roupitchas novas

E então desde ontem à noite sou a feliz proprietária de:

n. 1 casaco de lã Valentino Jeans, preto, divino
n. 1 par de calças pretas Valentino Jeans, maravilhosas
n. 1 blusa vermelho-bordô com detalhes nas mangas e na cintura e amarração no pescoço, Valentino Jeans, espetacular.

O mais lindo é que tudo isso junto só me custou 200 euros! Culpa da Marta, que me levou à Hemmond, malharia meio falida que produz (ou produzia, já não entendo mais nada) pro país inteiro, incluindo alguns grandes nomes da alta costura.

Primi

Um primo piatto pode ser uma sopa (zuppa ou minestra, normalmente no jantar pra pegar mais leve com a digestão), um risoto, ou uma massa. Os risotos mais comuns são de cogumelo, de aspargo, à milanesa (com açafrão), de frutos do mar, de radicchio, mas as variedades são infinitas: abobrinha com salmão, linguiça, legumes e via discorrendo. A massa também oferece infinitas possibilidades, mas jamais se come macarrão que não seja al dente, e também jamais nadando em molho como comemos no Brasil. Ragù (o molho à bolonhesa, meu preferido) é coisa pros dias especiais. O macarrão do dia-a-dia é o clássico com pomodoro e basilico (tomate e manjericão), do qual não sou muito fã, carnívora que sou. Muito comum também o molho de tomate com atum – e aí já começa a melhorar. All’arrabbiata com molho vermelho apimentado e azeitonas. Ou então com bacon e molho de tomate. Pasta in bianco é só o macarrão com azeite e queijo ralado (amo!). Ou então spaghetti all’aglio e olio. Pasta bianca é qualquer molho que não envolva tomate: alcachofra, aspargo, cogumelos, trufa, legumes, atum, creme de leite (panna, que não é beeeem creme de leite mas dá pro gasto) com ervilhas, com frutos do mar, al pesto genovese (aquele molho de manjericao, pinoli e pecorino). Pasta al forno (lasagna, canneloni), pelo menos aqui onde eu estou, não rola quase nunca. Tem também as massas recheadas, ravioli/tortellini/cappelletti, com recheios variados, como de carne, de ricota e espinafre, de gorgonzola e nozes, de batata, de abóbora. Não preciso nem comentar a onipresença do parmigiano grattugiato, que vai bem com tudo, exceto com frutos do mar.

E os formatos do macarrão? São zilhões! E há combinações clássicas que pegam muito mal de descombinar: as orecchiette con broccoli, por exemplo. Ou penne all’arrabbiata. Ou tagliatelle al ragù.

Amanhã: i secondi piatti.

como come, essa gente!

E como hoje começamos uma dupla dieta (eu pra continuar sílfide e o Mirco pra baixar os triglicerídios e perder os 8 quilos que ganhou comendo besteira em casa na minha ausência), vamos falar um pouco de comida, só pra variar um pouquinho.

Não sei se já comentei aqui, mas o mundo todo acha que sabe como é a cozinha italiana, mas não sabe coisa nenhuma. Surpreendi-me horrores quando saí do circuito dos restaurantes e passei à fase de frequentar a casa de italianos, supermercados e a minha cozinha. O macarrão deles é diferente, a pizza é diferente, a carne é diferente, os doces são diferentes. No final das contas os ingredientes são os mesmos, mas o modo de usá-los é totalmente diverso. Mas comecemos do começo.

Antipasti: pelo menos até onde eu sei, no Brasil não temos o hábito de comer antipasti, a não ser em restaurante (o famoso couvert; aqui na Itália existe um coperto, que equivale ao nosso “serviço”). Aqui de vez em quando rola, se for uma ocasião mais ou menos especial, ou se a galera for muito boa de garfo. Mas não rola nada frito, porque eles aqui não fritam quase nada. São triangulozinhos de pão de forma sem casca (pan carré) com pasta de cogumelos, de cenoura com ricota, com uma fatia de salmão. No inverno vêm as famosas bruschette (bruschetta no singular): a clássica de aglio e olio, outra clássica com tomate fresco e azeite, pasta de cogumelos (aqui na Umbria normalmente os cogumelos são combinados com a trufa negra), creme de alcachofra (como eles comem alcachofra!). Ovinho de codorna? Nem pensar; só se acha nos supermercados maiores, e mesmo assim não é sempre que tem. Eles acham super exótico. No mais, há coisinhas sott’olio e sott’aceto – leguminhos em conserva em azeite ou vinagre, um mais horripilante que o outro, ou então legumes grelhados (verdure grigliate; berinjela, abobrinha, batata, tomate, pimentão na grelha com salsinha e azeite), ou ainda uma das invenções mais nojentas do mundo: insalata de mare, um misturado pronto de frutos do mar, temperados com muito limão (amarelo, claro) e vinagre, que se come frio, BLEEERGH. Se for uma refeição sem secondo, às vezes servem-se frios como antipasto, e aí é lógico que você vai pedir um macarrão sem carne, porque se entupir de salame, presunto e linguiça seca e depois ainda encarar bolognesa não dá, né, queridos.

