entonces…

Terminei How To Be Good, de Nick Hornby – o mesmo de High Fidelity, aquele que é uma das coisas mais engraçadas que eu já li na vida e me fez gargalhar sozinha em plena Piazza della Cisterna em San Gimignano. Não é uma Brastemp, esse último livro. Tem seus momentos, mas não é lá essas coisas. Agora queria ler About a Boy, sempre dele, do qual já ouvi falar muito bem. Aliás, queria ler várias outras coisas – não sei se vocês repararam, mas clicando ali em cima no “read” de “will read for food” vocês vão parar numa longuíssima wishlist da Amazon inglesa.

Hint hint.

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Falando em livrinhos, há coisas boas pintando, muito boas. Aguardem e confiem.

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O trabalho vai bem, obrigada. Dou aulas de Português pra uma bichinha simpática que comprou casa em Natal, e de Inglês pra um endocrinologista em Perugia e pra um médico do trabalho e sua filha pequena que faz bico pra falar Inglês e me faz morrer de rir. A coisa importante é que eu me divirto dando aula. O endocrinologista é meio cri-cri, mas os outros alunos são engraçados e damos muita risada nas aulas. Agora parece que vou ter que fazer ditado (don’t ask.) pra uma estudante de Letras Português-Italiano que estudou em Portugal e no começo não queria nada comigo, porque precisava de um lusitano de verdade, mas visto que a oferta de portugueses aqui na área é escassa, pra não dizer ausente, vai acabar me encarando. A tese dela é sobre literatura portuguesa (ou de língua portuguesa, não sei direito porque a outra bichinha simpática, o coordenador pedagógico do curso, não me deu detalhes), não sei exatamente de qual período. Aqui comigo tenho O Cortiço, Casa de Pensão e uns contos do Machado. Vamos ver o que vai rolar.

hohoho! :)

Dali a dois dias o satélite espião subiu, parou sobre a Amazônia, e, com os cheiros de Edmundo, Bolachão, Berenice, Pituca e Hugo Ciência computados no cérebro eletrônico, começou a cheirar.

O primeiro cheiro que chegou foi o do Redimir, dez dias sem tomar banho e cortando cebola: o satélite vomitou.

O cheiro de um prefeito, gesticulante, fazendo discurso num palanque, em Alagoas, foi descomputado, mas fez o satélite ter engulho.

“Como fede esse Brasil” – pensou o satélite espião.

***

O gordo tirou o tênis do pé direito e colocou na cabeça.

Ninguém queira saber o que é chulé de pé de gordo, entranhado num tênis que levou suor de pé de gordo durante 27 dias, na floresta mais quente do mundo. Edmundo, Berenice, Pituca e Hugo Ciência taparam o nariz, saíram correndo, dois gambás desmaiaram, uma jaguatirica teve um troço. Para o coitado do satélite cheirador, de centros olfativos supra-sensíveis, foi um fuá: a catinga do chulé do pé do gordo queimou os transistores, queimou as resistências, queimou os fusíveis, queimou os sensores, o chulé entrando lá dentro, o chulé chulezando tudo, o chulé esculhambando tudo, o satélite começou a fungar, o satélite começou a tossir, começou a sair uma fumacinha – o satélite explodiu.

***

– Você é muito bonita, minha paulista. Qual destes heróis é teu namorado?
– É o gordo.
– Ah! Este gordo é um corisco – disse o frade. – Explode satélites, conquista mulheres, o único defeito é que demora muito pra tomar banho.

***

O frade chegou na margem, e Tum-Tum, era braçadada de cruz em cada lancha, as lanchas quebravam ao meio, pulavam baços, rins, fígados, olhos, dentes, maxilares, omoplatas, pâncreas, orelhas, joelhos, bexigas, dedos do pé, dedos da mão, pomos de Adão, artelhos, aortas. Michael Pat se atirou n’água, quando fez que ia nadar, reparou que estava sem pulmão, afundou e morreu.

Sangue Fresco, João Carlos Marinho.

– Eu disse.

– Senhor gerente – interrompeu o Mister. – Mim ser um homem muitíssimo do calmo, mim só perder o meu paciência uma vez no vida com uma bandida espanhol que amarrar mim numa cadeira me dar um tiro no meu barriga e depois jogar um balde de água fervendo no meu cabeça. Mas a senhor estar muito chato, senhor gerente, se a senhor repetir mais uma vez “eu disse” mim dar um tapa no seu cara.

