Enquanto isso…
… os argentinos ainda acham que homem de cabelo comprido é lindo. Socorro.
Me dá o Giani da squadra azzurra de vôlei que eu fico contente.
Enquanto isso…
… os argentinos ainda acham que homem de cabelo comprido é lindo. Socorro.
Me dá o Giani da squadra azzurra de vôlei que eu fico contente.
Por que será que as jogadoras da seleção cubana de vôlei são tão, mas tão asquerosas e arrogantes? Os outros atletas cubanos não são assim, pelo menos pelo que eu andei observando. Mas essas meninas do vôlei são O-DI-O-SAS! As gerações mudam, mas parece que pra entrar na seleção cubana é pré-requisito ser detestável, porque esse nojo é uma característica do time desde que eu me entendo por gente. Conseguem irritar simplesmente TODOS os times que jogam contra elas! Jogam muitíssimo bem, per carità, mas acho que grande parte da vantagem que elas têm sobre as adversárias, principalmente as mais esquentadas como as italianas, vem do fato que a irritação que elas causam no outro time é tão desconcertante que acaba ficando difícil jogar direito. A adrenalina vence.
Que coisa feia.
Adivinhem o produto anunciado.
. Um casal chique está à beira de uma piscina coberta chiquérrima. O marido, de robe de seda, careca, óculos escuros, fica se olhando num espelho. A mulher, de robe de seda, óculos escuros, cabelos nos trinques, olha pro marido pedindo um chamego, mas ele nem tchum, ocupado que está em se olhar no espelho. A mulher dá uma bufada de resignação e sai da área da piscina. Corta pra paisagem externa: vê-se a mulher correndo esvoaçante na direção de um tipo de armazém, totalmente barn mesmo, totalmente nada a ver. Lá dentro há um suposto empregado da fazenda, ajeitando uns rolos de feno num canto. É um lourinho com cara de capiau. A mulher tira o robe e fica só de lingerie. O capiau arregala os zoio e tira um preservativo do bolso do macacão. Quando ele vai abrir o preservativo com a boca (olha o mau exemplo), sente uma dor de dente horrível e solta um grito de dor. O marido careca vem correndo e pega os dois naquela situação ridícula. Entra o slogan, enquanto o capiau faz o gesto de “não” com uma mão e aperta uma bochecha com a outra.
. Um homem em roupas esportivas passeia na Broadway à noite. Ele dá uma tacada numa bola de golfe, e a bolada quebra a Lua em duas (sim, é isso mesmo). Do outro lado do mundo, uma mulher desconhecida, de vestido branco decotado cola as metades da Lua. Depois toma uma flute de champagne.
. Esse eu já mencionei aqui, mas como voltou a passar e conseqüentemente voltou a fazer-me rir, vou dar o slogan de novo:
[voz sensual de mulher] Para você e para os seus amigos.
Respostas:
. Chiclete de xilitol, teoricamente contra cáries.
. Colla Americana (don’t ask).
. Uma bebida com gás à base de cedro, de cor amarelo-radioativo e gosto mais ou menos como o do Sprite. Vem numas garrafinhas em six-pack, sem rótulo, sem nada escrito na chapinha.
. Alguém sabe onde eu posso achar vídeos das apresentações da Daiane? Por aqui acho que não passou, e se na França passou, eu tava fazendo coisa melhor do que assistir à TV, né.
. Quanto atleta brasileiro desconhecido pra mim! Gostei daquele menino do salto do trampolim, Cesar sei lá o quê. Foi muito elogiado pelo narrador da RAI, pela sua elegância. Acho que é a primeira vez que eu vejo “brasileiro” e “elegante” juntos, e fazendo sentido. Porque, convenhamos, a Luiza Brunet é elegante, mas quando abre a boca o mundo cai sobre as nossas cabeças.
. Adoro esgrima.
. O que era aquela japonesa que quase ganhou a maratona, que correu o tempo todo abanando os bracinhos?
Voltei!
Hoje ou amanha escrevo e boto fotos. Quando der vontade.
Voltei!
Hoje ou amanha escrevo e boto fotos. Quando der vontade.
