Festa dei Ceri – Gubbio

Sábado à noite, durante a pizza, Roberta veio com a idéia de ir a Gubbio no dia seguinte. O namorado dela vai pescar todos os domingos, e Gianni e Chiara iam a Lucca visitar parentes, de modo que resolvemos ir eu, Mirco e Robertinha. Todos nós já tínhamos estado em Gubbio, mas nunca no dia 15 de maio, dia de festa na cidade.

Mas vamos por partes. Gubbio é uma cidade pequena (30 e poucos mil habitantes), que repousa no monte Ingino, e fica a uns 45 km daqui. Dela diz-se que é terra de doidos, e que pra provar que é maluco o visitante deve correr três vezes em volta da fonte mais famosa da cidade. As lojas de souvenir vendem certificados de maluco em meio aos tradicionais balangandãs cafonas que japonês e alemão adora. Estive lá pela primeira vez em 2002, com duas colegas de turma da Università per Stranieri, Susanne, suíça, e Lihn, vietnamita. Até rolou uma excursão com a faculdade no 15 de maio daquele ano, e não me lembro por que não fomos. Mas enfim, a cidade é lindíssima e há muito pra ver, mesmo fora da festa. Mas a Festa dei Ceri é, diz-se, a mais antiga manifestação deste tipo na Itália, e é uma tradição tão… singular, que os três “ceri”, que já já explico, são o símbolo da região Umbria.

Mas então. O santo padroeiro da cidade é Santo Ubaldo, que morreu no dia 16 de maio de 1160. Desde então faz-se a festa no dia 15. A coisa consiste no seguinte, e depois vejam se neguinho não tem razão quando diz que todo eugubino (quem nasce em Gubbio) é maluco: há esses três “ceri” (pronúncia tchêri), que são uns negócios altos, de madeira, pesando 400 quilos cada um. Cada cero é formado por dois prismas octogonais encaixados um sobre o outro. No alto do cero empoleira-se a estátua de um dos santos que participam da corrida: Santo Ubaldo, vestido de dourado, São Jorge, de vermelho, e Santo Antônio Abade, de preto, nessa ordem. A corrida não é competitiva, ou seja, os santos chegam sempre na mesma ordem. O objetivo é simplesmente chegar o mais rápido possível na basílica de Santo Ubaldo, que fica lá em cima do monte – mas lá em cima MESMO. Cada cero fica apoiado verticalmente em uma plataforma, que é carregada nos ombros pelos ceraioli, que usam camisas de cetim com a cor do seu santo.

Os sites oficiais da festa dão duas explicações possíveis pra sua origem: uma é menos documentada e menos provável, e teria origens pagãs, em homenagem à deusa romana Cereres ou à deusa umbra (leia-se mais ou menos etrusca) Cerfus. A hipótese mais aceita é a de que a festa nasceu como homenagem ao bispo de Gubbio, o tal Santo Ubaldo, que parece que era muito querido. “Cero” é um jeito antigo de dizer “vela”, o que torna possível que a origem dessa maluquice toda tenha sido simplesmente o fato de que o pessoal saiu em procissão, carregando velas, quando o bispo morreu. Eu ouvi outra versão uma vez, mas que não achei em nenhum outro lugar: que os ceri são “corridos” pela cidade porque historicamente alguém teve que correr pra levar uma mensagem ao santo, que estava em fim de vida, sei lá. Acho que me enganaram.

De qualquer maneira, a coisa toda é interessantíssima. O dia começa muito cedo: os capitães dos ceri são acordados às 5:30 ao som de tambores; esses dois são os responsáveis pela parte organizativa da festa. Às oito e meia, na igreja dos Muratori (pedreiros), os ceraioli participam da missa, e logo depois os santos saem em procissão, que atravessa as principais ruas da cidade, e termina no Palazzo dei Consoli, na Piazza Grande, onde os ceri, que ficam o ano todo enfurnados na basílica, já estão esperando. Às nove e meia toma-se o lanchinho da manhã, à base de peixe. Às onze, da Porta Castello (lembrem-se de que é uma cidade velha pra cacete e ainda há muros, portas, fortalezas, essas coisas), parte o desfile dos ceraioli, com bandas de música e coisa e tal. Aos quinze pro meio-dia os chefes da cidade, em roupas medievais, entregam as chaves da cidade ao Primeiro Capitão, um gesto simbólico pra lembrar a todos que por um dia o poder está nas mãos do povo. Dali os ceri descem as escadarias do Palazzo até a praça. Os sinos do Campanone, a torre campanária, começam a tocar, sinalizando o início da Alzata (“levantada”): a um sinal dos chefes dos ceraioli, esses últimos levantam os ceri, que ficam em posição vertical. E dali passeiam pela cidade, exibindo-se, e homenageando as antigas e tradicionais famílias de ceraioli. Antigamente quem participava da festa não escolhia o santo, mas era meio que forçado a carregar o cero do santo que apadroava a sua profissão: Santo Ubaldo é o padroeiro dos pedreiros, São Jorge, dos comerciantes, e Santo Antônio Abade, dos camponeses e estudantes. Com o passar do tempo e com novas profissões na parada, a coisa foi meio que passando de pai pra filho, como é até hoje: famílias tradicionalmente santubaldenses dão origem a ceraioli santubaldenses, e por aí vai.

