jantar marromeno

Como hoje eu ainda estava meio assim-assim, Mirco resolveu jantar fora. Veio me encontrar em Foligno, deixamos a Uno largada em um canteiro em um lugar de pouco movimento e fomos pra Trevi. Quem indicou o restaurante foi o Gianni, que é um amor mas meio complicado; levamos séculos pra achar o tal lugar, que é escondido pacas. Restaurante bonitinho, bisteca fiorentina cheirosa na mesa ao lado, eu não tava com muita fome porque só tinha conseguido almoçar às quatro da tarde, mas como tinha sido basicamente tudo abobrinha e cenoura e pouquíssimo macarrão, achei que poderia encarar um jantar. De primo encaramos o risotto della casa, mínimo duas pessoas (veio uma bandeja inteira, comida pra cacete), delicioso, com tartufo e uma espécie de creme de queijo (a garçonete disse que era gruyère e parmesão). Mirco pediu filetto al pepe verde, que veio mais altinho e suculento do que o normal, e eu fui de scamorza, meu queijo preferido, na grelha – nada de particular. Não conseguimos terminar a garrafa de Rosso di Montefalco, nosso vinho mais amado. Estávamos tão cansados os dois que nem curtimos nada direito. Mas foi a primeira vez que fomos a Trevi; a cidade é lindinha e de dia deve ser uma delícia. Ficamos de voltar.

E pra sair da cidade? Cacetes estrelados, mas um mínimo, um mínimo de sinalização estradal não, né? A cidade fica no alto de uma colina e é óbvio que precisávamos descer, mas por onde, se giramos em círculos várias vezes e demos de cara com várias ruas fechadas ou com mão invertida por causa de obras? Depois de uns 15 minutos conseguimos finalmente achar a estrada certa. E como quarta-feira é o pior dia da semana em termos de televisão, nada nos restou a fazer senão dormir e digerir.

caramba

Ótima surpresa hoje: primeira “aula” de conversação com um engenheiro que mora aqui em Bastia e que precisa refrescar o inglês porque parte pros EUA a trabalho por uma semana. Meu melhor aluno até hoje: ótima pronúncia, erros poucos e bobos, bom vocabulário. Nada surpreendente, queridos, porque ele é um homem que lê. CONHECI UM ITALIANO QUE LÊ. Um engenheiro, of all things. Simpático, educado, inteligente, gosta de viajar, come coisas estranhas quando viaja, e lê, inclusive em inglês. Não é um espanto? Normalmente conversação é um porre, mas nossa hora hoje passou voando. Não falta assunto pra quem se interessa por tudo. Que coisa maravilhosa!

casa dolce casa

E pra compensar a canseira de ontem, e porque o Mirco trabalhou o dia inteiro, fiz só uma vitamina rápida pro café da manhã e sentei ao computador pra projetar nossa cozinha no Kitchen Planner da IKEA. Passei o dia INTEIRO só nisso – parei pra almoçar na casa dos tios do Mirco, e depois do almoço ele dormiu até as oito da noite – e devo dizer que me diverti horrores. Aproveitei pra também esquematizar a nossa futura lavanderia e pra catar inspirações de móveis na internet. Jantamos uma pizza no Penny Lane e chapamos. De vez em quando um domingo nada assim cai muito bem.

Roma é tudo na vida, parte dez elevado a vinte e seis

Não dormi muito bem. Acordei às quatro da manhã e comecei A Short History of Nearly Everything, do Bill Bryson, aquele que a Cora comentou há algum tempo e que já estava na minha estante há séculos me esperando. Estou AMANDO e quase fiquei triste quando chegou a hora de levantar e ter que parar de ler pra me arrumar, tomar um bom café da manhã e sair correndo pra pegar o trem das seis e vinte pra Roma.

Porque hoje foi dia de Roma, queridos, aquela que é tudo na vida.

Li um pedação do livro no trem, mas trem bom é trem que te adormece, e não ofereci resistência: chapei mesmo e só acordei em Orte, com o Mirco telefonando perguntando se tava tudo OK. Sim, sim; abandonei o pobre Bill e fiquei admirando a vista da janela. A viagem de trem pra Roma é uma das minhas preferidas. Vê-se de tudo: cavalos no “quintal” de galpões, carneirinhos pastando, cachorros pastores, casas lindas e imensas, casas horrorosas amontoadas praticamente de cara pra linha do trem, roupas nos varais, bosques, outros trens, carrões de luxo estacionados em frente a casas que caem aos pedaços, pinheiros alinhadinhos no topo de colinas. Gradualmente fomos abandonando a neblina invernal da Umbria, e quando cheguei a Roma o céu estava aberto.

