Ainda hoje, se meu dia render como eu espero que renda porque tenho muito o que fazer:

– fotos das prateleiras de lata no escritorio de casa
– o relato das emocionantes (cof cof) férias na Sérvia
– fotos das emocionantes férias na Sérvia

Adianto uma informaçao importante, pra voces terem uma idéia do que foram esses 8 dias em Majilovac: a casa da familia que nos hospedou tinha um LEOPARDO E UM DALMATA DE PORCELANA no armario de plastico imitando madeira.

E agora, com licença, tenho correios, banco, supermercado, depiladora, esticadora de cabelos e farmacia pra ir.

Ainda hoje, se meu dia render como eu espero que renda porque tenho muito o que fazer:

– fotos das prateleiras de lata no escritorio de casa
– o relato das emocionantes (cof cof) férias na Sérvia
– fotos das emocionantes férias na Sérvia

Adianto uma informaçao importante, pra voces terem uma idéia do que foram esses 8 dias em Majilovac: a casa da familia que nos hospedou tinha um LEOPARDO E UM DALMATA DE PORCELANA no armario de plastico imitando madeira.

E agora, com licença, tenho correios, banco, supermercado, depiladora, esticadora de cabelos e farmacia pra ir.

Eu sei que não parece, mas morar com um lanterneiro criativo tem muitas vantagens.

O bom dele ser lanterneiro é que toda e qualquer ferramenta ou está à disposição, ou pode ser facilmente comprada, e pequenos probleminhas são facilmente resolvidos. Bateu o carro? Se ele não conserta pessoalmente (ele nao, o pai, porque ele pinta máquinas industriais), conhece alguém que o faz, por pouca grana e em pouco tempo. Arranhou o carro? Ele vai lá com a pistola de tinta e resolve. Quebrou alguma coisa em casa? Ele volta pro almoço com a ferramenta justa, e conserta.

O bom dele ser criativo é que, se um problema não pode ser resolvido no modo convencional, ele inventa outra solução. Sabe aquela coisa do homem da casa? Então. É assim. E como eu também sempre fui um dos homens da minha casa, e adoro consertar coisas, abrir pra ver como funciona e por aí vai (interesses que herdei do meu pai), nos damos muito bem.

Ontem decidimos que, porque somos acumuladores de coisas, o espaço aqui no nosso escritório é pouco, e precisamos de prateleiras. IKEA? Não, do-it-yourself, que é muito mais divertido, e personalizado!

Primeiro vou explicar mais ou menos como é o escritório, que era o quarto do filho mais velho do casal dono do apartamento. Mirco inventou escrivaninhas cujas pernas são latões de solvente e cujo tampo é uma tábua super larga que ele pintou com tinta pra carro, cor verde-bandeira. Ele usou uma pintura tipo bucciata (buccia = casca, nesse caso casca de laranja), que não deixa a superfície lisinha mas coberta de “respingos” de tinta. Encostado na parede atrás da escrivaninha, uma outra tábua bucciata laranja, na qual ele fixou uma prateleirinha de mesmo material e cor, onde ficam os porta-lápis, porta-correspondência e uma foto nossa feita num restaurante em Catania no ano passado. À esquerda do computador, dois gaveteiros de madeira crua da IKEA, cheias de material de escritório – é o almoxarifado. Nós dois adoramos coisas de papelaria e escritório, e não deixamos faltar nada porque refazemos nossos estoques antes que qualquer coisa acabe ;) E empilhados no alto desses dois gaveteiros, 200.000 raccoglitori (fichários) com documentação de banco, contas da casa, fotocópias de documentos pessoais, faturas de cartão de crédito, etc. O Mirco é muito organizado com essas coisas, e aprendi muito com ele. Hoje não perco mais um documento sequer, tá tudo devidamente ordenado e fotocopiado.

No meu lado do escritório, usamos uma velha escrivaninha da Arianna, que tem gavetas mas é baixa e muito feia. O Mirco pintou um tampo de madeira em azul bucciato, um azul meio cinza que eu adoro. No canto à direita, perto da janela (que tem cortinas em renda com golfinhos, muito adequado), fica o meu computador velho. À esquerda, perto da porta, o meu gaveteiro de madeira e o porta-correspondência idem. Na parede do lado da janela, duas placas de metal bucciato prateado com fotos e coisas fofas presas com ímãs. Na parede da escrivaninha do Mirco, um poster da mostra do fotógrafo sem mão, que o Mirco comprou e quase desistiu de botar na parede quando soube que o fotógrafo tava crente que eu ia pra Austrália pra dar pra ele (mas comé que esse cavalinho foi parar na chuva? Tira ele daí, meu querido!). No canto direito da parede do Mirco, ou melhor, na parede mais estreita desse escritório pentagonal, mais duas placas de metal bucciato verde meio turquesa, com as fotos da Austrália que o Mirco ama. Na parede perto da porta, outra placa, cinza-claro, com mais fotos de viagens e contas pra pagar. Colados na porta do escritório, do lado de fora, uma placa de trânsito avisando que há koalas na área, e logo embaixo, o cartaz do Fashion Rio, desenhado pela Newlands. Do lado de dentro, um calendário horrível com fotografias de caminhões e tratores, e um folheto que veio com a nossa multi-função HP, com coisas escritas nas línguas mais estranhas da Europa.

Foram os malditos raccoglitori, que são horrorosos mas duram muito e custam una cavolata (mixaria), que nos despertaram essa vontade de ter prateleiras. Eu só tenho 2 fichários, um com meus documentos pessoais e do banco, e outro, precocemente aposentado, com os documentos e as contas do apartamento de Bastia, mas tenho uma infinidade de tralha pra organizar: MUITO material pra correspondência, muita correspondência, milhões de bloquinhos, trilhões de canetas coloridas e não, alguns dicionários, zilhões de caderninhos de endereços, agendas, diários, fotografias, letras de música, cadernos de receita, traduções feitas. Tá tudo espalhado pela casa, dentro de pastas e arquivos distribuídos pelos armários hediondos da sala. Precisam de ordem – então inventamos umas prateleiras.

