anta

Fui ao supermercado correndo na hora do almoço pra comprar pão, e vi que as ervilhas secas estavam em oferta. Lembrei do cheirinho da sopa de ervilha que a minha avó faz, deu aquela vontade avassaladora e levei as ervilhas pra casa. Só que está um calor do caceteeeeeeeeeee! Fiz a sopa (que ficou ótima, por sinal), tomei a sopa, e depois fiquei horas me abanando. Bem feito, quem mandou ter o cérebro no estômago…

hemingway

Comecei a ler Hemingway, A Farewell to Arms, que eu tinha em casa há muito tempo mas nunca tinha lido. Dois dos meus alunos vão ter que falar sobre esse livro na prova de inglês do vestibular deles aqui, então resolvi me capacitar pra dar uma ajudinha melhor.

Não sei se gosto ou não gosto de Hemingway. Ainda não decidi. As descrições e os diálogos são poderosos, mas também podem ser irritantes. Miss Barkley é um pé no saco, a clássica oca giuliva. Já sei o que acontece no final do livro, porque é uma das partes analisadas pelo livro de literatura de língua inglesa dos meus alunos, e sinceramente não sinto pena nenhuma. Mas vamos ver como vai ser a história até essa mala chegar ao ponto de morte…

Fomos ver o jogo da Itália ontem na casa do Marione, o florista. Éramos umas doze pessoas, talvez, e a torcida não era particularmente animada porque ninguém ali é realmente fã de futebol, mas eu dei muita risada. Porque a língua italiana é uma delícia, crianças. Xingar em italiano, exclamar, reclamar, tudo é uma delícia e altamente desopilante. Uma das minhas imprecações preferidas, que dá margem a infinitas variantes criativas, eu já comentei aqui: é o famoso “che te piasse…”, literalmente “que te pegasse…”. Complete com “um fulmine” (um raio), “um vomito”, “uma pneumonite”, “un cancro” (um câncer), “una tubercolose”, “una paralisi”, à vontade do freguês.

Também adoro as metáforas “pazzo come un cavallo da corsa” (maluco quanto um cavalo de corrida), “grezzo come una scarpa” (grosso como um sapato), “tonto come un fiasco” (bobo como uma garrafa/frasco/recipiente em geral). Além das já famosas alegorias alimentares: un salame, un carciofo, un fagiano, todos representando um mané. Mas o meu atual preferido é um que foi muito usado ontem, pra reclamar dos erros da arbitragem (que, convenhamos, errou pros dois lados, democraticamente): “ma tu sei fuori come una terrazza!”, literalmente “você tá mais fora [fora = com a cabeça fora do lugar] do que uma varanda!”. Não é uma maravilha? Conseguem imaginar algo igualmente ilustrativo em, sei lá, alemão? Não esqueçam do gesto que acompanha as palavras: junte as pontas dos dedos e sacuda a mãozinha. Vamos lá: ma tu sei fuori come una terrazza! Mavvaffanculo! Porca miseria!

Se tem uma coisa que eu detesto é quem diz “essas coisas só acontecem comigo” e depois começam a contar uma coisa supercomum que acontece com todo mundo. Eu acredito em boa e má sorte, e como!!!!!!!!, mas daí a dizer “eu tava superatrasado e perdi o trem e o ônibus atrasou, só acontece comigo!” há uma longa distância. Diferente seria dizer “caiu uma bigorna ACME na minha cabeça, isso só acontece comigo, lembra do piano ACME da semana passada?”.

