ensaboa, mulata

Arrumamos uma faxineira.

Mirco se assustou muito com a minha última crise de enxaqueca, porque cheguei a meio que delirar de tanta dor. Ele acha, em parte com razão, que as crises vêm quando estou estressada e/ou cansada demais, então resolveu chamar alguém pra limpar a casa. É uma romena chamada Monica, muito esperta e com um italiano perfeito. Mora aqui perto, com um motorista de caminhão, também romeno, que trabalha com o pai e o irmão do Dejan, aquele menino sérvio que trabalha pro Mirco. A empresa de transporte onde eles todos trabalham é cliente do Mirco, por sinal; aqui é tudo assim, todo mundo conhece todo mundo, e quando aparece cliente novo, antes de aceitar o serviço, o Mirco sai ligando pra cima e pra baixo pra saber quem é fulano, se paga direito, se é picareta e coisa e tal. Enfim, a garota então é de confiança, e já tinha ido fazer faxina na oficina e o Mirco deu o OK. Quando era pequeno, ele vivia na oficina do Ettore, e, enquanto não podia trabalhar direito porque era pequeno demais, fazia a limpeza, então é sempre ele que dá o OK pra eventuais faxineiros, e ser limpo é condição fundamental pra contratação de qualquer operário. Dado o OK pra Monica, lá veio ela. Quando chegou eu tinha acabado de voltar da corrida, estava toda descabelada e com o rosto vermelho (eu praticamente não suo, só vasodilato). Mostrei onde estavam todos os produtos de limpeza e deixei-a cuidando dos banheiros enquanto fui de bici aos correios pegar o pacote que meu pai tinha me mandado (os CDs novos da Marisa Monte). Aproveitei pra ir ao contador também, deixar meus contra-cheques e tirar umas dúvidas, e quando cheguei em casa a Monica já tinha quase terminado a zona notte (quartos e banheiros) e tava passando pra sala e pra cozinha. Ficamos batendo papo, ela limpando a cozinha e eu plantando mais duas piante grasse na varanda, até meio-dia, quando ela foi embora e eu fui tomar banho e almoçar pra ir pro trabalho.

Nem acredito que a casa está um brinco e eu não precisei mover uma palha. Fazer faxina nesse apartamento estúpido, mal dividido e mal decorado está ficando mais difícil a cada dia que passa, não tenho mais paciência mesmo, então é bom ter alguém pra ajudar. Faxina feita hoje significa sábado de manhã livre, o que cai como uma luva, visto que tenho que ir à Marini Edilizia escolher azulejos e piso frio pra casa nova. Também precisaria estudar, porque segunda-feira tem prova de sociologia, mas enfim…

as lesmas

Que diliça ir correr de manhã cedo, quando o ar é fresco e o sol não queima, ouvindo Sugababes e Elvis e The Pretenders no mp3 player!

Já falei aqui que tem épocas em que a gente vê um porco-espinho morto atropelado a cada metro que faz. Parece que agora estamos no período das lesmas. O asfalto está coberto de manchas escuras, cada uma correspondendo a uma lesma esmagada. Tadinhas; corro olhando pro chão pra não pisar em nenhuma, mas são tantas! Lesmas ou minhocas, não sei direito, porque são meio rosadas mas não têm aquele movimento típico das minhocas, sei lá. Que diferença pode fazer pra uma minhoca estar num campo de trigo aqui ou num campo de trigo do outro lado da estrada, não sei dizer. Mas deve valer muito a pena, a julgar pela quantidade de tentativas…

bizarrices

E hoje foi dia de passar a manhã em Perugia. Tinha consulta no Centro Cefalee ao meio-dia e meia, então aproveitei pra subir mais cedo e passar na agência da bolsa de estudos pra tentar resolver um pepinão (que, lógico, não consegui resolver). Como sempre, estacionei no estacionamento onde rola a feira de Ponte San Giovanni às quintas, mas quando cheguei no ponto de ônibus vi que o 3 tinha acabado de passar, então me sentei no banco de cimento pra esperar o próximo, que passaria vinte minutos depois. Um casal de meia idade vinha vindo pela calçada da outra direção, debatendo animadamente sobre o que me pareceu ser política (ele falava em metáforas e ela falava ao mesmo tempo que ele). Me perguntaram se o 3 tinha passado, respondi que o tínhamos perdido, e tirei da bolsa Il Cammello e la Corda, já quase no fim, pra ler enquanto esperava. O homem, barbudo e vestindo um terno xadrez fora de moda, esticou os zóio pra ver o que eu estava lendo. Levantei o livro com a capa virada pra ele, e ele, aaaaaaaaaah, a [editora] Sallerio! Como eu gosto da Sallerio! É bom esse aí?