Às duas da tarde os ceri são deixados perto de uma das portas da cidade, enquanto o pessoal vai almoçar. A farofada toda dura até as quatro e meia, cinco da tarde, quando novamente parte a procissão de Santo Ubaldo, percorrendo todo o itinerário da corrida e terminando na via Dante. Ali o bispo abençoa os ceri, que então, às seis da tarde em ponto, começam a corrida.

Nós chegamos às três da tarde, e deu tempo só de tomar um sorvete, dar umas voltinhas e tirar umas fotos, porque depois tivemos que sentar a bunda no muro da Piazza Grande pra pegar lugar. Essa piazza é uma das minhas preferidas entre todas as italianas que já visitei. Porque o Palazzo dei Consoli é lindíssimo, e porque a praça fica no alto da cidade, dando uma vista deliciosa dos telhados das casas antiqüíssimas, com suas chaminés, o musgo que cobre as telhas, as antenas de TV, ninhos de passarinhos. Lá no fundo, o vale, pouco habitado – perto de Gubbio não há nenhuma cidade maiorzinha, é uma desolação só. Mas então: sentamos no murinho e ficamos observando o pessoal passando lá embaixo na rua, todo mundo com a camisa da cor do seu santo e com o obrigatório lenço vermelho no pescoço. Estávamos bem embaixo da torre campanária, e quando os sinos começaram a tocar todo mundo esticou o pescoço pra olhar lá pra cima e ver os meninos, todos de calça branca e camisa colorida, tocando o sino gigantesco. É muito maneiro, mas depois de meia hora começa a encher o saco. A praça começa a encher, mas esperávamos mais gente. É porque, marinheiros de primeira viagem, não sabíamos nada sobre a história da festa. Gente tinha, até demais, só que a galera participa da festa o dia inteiro, e vai atrás dos ceri, enquanto nós ficamos plantados ali no murinho pra não perder o lugar e a visão privilegiada. Muita gente deixa escadas, daquelas que usamos pra trocar lâmpada e limpar janela, acorrentadas nas grades dos prédios da praça. Na hora da bagunça, sobem nelas pra ver melhor. Vai ser criativo assim na China, putz.

Às seis em ponto ouvimos um roaaaaaaaaaaaaaaaaaar, um barulho de Maracanã lotado, de público de show do U2 ao ouvir os primeiros acordes, uma coisa assustadora – mais ainda porque vinha láaaaaaaaaaaaa de baixo, porque a corrida começa numa rua paralela à que passa logo abaixo da praça. Lá longe, na Piazza 40 Martiri, vemos aqueles negócios estranhíssimos, com os santos coloridos aboletados em cima, passando numa velocidade impressionante, e aquele murundu de gente colorida seguindo atrás, correndo feito doidos. É coisa de maluco mesmo, porque não tem o menor sentido, mas vou dizer um negócio pra vocês: foi uma das coisas mais emocionantes que já vi aqui na Itália. Fiquei comovidíssima, a empolgação das pessoas é contagiante, e o fato de que não é uma competição, mas só uma maluquice mesmo, só torna as coisas mais interessantes. O percurso inteiro da corrida dura duas horas, e inclui umas pausas pra neguinho não cair duro de tanto correr carregando peso. Não sei como funciona direito, mas é um mega trabalho em equipe, porque quando o ceraiolo (é sempre homem, mulher só fica na torcida e olhe lá) sente que não agüenta mais, ele simplesmente larga o negócio e sai de baixo da plataforma, sem nenhum sinal, sem avisar, sem pedir, porque sabe que alguém imediatamente o substitui. A expressão de cansaço e sofrimento físico no rosto dos ceraioli é impressionante. O grande lance da coisa é não deixar o cero cair, até porque levantar um tarugo daqueles não é brincadeira de criança. Se cair, os outros santos têm que esperar.