Amanhã: i primi piatti.

programa indígena

Programa indígena de domingo às vésperas do Natal: ir ao Ipercoop, o maior centro comercial do centro de Hondur… do centro-Itália, pra comprar uma nova all-in-one da HP, em promoção por só 129 eurinhos (o Mirco tem um quê de japonês tecnológico, e trocou de computador e máquina digital de novo, e aproveitamos pra comprar uma impressora decente, que também é scanner e fotocopiadora). O shopping-supermercado abre às nove. Chegamos às dez e já havia engarrafamento na estrada. Estacionamos super tabajaramente, entramos no shopping e nos dirigimos ao supermercado. Longa fila de gente com carrinhos vazios, esperando ansiosamente pra entrar e gastar o décimo-terceiro. Nós, sem carrinho e sem grandes ambições consumistas, saímos furando fila, atrás de mais gente sem carrinho. Controlando o rebanho que entrava, um segurança fortão de rabo-de-cavalo e óculos escuros, se achando o rei da cocada. A galera impaciente, feito motorista de ônibus do Rio que não aguenta esperar o sinal abrir sem dar umas aceleradas só pra irritar todo mundo. Todo mundo reclamando, batendo boca, fofocando, rindo, comentando, trocando receitas, reclamando dos preços, dando dicas de produtos em oferta, reclamando do frio (que obedeceu às previsões meteorológicas e realmente começou ontem, como previsto há semanas). O segurança libera uma parte da galera. Corrida pra dentro do supermercado. Lá dentro, filas já homéricas, famílias com três, quatro, cinco carrinhos cheios de panetone. Vai gostar de panetone assim na China! (eu odeio).

Mesmo com metade da Umbria enfurnada no supermercado, conseguimos entrar, comprar e sair em 20 minutos. Incrível.

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Todo mundo sabe que as diferenças entre as regiões da Itália são abissais – e às vezes basta mudar de cidade. A Umbria, em particular, tem muitas diferenças internas: a parte de Terni, do lado de lá do Tiber, é mais perto de Roma, e o sotaque deles tem um quê de romano (p que vira b, t que vira d, f que vira v. “Capito?” vira “Gabido?”. Esqueci o nome do fenômeno fonético, foi mal.). Aqui na parte perugina se come torta al testo, aquela maravilha que já comentei aqui várias vezes, feito um pão achatado assado sobre uma plataforma de ferro. Na parte ternana, não sabem nem o que é. Em Città di Castello, mais pros lados da Toscana, eles comem uma coisa parecida com a torta mas que não é a mesma coisa, e se chama ciacia.

Quando eu falo que moro no Cambodja, é porque realmente o centro da Itália é um lugar muito atrasado em muitas coisas, até porque tem um pé no norte e outro no sul. A Lidia, simpática leitora do norte da Itália que lê meu blog em Português pra praticar a língua (e obviamente sofre com os neologismos, gírias e minhas maluquices linguísticas), outro dia me escreveu dizendo que certas coisas das quais reclamo aqui são inimagináveis pra ela também – citou o caso do espelho no armário, coisa completamente desconhecida aqui no Zaire e comum no norte da Itália.

É um país fenomenal, esse Zâmbia.