– Estou apenas lembrando que tinha razão quando adverti sobre o perigo de meter crianças com bandidos. O senhor está procurando me intimidar com a violência e eu estou argumentando com a razão. A lógica do meu raciocínio é perfeita, só mesmo um louco não entende a verdade do que eu disse: criança em investigação é perigoso, seu Tomé não tinha o direito de deixar, e tanto estava errado que foi tudo escondido dos pais. E os fatos comprovam meu pensamento; o gordo pode até escapar mas corre perigo e não temos direito de pôr os filhos dos outros em risco. Eu argumento com razão, seu Mister.

– Senhor gerente, a história do mundo mostrar que os chatos ser bichos muito lógicos e ter sempre razon. Mas a problema fundamental do vida non ser ter razon, a problema fundamental do vida ser non ser chata.

O Gênio do Crime, João Carlos Marinho

– Eu disse.

– Senhor gerente – interrompeu o Mister. – Mim ser um homem muitíssimo do calmo, mim só perder o meu paciência uma vez no vida com uma bandida espanhol que amarrar mim numa cadeira me dar um tiro no meu barriga e depois jogar um balde de água fervendo no meu cabeça. Mas a senhor estar muito chato, senhor gerente, se a senhor repetir mais uma vez “eu disse” mim dar um tapa no seu cara.

– Estou apenas lembrando que tinha razão quando adverti sobre o perigo de meter crianças com bandidos. O senhor está procurando me intimidar com a violência e eu estou argumentando com a razão. A lógica do meu raciocínio é perfeita, só mesmo um louco não entende a verdade do que eu disse: criança em investigação é perigoso, seu Tomé não tinha o direito de deixar, e tanto estava errado que foi tudo escondido dos pais. E os fatos comprovam meu pensamento; o gordo pode até escapar mas corre perigo e não temos direito de pôr os filhos dos outros em risco. Eu argumento com razão, seu Mister.

– Senhor gerente, a história do mundo mostrar que os chatos ser bichos muito lógicos e ter sempre razon. Mas a problema fundamental do vida non ser ter razon, a problema fundamental do vida ser non ser chata.

O Gênio do Crime, João Carlos Marinho

la speranza è l’ultima a morire

Novamente tivemos gente pra jantar aqui em casa, ontem à noite. Não sei se deu pra perceber, mas estamos meio de saco cheio do nosso atual círculo de amizades, e estamos tentando partir pra outra, mudar de ares, expandir os horizontes. Eu já meio que perdi a esperança de encontrar vida inteligente aqui no interior da Papua Nova Guiné, mas fazer o quê, né, a gente vai tentando, pra ver que bicho que dá.

Bela surpresa, então: vieram Gianni, amigo de escola do Mirco, e a mulher, Chiara, filha do dono do maior concessionário aqui da zona. Os dois são altíssimos e bonitos, apesar dos hediondos dentes de fumante do Gianni. Chiara é loura, magra mas não excessivamente, sorriso belíssimo (coisa rara por aqui, quem mora fora sabe que brasileiro é que tem mania de cuidar dos dentes, o resto do planeta tá se lixando), chegou vestida de preto, com um foulard colorido no pescoço. Menina simples, engraçada, sem cerimônia, repetiu meu strogonoff com arroz branco e batatas coradas, deixou o vinho de lado, comeu os quadradinhos de laranja e pediu gelo pra botar no copinho de Bailey’s. Ofereceu-se pra secar a louça, trocamos receitas e histórias de viagem, e começamos a discutir a hipótese de irmos todos juntos à Austrália ano que vem. Sentados no sofá da sala, os pescoços esticados e os olhinhos forçando pra ler os nomes no mapa-mundi na parede, fomos traçando roteiros imaginários e contando histórias de viagens a outras paragens. A irmã dela está morando em Dublin (que aqui se diz Dublino) e ela gostou muito da cidade. A avó tem quase 90 anos e também adora viajar, imaginem que figura que deve ser. Gianni é mais bobinho, como todos os camponeses daqui, mas é muito educado e, apesar de não me conhecer, nem sequer pensou em pedir um cinzeiro: foi direto pra varanda fumar, fechando as portas atrás dele. Maravilha. Vimos as 5.975,43 fotos da Austrália que o Mirco tem espalhadas em vários álbuns, e no final das contas ficamos de nos encontrar outra vez, pra ir ao cinema, e pra jantar na casa deles e ver as fotos do casamento e da lua-de-mel. Será que finalmente vou conseguir ter uma amiguinha normal com quem conversar? Ou vou ter que ir periodicamente ao Brasil renovar meus neurônios com Huňka, Newlands, japa e Uni-Rio people, pra não correr o risco de emburrecer e virar camponesa também?

ora, pois

Vocês já devem ter lido o Alexandre. E, se não leram, não sabem o que estão perdendo. Ele erra um pouco nos porquês, mas é autor de alguns dos textos mais racionais e sensatos que eu já li na minha vida.

