Arquivo de fevereiro de 2005

libri e ancora libri

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2005

Domingo de manhã, enquanto o Mirco não acordava, li The BFG, de Roald Dahl, que é muito divertido. Imagino que traduzir aquilo deve ser um castigo dos infernos, porque os neologismos e jogos de palavra são numerosíssimos, e interessantíssimos. Concordo pRenamente com o Alexandre: se você não fala Inglês, está morto para o mundo, meu amor. Sorry.

Depois do almoço na Arianna passamos no Gianni pra acertar umas contas, e depois fomos pra casa. Fiquei passando roupa até a hora do jantar, e chapamos vendo 12 Monkeys. Nunca consegui ver esse filme inteiro, impressionante.

E comecei The Old Man And The Sea, de Hemingway, que estou custando a ler por falta de capacidade de concentração. Minhas mãos ainda estão doendo, mesmo depois do fim de semana sem nem tocar no computador, mas vou ter que agüentar a onda porque tenho 40 páginas pra entregar antes de partir pra Argentina. Ui.

mais feshtenha

domingo, 27 de fevereiro de 2005

Sábado teve festa na casa da FeRnanda. Antes passamos na casa dos sérvios, que tinham convidado a gente pra jantar. Batemos um papinho, comemos uns antipastinhos e uma sopinha, que eles fazem muito bem, botei as fofocas em dia com a Aurora, uma italo-sérvia IMENSA (tanto de altura quanto de ossatura), inteligente e muito esperta que estuda em Terni, e depois fomos pra Ripa. Nevava, mas não tivemos problemas na estrada, que felizmente não tava congelada – Ripa fica no alto de uma colina, como todo bom castelinho medieval, e quando a temperatura cai de repente depois de uma chuva não há carro no mundo que suba a ladeira. Chegamos junto com a Nadia e o Aldo, que moravam em Rivotorto mas se mudaram pro Brasil e estão aqui de férias. Bem mais tarde chegaram a irmã da FeRnanda, Renata, com o marido Stefano; moram na Toscana e ela saiu do trabalho tarde, encontraram neve na estrada, e levaram horas pra chegar. Aí atacamos: pão de queijo, pastel de carne e palmito que o Fabião improvisou, salgadinhos mil, salame, mortadela, alho em conserva, coisinhas do gênero. O bolo, de cenoura com cobertura de chocolate, foi ela mesma quem fez, coisa completamente inédita já que na família dela ninguém cozinha nada, há gerações e mais gerações. Não comi, mas todo mundo gostou. Também teve brigadeiro e bolinho de chuva, parabéns animado, a cachorra fazendo xixi de agitação, Skank tocando no som, risadas e muitas fotos, que eu obviamente não vou botar aqui porque estou em momento anti-foto total. Chegamos em casa às três da manhã, a massa falida.

feshtenha

sábado, 26 de fevereiro de 2005

A festa do Franco acabou não sendo tão divertida como costuma ser. Chegamos tarde, porque dei aula até as oito da noite, e acabamos ficando na ponta da mesa oposta à dele e dos amigos que conhecemos. Ao nosso lado, duas professoras de Inglês, uma da Università degli Studi di Perugia, e a outra da Stranieri, justamente pro curso de Comunicazione Internazionale que eu quero fazer. Foi uma pena ter sentado ali, porque o Franco e seus amigos mais íntimos são as pessoas mais cultas e engraçadas que eu já conheci aqui na Itália, senão na minha vida inteira.

Ele mesmo é professor de Inglês e tradutor, lá na Stranieri. Um homão alto, forte, peludo, e bichérrimo, e que ainda por cima tem uma queda pelo Mirco. Uma história sua famosa rolou lá mesmo na universidade: ele, fazendo mil gestos, caras e bocas pra explicar sei lá o quê, até que um aluno levanta a mão e diz:

- Pô, professor, o senhor faz tanta careta que fica parecendo até que é meio bicha!

Ao que ele responde:

- Só meio, querido?

A única vez que eu dei mais risada do que quando ele contou essa história foi ele mesmo relatando o dia em que ficou preso no carro do Mizio. Mizio também ensina Inglês e também é tradutor, mas fala Português de Portugal e sempre me cumprimenta dizendo “como estás?”, que eu acho engraçadíssimo. Ele é um amor, e de uns tempos pra cá anda trabalhando com cerâmica, usando uma técnica antiga que sempre foi segredo de família, e que ele resgatou. Temos um vaso meio dourado dele lindão aqui na sala.

Mas então: o Franco é a pessoa com menos senso prático que já pisou na face da Terra. Não sabe usar celular nem videocassete, não sabe usar o cartão do banco, e quem administra suas finanças é um amigo que trabalha num banco. Não sabe dirigir, não sabe nem ferver água pra fazer chá, e cada dia janta na casa de um amigo, ou num restaurante, ou algum amigo vai à casa dele pra cozinhar.