Dali engrenamos num papo maluco porque a cada dois minutos ele desviava o assunto da conversa pra outra coisa. Acabei descobrindo que ele é professor de física na Università degli Studi di Perugia, e ela ensina arqueologia na universidade de Siena. Ele já morou fora, estudou nos EUA, e se comunica com os alunos por e-mail, enquanto que ela, peitudíssima e com os dentes castanhos, disse que a única tecnologia com a qual tem intimidade é a que existia até o século II d.C., e mais não lhe interessa. Conversavam animadíssimos, um corrigindo o outro, um completando a frase do outro, mudando de assunto toda hora mas sem mais deixar cair a peteca. Dei muita risada porque foi um papo completamente sem pé nem cabeça, que continuou no ônibus. Ele queria saber se Falcão, Tostão e seleção se pronunciavam “ón”; corrigi e expliquei, e ele ficou meio sem graça porque acho que passou a vida toda dizendo Falcón como se fosse entendidíssimo de português. E se a mulher não o tivesse arrastado pra fora do ônibus quando chegou no ponto deles, ele teria continuado ali, tentando dizer seleção em vez de seleçón.

Adoro esses encontros malucos tipo Forrest Gump.

il cammello e la corda

O tal Il Cammello e la Corda é um livro meio estranho, porque faz um vai-e-vem cronológico entre a Sicília romana dos primeiros anos de Cristianismo e a época atual. O autor, Seminerio, não tem o mesmo charme do Camilleri, mas as descrições são interessantes, e os personagens idem. Saldo positivo, mas não é um livro assim ooooooooooh. Pra passar o tempo.

A editora é a Sallerio, de Palermo, que também publica os livros do Camilleri e vários outros autores sicilianos, então a sensação é a de estar em casa, mesmo mudando de autor. Interessante ver que o ponto de vista não muda muito – aparentemente o povo siciliano, independentemente da província que se está levando em consideração, é muito homogêneo como personalidade, e muito consciente disso. É sempre muito interessante ler autores sicilianos, de Sciascia a Camilleri a outros que provavelmente ainda vão cruzar o meu caminho.

cosa nostra, ainda

O livro do Falcone, que acabei de acabar, é muito interessante. Na verdade é uma coletânea de entrevistas que ele deu a uma jornalista siciliana, correspondente de um jornal francês. Aprendi muitas coisas:

. Que a máfia siciliana está por trás daquela calabresa (a ‘ndrangheta) e que abomina a camorra napolitana, desorganizada, descentralizada e segundo eles, desprezível.
. Que a máfia siciliana deu origem à máfia americana, mas que hoje são completamente independentes e autônomas.
. Que siciliano fala pouco pra não falar demais. Que o comportamento mafioso não é nada além da exacerbação do comportamento siciliano. Que mafioso não mente nunca; quando não pode dizer alguma coisa, fica calado.
. Que não existem diferentes variedades de assassinato, dependendo da ofensa cometida pela vítima: a máfia escolhe simplesmente a modalidade mais rápida, segura e viável.
. Que a Cosa Nostra não administra oficialmente nenhum tráfico de drogas nem de prostituição, apenas fecha os olhos pros seus membros, que podem fazê-lo sem problemas, desde que não envolvam a organização.
. Que não foi o envolvimento com o tráfico de drogas que tornou a organização particularmente violenta; sempre o foi, quando necessário, e quando não é necessário é mais conveniente pra todo mundo ficar só nas ameaças mesmo – mortes devem ser necessariamente explicadas, ainda que o corpo seja dissolvido no ácido e portanto deixe de existir.
. Que hoje a máfia siciliana não é comandada por famílias de Palermo, mas pelos Corleonesi – estamos falando de Provenzano, portanto.
. Que não vai ser o desenvolvimento econômico da Sicília a eliminar a máfia, muito pelo contrário: a máfia se nutre desse desenvolvimento, porque está diretamente envolvida nas licitações pra obras públicas e essa é talvez a maior fonte de renda da Cosa Nostra hoje.
. Que é difícil combater a Cosa Nostra por vários motivos: é centralizada e ritualística e onipresente como uma religião; a Itália é um país jovem e ainda descentralizado e heterogêneo; os italianos têm mania de tratar os sintomas e não as causas, e inventam leis malucas cada vez que a máfia vai longe demais e começa a falar-se demais dos banhos de sangue na Sicília, mas leis que não resolvem a essência do problema e permitem a eliminação dos peixes pequenos e só; a máfia está de tal forma entranhada na política que são indissociáveis; o egocentrismo italiano causa uma personalização dos métodos de combate à máfia, em vez do trabalho em equipe.
. Que o envolvimento da máfia com a política ocorre só quando é inevitável; não é interesse da Cosa Nostra assumir o poder oficial – eles trabalham na ilegalidade, afinal.

