vovó

Essa é a minha avó. Morreu jovem, quando meu pai era rapazinho, deixando 4 filhos e 1 filha pro meu avô criar. Além de ser linda de morrer, como é claramente visível, era uma mulher educada e requintada, e, sobretudo, modernérrima, muito à frente do seu tempo. Até hoje, em reuniões de família, fala-se muito dela – não só os familiares, mas também amigos e ex-vizinhos, e inevitavelmente todo mundo acaba chorando.

Sempre tive a impressão de que se tivesse vivido mais ela talvez tivesse virado uma grande amiga da minha mãe, que é outra que está muito à frente do seu tempo – e não sou só eu que estou dizendo; outro dia ela recebeu o telefonema de um ex-aluno (ela não dá mais aula há quanto, vinte anos?) que viajou o mundo com a Marinha, viu e compreendeu coisas que minha mãe já havia comentado séculos antes na sala de aula, e resolveu catar o nome dela na lista telefônica e ligar pra dizer o quanto ela tinha sido foda. Também sempre tive a impressão de que nossa família seria muito melhor hoje, em muitos sentidos, se ela não tivesse morrido tão jovem. Minha avó é a pessoa que eu mais gostaria de ter conhecido, no mundo inteiro. Meu avô até hoje só senta à mesa de frente pro quadro dela, na parede oposta da sala. Meu pai e meus tios dizem que ela foi uma mãe muito alegre, com uma intimidade com os filhos que naquela época era unheard of, mas eu vejo no seu olhar uma melancolia que, infelizmente, foi a única coisa que eu herdei dela.

bigodim

Falei que fomos ver A Queda semana passada? Fomos no Teatro Pavone, em Perugia, que era um teatro e hoje funciona praticamente só como cinema, inclusive com sessões em língua original, em parceria com a Universidade para Estrangeiros da cidade. É incrivelmente desconfortável, mas tem o charme que só um teatro antigo tem, e ainda por cima fica no centro de Perugia, que é uma cidade deslumbrante.

Eu normalmente DE-TES-TO o assunto II Guerra. Por n motivos que não importam agora. Mas cismei que queria ver esse filme, e não me arrependi. Achei o elenco muito bom, e a escolha de não abordar a história, as causas, as filosofias da guerra foi acertadíssima. O filme é ótimo, muito realista, bem feito, a produção é acurada. Sai da mesmice dos filmes sobre esse assunto, definitivamente. Recomendo.

Hear, hear

As três principais notícias do dia aqui na Bota são de arrepiar os cabelos.

Angelo Izzo, que há alguns anos estuprou, torturou e matou um monte de gente e estava devidamente preso, recebeu liberdade condicional por bom comportamento. A primeira coisa que fez quando saiu foi matar uma mulher e sua filha de 14 anos. A única pessoa que conseguiu sobreviver a um ataque seu e de seu bando, uma mulher que nas entrevistas parece ser muito esperta e justamente indignada até a raiz dos cabelos, só conseguiu sair viva depois de 30 horas trancada num banheiro sem ventilação e mais não sei quantas na mala de um carro porque se fingiu de morta, depois que Izzo a estrangulou e encheu de porrada. “Ele não é louco coisa nenhuma”, ela diz. “Nem louco e nem bobo. Gosta de causar sofrimento aos outros, planeja tudo com cuidado. Não é louco. Doente, mas não louco, e não sei no que os juízes estavam pensando quando deixaram aquela coisa sair da prisão.” A foto do então jovem Izzo algemado, acompanhado de policiais a caminho da prisão, mostra um cabeçudo de olhos claros, camisa listrada e um sorriso do qual nem Hannibal Lecter seria capaz. Mais aqui (em italiano).

Há 36 anos, uma bomba explodiu numa agência de um banco nem sei onde, matando 17 pessoas. Há várias hipóteses políticas, e exatamente por isso ao longo desses anos provas sumiram, pessoas calaram, e nada se descobriu de concreto sobre quem plantou o raio da bomba. Hoje saiu a sentença final: oficialmente, NÃO HÁ CULPADOS. E AS FAMÍLIAS DAS VÍTIMAS SERÃO OBRIGADAS A PAGAR AS DESPESAS LEGAIS QUE ROLARAM NESTES 36 ANOS. Você não leu errado, é isso mesmo. Não há culpados; a bomba se materializou do nada, veio andando com suas próprias perninhas, se escondeu na agência, apertou o botãozinho on/off e explodiu, tudo sozinha, de vontade própria. E as famílias das pessoas que nada tinham a ver com a história e morreram na explosão vão ter que arcar com 36 anos de despesas legais. Mais detalhes aqui (em italiano).