Resolvemos ir ver La Défence, uma espécie de núcleo executivo todo moderno, com um arco quadradão e modernoso, exatamente na mesma linha do Arco do Triunfo. Alessandro já tinha estado lá e falou que era bem bonito, tem uma loja gigante da Fnac, tem um telão pro pessoal ver as Olimpíadas, vale a pena ver, então resolvemos ir dar uma olhada. Descemos na estação de Charles de Gaule Étoile, vimos o Arco do Triunfo, e em vez de caminhar na direção dos Champs Elysées, seguimos pela Avenue de la Grande Armée. Levamos séculos pra chegar a La Défence, primeiro porque é longe pacas e segundo por causa da minha mancação. Mas chegamos.

É um lugar lindo, os prédios comerciais altíssimos revestidos de vidro espelhado, mas nada de cafonice. Jardins agradáveis, espelhos dágua (e cachorros nadando neles), restaurantes pra atender o pessoal que trabalha por lá, e lá na praça principal, onde ficam o pavilhão que abriga a Fnac, o shopping center e a estação de metrô e trem, vimos o tal telão e um bando de desocupados assistindo a uma competição qualquer dos Jogos. Como já tava na hora do almoço, fomos catar um lugar pra comer. Entramos no Panamé, se não me engano, de decoração digamos antiquada mas menu interessante. Comi um filé de atum grelhado com batatas fritas picantes, Mirco foi de entrecôte com batatas ao forno. A pizza dos nossos vizinhos de mesa parecia gostosinha, mas era pequena e custava 11 euros, uma afronta! Pagando o mesmo comemos nossas carninhas gostosas, e enquanto degustávamos as batatas desabou um toró lá fora. Uma quantidade de água caindo que eu nunca vi igual. Imagino que as chuvas no Pará sejam assim, estilo opa, a caixa-dágua virou. O pessoal correndo que nem louco, se escondendo onde podia, mas não tinha muita escondeção porque praça é praça, né, as poucas árvores eram jovens ainda e baixas, além do que ficar embaixo de árvore durante tempestade é a maior roubada, vocês sabem. O restaurante é todo de vidro, então a gente almoçou assistindo ao pessoal se encolhendo debaixo da marquise, bundas amassadas contra o vidro bem do seu lado enquanto você come sua sobremesa. Em cinco minutos acabou tudo e todos os desocupados voltaram aos banquinhos de frente ao telão.




Nós fomos dar umas voltas no shopping center, Mirco comprou umas calças jeans e uns suéteres e um par de tênis, e fomos nos juntar aos desocupados. Quando nos sentamos estavam mostrando uma competição de tiro com arco, muito legal. Quando mudaram pra ciclismo indoors, o Mirco começou a sentir sono e foi deitar na mureta da praça, como um mendigo. Eu fiquei lá, sentada no meio daqueles machos todos, atrás de um cabeludo com cara de sujo. Depois do ciclismo veio o judô, com lutas lindas, depois várias disputas de esgrima, e quando um Francês levou uma espadada inesperada o pessoal fez oooooooooooooh e o Mirco acordou. Pegamos o metrô e fomos direto ao supermercado, onde encontramos o Alessandro. Compramos linguiça e creme de leite pra fazer penne alla Norcina, mas não tinha mais penne e acabamos indo de farfalle mesmo. Meio quilo de macarrão De Cecco, que aqui custa uns 80 centavos, lá custa o dobro. Mesmo a massa Barilla, que custa um pouco menos, era cara. Mas era hora de ir pro albergue cozinhar, senão logo ocupavam as únicas duas bocas funcionantes do fogão (no comment) e a gente ficaria chupando o dedo.
Aí começaram as heresias gastronômicas. Na boa, eu acho muito triste alguém não saber cozinhar NADA, mas se você não cozinha NADA, em vez de ir ao supermercado comprar verduras e carne e arroz que você NÃO SABE cozinhar, não é mais fácil comprar um prato pronto que é só esquentar no microondas? Não, jacaré. Ouvimos de tudo nessa noite. O Mirco com a água fervendo e as farfalle nadando lá dentro, chega uma criatura que não sei de onde era, uma mulher com seus 30 anos, e pergunta se ela não podia aproveitar e cozinhar os spaghetti junto, já que o tempo de cozimento era o mesmo. Quando o Mirco perguntou como ela pretendia separar as massas na hora de comer, ela não respondeu. Depois ela perguntou a mim se na água do cozimento o molho já estava misturado. Não é de dar pena? Tudo bem você não ter a mais remota idéia de como se faz um molho, mas bastaria olhar dentro da panela e ver a água incolor pra perceber que não há nada lá dentro além do próprio macarrão que está cozinhando.
