haja saco

Mais uma tarde de aula em Cascia.

Perguntei pro Michael se os adolescentes dele também eram mal educados, e ele disse que sim. Menos mal, quer dizer que não sou só eu. Vocês tão carecas de saber que eu sou chata e autoritária, e aluno na minha turma dificilmente cria problema, mas essa turma, vou te contaaaaaaaaaar! Michael, quando tinha um filho pequeno, foi chamado pra ir à escola pra uma espécie de Show and Tell – imaginem, um pai inglês em uma cidadezinha pequena, era uma coisa totalmente alienígena. Ele disse que conseguiu ouvir e responder só às primeiras perguntas, porque depois começaram a fazer uma bagunça tão grande que ninguém entendia mais nada. Ele ficou tão traumatizado com a experiência que se mudou pra Bélgica com a família toda, pra evitar que os filhos fossem educados à moda italiana ;)

Mas enfim. Esses alunos de Cascia são um desastre. Primeiro porque não faz muita diferença a minha presença e a do Michael ali, já que eles estão se preparando pro PET e pro FCE, que são exames prevalentemente escritos e concentrados na gramática, ou seja, qualquer um que saiba gramática da língua inglesa resolveria o problema. Segundo que temos pouquíssimo tempo pra nos preparar, e todo mundo sabe a dificuldade que os italianos têm com a língua inglesa. Terceiro que são todos péssimos mesmo e ninguém vai passar na prova, nem os da minha turma e nem os do Michael. Mas tudo bem, pagam, então nós continuamos indo lá uma vez por semana pra aturar os monstrinhos que não calam a boca um minuto sequer. Ô povo mal educado!

la prima volta non se la dimentica nessuno

E finalmente chegou o dia da minha primeira prova oral. Êeeee!

Ê uma ova. Foi horrível.

Eu nunca fui de ficar nervosa antes de prova nenhuma. Nem no vestibular. Também não tenho medo de professor italiano, que aqui é tratado como um sultão. Muito menos de falar em público, cês sabem, né. Mas não sei o que me deu hoje; passei a manhã nervosíssima e em vez de fazer a porra da prova logo e ir embora almoçar com calma, fiquei enrolando, enrolando, tentando entender os cochichos de quem fez a prova antes da gente (eu, Ludovica e Elisa estávamos nervosíssimas, as três). Resultado: acabei fazendo uma prova ridícula, e nem pedi pra ele fazer outra pergunta sobre o livro do Rifkin pra aumentar a minha nota (fiquei com 25/30). Respondi mal a todas as perguntas que ele fez sobre a horrível apostila dele mesmo, confusíssima e cheia de nomes e assuntos diferentes sem nenhum fio condutor. Eu só tinha lido a apostila no domingo, muito en passant porque era um saco mesmo, mas como sei que ele é legal e bem flexível, tinha encasquetado que na hora iria pedir pra ele perguntar do livro. Ele esqueceu, e eu também. Mula.

Resultado: vou fazer a prova de novo em junho, pra ficar com uma nota melhor. Vou aproveitar que aqui tem essa mamata pra não ficar com nota feia na caderneta. E vou decorar aquelas porcarias todas de nomes de autores, Cassano, Leopardi, Gramsci, e tudo o que eles disseram, teoria por teoria, por mais sem sentido que seja a maldita apostila. E vou escrever RIFKIN em vermelho gigante na palma da mão pra eu ficar esperta e lembrar de pedir a ele pra me interrogar sobre coisas que eu estudei direito. Cês vão ver.

Fomos ver Prime hoje, aquele com Uma Thurman e Meryl Streep. Meio bobinho às vezes, mas bem divertido, e eu adoro as roupas da Uma Thurman. Dá pra passar o tempo. Comi até pipoca murcha do bar do cinema, coisa que vai contra os meus princípios. Mirco nem dormiu, acho.

jantar

Pra variar, jantamos fora. Dessa vez com Mario e Maria Rita, que já estavam saindo pra jantar com outros amigos e nos incluíram no programa. Fomos à Locanda dei Golosi, lá na casa do chapéu, onde fomos com Spartaco e cia há pouco tempo. O mesmo garçom fedorento, socorro! Mas comemos bem, e batemos altos papos.

Nessas horas é que eu vejo como a vida é estranha. Meu namorado é lanterneiro, Mario tem uma loja de flores e a mulher, siciliana, é ex-cabeleireira e ex-caixa da Metro. O outro casal era uma advogada grávida e um contador. O outro casal é uma caixa da Coop e um técnico de informática. Variedade é isso. Lógico que não rola discutir cinema ou literatura com essa gente, mas eu acabo sempre dando risada e aprendendo alguma coisa. De vez em quando é até bom socializar, sabe…

clúnei

Apesar do cansaço total e absoluto, resolvemos ir ao cinema depois do trabalho. Fomos com Gianni ver Syriana, mas quem disse que conseguimos ver tudo sem capotar?

O filme é muito estranho e meio angustiante, e fiquei triste de ter perdido várias partes porque aí é que não entendi nada mesmo. Mas como tinha muita, mas muita gente roncando no cinema, é bem provável que o filme seja só chato pra cacete mesmo…

livrim

Semana passada li Swallowing Grandma, um livro esquisito que comprei porque gostei do nome e da capa. Não sei nada da autora e a sinopse atrás não explica muito bem do que se trata. Ou melhor, até explica, mas a história é confusa e cheia de reviravoltas inesperadas. Não é dicotômica, os bons são maus e os maus também são bons, a personagem principal vira bulímica durante a história e esse conflito não se resolve, enfim, é meio estranho, mas passa o tempo. Não é pra comprar, mas se tiver dando sopa na biblioteca, pelo menos ajuda a distrair enquanto a fila do correio não anda.

giri

Aproveitei a manhã livre pra resolver várias coisas em Bastia e Santa Maria: passei no caseificio pra comprar ricota fresca, scamorza e caciotta, dei um pulo na Rita pra comprar maçã e tomate-cereja, na volta passei na depilação e enquanto ela terminava uma cliente fui à biblioteca de Bastia me inscrever.