Ingredientes: latas vazias, que eles na oficina compram em quantidades industriais, pra armazenar tintas de cores não tradicionais, cores inventadas pro cliente do momento. Areia pra encher as latas e fazer peso. Profilati de alumínio, que são tipo tábuas ocas de metal que servem, entre outras coisas, pra bloquear as laterais dos caminhões, evitando assim que motociclistas ou carros baixos vão parar embaixo deles, em caso de acidente. Maastricht, uma cola super hiper mega coladora, pra colar as latas.

Ontem à tarde demos um pulo na oficina pra pegar essa tralha. Cortamos os profilati com a serra que cortou um pedaço da mão do Ettore no começo do ano, escolhemos as latas, pegamos as placas de metal que estavam secando no forno, nos munimos de fita biadesiva poderosíssima, e voltamos pra casa. Os profilati são estreitos, então cada prateleira é feita de dois deles, posicionados paralelamente e colados com biadesivo. Três latas de altura entre a escrivaninha e a primeira prateleira, e duas latas entre a primeira e a segunda prateleira. As minhas latas serão pintadas de vermelho-vivo, as do Mirco de azul. Escritório mais colorido, impossível.

As minhas duas placas de metal já estão devidamente entupidas de fotos e coisas, e em breve o estarão também as latas. Sim, é uma poluição visual danada, mas a gente gosta assim…

**

E à noite fomos jantar na casa de uma família amiga dos pais do Mirco. Eles se conheceram no hospital há mais de 15 anos, quando o Ettore foi operar o septo nasal, e essa família estava acompanhando um tio pra uns exames cardíacos complicados. Pietro, o patriarca sem dentes, Silvana, a esposa, de olhos azuis lindíssimos, Settimia, a filha nariguda divorciada e sem queixo, Andrea, o filho rebelde de Settimia, com cabelo mohawk mas olhar esperto (e com narigão e sem queixo), e Giovanni, o filho mais novo de Pietro, que é ligeiramente viado, apaixonado pelo Mirco, e dá aula de cozinha na escola de hotelaria de Assis há muitos anos. Todos super gentis, mas um pouco formais demais pro meu gosto. A casa, imensa mas super mal conservada porque o pai, avarentíssimo, controla o dinheiro de todo mundo na família e não gasta nem pra botar luminárias na sala (sabe lâmpada pendurada pelo fio? É assim HÁ DEZ ANOS), fica num buraco chamado Giano dell’Umbria, lá pros lados de Foligno. A estrada cheia de curvas é absolutamente deserta. Uma casa a cada quilômetro. Ou melhor, um sítio a cada quilômetro, porque ali cada família tem grandes propriedades e seus próprios pés de azeitona, de uva, suas hortas, seus galinheiros. Aqui no interior é muito comum encontrar moinhos de aluguel: você leva suas azeitonas, paga uma taxa e eles moem as bichinhas pra você e te dão o azeite pronto. O mesmo pro vinho: há cooperativas onde você leva as suas uvas, e no final do processo de produção do vinho tem direito a uma certa quantidade do produto pronto.

Então nós jantamos bruschette de alho e azeite, de cogumelo e tartufo, de berinjela (melanzana) da horta deles. Depois panquecas recheadas de cogumelo, cobertas de molho branco e molho de tomate, gratinadas ao forno (deliciosas). Depois coelho assado (coelho deles, é claro) e linguiças feitas em casa, na grelha, com batatas ao forno. Depois salada (da horta deles, obviamente). Depois rocciata, um doce esquisito com frutas secas (blergh), e spaghetti dolci, um doce que normalmente se faz na Páscoa, se não me engano, com macarrão cozido e misturado numa massa maluca de chocolate, amêndoas trituradas, açúcar, e outras coisas, tudo isso regado com licor cor-de-rosa. Parece horroroso, mas não é. Também não é nenhuma maravilha, mas é perfeitamente aceitável. Tudo isso regado a vinho branco e tinto feito em casa (eles levam à cooperativa as uvas mais tabajara, com as uvas boas eles mesmos fazem o vinho pra consumo próprio). Espetaculo. O Ettore comeu até morrer, e ainda teve a cara-de-pau de aceitar de levar uma quentinha de panquecas pra casa hehehe

**

Amanhã partimos pra Belgrado. Dejan já ligou dizendo que está frio, muito frio. Ui.

Eu sei que não parece, mas morar com um lanterneiro criativo tem muitas vantagens.

O bom dele ser lanterneiro é que toda e qualquer ferramenta ou está à disposição, ou pode ser facilmente comprada, e pequenos probleminhas são facilmente resolvidos. Bateu o carro? Se ele não conserta pessoalmente (ele nao, o pai, porque ele pinta máquinas industriais), conhece alguém que o faz, por pouca grana e em pouco tempo. Arranhou o carro? Ele vai lá com a pistola de tinta e resolve. Quebrou alguma coisa em casa? Ele volta pro almoço com a ferramenta justa, e conserta.

O bom dele ser criativo é que, se um problema não pode ser resolvido no modo convencional, ele inventa outra solução. Sabe aquela coisa do homem da casa? Então. É assim. E como eu também sempre fui um dos homens da minha casa, e adoro consertar coisas, abrir pra ver como funciona e por aí vai (interesses que herdei do meu pai), nos damos muito bem.

Ontem decidimos que, porque somos acumuladores de coisas, o espaço aqui no nosso escritório é pouco, e precisamos de prateleiras. IKEA? Não, do-it-yourself, que é muito mais divertido, e personalizado!