Eu tinha combinado com a Julie que se chegasse em Roma e o tempo estivesse uma titica eu esperaria por ela lá mesmo, lendo meu livrinho, mas com o céu azulzinho não tive outra alternativa: saí perambulando pelas ruas, e marquei de encontrar a Julie na Piazza Barberini. Eu nunca faço o mesmo percurso quando vou a pé da estação ao centro (eu SEMPRE vou a pé da estação ao centro), e hoje não foi diferente: poderia ter chegado à Barberini rapidinho, mas, depois de uma perambulada na estação pra ver as vitrines, embiquei na Via Cavour e dei uma volta desgraçada, virando aqui e ali, seguindo o meu péssimo instinto de orientação e fuçando ruelas e escadarias. Virei na Via degli Annibali e dei de cara com o Coliseu. Peguei a Via dei Fori Imperiali, passei em frente ao Foro Romano assim como quem não quer nada (cês tão entendendo direito o que eu tô falando? PASSEI EM FRENTE AO FORO ROMANO, DEI DE CARA COM O COLISEU, ETC ETC. Roma é realmente tudo na vida.), caí naquele furdúncio da Piazza Venezia, peguei a inevitável Via del Corso, entrei na nova Galleria Esqueci o Nome bem na hora em que tavam abrindo a Zara e a galera que tava esperando na porta entrou estourando boiada, saí da Galleria e depois do Palazzo Chigi virei na Via del Tritone, que subi até chegar à Barberini. Não sei como a Julie me viu e reconheceu lá da casa do chapéu, deu tchauzinho e lá fui eu encontrar mãe e filha. Eu trouxe pra Camila um exemplar do Gênio do Crime que comprei no Rio em novembro passado e tava só esperando uma oportunidade de dar o presente. Espero que ela goste. As duas são muito simpáticas e é muito engraçado ouvir a Camila falando português com sotaque baiano e italiano com sotaque napolitano :) Dali descemos toda a Tritone de novo, passamos por trás da Piazza Colonna e de Montecitorio, ali pela zona do Pantheon, e fomos pegar sol sentadinhas na Piazza Navona. Batemos papo até a Ane ligar: estava estacionando o carro lá na casa do chapéu, e dali a meia hora deveríamos nos encontrar com ela em frente à Zara da tal Galleria. Voltamos tudo de novo até a Via del Corso e entramos na galeria, que é linda, pra esperar Ane e companhia.

Quando finalmente chegou, quase tive dois trecos: primeiro porque eu gosto MUITO da Ane e do Alfredo e tenho uma imensa admiração por ambos; segundo porque a Isabella é a coisa mais fofa simpática e sorridente desse planeta. Você olha pra cara dela e ela ri. Você faz careta e ela ri. Você mexe qualquer parte do seu corpo sem um propósito específico e ela ri. E ri franzindo o nariiiiiiiiiiiiiiiiiiz! Sabe criança que você quer morder de tão gostosa? Ecco.
Dali caminhamos mais um pedaço de volta à zona Pantheon, pra catar o restaurante que o Alfredo tinha reservado pro almoço, seguindo uma dica de um amigo. Chama-se, se não me engano, La Tavernetta, fica na Via degli Spagnoli (uma ruazinha insignificantemente linda perto da Piazza delle Coppelle) e é administrada por brasileiras. Pagamos dez euros por cabeça e comemos um primo e um secondo (o menu é bem limitado, lógico, mas tudo dá vontade de comer), bebemos água e vinho. Nada de extraordinário, mas honesto. Dali voltamos ao Pantheon pra encontrar outras duas primas da Julie, voltamos ao restaurante pra elas almoçarem, voltamos ao Pantheon pra catar a Gelateria della Palma (na Via della Maddalena), que faz uns sorvetes divinos e onde eu SEMPRE vou pra tomar sorvete de maracujá, de novo ao Pantheon pra reencontrar a família da Julie, e de lá a pé pro Coliseu, que elas ainda não tinham visto. Quando eu cheguei, bem cedo, não tinha nada de especial nas ruas, mas àquela hora da tarde já havia vários tapumes montados pra Maratona di Roma do dia seguinte. Fui batendo papo com o Alfredo e desviando dos tapumes e dos turistas. No Coliseu nos despedimos, e voltei a pé pra estação, sempre pela Via Cavour porque meu trem saía dali a meia hora e eu não podia me dar ao luxo de me perder, embora a vontade fosse grande. Àquela altura do campeonato meus pés também já tavam digamos pedindo arrego, e, agradecida a mim mesma por ter saído de casa com a mochila praticamente vazia, foi com grande prazer que sentei na minha poltrona do Eurostar (não tinha trem de pobre naquele horário) e continuei com o Bryson. Eurostar não é Eurostar se não atrasa; cheguei em Foligno com três minutos de atraso, e o trem da conexão pra Perugia estava só nos esperando. Em vinte minutos estava em Bastia. Mais cinco minutos de carro e cheguei em casa.