Pois esse post aqui é sobre tratar cachorro como gente. Se tem um coisa da qual me orgulho é de tratar meu cachorro como cachorro. Um cachorro espetacular, é claro, que usa gorro, capacete e anda de caminhão, mas um cachorro. Leguinho NUNCA subiu em sofá nem cama, nunca dormiu comigo, não lambe a minha cara, quando lhe dou um olhar 43 ele entende e fica quietinho no canto dele, pára de apitar os brinquedinhos e de encher o saco. Veja bem, em momento nenhum eu disse que ele é SÓ um cachorro. Um animal é um animal, não é SÓ um animal – quem me conhece sabe que eu não pensaria duas vezes antes de salvar uma borboleta em vez de um ser humano que me enche o saco continuamente, por exemplo. Mas o fato é que o bicho continua sendo bicho, e não gente.

Tenho absoluto pavor de quem trata bicho como gente. De gente que se deixa tiranizar pelo bicho de estimação. É como quem se deixa tiranizar pelos filhos pequenos. Quequeísso, minha gente? Cada macaco no seu galho, né. Se eu sou gente grande e, pelo menos teoricamente, já que idade não é necessariamente sinônimo de sapiência, entendo mais da vida do que meus filhos e meu cachorro, é mais do que óbvio que quem manda no galinheiro sou eu. Uma vez tive uma longa discussão com a Carmen, a menina que trabalhava comigo na loja do Fabrizio, o Louco, sobre esse assunto. Ela tem uma fêmea de pastor alemão que fica presa num espaço minúsculo do quintal, mas sai bastante pra passear. É compreensível que a cachorra se assanhe toda quando sai de casa, mas é absolutamente inaceitável que ela arraste os donos pela rua e a única coisa que eles saibam dizer a respeito seja “mas é que ela fica puxando com força…”. É a mesma coisa com meus sogros, que são dois amores mas completamente retardadados, e os quatro cachorros. Virgola, a aleijadinha, é gorda feito um boi, e mesmo assim Ettore continua a dar-lhe toucinho, doces, salame. Quando eu digo que ela não deveria estar comendo essas coisas, ele responde: ah, mas ela pede…! Cacetes estrelados, mas se você não tem autoridade* nem com o seu próprio cachorro, a coisa tá feia pro seu lado. Tenho uma profunda falta de respeito por esse tipo de gente. E olha que eu adoro bicho, sofri pra burro durante aquele período em que fiquei aqui sem o Leguinho, gastei uma grana pagando a Carol enquanto ela tomou conta dele e outra grana preta pra trazê-lo pra cá. Fiquei torcendo pra acharem a coitada da Pipoca, gata que eu cansei de ver quando descia a Gastão pra correr na Lagoa quando ainda morava no Rio. Não aguento ver bicho sofrendo nem em filme sem começar a chorar. Mas tudo tem limite nessa vida, né, gente. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Please.

* Quando digo autoridade, não estou falando de gritar REX! como um sargento alemão e ver seu cachorro sentar, rolar, fingir de morto, chupar cana e assobiar, como um robô programado. Estou falando de não permitir que o bicho assuma o controle da sua vida. Ter um animal de estimação muda a sua vida, e como, mas não há que se perder o controle, jamé. Estou falando da autoridade que não é aquela do pai severo, mas a do pai que se faz respeitar pelas atitudes sensatas, racionais, quando possível, equilibradas. Entendem o que eu quero dizer?

bambini

Eu e Mirco temos, obviamente, muitas coisas em comum, mas uma delas é a criancice em relação a comprar coisas. Adoramos fazer compras, por mais idiota que seja a coisa comprada. E ficamos desesperados pra voltar logo pra casa, abrir o pacote, ficar olhando, lendo o manual de instruções, se houver, ou qualquer coisa que esteja escrita na caixa. Normalmente não sossegamos enquanto não montamos a tal coisa, a testamos e, dependendo do que for, fazemos uma foto.