Primeiro vou explicar mais ou menos como é o escritório, que era o quarto do filho mais velho do casal dono do apartamento. Mirco inventou escrivaninhas cujas pernas são latões de solvente e cujo tampo é uma tábua super larga que ele pintou com tinta pra carro, cor verde-bandeira. Ele usou uma pintura tipo bucciata (buccia = casca, nesse caso casca de laranja), que não deixa a superfície lisinha mas coberta de “respingos” de tinta. Encostado na parede atrás da escrivaninha, uma outra tábua bucciata laranja, na qual ele fixou uma prateleirinha de mesmo material e cor, onde ficam os porta-lápis, porta-correspondência e uma foto nossa feita num restaurante em Catania no ano passado. À esquerda do computador, dois gaveteiros de madeira crua da IKEA, cheias de material de escritório – é o almoxarifado. Nós dois adoramos coisas de papelaria e escritório, e não deixamos faltar nada porque refazemos nossos estoques antes que qualquer coisa acabe ;) E empilhados no alto desses dois gaveteiros, 200.000 raccoglitori (fichários) com documentação de banco, contas da casa, fotocópias de documentos pessoais, faturas de cartão de crédito, etc. O Mirco é muito organizado com essas coisas, e aprendi muito com ele. Hoje não perco mais um documento sequer, tá tudo devidamente ordenado e fotocopiado.

No meu lado do escritório, usamos uma velha escrivaninha da Arianna, que tem gavetas mas é baixa e muito feia. O Mirco pintou um tampo de madeira em azul bucciato, um azul meio cinza que eu adoro. No canto à direita, perto da janela (que tem cortinas em renda com golfinhos, muito adequado), fica o meu computador velho. À esquerda, perto da porta, o meu gaveteiro de madeira e o porta-correspondência idem. Na parede do lado da janela, duas placas de metal bucciato prateado com fotos e coisas fofas presas com ímãs. Na parede da escrivaninha do Mirco, um poster da mostra do fotógrafo sem mão, que o Mirco comprou e quase desistiu de botar na parede quando soube que o fotógrafo tava crente que eu ia pra Austrália pra dar pra ele (mas comé que esse cavalinho foi parar na chuva? Tira ele daí, meu querido!). No canto direito da parede do Mirco, ou melhor, na parede mais estreita desse escritório pentagonal, mais duas placas de metal bucciato verde meio turquesa, com as fotos da Austrália que o Mirco ama. Na parede perto da porta, outra placa, cinza-claro, com mais fotos de viagens e contas pra pagar. Colados na porta do escritório, do lado de fora, uma placa de trânsito avisando que há koalas na área, e logo embaixo, o cartaz do Fashion Rio, desenhado pela Newlands. Do lado de dentro, um calendário horrível com fotografias de caminhões e tratores, e um folheto que veio com a nossa multi-função HP, com coisas escritas nas línguas mais estranhas da Europa.

Foram os malditos raccoglitori, que são horrorosos mas duram muito e custam una cavolata (mixaria), que nos despertaram essa vontade de ter prateleiras. Eu só tenho 2 fichários, um com meus documentos pessoais e do banco, e outro, precocemente aposentado, com os documentos e as contas do apartamento de Bastia, mas tenho uma infinidade de tralha pra organizar: MUITO material pra correspondência, muita correspondência, milhões de bloquinhos, trilhões de canetas coloridas e não, alguns dicionários, zilhões de caderninhos de endereços, agendas, diários, fotografias, letras de música, cadernos de receita, traduções feitas. Tá tudo espalhado pela casa, dentro de pastas e arquivos distribuídos pelos armários hediondos da sala. Precisam de ordem – então inventamos umas prateleiras.

Ingredientes: latas vazias, que eles na oficina compram em quantidades industriais, pra armazenar tintas de cores não tradicionais, cores inventadas pro cliente do momento. Areia pra encher as latas e fazer peso. Profilati de alumínio, que são tipo tábuas ocas de metal que servem, entre outras coisas, pra bloquear as laterais dos caminhões, evitando assim que motociclistas ou carros baixos vão parar embaixo deles, em caso de acidente. Maastricht, uma cola super hiper mega coladora, pra colar as latas.

Ontem à tarde demos um pulo na oficina pra pegar essa tralha. Cortamos os profilati com a serra que cortou um pedaço da mão do Ettore no começo do ano, escolhemos as latas, pegamos as placas de metal que estavam secando no forno, nos munimos de fita biadesiva poderosíssima, e voltamos pra casa. Os profilati são estreitos, então cada prateleira é feita de dois deles, posicionados paralelamente e colados com biadesivo. Três latas de altura entre a escrivaninha e a primeira prateleira, e duas latas entre a primeira e a segunda prateleira. As minhas latas serão pintadas de vermelho-vivo, as do Mirco de azul. Escritório mais colorido, impossível.

As minhas duas placas de metal já estão devidamente entupidas de fotos e coisas, e em breve o estarão também as latas. Sim, é uma poluição visual danada, mas a gente gosta assim…

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E à noite fomos jantar na casa de uma família amiga dos pais do Mirco. Eles se conheceram no hospital há mais de 15 anos, quando o Ettore foi operar o septo nasal, e essa família estava acompanhando um tio pra uns exames cardíacos complicados. Pietro, o patriarca sem dentes, Silvana, a esposa, de olhos azuis lindíssimos, Settimia, a filha nariguda divorciada e sem queixo, Andrea, o filho rebelde de Settimia, com cabelo mohawk mas olhar esperto (e com narigão e sem queixo), e Giovanni, o filho mais novo de Pietro, que é ligeiramente viado, apaixonado pelo Mirco, e dá aula de cozinha na escola de hotelaria de Assis há muitos anos. Todos super gentis, mas um pouco formais demais pro meu gosto. A casa, imensa mas super mal conservada porque o pai, avarentíssimo, controla o dinheiro de todo mundo na família e não gasta nem pra botar luminárias na sala (sabe lâmpada pendurada pelo fio? É assim HÁ DEZ ANOS), fica num buraco chamado Giano dell’Umbria, lá pros lados de Foligno. A estrada cheia de curvas é absolutamente deserta. Uma casa a cada quilômetro. Ou melhor, um sítio a cada quilômetro, porque ali cada família tem grandes propriedades e seus próprios pés de azeitona, de uva, suas hortas, seus galinheiros. Aqui no interior é muito comum encontrar moinhos de aluguel: você leva suas azeitonas, paga uma taxa e eles moem as bichinhas pra você e te dão o azeite pronto. O mesmo pro vinho: há cooperativas onde você leva as suas uvas, e no final do processo de produção do vinho tem direito a uma certa quantidade do produto pronto.