Como era de se esperar, a versão italiana sobre como morreu Calipari, que levava a jornalista comunista Giuliana Sgrena pra casa depois de semanas de seqüestro no Iraque, não bate com a versão americana. O carro que levava Sgrena foi baleado por soldados americanos, que dizem ter atirado porque o carro vinha em alta velocidade e não se identificou ao passar por essa espécie de blitz (blocking position). Sgrena rebate dizendo que não iam a mais de 50 km/h, que o blocking point era feito por soldados estressados, nervosos e mal treinados, e que acha que o alvo era ela, porque sabia demais (e é comunista e anti-EUA). Calipari era um fodão, chefe de departamentos de segurança e coisas do gênero, herói militar, e sua morte foi um baque por aqui. Mais ainda: segundo o relatório italiano, no relatório americano faltam muitas, mas muitas informações, omitidas propositalmente. Mais ainda: o carro, um Toyota Corolla, foi removido do local antes que sua posição exata pudesse ser determinada e fotos decentes batidas, de modo que não é possível determinar com exatidão a distância da qual os tiros foram feitos, a velocidade em que o carro vinha, a trajetória precisa das balas, etc e tal. Aqui (em italiano).

Nada mais me surpreende por aqui, juro.

ui

Semana passada terminei L’Impero dei Draghi, de Manfredi, o mesmo autor da série Alexandros.

Cacete, que livro chato! QUE LIVRO CHATO! Penei feito uma mula pra terminar. Ô coisa mal escrita! Ô coisa cheia de chavões ridículos! Imaginava que não era uma Brastemp, mas o assunto era interessante – a suposta presença de soldados romanos na China láaaaa nos tempos de D. João Charuto, com todo o choque cultural que isso implicaria – e resolvi arriscar. O cara é professor de arqueologia, conceituado na área, e coisa e tal, fui na fé, achando que pelo menos aprenderia alguma coisa. Péssima idéia. Péssima, péssima, péssima. O livro se arrasta, acontece sempre alguma coisa mas é tudo tão ridiculamente descrito, pontuado com algumas frases de pseudo-filosofia chinesa aqui e ali, que às vezes eu sentia vergonha pelo autor. Tem que ter muita coragem pra publicar um negócio desses, com seu nome na capa. Pensando bem, olhando a cara do sujeito na foto que ocupa toda a traseira do livro, dá pra entender muitas coisas. A barbicha e a franjinha grisalha explicam tu-do.

Pra compensar e esquecer o trauma, comecei The House of Mirth. Só li algumas páginas e já estou adorando. Enquanto isso, Mrs Dalloway está ali quietinha me olhando com ar de reprovação. Comecei, mas não tive paciência de continuar. Juro. Vai ver que não é o momento.

cats

Até esqueci de contar: Priscilla, a Rainha do Deserto Intelectual que é o interior aqui do Gabão, teve filhote! Foi no fim de semana passado. Esses são os filhotinhos com menos de 12 horas de vida:

E esses são os filhotes ontem, com uma semana de vida.

Não são uma coisa? :)))))

primo maggio

Primeiro de maio aqui não é só um dia no qual não se trabalha, é festa mesmo. Normalmente os empregadores pagam um belo almoço pros funcionários. No caso das pequenas empresas, os proprietários, que trabalham junto com seus operários, não são tãaao mais ricos do que eles, e muitas vezes estudaram menos do que eles, normalmente participam do almoço. No ano passado comemos peixe em um restaurante especializado em outras coisas; o almoço saiu caríssimo e não foi nenhuma Brastemp. Esse ano, com as imensas despesas extras de tabelião e advogado pra transferir a oficina pro nome do Mirco, e com os dois primeiros meses do ano muito lentos em termos de trabalho, resolvemos economizar e investir no seguro: a comida da Arianna. Então ontem todo mundo foi almoçar em Santa Maria.

Chegamos às dez e meia pra dar uma mãozinha, a tempo de montar uma mesa imensa na garagem, onde é sempre fresco. Do lado de fora tava um calor desgraçado, e no campo ao lado da casa demos de cara com um cercadinho improvisadíssimo onde os gansos foram colocados pra pastar – juro. Faz bem pra eles (e economiza-se em ração) comer capim, então os bichos ficaram o dia inteiro ali no cercadinho, pastando e se refrescando numa bacia de água, e depois descansando à sombra de um guarda-chuva que a fofa da avó do Mirco teve a idéia de deixar aberto, apoiado no chão.

