show

Acabamos de chegar do show do Califano, no Country, a boate in de Bastia. Saímos de casa achando que iria ser a maior roubada, mas até que não. Marco e Michela nos convenceram a pagar 25 paus por cabeça, jantar e show incluídos. Eu não conheço o Califano, não sei nada dele, não gosto de música italiana e odeio boate, mas juro que me diverti.

O Country é uma boate estranha. Como a maioria das discotecas daqui, eles também oferecem jantar (vocês me digam por favor qual atividade social italiana não envolve comida). Foi a primeira vez que jantei em discoteca, e o menu não era de todo ruim: muitos antipasti (mil folhas de verdura e queijo, prosciutto crudo, saladinha de camarão com feijão branco), três mini-porções de macarrão (três receitas diferentes: minignocchi com lingüiça e molho branco, um cappellettão com recheio de alcachofra, e ravioli com recheio de ricota e espinafre), um secondo (duas fatias de ótima carne de panela) e um contorno (tortinha de verdura). Ficou faltando só a sobremesa, até porque o show começou tardão e praticamente neguinho engoliu a carne pra poder atravessar a pista de dança entupida e ficar mais perto do Califano.

A história desse cara parece que é a seguinte: cantor de um sucesso só, que aliás eu não conheço, ele também é um famoso compositor. As letras não são ruins, e a voz, apesar da idade, das drogas e da gordura, ainda é firme. A ponta do nariz quase chega na boca; presumo que a cocaína tenha destruído todo o tecido cartilaginoso de sustentação do pobre apêndice respirador. Óculos escuros, copinho de Campari sempre à mão, camisa branca de linho, e uma certa dificuldade pra respirar. Alternava um golinho de Campari com uma sprayzada da bombinha pra asma. Eu não conhecia NENHUMA das músicas, mas o grupo que o acompanhava tocava bem direitinho, e reconheci um ritmozinho de bossa nova em muitas das canções. O pessoal, lógico, conhecia tudo, e cantava junto o tempo todo. Ele parecia feliz, apesar de estar tocando numa boate ridícula de uma cidadezinha ridícula do interior do Zaire; o show foi relativamente curto, começou logo depois uma seleção muito boa de músicas mas o DJ falava o tempo todo por cima, me irritei e fomos embora até que meio cedo. Foi muito menos pior do que eu esperava.

a primeira prova

Hoje fiz minha primeira prova de verdade na faculdade, de Linguistica Italiana. Na verdade não posso nem chamar de prova de verdade, já que foi uma múltipla escolha muito da furreca, enquanto que as outras são orais, com um bando de gente na sala escutando as asneiras que você responde.

Eu só assisti a meia aula de Linguistica. Se tivesse feito o endereço lingüístico durante o curso de italiano em 2002, em vez do cultural, não teria que ter feito essa prova agora, já que a matéria é seguida por todos os cursos da universidade, inclusive o de italiano que eu fiz. A professora é uma baixinha gordinha com cabelos avermelhados, roupas engraçadas e uma vozinha aguda que mesmo no microfone não dá nem pro buraco do dente. É muito simpática e me autorizou por e-mail, no sábado, a fazer a prova mesmo sem número de matrícula.

Eu estudei, vocês sabem. Também sabem que eu sou boa em línguas em geral, e tenho facilidade pra tudo que fala desse assunto. Não assisti a nada de aula além daqueles 45 minutos que nem serviram pra nada porque eu tava pensando em outra coisa. Li com calma um dos livros do currículo, hoje de manhã terminei um outro, e o terceiro ficou abandonado porque não tive tempo. Mas tirei a prova de letra. Só vou saber o resultado quando conseguir a matrícula, mas sei que passei.

Pra quem ainda não entendeu que eu moro realmente no interior do Gabão, vou descrever a cena da prova: chego uma hora antes na faculdade, com livrinho novo na mão (daqui a pouco falo dele). Sento num banco em frente à porta da reitoria e fico meio lendo e meio vendo o pessoal passar. Aquele bando de gente vestida igual (os locais), mais um monte de gente estranha (os estrangeiros). Vai amontoando gente em frente à Aula Magna, amontoando gente, amontoando gente, eu fui lá pra porta pra conversar com as meninas da minha turma, todo mundo com dicionário gigante embaixo do braço e eu pensando eu devo estar ficando maluca porque não sinto a MENOR necessidade de dicionário. O pessoal amontoando, até que abriram as portas e a galera começou a se empurrar pra dentro. Sabrina, Maria Marta, Pfaender, sacam amontoamento na porta do auditório em dia de prova de Dermato, Gineco ou Anestesio? Assim. Todo mundo sentado praticamente um no colo do outro, e eu gargalhando, porque é MUITO terceiro mundo isso. Quando a professora chegou, neguinho aplaudiu, porque ela é muito engraçada mesmo. Resolveu dividir a enorme cabeçada em três grupos. Fiquei no primeiro e demos tanta, mas tanta risada enquanto ela fazia a chamada com todos aqueles nomes estrangeiros bizarros, que ela mesma não agüentou e começou a gargalhar. O resultado é que o primeiro grupo começou a prova às seis, quando o horário oficial era às cinco.