Então nós jantamos bruschette de alho e azeite, de cogumelo e tartufo, de berinjela (melanzana) da horta deles. Depois panquecas recheadas de cogumelo, cobertas de molho branco e molho de tomate, gratinadas ao forno (deliciosas). Depois coelho assado (coelho deles, é claro) e linguiças feitas em casa, na grelha, com batatas ao forno. Depois salada (da horta deles, obviamente). Depois rocciata, um doce esquisito com frutas secas (blergh), e spaghetti dolci, um doce que normalmente se faz na Páscoa, se não me engano, com macarrão cozido e misturado numa massa maluca de chocolate, amêndoas trituradas, açúcar, e outras coisas, tudo isso regado com licor cor-de-rosa. Parece horroroso, mas não é. Também não é nenhuma maravilha, mas é perfeitamente aceitável. Tudo isso regado a vinho branco e tinto feito em casa (eles levam à cooperativa as uvas mais tabajara, com as uvas boas eles mesmos fazem o vinho pra consumo próprio). Espetaculo. O Ettore comeu até morrer, e ainda teve a cara-de-pau de aceitar de levar uma quentinha de panquecas pra casa hehehe

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Amanhã partimos pra Belgrado. Dejan já ligou dizendo que está frio, muito frio. Ui.

Senta que lá vem pregação

Então vamos falar de cigarro. De novo.

Fumar é o ato de maior idiotice de que o ser humano é capaz. Jamais vou entender o que leva uma pessoa a sequer começar a fazer uma coisa que há anos se sabe que dá vários tipos de câncer, tem mil substâncias viciantes, causa impotência nos homens, destrói a microcirculação, deixa os dentes e as unhas amarelos, dá um bafo que chiclete nenhum do mundo é capaz de eliminar, deixa a pele envelhecida, os cabelos feios e fedorentos – e ainda por cima PAGA por isso! Maior exemplo de fraqueza eu realmente não consigo conceber. Depender de uma coisa que além de matar lentamente, fede, é absolutamente inexplicável pra mim.

Além de ser uma coisa idiota, é também um dos maiores exemplos de má educação e desrespeito pelos outros. Mesmo que o cigarro não fizesse mal, só o fedor deveria ser suficiente pra transformar o ato de fumar em uma coisa a se fazer escondido, isolado – como peidar. Se a premissa básica da vida em sociedade é não encher o saco dos outros pra que ninguém encha o seu, como é possível que seja aceitável um não-fumante voltar pra casa depois de um papo no pub, ou uma noite na discoteca, fedendo tanto que é preciso pendurar as roupas na varanda pra pegar um vento e perder o cheiro? Com o cabelo fedendo tanto que na manhã seguinte a náusea te persegue e não dá vontade nem de tomar café? Com os olhos lacrimejando por causa da merda da fumaça?

Todo o problema deriva do fato que quando um imbecil fuma (fumante = imbecil), está fazendo fumar todo mundo que está em volta. Porra, eu NÃO fumo, NÃO quero ficar fedendo, não quero aumentar as minhas já altas probabilidades genéticas de desenvolver um tumor de qualquer coisa, NÃO quero respirar essa merda de fumaça! Quer fumar? Vai fumar no SEU banheiro, trancado! Um banheiro que de preferência não seja usado por mais ninguém, porque o fedor permanece por horas a fio. Crie o seu proprio cubículo de idiotice e fique lá fumando como o idiota que você é, sem encher o saco de ninguém.

Aqui na Europa a coisa mais grave é que os fumantes se acham oooos reis da cocada. Pedir a alguém pra apagar o cigarro é como pedir, sei lá, pra plantar bananeira. Ficam te olhando como se fosse a coisa mais absurda do mundo. Como, absurdo? Absurdo é EU, que não tenho nada a ver com a história e sou muito melhor do que qualquer fumante (porque, como todo fumante é imbecil, já parte com pontos a menos, em qualquer situação. TODO fumante está errado quando fuma, SEMPRE, porque fumar é SEMPRE um ato imbecil, e portanto SEMPRE errado), ter que ficar fedendo por estar rodeada de gente idiota e fraca, que não consegue ficar uma hora ou duas sem acender aquela merda dentro de um pub ou boate!

Ontem, depois do cinema, fomos pegar a Carmen e demos um pulo na nossa pizzaria preferida, pra beliscar umas coisinhas. A Carmen fuma (e depois se pergunta por que seus cabelos caem tanto e a pele é tão feia…), sabe que eu tenho HORROR a cigarro, e mesmo assim acende sempre um cigarro quando está comigo. Ontem discutimos feio porque eu pedi a ela que me fizesse a gentileza de não fumar na minha presença. Aí começa a argumentação ridícula e estúpida de quem não tem razão (lembrem-se, o fumante NUNCA tem razão):
– Mas se todo mundo aqui fuma, não é o meu cigarro que vai fazer a diferença…
Vai sim, cara-pálida. Gente pensando como você, em relação ao cigarro, ao papel de bala no chão, ao ato de furar fila, de não pagar multa, de corromper o policial, de não recolher o cocô do cachorro na rua, é que destrói uma cidade, um país, uma geração. Eu realmente não consigo entender qual é a dificuldade em sacar que pombas, cada um faz a sua parte e tudo vai bem; cada um faz o que dá na telha e acaba fodendo tudo. Qual é a dificuldade de entender uma coisa tão óbvia? Socorro!