E agora dá licença que ainda dá tempo de ler mais um capítulo de Il Cammello e la Corda, que comprei na Libreria Grande sábado de manhã, por sugestão das meninas de lá. Por acaso também se passa na Sicília. Depois digo o que achei.

viva nós

E hoje é aniversário de um sem-número de mulheres fodas, inclusive euzinha: aquela tresloucada da target=”_blank”>Daiza, que, please, precisa aparecer no próximo encontro de exiladas na Bota, da lucluc, da Carol, que tomou conta do Leguinho no meu primeiro ano aqui.

Não vamos fazer nada de especial, como sempre: almoço de Pasquetta na tia do Mirco, à tarde festinha de batizado do Alessandro na casa do Marco, depois cinema com Gianni, Chiara e Robertinha (que aliás foi contratada pela Ferrero e continua pois vivendo indefinidamente em Torino). E só. Tá bom assim.

domenica di pasqua

E hoje foi o dia de morgar.

Eu acordei cedo, como sempre, e terminei Life & Times de Michael K, que é meio angustiante mas é bonito. Comecei Cose di Cosa Nostra, de Giovanni Falcone (aquele juiz famoso que foi morto em um atentado, já falei dele aqui). Mirco levantou ao meio-dia e quarenta, porque eu fui acordá-lo. Perdemos assim o café da manhã de Páscoa na tia do Mirco, que aqui tradicionalmente tem torta de Páscoa (tipo um pão com queijo na massa, delicioso), salames (no caso deles, feito em casa), ovos cozidos e outras coisitas mais. Mas fomos diretamente pro almoço, sempre na casa da tia, e o menu foi aquele de sempre: stracciatella (ovo batido com parmesão e jogado diretamente no caldo de frango pra cozinhar rapidinho, ficam tipo uns gruminhos de ovo com queijo deliciosos), que eu amo, e cordeiro, que normalmente é na brasa mas não sei por que dessa vez resolveram fazer à milanesa. Eram costeletas, e de acompanhamento alcachofras fritas. Eu fiquei só na stracciatella mesmo, porque acho carneiro, sobretudo costeleta, complicado demais pra comer, tem que ficar separando gordura e coisa e tal. Frito, então, tô fora.

Voltamos pra casa e enquanto o Mirco chapou no sofá fui adiante com o livro do Falcone. Me deu dor nas costas, fiz uma hora de step vendo o DVD de X-Men 2, tomei banho, voltei a ler, e às oito acordei o Mirco. Fomos direto pra casa da tia jantar – dessa vez tinha galo castrado cozido, que fica difícil de engolir sem uma batatinha ou um arrozinho, então passei uma certa fome, no problem. Voltamos pra casa cedo e chapamos como se não tivéssemos ido dormir cedíssimo ontem.

Aliás: ontem à noite fomos à missa de Páscoa na Basílica de Santa Maria, porque era o batizado do filho do Marco e da Michela. Só que nem eu nem Mirco entendemos nada dessas coisas e esquecemos que a igreja devia estar entupida e não conseguiríamos nem ver a cara do pimpolho. Dito e feito. Primeiro que chegamos à igreja e estava tudo às escuras. O que diabos estará acontecendo, nos perguntamos. Resolvemos perambular um pouquinho pra ver se alguém nos via – aí estaríamos livres pra escapar – mas os batizáveis provavelmente estavam no altar maior, lá no fundo, e no escuro não dava pra ver nada mesmo. Curiosos pelo escuro, resolvemos esperar pra ver o que acontecia. A igreja já é assustadoramente grande iluminada, mas naquele estado posso imaginar perfeitamente como os fiéis se sentem pequenos e humildes e submissos à potência de deus. Dali a pouco entra uma procissão de diáconos, laicos (a Michela me explicou durante a missa quando morreu o pai do Lello, mês passado), e depois finalmente entraram os frades franciscanos, com uma velona gigante. Acho que o escuro simboliza a vida senza Cristo, e a luz que tudo ilumina é Cristo renascido, sei lá. O frade que acendeu a velona era um pitéu, um perfil grego, um nariz estupendo, cabelos agrisalhando, um pedaço de mau caminho. Cantaram uns negocinhos, todo mundo na platéia acendeu suas velinhas (rigorosamente compradas na igreja, imagino), e começou a missa, que é sempre transmitida também no telão gigante porque senão quem senta lá atrás não vê nada do que rola no altar maior. E aí nossa curiosidade acabou e voltamos pra casa pra dormir.

