a rã arranha a aranha

Hoje sinto que poderia ter morrido.

Quando fui pegar o motorino de manhã, pra ir buscar meu salário mais do que atrasado na escola, por acaso dei uma olhada no capacete antes de enfiá-lo na cabeça. Por acaso vi uma teia de aranha. Por acaso olhei dentro do capacete e vi uma aranhona marrom, daquelas bonitonas, com as pernas finas e elegantes. Sacudi a bichinha pra fora, pedi desculpas por destruir sua nova casinha, limpei as teias. E depois respirei fundo e me acalmei, porque o nervoso que me deu quando percebi a aranha em tempo, e entendi que se não tivesse percebido nada e ela tivesse começado a se manifestar dentro do meu capacete com a minha cabeça lá dentro também, eu com certeza, COM CERTEZA teria tido um acidente muito sério.

gente chata é foda

Hoje me estressei com um marroquino nos correios.

Não tinha fila; era aquele horário morto de logo-antes-do-almoço em que, em um país de mangioni como a Itália, ninguém ousa sair de casa pra não perder o rango. Como sou uma menina prática e saio de casa com toda a papelada preenchida e devidamente ordenada, fui direto ao balcão com a minha tralha (uma sacola de compras que não coube no porta-treco do motorino) e meus três conjuntos de coisas a resolver: o papel pra depositar dinheiro na conta, o papel pra depositar dinheiro na poupança, e a conta de água pra pagar. Junto comigo tinham entrado na agência dois marroquinos, que voaram na minha frente pra pedir um carnê em branco pra pagar sei lá o quê. Vejam bem, já começaram mal; eu tenho vários carnês em branco em casa e na oficina, porque se precisar pagar alguma coisa nos correios eu preencho e já chego lá com tudo pronto. But that’s just me.

Continuaram mal, porque em vez de ir a uma das mesinhas que estão ali pra isso mesmo, ou seja, pra neguinho preencher coisas, ficaram no balcão ao lado do meu. Enquanto um preenchia, o outro ficava me olhando. Eu lá com a carteira aberta, documentos à vista, dinheiro espalhado nos três montinhos diferentes (o da conta, o da poupança e o da conta de água), e o diabo do marroquino me olhando. Até que não resisti e pedi muito educadamente se ele não podia fazer o favor de ir um pouco mais pro lado.

Pronto! Caiu o céu sobre as nossas cabeças.

– Qual é o problema?

– O problema é que eu não gosto de ver que tem gente pendurada no meu ombro enquanto eu faço as minhas coisas.

– Eu não estou fazendo nada.

– Não importa, não quero ninguém olhando quanto dinheiro eu tenho na carteira.

– Tá me chamando de ladrão?

– [bufando] Olha só, fofo, esse negócio de preconceito comigo não cola, porque eu sou tão imigrante quanto você. A diferença é que eu não incomodo os outros. [E que tenho os dentes, digamos, melhorzinhos. E falo italiano direito. E sou cheirosa. Entre outras coisas.] Você poderia ser qualquer outra pessoa, o papa, o Bono, o Tolkien em pessoa, e eu iria ficar irritada do mesmo jeito. Não quero ninguém respirando na minha nuca enquanto eu cuido da minha vida.

– Tá me chamando de ladrão! Eu não fiz nada! Eu fico onde eu quiser!

– Fica onde quiser coisa nenhuma. Não tá vendo a placa ali no começo da fila? “Por uma questão de privacidade, por favor aguarde sua vez atrás da linha amarela”. Tá vendo?

– Eu não sou ladrão! Não me interessa quanto dinheiro você tem!

– Ainda bem, até porque eu não tenho nenhum mesmo. Mas não quero ninguém bafejando no meu cangote. [ainda mais com esses dentes cor de ferrugem].

Antes que ou eu ou ele resolvesse cair na porrada, uma funcionária que estava arrumando elásticos num canto resolveu abrir outra caixa, bem longe de mim, e chamar os marroquinos.

Ora, tenha santa paciência. Depois não sabem por que ninguém os suporta.

da série pequenas coisas…

Já comentei aqui antes o quanto é uma mão na roda ter um lanterneiro na família.

Meu capacete é daqueles completos, que cobrem também o rosto e a mandíbula, e não só o topo da cabeça. É grande demais pro espaço embaixo do selim, então toda vez que eu saía de casa com o motorino tinha que ficar carregando aquele maldito capacêtchi pratchiádu, como diz o Mirco, pra cima e pra baixo. E poucas coisas na vida são menos portáteis do que um capacete.