Resultado: voltei pra casa irritada, fedorenta e intoxicada, com muita vontade de bater em alguém, de sair incendiando todos os campos de tabaco do mundo, de boicotar toda e qualquer manifestação de qualquer coisa que seja patrocinada por empresas de cigarro. Bando de feladaputa. Estragou a minha noite, de verdade. Uma merda de um rolinho de papel com coisinhas fedidas dentro, aceso numa ponta e com um idiota sugando a fumaça na outra, conseguiu estragar a minha noite.

Cada vez mais eu tenho nojo de pertencer à espécie humana. Se eu acreditasse em reencarnação, na próxima aceitaria ser qualquer coisa, menos um ser humano. Até uma barata serviria. Barata come mal pacas, mas pelo menos não fuma.

**

E passando pra outro assunto, porque esse do cigarro me deixa extremamente irritada, raivosa e violenta: o menu de Natal aqui na Umbria.

Aqui a ceia de Natal não é tão importante, e normalmente é à base de frutos do mar (aquela chatice cristã de não poder comer carne, blah blah blah. Na minha casa a gente comia lombinho, bom pra caramba…). O grande balacobaco é o almoço do dia 25. Aqui no interior do Cambodja o pessoal (leia-se as donas-de-casa, em italiano casalinghe) faz cappelletti e ravioli em casa. As superdotadas galinhas da Arianna, que botam dois ovos por dia cada uma, são as fornecedoras de parte da matéria-prima. Além dos ovos, a massa leva farinha de grano duro, numa proporção indefinida – vai no olhômetro mesmo. O recheio dos cappelletti, que são redondos, é de carne moída. O dos ravioli, aqueles com formato de travesseirinho, é espinafre com ricota. A massa é servida in brodo, ou seja, no caldo onde foi cozido o frango/peru/ganso/carneiro, e com parmesão ralado por cima, claro. Eu adoro todos os dois :)

Dia 25, na casa da Arianna, comemos os cappelletti in brodo e depois spaghetti al tartufo. A Stefania achou uns tartufos não sei onde, porque esse ano não choveu e os tartufos não só não se acham como custam os olhos da cara (algo em torno dos 3000 euros por quilo, o tartufo preto. O branco custa o dobro.), e fez um molhinho pra macarrão. Não é incomum aqui comer mais de um tipo de primo piatto. Em teoria as porções são menores, é claro – mas só em teoria.

Depois vêm as carnes, como sempre todas misturadas: tinha peru e frango cozidos (sem gosto de nada) e bistecas de carneiro empanadas e assadas no forno (eu me livrei de todo o empanado porque tinha limão, pra variar… Ô fruta desgraçada!). Como acompanhamento, alcachofras empanadas ao forno, cogumelos recheados na grelha, verdura cotta.

E de sobremesa, só coisa que eu não gosto: panetone, pandoro (acho que é uma massa parecida com a do panetone, só que com muito mais manteiga, e sem essas drogas de uva passa e fruta seca. Engorda que é uma beleza.), biscoitos de pinoli, amaretti (biscoitos de amêndoa), torrone branco, torrone de chocolate (esse eu como), e provelmente outras coisas das quais não me lembro. Sei que passei depois a tarde inteira com vontade de comer um docinho gostoso, um sorvete, sei lá.

Pra beber, vinho tinto e branco, e depois um spumante, a grappa, o limoncello, etcétera. Tudo muito light.

Eu até que me comportei, até porque o menu não era exatamente o meu favorito. Fiquei mesmo nos dois pratos de massa, comi um cogumelo e só. Depois fomos ao cinema ver Mona Lisa Smile.

Ontem, que também é feriado na Itália (Santo Stefano), almoçamos na Arianna de novo. Dessa vez foram os ravioli, com molho de tomate, muito melhor do que in brodo. E duas linguiças na brasa – linguiça feita em casa, claro. Demos umas voltas a pé em Bastia pra digerir, em Perugia idem, depois cinema de novo (Hollywood Homicide), não depois de muita fila, de uma pizza horripilante na Spizzico, e depois a chatice com a Carmen na pizzaria.

E aí eu gostaria de mostrar a vocês um exemplo de fila italiana. Quando eu digo que italiano não faz fila, faz coágulos de gente amontoada sem nenhum tipo de respeito à ordem de chegada (até porque nem eles lembram quem chegou primeiro), neguinho acha que é exagero. Então lancemos um desafio: quem conseguir me dizer onde a fila começa e onde termina ganha um cartão-postal da Sérvia. E quem acertar quanto tempo levamos pra chegar à caixa e comprar os ingressos, ganha uma foto autografada do Legolas de chapéu.

Ah, Roma…

Então eu pego o meu já amigo trem das 6:17 partindo de Bastia, me adormento e como sempre acordo em Orte, quando a cabeçada que trabalha/estuda em Roma entope o trem e faz um barulho danado; durmo de novo e acordo na Tiburtina. Dali são alguns minutos até Roma Termini. Pego um táxi e vou parar na embaixada da Sérvia e de Montenegro, numa ladeira lá pros lados da Villa Borghese. Quando eu estou esticando meu dedinho pra tocar a campainha a porta abre, e saem três eslavos batendo papo. Seguram a porta aberta pra eu passar, olham pra minha cara e dizem alguma coisa em eslavo. Eu faço a-han e penso, mas será o benedito? Eu com essa cara de nacionalidade não-identificada mas DEFINITIVAMENTE não eslava e esses falando comigo na língua deles? Entro, pego o visto, que leva dez minutos e vinte e um euros pra ficar pronto, olho pra cara do visto, que é uma etiqueta pré-impressa e preenchida à mão, dou tchau pro antipaticíssimo cara da portaria, e vou-me embora.

