jê suizarrivê

Cheguei.

A semana vai ser complicada porque Ettore, Arianna e a avó do Mirco foram pra Holanda visitar a Stefania, de modo que eu e Mirco vamos ter que ficar meio aqui e meio na casa deles, pra tomar conta da bicharada. Aos poucos vou escrevendo e subindo fotos, mas vai demorar. Aguardem e confiem.

de gentileza e picaretagem na bota

Corroborando o assunto que a Lu comentou, conto um causo parecido: hoje dois funcionários do Comune de Torgiano deram um pulo na oficina pra deixar uma garrafa de vinho pro Ettore. É que volta e meia eles precisam de uma empilhadeira, e emprestamos uma das nossas. Agradecidos, trouxeram uma garrafa de Colli Perugini rosso. Gentileza gera gentileza, mesmo.

Por outro lado… A Dri me mandou um e-mail dizendo quanto é difícil trabalhar com italianos, benza deus, porque eles erram tudo, se enganam, esquecem coisas, atrasam, se enrolam, não falam inglês, fazem de tudo pra não pagar impostos. Dri, aqui é assim mesmo, a picaretagem rola solta de norte ao sul da bota – mais no sul do que no norte, mas ainda assim… Eu particularmente acho que os motivos principais são três: primeiro, os impostos são altíssimos e o retorno não é absolutamente proporcional, já que a qualidade dos serviços –TODOS – é sofrível. Segundo, lembre-se de que até meia hora atrás a Itália ainda capinava batatas na dureza do pós-guerra, ninguém tinha dinheiro e o escambo comia solto, ou seja, imposto é uma coisa relativamente recente por aqui. Terceiro, é que eles são indisciplinados mesmo, revoltados contra toda e qualquer autoridade, e sendo assim driblar o Fisco tem um gostinho particular de vitória e rebelião contra o sistema. Ainda mais quando quem comanda o sistema é o tricoimplantado Berlusca, que só não rouba e mente mais por falta de espaço. Então é assim mesmo, tudo é complicado, pro cliente pagar você só falta ter que chorar aos pés dele, os bancos fazem o que querem e aumentam as tarifas na surdina o tempo todo, manter uma empresa totalmente regular é um objetivo absolutamente inatingível tal a quantidade de burocracia (e de desinformação dos burocratas envolvidos) com a qual temos que lidar. Manter um funcionário com carteira assinada custa uma fortuna, e tomamos na bunda o tempo todo. Essa semana temos QUATRO operários doentes. Quatro. O galpão cheio de caminhões desesperados pra ir embora, porque só têm até sexta-feira pra rodar (o trânsito fica proibido pra caminhões nos fins de semana, a não ser os que carregam perecíveis), e quatro pimpolhos em casa. O pior é que sabemos que não estão doentes. Funciona assim: eu só preciso ir ao meu médico de família e pedir um atestado pra vinte dias que ele me dá – basta eu pagar uns 30 euros, dependendo da região. Eu cansei de pegar atestado pro Mirco quando ele tinha acabado de fazer a operação no joelho e não podia dirigir. Ficava lá no escritório botando as contas em ordem, doido pra levantar e ir pintar alguma coisa mas sem poder caminhar direito, e enquanto isso eu ia ao médico dele pra pegar mais um atestado de doença. O cara nem via a cara do Mirco; perguntava pra mim como ele estava, eu era sincera (ele já nos conhece, é o médico de toda a família do Mirco há uns quinze anos), ele tchum, canetava um atestado de 15 dias de repouso. Mas e se eu estivesse mentindo? Afinal, dor no joelho depois de um intervento cirúrgico é uma coisa subjetiva. Posso ficar reclamando de uma dor inventada até o fim dos dias; quem é que vai provar o contrário? Então, nessa palhaçada toda, o empregador toma na bunda, toma na bunda, toma na bunda. Quando aparece a oportunidade de fazer algum serviço sem fatura, ninguém pensa duas vezes. Ninguém. Conhecemos diretores de empresas grandes, mas grandes MESMO, com fábricas em várias regiões da Itália, que sempre tentam trabalhar sem fatura. A mentalidade geral é, com o governo que temos aqui, quanto mais a gente passar a perna nele, melhor. Não é exatamente o modo em que eu vejo as coisas, mas enfim, em Roma como os romanos. Mesmo.

Hoje aconteceu um exemplo maravilhoso de picaretagem. Chegou pelo correio uma fatura de uma empresa de Ascoli Piceno (leia-se litoral do Zaire), cujos cornos nunca vimos, no valor de dois mil e tantos euros. Chegou com o nome da empresa parcialmente correto, mas o CGC antigo, quando era no nome do Ettore. Os produtos descritos são indecifráveis – Kimberly Diamond seguido de um longo código em números e cifras, por exemplo. Não temos a menor idéia do que se trate. Eles se deram mal porque a oficina é pequena, os fornecedores são todos os mesmos há anos, e todo mundo ali dentro, até os bananas dos marroquinos, seriam capazes de dizer que não temos nenhum tipo de contato com a tal empresa. E também porque o Mirco é osso duro de roer. Ligou logo pro número de telefone indicado na fatura e tascou logo um “mas quem são vocês, o que diabos vocês vendem, e quem foi o desgraçado que se propôs a passar meus dados a vocês?”. A mulher ficou toda nervosinha (eu ouvi pelo viva-voz) e jurou que tudo seria resolvido, depois de inventar uma história pra boi dormir. Coitada, não conhece o lanterneiro. Já escrevemos uma carta registrada, a arma mais poderosa do Mirco, avisando que se eles não mandarem uma comunicação igualmente registrada declarando que a fatura era tão real quanto uma nota de um euro, vamos entrar com ação na justiça e acionar a imprensa também. Uhuuuuuuuuu olha o barraco!!!

