa é esmagante, tem aula obrigatoriamente todos os sábados, mas aprender coisa útil que é bom, nada. Sempre pergunto aos meus alunos menores o que eles estão aprendendo na escola, e fico chocada com a péssima determinação das prioridades. Latim ainda tem um peso imenso no currículo! Mas civilização no trânsito, educação ecológica, economia doméstica, essas coisas não, né. Por isso que a Itália é lanterninha em tudo na Europa em nível de civilização no trânsito, de reciclagem de lixo, de desperdício de alimentos. E não há nenhuma reforma decente do sistema educativo no horizonte, que eu saiba. A última grande mudança, programada pela ministra Moratti, foi imediatemente cancelada pelo novo governo, o que provavelvemente foi uma boa coisa, já que NINGUÉM queria a tal reforma, nem os alunos, nem os professores, e rolaram milhões de manifestações no país todo. O futuro é negro, se vocês querem saber, viu.
alegria de pobre…
Então todo mundo foi embora mais cedo pra ver o jogo da Itália, mas eu, que ainda tinha duas aulas pela frente, fiquei na escola. Cheguei em casa quase às nove, liguei a televisão toda pimpã pra ver o jogo do Brasil, e cadê??? NADA! Aquela múmia do Bruno Vespa falando das alterações previstas pelo plebiscito do fim de semana, e nada do jogo! Fiquei dando reload no blog da Cora e acompanhando os gols pelo comentários, até que São Guido me deu uma mão pelo MSN e baixei um programinha tabajara que pega a ESPN. Vi o final do jogo com o narrador falando Zê Roberrrrrtchou, Ronaldíniou e por aí vai. Mas valeu : )))
a primeira vez a gente nunca esquece
Meu último aluno, aquele que fabrica banheiros, cancelou a aula. Eu e Mirco decidimos telepaticamente jantar risoto de queijo cremoso com trufas no Terzieri, em Trevi. Então marcamos de nos encontrar numa ruazinha escondida onde sempre deixamos um dos carros parados, e fiquei lendo Hemingway sentada no carro dele até ele chegar. Ele tinha levado meu novo carro velho pra dar uma geral na oficina pintar a lataria de novo pra cobrir os arranhões, trocar o óleo, instalar o rádio com CD que compramos, calibrar o estepe, limpar os tapetes, essas coisas de macho e achei que só ia ficar pronto amanhã. Então qual não foi minha surpresa ao ver meu Corsa preto (com reflexos cinza-escuro) descendo pela saída da superstrada :) Jantamos rapidinho e pela primeira vez dirigi meu novo carro velho.
Em algum momento durante a vida do carro alguém quebrou aquele buraco onde entra a chave, e não conseguiu consertar direito. De modo que agora pra ligar o carro é assim: giro a chave, espero sumir um simbolinho no painel e aperto um botão prateado ridículo no lado esquerdo do volante, por baixo da seta. Aí ele liga, com aquele barulho surdo de carro a diesel. Anda muito bem, obrigada, é estável nas curvas apesar de ser pequeno, não consuma un cazzo, é fofinho e É MEU.
O painel é feio, velho e cafona, mas tem um relógio digital ótimo, com data e temperatura. Não tem ar condicionado, e esse é o defeito mais grave, mas tem vidro elétrico. E agora também tem CD, quer mais o quê?
Precisa dizer que o CD, novinho em folha, não funciona? Passou o dia inteiro tocando um CD do Tuco enquanto o Mirco passava o aspirador de pó dentro. Depois, na estrada, no caminho pra Foligno, parou de funcionar.
Que não seja o primeiro de muitos problemas.