êeeeeeeeeeeeee

E acabamos de comprar nossas passagens. Infelizmente só achamos pra novembro, e assim vou perder o casamentão da Sabrina, dia 22, mas não teve jeito; a diferença de preço é assustadora. Infelizmente também é com a Iberia, o que comporta dois problemas: 1) ouvir gente falando espanhol o vôo todo e 2) não acumular milhas de coisa nenhuma, já que a companhia faz parte de um grupo de companhias aéreas que não me interessa absolutamente. Bosta.

Eu fico nervosa quando faço certas coisas online. Tipo comprar passagens aéreas tão caras. Fico com medo de alguma coisa travar (happens often) e a gente acabar pagando duas vezes, sei lá. Por isso quando finalmente imprimimos os e-tickets deu um alívio danado. Ainda mais porque estávamos caindo de sono, os dois, e nessas situações a probabilidade de errar alguma coisa é grande. Mas deu tudo certo e dia 6 estou indo embora de Roma. Chego dia 7, segunda-feira, e volto dia 21. O Mirco vai mais tarde, parte dia 12. De modo que Hunkette, darling, ative-se pro 15 de novembro, oui? Eu queria ir a Paraty, que não conheço. Quem se habilita? :)

Camillina

Hoje comecei uma experiência diferente na nova escola de Foligno. Me botaram pra fazer conversação com uma menina de 6 anos.

Ela se chama Camilla e é uma figurinha. O pai trabalha numa famosa empresa suíça de sapatos que tem um milhão de lojas aqui na Itália e viaja muito a trabalho. As meninas passam boa parte do ano em Bangkok e estudam sempre em escolas internacionais, por isso falam bem direitinho o inglês e eu só tenho que manter esse inglês funcionando e corrigir certos errinhos – tipo usar o verbo no infinitivo em vez do passado, esquecer de usar o verbo auxiliar na pergunta, essas bobeirinhas típicas dos italianos. A pronúncia e a entonação são perfeitas, então na verdade não tenho muito o que fazer. Hoje desenhamos um mapa da Itália, com purpurina e tudo, porque ela se recusou terminantemente a ler. Semana que vem vou levar uns livros pra ver se ela gosta. A mãe da garota é uma mala, daquelas dondocas ridículas que não têm o que fazer. Mal fala inglês, é mulher de um alto escalão de multinacional mas tem o QI de um ovo de codorna, dentes pequenininhos e pontiagudos e um corte de cabelo que beeeeeeeeeeeeeenzadeus, e ainda quer vir me dizer o que EU tenho que fazer? Ora, vá pastar, minha senhora.

Aliás, essa escola tá cheia de pais chatos. Só porque a cidade é rica neguinho acha que é sei lá o que. Alôooooooooo, estamos em Foligno, darling, você pode ser o imperador de Foligno, mas a sua importância pro andamento do mundo é ZERO. Pelamordedeus.

tia

Em um dos raros intervalos entre uma aula de inglês e uma da faculdade, consegui a proeza de estudar por uma hora e meia seguida, na biblioteca da universidade. Coisa inédita na minha vida, porque eu não tenho o menor saco pra estudar. E ainda por cima era política econômica! Claro que não vai ser assim sempre, principalmente quando começarem os malditos gráficos e tabelas e contas malucas, mas já achei ótimo.

Claro também que já fui eleita a tia da turma. Todas as minhas colegas, felizmente nenhuma de Perugia, são novinhas e estressadíssimas com provas e afins. Eu, sendo velha, já formada e professora, virei a santa padroeira e hoje me vi com um monte de menininhas penduradas nos meus braços implorando pra ter aulas de economia comigo – mas se eu não sei nem contar direito, meus amores! Sou um asno matemático! Não adianta. A fé é daquelas coisas inexplicáveis, e já vi que vou ter que arrumar outra sarna ainda – conseguir tempo pra entender a matéria, e mais tempo pra tentar explicar tudo pra mulherada. No segundo semestre ainda fui escalada pra dar aulas de inglês pro povo, porque a professora é uma louca furiosa que reprova todo mundo, um bicho de sete cabeças que já anda dando dor de cabeça na galera.