E aí começa a missão “vamos encontrar uma agência dos correios”. Os bancos têm tarifas altíssimas, então optei por abrir conta no BancoPosta, que cobra menos (e funciona super mal, uma vez que não é privado). Precisava tirar uma grana no caixa eletrônico, mas uma gorda antipática na banca de jornal disse que ali perto de onde eu estava só tinha uma agência, mas teria que caminhar bastante. Intrépida, habituada a caminhar quilômetros, fui seguindo as instruções da gorda: desci uma ladeira, subi outra, e dali tinha que subir umas escadas, que não achei. Entro num mercadinho/açougue pra pedir mais informações, e começa a italianada (muito semelhante à cariocada, diga-se de passagem):
– Fulano, mas não tem que subir as escadas?
– Tem sim. Vira ali à esquerda…
– Mas que esquerda, fulano! Direita!
– Direita?
– Direita sim, ali depois dos portões, tem as escadas, e depois das escadas vira à esquerda.
– Esquerda? Não tinha que descer a rua à direita?

No final das contas um romano gatinho (mas pequenininho; ó vida, ó céus, por que os mediterrâneos são todos pequenininhos? Não podiam ser altos também, além de charmosos e divertidos?) sai do mercadinho e me leva até as escadas. Faço o que tenho que fazer, e quando passo pelo mercado de novo, voltando pro ponto de ônibus que eu já muito espertamente tinha localizado como sendo-me útil, ele sai da loja e vem perguntar se eu achei a agência. Achei sim, darling. Sorrisos, buone feste, auguri, e vou-me, contente. Adoro esses arroubo de simpatia nas pessoas.

Pego o primeiro ônibus que me deixará numa estação de metrô. Desço na Piazza Barberini, pego o metrô, sempre entupido e sempre atrasado, e desço na Ottaviano. Dali caminho até a via Cola di Rienzo, resisto à tentaçao de uma lindíssima bolsa Gucci, tão falsa quando a cobra de onde em teoria saiu seu couro marrom, ando mais um pouco e entro na Castroni, ma-ra-vi-lho-sa loja de coisas comíveis de todo o mundo. Me emociono com o guaraná, a goiabada, o polvilho doce, o preparado pra pão de queijo. Compro leite condensado, pão de queijo, guaraná, feijão preto, doce de leite (infelizmente argentino). Pego o metrô pra estação de trem, almoço um McChicken e fico esperando o trem, que só sai às 14:14. Magari! Saiu quase às 15.

Sentado à minha frente, um tipo repugnante: o homem não-homem. O homem não-homem é transparentemente pálido, magro, tem ombros estreitos (ó céus, quer coisa mais broxante que ombrinhos estreitos?), tem mãos brancas e delicadas, aranhescas, os dedos longos e bem-feitos – mãos de quem não faz nada da vida, mãos de homem que não sabe nem trocar lâmpada. Uma delicadeza, uma fragilidade totalmente não-masculina. Joelhos pontudos marcam as calças jeans quando ele cruza as pernas como uma mocinha. A cintura é fina, a respiração é difícil – além de delicado deve ser vegetariano. Nojo, nojo.

O atraso do trem significa que perdi a conexão em Foligno. Um frio desgraçado, um vento maldito, um bando de gente que perdeu a conexão amontoada na cabine de espera na estação. A próxima conexão, que deveria sair às 17:06 (o que perdemos saía às 16:20), chegou na hora mas demorou pra sair por conta de um Eurostar que vinha no mesmo trilho e chegou atrasado, como todo bom Eurostar.

Eis que adentram a cabine duas brasileiras. Uma senhora com cara de baixo Q.I. e uma jovem de cabeça achatada e cara de empregadinha e a arrogância de quem acha que deu o golpe do baú. Essa última vestia um casaco comprido de camurça falsa cor camelo, forrada com pelúcia 100% nylon, no melhor estilo ursos Peposos. E aí começa a conversa assassina (assassinaram a gramática, ô ô):
– Não, muié, falta der minuto ainda!
– Ah é… Mas e as criança, hein? As criança hoje come em casa?
– Num sei não…

Por que é que eu tenho que ficar encontrando essas peças em tudo que é lugar que eu vou? Pra piorar, subiram bem no meu vagão! Logo logo a velhinha que tava sentada em frente à garota sacou, pelo óbvio sotaque “è liberu qui?”, que era estrangeira, e puxou papo. E logo a garota começa a sorrir e explicar que sim, “sonu brasiliãna”, saca da carteira umas notas de reais pra mostrar pra velha, desvencilha dos brincos de ouro fake (aqueles de 1,99 que se compram nas estações do metrô no Rio) uma mecha dos belos cabelos castanhos. Pronto! É assim que começa, comprovando a eficácia da campanha boca-a-boca: a velhinha provavelmente vai contar a uma média de 9 pessoas do seu círculo de amizades o encontro que teve com a brasileira, coitadinha, tão lerdinha, tão despreparada, mora aqui há anos e ainda não aprendeu a língua, feito uma mexicana qualquer… Cada retardada dessas fora do Brasil dificulta em uns 5% a vida de brasileiras normais que vão morar no exterior com a melhor das intenções e grande capacidade de adaptação. Dei à garota um olhar schifoso quando me dirigi à saída do vagão, depois de ter guardado na bolsa meu último Ian McEwan (Atonement. Lento, mas interessante.).

Desço em Bastia, pego o carro (estou com a Fiat Punto do Mirco, que trocou de carro) e vou à oficina, deixar a Punto e pegar o Volvo do lanterneiro, porque o carro dos eslavos quebrou e eles vão pra casa com a Punto do Mirco. O vento sacode o carro, que vive embaçando desde que limpei os vidros com desembaçador, há muuuitos meses atrás; não vejo nada, o aquecedor demora pra engrenar, minhas mãos congeladas dentro das luvas, meu nariz mais duro que mármore, meus pés insensíveis, com as terminações nervosas todas congeladinhas, coitadas. Chego na oficina, troco de carro, volto pra casa. Não tenho vontade de fazer nada, mas amanhã é dia de fazer os doces pra família da Marta…

– C***lho, exclamou a princesinha, preciso descansar!

