venerdì

Meu último aluno do dia, um médico fofinho, teve que ir a Milão e cancelou a aula. Aproveitei que saí às seis em vez das oito e fui dar um pulo na academia.

Nunca mais malho àquela hora. É a hora do lobo mesmo, todo mundo lá se expondo na vitrine, malhando maquiada, malhando dando gritinhos, mostrando os modelitos Puma e os tênis Nike de última geração, que custaram mais do que o carro que eu dirijo (e estou falando sério). Fiz meia hora de esteira, 15 minutos de Transport e saí correndo. Esnobei a fila pro chuveiro e o engarrafamento de mulheres peladas no banheiro, joguei o casaco por cima da roupa de ginástica mesmo (nada de nojo, eu não suo) e corri pro carro.

E aproveitamos a oportunidade única da minha chegada precoce em casa pra ir jantar fora. Resolvemos comer um peixinho no Massimo, aquele lá na casa do chapéu. Tava tudo muito gostoso, a não ser os nhoquinhos com creme de lagostins, que estavam meio grudentos. Nem conseguimos terminar a garrafa de vinho branco, e estávamos tão cansados que voltamos voando pra casa, desabando de sono.

coisas

Estou lendo uma coisa muito interessante pra primeira prova que vou fazer em fevereiro, de Studi Culturali. O livro se chama Il Sogno Europeo, de Rifkin – eu queria ler no original, mas custava quase cinco vezes mais, e eu não estou podendo, então vai a tradução mesmo. O começo do livro é sobre o declínio do sonho americano, e é realmente muito interessante. Quando tiver mais tempo boto uns pedaços aqui pra você ver.

Lógico que o professor deu a lista exata e precisa dos capítulos que vão cair na prova. Lógico que vou ser só eu a ler o livro inteiro, porque minhas coleguinhas estão todas arrancando os cabelos com as 5 provas de fevereiro – além de Studi Culturali, tem Comunicazione Politica, tem Linguistica, tem a segunda chamada de Politica Economica, tem Organizzazione Politica Europea pra quem quiser (eu vou fazer em junho porque também é muito interessante e quero ler todos os livros). Eu vou “dar” (aqui se dá uma prova, e não se faz) Studi Culturali, Comunicazione Politica e Linguistica. Não vou ter tempo de estudar Politica Economica, porque são duas provas, macro e micro; prefiro dar as duas em junho, com OPE. Marketing parece que só no segundo semestre, e Informatica Generale é um negócio tão bobinho que vou fazer quando estiver com vontade. Em março começa inglês com aquela louca ensandecida; vamos ver se vou conseguir me safar.

Alguém entende esse sistema das universidades italianas? Porque eu não entendo. Nem os professores entendem.

strange school

Estou cheia de alunos adolescentes. É o final do terceiro quadrimestre na escola (foi assim que me explicaram) e tá todo mundo correndo atrás das notas baixas em inglês. Então chegam todos desesperados, mostrando “compiti in classe” que devem preparar pra próxima semana (deveres de casa que devem ser corrigidos em aula) e outras coisas que não entendo. O sistema educacional por aqui é incrivelmente confuso. As crianças levam pra casa uma quantidade industrial de dever, e também há um sistema muito complexo de provas orais e escritas, notas pra dever de casa e dever feito durante a aula, redações e diálogos a ser lidos em voz alta. Quanto mais me explicam, menos entendo. Pra mim é bom, porque trabalho não falta, e ainda me divirto com os jovens botenses e seus delírios escolásticos.

Eu só não entendo duas coisas: como eles escrevem mal, vixe!, ninguém sabe pegar na caneta direito e a caligrafia é invariavelmente redondinha, cafona, com L gordas que se confundem com outras letras, As que são bolinhas com um rabinho mal grudado, muitos escrevem em caixa alta; e TODOS escrevem de caneta. Vocês já viram alguém fazer exercício de caneta? Se erra, pra corrigir tem que rabiscar, ou, pior, escrever por cima mesmo e fingir que é compreensível. Um lapisinho básico não, né? Os livros são detonadíssimos; pra mim, que não escrevo nada nunca em livro nenhum, é de cortar o coração ver todos aqueles rabiscos esferográficos cobrindo as páginas dos coitados.