Tô vendo que vai ser um final de ano MUITO complicado.

vai, isaurinha

Como se já não me bastassem as sarnas que tenho pra me coçar, arrumei outra. Aceitei trabalhar também praquela escola de Foligno. Não gosto da dona, mas gosto do fato de que eles fazem parte de uma cadeia, que obedecem à sede em Milão, que por sua vez obedece ao British Council. Seguem o European Framework pra línguas e usam livros legais. A escola fica em uma casa, e não em um prédio de escritórios. Até aí tudo bem, só que fica em Foligno, que é MUITO fora de mão pra mim, já que toda a minha vida (e a do Mirco) está organizada na outra direção, de Ponte San Giovanni e Perugia. Mas eles pagam bem, me dão um contrato melhor e me fazem trabalhar quatro horas seguidas por dia, coisa que com a AISIL não consigo porque meus horários são todos esburacados.

Que horas eu vou estudar, comer, dormir e fazer cocô, eu não sei. Mas a gente dá um jeito.

juruna

O programa de índio hoje foi o seguinte: acordamos às quatro da manhã, Moreno passou pra nos pegar e lá fomos nós rumo a Castellammare di Stabia, perto de Nápolis (Julie, se eu tivesse ficado sabendo disso antes teria te avisado, mas só combinamos tudo tarde da noite no sábado!), levar o cachorro do Moreno pra uma exposição.

O Moreno é um amor, mas tem umas infantilidades que realmente me irritam. Gastou uma grana comprando um filhote de Dobermann, ridiculamente chamado Akyn, gasta mais uma grana preta pra adestrar o bicho, comprando ração top de linha, acessórios desnecessários, e toda aquela parafernália da qual só cachorro com pedigree, frágil e geneticamente esquisito, precisa. E ainda por cima resolveu entrar no mundo das exposições caninas. Valha-me!!!

Curiosos, eu e Mirco aceitamos o convite e resolvemos fazer companhia pro coitado do Moreno, que nunca participou dessas coisas e não queria chegar lá sozinho, sem saber o que fazer.

A viagem foi light, o cachorro, que é um amor, dormiu numa boa o tempo todo, fedendo terrivelmente dentro da sua gaiolona de plástico. Chegamos no tal lugar da exposição e já tinha um povo chegando. Moreno parou um senhor de Messina, com um dobermann insuportavelmente chato, agitado, forte e latidor, pra perguntar como funcionava e coisa e tal, porque era a primeira vez dele e blah blah. O cara foi superantipático – não existe gente legal com cachorro chato, é uma lei universal – e só faltou rosnar pro Moreno. Então deixamos tudo pra lá e entramos na cara dura mesmo.

A coisa rolou no que eu presumo que seja um local pra atividade física de alguma escola ou instituição. Enquanto os organizadores, atrasadíssimos, ajeitavam os cartazes da Purina e formavam o ringue onde os cachorros desfilam, nós ficamos observando o pessoal que chegava.

Eu não gosto de dobermanns. São bonitos, mas não gosto da personalidade deles, muito menos da dos donos. Era um preconceito que revelou ser absolutamente fundado, porque o que vimos de gente maluca, esquisita, chata, mal educada, prepotente, ridícula, não tá no gibi. A mulherada de óculos escuros gigantes, os homens com camisetas de criadores, botas, jeans Dolce & Gabbana, enfim, os sólitos ridículos. Crianças mimadas chorando o tempo todo, muita gente fumando o tempo todo, gente discutindo coisas idiotas tipo o ângulo da perna posterior do cachorro, o tipo de corte da orelha, e outros assuntos de vital importância pra ordem mundial.