Mesmo com a turma dividida, ainda era gente pra burro, e lógico que a colação correu solta. Um colega grego me aconselhou a sentar perto daquelas meninas ali, que sabem tudo de italiano. Eu também sei, quérido, respondi, e fui sentar lá atrás, sozinha numa fileira. O pessoal trocando prova, abrindo livro, trocando páginas de caderno, uma coisa de louco. Fiz a prova em cinco minutos (o tempo regulamentar era vinte), feliz da vida por não ter precisado colar nada. Eu sou boa coladora, tenho olhos de lince e ouvidos de tuberculoso, mas hoje, pela primeira vez na vida, tive o prazer de saber um monte de coisas só porque estudei. Donde nota-se que passei a vida estudando coisas erradas, já que nunca tive paciência pra estudar nada. Não tinha grandes prazeres tirando nota boa em português, inglês ou redação, porque eram matérias que eu nunca precisei estudar; por outro lado, nunca tive saco pra estudar clínica, cirurgia e coisa e tal. Durante toda a minha vida nunca estudei porra nenhuma nem fiz dever de casa. Nunca. Minhas boas notas no colégio e as razoáveis na faculdade devem-se à minha boa memória e ao meu sobrenatural senso de observação. Aprendi muito com os debates de caso clínico que rolavam durante as provas – porque a minha turma era FO-DAAAA e o pessoal não colava, debatia. Sabrina e Bernardo, o Casal Mais CDF do Planeta, não sabem, mas as conversas cochichadas deles discutindo caso clínico durante provas de tudo que é matéria me ensinaram mais do que qualquer Harrison ;) Nunca fui coladora de copiar todas as questões idênticas dos outros; quando eu não sabia uma questão, via o que os outros marcavam, e tentava entender o porquê, fazia mil anotações, e na maioria das vezes aquilo era suficiente pra engatilhar todo um processo de raciocínio que me levava à resposta certa, entendendo por que era a certa, entendem.

Mas então. Eu gosto de línguas. Gosto de lingüística. Gosto dessas teorias meio que inúteis sobre o que é dialeto e o que é língua, por que a vogal final do napolitano tem aquele som estranho que não existe em outras regiões, por que os peruginos falam bortsa em vez de borsa, por que certos pronomes de tratamento são reservados a certos cargos, por que vírgula aqui vai bem e aqui não. ADORO essas coisas. Então estudei com prazer mesmo. Como estou estudando o livro do Rifkin (interrompi pra pegar Linguistica) pra Studi Culturali, cuja prova não sei ainda se vou fazer porque o professor ainda não me respondeu. Como tenho certeza que vou estudar os dois livros pra Organizzazione Politica Europea, apesar de valer só três créditos. E a facilidade pra fazer a prova depois de estudar uma coisa da qual você gosta muito é uma sensação MUITO, MUITO legal.

E olha o pedaço do Swallowing Grandma, de Kate Long, que calhou d’eu ler bem antes da prova:

“They’re underrated as a pastime, exams. There’s something about the adrenaline rush, the legitimate isolation, the whole regulated nature of the exam experience that makes me feel the school hall is my natural element.”

loreena

Quando a Uno vai pra revisão na oficina, eu pego o carro do Mirco e tenho o privilégio de ir pro trabalho ouvindo música. Evito coisas facilmente cantáveis porque já estou quase sem voz de tanto ensinar, se ainda for ficar gritando junto com o Bono, o bicho pega. Então levei pro carro o The Book of Secrets, da Loreena McKennitt.

