Eu não sei vocês, mas eu tenho uma idéia bem precisa de quais frutas são sucáveis e quais não são. Lembro da primeira vez que vi um “tijolinho” de suco de pêra aqui na Itália. Fiquei pensando, putz grila, tanta fruta boa pra fazer suco e esse povo faz suco de PÊRA?

Com o tempo, a coisa foi piorando: fui vendo suco de maçã, de frutinhas silvestres, de DAMASCO… Damasco? Como assim, suco de damasco? Ah, a falta que faz um maracujá… Eu não gosto de suco de uva, mas pelo menos é uma coisa que eu considero normal. Aqui não tem suco de uva. Mas tem suco de kiwi com maçã verde. (…)

O pior é que muitas vezes me encontro em situações onde só há esses suquinhos estranhos. Depois da doação de sangue fiz o lanchinho clássico: pão com presunto, chocolate quente. Tava doida por um suquinho, mas pergunta se tinha uma coisa simples, tipo suco de laranja ou abacaxi? Não. Só damasco, pêssego e pêra. Pra mim são frutas pra comer, não pra beber.

Bom, pelo menos eles não tomam limonada. Porque limão amarelo já me dá nos nervos só de sentir o cheiro, mas numa limonada eu não aguentaria.

Em compensação, me habituei a algumas combinações frutíferas muito felizes: o já aqui citado maçã com banana, e o famoso ACE (pronuncia atche; tem vitaminas A, C e E), de laranja, cenoura e limão. Mais tarde chegou o ACE rosso, com suco de laranjas vermelhas da Sicilia. O suco tem uma cor linda, além de ser delicioso.

E ultimamente ando vendo algumas coisas gostosas combinando maracujá e pêssego: bebida láctea, mousse diet… O maracujá passa beeeeem longe, é verdade, mas só de ver o desenhinho dele no rótulo eu já fico feliz, mesmo que o sabor seja mais imaginado do que real.

**

Tô falando isso porque ontem comprei umas uvas chilenas sem caroço e lembrei das uvas vermelhas que eu comia espremendo a bichinha na boca e engolindo todo o interior, com semente e tudo. E lembrei do suco de uva que minha avó fazia pras minhas primas, porque eu gosto da uva mas não do suco (mas do vinho sim hehehe). Eu não sou muito frutofílica. Como praticamente uma banana por dia, embora a banana daqui seja uma merda (boto mel por cima pra disfarçar). Muito raramente uma clementina, mini-tangerina sem caroço. De vez em quando, uns morangos. Mais do que isso, não rola, não gosto mesmo, até porque não gosto de doce que não seja chocolate, e como frutas são doces…

Eu não sei quem inventou a uva sem caroço, mas gostaria de dar-lhe meus parabéns. Acho que um dos motivos que me levam a desprezar as frutas é sua complicação pra comer. Não me importo de cozinhar uma coisa complicadíssima, cheia de etapas e truques. Mas não me venham dar coisas complicadas pra comer, que eu não tenho saco. Prefiro um sanduíche.

Peixe com espinha? Tô fora. Bicho assado? Como o peito, que não precisa desossar. Fruta tem que descascar, tirar semente… Um saco! Eu gosto de sentar e começar a comer; se tiver que ficar catando espinhinha eu já perco todo o tesão pela coisa. Por isso as uvas sem semente estão entre as coisas mais lindas já inventadas no mundo. Ontem comi dúzias. E hoje fiz uma limonada verdadeira, de limão verde azedo cheiroso gostoso, depois do café da manhã. Sinto que há uma patrulha virótica rondando aqui em casa, só esperando um momento de stress pra atacar, e nada como uma limonada pra contra-atacar. Porque, vocês sabem, eu ODEIO ficar doente.

**

Falando em limão

Eu não sei vocês, mas eu tenho uma idéia bem precisa de quais frutas são sucáveis e quais não são. Lembro da primeira vez que vi um “tijolinho” de suco de pêra aqui na Itália. Fiquei pensando, putz grila, tanta fruta boa pra fazer suco e esse povo faz suco de PÊRA?