Uma gordinha simpática pára o Moreno e pergunta o nome do cachorro. Quando o Moreno responde “Akyn”, ela solta um gritinho de alegria. É meu filho! É filho da minha Brisal! (pra quem não sabe, quando falamos de pedigree todos os cachorros da mesma ninhada ganham nomes ridículos que começam necessariamente com a mesma letra. A ninhada do Akyn foi a primeira da Brisal, e todos os filhotes têm nomes que começam com A.) Pronto! Encontramos alguém amigável e que conhecia os bastidores da coisa, pra nos explicar como funcionava o esquema. Moreno foi pagar a inscrição no container que funcionava como secretaria, pegou o livrinho de competições novinho em folha do Akyn, e começamos a estudar o panfleto com a programação do dia, com os nomes de todos os participantes por categoria, e espaço pra anotar as notas.

O Akyn foi o primeiro a desfilar, na categoria baby macho preto. Em teoria o início da exposição estava marcado pras dez, mas, faz-me rir, além de estarmos na Bota estamos em Nápolis, claro que começou quase na hora do almoço. Enquanto isso, a gordinha, que se chama Valentina e é de Gênova (sotaque maravilhoso), nos disse pra arrumar uma bola e cansar o Akyn pra ele abrir a boca pro juiz. Como assim, Bial? O cachorro tem que abrir a boca pra mostrar a mandíbula pro juiz. Ah, tá. Pra isso basta deixar o bicho irritado de tanto tentar pegar a bola e não conseguir, jamais – até porque está preso à coleira.

Quando o Akyn já estava com meio metro de língua de fora, a Valentina pendurou o número 1 no pescoço e levou o cachorro pro meio do ringue, porque o juiz já estava chamando. A coisa funciona assim, de acordo com o que ela me explicou: alguém leva o cachorro pro ringue, o juiz olha o cachorro parado, examina as medidas, anota aquelas coisas idiotas todas, depois a pessoa dá uma corridinha besta com o cachorro, o juiz examina o cachorro correndo e anota mais umas coisas idiotas, depois outra pessoa que o cachorro conhece fica do lado de fora do ringue tentando chamar a atenção do bicho, pra ele ficar naquela posição de desenho animado, todo esticadinho, alerta. O juiz examina o ângulo das pernas do cachorro, as orelhas, coisa e tal. O cachorro então ganha um pouco mais de coleira e pula na direção da bola – o juiz anota o cachorro em situação de ataque, anota outras baboseiras e depois dá a nota.

Detalhe: o juiz, um siciliano com uma cara de mafioso que dá até medo, é o bambambã de dobermanns no país, e um dos maiores criadores. O cara é supermetido em política, e foi ele quem conseguiu tirar o dobermann da lista das raças consideradas agressivas, aquelas que têm que andar com mordaça à noite. Então tá.

O resultado do Akyn (que ganhou o último lugar entre os 3 competidores, mas era também o mais jovem e mais agitado de todos, tadinho) era tão ridículo que meu cérebro se recusou a decorar tudo, mas lembro muito bem que no papelzinho tinha escrito “olhos redondos demais”, “bom pescoço” (pra mim bom pescoço é todo aquele que segura direito a cabeça, mas enfim), “move-se bem”, “coluna inclinada demais”. É mole? Depois ainda tive que me controlar pra não rir enquanto a Valentina checava a dieta do Akyn: você dá carne moída crua misturada à ração? E o miolo de pão? Ele tem que engordar, Moreno, esfarela umas torradas na comida dele, umas seis por refeição. E o parmesão (obs.: parmesão de verdade custa em torno de DOZE EUROS por quilo.)? E o fio de azeite, você dá?

SOCORRO!

Saímos de lá quase às duas da tarde. Por sorte não nos perdemos, porque achamos tudo horroroso e muito suspeito. TODOS OS CARROS SÃO AMASSADOS. Todos. TO-DOS. Ninguém usa capacete quando anda de lambreta. NINGUÉM. Vimos mil lambretas pequenas, pra uma pessoa só, carregando duas, mais bolsas e caixas. O trânsito é uma loucura, os sinais de trânsito estão ali só pra enfeitar, buzina-se o tempo todo, grita-se em dialeto incompreensível pra nós pobres mortais – eu adoro a língua napolitana, acho uma delícia, mas não entendo bissolutamente nada. Fiquei passada por não ter conseguido falar com a Julie, que certamente teria nos mostrado a parte legal da cidade. Eu consegui até dormir na viagem de volta, apesar do fedor do Akyn, e ainda fomos jantar na Arianna depois.

