Arquivo de julho de 2005

*sigh*

domingo, 31 de julho de 2005

Ontem foi um dia miraculoso. Paulo Cintura cancelou a aula da uma às três, o Salame não pôde alongar a aula de meio-dia à uma, almoçamos em Torgiano e a comida estava ótima, a tradução dos materiais de construção está na metade e revelou ser menos difícil do que eu imaginava (embora não o suficiente pra deixar que eu tirasse uma soneca depois do almoço), jantamos na festa do ganso na bela e fresca Bettona, e fechamos a noite nos perdendo em Spoleto, pro papai ver a Ponte das Duas Torres, construída sobre a antiga estrutra de um aqueduto romano.

Hoje vamos almoçar na Arianna, pra fazer companhia pra avó do Mirco. Ettore e Arianna vão a um encontro de carros de época em Collemancio, perto de Cannara, e vão almoçar por lá mesmo.

E depois tenho que voltar pros malditos tijolos, telhas, portas, traves, calhas. Se arrependimento matasse.

livrinhos

sábado, 30 de julho de 2005

Esse calor me cansa. Parece que vai melhorar nos próximos dias, mas por enquanto ainda é um parto sentar aqui e traduzir do italiano pro inglês um relatório cheio de estranhos materiais de construção, quando poderia estar deitada na cama, o ventilador na cara, lendo Nicolas Eymerich, Inquisitore, de Valerio Evangelisti, que é interessante pelo assunto mas estilisticamente pouco atraente. O diabo é que é o primeiro de uma série. Malditos autores de séries.

Meu pai trouxe com ele uma bolsona de coisas que minha mãe mandou por ele quando esteve no Rio, mês passado. Então ganhei sapatos, camisas escandalosamente bonitas, banana passa, gelatina Royal, bijuterias lindas, e os livros que comprei pelo Submarino: Equador (Miguel Sousa Tavares), dica da paratyfílica Newlands, A Língua Exilada (Imre Kertész), se não me engano dica da Cora, e alguns clássicos russos e da literatura brasileira.

O problema é que também comprei coisas em francês mês passado, mas preciso de tempo, paciência e dicionário pra dissecar esses livros, já que ainda titubeio um pouco quando leio o Le Figaro. Mas o tempo, cadê, cadê?

caldo infernale

sexta-feira, 29 de julho de 2005

Ontem foi, tenho certeza, o dia mais quente do ano por aqui até agora. Voltando da oficina de lambreta ao meio-dia e meia, enfiada na jaqueta leve de algodão que sempre uso quando saio de motorino pra não bronzear os braços, achei que fosse desmaiar de tanta abafação. A massa quente que eu singrava era tão infernal quanto o bafo que nos saúda quando abrimos o forno pra ver se o bolo está pronto. Juro que nunca senti tanto calor na minha vida. Nem no 157 no engarrafamento na São Clemente, na hora do almoço em pleno verão carioca. Juro.

less is more

quinta-feira, 28 de julho de 2005

Miraculosamente consegui terminar a série The No. 1 Ladies’ Detective Agency, de Alexander McCall Smith. Os livros são deliciosos, simples como a vida no Botswana – simples são a linguagem, os personagens, as reflexões, os casos resolvidos por Mma Ramotswe. Facilmente devoráveis. Recomendo.

é chato ser foda

quarta-feira, 27 de julho de 2005

Uma das coisas boas da Itália é que, apesar do preconceito com os imigrantes, a meu ver plenamente justificável e que muito freqüentemente compartilho completamente, é que a curiosidade dos botenses às vezes é grande o suficiente pra vencer o preconceito.

Explico. Meu currículo de tradutora já correu o país inteiro, mas entendo que não deve ser muito comum ler coisas tipo “formada em Medicina”, “Cambridge Proficiency”, “professora de inglês”, “ex-vendedora de salame de javali”, “curso de roteiro cinematográfico na PUC-RJ”, “nascida no Rio de Janeiro, Brasil”, tudo isso no mesmo currículo. Então é normal que neguinho só me ligue quando a coisa aperta e surgem trabalhos bizarros que ninguém tem capacidade, ou vontade, de traduzir, e só alguém com um currículo tão estranho e inverossímel quanto o meu tem saco pra encarar. Mas às vezes acontece, e com isso já fiz trabalhos pra agências de tradução de Biella, láaaaaa nos confins do Império Austro-Húngaro, pra empresas na Toscana, e semana passada me ligaram de Foligno pedindo a tradução de uns textos técnicos sobre extintores de incêndio. Não posso ir a Biella nem quero me desabalar pra Toscana pra conhecer as outras agências, mas Foligno é aqui do lado, então liguei avisando que eu ia aparecer pra ver pessoalmente em que pé estavam as coisas. E fui, de carona com meu pai.