Com o tempo, a coisa foi piorando: fui vendo suco de maçã, de frutinhas silvestres, de DAMASCO… Damasco? Como assim, suco de damasco? Ah, a falta que faz um maracujá… Eu não gosto de suco de uva, mas pelo menos é uma coisa que eu considero normal. Aqui não tem suco de uva. Mas tem suco de kiwi com maçã verde. (…)

O pior é que muitas vezes me encontro em situações onde só há esses suquinhos estranhos. Depois da doação de sangue fiz o lanchinho clássico: pão com presunto, chocolate quente. Tava doida por um suquinho, mas pergunta se tinha uma coisa simples, tipo suco de laranja ou abacaxi? Não. Só damasco, pêssego e pêra. Pra mim são frutas pra comer, não pra beber.

Bom, pelo menos eles não tomam limonada. Porque limão amarelo já me dá nos nervos só de sentir o cheiro, mas numa limonada eu não aguentaria.

Em compensação, me habituei a algumas combinações frutíferas muito felizes: o já aqui citado maçã com banana, e o famoso ACE (pronuncia atche; tem vitaminas A, C e E), de laranja, cenoura e limão. Mais tarde chegou o ACE rosso, com suco de laranjas vermelhas da Sicilia. O suco tem uma cor linda, além de ser delicioso.

E ultimamente ando vendo algumas coisas gostosas combinando maracujá e pêssego: bebida láctea, mousse diet… O maracujá passa beeeeem longe, é verdade, mas só de ver o desenhinho dele no rótulo eu já fico feliz, mesmo que o sabor seja mais imaginado do que real.

**

Tô falando isso porque ontem comprei umas uvas chilenas sem caroço e lembrei das uvas vermelhas que eu comia espremendo a bichinha na boca e engolindo todo o interior, com semente e tudo. E lembrei do suco de uva que minha avó fazia pras minhas primas, porque eu gosto da uva mas não do suco (mas do vinho sim hehehe). Eu não sou muito frutofílica. Como praticamente uma banana por dia, embora a banana daqui seja uma merda (boto mel por cima pra disfarçar). Muito raramente uma clementina, mini-tangerina sem caroço. De vez em quando, uns morangos. Mais do que isso, não rola, não gosto mesmo, até porque não gosto de doce que não seja chocolate, e como frutas são doces…

Eu não sei quem inventou a uva sem caroço, mas gostaria de dar-lhe meus parabéns. Acho que um dos motivos que me levam a desprezar as frutas é sua complicação pra comer. Não me importo de cozinhar uma coisa complicadíssima, cheia de etapas e truques. Mas não me venham dar coisas complicadas pra comer, que eu não tenho saco. Prefiro um sanduíche.

Peixe com espinha? Tô fora. Bicho assado? Como o peito, que não precisa desossar. Fruta tem que descascar, tirar semente… Um saco! Eu gosto de sentar e começar a comer; se tiver que ficar catando espinhinha eu já perco todo o tesão pela coisa. Por isso as uvas sem semente estão entre as coisas mais lindas já inventadas no mundo. Ontem comi dúzias. E hoje fiz uma limonada verdadeira, de limão verde azedo cheiroso gostoso, depois do café da manhã. Sinto que há uma patrulha virótica rondando aqui em casa, só esperando um momento de stress pra atacar, e nada como uma limonada pra contra-atacar. Porque, vocês sabem, eu ODEIO ficar doente.

**

Falando em limão

giornata IKEA

E acabei não comentando nossa incursão à IKEA, um dos nossos programas preferidos. Claro que nos perdemos no caminho e viramos à direita quando era pra virar à esquerda, mas considerando o nosso senso de orientação (menor ou igual a zero), até que a volta que tivemos que dar foi pequena.