Felizmente Marco e Michela tinham desistido de jantar fora, porque eu não teria agüentado não. Eu AMO passear a pé em Roma e o dia foi maravilhoso, mas muito cansativo. E vou fazer uma pequena confissão aqui: eu prefiro perambular em Roma sozinha. Não sei por qual motivo, mas não gosto de dividi-la com ninguém. Tudo bem que eu caminho rápido demais e detesto esperar gente lenta, mas não é só isso. Gosto de passar horas quietinha, sem trocar uma palavra com ninguém, só observando e cheirando e ouvindo e pensando. Amo.

fante

Terminei Ask the Dust, do John Fante, mas, quer saber?, não me impressionou muito não. DETESTO personagens que fazem tudo errado sempre. Vou ficando irritada e não consigo ver mais nada no livro além de uma grande irritação. Também não sou muito chegada em malucos, então já viu. Mas enfim, é um livro que TEM que ler, então li. Missão cumprida.

i cavalli

Os cavalos me reconheceram hoje :) Quando desci do carro vieram todos na minha direção. Não vi o potrinho, mas tive que entrar correndo no galpão pra dar aula porque cheguei em cima da hora. Quando saí, lá vieram eles de novo pra perto de mim. Estou eu distribuindo as maçãs quando sinto um bafo no meu braço. Era o potrinho, que não sei como tinha conseguido fugir da cerca! Tinha uma feridinha pequena na lateral direita do pescoço, sem dúvida por causa do arame farpado, e me olhava com aqueles olhinhos tristes e assustados de quem não conhece nada de bom nessa vida. Dei-lhe uma maçã pequena que ele pegou com os dentes, mas sem saber bem o que fazer com ela, ficou lá, com a fruta presa na boca, os beiços arreganhados, sem ir nem vir. Acabei cortando a bichinha em pedaços e só assim ele comeu. Depois coçou a coxa no meu carro. Fiz muito carinho nele, que no início se assustou mas depois curtiu.

A cada dia que passa mais eu tenho vontade de virar vegetariana.

:)

Por uma feliz coincidência de cancelamento de aulas, consegui passar o dia inteiro na faculdade hoje. No total, sete horas de aula, obá! De manhã, inglês com aquela louca desvairada, que, fora alguns assassinatos fonéticos, fala muito bem. Mas é louca, então não conta. Eu tinha levado meu almoço, como sempre, mas como fiquei depois da aula corrigindo deveres de inglês dos colegas, que a maluca manda fazer mas NUNCA corrige, acabou ficando tarde e fui convidada pra almoçar na mensa (o bandejão) pela Giorgia, felizmente o único exemplar perugino da turma. Acabamos dividindo a mesa com o Ioannes, o tal grego que tinha me aconselhado a colar na prova de Linguistica Generale, e que usa aquela faixa no cabelo que nem jogador de futebol argentino. Vou dizer uma coisa, não comi nada mal (tortiglioni, que é um tipo de macarrão que eu e o Mirco odiamos, com molho de tomate bem gostosinho; mais uma porção de batatas fritas meio murchas mas OK, mais pão que levei pra casa e mais maçã e mais água) e paguei míseros 1,80 euros. Eu teria direito à carteirinha pra comer de graça, porque sou pobre, mas não tenho tempo de passar na agência pra pegar e como não assisto às aulas mesmo, o bandejão não me serve.