Em um fornecedor de peças, procurando sei lá o que pra um caminhão, Mirco bateu os olhos num porta-trecos daqueles que se fixam na traseira das lambretas e das motos. Vagabundo, de plástica tabajara, mas com chave, com alça e removível. Trouxe pra casa e pronto, chego eu tarde em casa, cansada depois da aula com os Salames, o Mirco jantando com Gianni e Chiara, e dou de cara com aquele negócio em cima da mesa da sala, com um bilhetinho.

No dia seguinte aproveitamos que tinha pouco movimento na oficina e bolamos um jeito de fixar o negócio na lambreta, que é modelo velho e não tinha a base metálica que serve justamente pra isso. Mirco inventou um sistema lá maluco, pegou uns restos de chapa de ferro, dobrou, limou, cortou, furou, pintou de preto, aparafusou, e pronto! Ganhei um porta-treco de lambreta. Não posso me empolgar e entupir de compras, senão o peso na traseira fica grande demais e a lambreta não pára de pé. Mas é o suficiente pra botar o capacete. Maravilha :)

il segretario

O novo secretário é gente boa. Meio infantilzinho, mas aqui é coisa comum. Fisicamente é a cara do meu irmão, só tem os cabelos mais claros. É bonzinho pacas e está aprendendo rápido. Não é nenhum primor de esperteza e dinamismo e tenho a impressão de que em um determinado momento vai ter que escolher: ou acordar pra vida e ficar esperto, ou sofrer feito um cão na mão do Ettore e do Mirco, que são pessoas maravilhosas mas quando se trata de trabalho e coisa séria viram bicho.

Estou gostando de explicar as coisas pra ele. Juntos estamos revendo todo o meu método de trabalho. Ele é interessado e pede explicações, dá sugestões. Miraculosamente tem mais intimidade com o computador do que a imensa maioria da sua geração, o que já é um grande ponto a seu favor. Fiz pra ele um passo-a-passo do que fazer quando chega uma fatura, quando chega um caminhão, quando chegam peças pra pintar, quando chegam peças de um fornecedor. Expliquei que se a gente mantiver um método de trabalho, as chances de errar são pequenas. Expliquei que esse meu método de trabalho não veio do nada, mas de adaptações do que a coitada da Elisabetta, menina confusíssima, fazia antes, e de outras coisas que eu inventei pra simplificar a minha vida escritorial. Ele ficou todo agradecido e já começou a sacar umas coisinhas básicas.

Parece que vai funcionar bem. Acendamos velinhas.

altro matrimonio

Ontem fomos a um casamento legal. Mario Belli, o florista de Santa Maria, e Maria Rita, siciliana criada aqui no interior do Zaire.

A festa foi legal porque a cerimônia foi relativamente rápida, e porque Gianni e Chiara também foram convidados (o Gianni faz natação com o Mario). O jantar foi num lugar lindo, lá pros lados de Valfabbrica, com uma vista maravilhosa e um ventinho fresco delicioso pra aliviar o calorão. Os convidados eram jovens e muito alegres. A mesa em frente à nossa fez uma bagunça desgraçada, obrigaram o garçom (que se chamava Carmine) a beber, fizeram poesia erótica pro noivo, pediram pro frade Carlo tirar a roupa, brindaram em rima a noite toda.

O cardápio: um zilhão de antipasti, frios e quentes. Risottino mantecato alle fragole ed ortica (risoto com morangos e urtiga. Eu juro que tava bom, a não ser pelos morangos, que não tinham nada a ver, apesar da moda de fruta na comida). Ravioli primavera al tubero nero di Norcia (ravioli tricolores com trufas pretas de Norcia). Tagliata di Angus aromatizzata (carne argentina – cof cof – cortada em fatias, temperada com vinagre balsâmico) e verdure grigliate (abobrinha, tomate e berinjela na grelha). Filetto al pepe verde e rosa (filé de vitela com pimenta verde e rosa), flan di patate (um pudinzinho de batata que era pura farinha), bouquet di fagiolini (um raminho de vagens amarradas com bacon) e insalatina capricciosa (uma saladinha básica). E depois o bolo de casamento, que era um mil-folhas com creme, que dispensei pela ausência de cacau.