Um dia Mizio foi buscá-lo pra ir trabalhar, e no caminho passou no supermercado. Franco tinha caído no sono, e como era uma coisa rápida, Mizio trancou o carro, um Toyota ou outra coisa do gênero, e deixou o homem lá dentro. O tempo foi passando, o sol foi esquentando, Franco começou a suar e acabou acordando. Quis abrir a janela pra se refrescar, mas não conseguia. Tentou abrir a porta, mas não achava a alavanca ou o botão. Começou a sinalizar loucamente pras pessoas que passavam, mas obviamente ninguém se dignou a parar pra falar com aquele maluco de peito peludo que esmurrava os vidros de dentro do carro. Só quem parou foi um negão, um africano que vendia bugigangas. Franco desesperado tentando se fazer entender, e o negão nada. Franco tira da bolsa um caderninho de telefones e encosta na janela, apontando pro nome do Mizio – aparentemente ele queria que o negão telefonasse pro celular do Mizio, não se sabe como, pra que ele viesse abrir a porta. Nesse momento Mizio sai do supermercado, vê aquele negão enorme parado em frente à janela do carona, e, achando que eles estavam marcando algum encontro caliente, não se aproximou, pra não interromper as negociações. O tempo foi passando, o negão nada de sair dali, Mizio achou estranho e foi ver o que tava rolando. Quando finalmente abriu a porta, o comentário do Franco foi:

- Odeio o design japonês.

Crianças, ele e o Mizio contando essa história deixam você ficar sem ar de tanto rir. A cara do Franco imitando ele mesmo quando finalmente Mizio abriu a porta e ele pôde dar aquela super-respirada, é o que há. Até hoje quando eu lembro dessa história fico rindo sozinha.

Faltou só o Francesco, ex-chefe do Mirco e da Stefania na empresa onde eles trabalharam há alguns anos. Francesco é um genovês requintadíssimo, discreto, educado, bem vestido, cheiroso, culto, divertido, viúvo e rico. Sentimos falta dele no jantar, que no final acabou sendo divertido do mesmo jeito, principalmente no momento abertura de presentes. Eu dei um livro do Ian McEwan, Mirco deu um quadro de metal com ímãs pra fotografias, que ele mesmo pintou. Mizio deu uma caneta que estica, virando um apontador daqueles tipo antena de TV, pra dar aula. Os comentários do povo, conhecendo o retardamento tecnológico do aniversariante: só não vai esquecer de encolher a antena pra escrever, hein? E ele dando risada, e fingindo que escrevia com aquele negócio compriiiido.

Quando saímos do restaurante a neve tava caindo direto, mas felizmente não tivemos problema na estrada.

Na sexta não tivemos forças pra fazer nada. Gianni veio aqui em casa resolver mais uns dos intermináveis detalhes da viagem à Argentina, e acabou indo embora depois da meia-noite. Eu chapada, com as mãos tremendo, os punhos doendo horrivelmente, os tendões gritando de tanto digitar, e ainda por cima tendo que escrever e-mail pra uma criatura chamada Sema, que não sei nem se é homem ou mulher, perguntando se há vagas no hotel em El Calafate. Devo ter picado muita salsinha na tábua dos dez mandamentos mesmo.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2005

Gente, alguém pode me indicar um bom hotel em Buenos Aires? Andamos dando uma olhada, mas achamos tudo meio cafoninha. Por favorrrrr?

num credito!

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2005

Acabei a Tradução Infinita! Nem acredito!

Tô com os punhos doendo, vou lá comer uma pizza e descansar minhas mãozinhas exaustas e em estado pré-LER. Ciao.

de neve, livros e mais nada

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2005

Ontem nevou bastante no país inteiro. Toda a Itália parada por causa dos transtornos causados pela neve, inclusive as ilhas. Até aqui no interior do Gabão nevou direitinho, uns flocos imensos, que se acumulavam na estrada. Lá pra hora do almoço o sol saiu e derreteu tudo. Hoje tá um frio desgraçado, mas nada de neve; céu limpo e ar fresco típicos do inverno. Uma das tulipas roxas já está dando o ar da graça, devagarzinho. A embalagem diz que é uma espécie de “fioritura tardiva”, e provavelmente a flor só vai sair em abril ou maio. Não tenho pressa.

Pro Franco Romano comprei um livro do Ian McEwan que eu nunca li, mas gosto do autor e acho que ele vai gostar, até porque é professor de Inglês e tradutor. Pro Gianni comprei a tradução de White Teeth, de Zadie Smith, que é uma das coisas mais hilárias que eu já li. E pra Fernanda comprei a tradução em italiano de High Fidelity, que é outra das coisas mais hilárias que eu já vi.

Estou gostando de The Lady Chatterley’s Lover. O início é meio lento, mas agora a coisa começa a esquentar – e bota duplo sentido nisso.

