teste: você é italiano?

1) Você está andando a 20 km/h na rua principal da sua cidadezinha, na hora do rush. Atrás de você, uma fila de carros andando devagar, por sua causa. Você tem que virar à esquerda pra ir comprar gel pro cabelo na Acqua e Sapone. Você:

a. Dá a seta pra esquerda, reduz e vira, necessariamente nesta ordem.

b. Reduz mais ainda, pára, dá a seta pra esquerda, espera mais um pouco e vira, devagar. Não necessariamente nesta ordem.

c. Reduz mais ainda, pára, dá a seta pra esquerda, espera mais um pouco, e quando os motoristas atrás de você começam a buzinar e te ameaçar de morte, você bota a mão pra fora, junta as pontas dos dedos, sacode a mão e grita “ma che cazzo vuoi?”.

2) Você está novamente na avenida principal da sua cidadezinha, novamente na hora do rush, quando todos estão doidos pra chegar em casa pra almoçar aquele pratão de macarrão. Há vários ônibus de turismo avacalhando mais ainda o trânsito, velhinhos de bicicleta, adolescentes de lambreta, velhos quase cegos dirigindo Api, ou seja, o máximo de caos que é possível encontrar em uma cidade pequena no interior do Zaire. À sua direita, há uma baia para os ônibus municipais, bem em frente a uma banca de jornal. Você se lembra de que não comprou La Gazzetta dello Sport hoje ainda. Você:

a. Continua na sua direção normal, liga a seta, vira à esquerda cinco metros adiante no estacionamento em frente à banca de jornal, estaciona o carro, faz dez passos pra atravessar a avenida, compra o seu jornal e volta pro carro.

b. Mete o pé no freio, não lembra que existe seta, e joga o carro na baia do ônibus, deixando-o estacionado igual à sua cara enquanto você vai comprar o jornal e bater papo com o jornaleiro. Quanto maior for seu carro e mais torto estiver estacionado, mais será difícil, pra quem estiver saindo do estacionamento dos correios, ver se há carros vindo da esquerda.

c. Opção b, mas com a mão pra fora do carro, gesticulando, e berrando pela janela, para os motoristas que buzinam atrás de você: “mavaffanculo, va’!”.

3) Você está vindo de Perugia na direção de Foligno. Há dois quilômetros placas vêm avisando que quem quer ir a Foligno deve manter-se à direita, e quem vai a Cesena deve ficar na esquerda. Você vai a Foligno. Você:

a. Pega a direita o mais rápido possível, depois de ultrapassar um caminhão lento que virou à direita na direção de Terni, 50 metros antes da saída pra Foligno.

b. Fica na esquerda, não porque está ultrapassando ninguém, mas porque é mais legal, até o último minuto possível, quando então joga o carro pra direita, fechando quem vinha atrás e passando por cima da zebra e a dois centímetros da divisória de concreto.

c. Opção b, e quando o motorista de trás pisca o farol você olha pelo retrovisor, levanta a mão direita, junta a ponta dos dedos e diz claramente “che c’è, stronzo?”.

Post PMM (Para Mim Mesma)

até o presente momento:

Matilda (Roald Dahl)
Kingdoms of the Celts (John King)
The Great Gatsby (Fitzgerald)
Great Expectations (Dickens)
I Racconti (Tommaso di Lampedusa)
The Da Vinci Code (…)
Lady Chatterley’s Lover (D. H. Lawrence)
The BFG (Roald Dahl)
The Old Man and the Sea (Hemingway)
The Curious Incident of the Dog in the Night-Time (Mark Haddon)
La Voce del Violino (Andrea Camilleri)
La Stagione della Caccia (Andrea Camilleri)
The Importance of Being Earnest (Oscar Wilde)
Bartleby (Herman Melville)
Salem’s Lot (Stephen King)
Boy (Roald Dahl)
La Gita a Tindari (Andrea Camilleri)
L’Odore della Notte (Andrea Camilleri)
Il Giro di Boa (Andrea Camilleri)
Todas as Festas Felizes Demais (Fabio Danesi)
Io Non Ho Paura (Niccolò Ammaniti)
L’Impero dei Draghi (Manfredi)
The House of Mirth (Edith Wharton)
The Kite Runner (Khaled Hosseini)
Breakfast at Tiffany’s (Truman Capote)
Middlesex (Jeffrey Eugenides)
Fight Club (Chuck Palahniuk)
The Bookseller of Kabul (Åsne Seierstad)
The No. 1 Ladies’ Detective Agency (Alexander McCall Smith)
The Godfather (Mario Puzo)
The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy (Douglas Adams)
In Patagonia (Bruce Chatwin) – não terminado, chato demais
Un Mese con Montalbano (Andrea Camilleri)
Gli Arancini di Montalbano (Andrea Camilleri)
Henderson the Rain King (Saul Bellow)

