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Vocês sabem que eu adoro ler sobre a máfia. Normalmente máfia se refere à Cosa Nostra, siciliana. Mas vocês também sabem, porque eu estou careca de mencionar aqui, que a camorra napolitana também não é flor que se cheire e mata gente à luz do dia, em bares, lojas, supermercados, calçadas, praças.

Estou lendo Gomorra, livro de Roberto Saviano (logicamente ameaçado de morte infinitas vezes) sobre a máfia napolitana, que se chama camorra.

SE AINDA NÃO FOI TRADUZIDO PRO PORTUGUÊS, EU ME OFEREÇO PARA. Achem um editor que queira publicar, eu traduzo.

A gente acha que o crime organizado no Rio é um horror. Mas vocês não têm idéia do comprimento dos tentáculos da camorra. A Itália compra praticamente 60% das armas produzidas no mundo, que em parte a camorra usa e em parte troca por drogas ou vende. Compram diretamente dos arsenais dos países do ex-bloco soviético. Todo o mercado têxtil, TODO, TO-DO, está dominado pela camorra. Todas as roupas das grandes grifes italianas são feitas em Nápolis, em confecções de fundo de quintal com funcionários imensamente qualificados sem nenhum direito trabalhista e usando matéria-prima chinesa. Eles controlam INTEIRAMENTEEEEEE o mercado da construção civil, estão envolvidos com a eliminação de lixo (devidamente triturado e misturado ao cimento vagabundo dos imóveis que constróem), controlam a imigração ilegal, têm políticos de direita e esquerda na palma da mão, matam meninas com tiros no rosto e dissolvem cadáveres no ácido, testam novas remessas de AK-47 dando tiro nas vitrines à prova de balas das lojas (não importa, eles também são fornecedores de vidro), recrutam (e armam) crianças e adolescentes como aviões, velhos aposentados como mensageiros, fecham as ruas com carros e lambretas pra evitar que a polícia passe, usam granadas rotineiramente, sugam os subsídios da União Européia, jogam em barrancos e/ou queimam corpos de peões de obra que morrem freqüentemente em acidentes nos canteiros. Estão até aqui na Umbria, que dificilmente é vigiada pela polícia por ser uma região de população ínfima e que de indústria praticamente só tem comida e turismo, ou seja, terreno pouco fértil pros empreendedores camorristas. Desviaram BILHÕES que o governo deu pra reconstrução das cidades depois do terremoto de 97. Têm conexões com as máfias da Albânia, com o governo assassino de muçulmanos da Sérvia, com a Rússia. Dominam o mercado imobiliário na Espanha e concentram a entrada de drogas na Europa através do porto de Nápolis. Sem pagar impostos, claro.

Vocês não tão entendendo.

ulalá

Semana passada vimos Déja vu, com Denzel Washington, uma grande forçação de barra mas bom passatempo. E anteontem vimos A Good Year, baseado em um livro do Peter Mayle (seus livros são todos iguais, mas todos gostosinhos). O filme é uma delícia e você sai do cinema com vontade de sair correndo pra Provence. Eu sou antiquada em certos aspectos e ainda acho que francês é A língua da cultura e da civilização, e minha humilhação em não falar francês é infinita. Então decidi que esse ano eu vou estudar francês direito. Não sei quando, até porque tem as provas na faculdade e a mudança de casa, mas não importa. Não posso morrer sem preencher essa lacuna cultural.

ufa

Pronto, passou a chatice do Natal. Só tem mais hoje, que também é feriado aqui (Santo Stefano), e acabou. O que eu fiz de bom nesse feriadão? Dormi. Eu não sou dorminhoca e acordo cedo todo santo dia, sozinha, mas ultimamente ando muito, muito cansada. Chegando em casa tarde depois de uma média de 11 horas diárias de trabalho mental, chego em casa com o cérebro pedindo arrego. Mas não dá tempo de desligar a mente, porque chego em casa, como, tomo banho e vou dormir ainda com a cabeça cheia de coisas estranhas. Lógico que não consigo dormir direito. Então aproveitei o feriado pra não botar o nariz pra fora de casa a não ser que fosse absolutamente necessário, e dormi, dormi, dormi. Sábado ainda acordei ligadona, e infelizmente tive que passar a manhã na rua resolvendo coisinhas chatas. Almocei cedo mas não posso dormir à tarde porque desregula o meu ciclo do sono completamente e a enxaqueca vem, é batata. Mirco só chegou pra comer às quatro da tarde e enquanto isso fiquei vendo Battlestar Galactica. Depois que ele almoçou fomos dar uns rolés, entregar cestos de Natal etc, e jantamos com Marta e Moreno no shopping do cinema, em Perugia. O filme terminou relativamente cedo e logo logo estávamos em casa roncando. Domingo acordei com restos do início da enxaqueca de sábado, que consegui cortar pela raiz tomando o comprimido imediatamente, mas sabendo que a desgraçada dura sempre 48 horas, achei melhor não sair de casa. Mirco foi a Latina com Daniele e Une almoçar coreano na casa do irmão dela, e passei o dia inteiro em casa lendo e dormindo. Foi bom, de vez em quando é preciso dar uma parada total. Jantamos fora mas voltamos cedo. E naquela noite também dormi bem melhor, já estando mais relaxada. Acordei cedo como sempre, tomei um café light, li até as onze da manhã e dormi de novo até meio-dia. Saímos correndo pra tomar banho e fomos almoçar na Arianna, e à tarde pegamos um cinema em Foligno. Hoje fiquei na cama lendo até o Mirco ligar pedindo pra eu descer e dar uma mão a descarregar o velho armário da oficina, meio que destruído no último roubo mas que vai servir pra guardar cacarecos na garagem da casa nova. E enquanto ele foi entregar umas peças em Petrignano, eccomi.