E como eu sou uma pessoa problemática, lógico que não me contentei com os três livros pra presente, e pra mim mesma, porque eu mereço, comprei Fight Club, que eu ainda não tinha lido, do Chuck Palahniuk; BFG, do Roald Dahl (o que a Camila, um docinho, filha da Julie, ganhou de Natal); The Old Man and the Sea (porque eu falei que esse ano seria o ano dos clássicos); The Curious Incident of the Dog in the Night-Time, de Mark Haddon, porque mesmo se eu nunca tivesse ouvido falar desse livro, com esse título ele já teria me enchido de curiosidade; e Storia del Miracolo Italiano, de Guido Crainz, aquele que eu ouvi no rádio outro dia se perguntando comé que a Itália virou primeiro mundo (cof cof cof) sem nunca ter deixado de ser um país de camponeses ignorantões. Estou curiosíssima, íssima, íssima. Compartilharei, compartilharei.

zoo station

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2005

E pra não deixar o dia de hoje sem post… As aventuras de Legolas, o cachorro que dorme sentado, no Mundo Encantado dos Bichos da Arianna, acompanhado de sua fiel escudeira, a gata tigrada Priscilla (pronúncia-se Prishilla, tá?). A foto mostra nosso super-herói em momento de relax, tendo ao fundo o pombal, patos e galinhas. Isso porque não é mais época de gansos nem perus, e os coelhos morreram todos.

ew

terça-feira, 22 de fevereiro de 2005

Ainda não terminei a Tradução Mais Chata do Mundo. Não consigo me concentrar, o troço é chato demais! Agora falta pouco, mas parece que por isso mesmo faltam também as forças. Só de olhar pro Word já tenho vontade de sair correndo.

A sorte é que vem outra tradução legal depois. Estranha, mas legal. E é segredo também, então tá de bom tamanho que vocês fiquem felizinhos por mim, tá bom?

cicogna

terça-feira, 22 de fevereiro de 2005

Tá uma engravidação generalizada ultimamente. Primeiro foi a Ane, depois a Carola; no fim de semana recebemos a notícia de que Marco e Michela, nossos companheiros de sagra do ganso, da cebola, do aspargo etc, também estão in dolce attesa. Gianni e Chiara andaram jogando um papo pra cima da cegonha e torcem pra serem presenteados esse ano. Só falta a FeRnanda, que acho que só não engravidou ainda porque não consegue pensar em outra coisa além de engravidar.

Falando em FeRnanda, sábado tem festchenha de aniversário dela em Ripa. E ontem, bem no meio do FotR, que passou no Canale 5, ligaram pra nos convidar pra um jantar gay na quinta. Aniversário do Franco Romano, que é uma figuraça. Estranhamente, esse ano o balacobaco não vai ser em restaurante chinês. De qualquer maneira vai ser ótimo; não vemos esse pessoal há muito tempo e eu já tava ficando nostálgica.

nham

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2005

Há alguns meses a Carola me mandou, lá de Dubai, um pacotinho de curry pra carnes, um de curry pra legumes, e um de páprica. Já usei todos, de vários jeitos, mas o problema maior sempre era o molhinho, que nunca ficava legal. Hoje acho que acertei.

O peito de frango, que eu tinha no congelador, já cortado em cubinhos, ficou marinando desde manhã cedo em um pouco de azeite, o curry pra carnes, páprica, uma folha de louro e alho bem amassado. Lá pro meio-dia acendi o fogo e “saltei” o frango na frigideira anti-aderente, até pegar uma corzinha. Polvilhei um pouco de farinha de trigo e juntei um pouco de leite, que, com a farinha, engrossou um pouco. Deixei tudo cozinhando assim com a panela tampada. Resultado: o frango ficou superhipermegamacio, desmanchando na boca; o molhinho, antes pálido, pegou a cor e o sabor do curry e ficou numa consistência perfeita – pra ajustar, um tiquinho de água, se necessário. Joguei umas amêndoas tostadas no final, pra dar um tchan, e pronto. Comi com arroz selvagem bem temperadinho com alho e cebola. Ficou uma verdadeira di-li-ça. Bobo do Mirco que não gosta dessas coisas e foi de spaghetti com molho de tomate-cereja e atum.

Pro jantar de hoje vou fazer frango com cerveja no forno. O pedaço é pequeno e não identificável (a Arianna que me deu, e eles aqui cortam o frango de um jeito completamente diferente do nosso, não entendo nada); vai ficar pro Mirco, com batata palito feita no forno. Eu provavelmente vou de salada de alface com atum e milho, ou então faço uma sopinha de cereais, que com essa temperatura e essa dor de garganta cai muito bem, obrigada.

Adoro ficar em casa e ter tempo pra cozinhar com calma. Mesmo que o motivo pelo qual eu estou em casa seja uma tradução chatíssima e, conseqüentemente, interminável.

p.s.: Ah, ontem consegui meia hora pra começar a estudar Francês, e peguei no sono lendo Lady Chatterley’s Lover, que é um livro, hm, como direi, singular.