Mas então; depois da partida, entrevemos os ceri atravessando ruas e becos e desaparecendo novamente por trás de casas, e por um longuíssimo tempo não se ouve mais nada; sabemos que os ceri tão lá correndo, mas não vemos por onde, e de repente o roaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaar vem vindo da rua que desemboca na Piazza Grande, onde estávamos, e lá vêm aqueles negócios esquisitos, com os santos balançando lá no alto, ensandecidos, pela praça. Aí é que entendemos onde tava todo mundo: tava era correndo atrás dos santos, porque junto com eles chegou uma cabeçada, mas uma cabeçada fenomenal. Os santos dão três voltas na bandeirona vermelha plantada no meio da praça, e seguem adiante, pra depois subir uma ladeira fenomenal, até chegar no cocoruto do Monte, onde fica a basílica.

Caramba, é MUITO maneiro. MUITO, MUITO, MUITO. Vale a pena de verdade. Se alguém aí tem intenção de vir aqui pro fim do mundo no ano que vem, faça de tudo pra conseguir estar aqui no próximo 15 de maio e ver essa maluquice.

Foi tudo perfeito: domingo, todo mundo descansado, Robertinha que é ótima companhia, o dia tava lindo, com sol mas com vento fresco, não pegamos trânsito (o que teria sido um horror porque a única estrada possível pra Gubbio é terrivelmente cheia de curvas, subidas e descidas, a ponto de ficar impraticável no inverno, se nevar demais), e na volta ainda paramos pra comer torta al testo, que em Gubbio se chama crescia (pronúncia crêsha), num quiosquinho tabajara que vende torta há quarenta anos. Negócio de família, é claro: uma velha no forno a lenha, cozinhando a torta, cuja massa é esticada em um testo, ou plataforma, de cimento e coberta com cinzas – não tenham nojo, por favor, é uma delíciaaaaaa; marido e mulher no caixa e alternando-se pra cortar fatias de queijo e de lingüiça na brasa, e um velho coroco encarregado de cortar, à mão (dizem que fica mais gostoso, eu não vejo diferença), mortadela e prosciutto crudo. Sentamos nuns banquinhos do lado de fora pra comer nossas tortas, as colinas verdejantes de trigo à nossa frente, vendo passar outra velhinha, que faz o trajeto forno-caixa duzentas mil vezes por dia carregando sempre uma torta de cada vez… Ô maravilha!

E então ficou combinado que queremos ver as outras festas umbras mais conhecidas: no fim do mês tem a Infiorata di Spello, que são aqueles tapetes de flor no chão da cidade (eu acho cafonérrimo mas diz a Roberta que a graça está em ir na noite anterior, pra ver o pessoal montando os desenhos com as pétalas), em junho tem as Gaite di Bevagna, quando a cidade inteira participa de uma encenação absolutamente realística da vida medieval, e acho que ainda tem a segunda edição anual da Quintana em Foligno, torneio medieval com cavalos, lanças etc. Perdemos o Calendimaggio, a festa tradicional de Assis, em que competem a Nobilissima Parte di Sopra (literalmente Nobilíssima Parte de Cima) e a Magnifica Parte di Sotto (Magnífica Parte de Baixo), mas a festa de Bevagna não quero perder de jeito nenhum.

Pra quem ficou curioso sobre a festa de Gubbio, mais informações aqui e aqui (ambas em italiano, sorry).

Holly Golightly

Holly lifted her martini. “Let’s wish the Doc luck, too,” she said, touching her glass against mine. “Good luck: and believe me, dearest Doc – it’s better to look at the sky than live there. Such an empty place; so vague. Just a country where the thunder goes and things disappear.”

**

The instant she saw the letter she squinted her eyes and bent her lips in a tough tiny smile that advanced her age immeasurably. “Darling,” she instructed me, “would you reach in the drawer there and give me my purse. A girl doesn’t read this sort of thing without her lipstick.”