Finalmente consegui terminar La Guerra degli Antò. Tem algumas tiradas geniais, mas é muito confuso e esburacado pro meu gosto. Mas deu pra dar umas risadas e isso é sempre bom. E agora vou parar de ler literatura porque tenho que estudar pras provas de fevereiro. Bosta de vida, se não precisasse trabalhar e pudesse assistir a todas as aulas, não precisaria perder tempo estudando…

hospital

A avó do Mirco sofreu uma mini-isquemia na sexta e foi internada pra fazer exames e ficar em observação. Ontem me ofereci pra passar a tarde com ela, porque a coitada da Lucia não é exatamente a rainha do traquejo social, tendo sempre ficado enfurnada em casa cuidando da horta, dos bichos e de um marido rabujento e mandão. Nunca foi a lugar nenhum e a sua primeira experiência realmente divertida e diferente foi a viagem à Holanda em novembro do ano passado, então ficar no hospital, com uma rotina tão diferente da de casa, com companheiras de quarto que ela não conhece e comendo uma comida estranha é muito estressante.

Acabei fazendo uma supersocial com as outras velhinhas, mais faladeiras. Uma estava meio fora do ar, enorme de gorda, com uma pneumonia complicada, máscara de oxigênio no rosto, movimentos difíceis e respiração sofrida. A vizinha da Lucia era a mãe da gerente do banco do Mirco, que eu conheço bem. E a última era uma birutinha agitadíssima que não parava de falar e complementava o rancho do hospital com coisinhas que a família e amigos – porque a cada meia hora vinha alguém visitá-la – traziam de casa.

Eu gosto de velhos. Têm sempre muito a dizer, mesmo os idiotas, e um ponto de vista tão, mas tão abissalmente deslocado por causa do salto tecnológico que passou voando na frente dos olhos deles que eu acabo sempre parando pra pensar. Das quatro, a única que sabia operar um celular era a maluquinha, a única também a tingir os cabelos. Eu tinha levado coisas pra estudar, mas acabei passando cinco horas (o Mirco trabalhou o dia inteiro e só chegou às oito e meia, pra depois irmos jantar com Mario Belli e moglie) batendo altos papos com as velhinhas e dando muita risada com a birutinha. Teve até choro, quando visitas inesperadas apareciam – ou quando emprestei meu celular pra mãe da gerente e me recusei terminantemente a aceitar o pagamento pela ligação. O que, aliás, quer dizer muita coisa: quando uma minigentileza assim bobinha é difícil de compreender, é sinal de que o mundo tá afundando na bosta mesmo.

Da série coisas que a paca odeia

Na academia:

Mulher que malha maquiada
Mulher que malha com brinco de argolão
Mulher que malha de cabelos soltos
Mulher que malha sem calcinha por baixo do legging
Qualquer um que solte grunhidos quando levanta peso, pra todo mundo ouvir
Gente que sua excessivamente e fica com cheiro de batata doce
Gente que depois de meia série de quatro apoios levanta e vai olhar a bunda no espelho pra ver se o efeito foi imediato
Intimidade total entre funcionários da academia e clientes, “E aí, Robertinha, malhando muito, amor?”
Gente que malha com legging, camiseta, tênis, meia, toalha, faixa na cabeça, tudo com a logomarca da academia

‘sti bimbi…

Eu estou com uns alunos muito engraçados. Uma das turmas de crianças (porque tá todo mundo correndo pra recuperar notas baixas em inglês na escola) tem uma filha de polonesa com italiano supereducada e muito inteligente, um geninho que pulou um ano na escola e é um ano mais novo que ela, e um outro garoto INSUPORTÁVEL um ano mais novo, que ainda desenha as letras, leva três anos pra entender o que tem que fazer, se distrai com facilidade, e ainda por cima é incrivelmente mal educado, bestemmia, ri alto, grita, pula, enche o saco dos outros, peida. Na última aula eu me irritei MUITO e ameacei de jogar um pilot no meio dos olhos e de deixá-lo sentado lá com a Simona na recepção até o pai dele chegar, e deixei muito claro que na casa dele ele pode ser o garoto mais mal educado do planeta, mas na minha sala de aula ABSOLUTAMENTE NÃO.

Aí hoje ele aparece todo bonzinho, elogiando a bolsa em formato de Rodolfo a Rena do Nariz Vermelho da polonesa, pedindo permissão pra sentar na cadeira dela, mais próxima ao quadro, enquanto ela desenhava a forca, mostrou o dever de casa (escrito num amarelo ilegível, mas tudo bem). E me sai com essa:

– Professora, dá licença que eu vou arrotar.