Vou te dizer: cachorro nota 10 é o meu. É o dela, são os dela, os dele. Essa palhaçada de pedigree, de ração mais cara que camarão, de queijo ralado, de azeite de oliva, de toalhinhas umedecidas com lustra-pêlo, todo esse circo mi sta sui coglioni. O que a falta do que fazer não faz com as pessoas, viu.

stupeur et tremblements

Então eu estou aaaaa mais feliz do mundo porque li Amélie Nothomb sem grandes dificuldades. Eu sou foda.

Na verdade sou é sortuda também porque francês e italiano são idênticos na gramática, o que ajuda na compreensão do texto, mesmo com aqueles verbos loucos. Mas não conta pra ninguém não.

felliniano

Com todas essa coisa da universidade, acabei nem contando o jantar bizarro de sábado passado.

Tínhamos ido, com Marco e Michela e a irmã do Marco, Cristina, com o marido, Natale (dovarante conhecido como O Homem Dos Dentes Mais Feios Do Mundo), a Foligno. Estava rolando o festival Primi d’Italia, uma festa dos primi piatti que parecia muito interessante do ponto de vista gustativo.

Só que era tudo TÃO confuso que não conseguimos comer LA-DA. Os stands estavam todos entupidos de gente e tinham como objetivo vender macarrão, muito mais do que fazer neguinho comer macarrão. Estávamos dispostíssimos a pagar dois euros por degustação, mas se não encontramos nada pra degustar! Pacotes e mais pacotes de macarrão, de todas as formas, cores e tipos, handmade, fatti in casa, artesanais, sei lá o que mais, mas tudo pra vender. Então nos enchemos e começamos a parar gente na rua pedindo sugestões de onde ir comer – nenhum de nós conhece Foligno direito, e a cidade, apesar de rica, é famosa pela falta do que fazer. Acabamos entrando num mix de loja de especiarias e chocolateria e drogaria, e a senhora nos disse pra procurar uma tal de L’Osteria, deu as indicações e coisa e tal, e ainda comentou que deveríamos dizer que era ela que nos tinha mandado lá.

Não era longe, não estava muito frio, a caminhada foi gostosa e abriu mais ainda os apetites – depois de tanto rodar pra tentar entender alguma coisa, já eram nove horas passadas. Encontramos o tal lugar; tinha muita gente do lado de dentro, esperando em pé, e alguns retardados fora da porta de vidro, fumando. Na nossa frente havia um grupo de três senhores bigodudos e uma senhora que esperava uma mesa pra sete. Um corre-corre danado; um menino novinho bonitinho, filho do dono, um careca tranqüilo mas com cara de mandão, e uma loura esperta que volta e meia botava o nariz pra fora da cozinha pra trazer o prato de alguém. Nada de menu, mas havia uns folhetos espalhados sobre um barril logo na entrada descrevendo alguns pratos. Achamos que eles estavam trabalhando no esquema degustação, pegando o gancho da festa dos primi piatti; paramos o careca-dono pra perguntar se era isso mesmo, ele disse que não, que o folheto estava errado. Então tá. A senhora que esperava a mesa pra sete pessoas queria era degustar, então foi embora e nós herdamos o seu lugar na fila. Demorou séculos mas finalmente os senhores bigodudos sentaram. Logo depois chegou um grupo de senhores MUITO distintos dizendo que tinham passado lá antes e lhes tinham dito de voltar mais tarde. Pra mim, honestamente, isso não pode ser considerado reserva – nada de nomes, nem horário, nem ninguém que se lembrasse da cara deles – mas como aqui também se dá um jeitinho pra tudo, rearrumando os comensais já sentados conseguiram liberar duas mesas grandes. Dissemos ao careca que a senhora da drogaria tinha nos mandado lá, e ele respondeu “não tenho a menor idéia de quem vocês estão falando”. Então tá.