Chegando lá, a cabeçada de sempre. Um mundo de gente que não tinha coisa melhor a fazer com o sábado à tarde e foi bater perna na IKEA. Aquele sotaque toscano delicioso vindo de todos os lados, o T com a língua pra fora típico do pessoal de Prato (que eles pronunciam Pratho), alguns peruginos comedores de vogais. Não vimos grandes diferenças em relação ao que estava exposto na primeira vez que fomos lá, ano passado. Notamos que nosso espetacular mix de cachorro de parede e gancho pra roupas não estava mais à venda. Em compensação havia minibichos de pelucia foférrimos a 1 euro, porta-lápis bonitinhos, belas coisas pra cozinha, formas pra muffin (que vou usar pra fazer petit gateaux), cadeiras de plástico pra oficina a € 9,90, tapetinhos pro quarto por € 1,90, entre outras coisitchas. Não tem jeito; você pode estar super bem-intencionado, pegar uma sacola crente que todas as suas compras vão caber felizes nela, mas no final das contas você acaba comprando um mucchio de coisas e tem que ceder aos encantos do carrinho. No final da tarde, tínhamos um carrinho por pessoa (a Arianna e a tia do Mirco foram com a gente). Sorte que a mala do carro é gigante, senão um dos quatro teria que voltar pra casa de trem… ;)

**

E segunda-feira jantamos chinês com FeRnanda e Fabião. O aniversário da FeRnanda é agora dia 2 de março, e combinamos de fazer uma mini-festa aqui em casa, já que nosso apartamento é maior e eu tenho uma cozinha mais equipada (a FeRnanda não cozinha). O cardápio: coxinha de galinha, pão de queijo, guaraná, quiche de couve-flor ou empadão de frango ou torta de cebola (não decidimos ainda), bolo Prestígio. De qualquer maneira estamos organizando uma excursão à Castroni, em Roma, pra abastecer as nossas dispensas tupiniquins. A FeRnanda tem mesmo que ir à capital pra pegar uns sapatos que deixou com os primos que moram lá, então vamos matar dois coelhos com uma porrada só.

Mãe, pede a receita do bolo Prestígio pra vovó, por favor, que eu não tenho! E a do quiche também, que ela já me deu 300 vezes mas eu perco SEMPRE…

Há um ditado italiano que diz que “il mondo è bello perché è diverso”. Realmente são as diferenças entre as pessoas que fazem a vida ser tão interessante. Mas tem vezes que isso tudo enche o saco e eu me pego suspirando, sonhando com vidas padronizadas como descrito em 1984 ou em Brave New World, que ainda estou terminando. Quando vejo a imbecilidade e a cegueira das pessoas tenho que admitir que um mundo onde todo mundo pensasse igual e vivesse anestesiado crente que está feliz seria muito mais fácil de se lidar.

Tô falando isso por conta desse bafafá do Blogger Brasil. Foi uma sacanagem sim o que eles fizeram, cortando acessos sem avisar nada. E a justificativa ridícula que deram não colou, nem por um minuto. Mas putz grila, gente, um blog é só um blog! Ninguém vai morrer se ficar sem blogar, ou se ficar sem ler um blog! Aliás, vendo a quantidade de besteira que neguinho bota na rede sem nem se dar ao trabalho de corrigir gramaticalmente antes de publicar, eu acho que foi é ótimo ter sumido esse bando de blog mesmo. Quem gostava mesmo da coisa e escrevia bem, ou pelo menos escrevia coisas interessantes, vai acabar simplesmente mudando de endereço mas continuando a escrever. Quanto aos blogs cheios de coisas piscantes, palavras despropositadamente em itálico e negrito no meio das frases, erros de Português lamentáveis, espero realmente que desapareçam no limbo internético e nunca mais voltem.

Solidária com o problema, que não me afetava diretamente porque, além de ter meu blog no blogspot, não sou boba e tenho backup de tudo, desde o primeiro post, traduzi o texto do manifesto que iríamos publicar em Inglês e Italiano. E inscrevi-me na lista que a Luciana Misura organizou pra manter o movimento organizado. Mas, caralho, exclamou a princesinha. Como neguinho é desprovido de objetividade! Como neguinho é tapado! Como neguinho tem prioridades erradas! Como neguinho pega o bonde andando E NÃO PERCEBE!!! E’ impressionante a absoluta incapacidade que a maioria do rebanho tem de ler nas entrelinhas, de associar idéias, de extrapolar. Putz grila!