motorino

E por falar em lambreta.

Eu achei que depois do tombo no ano passado eu fosse ficar com medinho de pegar o motorino de novo. Mas foi justamente o contrário: cada vez que saio com ele, mais eu gosto. Nunca vou ter a desenvoltura dos adolescentes que andam dos 14 aos 18 anos de motorino pra lá e pra cá, desviando audazes dos carros e conversando entre si enquanto pilotam, mas já me sinto muito mais segura do que no início. Agora que o calor tá brabo, então, é uma maravilha. Nada de carro-microondas depois de horas no sol. O motorino cabe em qualquer sombrinha e assim o selim não esquenta a sua bunda. Só tem que lembrar de usar filtro solar, senão os braços ficam pretos. Algum tipo de jaqueta também é aconselhável, porque os insetos e pedrinhas e plantinhas que se chocam com o seu corpo durante o percurso na roça são inúmeros.

O Mirco de vez em quando tem nostalgia de lambreta e vai pra oficina ou jantar na Arianna ou encontrar o Moreno ou comprar luvas de borracha no Ipercoop de motorino. Uma vez ele encontrou o Moreno na praça em Bastia, e enquanto estacionava a lambreta levou várias olhadas estranhas de teenagers bastiolos que não gostaram muito da presença de um intruso no seu território. Porque motorino no verão é coisa de adolescente VIP bastiolo, que gesticula pro colega no motorino ao lado enquanto pilota, que cola adesivos no capacete, que usa óculos escuros gigantes da Dior e calça jeans da Richmond e camiseta Datch. (No inverno motorino é coisa de imigrante pobre que não tem carro e tem que encarar o vento gelado na fuça). Achei engraçada a história, o Mirco intimidado por adolescentes por ser velho demais pra andar de lambreta :)

Obs.: Claro que velho também anda de lambreta. Lambreta velha. Daquelas que você tem que pedalar pro motor pegar, e que não passam dos 20 por hora. São foférrimos os velhinhos de motorino.

uhuuu

Hoje fiz uma coisa muito maneira, aproveitando que o Aluno Gentil e a Quarentona Estressada cancelaram as aulas: fui ao aeroporto de bicicleta, pegar nossas passagens de agosto pra Parrí. Não é o máximo? Aproveitei que o dia tava nublado e não tava muito calor, tinha um ventinho de chuva esquisito mas não forte o suficiente pra dificultar as pedaladas, e lá fui eu, quinze minutos de ida e quinze de volta entre campos de girassol, milho e linho (que tem a maior pinta de capim vagaba), até o Aeroporto Internazionale dell’Umbria (cof cof). A mocinha extremamente enrolada da Alitalia disse que é quase certo que titio dará as caras por essas bandas, mas não antes de 2006. Mas se for verdade, me aguardem, fofos, porque pior que a gente, só o Tom Jobim que passava o fim de semana em NY: vamos almoçar em Paris e jantar em Londres váaaaaaaaarias vezes… ;)