A nossa ficava bem em frente ao balcão de frios. Explicando: osteria não é um restaurante; é um lugar onde belisca-se e come-se o que tem naquele dia, incluindo pão, frios, queijos, e os dois ou três tipos de prato (primo e secondo) que a cozinheira preparou com produtos locais e da estação. Então atrás do balcão tinha um fulano lerdíssimo que não faz nada da vida a não ser cortar queijos e fatiar frios e pão. Uma raposa, como disse o Natale de sacanagem, porque o cara estava realmente muito fora do esquema estressante do resto da osteria. Todo mundo na maior correria (e gritaria, lógico), e ele todo zen, fatiando presunto e salame de cervo.

Sentamos à mesa, mas ninguém tinha tempo de tirar a mesa. Então começamos nós mesmos a tirar e amassar os place mats de papel, os pratos, copos, talheres, garrafas de água mineral. O careca passou, rindo, e pegou tudo pra levar pra cozinha. O tempo passava e ninguém tinha tempo de botar a mesa pra gente. Descobrimos o estoque dos place mats e dos talheres e nós mesmos começamos a botar a mesa. O careca veio rindo e pedi uma água mineral pra tomar o comprimido pra enxotar a enxaqueca que já estava se instalando na maior. Ninguém tinha tempo pra me trazer a água mineral. De tanto ouvir neguinho chamando um ao outro aos berros, aprendemos os nomes da galera, principalmente do Leonardo, o filho do careca, mais perdido que cego em tiroteio. Leonaaaaaaardo, traz a água mineral, traz o pão que tem mulher grávida com fome! (a Michela ainda não pariu.) E nada do Leonardo aparecer. Natale levantou e foi pedir umas fatias de pão pro Raposa, que logo lhe deu uma cestinha cheia. A loura apareceu e perguntou se já tínhamos pedido. Mas se nem sabemos o que tem pra comer!!! Leonaaaaardo, vai explicar o menu pros senhores. Raposa, enquanto isso dá uma fatiada aí e prepara uns pratinhos pros senhores.

Leonardo apareceu quando já estávamos na metade dos fatiados e queijos, e tirou um pedaço de papel amassado do bolso. Começou a recitar os pratos: penne com molho picante de alcachofra, strangozzi (um tipo de espaguete típico da Itália central, mais grosso que um espaguete normal) al tartufo nero di Norcia, tagliatelle all’uovo con funghi porcini, con o senza pomodoro. Pedimos, além dos queijos e frios, duas cumbuquinhas de feijão à moda toscana – com um pouco de tomate no molhinho picante. Eu adoro feijão, aliás adoro qualquer cereal e leguminosa, e fiquei animada. Pedimos também bruschette que nunca chegaram, mas tudo bem.

O prato da Cristina, a única que pediu penne com molho de alcachofra, chegou enquanto ainda estávamos nos queijos – não por eficiência, mas porque o Leonardo tinha esquecido de entregar um pedido na cozinha e os clientes, de saco cheio de esperar horas por um prato que jamais chegaria, deram no pé. Foi aí que o Leonardo teve a idéia de passar o pedido pra cozinha, e a loura-mãe só foi lembrar de cancelar o pedido quando esse prato já tava pronto. Então a Cristina foi a primeira a comer.

Horas depois – e duas jarras de vinho branco da casa depois – ainda estávamos com fome, mesmo depois de tanto pão e queijo. O feijão chegou, decepcionante na quantidade, tipo duas colheradas por cumbuca, mas deeeeeeeeelicioso. Cristina levantou pra fechar a porta de vidro, porque tava um frio do cacete.