E o que aconteceu foi o seguinte: enquanto eu conversava com a dona da agência, uma morena muito escura por causa de melanócitos excessivamente ativos (assim ela me disse), entrou na sala um senhor barbudo e branquelo, de camisa pólo azul-celeste. Ela pediu que ele, inglês da gema mas com experiências de vida na França, na Espanha e em outros lugares, conversasse um pouco comigo em inglês. E aí repetiu-se a cena que sempre acontecia na loja do Fabrizio, o Louco: uma espécie de jogo de adivinhação, pra ver se ele descobria, pelo meu sotaque, de onde eu era. Cismou que eu era americana, e eu neguei. Começou a enunciar todos os países de língua inglesa, e eu, rindo, balançando a cabeça. Sobrou Malta, ele disse, mas o inglês maltês é esquisito. Tem certeza que você não é californiana?

Tudo isso resultou em uma nova oferta de trabalho. Porque o andar de cima é da agência de tradução, e no andar de baixo funciona, sempre pertencendo à mulher dos melanócitos assanhados, uma filial de uma famosa escola de inglês aqui do interior da Serra Leoa. Segundo o senhor inglês, que é um amor, é claro que posso dar aula (eu já tinha falado com essa escola pelo telefone, pra pedir o número de fax pra mandar o currículo, e foram muito enfáticos ao me dizer que só contratam native speakers), desde que, claro, não diga que sou brasileira. Então ficou combinado que quando (e se; não discutimos salário nem nada ainda) eu começar a dar aulas, vou virar nativa da Flórida. Então tá.

O chato de Foligno é que eu não posso ir de lambreta. E que se eu realmente conseguir voltar a estudar, vai ficar fora de mão pacas, porque é na direção oposta à de Perugia. Mas a gente dá um jeito.

E eu que só queria que me dessem livrinhos legais pra traduzir. SOMEONE GIVE ME SOME GOOD FUCKING LITERATURE!

:)))))))))))))

terça-feira, 26 de julho de 2005

Vocês estão acompanhando o mundial de esportes aquáticos no Canadá? Eu fico hipnotizada com as imagens. Ando dormindo pouquíssimo porque fico até tarde vendo aquela gente se remexendo na água fresca, enquanto eu morro de calor na cama.

Merecidíssimo o ouro francês no nado sincronizado individual. A francesinha, bonita e elegante, com cara de safada, fez uma coreografia muito legal, ao som de uma música animada. Aliás, já perguntei isso aqui, mas acho que é mais uma daquelas perguntas que permanecerão sem resposta por todo o sempre: por que diabos toda música de patinação, nado sincronizado e outros esportes viados é sempre um porre? Caramba!!! A francesinha não, a música era, hm, estranha, mas fácil de teatralizar, e a atleta é expressiva, recita parágrafos inteiros com um olhar, e ainda por cima nada sem aquele maldito pregador no nariz, ou seja, nada de rosto deformado. Bár-ba-ra. Mereceu de verdade, eu achei.

Maravilhosas as imagens debaixo d’água dos nadadores no início da raia, na partida ou logo depois da virada, quando dão pernadas de golfinho com os braços alongados acima da cabeça. Lindos, sereios, todos, homens e mulheres. As mulheres são interessantes de ver: as japonesas, bronzeadíssimas; as australianas, sorridentes; as americanas, iguais; as chinesas, minúsculas; as alemãs, rígidas; as polonesas, sérias; as canadenses, decepcionantes; as suíças, poucas. Os homens são todos deuses, com aqueles músculos que parecem ter sido desenhados daquele jeito todo natural, que dão vontade de tocar pra ver se são de verdade, de contornos tão suaves e ao mesmo tempo tão claramente definíveis. Os atletas talianos, claro, são os únicos machos da competição com sobrancelhas feitíssimas. Um deles papou uma medalha de ouro, numa prova em que o insosso di Phelps parece que baianizou e chegou entre os últimos. Os ombros são largos, trapézios e dorsais salientes pululam pra fora dos maiôs e macacões estilo tubarão. Onde foram parar as sunguinhas?

Divertidíssimas as imagens debaixo d’água dos jogadores de polo aquático. Na superfície, aquela chatice, bolinha pra cá, bolinha pra cá, aquela touquinha feia. Do peito pra baixo, o pau comendo soltíssimo, um puxa a sunga do outro, cotoveladas a torto e a direito, chutes bem mirados, abraços de tamanduá.

E vou dormir sonhando com os meses em que nadei das cinco e quarenta da manhã às seis e meia, eu e todos os velhinhos da Tijuca.