Olha, vou te dizer: Marco Polo é uma das mínhas músicas preferidas, EVER. Fica no repeat direto, sem eu me cansar, coisa rara. Linda, linda, linda. Que percussão é aquela, por favor? Hein?

giochi invernali Torino 2006

Rapaz, cês tão acompanhando as Olimpíadas de Inverno? Diferente dos americanos, que se perguntam “mas por que justamente em TURIM, meus sais?”, eu achei a opção bem legal. Não conheço a cidade, mas Robertinha gosta muito, tem a Grazi por lá e a louca da Marina também – aquela biruta que eu e Valeria conhecemos no albergue da juventude em Roma. E todo mundo acha a cidade charmozinha. Fora que, vamos combinar, Roma é tudo na vida mas as outras cidades também merecem participar do circuito pop da Bota, né não. Tipo, aqui na Umbria Perugia concentra TO-DAS as atividades culturais. Tudo que começa em alguma outra cidade acaba fixando raízes em Perugia, e os outros lugares ficam a ver navios. Chato, isso. Porque romaria is money, cês sabem.

Então. Tudo isso só pra falar, pela milésima vez, que eu não faço esporte le-nhum mas amo ver qualquer coisa na televisão. Adoro principalmente a abertura dos jogos, com aqueles nomes de países estranhos. Adoro ver os nomes bizarros dos atletas, adoro ver países desconhecidos ganhando medalhas, adoro o clima multicultural. Mesmo quando se trata de esportes de inverno – porque vocês sabem que eu odeio inverno e tudo relacionado a. A patinação no gelo é uma coisa muito maneira, fico louca assistindo, apesar de achar tudo de uma cafonice ímpar (e completamente desnecessária). Morro de pena do pessoal que cai, fico com vontade de chorar de dó e acabo mudando de canal, às vezes. Mas no geral eu assisto a qualquer coisa, até esqui, que é a coisa mais chata do mundo, junto com o golfe. Pena que com o sono que eu ando sentindo, fica difícil assistir aos replays que passam tarde da noite…

jantarzim de novo

E ontem teve outro jantar maneiro. Dessa vez fui sozinha, com o pessoal do curso de narrativa que fiz em Perugia em novembro passado. A mailing list do curso é muito movimentada, e o pessoal que mora aqui no interior do Zaire resolveu combinar de se encontrar de pessoa. Aqui da vallata tinha eu e a Laura, que é napolitana mas mora em Tordandrea; tinha Arturo, outro napolitano, e Maurizio, ambos de Gubbio, e Matteo e Livia, que vieram de Veneza. Mais tarde apareceu a outra Laura, que é de Rovigo mas mora em Perugia e é superfã da Newlands, além de ser um amor de pessoa, e a louca ensandecida da Monique, belga naturalizada italiana, amiga do Arturo. Jantamos no Dal Mi’ Cocco, trattoria tradicional de Perugia, que serve pasta fatta in casa, tem cardápio (hilário) escrito em dialeto perugino e coisa e tal. Como eu tinha almoçado três pedaços gigantes de torta al testo com duas lingüiças e mais tanto de queijo e lombinho defumado na casa da mãe da Michela, não estava com a mínima fome e nem curti tanto assim o jantar. Mas a serata foi muito legal, respiramos cultura (hohoho) e sobretudo rimos muito. Como é bom conversar com gente que gosta de ler :))))) O jantar bizarro teve direito inclusive a garçom intelectual, que, ao ouvir a Monique dizer que os belgas eram mais machos que os franceses, exclamou, enquanto servia as tagliatelle:

– É, mas Vercingetorix é Vercingetorix, né. Teve todo aquele lance de Alesia e tal.

As opiniões gerais sobre a minha pessoa foram unanimamente duas: minha saia de tweed da Animale é um escândalo de linda, ao ponto que até os meninos repararam, em momentos diferentes, e eu sou interessante de-más pra não escrever algo de decente e participar de algum concurso de literatura. A julgar pelos primeiros prêmios que muita porcaria anda ganhando por aí, I stand a good chance. Vamo esperar passar esse período de provas na faculdade, né, lindos. Depois quem sabe eu me aventuro.