Horas depois – já eram quase onze e meia – começam a chegar os pratos de pasta. Àquela altura já tínhamos dado muita risada, ajudando o coitado do Leonardo a lembrar dos pedidos dos outros clientes, ajudando o Raposa a cortar mais pão e servir mais vinho, que o Natale levantava e ia lá pegar ele mesmo, sacaneando o careca que se controlava pra não rir quando um cliente pediu uma “grappa morbida” (grappa macia. Essa mania dos termos ridículos pra definir bebidas é realmente uma comédia) e ele lhe deu a única que tinha – que definitivamente não era macia, como depois comprovaram os meninos. A enxaqueca já tinha passado, estávamos todos satisfeitos, o Mirco já tinha desenhado no place mat um gráfico do nível de atenção do Leonardo com o passar das horas. A loura-mãe veio da cozinha, viu o gráfico e caiu na risada. Disse que o Leonardo foi concebido em um dia de muito cansaço e por isso saiu assim, lento. Nós ríamos, ríamos, ríamos. Vimos que as sobremesas, umas tortas com geléia de fruta (chamam-se crostate), estavam desaparecendo. A Michela, chegada num docinho, gritou pro Raposa separar um pedaço pra ela. O Mirco gritou pro Raposa separar TUDO e não vender mais doce pra ninguém. E lá vai o careca esconder a torta pros outros clientes não pedirem.

Ninguém tinha tempo de tirar a mesa, então nós mesmos começamos a reunir os pratos e copos sujos. Pegamos uns pratos de sobremesa que estavam na estante atrás de nós e fomos buscar a torta com o Raposa. Não sobrou nada. Mirco foi supervisionar a produção dos cafés, porque o Leonardo, com aquela cabeça-de-vento, era bem capaz de não lembrar mais qual era o decafeinado, e o Mirco se toma café normal não dorme por uma semana. Grappa pros meninos, superseca e nada morbida. Apesar de já ser quase meia-noite, ainda entram clientes. Mulheres estranhas, de botas brancas e longos cabelos preto-graúna, maquiagem exagerada. Leonardo se vira de repente, dá de cara com a mulher e faz uma cara de susto. Nós rimos sem parar. Michela levanta e vai pegar uma maçã da cestinha sobre o balcão. Marco pega uma banana. O Raposa sai de trás do balcão e vem conversar com a gente. Diz que trabalha na fábrica de peças de avião que tem em Foligno, mas que trabalhou durante 9 anos como salumiere e de vez em quando faz bicos em restaurantes fatiando frios.

Finalmente o movimento cai e os donos vêm conversar com a gente. São de Norcia, e têm uma osteria ali também, mas o movimento, lógico, é pouco – Norcia é mais fim do mundo ainda do que Bastia, e ainda por cima é um frio do cacete. Abriram essa em Foligno há dois meses e ainda estão tentando entender o movimento como funciona. Não estavam preparados praquela confusão toda; muito pelo contrário, achavam que, com o festival rolando, a galera ia comer na rua, nos stands, e não nos restaurantes. Mas parece que nós não fomos os únicos a não entender nada, e assim os restaurantes da cidade estavam todos lotados.

Na hora de fazer a conta, fui levar as minhas anotações pra loura-mãe, visto que conforme pegávamos novas jarras de vinho e novas cestas de pão ninguém do staff anotava nada. Ela tinha feito uma listinha daquilo que tínhamos pedido ao Leonardo. Avisei que as bruschette não tinham vindo, mas que tínhamos bebido mais vinho e coisa e tal. Ela fez umas contas malucas que não entendi, com uns rabiscos ilegíveis, fez um descontinho porque somos simpáticos e não reclamamos da demora, e no final a conta deu 20 paus pra cada um. Nada mal, porque comemos MUITO BEM, apesar do serviço completamente maluco, e consumimos nada mais do que 5 jarras de vinho da casa.

Ficamos de voltar em um dia mais normal, no meio da semana. O menu é sempre uma surpresa e o careca nos deu o número do celular pra ligar e perguntar o que rola. Disse que faz um molho de javali de comer chorando, então ficamos de ligar de vez em quando pra ver se conseguimos comer o tal javali.

Olha, sinceramente, tinha muito tempo que eu não ria tanto.

o assunto não vai esgotar tão cedo

Quinta é o dia mais light pra mim. Só tenho uma aula de português, no final do dia. Infelizmente na faculdade também só tem uma aula, Studi Culturali. A curiosidade em torno do que seria esse raio de matéria era grande.