a ponte da discórdia

Tendo que sair pro batizado do Alessandro, acabei perdendo uma parte de Gaia, uma das poucas coisas assistíveis na TV de hoje. Quem apresenta é o Tozzi, um cara legal pra caramba, que fala muito bem (a cada dia que passa mais aprecio quem se expressa bem, putz) e sempre traz temas interessantes. Dessa vez falou-se de grandes obras arquitetônicas, um assunto bem amplo, que começou com as pirâmides do Egito e as novas descobertas a respeito, e foi parar no que eu acho que era o que ele realmente queria dizer, ou seja, que a ponte sobre o Estreito de Messina é uma furada daquelas homéricas.

O Estreito de Messina é uma coisa ridiculamente pequena – de barco são 20 minutos, de carro o tempo previsto é cinco minutos – que separa a Calábria da Sicília. Tudo que é político já mostrou intenção de construir a tal ponte, com projetos sempre caríiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiissimos e cheios de polêmicas. A maior polêmica é que a ponte ligaria o nada a lugar nenhum, porque o sul não tem produção industrial nem tráfego de gente tão grande que justifique uma coisa desse tipo. Todo mundo que vai e vem entre as duas regiões usa as barcas, atravessando com carros e tudo o mais. Os argumentos contra a ponte são inúmeros: a máfia tá doida pro projeto sair (Berlusconi aprovou, LÓOOOOOOOGICO) porque é uma mamação sem fim), a zona é uma das mais perigosamente sísmicas do Mediterrâneo e difícil de estudar porque a falha não é na superfície, como a de San Andreas na Califórnia, mas embaixo do fundo do mar, a ponte passaria bem no meio da rota de várias espécies de aves migratórias, os impactos ambientais foram analisados feito a cara de quem analisou, como sempre (não esqueçamos que a Itália é talvez o país menos ecology-friendly do mundo), o pedágio vai ser mais caro do que a passagem de barca hoje (mais a gasolina). Se pensamos que o túnel sob a Mancha e o Golden Gate são ambos fiascos econômicos, embora conectando áreas muito mais ricas e produtivas e populosas, não tem realmente por que aprovar a ponte sobre o Estreito. O tempo de travessia com a barca rápida não é imenso, e a estação das barcas fica perto do centro e é facilmente acessível, enquanto que de carro vai ser necessário dar uma certa volta que alonga o tempo total de viagem. Acabei perdendo os argumentos a favor da ponte, porque saímos bem no meio. Bosta.

Mais informações sobre o programa aqui.

E comecei Life & Times of Michael K, do Coetzee. Já tinha lido o seu Disgrace, que me fez chorar porque tem muitas cenas de sofrimento animal, mas tinham me falado tanto desse que resolvi dar uma outra chance. É estranho, mas estou gostando. Parece com outra coisa que eu já li mas não me lembro direito o que é.

Que sexta-feira deliciosa, com cara de sábado! Acabei não trabalhando porque meus alunos viajaram, então aproveitei pra ir de bicicleta até Santa Maria, uns cinco quilômetros. Deixei a bici na Arianna, peguei Leguinho e Demo e fui a pé até a barraca da Rita comprar abobrinha e maçã. Na volta pra casa passei no Angelucci pra trocar o pneu traseiro da bici que tava meio assim assim. Fiz uma faxina rápida, almoçamos pappardelle com molho de javali, e à tarde não fiz nada além de usar o Office Planner da IKEA pra ter uma idéia de como vai ficar nosso escritório na casa nova. À noite Gianni e Chiara vieram jantar: fiz risoto de lagostim, salmão e açafrão, e de secondo os canolicchi que trouxemos da Holanda, gratinados no forno. Tinha tempo que eu não os via direito, e aproveitamos pra botar o papo em dia.