Tenho paciência pra isso não. Saí da lista. Não posso continuar participando de uma lista através da qual recebo 60 emails por dia, a maioria do tipo “é mesmo!!!!! Bjos!!!!!!”, outros super agressivos e mal-educados, atacando gente que não tem pissurucas a ver com a história. Ora, façam-me o favor. Depois o tráfico na rede fica lento e neguinho reclama. Se as pessoas usassem os benefícios da vida moderna pra se divertir, pra coisas úteis, pra aprender e/ou ensinar, em vez de encher o saco dos outros ou passar certificado de bocó, o mundo seria um lugar muito melhor pra se viver.

Coitada da Luciana, que criou o raio da lista e agora vai ter que embalar o Mateus que pariu.

Há um ditado italiano que diz que “il mondo è bello perché è diverso”. Realmente são as diferenças entre as pessoas que fazem a vida ser tão interessante. Mas tem vezes que isso tudo enche o saco e eu me pego suspirando, sonhando com vidas padronizadas como descrito em 1984 ou em Brave New World, que ainda estou terminando. Quando vejo a imbecilidade e a cegueira das pessoas tenho que admitir que um mundo onde todo mundo pensasse igual e vivesse anestesiado crente que está feliz seria muito mais fácil de se lidar.

Tô falando isso por conta desse bafafá do Blogger Brasil. Foi uma sacanagem sim o que eles fizeram, cortando acessos sem avisar nada. E a justificativa ridícula que deram não colou, nem por um minuto. Mas putz grila, gente, um blog é só um blog! Ninguém vai morrer se ficar sem blogar, ou se ficar sem ler um blog! Aliás, vendo a quantidade de besteira que neguinho bota na rede sem nem se dar ao trabalho de corrigir gramaticalmente antes de publicar, eu acho que foi é ótimo ter sumido esse bando de blog mesmo. Quem gostava mesmo da coisa e escrevia bem, ou pelo menos escrevia coisas interessantes, vai acabar simplesmente mudando de endereço mas continuando a escrever. Quanto aos blogs cheios de coisas piscantes, palavras despropositadamente em itálico e negrito no meio das frases, erros de Português lamentáveis, espero realmente que desapareçam no limbo internético e nunca mais voltem.

Solidária com o problema, que não me afetava diretamente porque, além de ter meu blog no blogspot, não sou boba e tenho backup de tudo, desde o primeiro post, traduzi o texto do manifesto que iríamos publicar em Inglês e Italiano. E inscrevi-me na lista que a Luciana Misura organizou pra manter o movimento organizado. Mas, caralho, exclamou a princesinha. Como neguinho é desprovido de objetividade! Como neguinho é tapado! Como neguinho tem prioridades erradas! Como neguinho pega o bonde andando E NÃO PERCEBE!!! E’ impressionante a absoluta incapacidade que a maioria do rebanho tem de ler nas entrelinhas, de associar idéias, de extrapolar. Putz grila!

Tenho paciência pra isso não. Saí da lista. Não posso continuar participando de uma lista através da qual recebo 60 emails por dia, a maioria do tipo “é mesmo!!!!! Bjos!!!!!!”, outros super agressivos e mal-educados, atacando gente que não tem pissurucas a ver com a história. Ora, façam-me o favor. Depois o tráfico na rede fica lento e neguinho reclama. Se as pessoas usassem os benefícios da vida moderna pra se divertir, pra coisas úteis, pra aprender e/ou ensinar, em vez de encher o saco dos outros ou passar certificado de bocó, o mundo seria um lugar muito melhor pra se viver.

Coitada da Luciana, que criou o raio da lista e agora vai ter que embalar o Mateus que pariu.

Srbija

Há muito tempo eu vejo rituais com olhos distantes, antropológicos. Vejo velhas tradições com um interesse curioso, e não sem uma certa compaixão. Entendo a necessidade de marcar a importância de certas coisas com rituais, festinhas, símbolos, palavras especiais. Mas não consigo fazer parte disso, não consigo me imaginar participando ativamente de uma coisa dessas. Consigo entender a importância de uma coisa, de um ato, de uma data, sem necessidade desses “bookmarks” culturais. Não preciso de um padre fingindo que bebe o sangue de Cristo pra me lembrar que a gente tem que tentar ser legal com os vizinhos. Nem de usar calcinha vermelha no Ano-Novo, como se faz aqui na Itália, pra atrair boa sorte. Vejam que não tô falando só dos rituais religiosos. E olha que pra mim religião é uma das coisas mais idiotas que existem no mundo, embora eu entenda seu valor como educador, no passado (hoje virou manipulador de massas, mas deixemos pra lá). Não sei, talvez eu esteja ficando mentalmente velha, mas cada vez mais acho esse tipo de coisa típico de gente ignorante e portadora daquele célebre problema já citado aqui no paca: olhar e não ver.