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Hoje é feriado, dia de N. Senhora. Eu não entendo nada de santo e não tenho a MENOR intenção de, mas acho válida a pergunta da Criss: se a Madonna concebeu hoje, comé que Jesus foi nascer dia 25? Muito caroço nesse angu, ou é burrice nossa?

potocas

Quando eu digo que a Itália é um país muito engraçado, neguinho acha que eu estou exagerando. Mas vê se não é verdade:

Essa semana teve greve dos transportes públicos. Não precisa nem dizer que cada cidade fez um horário diferente – em algumas a greve foi só de manhã, em outras durou algumas horas de manhã e outras à tarde, em outras ainda começou no final da tarde e terminou à meia-noite (isso não contando as cidades onde o horário pré-estabelecido não foi respeitado e a coisa durou o dia todo). Un casino, como se diz aqui – uma zona.

E a famosa patente a punti (a carteira de motorista com o sistema de pontos)? Lembro-me de ter comentado aqui a indignação da galera com o novo sistema. A quantidade de gente que logo na primeira semana já saiu perdendo zilhões de pontos foi impressionante – inclusive meu amadíssimo Chefe, que leva uma média de duas multas por mês, e continua sendo idiota a ponto de encaixar o cinto de segurança ANTES de sentar no carro, enganando assim seu carro igualmente idiota (uma Mercedes), que pára de apitar quando “sente” o cinto encaixado, mesmo que o motorista esteja sentado sobre ele. E qual é a última novidade da patente a punti? O sistema informático que controla toda essa farofada está sobrecarregado e à beira do colapso. Palavras do TG (telegiornale): il sistema rischia di andare in tilt.

E a televisão? O único programa ao qual assisto, Striscia la Notizia, é uma palhaçada só. Anteontem desmascararam uma “maga” que bota anúncio no jornal dizendo que curava hepatite B e C através de um ritual feito de madrugada, na praia. Mandaram um falso cliente atrás da mulher com uma microcâmera. Era uma criatura magra, de cabelos vermelho-fogo, óculos abelhão, cara de gafanhoto – me lembrou muito a professora de Divination do Harry Potter, só faltava o xale etéreo enrolado no pescoço. Ela olhou os exames do cara, falou que as transaminases iriam baixar tantíssimo depois do ritual, que pedia só 250 euros antecipados porque afinal de contas acordar de madrugada não é mole, entre outras imbecilidades. Quando o repórter apareceu e se apresentou, a mulher entrou em tilt! Entrou correndo em casa, disse que ia chamar a polícia, que era realmente uma curandeira, que absorvia a doença dos “pacientes” e por isso cobrava caro; depois jogou fora os exames do paciente com cara de Bart Simpson (I didn’t do it, nobody saw me doing it, can’t prove anything), xingou o repórter, que àquela altura se controlava herculeamente pra não desabar de rir, de tudo que se pode imaginar. Eu dava tanta risada que quase me saiu vinho pelo nariz* (Rubesco da Lungarotti, ótimo custo-benefício, menos de 6 euros a garrafa). E ontem à noite, no mesmo programa, o vira-lata Willy, que de vez em quando dá as caras por lá, deitou na mesa, passeou pra lá e pra cá, se assustou com a vespa gigante de espuma que volta e meia é lançada do teto (em homenagem ao Bruno Vespa, um jornalista com cara de sapo que é meio ídolo e meio odiado por aqui). Imaginem um telejornal onde há um cachorro que passeia por sobre a escrivaninha, tapando os repórteres? Claro que é um programa muito longe de ser sério, mas a coisa toda não deixa de ser altamente surreal, principalmente se levamos em conta o cenário totalmente trash (aliás, italiano em matéria de cenário trash é campeão. TODOS os programas têm cenários do nível do Qual é a Música. Juro.).

*E vamos aproveitar a deixa pra entrar numa particularidade da língua italiana, que aliás reflete muito bem a personalidade megalomaníaca deles: os verbos reflexivos. Tudo que é verbo pode, dependendo da situação, virar reflexivo. Como eu disse ali em cima, em italiano não se diz que saiu vinho pelo meu nariz, mas ME saiu vinho pelo nariz. Eu não comprei um carro: mi sono comprata una macchina (ou, mais coloquialmente, mi sono fatta una macchina). Não cortei os cabelos: mi sono tagliata i capelli. Marta não fez uma roupa com a costureira: si è fatta fare un vestito. Eu não tomo banho de manhã: mi faccio la doccia la mattina. Os homens não fazem a barba: si fanno la barba.

Eu demorei a entrar nesse esquema egotrip linguístico, mas volta e meia me pego pensando em um Português reflexivo que só consigo detectar como estranho quando dou o rewind mental e paro pra analisar o que falei.

