Algumas das fotos da viagem, aqui (e tem umas vacas normandas aqui também). O relato da Epopéia Normanda, assim que eu tiver mais tempo.
Arquivo de agosto de 2005
fotas
quarta-feira, 31 de agosto de 2005aiai
terça-feira, 30 de agosto de 2005Gianni está furibundo.
Em março, no caminho pra Roma pra pegar o avião pra Buenos Aires, levamos uma multa. Quem dirigia era a Chiara, a pior motorista que eu já vi ;) Lembro que quando vimos o pardal era tarde demais, e imaginamos que viria uma multinha básica.
Só que aqui a multa chega quase três meses depois da infração, quando você nem lembra direito do que aconteceu, onde, quando, por quê. E em letras nanominimicroscópicas, no pé da página, está escrito que se alguém não se apresentar no DETRAN local dentro de um mês pra declarar quem estava dirigindo naquele momento, ou seja, se alguém não se oferecer pra perder os pontos na carteira de motorista, chega uma nova multa, de mais de trezentos euros.
Olha aí por que eu digo que é importante fazer as coisas pelo motivo justo.
O governo não aplica multas nem muda as leis de trânsito porque quer educar a galera e evitar acidentes. Quer multar o máximo de otários possível, pra arrecadar uma graninha. E aí fode quem não tem nada a ver com o pato, ou quem até tem, mas tem boa vontade e coisa e tal. E a Dri ainda acha estranho que italiano adore sonegar um impostinho… ;)
E Berlusconi ainda por cima passa o fim de semana com o Putin e a coisa mais interessante que consegue dizer é “Mesmo fazendo um sacrifício, e olha que é um sacrifício eloooorme, eu vou me candidatar de novo. Porque é necessário, já que não há ninguém que possa assumir o cargo de Presidente do Conselho, ninguém como eu.” A sorte de certas pessoas é que eu não ando armadaaaaaaaaa… lalalalaaaaaaaa…
A coisa mais interessante desse encontro ridículo é o labrador preto maravilhosamente rebolativo que caminhava entre os presidentes e suas primeiras-damas num deck sobre o Báltico. Lindo :)
demorou, hein, nega?
segunda-feira, 29 de agosto de 2005Era inevitável, não? Acho que demoraram até demais…
família buscapé
domingo, 28 de agosto de 2005Ontem, que aliás foi aniversário da minha mãe, fomos a Roma buscar Ettore & cia. no aeroporto. Vocês lembram, eles foram à Holanda visitar a irmã do Mirco, que agora mora lá com o namorado.
A coisa linda é que também foi a avó do Mirco, a Lucia, de 84 anos. Nunca tinha sequer ido a Roma. A Perugia, só duas vezes, a pé (são 25 km), quando era jovem, pra entregar peles de coelho a um comprador. Não se sabe como, conseguiram convencer a menina a subir num avião e a ir a um outro país que ela nem sabe onde está. E o mais legal: não só ela gostou da viagem, achou tudo curiosíssimo, e contou todos os detalhes, mas também disse muito blasée que achava que o vôo seria mais assustador, mas acabou que não deu nem um medinho sequer. Viemos no carro ouvindo os relatos da viagem e morrendo de rir com as impressões que eles tiveram. Interessante ver como os pontos de vista mudam dependendo do background que você tem. Eles não têm nenhuma referência da vida no exterior, e acham o fim do mundo, por exemplo, não ter tempo de voltar pra casa pra almoçar e ter que se virar com um lanchinho. Acham engraçado que as casas em Amsterdam não tenham cortinas e ninguém fique olhando lá pra dentro pra curiosar – se fosse aqui na Itália, ia ter gente colado nas janelas o dia inteiro só pra assistir à vida dos outros. Acharam genial a arrumação das flores no mercado, as combinações de cores, etc. Acharam os holandeses muito gentis e simpáticos, opinião com a qual eu não posso discordar porque todos os que eu conheci eram muito legais. Enfim, disseram que valeu a pena e fiquei muito contente por eles por finalmente terem saído da toca e visto não só onde a filha tá morando, mas um outro mundo totalmente diferente do quintal da casa deles.
o amor é lindo
sábado, 27 de agosto de 2005Hoje a gatinha, que se chama Giulietta, trouxe um camundongo morto pra casa. Devidamente devorado, da cabeça aos pés. E depois, pra complementar o café da manhã, foi comer a ração do Leguinho. Na mesma tigela, com ele.