Éri Potter-â, como se diz aqui

segunda-feira, 25 de julho de 2005

Meu Harry Potter finalmente chegou, maldita Amazon e malditos correios italianos. Mas preciso de calma pra ler, e com todo esse calor e com meu pai meio que por aqui e com o fim do mês chegando e trazendo consigo as faturas de julho pra resolver, joguei pra escanteio. Li as primeiras páginas e notei que não lembro mais de coisa nenhuma. Talvez seja melhor recomeçar do início da série, só pra dar uma refrescada na memória. Sacrifício… ;)

russian sunflowers, anyone?

domingo, 24 de julho de 2005

Meu pai chegou no civilizadíssimo horário de três e meia da manhã. Descambei-me pra Santa Maria pra entregar-lhe a chave do quarto, já que o hotel é pequeno e não tem recepção aberta à noite. Fui dormir às cinco e meia.

O resultado foi uma enxaqueca daquelas de querer dar um tiro na cabeça. Em vez do tiro, tomei meu remedinho mágico, esperei uma horinha e a maldita dor foi-se, enquanto assistíamos ao Valentino Rossi ganhar mais uma e botar o coitado do Alexandre Barros no chinelo.

Ainda conseguimos ir jantar na ridícula festa do vinho, em Collemancio. Mas quando cheguei em casa a cabeça ainda latejava. Maldita, maldita dor.

babbo

sábado, 23 de julho de 2005

Ontem acordei cansadíssima. Tinha sonhado que estava com algum problema nos meniscos. O sonho era tão real que acordei com os joelhos doendo, e a dor só passou quando entendi que não estava mais dormindo. Que horror.

**

Meu pai deve chegar hoje. Veio de carro de Portugal. Ontem fomos visitar o Leguinho e fiquei imaginando qual vai ser a reação dele quando vir meu pai, que ele não vê há sei lá quanto tempo, uns três anos? Ele sempre adorou papai. Nossa teoria era que ele estava acostumado a viver rodeado de mulheres – eu morei um tempo com a minha avó, e além de nós duas só vinha a Lúcia, a faxineira, lá em casa. Meu pai tem uma voz grossa e rimbombante, e sempre achamos que aquilo devia ter um grande efeito sobre o coitado do cachorro. Estou curiosa, vamos ver a que horas papai vai chegar.

ai, meus tomates

sexta-feira, 22 de julho de 2005

Com as temperaturas tórridas das últimas semanas, todo pé de tomate da Itália está carregado de frutos. Aqui no interior do Zaire mesmo quem não mora em casa e não tem quintal conhece alguém que mora e tem, e que dá tomates de presente pra quem não mora e não tem. Como conseqüência, todo mundo está entupido de tomates e não tem nem mais a quem dar de presente. Até eu, que não tenho nada a ver com a missa, estou com a geladeira botando tomate pelo ladrão. Um velhinho pra quem Mirco fez um pequeno conserto nos pagou com duas sacolas cheias de tomates. Alguns despachamos pra Gianni e Chiara, que grunhiram “ai, não, mais tomates” porque a mãe do Gianni mora em casa e nessa época do ano planta, bem, tomates. Outros, os mais maduros, usei pra fazer molho e congelar. Mas mesmo assim ainda temos uma sacolona cheia, mais alguns verdes pra salada que pegamos ontem à noite na Arianna.

Abobrinhas também estão com tudo nessa época do ano. A diferença é que eu adoro abobrinha, enquanto que o tomate cru não me apetece, e mesmo o molho não me anima muito. Quase sempre faço macarrão com molho de tomate pro almoço do Mirco, enquanto eu mesma como o mesmo macarrão “in bianco”, com abobrinhas e/ou cenouras e/ou atum ou salmão, ervilhas, milho, enfim, na hora invento. Ontem almocei massa curta com abobrinha, cenoura e grão-de-bico. Ficou ótimo.

Melões e melancias também estão no auge. Não gosto muito de frutas, e essas duas em particular eu detesto, mas gosto de ver caminhões cheios delas estacionados nas beiras das estradas, vendendo imensas melancias suculentas e lindos melões tipo cantaloop, aquele todo estriado fora e laranja dentro. Gostaria de gostar de melão e melancia. Aqui fazem o maior sucesso, e melão com presunto cru é um dos mais clássicos pratos de verão, ainda mais pro jantar, quando é melhor comer menos.

Só não ousem botar as frutas na geladeira. O melhor método pra “refrescar” frutas é deixá-las dentro de uma bacia com água fresca, de preferência do poço (água de poço é SEMPRE fresca, e no inverno endurece as mãos de tão fria). Lembrem-se que melancia gelada dá dor de barriga.

Ho ho.