Pois então: hoje fomos cedo pra oficina e só fomos almoçar às duas e meia da tarde. Enquanto eu cuidava do almoço e ao mesmo tempo recolocava as plantas na varanda, com a esperança de que o vento pare de encher o saco, o Mirco foi cuidar das novas compras. Espalhou as folhinhas do pot-pourri cheiroso pela casa, guardou os apetrechos de cozinha, botou os lençóis novos pra lavar, pendurou os ganchinhos pro secador de cabelo no banheiro. Só ainda não deu pra prender o porta-revistas na parede aqui do escritório, porque esquecemos de trazer a furadeira da oficina. O bicho tá ali me olhando, pedindo pra ser montado. Coitado, mal sabe ele que nessa casa não há revistas, e que ele irá segurar basicamente pastinhas com documentos e coisas pendentes.

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Ando morrendo de vontade de comprar uns dicionários. Adoro dicionário. Qualquer um, até búlgaro-nepalês. Acho dicionário uma das coisas mais interessantes na face da terra. Meu Zingarelli gigante, que ganhei de prêmio em um concurso idiota no Consulado Italiano há três anos, eu deixei no Rio. Aqui comigo só tenho um Oxford, um de italiano do Mirco MUITO velho, e várias daquelas porcarias Michaelis de bolso. Já fui na Libreria Grande catar, mas eles só têm porcaria. Aí agora estou morrendo de vontade de dar um pulo em NY pra tomar de assalto uma livraria e voltar com uma mala abarrotada de livros e dicionários.

Vocês têm essas compulsões malucas assim também ou sou só eu?

IKEA day – momento diarinho que só interessa à mamãe

Acordamos cedo, não sem um certo nível de sofrimento visto a hora em que fomos dormir ontem, e fomos pegar Arianna e Lucia em Santa Maria. Lucia é a mãe da Arianna, uma velhinha fofa de 80 e poucos anos que é uma gracinha. Ela não se dá bem com a nora, uma escrota que o filho insistiu em botar dentro de casa, e agora mora com a Arianna. Praticamente só sai de casa pra ir ao cemitério, mas passa um bom tempo na horta, cuidando das galinhas, descascando avelãs e cortando verduras pro minestrone. Pois bem, lá fomos nós carregar a Lucia pra IKEA de Firenze. Almoçamos por lá mesmo e compramos muita tralha, inútil em sua maior parte, mas é impossível pisar na IKEA e não trazer algo pra casa. Deixamos as duas senhoras em casa e fomos jantar com Marco, Michela, Peppe e um casal de amigos deles, com a filha pequena, Asia, que é uma peste. Não voltamos tarde, mas não dava pra ajeitar nada em casa.

vento, ventania

O dia amanheceu estranhamente limpo. Mirco saiu cedo pro trabalho, eu dei uma ajeitada rápida na casa e resolvi ir a pé a Bastia comprar umas coisas pra oficina, em vez de pegar o carro. Dei uma bela caminhada: 40 minutos a pé, debaixo de um estranho sol de novembro, de moletom e camisa de manga comprida, ouvindo Elvis no mp3 player, fazendo muito esforço pra não sair pulando pela rua. O céu azulziiiiiiiiiiinho, só o Subasio coberto de nuvens, coitado. Mais 40 minutos pra voltar, terminei de ler a última parte de The Belgariad, fiz faxina, deixei o almoço engatilhado e fiquei vendo TV, esperando o Mirco pra almoçar. Ele chegou às quatro da tarde, comemos rapidinho e fomos dar uma volta no GranCasa, em Spello, tipo uma superloja de coisas pra casa, acampamento, escritório, material de limpeza, caixas de correios, essas coisas. Depois fomos pegar Mario Belli e a noiva siciliana, cujo nome descobrimos ser Maria Rita. Jantamos no chinês em Foligno com toda a intenção de ir ver The Manchurian Candidate depois, mas engatamos no papo e quando vimos já tínhamos perdido a última sessão.