Duas mongas francesas, mas de origem claramente magrebina, esquentavam óleo numa frigideira. Muuuito antes do óleo atingir a temperatura certa elas jogaram imensos pedaços de batata crua na frigideira. Perguntei o que elas achavam que estavam fazendo; a resposta, inevitável: batata frita. Aham, respondi. Olha só, fritura tem que ser coisa rápida, o óleo tem que estar bem quente, e os pedaços têm que ser pequenos, senão em vez de fritar eles vão cozinhar no óleo, coisa bem diferente (e bem mais nojenta). Ou vocês cortam as batatas em formato palito ou, se quiserem fazer batata corada, deixam em pedaços maiores, dão uma cozidinha no microondas rapidinho, e depois fritam muito rapidamente. Sacaram? Sim, sim. Mirco precisava da boca do fogão que elas estavam ocupando com a frigideira pra fazer o molho, e perguntou se elas não queriam jantar com a gente e esquecer as batatas, que a essa altura já tinham absorvido mais óleo do que o Zeca Pagodinho absorve cerveja. Elas concordaram e tiraram a frigideira do fogo, e resolveram seguir meus conselhos e jogar fora as já nojentíssimas batatas gordurosas. Diretamente da frigideira quente pro saco plástico, êeeeeeee, derreteu tudo, e elas não entendiam o porquê. Ficaram assistindo ao Mirco cozinhando e ele, percebendo o nível de imbecilidade das duas, perguntou se elas comiam linguiça. Não, somos vegetarianas! Caralhos estampados, você está vendo o Alessandro desmanchar quatro linguiças na panela, custa dizer olha, a gente não come carne? Se o Mirco não tivesse perguntado elas teriam ficado sem jantar. Odeio gente idiota, odeio, odeio. E a coisa ainda piorou: depois de picar as batatas restantes em pedaços microscópicos e cozinhá-los no microondas por tempo demais, e mesmo depois de já terem decidido que jantavam com a gente, e mesmo depois do óleo da frigideira já estar frio, elas jogaram essas batatinhas pequenas e cozidas no óleo. Tipo assim, já fica pronto pra fritar amanhã no jantar.
O alemão (as austríacas já tinham ido embora), John, um mexicano, as gêmeas brasileiras e a mãe delas jantaram com a gente. Foi muito legal, rimos pra caramba, contamos altas histórias. Dormir em albergue é SEMPRE desconfortável, mas esses encontros bizarros só acontecem em albergue, não tem jeito. Onde mais você encontraria um meio-rasta que faz colares de conchas? Onde mais você encontraria uma mula que acha que o molho já vem com a água do macarrão? Onde mais você entraria no seu quarto pra dormir e encontraria um casal de indianos suíços sorridentes, que olham pra você e começam a falar em Francês numa velocidade impressionante? Na verdade ele estava dizendo que tinha queimado a lâmpada do banheiro e se a gente quisesse tomar banho ele emprestava a lanterna. Fica pra amanhã, queridos.

Hoje é o aniversário da minha avó.
Saímos uma meia hora mais cedo do albergue e fomos diretamente ao Louvre. Nem vou falar nada porque realmente não há o que dizer. Rodamos muito, entramos na muvuca pra ver a Mona Lisa, e mais tarde saímos do museu pra catar um lugar pra almoçar. Fomos cair num lugarzinho chamado Le Pelican. Eu tava com vontade de comer crêpe salgado ou então uma quiche de qualquer coisa, e no quadro-negro com os pratos do dia e especialidades da casa havia boas opções tanto de quiche quanto de crêpe, e sentamos, apesar de não parecer lá muito limpinho. Só uma senhora loura e sorridente, enfiada numa jaquetinha cinturada completamente fora de moda, com mangas bufantes, atendia. Botava a mesa, tirava a mesa, pegava os pedidos, trazia os pedidos, fazia a conta, pegava o dinheiro, dava o troco. Sem perder a classe, jamé. Só que nessa lerdeza levamos horas pra comer e no final das contas não tinha nem a crêpe que eu queria, nem a quiche pela qual eu tinha me interessado, e acabei comendo outra coisa. Mirco foi de omelete mesmo, que é mais seguro.