Breakfast at Tiffany’s, Truman Capote

Depois de um almoço tardio e uma sesta que durou das quatro às seis, resolvemos mover nossos traseiros gordos e passar na Arianna pra pegar o Leguinho e dar uma volta antes da pizza com Gianni, Chiara & cia. Demos de cara com os gansos da Arianna, que estranhamente estavam passeando pelo quintal como se estivessem passeando na ciclovia da Lagoa, observando a paisagem e coisa e tal. Não entendemos nada. Chamamos os cachorros e não ouvimos resposta. Demos a volta na casa e vimos Lucia, a avó fofa do Mirco, procurando os gansos. Ela tinha aberto a “porta” do cercadinho onde os gansos ficam durante o dia, pra pastar capim (aquele cercadinho com o guarda-chuva que serve de guarda-sol pra eles, se derem um scroll down acham a foto), entrou pra mudar a água da bacia, e quando levantou o olhar os gansos tinham picado a mula. Lá fui eu pastorear os gansos (que em italiano é palavra feminina, l’oca – plural le oche) de volta pro cercadinho, enquanto os cachorros observavam através do portão dos fundos. A coisa boa é que os gansos andam sempre juntos, então basta convencer um a voltar pro cercado que os outros vão atrás. Quando se separam, por culpa de algum obstáculo, entram em pânico, é de rolar de rir – me lembra aquela cena de FormiguinhaZ (ou seria A Bug’s Life?) quando as formigas se desesperam quando a fila é interrompida.

Acabamos não indo a lugar nenhum porque o tempo estava horrível. Ficamos brincando com os cachorros no campo e colhendo (e comendo) favas na horta, enquanto Ettore e Arianna aumentavam a altura de todas as cercas da casa, pra evitar que os cachorros fujam à noite. Leguinho semana passada passou uma noite fora, namorando; voltou de manhã em estado bagaçal total e dormiu o dia inteiro. Leo toda hora faz isso, e ultimamente o Demo também. Desde que eu vim morar aqui, e muito antes do Leguinho vir, vivo enchendo o saco da Arianna pra cercar os cachorros – caramba, ela já tem uma cachorra aleijada em casa porque foi atropelada; do outro lado do campo tem uma estrada onde os carros passam voando, e todos nós sabemos que os cachorros vão muito além dessa estrada porque quando eu ia correr praqueles lados muito freqüentemente dava de cara com Demo e Leo voltando de alguma missão secreta. Todos os cachorros da casa, inclusive o Leguinho, desde que foi morar lá, já foram encontrados passeando pela cidade, ou em Assis, ou lá na casa do chapéu; já nos ligaram tantas vezes avisando que tinham encontrado os cachorros perdidos por aí que já perdemos a conta. Não sei o que se passa na cabeça de quem não entende, mesmo com todos esses sinais mais do que claros, que uma tragédia está por vir. Demoraram, mas finalmente, por pressão minha e do Mirco, resolveram cercar a casa, no ano passado. Só que o Leo é pequeno e cava por baixo de qualquer coisa ou se enfia em qualquer buraco e foge; o Demo é leve e pula por cima de qualquer cerca; e o Leguinho é preto e à noite, depois do jantar, quando Ettore vai fumar o último cigarro do dia na companhia da cachorrada no campo, é fácil pra ele se afastar sem que se perceba. Foi numa dessas que ele atendeu ao chamado uterino da namorada coletiva deles e deu no pé, pra passar a noite na gandaia. Agora vocês imaginem um carro vindo a 100 por uma estrada não iluminada e pegando de frente um cachorro de 40 quilos como o Legolas, preto e conseqüentemente invisível. Não só morreria o cachorro, mas muito provavelmente haveria feridos humanos também, e quero ver quem encararia os custos e a responsabilidade perante à lei. Realmente, lidar com gente ignorante é quase tão irritante, cansativo, exasperador, desagradável e impossível do que lidar com gente maluca.

o último dos moicanos

Murilo tinha quarenta e poucos anos. Quantos poucos, exatamente, nem ele sabia – aliás, ninguém sabia nem mesmo que ele já passava dos quarenta. Seu cérebro se petrificara aos vinte anos, e ele permaneceu para sempre naquela idade mental. A coisa já durava tanto tempo que nem mesmo sua própria mãe, que ainda lhe pregava os botões e remendava meias, se lembrava de que ele já passava dos quarenta. Ele mesmo acabara se convencendo de que ainda tinha vinte, e comportava-se como tal. Ou vice-versa.