Leiam Marcovaldo, leiam Gli Indifferenti (angústia pura), leiam La Mossa del Cavallo (stupendo!), leiam Il Deserto dei Tartari, leiam La Coscienza di Zeno (fe-no-me-nal), leiam I Malavoglia (e vos desafio a não chorar no começo, no meio, no fim), leiam coisas legais, e deixem Pirandello pra lá que o cara era chato bagaray – ou sou eu que sou alérgica a teatro e linguagem teatral em geral?

Preciso de livros, meu estoque anda baixo. Sugestões sao bem-vindas.

deslumbramento

Mas como os meus leitores são interesseiros! A quantidade de gente que disse pra eu casar porque senão eu voltaria pra casa e pararia de escrever sobre a Itália foi impressionante! Dei muita risada com os e-mails ;) Mas, como eu disse, não respondi nem sim, nem não. Por enquanto vou ficando, e depois vou ver que bicho que dá. E chega desse assunto que essa história já deu tema pra muita novela das oito, e até eu já enjoei. Vamos falar de outra coisa.

Que o meu chefe não é uma pessoa particularmente admirável, e por motivos váaaarios, não é novidade pra quem lê o blog. Mas tem um aspecto dele que às vezes me irrita e às vezes me faz dar risada: o deslumbramento. Coisa de pobre de espírito mesmo, sabe? Novo rico? Agora pegou a mania de pedir a mim ou à Martinha pra ligar pra fulano e depois passar a ligação pra ele. Como se custasse muito ele abrir a bosta da agenda telefônica, digitar o número e dizer fulano está?. A mania começou há alguns meses, mas piorou agora que estamos em um escritório decente, com cara de sério (lá em Assis a gaveta da minha velhíssima escrivaninha era forrada com papel de presente do Snoopy, e o cachorro do escritório babava todos os clientes, e nossos produtos eram enviados em caixotes de papelão cobertos de pegadas de cachorro e com penas de galinha presas nos cantos). O menino anda se achando oooooooooo C.E.O. de multinacional. A coisa mais engraçada (leia-se é rir pra não chorar) é que ele não entende nada de nada. Não entende nada de computador, não sabe nem mexer no telefone super modernoso dele, não sabe onde está nada, e tudo tem que perguntar a mim, à Martinha, ao segundo chefe, à Miss Almoxarifado e ao Chato Workaholic Assobiador Bafo-de-Onça (doravante chamado C.H.A.B.O.) que agora faz consultoria pra gente. Uma das piores partes desse meu emprego, além do fato de ser um trabalho relativamente chato e difícil de organizar porque eu faço um pouco de tudo, é ter que obedecer a um chefe que não entende nada de coisa nenhuma. Sempre fui da opinião que pra comandar a gente tem que saber do que está falando. Bem fez o pai de um amigo* triliardário do Mirco, que tem uma fábrica de galpões aqui com sede aqui e mais umas 3 filiais no resto da Itália: antes de botar o filho engravatado no escritório, fez o garoto ralar nos canteiros de obra, observando os peões e mestres-de-obra.

* (e se tivéssemos feito o nosso novo escritório com eles, com certeza não teria sido a novela que foi esse aqui – novela que não acabou, visto que já há paredes rachando, privadas vazando e chuva chovendo dentro do banheiro).

Jamais conseguiria viver assim, tendo gente pra fazer tudo pra mim, entendendo mais da minha vida do que eu mesma. Tenho horror a depender dos outros. Nao gosto nem que façam meu prato na hora do almoço. E pra mim é essencial entender o contexto onde estou pra poder funcionar. Tipo, eu não tenho nada a ver com a produção dos cartuchos, mas sempre fui curiosa de saber como funcionava a coisa, e volta e meia apareço no laboratório pra perguntar por que não imprime direito, por que esse modelo de cartucho dá tanto problema, por que esse cartucho não é compatível com a impressora x, se parece ser idêntico ao que é compatível. Não conseguiria me mover aqui dentro sem saber essas coisas. Um cliente liga reclamando de um cartucho que não imprime direito; se eu não sei o que pode ter dado errado, como faço pra dar uma resposta decente? Fora que é feio não entender nada do mestiere. E fora que aprender nunca é demais. Pode parecer um tipo de aprendizado idiota, tipo, ooooh, que coisa importante pra minh’alma, conhecer modelos de cartuchos, mas hoje ninguém me enrola mais nesse assunto, e o dia em que resolver comprar uma nova impressora vou olhar pra cara do cartucho antes e saber imediatamente se dá pra regenerar (leia-se economizar) ou não, se é fácil de achar ou não, se o custo-benefício é legal ou ridículo, se a assistência técnica do fabricante funciona; vou saber o que fazer se o cartucho não imprimir direito, vou saber onde olhar pra ver o que está errado, enfim, hoje sei um monte de coisas que um dia poderão ser-me úteis. Conhecimento é sempre valioso, darlings, não interessa se sobre física quântica ou o crescimento dos repolhos na horta.

