Comendo clementine (tangerinas pequenas, sem caroço e deliciosas) enquanto verso coisas chatas de Português de Portugal ao Inglês. Lá fora a neblina é pesadíssima; não se vê nada, só uma nuvem branca gigante blanketing everything. Ótima escolha, os cravos; ao contrário das pobres dálias-anãs, que não conseguem dar flor de jeito nenhum com toda essa água que cai há meses, os cravos são plantas resistentes e que não se abalam nem com o excesso de chuva, nem com a neblina fria, nem com o vento forte. Suas flores estão todas lá, abertas ou abrindo, brancas, rosa-escuro, vermelhas. Ainda é cedo pra plantar os bulbos de tulipa que a cunhada mandou pelo correio; o frio ainda não chegou e a terra dos vasos ainda está encharcada. Minhas plantas de peperoncino continuam dando grandes pimentas, curvas como sabres, que ainda estão verdes demais pra ser colhidas. Ontem Arianna me deu de presente um buquê de peperoncino, lindo – depois tiro uma foto.

A casa inteira cheira a tangerina.

potocas

Então.

A Itália não vê um outubro tão quente há 150 anos. Trinta graus em Palermo ontem. Em torno dos 20 aqui. Neblina de manhã, mormaço ao meio-dia, abafação à tarde. O único inconveniente são moscas, mosquitos e percevejos suicidas. Quem dera fosse assim o ano todo…

Ontem fui a uma entrevista de emprego. Começo a dar aulas de Inglês e Português semana que vem. Ficaram impressionadíssimos com o meu currículo, com o meu B no Proficiency, com o meu italiano flawless. O aluno de Inglês é um médico de Perugia.

Pra comemorar, fomos jantar no Bistrot. Não íamos lá há muito tempo; mudou tudo, da decoração ao menu. Nossos pratos preferidos sumiram e o menu ficou menos fácil de entender e menos agradável ao olhar, mas há novidades interessantes. Eu aceitei a sugestão do dia do garçom e de antipasto caldo fui de strudel de brócolis com cebola de Cannara caramelizada, numa poça de fondue de parmesão com pimenta-do-reino moída na hora. Mirco foi de tortellini com recheio de hortelã e molho de tomates-cereja frescos e manjericão. Depois atacamos o já nosso velho conhecido filé de Angus (boa carne argentina), acompanhado de uma ma-ra-vi-lho-sa tortinha de batata. Pãezinhos massudos deliciosos. Vinho do Alto Adige anêmico, não valeu os 14 euros. Os garçons de rabo-de-cavalo sumiram. E nós que brincávamos que era pré-requisito ter rabo-de-cavalo pra trabalhar lá. Vi minha ex-professora de step jantando com uma amiga. A dona do restaurante é meio maluca e SEMPRE sugere tartar aos clientes conhecidos porque ela prepara na hora, numa mesinha ao lado da tua, e faz um barulho danado batendo a carne crua com os temperos na tigela de vidro. Vai gostar de aparecer assim na China.

Esse post ficou bem no estilo Marina W. Cujo livro, aliás, eu gostaria muito de ler. Hint hint.

Hoje tem Fratellão aqui em casa. FeRnanda, Fabião e a prima da FeRnanda, Valéria, que é uma gracinha.

Grandes possibilidades de uma viagem à Austrália ano que vem, via Dubai. Sugestões?

ainda os altos e baixos

. Os mil livros e roupas que eu amo e já tinha esquecido que tinha, e estavam lá, abandonados num canto do armário e num pedaço da estante.

. Ganhar malas novas e lindas da minha avó.

. O espetacular esquema de buzum com ar condicionado que leva até a estação de metrô da Siqueira Campos.

. A comida da minha avó.

. Rever o pessoal do curso de italiano: Riccardo (marido da Valéria), Serginho, Syrléa/Suely, Lulu de Luxemburgo, Valéria.

***

. Carregar malas pesadérrimas no trem de Roma pra Foligno.

. Ver minhas malas novas e lindas vindo pela esteira do Fiumicino completamente imundas e com as rodinhas já meio tortas.

. Não ter espaço na mala pra trazer todos os mil livros e roupas que eu amo e já tinha esquecido que tinha, e estavam lá, abandonados num canto do armário e num pedaço da estante.

Ainda Altos e Baixos

. Bater perna em Ipanema.

. Fazer compras ótimas e baratas com cheque pré na Animale do Bostafogo Praia Shopping.

. Comer muito pão de queijo, muito mesmo.

. Ver amigos do meu irmão de quem eu gosto muito: Bruno, Werther, Ferdinâncio, Carlos. Conhecer a Carol, espertíssima namorada do Werther, que desenha as capas dos CDs da banda.

(meu irmão, eu, Huňka, Mirco, e esse grande bem no foreground é o Brunão, gente boa bagaray.)

***

. Ter que abaixar a cabeça com medo de tiroteio na volta do aeroporto, por causa de uma blitz muito estranha bem em frente à favela da Maré.