Isso tudo como preâmbulo pro Natal na Sérvia. Eles são ortodoxos, religião da qual eu nunca soube nada (e continuo sabendo muito pouco, e honestamente querendo saber menos ainda).

O Natal deles é comemorado no dia 7 de janeiro. Na véspera os homens vão ao bosque cortar galhos de carvalho. Diz-se que quem acha o galho mais “folhudo” terá mais riqueza, abundância e filhos em casa. Curioso, interessante, né? Mas não dá pra deixar de ter pena desses homens que vão pro bosque coberto de neve, num frio do cacete, armados (porque eles derrubam os galhos com tiros de espingarda), bêbados, e voltam pra casa exaustos, comem carne de porco até morrer e vão dormir. No final das contas acaba sendo somente uma tradição besta, patética e sem sentido.

Esses da foto ai em cima são o Mika, irmão do garoto que trabalha na oficina do Mirco, e o Ivan, cunhado dele.

Estão vendo s lápide preta à esquerda do Mika? Há um cemitério muito antigo no meio do bosque. Segundo o Mika, é completamente abandonado, e volta e meia um cachorro de caça ou um javali esfomeado desenterra a mão ou o pé de um cadáver. Não há cercas nem muros, nem ninguém tomando conta, assim como o pequeno cemitério de Majilovac. As lápides negras são bonitas, mas dão um ar incrivelmente lúgubre ao lugar, ainda mais assim, brotando do meio da neve. Na manhã de Natal fomos levar velinhas ao cemitério.

Mika e Jelena, antes de acendê-las, beijam as fotos dos antepassados enterrados ali. As fotos são todas iguais: as mulheres de lenço na cabeça e os homens de bigodão. Todos sérios, austeros. Jelena beija inclusive as fotos dos antepassados do Mika, gente que ela não chegou a conhecer (aliás, nem ele), mas que através do matrimônio passou a ser sua família também.

Outra tradição deles é fazer a ceia de Natal sobre uma camada de palha no chão, pra relembrar a origem humilde de Jesus. À parte o fato de que eu não acredito em Jesus, qual é o sentido disso? Você relembra a Sua origem humilde, e depois? Se no resto do ano você não come em cima da palha, isso significa que nos outros 364 dias do ano você nem pensa nele e não se comporta como cristão? O fato de você comer sobre a palha no Natal te transforma numa pessoa melhor? Eu acho que não. Acho que comer sobre a palha dá só coceira na bunda, e basta.

Na casa onde nos hospedamos eles não comem sobre a palha, mas o homem da família sai pra buscar sacos de palha que depois serão depositados sob a mesa de jantar. Antes de entrar em casa com a palha ele bate na porta três vezes. A esposa abre, ele entra, recita umas coisas às quais a mulher responde:
– Jesus nasceu.
– Sim, Jesus nasceu.
– Todo o mundo está sereno, e chove. [não esquecer o simbolismo camponês dessa frase: se não chove, não há colheita.]

Pronto: palha debaixo da mesa, a mulher-escrava bota a mesa e começa o jantar.

Durante o dia as mulheres-escravas, nesse caso a famosa avó que não descobrimos onde dormia, assam vários tipos de pão. Na verdade é uma massa única, mas os pães têm formatos diversos: de bichos, de plantas, de coração, etc. Antes de começar a comer beija-se e acende-se uma vela, que fica num castiçal cafona no meio da mesa. O patriarca da família, nesse caso o pai do Momo, diz uma prece, corta um pedaço de cada pão e o molha no vinho. Cada um da mesa come um pedaço de pão com vinho (horrível). O patriarca acente uma velha lanterna com umas pedrinhas de incenso, reza de novo, benediz a família, estende o braço, sua mulher-escrava vem correndo recolher o queimador de incenso, e antes mesmo que ela volte à mesa ele dá ordem de começar a comer.