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Natal pra mim significa somente o aniversário do meu pai, e um feriado. Mas como convenção social é convenção social, desejo a vocês, que acham essa data uma coisa especial, um Natal interessante (poucas qualidades são, pra mim, mais importantes do que interessante). Esse ano não consegui mandar cartão pra ninguém, coisa que muito me envergonha, visto que tenho muito orgulho de ser adepta do snail-mail. Mas perdoem-me; 2003 foi um ano horripilante e cansativo, e não só por causa das minhas 4 mudanças de casa. Não tenho forças pra escrever nem telegrama, quanto mais cartão de Natal. Por isso considerem-se todos devidamente abraçados, beijados e presenteados. E que todo mundo, inclusive eu, tenha um 2004 show de bola. Até porque a Ane, com quem tive o prazer de falar hoje no telefone, tem razão: pior do que 2003 é difícil, viu, meus queridos.

jantar Sérvio

Sábado fomos jantar na casa do Dejan, eslavo que trabalha pro Mirco e que vai nos hospedar agora no reveillon. A família toda é muito simpática e educada, e está na casa dos pais do Mirco toda vez que rola balacobaco. O pai, Momo, é caminhoneiro e faz as revisões do caminhão na oficina do Mirco (e foi daí que surgiu a idéia de botar o filho dele lá pra trabalhar). Ele já rodou toda a Europa e o Oriente Médio de caminhão, e as suas aventuras no Iraque, no Kuweit e cercanias são de matar de rir. Afirmou categoricamente que as mulheres sírias são lindas (o que explica a minha estonteante beleza hohoho), que Damasco é linda, e me deixou com mais vontade do que nunca de conhecer toda aquela região. Pena que o momento não é dos mais interessantes.

A mãe, Zorika, trabalha numa empresa de arranjos de flores secas. Jelena (pronúncia iélena), mulher do filho mais velho, Mika, também trabalha lá. Quando eu e Mirco tivemos que ir à fronteira com a Eslovênia pra carimbar a bosta do passaporte, no ano passado, o Mika e a mulher também foram, porque ela tinha o mesmo problema burocrático que eu. Lembro que na época ela não falava nada de italiano e me parecia mais perdida que cego em tiroteio. Depois não nos vimos mais, mas ela já ficou mais esperta, já fala alguma coisa de italiano, e é muito simpática. Mostrou as fotos do casamento: a festa durou três dias e ela mudou de vestido milhares de vezes! (um mais cafona que o outro, diga-se de passagem. A moda cigana realmente nãaaao é pra mim). Eles são super jovens, tanto ela quanto o Mika são mais novos que eu. Ela fez escola técnica de farmácia na Sérvia, ou seja, não é nenhuma retardada, coisa que me deixou muito feliz: tô cansada de lidar com gente absolutamente ignorante aqui no interior de Madagascar.

O jantar foi super simples: entrada de frios, depois uma sopinha light com macarrõezinhos compridos demais pra ser comidos como sopa mas o caldo estava uma delícia, e depois carne de vitela e de carneiro com salada. Eles já partiram pra casa deles na Sérvia, e dia 30 vamos eu e Mirco ficar na casa deles. Se a festa de ano-novo for do mesmo estilo que a festa de casamento, eu já vi que vou me divertir horrores!

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Todo o mundo civilizado já viu The Return of the King, menos eu. Vocês sabem, aqui na Guatemala os filmes chegam com muito atraso, e dublados. Só me recuperei do trauma de ver TTT em italiano porque depois baixei o filme da internet em língua original, e de vez em quando revejo pra dar uma refrescada nas idéias. Mas pra quem já leu os livros milhares de vezes em Inglês, como eu, e sabe os diálogos de cor, ouvir tudo em italiano é o horror, o horror.

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Amanhã vou a Roma pegar o visto pra Sérvia. Engraçado foi a minha conversa telefônica com o cara do consulado, semana passada. A começar do fato que, no catálogo telefônico, ainda consta Embaixada da Jugoslavia, embora Jugoslavia não exista mais.
– Bom dia, eu sou brasileira e gostaria de ir à Sérvia [sintam a estranheza dessa afirmação], preciso de visto?
– Precisa sim, tem que trazer duasfotos3x4umacartadafamíliaquetehospedateconvidando carimbadaeassinadapelaprefeituradacidadelánaSérvia, blah blah blah
– Peraí, meu querido, vai devagar que eu tô anotando…
– Mas vocês brasileiros são tão rápidos pra jogar futebol, e você demora tanto pra escrever? [clássico comentário totalmente nada a ver, estilo o que tem o c a ver com as c… Até porque eu escrevo MOITO rápido, quem me conhece sabe.]
– …
– Então, a família que te hospedará tem que mandar uma carta te convidando, mas essa carta tem que ser carimbada e assinada na prefeitura da cidade deles.
– Ahn. [e eu pensando, sim, é bom mesmo eles criarem essas dificuldades, porque tem TAAANTA gente querendo ir passar o ano-novo congelando na Sérvia que se eles não segurarem a onda não tem lugar pra todo mundo! Not!!!]
– E mais duas fotos 3×4, e fotocópia do passaporte e do permesso di soggiorno.
– Ahn.
– E o passaporte original e o permesso di soggiorno original.
– [lógico, seu mongo] OK, ‘brigada…

Então amanha lá vou eu pegar o raio do visto. Aproveito pra fazer umas compritchas: tô precisando de leite condensado e farinha de mandioca pra fazer um cesto de salgadinhos e doces pra família da Marta, porque não tenho a menor idéia do que dar de presente pra eles no Natal. Então vou dar coisas de comer – quer coisa melhor? Aceito sugestões de cardápio. Até agora já pensei em quibe, coxinha de galinha, brigadeiro (já comprei o granulado), torta de limão e quadradinhos de laranja. Vou fazer tudo meia receita porque o que sobra de comida nessa época do ano não tá no gibi, e como além disso todo italiano é meio xenófobo alimentar, tenho medo deles não gostarem e todos os meus preciosos ingredientes tupiniquins irem pro lixo…

famiglia

Hoje de manhã cedo, dormindo, morreu o pai do Chefe. Não era um exemplo de honestidade ou de educação, e todo mundo aqui dentro em algum momento já pensou seriamente em sair da empresa por causa da chatura dele, mas no bojo sempre nos tratou bem (principalmente depois do almoço – leia-se vinho tinto) e a morte dele abalou todo mundo. Estamos aqui no escritório ligando pra clientes e fornecedores pra comunicar o ocorrido, e depois fechamos.