Murilo não trabalhava. Não só porque o conceito de ganhar a vida era algo de desconhecido para ele, mas também porque não sabia fazer nada. Nunca aprendera nada de útil, jamais fizera nada de útil ou interessante, de verdadeiramente interessante, em toda a sua vida. Mas essa era outra coisa que Murilo não sabia: de onde vinha o dinheiro para pagar certas comodidades. Nem ele nem ninguém sabia de onde vinha o dinheiro, mas também não interessava, assim como não interessava o fato dele ter passado dos quarenta. Porque era suficiente saber que Murilo era grisalho, estava sempre de óculos escuros de marca, sapatos pontudos de couro de crocodilo, calça jeans cujo preço exorbitante era justificado somente pelo poder de duas iniciais gravadas no bolso de trás, camisas bem passadas. Ninguém sabia também quem passava as camisas, mas isso também não interessava. O que interessava era que Murilo dirigia um Porsche prateado superhipermegaesportivo, daqueles colados no chão, que zuniriam nos seus ouvidos se pudessem fazer uso de todos os seus cavalos ao mesmo tempo – infelizmente não podem, as leis de trânsito estão aí pra isso mesmo. Murilo vivia em um centro habitado cuja velocidade máxima era limitada em 50 quilômetros por hora, mas mesmo assim nunca tivera poucos cavalos à sua disposição. Mudava de carro como mudava de camisa, mas a imaginação era pouca: já tivera uma BMW Z4, daquelas coladas no chão; Mercedes esportivas, daquelas coladas no chão; uma Ferrari, daquelas… Murilo era assim.

Agüentava as sessões de tiração de sobrancelha com a força e a coragem que só um macho de verdade tem. Horas e horas de bronzeamento artificial. Linha direta com o maior produtor nacional de gel para os cabelos. E, claro, cartas de felicitação da Philip Morris de vez em quando, agradecendo a preferência. Porque, como todos os outros espécimes de Homo sapiens tabacoscrotus, Murilo jamais, jamais saía de casa sem acender imediatamente um cigarro. Gostava particularmente de acender um Marlboro (coisa de cowboy moderno mesmo, coisa de macho que tem carro esportivo conversível e, conseqüentemente, o maior órgão reprodutor masculino da fauna terrestre e marinha) enquanto esperava o elevador. Batia as cinzas no vaso de planta do condomínio, e entrava. Ou então, para ser mais democrático e distribuir de forma mais justa o fedor nicotínico, às vezes usava as escadas, empesteando homogeneamente todos os três andares do pequeno edifício onde vivia com sua fêmea. Quando chegava ao térreo, apagava o cigarro no capacho, acendia outro e entrava no carro, inevitavelmente estacionado de modo a ocupar o máximo de vagas possível. Dirigia sempre assim: bem afastado do painel, para poder esticar o braço direito e dirigir com a palma da mão, o cigarro aceso displicentemente encaixado entre os dedos. O braço esquerdo apoiado na janela aberta, o vento se esforçando para mover os cabelos engomados, os óculos escuros combinando com a pele artificialmente morena, a fumaça se acumulando dentro do carro. Às vezes, esperando o sinal vermelho abrir, mudava o cigarro para a mão esquerda, que pendurava, cheio de charme, do lado de fora do carro. Por sorte jamais queimara nenhuma velhinha que passara ao seu lado de lambreta, mas também, se o tivesse, jamais perceberia. Poucas coisas percebia, o Murilo.

Aonde ia no seu Porsche prateado, nunca ninguém soube. Nem ele mesmo. Tampouco com quem tanto fala em seu celular último tipo, que tira fotos, transmite os melhores momentos de Inter x Juventus, e bate claras em neve ao mesmo tempo. Aquele que um clone de sua fêmea anuncia na TV, de biquini vermelho, com uma praia no fundo e sempre, sempre, o vento nos cabelos.