Assim como na tradição clássica cristã (eu acho), não se come carne no Natal, mas peixe. O jantar começa com uma deliciosa sopa de frutos do mar muito bem temperada. Depois vem o arroz com aipo (unidos venceremos mas gostoso), salada de feijão branco com cebola e salsinha, peixe frito (horrívellllllllll… peixe de lago, todo escamoso e ossudo parecendo um fóssil) e os famosos e odiosos pepinos/pimentões/cenouras em conserva.

Depois do jantar, os pratos devem ficar na mesa até o dia seguinte, esperando o nascimento de Cristo. Resisti à tentaçao de perguntar como assim, Bial?.

Dorme-se cedo porque no dia seguinte o almoço tem que ser antes do meio-dia, sabe-se lá por quê. Antes do almoço rola o mesmo ritual da ceia, com o incenso, as preces, etc.

Tem um detalhe a mais: assa-se (leia-se a mulher-escrava assa) uma polenta redonda, já marcada em pedaços pra cortar, como uma pizza. Os pedaços são distribuidos a partir do mais jovem sentado à mesa, e cada pedaço tem uma coisa dentro, simbolizando coisas diferentes: o Mirco e o Mika acharam moedas, simbolizando dinheiro, é claro; eu, um pedacinho de madeira, simbolizando casa; Jelena um raminho de planta, simbolizando uma boa colheita; Zorika uma semente de abóbora, que segundo ela não significa nada.

Vem a sopa de legumes, sempre deliciosa. Depois o patriarca pega um pãozão com formato de panetone, com um raminho de flores secas espetado no alto.

Ele corta o pão pela metade, mas sem separar as partes. Rega o pão com vinho.

Depois ele e o outro homem da casa, o Momo, separam as metades; diz-se que comandará a família durante o ano aquele cuja metade ficar com as folhas secas. Unem-se as metades de novo e gira-se o pão três vezes; a cada giro faz-se o sinal da cruz e cada um dos homems beija as duas metades.

Continua a comilança: trouxinhas de repolho com carne moída defumada e arroz (de-li-ci-o-sas, comi até morrer), carne de porco e carneiro (claro), peru defumado com molho de cogumelos (delícia!), pickles, beterraba (eca eca eca eca), a salada de feijão da noite anterior. Milhões de brindes, um a cada cinco minutos e meio, em média. E o tempo todo aquela maldita música de festa junina tocando no rádio.

Mas então: eu acho tudo isso incrivelmente primitivo. Não tive vontade de rir, e mesmo que tivesse não teria rido porque seria falta de respeito, e apesar de achar tudo muito ridículo, respeito a seriedade com a qual eles participam de tudo isso. Mas acho primitivo mesmo, coisa de homem das cavernas que pinta o boi na parede achando que isso vai ajudá-lo a caçar o boi na pradaria. Sei lá, acho muito mais válido ficar quieto, não ficar girando e beijando pão, e tentar se comportar bem durante o ano inteiro do que fazer toda essa papagaiada só nas ocasiões especiais e ser desonesto ou chato de galochas, como foi nosso anfitrião-empurrador-de-comidas nessa viagem.

Claro que o fato de alguém participar de rituais ou ser religioso não significa automaticamente que ele não é boa pessoa no resto do ano. Mas sabe aquela história do cão que ladra e não morde? Sempre achei que quem anuncia demais, prega demais, catequisa demais, no final das contas fica cego pras próprias chatices. Fora o tempo que se perde com esses simbolismos, tempo esse que poderia ser melhor empregado em coisas mais úteis. Repito que não há um só livro nessa casa, e nem no apartamento deles aqui na Itália. A meu ver, isso é MUITO assustador.

Vem cá… Somos só eu e o Mirco que achamos a Angelina Jolie FEIA? Com aquela boca deformada?

**

O que merece um arquiteto que planeja o banheiro feminino de um multi-sala num movimentado centro commerciale sem UM ÚNICO gancho pra bolsas, casacos, cachecóis e eventuais sacolas de compras? Acertou quem disse um dedo no olho.