Uma coisa legal de Paris, e, dizem, da França em geral, é que ninguém fica te enchendo ou fuzilando com o olhar ou dando indiretas pra você sair do restaurante. Se você não pedir a conta, ninguém te traz. Ninguém te expulsa. Você tem toda a calma do mundo pra comer e bater papo. Estranhamente, na Itália não é assim. Digo estranhamente porque o culto à comida aqui é quase uma religião, a cozinha é uma coisa levada muito, muito a sério, e o italiano adora papear, então realmente não entendo por que qualquer refeição em qualquer restaurante aqui dura pouquíssimo. Os pratos vêm voando, mesmo quando tudo é preparado na hora; a conta vem assim que os pratos vazios são retirados, e se você insiste em ficar sentado à mesa logo vem aquela sensação de mal-estar, de estar atrapalhando, ocupando a mesa de quem quer sentar.
Um casal sentado ao nosso lado, numa mesa minúscula como a nossa (outro motivo de reclamação do Mirco, as mesas microscópicas), puxou papo. A senhora era filha de italianos e falava muito bem a língua. O marido arranhava algumas palavras, aprendidas de tanto ouvir os sogros falando alto em italiano :) Foram muito gentis, mas nos deixaram em paz quando chegaram os crêpes de Nutella (que, aliás, poderiam perfeitamente ter sido a base da minha alimentação durante toda essa semana, se não fosse o meu bom senso) e foram embora.
Nós voltamos ao Louvre e terminamos de ver o que faltava. CLARO que eu sei que pra admirar direito tudo o que há lá dentro são necessários vários dias. Mas lembrem-se de que eu NÃO PODIA PARAR EM PÉ, pra admirar nada. Vimos TODAS as salas de TODOS os setores, andares, departamentos, mas tudo correndo, porque senão o sangue descia ao tornozelo direito, não conseguia mais subir por causa do edema, e a dor era verdadeiramente lancinante. Deixo aqui fotos das estátuas de Aníbal e de Júlio Cesar, colocados lado a lado, de um cabeção da Ilha de Páscoa, e de um tríptico medieval muito bonito.


Quando finalmente eu pedi arrego, botamos a carinha pra fora do museu e tava chovendo MOOOITO. Todo mundo parado ali embaixo da entrada esperando a chuva passar pra atravessar a rua e pegar o metrô. Ainda passamos no supermercado antes de voltar pro albergue. Dei uma descansada com os pés pra cima, tomei meu banho complicado e descemos pra jantar.
Ontem o Mirco teve piedade de uns espanhóis que cozinharam o macarrão por meia hora e acabaram comendo uma coisa desforme com pseudomolho de tomate, e convidou os meninos pra jantar com a gente. Só que eles deram o bolo e acabamos oferecendo a pasta que sobrou ao John, americano de 20 anos que estava rodando pela Europa há algumas semanas sem dinheiro nenhum. Ele tinha comprado um pacote de macarrão e uma lata de molho, que deveriam durar a semana inteira. O cara é uma figura, como vocês podem ver. Foi a primeira vez que eu conheci um semi-rasta. Ele explicou que foi um amigo dele quem fez os dreadlocks, levando quatro horas pra fazer metade da cabeça, enquanto ele levou duas horas pra fazer a cabeça inteira do amigo. Mas por que MEIA cabeça? Ele disse que seus dreads eram de inspiração celta (???), que os celtas misturavam mechas normais de cabelo com dreadlocks e trancinhas, mas ele achava muito confuso e resolveu organizar melhor a coisa, por isso fez só meia cabeça. Então tá. Ele pinta, num estilo confuso que eu não entendi direito como é, e disse que tem intenção de ir morar em Praga, porque ele é completamente anti-americano e quer morar na Europa, onde há um melhor relacionamento com a arte. Como Praga é a única capital européia que ainda é economicamente viável pra quem não tem um tostão, como ele, foi a cidade que ele escolheu. In bocca al lupo, John.
Conversamos também com um alemão de língua presa e duas meninas austríacas muito bonitas, e conhecemos duas gêmeas de Florianópolis que estavam passeando na Europa com a mãe, tão simpática quanto elas duas. Marcamos um jantarzão coletivo pra amanhã.
(Na foto vê-se uma sacola cheia de conchinhas, que o John estava tentando furar com aquela tesoura, pra fazer um colar. O Mirco está com os óculos fundo de garrafa do John.)