. Constatar que algumas coisas não mudam nunca e por isso minha mãe continua sem internet em casa.

. As pessoas horrorosas nas ruas.

. Andar de ônibus.

Da série Altos e Baixos do Rio

. Experimentar abacaxi na feira e levá-lo pra casa descascadinho, pingando suco dentro do saco plástico.

. Os feirantes da Nossa Senhora da Paz mexendo com o Mirco: lindo, compra a minha jabuticaba! Lindão, compra manga aqui comigo, ó!

***

. O cheiro de mijo de mendigo na rua.

. Flanelinhas.

ai, meus sais…

Eu acho que nunca cheguei a comentar esse assunto aqui, mas a coisa anda passando dos limites. Como já disse muito bem dito o Allan, essa mania dos italianos acharem que tudo o que existe de bom no mundo é invenção deles, ainda mais se for comida, chega a ser engraçada.

Hoje ouvi na TV um especialista dizendo que, ao contrário do que se pensa, o Halloween não é uma tradição americana. Seria calabresa. Sim, crianças. O costume de esvaziar abóboras e iluminá-las por dentro teria sido inventado na Calabria.

Bom, depois que eles mesmos se convenceram de que as laranjas são originárias da Sicília e não do Oriente Médio, eu já não duvido de mais nada. Disso pra eles afirmarem que foi Colombo quem levou o tomate pro México, é um pulo.

passei!

Finalmente fiz a maldita prova prática de motorista, e peguei a bendita carteira. Olha como é bonitinha:

A manhã foi divertida, não posso me lamentar. Cheguei mais tarde, porque as provas começam cedo e eu era a última. Quando cheguei no estacionamento da Motorizzazione, encontrei a Linda, dona da auto-escola, e alguns dos alunos que estavam fazendo prova hoje. Dois já estavam com a carteira em mãos e outros três estavam fazendo a prova. Os outros 5 estavam nervosíssimos, principalmente o Federico, que eu já tinha conhecido mais ou menos na segunda-feira, quando fui atrás deles até Perugia pra aprender o percurso da prova prática. Simpático, bonitinho, expansivo, agitado – o clássico italiano. Pois então, o coitado do Federico passeava pra lá e pra cá, perguntava mil vezes como tinha sido a prova àqueles que já tinham passado, relembrava placas, fumava. Chegaram os outros três; um aprovado e dois reprovados. Pânico total. Chega um dos donos de auto-escola que eu conheci quando madruguei por lá pra entregar os documentos, e ficamos todos batendo papo e contando causos. O fiscal teve que ir ao escritório resolver não sei o quê e chegou uma hora depois, e nessa uma hora o pobre Federico deve ter envelhecido uns dez anos, de nervoso. O fiscal voltou, eu e Francesco, um outro aluno, entramos na Citroen Pluriel da auto-escola com outro Francesco, que se não me engano é parente da Linda, e o Federico saiu dirigindo a Fiat Fiesta da auto-escola, com a Linda no carona e o fiscal atrás. Ele fez tudo muito direitinho e quando acabou a prova saiu do carro dando pulinhos e socos no ar, com a carteira na mão, e ao entrar no carro exclamou “Bella mia, dammi un bacione!” e tascou-me um beijo na bochecha. Depois foi a vez do Francesco, que na segunda quase assassinou o carro na tentativa de estacionar numa ladeira, mas hoje se saiu bem e pegou a carteira. Depois fui eu; viemos batendo papo no carro sobre apartamentos, sobre o quanto é desagradável ter um angolo cottura no apartamento em vez de uma cozinha propriamente dita, sobre o preço do metro quadrado em Perugia, sobre uma menina que morreu de leucemia em Santa Maria há alguns anos e desde então os pais sempre colam cartazes com a foto dela em toda a província de Perugia no mês da morte da coitada da garota. Voltamos ao estacionamento da Motorizzazione, assinei o papel confirmando o recebimento da carteira, peguei a dita cuja, assinei e voltei pra casa ouvindo a trilha sonora de Pulp Fiction.

Vocês tão esperando o que pra ir lá ler o Serjones, que voltou à ativa?

E já foram dar os parabéns è Ane e ao Alfredo, que estão em dolce attesa?

E por que esses shows ótimos não chegam nunca aqui no interior de Madagascar? (Por falar nisso, a Nana, a.k.a. Merel, é outra que pode entrar pro clubinho Aquela Cachorra da Leticia Não me Ligou Quando Esteve no Rio. Foi mal, filhota querida!)

Vocês tão esperando o que pra ir lá ler o Serjones, que voltou à ativa?

E já foram dar os parabéns è Ane e ao Alfredo, que estão em dolce attesa?

E por que esses shows ótimos não chegam nunca aqui no interior de Madagascar? (Por falar nisso, a Nana, a.k.a. Merel, é outra que pode entrar pro clubinho Aquela Cachorra da Leticia Não me Ligou Quando Esteve no Rio. Foi mal, filhota querida!)