ah, tá…

Os assuntos da semana aqui na bota são dois.

O primeiro, e por favor não riam, é o caso dos carrapatos no trem. Pois é. Um monte de passageiros andou reclamando de carrapatos no trem, inclusive na linha Milão-Florença, muito freqüentada. A história deu direito a fotos dos carrapatos nos jornais e tudo. Mas, principalmente, descobriu os podres das licitações pra limpeza dos trens e estações da Ferrovia dello Stato.

O segundo, e por favor não chorem, é que Berlusconi e seus capangas acabaram de aprovar uma lei que determina punições severas pra quem se mete a besta escutando conversa telefônica e interceptando correspondência de gente envolvida em qualquer tipo de crime (leia-se Berlusconi & gang com os rabos presos com a máfia, e com coisa pior). Então tipo assim, o jornalista que escrever artigos que incluam trechos de conversas interceptadas paga uma multa fenomenal. E o jornal que os publicar, mais ainda. Sacaram?

reclamona

Tanta coisa acontecendo essa semana…

Lá pra sexta-feira deve sair o resultado das bolsas de estudos. Se acreditarem na minha pobreza, que é muito verdadeira, sim senhor, e me derem a bolsa, em outubro volto a estudar. Mas estou tentando não pensar muito no assunto, porque se não rolar eu vou ficar MUITO decepcionada.

Sexta-feira também é o dia da minha consulta no Centro de Cefaléia de Perugia.

Amanhã começamos a testar a talvez nova secretária. Quem passou a bola foi o Fabião, que trabalha com jovens excepcionais (ou simplesmente complicados) e nos mandou a Elena, uma menina de 23 anos, baixinha e magrinha, com uma doença degenerativa que eu não lembro qual é. Semana passada ela esteve na oficina com a Federica, simpática e grávida mulher do primo do Moreno (o Paoletto, o que trabalha na Questura e me deu uma mão com o permesso di soggiorno em maio), que trabalha com o Fabião. A Elena tem alguma dificuldade pra falar, e os movimentos são um pouco lentos e menos precisos do que a média, mas é muito esperta, nos deu a impressão de ser muito cheia de boa vontade, e ainda por cima é engraçada e nos fez dar muita risada. As vantagens fiscais são inúmeras por causa do grau de invalidez dela. Mas o motivo principal é o seguinte: de todos os salames que já passaram ali no escritório até agora, a mais normal, mais simpática e mais séria foi ela. Vamo todo mundo acender velinha pra coisa funcionar, porque todos nós gostamos muito dela e queremos muito que dê certo.

E amanhã também vai estourar uma bomba na escola, porque hoje, antes de vir embora pra casa, deixei na escrivaninha do Chefe Siciliano uma cartinha muito, mas muito irritada mesmo, que ele só vai ler amanhã de manhã. Acontece que todo mês é a mesma lenga-lenga: em vez de deixar meu cheque com a secretária no dia 15, que é o dia de pagamento, ele fica empurrando com a barriga. Quer entregar o cheque pessoalmente, mas esquece que nem todo professor vai todo dia à escola, e que muito freqüentemente ele mesmo não está lá, ou então está ocupado. Já vi VÁRIOS outros professores se irritarem porque vieram lá dos cafundós pegar a grana e ele tinha ido sei lá onde sem deixar nada, nem dinheiro, nem recado com a secretária. Ou seja, acabamos recebendo sempre em torno do dia 20. Uma professora muito timidinha ficou TRÊS MESES sem receber, porque tinha vergonha de ir lá pedir o dinheiro pra ele, e ele obviamente não lembrava que tinha que pagar.