No Rio eu cheguei a freqüentar uma biblioteca no Leblon quando era pequena – minha mãe já estava na Secretaria de Cultura e na época acho que fazia alguns trabalhos pras bibliotecas – e eu li tudo que é Asterix e A Inspetora que achava por lá. Mas era uma bibliotequinha meio tabajara e aqui eu ainda não tinha entrado em uma.

Antes não tivesse.

Fica no segundo andar de um prédio de apartamentos e escritórios (aqui é muito comum misturar tudo) que fica em cima de uma loja imensa de vestidos de noiva. Empurrei a porta encostada e dei de cara com uma sala não muito grande, com algumas divisórias horríveis e etiquetas amarelas escritas com letra garranchuda dividindo as seções dos livros. Logo atrás de mim entrou uma turma de colégio, com um bando de pré-adolescente fazendo barulho atrás da professora – excursão, putz. Uma das duas bibliotecárias me dispensou solenemente pra atender os delinqüentezinhos, e me deixou nas mãos da outra.

A Bibliotecária Loura é assim: uma senhora de uma certa idade mas que ainda não sabe disso, de vestido vermelho e botinha, batom vermelho, faixa vermelha na cabeça cobrindo as raízes dos cabelos platinados. A clássica funcionária pública ineficiente e clinicamente histérica. Levou três horas pra copiar meu nome na ficha, e isso só depois de me olhar como um E.T. quando eu disse que só queria me cadastrar, porque não tinha tempo de escolher nada. Não pode fazer ficha sem levar livro, disse. Anotou tudo de caneta na ficha, com aquele garrancho hediondo, pra depois inserir tudo no computador. Me acompanhou até a meia-prateleira de livros em língua original; nada digno de nota, então catei umas anotações no caderninho fofo que a Newlands me deu em novembro e achei uns nomes perdidos de livros em italiano que os meninos tinham sugerido na mailing list do curso de narração. Acabei levando Tre Cavalli, di Erri de Luca, que não sei quando vou conseguir ler. Algo me diz que não vou gostar, mas não dava tempo de escolher melhor.

Ainda dei aula de português pra Begonia, passei na Libreria Grande pra pegar um livro de Sociologia, e fui direto pra escola pegar o Michael pra ir a Cascia. Detesto ir a Cascia. Bando de adolescentes delinqüentes! Terça-feira é um porre mesmo.

ano novo, casa nova

Então hoje o que aconteceu foi o seguinte:

Mirco comprou apartamento.

Digo Mirco porque eu não tenho um tostão furado, vocês sabem.

O prédio ainda não tá pronto; vai ficar em fevereiro do ano que vem, mas o esqueleto já tá de pé. Lógico que todos os apartamentos já tinham sido vendidos ainda na planta, mas um salame que tinha dado a entrada e ficado na esperança da mãe dar a grana pra pagar o resto acabou voltando aos prontos pedindo a entrada de volta, porque a mãe do pimpolho (de 40 anos – o pimpolho, não a mãe) resolveu não patrocinar mais nada. Ficamos sabendo da construção do prédio porque o Gianni viu um anúncio no mural da piscina de Bastia; ligamos e calhou de ter só esse apartamento que o salame tinha acabado de devolver. Não pensamos muito e compramos (o –amos é metafórico, mas vocês entende).

O apartamento tem três quartos e 100 metros quadrados, mais 32 metros de varandão delicioso. Fizemos algumas modificações na planta pra poder ter uma cozinha com janela; o construtor disse que ninguém mais faz cozinha fechada, mas só angolo cottura (sala e cozinha juntos, como aqui em casa) porque ninguém mais cozinha em casa. Todo mundo explorando a cozinha da mamma, cês sabem. Mas pra certas coisas somos convencionais e não queremos sofá fedendo a molho de cogumelos, então tivemos que inventar umas prosopopéias arquitetônicas pra resolver o problema. Também dividimos um dos banheiros em duas partes, pra poder ter uma mini-área de serviço com tanque e máquina de lavar roupa, e isso por dois motivos: primeiro que eu não consigo conceber casa sem tanque (aqui neguinho lava pano de chão no box ou na banheira, um nojo, pra não falar da dor nas costas), segundo que cansei de congelar minhas mãozinhas tirando roupa da máquina de lavar na varanda, e agora quero a máquina den-tro-de-ca-sa. Como não queremos banheira (e aqui todo mundo fica escandalizado com isso, que nem quando eu saio de casa de cabelo molhado), ganhamos espaço no banheiro e deu pra dividir legal. O outro banheiro vai ser incluído no quarto pra virar suíte, outro conceito desconhecido por aqui. A divisão da sala é meio estúpida mas se eles fizerem do jeito que a gente quer, vai ficar legal.

Agora é apertar o cinto por muitos e muitos anos pra conseguir pagar o apartamento. Eu vou tentar pagar pelo menos a cozinha inteira, mas pra isso os meus caros alunos precisam parar de ficar doentes toda hora e faltar aula…

casanova, giacomo casanova

Fomos ver Casanova hoje com o Moreno. O filme é uma bobagem gigantesca, o Jeremy Irons tá ali com aquela cara de Jeremy Irons, a atriz principal é MUITO bonita, e eu odeio o ator principal, odeio, odeio; mas o figurino é uma diliçaaaaaaaaaaaa! E eu adoro ver Veneza no cinema. Assim, de longe, até parece que é uma cidade superviável e vivível…