(ou não – a cada dia que passa mais acredito que ignorance is bliss. Muito bliss.)

Deu a louca no pai

Deu a louca no pai do Chefe. Se inspirou nas flores que eu trouxe na primeira semana, e que a Martinha substituiu depois por outras cafonérrimas rosas cor de chá, e comprou um monte de plantas. Cheguei ao escritório hoje e achei por um momento que tivesse entrado na floresta da Tijuca, sem brincadeira. Agora atrás de mim, olhando por sobre os meus ombros, há um pinheiro feio. Do lado da minha garrafa de água mineral, entre a fita durex e a bandeja de entrada de documentos, tem um vasinho de flores cor-de-rosa muito bonitinhas, cortesia da Mãe do Chefe, que, aliás, é a cara do Popeye, só que fuma cigarro normal em vez de cachimbo. Em cada uma das extremidades da minha escrivaninha em semi-U há um vasinho de uma planta fofa que dá frutinhas vermelhas. Daqui da minha escrivaninha vejo, bem de frente pra quem chega da escada, encostadas na janela, uma planta alta não identificada e um vaso de copos-de-leite. Em um ângulo da escada, outra plantona. Na sala do Segundo Chefe, que vejo diagonalmente à minha direita, um vaso de antúrios. Sobre o armário baixo da sala de reuniões, bem à minha direita, um vaso de antúrios em cada ponta. Ao lado da máquina de xerox, mais copos-de-leite. No canto fora da sala da Marta e da garota da calça dourada, mais antúrios. Em um canto dentro da sala delas, mais antúrios e, sobre o armário das faturas, uma plantinha rosinha como a minha (rimou!). Na sala do chefe, antúrios e uma outra mini-planta. Detalhe que, fora as mini-plantas, todas as outras são feias, com cara de flor de plástico. Estou adorando esse clima tropical-quase-fake aqui dentro.

São vinte pras cinco e lá fora já está escuro. A neblina deu um tempinho, pelo menos durante o dia, mas o frio chegou de vez. Já não dá mais pra dormir sem o aquecimento ligado. Os Apeninos já estão branquiiinhos, e o Subasio já vestiu o capuz de neve duas vezes semana passada.

Bosta de inverno chato.

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Ando linda esses dias. Ontem ganhei um par de calças da Benetton que gostei muito e, modéstia à parte, ficou ótimo em mim ? coisa miraculosa, porque mesmo tendo emagrecido muito, meus culotes são invencíveis, e poucas coisas no mundo são mais deselegantes que culotes. Como é bom se olhar num espelho de corpo inteiro! Esse negócio de espelho só do peito pra cima vai ficando deprimente com o tempo.

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Vi o filme de Fan Fan de la Toulipe. Delicioso ! Pena que tem aquela mala da Penelope Cruz, com a sua cara de passarinho. Impressionante o que alguns milímetros de pele a menos entre o nariz e a boca não fazem com uma pessoa… Mas o filme é absolutamente delicioso, de verdade.

opa

Ontem fui ver Era Uma Vez no México (é isso mesmo? Porque os tradutores italianos são tão criativos quanto os brasileiros e dão os títulos mais escalafobéticos possíveis aos filmes americanos). Meu humilde parecer:

– Quem escolheu e executou o corte de cabelo do Antonio Banderas merece ir pra fogueira.
– Quem desfigur… quem fez as cirurgias plásticas do Mickey Rourke merece um dedo no olho, e depois ir pra fogueira.
– A Salma Hayek é bonita, apesar do queixão, mas eu continuo detestando belezas do tipo exótico/selvagem/latino/tropical/vulgar.
– Gosto do Johnny Depp. Acho-o um bom ator, além de ter um rosto muito interessante ? gosto particularmente do seu nariz.
– O filme é absolutamente ridículo, excessivamente barulhento, todo o elenco é de uma canastrice ímpar, a trilha sonora fa paura.
– Espanhol não é um idioma, é um aborto linguístico da natureza.