Amanhã trabalho, mas quinta vou doar sangue em Perugia (e aproveitar pra ir ao médico, pra pegar a carteirinha na faculdade, pra alisar o cabelo e pra entregar uma coisa na casa de um ex-aluno), ou seja, por lei tenho o dia livre. Óptimo.

hm

O que você diz quando no meio do nada uma aluna da professora que você está substituindo diz, enquanto você procura a faixa certa no CD:
– Nós gostamos muito da sua aula.

E, quando eu jogo um verdão dizendo que vou estar com essa turma até o final de janeiro, quando a professora deles volta, e eles respondem:
– Não, não, está muito bem assim, queríamos inclusive ter três aulas por semana em vez de duas.

O que você diz?

A semana tem sido pesada em termos de aulas. Como a Christine só volta no final de janeiro, peguei praticamente todas as suas turmas. O problema é que as turmas de noite são todos grupos grandes, o que significa que as aulas jamais são anuladas, enquanto que os meus alunos que fazem aula individualmente volta e meia ligam cancelando e posso saltitar mais cedo pra casa. Então estou chegando em casa às nove todo santo dia, e será assim até que ela volte (se é que volta; se for esperta vai pra outra freguesia porque trabalhar em manicômio não é mole).

Pelo menos em termos de tradução não tenho tido muito trabalho, o que significa que posso trabalhar com calma quando realmente aparece alguma coisa. E se depois de atualizar glossários e preparar aulas eu ainda não tiver nada pra fazer, abro um livro e leio. Depois de terminar aquele livro de contos da Christine, li em um dia (parte no trabalho e parte em casa, onde cheguei mais cedo por causa de uma enxaqueca leve-moderada) um sobre comportamento animal. Chama-se Nella Mente degli Animali, escrito por Danilo Mainardi, que tem uma “coluna” fixa exatamente sobre isso no programa SuperQuark – aquele do qual já falei várias vezes, apresentado pelo velhinho fofo, educado e que fala bem. O livro é uma espécie de registro escrito da coluna. Pensei que fosse um pouquinho mais completo, mas não: é muito simples e bobinho, e a linguagem do autor-etólogo é pomposa demais*, mas mesmo assim é bonitinho. Muito na atual linha Darwinista de Dawkins e tal; inclusive reconheci vários exemplos que li em livros do Dawkins (por falar nisso, vejam isso aqui). E ainda tem ilustrações fofas, e um filhote de Terranova em close na capa. Bom pra quem não sabe nada de biologia e não tem saco pra encarar uma coisa mais científica. Vou deixar no banheiro pra ver se o Mirco se anima a ler.

E depois desse comecei Kitchen Confidential, de Anthony Bourdain. Ele é americano demaaaaaaaaaais, e isso me irrita muito, porque detesto livros escritos completamente com phrasal verbs, usando gírias locais e private jokes, e sobretudo o excesso de adjetivos-que-na-verdade-são-frases-com-tracinhos-separando-as-palavras. A quantidade de mentiras é grotesca e desnecessária. Mas eu já disse aqui que não sou naïve o suficiente pra achar que forma e conteúdo devem necessariamente estar relacionados. Um livro escrito em maneira um pouco blé mas que me dá informações interessantes va bene, assim como va bene um jogo de palavras lindíssimo que no final das contas não quer dizer nada. O Kitchen Confidential está na primeira categoria. Seu modo de contar as histórias me faz franzir o nariz, mas os relatos das coxias dos restaurantes são iluminantes. E há trechos interessantes.