Dei umas perambuladas de manhã cedo; consegui finalmente passar na minha médica, pegar minha receita do remédio pra enxaqueca e os pedidos dos exames; na farmácia mesmo marquei os exames (só ficou faltando a ressonância do cabeção), passei na Libreria Grande pra comprar o livro de Politica Economica, e fui pra faculdade.

Ultimamente ando com a mania de fazer percursos alternativos. Hoje, em vez de pegar aquele trânsito infernal da superstrada, peguei uma estradinha deliciosa, estilo Paineiras, que vai de Ponte San Giovanni a Ponte Valleceppi, mas se eu sair à esquerda em um certo ponto vou parar em Casaglia, uma espécie de periferia de Perugia, com casas lindas no meio do mato. Logo depois passo pela igrejona maneira perto do Policlinico, e dali pra faculdade é um pulo. No verão vai dar pra ir de lambreta numa boa. Lógico que achar vaga não é fácil, e perdi um tempo danado pra achar um lugar lá na casa do chapéu, mas pelo menos não paguei estacionamento e ainda dei uma boa caminhada. Ainda deu tempo de passar na agência das bolsas de estudos pra entregar o documento que faltava.

Quando cheguei na sala, as meninas que conheci ontem também estavam entrando. Sentamos nas mesmas carteiras de ontem, e fiquei sabendo os nomes das duas Oche Giulive e da Branquinha, que é de Terni. As Oche Giulive são do sul, uma da Basilicata e uma da Calábria, e já se conheciam antes. Tinha mais uma menina perto da Branquinha de Terni, mas não consegui ouvir de onde era. Pelo que pude notar, não tem quase ninguém de Perugia na sala. Melhor, porque os peruginos são uns pés no saco que vou te contar. Bati papo com uma menina do Molise, A Região Onde Nada Acontece Nunca, Mais Nunca Ainda do Que na Umbria. Vi que além da Mulatinha Pentelha há mais gente com cara de não-italiano.

É tão engraçado estar de volta aos bancos escolares! Quase tinha me esquecido de quanto é divertido esse primeiro momento, esse olhar pra cara das pessoas e imaginar que tipo de gente são, se estudam ou não querem nada com a dureza, se são tão burrinhas ou tão brilhantes como parecem, por que se vestem daquela maneira, meudeus, e coisa e tal. Imaginar que lá pro final do curso muito provavelmente vou estar batendo papo com outras pessoas, porque tenho pouca paciência com Oche Giulive. Ver o desespero dos estudantes imaturos perguntando, desde agora, o que vai cair na prova, quais capítulos têm que estudar, reclamando que é impossível fazer todas as matérias em um semestre, coisa de maluco, e coisa e tal. Eu já expliquei que no resto do planeta, pelo menos até onde eu sei, neguinho faz as matérias, as provas, passa de ano e cala a boca, não tem esse chora-chora que tem aqui, óooooooooo não consigo estudar tudo, óoooooooooo tem matéria demais, óooooooo é impossível e vou ser obrigada a levar 15 anos pra me formar, como todo mundo. Mesmo tendo direito a repetir as provas quantas vezes for necessário, até passar.

Falando em formatura: essa semana tem muita gente apresentando tese e finalmente se formando. Neguinho vai todo emperequitado pra faculdade, apresenta a tese de scarpin e meia fina, com a família e amigos assistindo e filmando, e no final ganha rosas e coroa de louros. Quem vê até pensa que estão se formando em, sei lá, Engenharia Nuclear… A Stranieri só tem curso mané, que nem o meu: Tecnica Publicitaria, Italiano per Stranieri, Diffusione della Cultura Italiana nel Mondo… E mesmo assim neguinho comemora como se fosse um Oscar. Acho hilário.

:))))

Estou quase me desarrependendo de não ter escolhido Lingue e Culture Straniere em vez de COMINT (o apelido de Comunicazione Internazionale).