Nem sei por que estou dizendo isso. Acho que é porque o Mirco ainda não me deixou dirigir o carro, só vai me devolver o bichinho quando estiver devidamente pintadinho, limpinho, revisadinho. Todo mundo já dirigiu meu novo carro velho, menos eu! Hoje um cliente voltou pra casa com ele, enquanto o caminhão ficou na oficina pra um conserto rápido. À tarde Mustafá ficou pintando o menino pra ele ficar nos trinques. Semana que vem acho que já consigo ir trabalhar com o MEU carrinho – que, aliás, descobrimos estar com os pneus novinhos em folha, tem rádio (toca-fitas e não CD, mas aí eu já estaria querendo demais), o óleo foi trocado há pouco. Maurizio, o hominho que conserta eventuais carros que vão parar na oficina, é O Diagnosticador de Carros, um mago estilo Nelson Piquet, sabe, que ajusta carro no ouvido, e deu o Juízo Final quando foi buscar o carro na quarta, na loja: fizestes um negócio da China, não consome nada e anda direitinho, está ti-nin-do. É esperar pra ver. Já tive tanto problema automobilístico esse ano que as estatísticas estão todas contra mim…

karma

Tenho comido muita salada de trigo. Aqui no verão a “insalata di farro” é muito comum, e eu, que sou chegada em cereais e leguminosas em geral, faço a festa. Só que a minha salada de trigo tem mais verdura que trigo, porque senão já viu. Quem vê o Tupperware cheio pensa putz, como come, quando na verdade só tem 60 gramas pesadinhos de trigo e duas abobrinhas, duas cenouras, um pouco de milho verde, ervilhas frescas, atum, o que me der vontade. Hoje aproveitei pra reciclar o espinafre que sobrou do jantar de ontem, e ficou uma combinação meio estranha mas deliciosa. Só que duas horas depois eu já tava com fome de novo, e uma ameixa preta, convenhamos, não enche nem o buraco do dente. Tive que apelar pra salvadora barrinha de cereal que eu até já tinha esquecido que tinha, escondida num canto da bolsa.

Mas o pior nem foi a fome, foi a última aula do dia. Meu aluno é um médico superbonzinho, e faço aula com filho mais novo dele, que é uma figura. Ele trabalha com reabilitação neurológica de crianças, coisa interessantérrima, mas putz, como a aula com ele é cansativa!!! Primeiro que ele é completamente desprovido de senso de humor, coisa que ele mesmo admite, e segundo que ele pensa, pensa, peeeeeensa tanto antes de falar que freqüentemente leva três, quatro minutos pra concluir uma frase – o que significa que quando ele bota o ponto final eu já não sei mais do que ele estava falando, e faço só hum-hum e faço outra pergunta. Cacetes estrelados, sexta-feira, as duas últimas aulas do dia, e me cai logo isso! Eu mereço.

Nocera de novo

E aí hoje fiz uma boa ação.

Somos quatro tradutores fixos agora: eu, José, de Barcelona, Jayne, inglesa, e Marco, austríaco que veio de moto de Viena. O Marco é superbonzinho, calado, quietinho, educado, mas por algum motivo misterioso a Jayne, que comanda o batatal dos tradutores, o detesta, e passou essa detestação pra Danila, a chefa. Informo que a detestação começou uma semana depois que o garoto veio trabalhar aqui, o que significa que se trata simplesmente de antipatia imediata. Não critico porque também tenho episódios semelhantes, mas tento não tratar ninguém mal antes de entender se a pessoa merece mesmo a minha antipatia. Mas o coitado do garoto sofre com as indiretas diretíssimas que a chefa, a mulher mais grossa e vulgar do mundo, manda na direção dele.