Queríamos ver o mercado de rua no Jardin des Plantes, na Rue Mouffetard. Descemos na estação Monge e voilà!, provavelmente o mercado também estava de férias, como, aliás, metade das lojas de Paris, porque não tinha nada. Fomos andando, andando, andando, eu mancando, mancando, mancando, e fomos parar no Quartier Latin. Entre os bairros de Jardin des Plantes e Quartier Latin fica o Institut du Monde Arabe (1 rue des Fossés-Saint-Bernard – Place Mohammed V), que eu nem sabia que existia mas o Mirco já conhecia, pelo menos de fora, e tinha passado a manhã toda martelando meus ouvidos pra gente ir ver de perto.
Olha, é inacreditável. Simplesmente um dos edifícios mais lindos que eu já vi na minha vida e olha que eu não sou muito chegada a coisas modernosas. A fachada sul é formada por 1600 painéis de metal de alta tecnologia, que filtram a luz que entra no prédio. São inspirados nos moucharabiyahs, telas de madeira entalhada que se usam no exterior de edifícios desde o Marrocos até o sudeste asiático (fonte: Le Guide Mondadori Parigi). O acervo do museu também é lindo, com peças interessantíssimas de todo o mundo árabe. Meu pai e meu avô teriam crises histéricas lá dentro (meu bisavô era sírio).


Saindo dali fomos dar umas voltas. O tempo estava legal, mas soprava um vento estranho. Atravessamos a Ile-St-Louis, ali do lado, onde ouvi um Tico-Tico no Fubá tocado no violino por um velhinho numa ponte, e a Ile de la Cité, passamos pela Pont Neuf e caímos em Saint-Germain-des-Près.


É um bairro muito legal, cheio de lojas fofas e livrarias maneiras, felizmente todas fechadas porque senão teria sido uma frustração só, já que não tenho um tostão pra gastar. Acabamos almoçando por lá mesmo, num restaurantezinho bonitinho chamado Séraphin (5 rue Mabillon), cujo único defeito era a insuportável música dominicana tocando sem parar. Novamente levamos horas pra achar algo decente no menu. Eu fui de salada com filé de frango, que veio linda no prato, estilo morrinho, com tiras de peito de frango estendidas no sentido da altura. Claro que já veio cheia de molhos estranhos. Pra mim, que só como salada sem nada, nem azeite, nem sal, foi meio suplício, mas comi tudo. Mirco pediu umas coisas que nem eu lembro, e que não mataram sua fome mas deram pro gasto. Estávamos cansados de tanto bater perna e pensamos em ir ao cinema, mas o Mirco tava morrendo de sono e queria ir dormir num banco de praça. Só que lá pro final do almoço desabou um toró horroroso, e achamos melhor voltar pro albergue. No caminho paramos pra ver a igreja de Saint-Germain-des-Près, a mais antiga de Paris, e bem do jeito que eu gosto: velhona por fora e pelada por dentro (foto acima). Tivemos que nos abrigar debaixo da marquise de uma banca de jornal pra esperar a chuva passar, depois pegamos o metrô e voltamos. Eu tomei meu banho e fui dar uma descansada com o pé pra cima; Mirco e Alessandro foram ao supermercado comprar cerveja e coisas pro jantar. O Miguel, aquele cardiologista argentino que tínhamos conhecido dois dias antes, tinha combinado de voltar do trabalho às nove da noite e de jantar com a gente, e foi pontualíssimo. Depois de comer ficamos batendo papo até tarde da noite. Foi muito agradável, ele é um cara muito educado e interessante, e o Alessandro também é gente boa. Pena que o Miguel vai embora amanhã.

Quando acordamos o vento uivava lá fora e o céu estava preto, preto. Meu pé doía muito, e por isso resolvemos começar o dia com um programa light: um passeio de ônibus de duas horas, passando pelos principais pontos turísticos de Paris.