Abriu a porta do banheiro, enfiou a cabeça lá dentro, arrotou, fechou a porta.

– Não deu pra ouvir não, né?

Não sei se rio ou se choro.

saúde é o que interessa

Uma ex-aluna me deu o tal convite pra fazer um mês grátis na ginástica in que ela freqüenta. O lugar é muito maneiro, tem hidromassagem, piscina, mil aulas malucas com nomes que incluem sempre “body”, “flex”, “tonic”, “pump”, etc, tem ioga, tem Pilates, tem capoeira, tem spinning, tem tudo. Só consegui dar as caras por lá hoje. Quem me levou no “tour” da academia foi uma senhora que esqueceu que é velha (os cartõezinhos que papai idealizou, com a escrita “você está velho(a)”, cairiam muito bem nesse caso) e usa sainha plissada com botinha até o joelho e camiseta com bordadinho em strass. Fez o clássico beicinho de vendedor quando eu disse que o problema era o tempo, falou “aaaah faz um esforcinho, né?”, e me deixou em paz. Fiz meia hora de esteira e meia de Transport, e foi o que deu. Conheci Marco Aurélio, goiano que dá aula lá (nem vou comentar o meu azar na vida e como eu me sinto o cocô do cavalo do bandido quando escuto histórias como a sua), seu amigo goiano cujo nome esqueci, que dá aula de capoeira lá mesmo só tendo feito capoeira 2 anos no Brasil, e vi uma menina idiota que foi minha aluna por duas aulas na fábrica de rolamentos pra aviões onde dou aula, em Foligno. Tomei banho num chuveiro delicioso, mas QUEM FOI O IMBECIL QUE INVENTOU QUE EM BANHEIROS COLETIVOS OS CHUVEIROS NÃO PODEM TER PORTA? Eu não quero ficar pelada na frente de um bando de mulher que eu não conheço, dá licença? ODEIO isso.

Depois falei rapidamente com a “consultora” da academia (leia-se vendedora), maquiadíssima (foi maquiada mesmo correr na esteira depois…), antipática, um verdadeiro nojo, que me mostrou os preços. Aqui o negócio funciona assim: como ginástica é coisa pra poucos, porque italiano que é italiano não se exercita, imagina, suar?, tá louco?, e os poucos que malham o fazem só no inverno (porque no verão vai todo mundo “al mare”, lógico, pra torrar os neurônios), os preços pra quem se matricula por períodos curtos são completamente fora da realidade. Pra quem faz matrícula por um, dois ou até três anos, a coisa já começa a ficar normal – 50 euros por mês pra usufruir de tudo o que a estrutura tem a oferecer não é muito, se você tem tempo pra isso – mas, e atenção ao mas, tem que pagar tudo de uma vez! Então sai algo em torno de 650 euros por um ano (o ano acadêmico deles, pun intended, tem 13 meses), que eu tenho que pagar em uma porrada só. Ahan. Falei pra garota que estava suuuuuuperintencionada a me matricular, mas que por motivos de horário ainda estou decidindo se consigo ir ou não, e é melhor entrar em contato comigo no final do mês, quando vence o convite. E depois nunca mais vou dar as caras por lá. Eu, hein.

trabalhar e trabalhar

Voltei a dar aula hoje na fábrica de rolamentos pra aviões, a empresa mais sofisticada e mais american-like da província, quiçá do país. Gente muito profissional mesmo, uma empresa que aposta nos funcionários, que dá valor ao que tem. Só não é mais legal trabalhar com eles, ainda que indiretamente, porque, convenhamos, rolamento pra avião não é a coisa mais maneira do mundo. Robertinha tá em Torino trabalhando na Ferrero, e mesmo estando na área de marketing do chá gelado em vez do chocolate, tenho certeza que tudo lá é muito mais interessante.

Os meninos pra quem dou aula vão passar um período nos EUA estudando inglês e depois aperfeiçoando os conhecimentos técnicos na empresa do maior cliente deles. São muito jovens, os três, e muito engraçados. As aulas são superdivertidas. E reconhecem que a situação deles é completamente anormal no atual contexto italiano, onde ninguém mais assina a carteira de ninguém, funcionário nenhum tem direito a porra nenhuma, e não ganha nem meio panetone de Natal. Essa dicotomia profissional lembra muito o esquema Belíndia do Brasil, né? Tô falando que eu tô no interior do Zaire…