Vegetarians, and their Hezbollah-like splinter-faction, the vegans, are a persistant irritant to any chef worth a damn. To me, life without veal stock, pork fat, sausage, organ meat, demi-glace, or even stinky cheese is a life not worth living. Vegetarians are the enemy of everything good and decent in the human spirit, an affront to all I stand for, the pure enjoyment of food. The body, these waterheads imagine, is a temple that should not be polluted by animal protein. It’s healthier, they insist, though every vegetarian waiter I’ve worked with is brought down by any rumor of a cold. Oh, I’ll accomodate them, I’ll rummage around for something to feed them, for a “vegetarian plate”, if called on to do so. Fourteen dollars for a few slices of grilled eggplant and zucchini suits my food cost fine. But let me tell you a story.

(daqui ele começa a falar das amebas encontradas nas saladas. Achei um parágrafo divertidíssimo ; )

*A língua burocrática italiana é a coisa mais pomposa que existe no mundo. Quando traduzo cartas e e-mails apago tanta coisa inútil que volta e meia o cliente liga perguntando se eu pulei uma linha. Tenho que explicar que coisas equivalentes a “colgo l’occasione per porgerVi i più distinti saluti”, livremente traduzido como “colho a ocasião para oferecer-vos as mais distintas saudações”, provavelmente não se usa em inglês desde a extinção dos dinossauros. Ontem uma carta começava dizendo “no redesejar-vos um feliz Natal…”. Cortei a frase, lógico, e o cliente perguntou por quê. Ó céus, se já mandou o cartão de Natal, por que tem que desejar feliz Natal de novo, numa carta que fala do novo catálogo de compressores de ar? Pelamordedeus, vão ser barrocos assim lá na casa do chapéu…

Devido à absoluta falta de assunto, a administração tapa o buraco com a lista de livros lidos no ano 2006.

1. Coraline (Neil Gaiman)
2. Un Filo di Fumo (Camilleri)
3. Pecore Nere (Kuruvilla, Mubiayi, Scego, Wadia)
4. Tutti Giù per Terra (Giuseppe Culicchia)
5. La Guerra degli Antò (Silvia Ballestra)
6. Of Mice and Men (John Steinbeck)
7. Cathedral (Raymond Carver)
8. The War of the Worlds (H. G. Wells)
9. Swallowing Grandma (Kate Long)
10. Tre Cavalli (Erri de Luca)
11. The Ghost Writer (Philip Roth)
12. Ask the Dust (John Fante)
13. A Short History of Nearly Everything (Bill Bryson)
14. Il Birraio di Preston (Camilleri)
15. Equador (Miguel de Sousa Tavares)
16. Life & Times of Michael K (Coetzee)
17. Cose di Cosa Nostra (Falcone)
18. Il Cammello e la Corda (D. Seminerio)
19. La Concessione del Telefono (Camilleri)
20. The Cement Garden (Ian McEwan)
21. La Vampa dÂ’Agosto (Camilleri)
22. Orality and Literacy (W. Ong)
23. Sidetracked (Mankell)
24. The Fifth Woman (Mankell)
25. One Step Behind (Mankell)
26. Firewall (Mankell)
27. A Farewell to Arms (Hemingway)
28. Il Libro Nero del Cristianesimo (Jacopo Fo & outros)
29. Post Mortem (Patricia Cornwell)
30. David Copperfield (Dickens)
31. The Blind Watchmaker (Richard Dawkins)
32. La Loca de la Casa (Rosa Montero)
33. The Devil Wears Prada (Lauren Weisberger)
34. LÂ’Attentatrice (Yasmina Khadra)
35. The Catalans (Patrick OÂ’Brian)
36. French Women DonÂ’t Get Fat (Mireille Guiliano)
37. The Gifts of the Jews (Thomas Cahill)
38. Desire of the Everlasting Hills (Thomas Cahill)
39. The Selfish Gene (Richard Dawkins)
40. In Cold Blood (Truman Capote)
41. Children Playing Before a Statue of Hercules (David Sedaris)

O último foi a Christine que me emprestou. Não tenho pressa pra ler porque ela voltou pra Virginia e só volta depois da Befana – se for esperta, não volta. É uma coletânea de contos de diferentes autores, organizada por David Sedaris. Decidi que não gosto de contos, e talvez seja por isso que eu não tenha gostado de Cathedral, do Carter. Conto pra mim só Roald Dahl. Conto tem que ter final – qualquer final, mas tem que ter. Se for maléfico e cínico, melhor ainda. Mas tem que ter. Então vou acabar o livro por uma questão moral, já que livro na minha mão tem que ser terminado, a não ser que seja o horror dos horrores, e depois vou decidir o que ler pra me recuperar.