A maioria das fêmeas da sua espécie eram hipotrofiadas em muitos sentidos. Para não engordar, comiam muito pouco – a espécie ainda não se desenvolvera o suficiente para surgir sem glândulas sudoríparas, e fêmeas de Homo sapiens tabacoscrotum não gostam de suar, não, não, não, e conseqüentemente não se exercitam. Gostam de freqüentar academias, em conjuntos cor-de-rosa da Nike, maquiagem, argolas prateadas e cabelos soltos, mas jamais levantam sequer um polegar. Comendo quase nada, pouco a pouco desenvolveram uma hipotrofia de todo o sistema nervoso central, que quase sempre comanda um corpo miúdo, lordótico, cujo centro gravitacional não funciona na ausência de saltos-agulha. A imensa maioria das fêmeas desta espécie tem cabelos cor de mico-leão dourado, sobrancelhas arqueadas estilo Conde Drácula, a pele sem viço por causa da alimentação carencial (problema facilmente resolvido com cerca de 150 gramas de base e pó-de-arroz). Muito freqüentemente usam, além da maquiagem excessiva, perfumes sufocantemente doces na estação e na quantidade erradas, saltos ortopedicamente não recomendáveis, e, principalmente, lápis para contorno labial, sem batom. Muito freqüentemente também fumam, e obviamente lançam tanto as guimbas quanto os maços vazios pela janela do carro, o que as torna parceiras ideais para os machos de sua espécie. Como eles, também não fazem nada, nem nunca fizeram, além de falar no celular, e, como eles, também são imunes à passagem do tempo – a diferença é que normalmente tendem a se petrificar nos quinze anos.

Murilo era o último de sua espécie. Talvez tenha durado tanto porque fazia parte de uma minoria que preferia estrangeiras exóticas e vulgares em vez dos micos-leão dourados. Mas era o último de sua espécie. Gerações e mais gerações de inatividade cerebral, de bronzealmento artificial, de dores sobrancelhais suprimidas à força de puro poder mental, de conversas vazias sobre carros e louras micos-leão dourados, e principalmente de cigarro em espaços confinados (o carro esportivo de dois lugares, o elevador de pequenos edifícios familiares, o banheiro de restaurantes) esterilizou-os todos. Machos e fêmeas. Os espermatozóides, ocupados demais em ver quem tinha o rabo mais longo, também acabaram por sofrer atrofia, e não mais fecundavam os óvulos, mal nutridos e intoxicados pela tintura cor mico-leão dourado.

É assim que uma espécie entra em auto-extinção.

E todas as pacas mancas do mundo viverão felizes para sempre.

the house of mirth

He caught her hand, and she felt in his the vibration of feeling that had not yet risen to his lips. “Lily – can’t I help you?” he exclaimed.

She looked at him gently. “Do you remember what you said to me once? That you could help me only by loving me? Well – you did love me for a moment; and it helped me. It has always helped me. But the moment is gone – it was I who let it go. And one must go on living. Goodbye.”

She laid her other hand on his, and they looked at each other with a kind of solemnity, as though they stood in the presence of death. Something in truth lay dead between them – the love she had killed in him and could no longer call to life. But something lived between them also, and leaped up in her like an imperishable flame: it was the love his love had kindled, the passion of her soul for his.

The House of Mirth, by Edith Wharton

Lindo, lindo, lindo. Os últimos três capítulos são absolutamente deslumbrantes. Mas preparem os lencinhos, porque rapadura é doce mas né mole não.

banana

Eu devo estar ficando muito velha mesmo. Porque ando de uma sentimentalidade ímpar.

Sempre fui chorona – choro de raiva, de tanto rir, de felicidade, de angústia depressiva, de dor, de cansaço – mas ultimamente a coisa anda passando dos limites. Ou então é o mundo que está passando dos limites, já não sei mais.