érre agá
sexta-feira, 26 de agosto de 2005O menino que tinha vindo aqui por umas semanas pra ver se dava conta do recado de ser secretário da oficina acabou se mandando. Foi contratado full-time pela empresa onde já tinha trabalhado ilegalmente antes, e resolveu ficar por lá mesmo, vendendo televisão e DVD. E com isso novamente mandamos pedido de secretários pro centro do emprego de Bastia. Por incrível que pareça, a senhora que comanda o batatal por lá trabalha muito bem. É sempre disponível, segue de perto os donos dos CVs que recebe, liga pras empresas que botaram anúncio pra saber como andam as coisas.
O problema é que só chegam salames.
Segunda-feira chegou um de Santa Maria, mas vestido como um bastiolo, todo gostosão, cinto Dolce & Gabbana, sapatos Prada, jeans Moschino (tudo com etiquetas e logomarcas enormes, claro), quilos de gel no cabelo, sobrancelhas feitas e um jeito de caminhar que ele deve ter levado algumas boas semanas pra desenvolver em frente ao espelho. Vinte anos e nada na cabeça. Parecia muito imaturo mas não necessariamente retardado, e combinamos que ele viria no dia seguinte às oito pra fazer uns dias de prova. Na tua oficina, ele veio? Nem na nossa.
Depois veio uma balzaca daquelas que ainda pensa que tem 20 anos. Cabelo repicado anos 80, batom rosa Paquita, blusa vermelha de elastex daquelas 150% sintéticas. Te olha com os olhinhos meio fechados, a cabeça de ladinho, estilo já saquei qual é a tua. Odiamos.
Depois veio um meio afeminado, de brinquinho e mechas no cabelo. Por mim e pelo Mirco, nenhum problema, ainda que sejamos meio antiquados com certas coisas, mas lugar de perua definitivamente não é em oficina. Imaginem o quanto o coitado não iria sofrer nas mãos dos operários, atualmente todos estrangeiros (incluindo dois muçulmanos). Mas mesmo assim seria um problema dele; o lance é que ele chegou com o zíper aberto, coitado, e mesmo tendo estudado escola técnica de contabilidade (são 5 anos), não sabia coisas muito básicas, e a manhã que passou comigo no escritório foi desastrosa. Salame, salame, salame. Salame com mechas.
Hoje de manhã veio uma sem queixo. A cara dela é muito engraçada, efeito intensificado pelo batom que ultrapassa os confins dos lábios. Louraça belzebu, barriga de fora, blusa ciganinha, uma bolsa Gucci pavorosa, voz de taquara rachada. Péssimo sinal, mas essa tem várias vantagens em relação aos outros salames: apesar de ter 32 anos, o que a desqualifica como aprendiz (o aprendiz ganha menos e há descontos fiscais pro empregador), está desempregada há três anos, o que imediatamente nos daria outros tipos de ajudas em termos de impostos e contribuições INPS. Além disso está fazendo um curso de administração de empresas daqueles financiados pela Regione Umbria, o que dá direito a 400 horas de estágio, pagas pela Regione e não pelo empregador. Ou seja, teríamos 400 horas de secretária grátis, suficientes pra fase de treinamento. E muito provavelmente o ente público que organiza o curso dá algum tipo de ajuda financeira, sempre tendo a Regione por trás, pra quem emprega os alunos lógico, já que o objetivo final e concreto de todos esses cursos é enfiar essa gente no mercado de trabalho. Nosso contador está investigando melhor essas coisas pra ver o que rola. Ela teve uma malharia por sete anos, ou seja, sabe tocar pra frente uma empresa, e cuidava pessoalmente da contabilidade. Como experiência, é perfeita. Mas se tudo der certo, ainda vamos ter que convencer o Ettore, que não quer outra mulher aqui dentro. Não posso não concordar com ele; nem eu nem o Mirco escolheríamos uma mulher, se fosse possível. Uma oficina de lanternagem de caminhões e de pintura de máquinas industriais não é, definitivamente, lugar pra mulher. Primeiro porque, por mais que o Ettore e o Mirco sejam organizados e limpos, é impossível manter o ambiente impecável como o box da Ferrari. Os caminhões carregam tudo que é tipo de mercadoria, e sempre cai alguma coisa no chão o que eu já varri de ração de coelho aqui do chão não tá no gibi. A poeira é onipresente, já que há sempre alguem lixando alguma coisa. A barulheira é tremenda, porque tem sempre alguém martelando, batendo, furando, limando, esmerilhando alguma coisa, cortando lâminas de metal, usando a prensa, soldando coisas. Pra se fazer ouvir nesse furdúncio, os meninos têm que berrar. Imaginem o bordel. Além de tudo isso, os caminhoneiros são absolutamente selvagens; ninguém dá bom dia ao telefone, entram no escritório com o cigarro aceso, entram com o caminhão a toda na oficina se calhar de encontrar o portão aberto, gritam, cumprimentam-se com tapões nas costas, trocam palavrões e imprecações. Os marroquinos fedem horrores e falam uma língua que não é nada, entendemos algumas palavras de italiano aqui e ali mas o resto é uma bagunça incompreensível. O menino do Congo, único educado e limpinho, ainda tem um italiano muito precário. Os dois equatorianos são praticamente mudos e ainda por cima falam com a boca quase fechada. Tudo é tão complicado que tem que ser muito macho pra aturar. Mas se todos os machos que chegam aqui são salames, então vai ter que ser uma Maria mesmo, e o Ettore que agüente a barra.