A noiva estava linda – os sicilianos costumam ser bonitos e ela não é diferente. O vestido era elegante e simples, e só o cabelo tava meio esquisito. O Mario é bonitão, altíssimo, forte, simpático. A mãe dele é muito gente boa, e apesar da recém-viuvez estava muito feliz. Roberto e Cristiana, também nossos amigos, estavam na mesa com a gente, mas em um inexplicável gesto de extremo mau-gosto “tiveram que sair” mais cedo. Considerem que um jantar desse tipo custa mais ou menos 70 euros por convidado, e sair no meio é um terrível desperdício do dinheiro dos noivos. Ainda mais quando o presente dos convidados (ele é RIQUÍSSIMO, ÍSSIMO, ÍSSIMO) foi ridículo – um guia da Califórnia, onde os esposos vão passar a lua-de-mel, e uns trocados em dólar “pra comprar um chiclete no aeroporto”. Una figuraccia, um papelão. Enfim. Fora esse detalhe que deixou todo mundo meio desconfortável, até que me diverti. Chegamos em casa muito tarde, e chapamos lindamente.

hm

E nessa onda de pensamento positivo a respeito da faculdade, resolvemos fazer um pedido ao centro do emprego em Bastia, pra que encontrassem uma nova secretária pra oficina. Se eu conseguir realmente estudar, a partir de setembro não vou mais ter tempo pra ficar lá, e conseqüentemente vamos precisar de uma secretária.

Confesso que a idéia ao mesmo tempo me alegrou e me entristeceu. Alegrou porque é um porre ficar ali na oficina, porque eu e Mirco brigamos muito quando trabalhamos juntos, e porque eu não quero toda aquela responsabilidade. Entristeceu porque não deixa de ser chato perder esse tipo de conhecimento, de controle, de poder. Uma espécie de ciuminho, sabe. Há outros motivos também, mas são só meus.

Mas é por uma boa causa. Apesar do curso que eu quero fazer (Comunicação Internacional) não ser muito badalado/reconhecido e conseqüentemente não ser do tipo que abre portas profissionais muito facilmente, tem muita coisa interessante no currículo. Eu já sendo velha demais pra ser contratada como aprendiz (ganha-se uma titica e o empregador não paga impostos), quando eu me formar (olha o otimismo) alguém que estiver interessado em mim vai ter que necessariamente me contratar normalmente, o que é muito bom. Então vamos pensar positivo, acender velinhas, essas coisas.

como é difícil estudar nesse país

Depois de muito tribulare, finalmente consegui entrar em contato com a agência pelo direito ao estudo de Perugia. Por semanas só conseguia ouvir a voz automática mandando apertar 1 se quisesse saber se tenho direito a comer de graça, 2 pra saber minha nota na faculdade, 3 se quisesse saber se meu pedido pra estudar no exterior foi aprovado. Nada de aperte 0 pra falar com alguém, e eu precisava falar com alguém, já que só queria saber o que raios tenho que fazer pra entrar com um simples pedido de bolsa. Por acaso, descobri o número direto do setor bolsa de estudos (até então eu estava ligando pros números que encontrava no site da agência e na lista telefônica), e me mandaram fazer primeiro o pedido on-line, pelo site.

O site estava atualizado, jacaré? Não, né. Clicando no botãozinho “pedido de bolsa” abre-se uma janelinha dizendo “não é mais possível fazer pedidos para o ano acadêmico 2004/2005”. Lindo, né. Liguei de novo pra agência e a menina disse ah é, só vão atualizar no dia 18… Quero só ver. Pode ser que seja uma coisa tão complicada preencher o tal pedido que eu precise ir até lá pra ter um mínimo de assistência, já que por telefone já vi que a coisa é complicada. Vamos ver no que vai dar.

uia

A notícia não boa da semana é que a namorada dos cachorros está no cio outra vez. Toda hora ela vem encher o saco dos meninos, estacionando-se do lado de fora do portão do quintal e tentando os coitados com olhares sensuais e piscadelas. O resultado é que todos ficam de mau humor, a não ser o Demo, que é leve e consegue escalar mesmo a cerca mais alta, e some a noite inteira. Chega de manhã ou de madrugada exausto, chorando pra que alguém lhe abra o portão. Até aí tudo bem, sempre foi assim. Só que hoje de manhã ele apareceu, depois de mais uma noitada de sexo selvagem, com um buraco na testa, tão fundo que se vê até o osso. Não se sabe o que aconteceu; pode ter sido outro cachorro, pode ter sido um carro, alguém pode ter dado uma porrada nele. O fato é que o Ettore ficou impressionado com o tamanho da cratera, e chegou até a ter pena do bicho – e quando chega a esse ponto é porque realmente é A CRATERA. Não quero nem ver.

contact

Sabem quem me cumprimentou, a seu modo, claro, hoje de manhã? Um coelho selvagem. Eu vinha correndo pela via Sofia e quando fiz a curva da pontezinha dei de cara com ele. Ficou parado na beira do campo de girassóis, muito sério, me olhando com os olhinhos piscando. Depois de alguns segundos de contato visual, deu de ombros e sumiu no campo.