Além disso tudo, quando vou trocar o cheque a garota do banco, que a essa altura do campeonato já me conhece, tem que ligar pra agência da escola pra pedir pra liberar os fundos. Papelão. Mas o fiasco maior foi no mês passado. A escola fechou pra férias dia 5 e só reabriu dia 29. Eu ainda consegui falar com ele antes disso, e recebi um cheque pré-datado (aqui se diz pós-datado) pro dia 16 (dia 15 foi feriado). Ora bolas, eu viajei dia 12 (e ele sabia); poderia ter feito a gentileza de antecipar, só esse mês, o salário pro dia 12, né? Até porque, pelo meu tipo de contrato, não tenho direito a férias. Não, jacaré, fez pro dia 16. Resultado: dei pro Ettore trocar e depositar, só que o cheque era non trasferibile, o que significa que ninguém pode trocar em meu nome. Então ele depositou diretamente o cheque na minha conta. Só que tem um pequeno detalhe bancário neanderthalense botense: um cheque de banco diferente do meu leva SETE DIAS ÚTEIS pra cair na conta. Resultado: viajei sem um tostão sequer. Ainda bem que em Paris as lojas estavam todas fechadas, senão teria cortado os pulsos. Mas não é só isso!!! O cheque não tinha fundos!!! Bateu, voltou, bateu, voltou, e finalmente foi dado como estornado (existe isso em português?). Ou seja, fiquei no negativo. Como meu chefe é muito avançadinho, como todo italiano (cof cof), não tem online banking, e não tinha como saber que não tinha dinheiro na conta e que o cheque tinha batido e voltado. No lugar dele, um chefe decente teria feito um DOC e cancelado o cheque, ou, se não fosse possível o cancelamento, depois eu devolveria o valor do cheque, quando finalmente caísse muito depois do DOC. Não, jacaré, simples e correto demais. EU é que perdi manhãs inteiras no telefone com ele, com a secretária, com a gerente dos correios (minha conta é no banco dos correios), pra tentar descobrir se o dinheiro ia cair na conta ou não – EU, porque da escola ninguém me ligou pra dizer nada, ninguém correu atrás, e acabou que quem resolveu o problema fui eu. Resultado: o dinheiro só foi entrar dia TRÊS. Ora, faça-me o favor! Como se diz aqui, signori si nasce. Quê que adianta usar terno, colete e gravata se você não paga os seus funcionários em dia? Vá tomar banho!

Sei é que essa história me irritou tanto – não tanto pela falta da grana, que nem era tanta, mas por princípio mesmo – que fiquei até com dor de estômago. Coisa rara, porque eu normalmente não somatizo nada. Que ódio! Passei uma semana batendo porta e rosnando. E ele ainda se despede no telefone dizendo ciao, bella. Mas vá catar coquinho!

Então foi isso. Deixei uma carta desaforada na escrivaninha dele e quero só ver qual vai ser a reação. Não gostaria de sair de lá, porque gosto do meu trabalho, faço bem, gosto dos meus companheiros da escola e estou cheia de turmas, além do que é muito cômodo pra mim trabalhar em Ponte San Giovanni e Perugia – ainda mais se eu começar a estudar de novo, praqueles lados. Mas também não seria o fim do mundo se eu saísse: tem a escola de Foligno e uma nova de Santa Maria com quem já falei e estou esperando só a confirmação de uma turma de português, e já mandei meu currículo pra uma de Assis também. Fora que eu sou esperta e versátil e morrer de fome eu sei que não morro. Estou de saco cheio de ser passada pra trás por causa dessa gente que não paga. Na oficina é a mesma coisa: todo mundo tem sempre uma desculpa pra atrasar o pagamento. Não tem tempo de vir trazer o cheque pessoalmente? Manda pelo correio, pombas! Faz um doc, nem precisa de internet, manda um fax pro banco, fala com o gerente, sei lá! Eu acho tão nojento deixar fornecedor e funcionário sem pagamento que não consigo conceber como alguém pode sequer ter essa idéia. Mas o mundo é cheio de gente estranha. E eu já estou por aqui com esse culto à desonestidade dos italianos.

por favor, leiam! i beg ye!

Besides justifying the transfer of wealth to kleptocrats, institutionalized religion brings two other important benefits to centralized societies. First, shared ideology or religion helps solve the problem of how unrelated individuals are to live together withoug killing each other – by providing them with a bond not based on kinship. Second, it gives people a motive, other than genetic self-interest, for sacrificing their lives on behalf of others. At the cost of a few society members who die in battle as soldiers, the whole society becomes much more effective at conquering other societies or resisting attacks.

Guns, Germs and Steel – a Short History of Everybody For The Last 13,000 Years (Jared Diamond)

o nosso deus é mais malvado que os outros

“The prudence, fortitude, military discipline, labors, perilous navigations, and battles of the Spaniards – vassals of the most invincible Emperor of the Romam Catholic Empire, our natural King and Lord – will cause joy to the faithful and terror to the infidels. For this reason, and for the glory of God our Lord and for the service of the Catholic Imperial Majesty, it has seemed good to me to write this narrative, and to send it to Your Majesty, that all may have a knowledge of what is here related. It will be to the glory of God, because they have conquered and brought to our holy Catholic Faith so vast a number of heathens, aided by his Holy guidance. It will be to the honor of our Emperor because, by reason of his great power and good fortune, such events happened in his time. It will give joy to the faithful that such battles have been won, such provinces discovered and conquered, such riches brought home for the King and for themselves; and that such terror has been spread among the infidels, such admiration excited in all mankind.”