É uma experiência engraçada, essa de RH. É inevitável reparar em coisas que normalmente passam despercebidas (ou são ignoradas) em contatos mais rápidos e menos importantes: detalhes da roupa, do modo em que penteiam o cabelo, a intensidade e o tipo de perfume, se fuma ou não, se tem voz e jeito firmes de falar ou se está mais pro estilo gato miando, se os gestos são econômicos ou inúteis, os sinais que o rosto dá quando o interlocutor está realmente ententendo e processando o que você está falando. Estou me divertindo. Perco um tempo danado repetindo as mesmas coisas, mas me divirto.
as cores de plástico não morrem
quinta-feira, 25 de agosto de 2005A gente vai vivendo e aprendendo, né.
Hoje eu e Mirco ficamos até quase duas da tarde tentando ajustar a cor de uma tinta pra porta de um caminhão. A cabine é branca, e aí vocês vão se perguntar, mas quanto pode ser difícil arrumar um branco? Quem trabalha com cores até vai dizer que existem muitos tipos de branco. Mas vocês sabiam que existem catalogados quase TRINTA MIL TIPOS DE BRANCO, só no ramo das tintas industriais?
O Mirco usa um tintômetro, cortesia do fornecedor de tintas, pra poder ele mesmo fazer as tintas de que precisa. O cliente dá o ano, a marca e o número do chassis do caminhão ou do carro, você insere esses dados no tintômetro, diz quanta tinta quer fazer, e ele te diz as quantidades, mantidas as justas proporções: 303,2 gramas de branco, 0,25 gramas de verde, e por aí vai. Esse branco do tal caminhão levava na fórmula original só preto e verde. Só que o caminhão é velho, já foi muito exposto ao sol e à chuva, já foi repintado outras vezes, de modo que o branco já não é mais aquele. E aí começou o sofrimento. A gente dava uma dedada de branco na porta, olhava, hm, tá cinza demais, vamos botar mais branco. Outra dedada: falta verde (eu não sou capaz de dizer se falta verde num branco, isso é coisa pro Mirco que trabalha com isso há anos). Outra dedada: falta vermelho.
As latas de tinta têm uma tampa com um misturador, sabe sorveteira elétrica, que fica com as pás girando dentro enquanto congela, pra não endurecer? Aqui é a mesma coisa; as latas de tinta, com suas tampas com misturador acoplado, ficam em uma estante com um motorzinho que faz girar umas borboletas, uma pra cada lata, que por sua vez movimentam os misturadores internos. Todas as latas têm a mesma capacidade volumétrica, mas há tintas mais ou menos densas, de modo que um litro de vermelho é muito mais pesado do que um litro de branco, por exemplo. Eu não sei direito o que é leve e o que é pesado, e quando o Mirco finalmente se rendeu e resolveu tascar umas gotas de amarelo no tal branco, mesmo não estando presente na fórmula original, lá fui eu pegar a lata. Me preparei mentalmente pra levantar no máximo 3 quilos (as latas são de 3 litros), mas esqueci do detalhe da densidade e quase quebrei o punho com o maldito amarelo, pesadíssimo.
É lindo ver as cores se misturando na lata. A tal tampa com o misturador acoplado tem um mecanismo que regula o quanto de tinta sai pelo bico existem alguns dosadores de mel iguaizinhos no mercado; você aumenta ou diminui a boca do bico (cruzes) e assim aumenta ou diminui o fluxo de saída do que está dentro do pote/vidro/lata. Uma gotinha do amarelo cai no branco, fica ali um segundo e tchuuuuuum, afunda, some. A gente começa a misturar e lá vai ela, não mais gota mas agora uma linha, logo logo uma espiral, e depois sumiu, e eu continuo achando que não mudou nada da cor mas quando damos mais uma dedada na porta vemos que está, sim, mais puxado pro marfim.
Nessa brincadeira, muitas dedadas depois e a cabeça já girando de tanto procurar verde em branco, fomos almoçar quase às três da tarde.
uia
quarta-feira, 24 de agosto de 2005O jantar na festa de Rivotorto, melhor sagra da Umbria, teria sido muito melhor se, entre os cannelloni de carne de caça e a torta al testo com lingüiça na brasa a enxaqueca não tivesse atacado.