Na volta Mirco teve um desejo de tomar sorvete e paramos no bar de um amigo do Mario, em uma fração de Foligno. Quando saímos o vento já soprava forte e a grama dos campos em frente ao estacionamento do bar estava completamente na horizontal, e os galhos das jovens árvores ao redor balançavam loucamente. Na estrada, o vento sacudia o carro e jogava nuvens de folhas secas na nossa frente. Deixamos os dois em casa, em Santa Maria, e voltamos pra casa. Uma quantidade de coisa voando na rua impressionante; folhas, galhos, papel, sacolas plásticas, e, surprise, surprise, uma cadeira de plástico no estacionamento em frente ao nosso prédio, onde deixo o meu carro. Não sei de qual varanda a cadeira voou, mas espero que não tenha sido em cima do meu carro. Estacionamos na garagem e subimos correndo pra ver se tinha voado alguma coisa de nosso lá embaixo também. Meu vaso gigante de ficus estava tombado, o varal da varanda se desmontou e caiu. Começamos a botar tudo dentro de casa, todas as plantas, a mesa de plástico, o varal desmontado. Lembramos da tromba d’aria (o que seria isso? Rajada de vento? Pé-de-vento?) que rolou essa semana numa cidade da Calabria, que chegou a virar ônibus e o escambau. Do ralo do bidê subia um barulho impressionante do vento nos canos.

Mesmo assim, sabe-se lá como, dormi feito uma pedra.

nham

Apesar da maldita enxaqueca de ontem, tínhamos convidado um casal de amigos pra jantar, então não dava pra desmarcar em cima da hora. Eram o Mario Belli, um dos gêmeos da família proprietária da floricultura mais conhecida de Santa Maria, e a noiva, cujo nome esqueci, uma siciliana bonitinha que já foi cabeleireira e agora é caixa na Metro, tipo o Makro aqui da Europa. Eles são meio devagar quase parando, especialmente o outro gêmeo, o Carlo, que frequenta frades e coisas do gênero, mas são gente muito boa. E a primeira viagem do Mirco à Austrália foi com eles, então motivo pra conversar não falta.

Como passei a manhã de ontem em casa, antes da dor de cabeça atacar com todo o seu esplendor, cozinhei com muita calma, deixando tudo mais ou menos pronto pro jantar. Fiz crepes com recheio de verdura, lombinho no leite, batatas gratinadas tabajara e quadradinhos de laranja.

As crepes nada mais são do que panquecas finiiiiinhas. Fiz duas por pessoa: uma com recheio de brócolis e cebola cozida no molho shoyu, a outra com cenoura, alho-poró e abobrinha ralados e cozidinhos no azeite, com um pouco de ricota pra tirar aquele gosto de grama. O lombinho foi todo furado, e em cada buraco coloquei um pedacinho de alho e umas folhinhas de alecrim; também juntei umas folhas de sálvia, pimenta-do-reino e sal grosso, e cozinhei no leite (receita da cunhada). Ficou até gostoso, mas eu acho moooooooooito melhor quando a carne é cozida no vinho. Oooooutros 500. O líquido que sobrou na panela eu triturei com o mixer e servi como um molhinho bem grosso, pra dar uma molhadinha na carne, porque lombinho é uma carne naturalmente seca, como o peru. As batatas eu cortei em rodelas e assei no forno com pouca água e um tiquinho de leite, e no final joguei um parmesão por cima, mas sem exagerar, porque a noiva do Mario é alérgica a queijo. E os quadradinhos de laranja são aqueles fáceis de fazer e que todo mundo adora.

Eu ganhei uma planta linda, que esqueci de perguntar o que era mas tem toda a pinta de bromélia. Conversamos bastante e nos divertimos, mas não dava pra esquecer as facadas atrás do olho. Eles foram embora depois da meia-noite, quando eu já tava querendo estrangular o Mirco, que usa qualquer coisa, por mais insignificante que seja, entrar no assunto viagens já feitas ou ainda em planejamento, e não pára nunca de falar. A coitada da garota querendo ir embora dormir, eu em vias de botar a cabeça dentro do congelador pra ver se a dor melhorava, e os dois falando daquela multa que levaram sei lá onde, lembra? E o Fulano, que dava em cima daquela francesa em Brisbane? E aquele albergue em Nova York, lembra? AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARGH!

Dormi como uma pedra e hoje acordei melhor. Mas como ontem de manhã eu também tava bem e depois piorei, vou é ficar quietinha hoje, vou dar minha aulinha e voltar correndo pra casa antes que escureça, porque eu já sou fotofóbica normalmente, mas com enxaqueca assim não enxergo N-A-D-A na estrada. Que não é iluminada, porque passa entre os campos cultivados de Torgiano, não há quase ninguém morando às margens da estrada. A concentração pra não sair da pista e os faróis dos outros carros não ajudam a enxaqueca a ir embora, muito pelo contrário.

Ai, ai.