a foca

Há alguns dias nossa querida vizinha fofoqueira, a Foca Monaca, nos surpreendeu. Eu sei que ela freqüenta a tia chata do Mirco, mas não imaginava que se lembrasse dos nossos nomes, até porque não damos muita confiança. Mas outro dia cheguei em casa depois de uma aula com o Paulo Cintura, às dez da noite, e dei de cara com ela e a família pegando um arzinho fresco em cadeiras de plástico no jardim de casa. O yorkshire histérico, que acho que se chama Jimmy mas não tenho certeza, começou a latir. Aí veio a surpresa, porque ela começou a falar com o cachorro, vai lá, Jimmy, vai lá com a Letizia, olha quem é, é a Letizia, Jimmy! E eu pensando, comé que essa mulher lembra do meu nome? Porque aqui, mesmo todo mundo me chamando de Letizia que nome mais italiano não existe, o fato de que eu não sou italiana faz com que todos esqueçam meu nome, automaticamente, como se eu me chamasse Mohamed, Ivanova, Suely Maria, Rosemary, Tanaka, Shun-Li ou outra coisa que eles não conseguem pronunciar. Estranhamente, quando eu chamei o cachorro veio, em vez de continuar latindo como sempre faz. Veio, e ainda deitou no chão, no meio da rua, de barriga pra cima. Enquanto fiquei lá coçando a barriga dele, porque afinal de contas ele é histérico e chato mas é sempre um cachorro, leia-se gente boa, a Foca se aproximou e começou o interrogatório:

– Ué, cadê o Mirco?
– Não sei, acabei de chegar, ainda não nos falamos. Não sei nem se está em casa.
– Eu achei que você trabalhasse com ele.
– Também trabalho com ele. Mas dou aula de inglês em Perugia quando não estou na oficina [reparem no meu estranho bom humor nesse dia; em vez dos tradicionais sim e não resolvi ser explicativa]
– Ah tá… E volta a essa hora?
– Pois é, coisas da vida.
– Você faz a contabilidade da oficina?
– Faço, entre outras coisas.
– Ah tá… E não tem secretária não?
– Não, sou eu a secretária agora, só que eu não fico lá oito horas por dia.
– Ah tá…

Nisso chega o Mirco de lambreta. Olha ele aí, eu digo. Por isso que ele não ligou como faz sempre quando termino de dar aula, porque tava de lambreta.

– Ué, mas ele usa lambreta? E o carro?
– Fui jantar na casa da Arianna [o Mirco não chama os pais de pai e mãe, mas de Ettore e Arianna]
– Ah tá… Mar por quê, o carro quebrou?
– Não, é que tá fresquinho, gosto de andar de lambreta. E eu queria parar na estrada pra pegar um girassol pra Z [sou eu], mas estavam todos muito longe da beira da estrada, não consegui.
– Ah tá… Então essa lambreta é de vocês, não sabia…
– Bom, vamos subir, né? Boa noite!
– Boa noite, boa noite!

Na manhã seguinte saímos cedo pra oficina e vimos a Foca sentada, de camisola lilás de babados, no balancinho do quintal. Dormindo.

juruna e eu

Não sei como, mas Moreno conseguiu nos convencer a ir ao Lago Trasimeno com ele, a nova namorada e mais dois casais.

Praia na roça é assim: tem nome (Zocco Beach. …), é gramado e não areia, é lago e não mar, a mulherada vai de salto alto, não se vêem cangas mas só toalhas com araras e golfinhos, ninguém cai na água porque é lamacenta, não tem guarda-sol mas tem a sombra das árvores, e tem o stand da rádio local, com DJs pentelhos que saúdam a galera “in” que passa, como se ser “in” em Bastia Umbra ou Magione ou Passignano sul Trasimeno tivesse o poder de alterar rotas de meteoros ou de mudar o destino da humanidade. Santa paciência, Batman.

Jantamos torta al testo num lugar de beira de estrada perto de Magione. O lugar é famoso e a fila era colossal, a comida não era lá essas coisas, o peixe tava salgado, o presunto idem, a nota fiscal não especifica os itens nem os preços, o que facilita a picaretagem. De fato, na nossa mesa pagamos por duas garrafas de Coca que nunca chegaram, e por uma salada de camarão (a minha) que também não se fez viva.

E terminamos o dia tomando sorvete em Magione, cidadezinha que não conhecíamos.