**
Obrigada ao leitor M. que corrigiu o xoxo por chocho. Preguiça de consultar o dicionário é imperdoável, tens razão.

ugh

Já descobri dois errinhos de tradução que cometi naquele trabalho legal que fiz pra um museu. Um é relativamente grave e tenho quase certeza que corrigi em tempo, o outro é menos grave mas na hora não percebi. ODEIO trabalhar com pressa e tendo que fazer outras mil coisas ao mesmo tempo, odeiooooooooooo! Não tive tempo de revisar nada direito porque tudo tinha que sair correndo pra gráfica pra fazer os painéis, e fiz pelo menos outros 4 trabalhos junto com esse, além das aulas, claro. Não tem como sair legal, né. Então agora os painéis vão ficar errados mesmo e todos os turistas americanos vão reclamar e eu jamais vou poder ir à mostra com medo de descobrir outros erros. Se pelo menos alguém reclamasse seriamente o suficiente pra agência perder a certificação ISO de qualidade, eu ficaria contente.

marseille – roma

Pegamos um táxi pra ir pro aeroporto porque a primeira navette só sai às cinco e meia. Esperamos o maior tempão mas finalmente embarcamos, o vôo foi light como sempre e só esperamos dez minutos até o microônibus do estacionamento chegar pra nos pegar. Tomamos café num bar em frente à IKEA e assim que abriu entramos. Daniele nunca tinha ido, e como ele tem uma loja de móveis achamos que ele tinha que conhecer, né. Claro que estava entupido de gente, e pouco depois do almoço viemos embora. Passamos na casa nova pra ver o chão, que já foi terminado e ficou bem legal, e voltamos pra casa. Já desfiz as malas, já guardei o pão, já li os Astérix, já botei roupa pra lavar e daqui a pouco vou dormir porque há uma ameaça de enxaqueca no ar. Não posso me desregular com o sono, é batata.

Fotos da viagem aqui, como sempre. Tem até um sósia do Legolas.

marseille

Quando saímos pra tomar café na rua descobrimos que o tempo estava lindo. Um frio do cacete por causa do vento gelado, mas pelo menos o céu estava de brigadeiro. Comemos num Brioche Dorée numa rua melhorzinha e depois fomos a pé até a Notre Dame de la Garde, que pra variar fica no alto de uma ladeira miserável. A igreja é bonita por fora mas chocha por dentro, e como os meninos são preguiçosos pegamos um ônibus pra voltar pro porto. Caminhamos ao longo do porto, namorando as flores e os mexilhões, porque era dia de mercado, e paramos pra tomar um aperitivo num bar (na verdade era uma desculpa pra fazer xixi) e bater papo. Esperamos o famoso ônibus 83, que aparentemente faz um percurso panorâmico, mas visto que o dito não chegava, fomos andando a pé ao mesmo restaurante de ontem. Dessa vez pegamos mais leve, todo mundo com saladinhas gostosas, e fomos fazer compras porque os meninos não queriam andar novamente até a abadia. Malditos preguiçosos. Acabamos comprando sapatos vários – como tem loja de sapato nessa cidade, caramba, uma do lado da outra!

Depois de largar as compras no hotel resolvemos subir a rua, já que só conhecíamos a parte que desce pro porto. Queríamos ver a catedral gótica, mas antes paramos pra tomar chá numa casa de chá muito maltratada, mas ainda charmosa. Aproveitei pra comprar um pão integral cheirosíssimo e bater altos papos em uma língua ininteligível com a senhora que nos serviu. Quando saímos já estava escuro e as fotos da igreja ficaram uma bosta. O interior é aquilo mesmo de toda igreja gótica que perdeu os afrescos porque as imagens foram parar nos vitrais, mas eu gosto. Adoro igrejas góticas em geral, e depois que descobri como funciona a coisa, porque a Begônia me explicou, a coisa ganhou mais interesse. Tipo assim, o arco ogival alivia o peso das paredes, que não precisam mais ser cheias e podem receber grandes janelas. Os vitrais fazem o papel dos afrescos. Legal, né. Legal saber coisas. Não me canso nunca.

Na volta pro centro paramos numa livraria pra comprar Astérix, e ganhei uma agendinha com as citações em latim das histórias : ))))

Paramos numa doceria espetaculaaaaaaaaaar pra comprar biscoitos e pirulitos e provar as “azeitonas” de chocolate mais maravilhosas do mundo – amêndoas recobertas de chocolate classe A, tingidas pra parecer azeitonas. Uma coisa de louco. Comprei uma lata pra mim, pra botar os cartões-postais que compro quando viajo, e uma pra Newlands que ela vai amar porque é uma delícia de lata. E nós adoramos coisas inúteis, ocupadoras de espaço mas fofas.

O jantar foi comprado correndo no supermercado da Lafayette: falafel e esfiha pra mim, pão com presunto italiano e brie pros meninos, sushi pra Une. Comemos na copa do hotel, lavamos a louça (toda da IKEA hoho) como se estivéssemos em casa, vimos o início da eleição de Miss France e capotamos. Porque pobre não tem descanso: o vôo de volta sai às seis e vinte da manhã.