Nunca tive, felizmente, um contato íntimo com a morte dentro da minha família. A única vez em que fui a um funeral foi o da minha amiga e vizinha Bruna, que morava no prédio da minha prima Erica. Morreu num acidente de carro idiota, na Gávea. Lembro que a ficha demorou muito a cair quando a Erica me ligou pra dar a notícia, e foi a mesma coisa hoje: Martinha me liga logo cedo, eu ainda de pijama, fazendo a cama, e eu achei que ela estivesse ligando pra avisar que não vinha trabalhar por causa da enxaqueca. Quando ela disse o que tinha acontecido, caí sentada na cama e fiquei repetindo feito uma idiota: mas como assim, morreu? Ahn?

A família do meu pai é formada por Matusaléns que não morrem nunca. Do lado da minha mãe é uma tumoração só, neguinho morre de tudo que é tumor que você puder imaginar (então já sei o que me espera…), mas nós temos muito menos contato com essa parte da família, então nem lembro quem foi o último que morreu. Meu avô, pai da minha mãe, morreu há muitos anos (sempre câncer, claro). Eu era pequena e lembro só de uma tristeza danada em casa, e de ver meu pai chorando, como também chorou quando morreu a Tia Maroca, irmã da minha avó, também quando eu era pequena. Tenho muitas boas memórias dos dois, mas eu era pequena demais pra entender direito o que estava acontecendo.

Então, eu nunca tinha visto de perto a coisa como ela é. Fomos direto pra casa do Chefe; a irmã, que estava pra casar (e o pai não aprovava a coisa porque o noivo é do norte da Itália, tem uma agência de turismo e vive viajando, não pára em casa. A opinião nossa aqui no escritório é que agora o casamento não sai mais), completamente desolada; o Chefe, um homão alto e grande, chorando feito uma criança, e é isso o que mais sacode a gente. Anzi: o que mais sacode é a burocracia envolvida. O cara da agência funerária (aliás, que emprego é esse, hein? Socorro…) já estava lá, escrevendo o texto dos cartazes de anúncio de óbito e marcando com uma cruzinha num formulário as cidadezinhas onde os cartazes vão ser colados. Uma coisa muito estranha; todo mundo devastado de dor mas mesmo assim um vira pro outro pra perguntar, mas ele conhecia alguém em Palazzo? Não? Então em Palazzo não precisa botar cartaz. Mas em Viole sim? Viole sim. Rivotorto com certeza, né, tio?

E aí vem o padre.

Eu só digo uma coisa: o idiota que mandar um padre pro meu futuro funeral, ou mandar rezar qualquer coisa, ou puser uma cruz ou um anjo ou uma N. Senhora no meu túmulo, ou distribuir santinhos com o meu nome escrito atrás, mas esse idiota vai ter as pernas puxadas de noite pela minha fantasmagórica e esbelta figura até o fim dos dias.

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Há muito tempo eu quero colocar aqui uma foto da minha avó, mãe do meu pai, que morreu quando ele tinha 13 anos. É a pessoa que eu mais gostaria de ter conhecido em todo o mundo. Era muito bonita, culta e refinada, era professora de piano, e pelo que dizem também era uma mulher “prafrentex”, e acho que nossa família talvez tivesse tomado outro rumo se ela não tivesse morrido tão cedo, deixando meu soturno avô com 5 filhos pra criar. Oficialmente morreu de câncer de mama (opa!), mas eu acho que a melancolia teve muito a ver com a história. A teoria da minha mãe é que eu herdei da minha avó Dirce (QUE NOME É ESSEEEEEEEEEEEEE), além do sorriso que eu nunca vi porque não há nenhuma foto dela sorrindo, essa tendência à depressão. Pode ser, pode ser.

Quando o meu pai fizer o favor de escanear a foto dela que há ANOS ele promete e não escaneia, eu boto aqui, e vocês vão ver que avó danada de chique que eu (não) tive…

Meu avo é apaixonado por ela até hoje. Na sala do apartamento dele, na Tijuca, onde ele mora com a minha tia que nunca casou (e que tem também o sorriso da Vovó; meus tios me chamam de Ilsinha porque quando sorrimos eu e T. Ilse nos parecemos muito), há na parede um quadro do meu bisavô sírio, vestido a caráter e muito sério e macho, e um da minha avó. Vovô só se senta à mesa numa posição em que ele possa ver o quadro.

Minha outra avó, com quem morei no final da faculdade, não tem nada de chique, mas é a clássica avó hipocondríaca, totalmente saudável e boa de cozinha e de garfo. Mês passado deu um susto na gente com uma hérnia intestinal maluca que precisou ser operada – e olha que maravilha, quem operou foi uma feladaputa que foi minha professora de Cirurgia na faculdade, e que me deu um esporro homérico uma vez porque apresentei um seminário sentada na escrivaninha dela hohoho… Até onde eu sei ela é uma boa profissional, mas a fama de sapatona antipática que ela tinha no hospital era bem, digamos, intensa. Não entendo essa gente que prefere se impor pelo ódio/medo em vez de pelo respeito adquirido. Deve dar tanto trabalho ser filha da puta e antipática o tempo todo!