A história da cadelinha Preta, que não consigo nem reproduzir aqui pra não cair no choro outra vez, me fez, nessa ordem: vomitar, chorar e doar uns merréis pra SUIPA (falando nisso, doem, crianças, e adotem, se possível; sigam o exemplo da querida Marcinha, vejam que maravilhas de canídeos que ela trouxe para o seio de seu lar). Não posso nem imaginar nenhuma cena de bicho ou criança ou velho sofrendo sem chorar ou entrar em taquicardia. Em todo o filme A Queda, em meio a pedaços de corpos, cirurgiões empapados de sangue serrando pernas, e outras coisas deliciosas, a única cena que me fez chorar foi o doutor sei lá o quê entrando num hospital, presumivelmente abandonado, pra pegar remédios, e dando de cara com um quarto cheio de velhinhos doentes, sozinhos, largados, olhando pra ele em silêncio. Lendo Io Non Ho Paura (ainda não consegui ver o filme, caramba) chorava em todas as descrições do menino no poço. E o que me tirou a fome no domingo, coisa que quem me conhece sabe que é praticamente impossível porque eu consegui a proeza de engordar dois quilos no pós-operatório da remoção de um dente do siso – nada abala meu apetite – foi ver, no telejornal, a imagem daquele americano, Rocco não sei o quê, chorando e dizendo “I ain’t killed anyone!” com voz embargada enquanto era levado pro corredor da morte. Acusado de matar a ex-namorada, foi condenado por provas de DNA analisadas pelo mesmo laboratório que, descobriu-se, já mandou gente inocente pra morte antes, e fala-se inclusive na possibilidade de tais “erros”, se é que erros são, terem sido causados pela “pressão” exercida pelo governador do estado (no caso, a Virginia, e o governador é republicano, só pra constar). Caramba, aquilo acabou comigo. Não sei nada sobre o caso, e pode ser mesmo que o cara seja culpado, mas a mera possibilidade dele ter morrido inocente, ou simplesmente ouvi-lo chorando e dizendo aquela frase com aparente sinceridade, foi o suficiente pra me fazer afastar o prato. Que estava cheio de tagliatelle fatte in casa, diga-se de passagem. Né pouca merda não.

Mas tenho que admitir que sou mais sensível às causas animal, criançal e velhal. Não necessariamente, mas quase certamente, nessa ordem. Até de bicho asqueroso tenho pena, e imploro pra não matarem, se for possível, mas pra jogar pra longe de mim. Ultimamente há muitos, mas muitos gatos atropelados nas ruas, o que me leva a crer que não são bichos tão espertos quanto imaginamos, ou então têm um tesão que move montanhas. Caramba, que nervoso que me dá. Cada vez que vejo uma massa de pêlos achatada na estrada penso no Leguinho e fico com vontade de ir correndo na Arianna dar um abraço naquele monstro bobão. Tem um gato preto e branco que foi atropelado na bifurcação pra Perugia, na superstrada. Não foi achatado, mas deve ter levado uma porrada e caiu no acostamento. Isso foi há semanas. Eu vou a Perugia pelo menos duas vezes por semana, o que significa que venho acompanhando seu processo de decomposição com um misto de interesse e tristeza. Fico pensando se ele era de alguém, se morava na rua, se tinha amigos cachorros tipo o mongo do Leguinho, se estava a fim de alguma gatinha das redondezas (isso supondo que fosse macho), se comia restos de comida que neguinho às vezes deixa nos cantos pros bichanos.

Vou começar a investigar serviços de castração grátis por aqui. Tá na hora de castrar a Priscilla. Seus filhotinhos são uma diliça, mas quem vai garantir a saúde deles enquanto crescerem?

haja…

Nos últimos dias fiz dois estranhos muito felizes com a minha incomensurável gentileza.

Semana passada, final da tarde, eu na labuta tradutória no computador, toca o telefone da sala. Atendo, uma vozinha educada de homem com língua presa (não esse que vira effe, mas presa que vira pguesa, sabe? Não era a “r moscia” italiana, era defeito mesmo) pedindo um minuto do meu tempo pra responder a algumas perguntas da pesquisa de opinião sobre a Coop, meu supermercado preferido. O tom de voz deixava muito claro que o dia tinha sido improdutivo e cheios de patadas telefônicas, e percebi que ele estava quase implorando pra que eu respondesse. Então resolvi ser boazinha (quando não querem me vender nada eu quase sempre sou) e pedi licença pra abaixar a televisão, que sempre fica ligada enquanto estou sozinha em casa. Ficamos uns bons dez minutos no telefone, ele repetindo aquelas perguntas bobas mecanicamente, de um a dez que nota a senhora dá à arrumação dos produtos no supermercado Coop que a senhora freqüenta, de um a dez que nota a senhora dá à preocupação da Coop com a ecologia, de um a dez que nota a senhora dá à disponibilidade dos funcionários Coop, de um a dez que nota a senhora dá às ofertas semanais dos supermercados Coop, e por aí vai. Respondi tudo rapidinho, com seriedade e sinceridade, ainda fiz umas piadinhas com algumas perguntas particularmente idiotas (quanto à sua atual situação econômica, a senhora acha que nos próximos doze meses vai piorar, se manter estável ou melhorar? Que raio de Vox Populi resolve botar uma pergunta dessas?), e como recompensa ouvi um suspiro de alívio do outro lado e um agradecimento longo e sincero – Lei è stata veramente gentilissima, signora, la ringrazio tantissimo!!! Buona serata e buon fine settimana!