Hoje ele veio perguntar pra mim se eu achava possível ele pegar o carro da escola pra levar a mala, que está no albergue da juventude de Foligno, até a nova casa dele, em Nocera Umbra (sim, lá onde mamãe e Margareth foram parar voltando de Paris). Já prevendo a resposta e a reação negativas, resolvi me oferecer pra ajudá-lo. Engraçado que não foi por pena, nem porque ele me está simpático; ele simplesmente estava precisando de ajuda e quando alguém precisa de ajuda a gente ajuda, não fica só olhando. O mais engraçado ainda é que ele também aceitou com uma naturalidade incomum hoje, quando tudo o que a gente dá ou recebe vai imediatamente pro livro contábil (existe essa palavra? Não lembro e estou sem dicionário) mental/emocional, na coluna do crédito ou do débito. Antecipei a última aula pra sair no horário deles, às seis, e fui seguindo a moto até o centro. Pegamos a mala e fomos catar a estrada pra Nocera. Achei que ele já tivesse se enturmando com as ruas da cidade e conhecesse um caminho mais simples pra estrada, mas qual o quê! Demos mil giros pra lá e pra cá, passamos por cada buraco que vocês nem imaginem, e ele na maior calma austríaca parava do meu lado, eu abria o vidro, abaixava o volume dos Cranberries e ouvia a sua voz abafada vindo das profundezas do capacete: não sei onde estamos. Nada de “caramba, foi mal mesmo, desculpa estar te incomodando tanto, desculpa por te criar problemas, desculpa por existir”, mas “não sei onde estamos”. Caí na risada e continuamos. No final das contas conseguimos chegar ao fim do mundo onde ele está morando. Um velhinho local, daqueles que não têm nada pra fazer mas só saem na rua de paletó e chapéu, me ajudou a manobrar sem arranhar (muito) o fundo do carro na ladeira absurda, e fui embora apreciando a paisagem linda daquela parte da Umbria e ruminando que deveria ser assim sempre, a gente ajuda quem precisa de ajuda e nem a gente fica se achando o máximo por isso, nem o ajudado fica se sentindo devedor. Não seria tão melhor se fosse sempre assim?

nham

Eu ADORO salada de macarrão. É o que me salva, já que sou obrigada a comer meu almoço frio (a escola até tem cozinha, mas não tenho paciência pra socializar enquanto como. Quero mais é ler meus livrinhos e digerir em paz.). Hoje fiz macarrão curto com vagem fresquinha, uma cenoura ralada e atum ao natural. Em vez do temível creme de leite, do qual nem gosto tanto assim, uso iogurte natural. Vou te dizer, tava tão bom que fiquei até triste quando acabou.

joguim ruinzim, né não?

Mirco não sabe dizer não pros amigos e foi ver o jogo do Brasil na casa do Marco, de novo. Dessa vez foi jantado, que ele não é bobo. Eu até conseguir chegar cedo em casa, mas estava absolutamente exausta e tão enojada da falta de loção das pessoas que resolvi ficar em casa. Vi o jogo assim só pra dizer que vi, não xinguei nenhuma vez, e pretendo cair no sono imediatamente depois do apito final do juiz. Ora, faça-me o favor.

Fomos ver o jogo da Itália na casa do Marco e da Michela. Ficamos de levar as pizzas, e o mais engraçado é que ninguém se ofereceu pra fazer isso por nós – ainda que eu e o Mirco sejamos os únicos que não têm mamãe e sogrinha perto e/ou disponíveis, os únicos que trabalham 12 horas por dia, os únicos que trabalham longe de casa e têm maiores probabilidades de chegarem atrasados. A pizza atrasou e quando chegamos ainda fomos saudados com um “Poxa, já estava quase desmaiando de fome”. A mesa estava montada na varanda, porque o Marco é fanático por limpeza (desde que seja a Michela que limpe, bem entendido) e não admite migalhas dentro de casa. Ou seja, vimos o jogo a oito metros de distância da televisão, comendo pipoca e pizza em pé, amontoados na varanda. Primeira e última vez, juro.

Precisa dizer que torcemos silenciosamente pro Gana o tempo todo, eu e Mirco? Não, né?

pinguini

Então, tipo assim, a Marcha dos Pingüins é a coisa mais linda que eu já vi na vida. Chorei do início ao fim, bem viadinha. As imagens são alucinantes, as vozes dos narradores são lindas (ainda mais em francês), o texto é emocionante. Quando o ovo rolou pra fora e aquele frio miserável imediatamente o rachou, a cara de oops dos papais-pingüins foi de cortar o coração. Fui dormir ontem com a cara toda inchada e vermelha.