Hoje assisti à segunda aula de Politica Economica – a primeira aula foi ontem e eu perdi. A professora é uma senhora distinta e enxuta (todas as italianas de um certo nível são senhoras distintas e enxutas; só as roceiras são gordas e cafonas), com um corte de cabelo moderno, mechas em dia, sapatos totalmente comfort, o bronzeado artificial que é a marca registrada dos italianos em geral, e uma voz firme explicando conceitos nada simples. Estranhamente consegui entender tudo (acho), mas ela me preocupou quando fui lá dizer que provavelmente não vou conseguir freqüentar as aulas e o que ela me recomenda pra não ficar boiando: alguém que te ensine a parte matemática, minha filha, porque é a única coisa difícil desse curso. Isso dito a alguém que não é capaz de fazer a mais simples regra de três de cabeça. Vai ter que rolar muita mamãe no Skype pra me explicar aqueles gráficos malditos de oferta e domanda.

Fiz discreta amizade com o grupinho que senta na frente. Nunca fui CDF, mas não consigo prestar atenção se ficar no meio dos farofeiros, e também prefiro olhar bem pra cara do professor e escutar direitinho o que ele diz, pra não perder nada. Então sentei na segunda fileira, do lado de uma menina branquiiiiiiiiiiiiiiinha, com uma cara de boazinha daquelas tão mas tão intensas que dá vontade da gente abraçar a criatura. Na primeira fila, duas “oche giulive”, songa-mongas com sombra rosa-paquita nas pálpebras, penteados arquitetônicos e letrinhas redondas. A Boazinha escreve de lápis em caderno pautado, êba, é normal!, enquanto que as songa-mongas têm aquelas letrinhas redondas e infantis que eu detesto, escrevem de caneta e usam caderno quadriculado, uma praga nacional que eu jamais vou conseguir entender. Le Oche Giulive (/leo’kedjiu’live/) são esquisitas mas pelo menos prestam atenção. Mas tem uma mulatinha com ares de rainha zulu que fala o tempo todo lá atrás, e quando levanta a mão é só pra dar palpite idiota. O resto da turma, quase tudo mulher, tende a ficar quieto e prestar atenção. A mulatinha vai acabar rodando, não tenho dúvidas. Professor nenhum do mundo atura aluno pentelho, idiota e pseudo-inteligente.

A segunda aula foi MUITO maneira. O professor é um toscano, jovem, bonitinho, com cara de esperto – me lembra um pouco aquela mala do walras, só que bonitinho, entende ;) Ensina Comunicazione Politica e gostei muito do programa do curso que ele delineou – delineou, porque o programa inteiro, o livro do estudante, o calendário de provas, nada disso ainda foi decidido, e portanto ainda não impresso. Universidade na Bota é assim. Demos muita risada e aprendemos muita coisa. Sexta-feira tem mais. Pena que muito provavelmente não vou conseguir assistir às aulas de quarta – hoje só rolou porque os meninos de Marsciano cancelaram. Ele já avisou que ou freqüenta direito ou fica em casa, mas eu sou mula e vou insistir e fingir que não é comigo. Só espero ter paciência e tempo pra estudar e não decepcionar o lindão.

Cheguei em casa com uma dor nas costas desgraçada. Tinha esquecido como são desconfortáveis as carteiras arqueológicas da Stranieri. Nossas aulas de hoje foram na mesma sala onde estudávamos Linguistica Italiana com aquele louco desvairado do Katerinov, no longínquo 2002…

niente scuola oggi

Hoje não pude assistir a nenhuma das duas aulas, Marketing, com aquele velho idiota, e Politica Economica. A partir de novembro também vou ter Linguistica Italiana às terças-feiras, que vai ser a única do dia que vou conseguir seguir – desnecessário dizer que é a única cujas aulas não vão fazer a menor falta e a que tem menos créditos.

Quando cheguei em casa tinha um e-mail da agência de bolsas de estudos me esperando, dizendo que faltava um documento. Não sei quando vou poder ir lá entregar, porque os horários deles são completamente impraticáveis.

Essa noite sonhei que tinha descoberto um lugar perfeito pra estacionar, perto da faculdade. Veja a que nível de desespero estacionômico eu cheguei.