Mas cês entenderam o mecanismo? Imagina que essa fatura chega em uma empresa grande, com zilhões de funcionários, que lida com centenas de fornecedores diferentes de categorias diferentes de produtos. A secretária da contabilidade vai estranhar o preço do Kimberly Diamond? Vai estranhar o nome da empresa de Ascoli Piceno? Provavelmente não. Vai mandar um cheque pelo correio, saldando a tal fatura. E assim o picaretão vai fazendo seu pé-de-meia. Legal, né.

chata de galocha, capa e guarda-chuva

Olha que nem é falta de assunto não. Ando com mil coisas na cabeça; enquanto dirijo, limpo a casa, passo roupa, durmo, escuto a fita do livro de inglês enquanto os alunos tentam decifrar o que os personagens dizem, enquanto faço tudo isso escrevo inteiros posts, artigos, crônicas, contos, capítulos na minha cabeça. Mas não ando com vontade de escrever. Preguiça, talvez. Cansaço, provavelmente. Falta de vontade mesmo, daquelas que batem e, felizmente, depois vão embora.

Estou relendo Harry Potter and the Order of the Phoenix mas não estou curtindo; na verdade leio querendo acabar logo pra entrar logo de uma vez no Half-Blood Prince e depois nos outros que estão me esperando e nos que a Amazon ainda não entregou. Sei lá, estou esquisita. Quando estou assim, melhor nem escrever pra não me irritar – e nem irritar vocês também.

Mas ontem fiz um cheesecake pro churrasco à americana na casa da Robertinha hoje. Acho que ficou bom. Roubei lá do site da Nigella (London Cheesecake é o nome da receita). Preguiça de linkar.

E, embora não pareça, estou muito animada com a viagem. Pena que não deu tempo de estudar francês tanto quanto eu queria. Fa niente.

diliça :)))

Que preguiça que esse tempo dá! Cadê a vontade de sair de casa, com a chuva caindo lá fora, alternando-se com o vento leve e fresco?

Terminei meus Roald Dahl pra crianças, terminei o chato do Valerio Evangelisti, terminei mais um do Camilleri (acho que não sobrou nada do Commissario Montalbano pra eu ler) e engatei um Machado porque, acreditem se quiserem, nunca tinha lido Dom Casmurro. De Machadão, na escola, lemos outras coisas. Aqui ainda tenho O Cortiço, do Azevedo, que é um dos meus livros preferidos EVER, e, sempre do Machadão, Negrinha, que minha mãe me deu há anos com uma dedicatória bonita mas alguns contos eram muito tristes e nunca mais reli.

Na verdade estou cheia de coisas pra ler, e pretendo dar uma parada nas compras literárias, pelo menos em euros (pelo Submarino ainda dá), porque tá feia a $ituation. Mas tenho algumas coisas pra comprar em francês, além das ótimas dicas da Mary. Depois da viagem prometo que vou passar alg… vou tentar passar alguns meses sem visitar a Libreria Grande. Pra saúde da minha conta corrente botense.

ah, essa bota…

As notícias da semana são predominantemente três: o fim, pelo menos temporário, do calor avassalador da semana passada; o rebaixamento do Genoa pra série C por causa do escândalo de jogos comprados; uma família de VINTE – VINTE, DEZ MAIS DEZ, DEZ VEIZ DOIS – pessoas que recebiam pensão por invalidez, sendo que nenhuma delas tinha absolutamente nenhum problema de saúde. Cês têm noção da hilaridade dessa notícia? Vinte falsos doentes, da mesma família, recebendo pensão sem ter direito? Onde, onde, onde, vocês me perguntam? E eu respondo: em Nápolis, onde mais?

O único nortista mais picareta que toda o sul da Itália junto é, claro, o Cavaliere Berlusconi.

cose della moda

Toda hora minha mãe pede pra eu fotografar vitrines ou mandar revistas pra ela ficar sabendo, com antecipação, qual vai ser a moda pra próxima estação. Na verdade nem precisa, porque ela tem um olho clínico pra essas coisas que é realmente invejável.

Ano passado o grande lance foi o rosa. E também as jaquetinhas cinturadas, de preferência brancas, e as microssaias pregueadas. Esse ano custou a aparecer algo de mais sólido nas vitrines, e só agora a coisa pareceu se definir. A cor do ano, parece, é o verde-limão. E o estilo do ano, parece, é o hippie (ou íppi, como se diz aqui), que eu a-bo-mi-no. Vejo túnicas com calças (não gosto, mas é bom pra gordas), batas tipo ciganinha, com elástico abaixo do peito (socorro), saionas disformes, combinações cromáticas escalafobéticas. Mal posso esperar pra festa de Bastia em setembro, quando as bastiolas fashion victims exibem suas figuras na mesquita, os cabelos preto graúna, os óculos de sol que cobrem metade da testa, os saltos que vira e mexe entalam entre os paralelepípidos do centro histórico. Diversão garantida.

Enquanto isso, levo dois minutos pra passar a bata indiana (a nacionalidade, não só o estilo) linda que minha mãe mandou, de algodão finiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinho, bordado branco sobre tecido branco. Chique e fresca. E sem o maldito elástico embaixo do peito, nem o decote canoa elasticizado, que toda hora escorrega pelos ombros. Viva mâmi.