As crises estão ficando mais freqüentes e o remédio não está mais adiantando tanto. Em Paris acordei uma vez de madrugada com dor. E o último sintoma que faltava, a artéria pulsante na testa, agora não falta mais. O autodiagnóstico é claro: enxaqueca em salvas. A pior, claro. Aquela que dá vontade de dar um tiro na cabeça, porque qualquer coisa, QUALQUER COISA, é melhor do que aquela dor.
p.s.: Não preciso nem dizer que o post não foi escrito no dia da enxaqueca, porque teria sido impossível. É retroativo mesmo.
cats and dogs
terça-feira, 23 de agosto de 2005Eu não canso de observar bichos. Nesses dias dormindo na Arianna, tentamos ficar o máximo de tempo possível com os meninos, já que ficam o dia inteiro sozinhos em casa, coitados. Então saímos da oficina, passamos em casa pra jantar e tomar banho, e corremos pra Arianna. Levamos todos pra passear ali em torno mesmo, até a estação and back. Leo e Demo são desobedientes e por isso vão de coleira. Só que não foram acostumados e ficam o tempo todo tropeçando, se enrolando e empacando. Leguinho, o único obediente, vai solto, porque depois das nove não há ninguém ali na rua, só na praça, tomando sorvete. Virgola vai no carrinho de bebê que o Ettore achou inteirinho fora de uma caçamba de lixo há muitos anos, e desde então virou o Virgolamóvel. Imagino que quem nos vê deve achar que somos malucos: uma cachorra loura num carrinho de bebê, um preto imenso solto, com a língua de fora e a bunda rebolativa, e dois cachorros retardados, com coleiras improvisadas, com cara de quem comeu e não gostou.
De manhã acordo sempre muito cedo, com os malditos galos se esgoelando lá fora, e aproveito pra dar uma volta com os meninos. Solto todos, porque às seis da manhã não incomodam ninguém. Todos os dias o Leguinho vai fazer o cocô dele láaaaaaa longe no campo, comemora, volta, rouba um toco do depósito de lenha do quintal, deita no gramado na minha frente e começa a roer o toco e comer a casca (cada louco com sua mania, after all). Os mongos do Leo e do Demo desaparecem e só voltam pra casa quando já estamos saindo, as línguas de fora, as patas cheias de lama. Perdemos uns cinco minutos pra arrebanhar os dois pra dentro e fechar o portão.
E ainda tem as gatas.
Eu sou uma dog person inconversível, vocês sabem. Tenho pouca paciência com bichos arrogantes como gatos, mas alguns me conquistam. A Priscilla, dengosa como era, passava os domingos inteiros no meu colo. Mas a Priscilla, única gata suja do mundo, que fazia cocô pelo quintal inteiro, menos onde havia terra pra enterrar, foi convenientemente despachada com três filhotas pra casa de uma prima da Arianna, que estava precisando se livrar de uns ratos asquerosos. A filhota preta ficou com a tia do Mirco, que é quem está cuidando das galinhas, dos patos, dos gansos, dos pombos e dos coelhos enquanto o povo está na Holanda. E em casa ficou uma das filhotas tigradas, que por sorte é dengosa que nem a Priscilla. Literalmente escala o seu corpo até chegar no seu colo, arranha a sua perna pedindo carinho, deita de barriga pra cima, suspira, ronrona, morde o rabo do Legolas. Um amor! :)
:)
segunda-feira, 22 de agosto de 2005August was the month when flies started to become a problem, buzzing round the dung heaps in the corner of every farmyard and hovering over the open cesspits of human refuse that were located outside every house. If the late twentieth century is scented with gasolene vapour and exhaust fumes, the year 1000 was perfumed with shit. Cow dung, horse manure, pig and sheep droppings, chicken shit – each variety of excrement had its own characteristic bouquet, from the sweet smell of the vegetable eater to the acrid edge of gut-processed meat, requiring the human nose of the year 1000 to function as a considerably less prissy organ than ours today.
There are modern archaeological experts who study excreta intensively, rummaging through the latrine pits of ancient settlements to discover such fundamental details as the fact that the toilet paper of the year 1000 was moss.
(…)
The modern remedy for fleas and grubbiness – a good scrub of the body crevices – did not accord with the medieval mentality. The regulations of one tenth-century European monastery prescribed five baths for every month per year, but that was fanaticism by Anglo-Saxon standards of personal hygiene. One later commentator derided the Danish practice of bathing and combing the hair every Saturday, but did admit that this seemed to improve Danish chances with the womenfolk.
The Year 1000 – What Life Was Like at the Turn of the First Millennium (An Englishman’s World), de Robert Lacey & Danny Danziger