E hoje à tarde, quando estava me preparando pra sair pra dar aula no restaurante, o telefone toca outra vez. Era um motorista de courier, que não conseguia saber onde ficava a minha rua, e precisava fazer uma entrega aqui. Eles fazem assim: se não conseguem descobrir como se chega a um determinado lugar, coisa que às vezes não é fácil porque as numerações são malucas e muitas vezes nem existem, eles catam na lista telefônica o número de alguém que more ali na área e possa dar explicações de como chegar. Calhou que o cara precisava fazer uma entrega exatamente no meu prédio. Tava perdido no centro de Bastia, e não sabia como vir parar aqui – compreensível, visto que Cipresso é uma fração de Bastia, mas sempre Bastia é, e, partindo-se do pressuposto que quem está em Bastia conhece a cidade, senão não teria nada o que fazer aqui, estima-se que sabe também onde fica Cipresso. Ou seja, nada de placas. O coitado do homem tava plantado em frente à Coop, e disse que já tinha dado várias voltas sem entender pra onde tinha que ir. Fui dando as direções enquanto ele ia seguindo adiante e descrevendo o que via: tô passando em frente ao cinema… Ah, tá, tô vendo a placa pros correios… Viro à esquerda, a senhora disse? Sim, tô vendo o edifício romano em restauração à minha esquerda… Padaria Mela, tô vendo, viro à direita… Tá, tô atravessando a ponte… Praticamente guiei o homem até a porta do meu prédio, coitado. Fiquei me achando A escoteira com a minha boa ação. Semana que vem é capaz de rolar uma velhinha pedindo ajuda pra atravessar a rua.

Eu sou paciente com quem merece. Com gente chata ou burra, e principalmente com gente chata E burra ao mesmo tempo, não consigo. Fora isso, eu sou a gentileza em pessoa. Às vezes.

reino dos céus

Dia das mães aqui não é essa badalação toda como no Brasil. Como além disso a mãe do Mirco não tá nem aí pra coisa nenhuma, muito menos pro dia das mães, almoçamos lá ontem como almoçamos praticamente todos os domingos, e depois tocamos diretamente pro cinema. Chegamos tão cedo que ainda tava tudo fechado, coisa que nunca tínhamos visto antes. Como eu não tinha comido quase nada no almoço, por causa de uma coisa desagradável na TV que me revirou o estômago, acabamos indo tomar um sorvetinho básico antes do filme começar, inclusive como parte da preparação psicológica pro filme.

Porque eu não segui o conselho do meu irmão, que é um amor mas tem gostos cinematográficos completamente diferentes dos meus. E lá fomos nós ver Kingdom of Heaven, que aqui foi traduzido como As Cruzadas.

Tenho que concordar com a Mary em alguns pontos: o filme é bem produzido, bonito às pampas de se ver. Os figurinos são leeeendos, coisa que já havia notado n’O Gladiador – os brincos e tecidos são enlouquecedores. As paisagens são lindas, os cenários deslumbrantes, as cenas de guerra são maneiras, apesar de idênticas às d’O Gladiador. Mas pára por aí. Porque fora tudo isso o filme é UMA BOSTA. Que roteiro é esse, sem pé nem cabeça, com diálogos de meia frase por cabeça? Em um segundo o cara é ferreiro viúvo na França, no segundo seguinte descobre que é filho do fulano, no outro segundo está a caminho da Sicília, e meio segundo depois já está em Jerusalém, como se fosse assim, ele mora na Vinícius de Morais e quer chegar no Jardim de Alá, sabe, pertíssimo? Que raio de ritmo maluco é esse? Teria sido mais negócio botar tudo isso em flashback e começar o filme com o Orlandinho já dando espadada a torto e a direito em Jerusa. Do jeito que ficou, demora séculos pra engrenar, e muito pouco faz sentido.

E falando em Orlandinho… Até que ficou melhorzinho de cabelo comprido e barba, mas, convenhamos, vai interpretar mal assim na Maria do Bairro. Ainda bem que, com esse roteiro maluco, ele quase não fala nada. Melhor assim.

O melhor do filme é, definitivamente, uma fala do Orlandinho, quando o feladaputa bispo da cidade propõe que eles se convertam ao islamismo pra se salvar:

– O senhor me ensinou muitas coisas sobre a igreja, seu bispo.

Amém.