jantarzim

Ontem fomos jantar com os meus ex-alunos, os Três Mosqueteiros, lembram? Bom, na verdade primeiro fomos visitar a Mosqueteira Flavia, que está se recuperando de um pós-parto complicadíssimo e não pode botar os pezinhos fora de casa. Rimos muito com o filho mais velho, Francesco, que apareceu na sala vestido de legionário. Perguntamos quem ele era, e estávamos todos esperando algo tipo Maximus, mas ele vem com “Ettore, quello di Troia”, e nós aaaaaaaaaaah! Ele continuou falando de personagens históricos, da Ilíada, da Odisséia de Ulisses, de Orlando Furioso, e todos nós de boca aberta, porque afinal o garoto só tem cinco anos. Ainda recitou a fala final do Aragorn em um dos filmes, com espada na mão e tudo (espada cujo nome ele sabia, by the way). Depois desse choque cultural, fomos jantar num restaurante que o Spartaco tinha reservado, com um nome cafonissimo, La Locanda dei Golosi. O lugar fica meio lá nos cafundós, pros lados da FeRnanda, e é elooooooorme. Nosso garçom era um gordo fedorento que faz aula de informática com o Spartaco, e mais um adolescentão bonitinho e educado. Levamos horas pra ser servidos, com toda aquela gente, e ainda levamos esporro por conta de umas crianças incrivelmente mal educadas que ficavam torrando a paciência dos garçons, coitados, que passavam abarrotados de pratos e bandejas pra lá e pra cá. Não adiantou explicar que os filhos não eram nossos; estavam perto da nossa mesa, então eram de nossa reponsabilidade moral.

Fora a incrível dor de garganta que senti mais tarde, por ter dado tanta aula a semana inteira e ter me esgoelado pra me fazer ouvir no restaurante lotado, o jantar foi muito legal. Os meninos são ótimos, as esposas idem, todo mundo gosta de viajar, todos são organizadinhos e certinhos e enlouquecem com a incompetência italiana, enfim, rola uma grande compatibilidade. O papo foi ótimo e demos muita risada. Chegamos em casa revigorados.

Acabo de bater meu record: 3 horas direto estudando. Nunca tinha acontecido isso antes; meu máximo era 20 minutos heheheheh

Consegui falar pelo menos com a professora de Linguistica Italiana I, e vou fazer a prova na quinta-feira. Mas não vou poder saber a nota enquanto não conseguir resolver essa farofada da matrícula. Amanhã tenho que terminar um capítulo, e depois ler mais uns capítulos xerocados até quinta. Mas acho que dou conta; muito do que tem nos livros é simplesmente bom senso, e eu, menina que sabe usar ponto-e-vírgula, não tenho muita dificuldade em entender assuntos lingüísticos, ainda mais quando dependem quase que exclusivamente de bom senso. De qualquer maneira, nunca se sabe. Acendam velinhas, please.

hohoho

Mirco hoje me contou que na terça, depois do jantar em Scheggino (don’t ask) com Gianni e Chiara, eu, bebinha, tive um longuíssimo ataque de riso antes de dormir. E que antes do ataque de riso falei em inglês, sabe-se lá sobre qual assunto, por meia hora seguida.

Então fica combinado que eu não posso me empolgar com vinho branco.

saco

Estou penando pra conseguir fazer as provas na faculdade. O lance é que os gentilíssimos funcionários do consulado italiano no Rio, che gli piasse un fulmine, acham que a autenticação no certificado de conclusão do 2o grau é muito velha. Hm, por que será, hein? Será que é porque eu terminei a escola em 94 e já se passaram 12 anos? Hein? Enfim, querem que a autenticação velha seja autenticada, o que por lei não é permitido e os cartórios se recusam a fazer, lógico. Como não adianta discutir com funcionário de consulado, coisa que já aprendi há muitos anos, vou ter que mexer pauzinhos de outra maneira.

Da minha parte, não posso me inscrever pras provas, porque pra isso tenho que ir ao site da universidade e fazer o login com o número de matrícula. Sem o maldito documento que o consulado não quer me dar, atestando que concluí o 2o grau, não posso concluir a matrícula. Pagar eu já paguei, lógico, morrendo em 400 paus que não posso nem receber da agência da bolsa de estudos, porque não tenho matrícula. Então agora estou escrevendo e-mail pra tudo que é professor pedindo pra deixar eu fazer as provas, e a nota vai ser “verbalizada” (escrita no “libretto”) só quando eu tiver o número de matrícula em mãos.

O mais legal é que eu não sei nem se a matrícula vai sair, mesmo se algum dia chegar o tal documento, porque eu escrevi pra Reitoria explicando tudo e perguntando o que fazer, mas é óoooooobvio que não obtive resposta. Pode ser que eu estude, faça as provas, consiga a merda do documento, vá lá apresentar tudo pra finalmente concluir a matrícula, e eles me digam aaaaaaah não pode mais.

Nesse dia vocês irão ouvir o William Bonner dizendo que uma famosa e tradicional universidade do interior do Zâmbia foi incendiada por uma extra-comunitária em meio a um “raptus” de causas desconhecidas.