O problema nem foi o programa de índio, porque pra mim qualquer programa que inclua bronzeamento voluntário é necessariamente programa de índio, mas a companhia mesmo. Eu adoro o Moreno, mas ele às vezes é de uma imaturidade irritante, e é natural que escolha companhias igualmente infantis. Sua nova namorada tem 30 anos, ainda tem hora pra voltar pra casa senão o pai dá piti, acabou de terminar uma temporada part-time como assistente em um consultório de dentista, e não sabe o que vai fazer da vida de agora em diante. Outro casal era formado por uma modelo ex-candidata a miss, horrorosa, mondronga e com Q.I. de uva sem caroço, e o namorado é DJ de discoteca e faz as sobrancelhas. Outro ainda era um engenheiro amigo do Moreno que usa bandana na cabeça, mora sozinho porque é divorciado mas a mãe vem limpar a casa e cozinhar e fazer compras pra ele, e a namorada é arquiteta mas se está com um como ele não pode ser nenhum primor.

Eu realmente não tenho mais paciência pra essas coisas, juro.

E o pior é que todo esse povo provavelmente vem jantar aqui em casa sexta-feira.

titio spielberg

Ontem foi um dia infinito. Manhã na oficina, vários giros de lambreta pra buscar peças, parafusos, tinta e outras coisas legais, almoço corrido, duas aulas seguidas, fofoca com Valerio em vez de aula de francês, e mais uma aula comprida em Perugia. Terminei às nove e meia e fui direto pro cinema, encontrar Mirco e Moreno. Vimos The War of the Worlds.

Olha, eu gosto dessas coisas. Gosto de blockbusters, gosto de E.T.s, acho o Tom Cruise simpático e a Dakota Fanning um bom exemplo de que nem toda criança precoce é necessariamente um nojo. Gostei do filme, mas preciso, preciso ler o livro. Porque acho que VER os E.T.s não era necessário – anzi, acho que o medinho é maior quando a gente fica no escuro, sem saber exatamente do que temos medo. Alguém aqui já leu o livro pra dizer se os E.T.s saci-pererê são descritos fisicamente? E se o final é tão brusco? Mas assim no bojo, eu gostei. Cinema-pipoca dos bons. A única coisa chata é que os filmes do Spielberg são tão, mas tão barulhentos que às vezes me irrito. Tem SEEEEEMPRE cenas com um monte de gente falando ao mesmo tempo, ou, pior, berrando ao mesmo tempo. Sempre muitos, muitos gritos histéricos. Eu detesto gente que grita, ainda mais gente que grita sem parar. Mas no geral vale a pena ver. Os efeitos especiais são maneiros, o roteiro tem ritmo meio desigual mas dá pra levar e, principalmente, a idéia de que os vírus somos nós, baby, já muito bem explicada em Matrix, é a coisa mais parecida com religião que faz parte da minha vida.

vai pro tronco ou não vai?

Os Salames estão acabando comigo. Não só porque o horário das aulas deles é terrível – terminar o expediente às dez e meia da noite é o ó – mas porque são realmente duas mulas. Ela nem tanto, mas ele, além de mula, é chatíssimo. Chatíssimo, íssimo, íssimo. Junte a isso um calor desgraçado na sala de aula, e pronto, imaginem o nível de endorfinas no meu organismo como anda: no porão do fundo do poço.

A boa notícia, se não pro meu bolso, pra minha saúde física e mental, é que a partir da semana que vem passo uma turma pra Margherita, filha de italianos da Basilicata mas born and bred na Inglaterra. Resolvemos, em reunião, que estudantes mais avançadinhos farão a primeira metade do curso com um professor não native speaker, e na segunda metade pegam um native speaker. Os Mosqueteiros não quiseram mudar de professor e continuei com eles até o fim, e a Quarentona Estressada também, mas com essa turma, que até que é legal mas tarde e longe demais pro meu gosto, deixei bem claro que é uma política da escola e que a mudança seria obrigatória. Depois de um breve muxoxo mudei de assunto e a partir de segunda a pobre Margherita é quem vai chegar tarde em casa. Num güento mais, chega.