Depois do almoço, direto pra aula de Linguaggio della Devianza, que basicamente estuda a criminalidade organizada ou não. A professora é uma criminóloga toscana (todos os nossos melhores professores são toscanos) gordinha, com voz firme e claramente pulso idem. O assunto foi máfia; duas horas de máfia, desmascarando mitos e esclarecendo coisas – as bolsas Gucci falsificadas que se encontram em todo camelô senegalês de qualquer grande cidade italiana são fabricadas, e muito bem fabricadas, em estruturas pertencentes às diversas organizações mafiosas do sul da Itália. São tão bem feitas que a Guardia di Finanza já encontrou várias vezes bolsas falsificadas nas lojas originais – nem os próprios gerentes das lojas, habituados a lidar com os produtos originais, reconheciam a diferença. As fábricas ficam no sul do país, lógico, e são especializadíssimas. O comércio ilegal organizado pela máfia é todo bem compartimentalizado: senegaleses não se envolvem com drogas, então vendem bolsas falsificadas. Com os chineses ninguém consegue se misturar (muito menos compreender). A “importação” de imigrantes ilegais é quase sempre uma atividade mafiosa, assim como a especulação imobiliária. o desembarque das tropas americanas na Sicília na Segunda Guerra só foi possível porque os chefes mafiosos deixaram. Foram duas horas muito interessantes.

E à tarde tivemos três horas de Teorie e Tecniche di Comunicazione di Massa, com a jovem professora toscana que fala rápido e deixa os meus colegas desesperados e revoltados, ho ho ho. Falou-se de Matrix pra ilustrar o fato de que hoje só sabemos do mundo o que a mídia nos diz, que não é tão fácil distinguir realidade de ficção, etc. Falou-se da versão italiana de The Nanny, que rebatizou a Fran como Francesca e lhe deu uma origem ciociara, uma coisa meio Sophia Loren, meio vulgar, meio desbocada, pra permitir que os espectadores italianos achassem graça na coisa, já que por aqui ninguém sabe nada da cultura judaica e piada de judeu não existe. Também foi interessante, mas perdi os últimos dez minutos, porque tive que sair correndo pra dar aula pro arquiteto, aquele do cachorro preto.

Mas eu adoro dias assim. Vou dormir com o cérebro devidamente exercitado e devidamente agradecido.

opá

Estou eu indo tranqüilamente pra faculdade, pra assistir à aula de sociologia, quando escuto, já nas redondezas do estacionamento, um ploft. E depois do ploft um barulho de coisa metálica se arrastando no asfalto – namely o meu cano de escapamento. Sorte que deu pra estacionar e assistir à aula normalmente; no intervalo liguei pro Mirco, e depois da aula ele veio com o Moreno e várias ferramentas pra dar uma olhada. O escapamento simplesmente explodiu, o que não é surpreendente, considerando a qualidade do asfalto de todas as estradas de todos os percursos que eu faço rotineiramente. Pra ir a Ponte San Giovanni (à livraria ou ao Ipercoop) todo mundo dirige na esquerda, porque a pista da direita de toda a estradinha que atravessa a cidadezinha de Collestrada é uma sucessão infinita de crateras lunares. Quando vou de scooter pulo feito um cabrito. Pra ir pra Foligno, idem; a superstrada anda detonadíssima na pista da direita, onde rodam os caminhões. As ruazinhas por trás da Coop de Foligno, por onde passo pra evitar dar uma volta enorme no caminho pra escola, são esburacadérrimas e tem um buraco em especial que eu JAMAIS consigo evitar no caminho de volta pra casa, à noite (cês sabem que eu não enxergo nada à noite), e o barulho que o carro faz quando passa por ele é assustador.

Então foi isso, a descarga bateu em alguma coisa e estourou. Mirco desmontou a bichinha e voltou pra casa com o carro fazendo o maior barulhão. Deixou o Volvo comigo e lá fui eu pra Foligno ouvindo Loreena McKennitt :)

saco cheio

Esse clima britânico JÁ ENCHEU OS COLHÕES. Não pára de chover e fazer frio há semanas e ninguém agüenta mais, tá todo mundo deprimido e doente e sem saco e sem conseguir se concentrar. PORREEEEEEEEEE!

Meno male que hoje tem o terceiro episódio de Lost.