E é hora de um aparte: olha, Paris é linda, é culta, é sofisticada, é linda e maravilhosa. O metrô cobre bem a cidade inteira, o tempo de espera é sempre mínimo, os mapas são bem claros e é impossível se perder. Mas PUTA QUE PARIU, UMA ESCADA ROLANTEZINHA DE VEZ EM QUANDO IA BEM, HEIN? De TODAS as estações onde saímos, entramos ou fizemos baldeação, só duas tinham escada rolante, e mesmo assim só até a metade do caminho. As que abrigam mais de uma linha, além das escadas, oferecem quilômetros e mais quilômetros de caminhada. Na boa: como é que faz o aleijado, o acidentado como eu, o velho, o mochileiro, a mulher com sapato desconfortável, o cego, a mãe com o carrinho do bebê, o exausto, o que fez compras, como é que esse povo faz pra se locomover? Numa cidade italiana eu até entendo, afinal a Itália é primeiro mundo e meio, mas pô, em Paris, a cidade mais visitada do mundo, famosa pela sua “vivibilidade”, não tem o menor sentido. Sofri como uma condenada, manquei muito por todos aqueles corredores pra mudar de linha, penei com todas aquelas escadas. Mó bola fora. Esse desconforto e os altos preços foram as únicas coisas que odiamos em Paris, de verdade.
Mas então, descemos na estação de Pyramides e fomos direto à Cityrama, agência que organiza vários passeios de ônibus, inclusive pra fora de Paris, no esquema excursão pra velhinho, sabe com almoço incluído e coisa e tal. Compramos nossos bilhetes e entramos logo no ônibus, que por sorte saía dali a dez minutos. Botei o headphone nas zoreia e fiquei escutando as explicações em italiano. Mirco dormiu durante a primeira hora do passeio, mas acordou quando passávamos em frente à Torre. Chovia horrores mas o passeio foi ótimo; é bem legal pra quem quer ter uma idéia básica da cidade, uma noção básica de orientação. Chato mesmo é o preço: 24 por pessoa. Ui.
Quando termina o passeio, você pode descer perto do Opéra ou em frente à agência, onde você pegou o ônibus. Descemos no Opéra mas logo tivemos que voltar correndo porque o Mirco tinha deixado a máquina fotográfica dentro do ônibus, e a mulinha da agência me disse, no telefone, que não podia fazer nada porque só tinha ela e outra pessoa na agência àquela hora. Vejam bem: o ônibus estaciona EXATAMENTE em frente à loja. Bastaria a mulinha acenar pro motorista pra ele descer, atravessar a calçada e entrar na agência pra saber o que tava pegando. Mas não, Mustafá, eu fui mancando devagar e o Mirco correndo feito um doido varrido no meio da rua pra chegar ao ônibus antes dele sair de novo, só porque a mulinha não queria abanar os bracinhos pra chamar o motorista. Mas tudo bem, a chuva parou e fomos procurar um lugar pra almoçar.
Aqui começou o problema: eu até acredito que se coma muito bem em Paris, mas nós tivemos uma certa dificuldade. Nesse dia caímos numa armadilha pra turista porque começou a chover de novo e eu, de sandália porque não conseguia usar sapato fechado, tava tremendo de frio, com os pés molhados. Não tinha como escolher; entramos no primeiro restaurante que vimos, que obviamente era uma merda, e obviamente era caríssimo. O problema todo é que o Mirco, como todo italiano, é um porre pra comer. Eu como poucas coisas, mas as coisas das quais gosto eu como até quando são mal preparadas. O Mirco não. Fora que o italiano gosta de comida simples carne grelhada, massa com pouco molho, nada de cremes mirabolantes. Ou seja, nada de comida francesa. Eu tive graves problemas com a maionese nessa viagem. Porque eu ODEIO maionese. Como acontece com o vinagre e com o chá, só o cheiro da maionese já é suficiente pra me dar ânsia de vômito. E TUDO em Paris tem maionese, até um reles sanduíche de presunto com queijo. Mas tudo bem, fingimos que comemos bem pagando pouco e aproveitamos que a chuva parou de novo e o tempo deu a impressão de que iria firmar pra ir finalmente à Ile de la Cité.
Começamos pela Sainte Chapelle, cujas fotos no guia pareciam lindíssimas. Uma fila imensa. Até aí tudo bem, turista nasceu pra camelar, mesmo sendo complicado pra mim vocês já entenderam, o pé dói horrivelmente quando eu fico em pé parada. Mas quando vimos que cobravam ingresso, aaaah não, darlings, eu não dou um centavo a nenhuma instituição religiosa, nunca, jamé digamos que vai contra a minha religião, hohoho ;) Então caminhamos até a Notre-Dame. Que é UM DESBUNDE. E quanto brasileiro! Reconheci vários sotaques, muitos mineiros e alguns paulistas, e uma horripilante família de sotaque nordestino com as roupas mais hediondas que vocês podem imaginar. Claro que não subimos pra ver as gárgulas porque, novamente, cobravam ingresso.