No próximo fim de semana estréia (sim, estréia só agora ? quando eu falo que moro no coração do Zimbabwe não estou exagerando) Procurando Nemo : ))))))

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No mais, acho que não consigo voltar ao Rio pro Natal. Não tem passagem de jeito nenhum, a menos que eu fique quase dois meses no Brasil, o que é absolutamente incompatível com a minha permanência no emprego aqui no escritorio. Então acho que vai rolar só lá pra janeiro… : (

Da série Coisas Italianas Que

Hoje: COZINHA E ADJACÊNCIAS

… Amo:

– Os armários da cozinha. Os armários que ficam em cima da pia têm um escorredor no lugar da prateleira de baixo. Assim você lava os pratos e os coloca diretamente pra escorrer, escondidos no armário; a água pinga dentro da pia e os bichinhos ficam lá, escorrendo e guardados ao mesmo tempo. Poupa-se assim o trabalho de secar os pratos.
– Os panos de prato. Todos os panos de prato, que são maiores do que os nossos, já vêm com uma alcinha em uma das pontas pra pendurar em um dos invariavelmente presentes ganchinhos.
– A lata de lixo escondida no armário debaixo da pia. Achei uma idéia ótima. Nada daquelas mini-lixeirinhas horripilantes dando plantão em cima da pia.
– Geladeiras e máquinas de lavar louça embutidas. Se bem que, se eu tivesse uma geladeira lindíssima, em inox, por exemplo, não a esconderia, muito pelo contrário…
– As mesas aumentáveis, que todo mundo tem. Tem visita e não cabe todo mundo na mesa? Abre-se a bichinha, gira-se ou monta-se um pedaço adicional, e eccola! Uma mesa com mais dois lugares.
– O forno, quase sempre elétrico, que esquenta rapidinho, sem aquela moleza dos fornos a gás.

… Odeio:

– A falta de ralo no chão, por motivos óbvios.
– As geladeiras, que muitas vezes são pequenas (como a da Fran).
– A implicância dos italianos com o forno de microondas.
– As panelas, quase sempre com cabo curto, e quase nunca em teflon (eles também implicam com o teflon).
– As torradeiras, que não fazem as torradas pularem. (pularem ou pular? Não sei!)
– A ausência de área de serviço. É comum ter a máquina de lavar roupa no banheiro ou na cozinha. Varal no teto? Nem pensar! São todos montáveis, como uma tábua de passar roupa. Assim, pra ocupar bastaaaante espaço. A única vantagem é que no inverno você bota o varal perto do termosifone que quiser, e as roupas secam rapidinho…
– A ausência de tanque de lavar roupa, causada pela ausência da área de serviço. Não consigo conceber a vida sem tanque de lavar roupa. Onde se lavam os panos de chão? Onde se esfregam as roupas brancas que a máquina de lavar não dá conta de clarear? No balde? E quantas vezes tem que mudar a água do balde? Olha, vou te dizer, sinto mais falta do tanque do que do ralo.
– O fato da galera não ser adepta do misto quente. Eu sou LOUCA por misto quente. Não só eles não são muito fãs da coisa, que aqui se chama toast, assim, em inglês, com pronuncia macarrônica, como também acham estranhíssimo comer queijo e presunto de manhã, ou no lanche da tarde. Presunto e queijo, pra eles, são substitutos mais ligeiros da carne, bons pra comer à noite, quando não pega bem se entupir de coisas pesadas. E nada de presunto cozido como o nosso, não senhor. Prosciutto cotto é coisa de turista. Italiano que é italiano só come prosciutto crudo.

Alinhás, sabe que esse tempo todo comendo pouca carne ? porque a carne deles é uma merrrrrrrrrrrrda ? me deixou meio intolerante? Ontem almocei bisteca e senti meu estrombo reclamando até tarde da noite.

mudinha

Aviso a todo mundo que tah esperando resposta a e-mail: nao sei quando vou poder responder! Soh semana que vem vao instalar uma internet decente aqui no trabalho, entao até lah fica tudo pendente.

beijos