Trecho dos relatos dos companheiros de Pizarro, que com meia dúzia de gatos-pingados (168 soldados, nem todos a cavalo) capturaram (e mataram) Atahuallpa, imperador inca, protegido por 80.000 soldados.

Guns, Germs and Steel (Jared Diamond)

cardialgia

Caramba, que facada no peito abrir um Tabucchi, que escreve em italiano mas sempre histórias que se passam em Portugal, e ler logo na primeira página:

Science fiction

O marciano encontrou-me na rua e teve mêdo de minha impossibilidade humana. Como pode existir, pensou consigo, um ser que no existir põe tamanha anulação de existência?

Carlos Drummond de Andrade

Por favor, autores estrangeiros, avisem com antecedência quando puserem trechos em português no meio de seus livros. Expatriado não lida bem com essas coisas não.

E olha que eu nem gosto tanto de Drummond.

Tem horas que não é fácil, viu. Eu nunca fui particularmente grudadíssima na minha família e sempre imaginei que um dia fosse morar fora. Tenho meus momentos de reclusão e intolerância à raça humana, inclusive meus parentes, e gosto da minha própria companhia. Do mesmo modo, apesar de ter um orgulho danado do Rio, que realmente é A cidade (não digo agora, nesse momento, porque agora o Rio é O QUE HÁ DE PIOR NO MUNDO, ao que parece; digo o Rio onde eu nasci e cresci, o astral, as pessoas, a paisagem, a floresta, a Lagoa, quequeísso, gente, a Lagoa, cês sabem do que eu tô falando), nunca fui carioca “da gema”, freqüentadora de praia e curtidora da night. O meu Rio sempre foi diferente dos clichês, mas não por isso menos interessante. Sinto falta não fisicamente da cidade, mas da vida cultural e intelectual que eu tinha – e olha que não era láaaaaaaa essas coisas, mais por falta de grana que por qualquer outro motivo.

Mas experimenta abrir um guia turístico do Brasil em uma livraria no exterior. Experimenta catar o Rio, catar um mapa do teu bairro e achar a tua rua. Quero ver se você não cair no choro e se todo mundo não vai achar que você é maluco. Duvide-o-dó.

aiai

Gianni está furibundo.

Em março, no caminho pra Roma pra pegar o avião pra Buenos Aires, levamos uma multa. Quem dirigia era a Chiara, a pior motorista que eu já vi ;) Lembro que quando vimos o pardal era tarde demais, e imaginamos que viria uma multinha básica.

Só que aqui a multa chega quase três meses depois da infração, quando você nem lembra direito do que aconteceu, onde, quando, por quê. E em letras nanominimicroscópicas, no pé da página, está escrito que se alguém não se apresentar no DETRAN local dentro de um mês pra declarar quem estava dirigindo naquele momento, ou seja, se alguém não se oferecer pra perder os pontos na carteira de motorista, chega uma nova multa, de mais de trezentos euros.

Olha aí por que eu digo que é importante fazer as coisas pelo motivo justo.

O governo não aplica multas nem muda as leis de trânsito porque quer educar a galera e evitar acidentes. Quer multar o máximo de otários possível, pra arrecadar uma graninha. E aí fode quem não tem nada a ver com o pato, ou quem até tem, mas tem boa vontade e coisa e tal. E a Dri ainda acha estranho que italiano adore sonegar um impostinho… ;)

E Berlusconi ainda por cima passa o fim de semana com o Putin e a coisa mais interessante que consegue dizer é “Mesmo fazendo um sacrifício, e olha que é um sacrifício eloooorme, eu vou me candidatar de novo. Porque é necessário, já que não há ninguém que possa assumir o cargo de Presidente do Conselho, ninguém como eu.” A sorte de certas pessoas é que eu não ando armadaaaaaaaaa… lalalalaaaaaaaa…

A coisa mais interessante desse encontro ridículo é o labrador preto maravilhosamente rebolativo que caminhava entre os presidentes e suas primeiras-damas num deck sobre o Báltico. Lindo :)