Comemos um crêpe (aliás, crêpe é feminino ou masculino? Não reparei. Mula.) de Nutella ali perto, comprei o básico chaveirinho da torre pra chave do scooter, e fomos à Conciergerie. Basicamente é o lugar onde os condenados à guilhotina esperavam a hora H. Maria Antonieta ficou hospedada lá por uns tempos, tadinha. Há coisas interessantes pra ver, mas não sei se valem os 6,10 do ingresso. O melhor foi na hora de sair: no guestbook, no alto da página na qual assinamos, algum italiano tinha deixado escrito: “Ma quanto è cara Parigi?!”
A essa altura do campeonato eu já não me aguentava mais em pé, de verdade. O tornozelo inchado e vermelho, com dois sulcos feitos pelas tiras da sandália. Bem pimba mesmo. A chuva tinha parado de vez e resolvemos voltar pro albergue, até porque tínhamos combinado de ir jantar na Flabb e ainda queríamos passar no supermercado pra comprar um vinhozinho. Tomei banho, dormi um pouquinho, peguei nossa sacola de secos e molhados (que continha um quilo de penne Spigadoro, cuja fábrica fica aqui pertinho, em Bastia, e que pertence ao avô de uma ex-namorada do Mirco; duas abobrinhas da horta da Arianna; salmão em lata; uma garrafa de Chardonnay) e saímos. Pra chegar até a Flabb mudamos de linha duas vezes e obviamente nos perdemos quando saímos da estação final, tendo que ligar pra ela, mas chegamos. Flabb acenando da janela feito uma louca e nós dois na rua, eu mancando e o Mirco repetindo “que coisa estranha encontrar uma amiga que você não conhece. Que coisa estranha você TER uma amiga que não conhece.”
Vou logo dizendo que o bairro onde ela mora é um docinho, o prédio é uma gracinha, adorei o interno azul do edifício, não gostei de ter que subir até o quarto andar de escada mas só porque estava manca, normalmente não tenho nada contra escadas. O apartamento dela é lindinho, arrumadinho, a cozinha é mínima mas espertamente aproveitada, esquecemos o macarrão no fogo enquanto batíamos papo na sala e tivemos que jogar fora (cof cof cof) e recomeçar porque o Mirco se recusa a comer massa scotta (cozida demais), ela desencavou um copo de requeijão Poços de Caldas light pra botar no macarrão, fofocamos muito, rimos, adorei a Flabb, com certeza a gente teria se conhecido de alguma maneira se tivéssemos ficado no Rio porque ela é exatamente o tipo de amiga que eu prefiro: esperta mas não cruel (de cruel já basta eu, né, por favor), boazinha mas não chata, engraçada, gosta de comer e ler, e a mãe dela tem cachorros lindos! Dei de presente pra ela um livro que eu tô querendo ler há séculos mas não tinha comprado na Itália porque não conseguia descobrir qual era a língua original. Agora já sei, é Francês, por isso vou ter que comprar a tradução mesmo. Em Português chama-se Queimada Viva e foi escrito por uma muçulmana que, claro, foi queimada pelos familiares porque fez alguma coisa que o Corão não aprovava pediu o divórcio, acho. Vi a entrevista dessa mulher na TV há algum tempo e me interessei pela história. A Flabb me deu Autograph Man, o segundo livro da Zadie Smith (falarei dele mais tarde).
A sobremesa foi petit gateaux com um sorvete de baunilha que era uma coisa de louco. Infelizmente o vinho deixou o Mirco com sono, e eu também estava exausta e com o pé gigantesco de tão inchado, e e achamos melhor picar a mula. Fomos de táxi porque realmente não dava, crianças. Foi deitar a cabeça no travesseiro e chapar.
Ah, não tem foto do encontro porque eu sou a pessoa menos fotogênica do mundo e saí horripilante.
p.s.: Fotos feitas dentro de Notre-Dame. Reparem na última linha do cartaz que pede exorbitantes dois euros por cada velinha (detalhe que UM QUILO dessas velas, na IKEA, custa pouco mais de um euro, se não me engano): Foreign money accepted. Depois neguinho acha que eu sou radical quando digo que a Igreja Católica é simplesmente uma multinacional muito, mas muito bem sucedida. Que nojo, nojo, nojo, nojo.