Depois foi o sólito catar pratos e copos de plástico, guardanapos, encher as garrafas com a água do filtro, passar o vinho dos garrafões de 5 litros pra garrafas menores, preparar os antipasti, descascar batatas. Os bichos já estavam no forno – ganso, frango, carne de carneiro e, tchan tchan tchan tchan, cabeça de carneiro. Com dentinho e tudo. Nada de porco porque há dois marroquinos no rol dos funcionários. Arianna já tinha feito dois pirex de Tiramisù e uma torta de geléia, a massa do macarrão tava pronta e era só passar na maquininha pra cortar em tagliatelle, a salada já tava cortadinha e só faltava temperar. O pessoal comeu feito louco. Só faltou o Hugue, um rapaz do Congo que é o novo aprendiz da oficina. O menino é uma gracinha, incrivelmente educado e calado, mas quando fala a voz que sai é forte como um trovão, com forte sotaque francês – ele ainda fala pouquíssimo de italiano, chegou na Itália só há alguns meses. Tem olhos bons e um sorriso que lhe ilumina o rosto inteiro. E tem o maior orgulho da carapinha: faz vir do Congo um produto pra deixar os minimicrocachos ainda mais definidos. Mirco brinca com ele dizendo que também quer usar, e ele responde, não, não, capelli non uguali, non uguali, naquela voz grossa. Na hora do almoço ele sempre toma banho no chuveiro da oficina, porque sente muito calor. E quando volta pra casa, de carona com o Ettore, vai todo bem vestidinho, de jaqueta de couro e tênis prateados. Outro dia Mirco veio dizer que ele sabia cozinhar, e perguntei o que é que ele sabia fazer. Ele disse que não adiantava explicar, porque eu provavelmente não conhecia nada. Ah, é? Vamos ver… Aposto que no Congo você comia muita banana, manga e mamão, mandioca e abacate e feijão. Ele arregalou os olhos e perguntou como eu é que eu conhecia essas coisas; não sabia que eu era brasileira. Depois começou a rir quando os marroquinos, lá do outro lado da oficina, falaram que quem come feijão fica perigoso por causa dos “fogos de artifício”. O menino tem 18 anos mas é de longe o mais educado de todos na oficina, e o mais esperto também, pelo que o Mirco fala. Vai ser provavelmente o substuto do Dejan, o eslavo que vai embora mês que vem, pra prestar serviço militar obrigatório na Sérvia. Pois então, o Hughe não foi ao almoço porque tinha um batizado não sei onde, mas veio o Yavo, ex-funcionário, nativo da Costa do Marfim, uma figuraça que fala numa língua que só ele entende, mistura de francês, italiano, dialeto perugino e seu dialeto africano. Fala de religião o tempo todo mas é na boa, sem pregar, sem torrar a paciência. Ficamos lá batendo papo e brincando com os cachorros, que roíam os crânios de carneiro por baixo da mesa, até o final da tarde. Acabou sendo um almoço muito mais divertido do que o normal almoço de domingo na casa dos sogros, que ultimamente anda sendo um martírio pra mim.

Voltamos pra casa e vimos Man on Fire no DVD. Gostei muito, de verdade, ainda que eu ache que o Denzel Washington é igual ao Lima Duarte, representa sempre o mesmo papel em tudo que é filme. Ainda consegui sair pra correr enquanto o Mirco dormia no sofá, quando voltei tavam o Mario Belli (o dono da floricultura de S. Maria) com a noiva em casa batendo papo, esqueci de perguntar a ele se conhecia a minha planta misteriosa (já tirei foto, Lu, mas tô com preguiça de botar no ar, amanhã, amanhã), me empanturrei de iogurte em vez de jantar, e ainda tive saco pra terminar um livro muito ruinzinho antes de dormir. Mais tarde explico melhor.

novas aventuras burocráticas

Eu não queria muito contar essa história, mas não resisto: na terça-feira depois do meu aniversário, bati com o carro. Foi em Perugia; eu tava saindo do centro, depois de uma aula com o Aluno Endocrinologista, e pegando a superstrada pra voltar pra escola e dar aula pros Três Mosqueteiros. Alguma coisa entrou no meu olho, um bicho, sei lá, perdi o controle do carro, subi no canteiro central, bati nos pés da placa que mandava ficar na esquerda quem queria ir a Perugia, Assis, Foligno, e direita quem queria ir a Arezzo, dei um giro de 180 graus e parei. Como um pouco antes tem um sinal de trânsito, e ali tem muito movimento e o trânsito é sempre lento, não me machuquei, e o cara que vinha logo atrás de mim teve mais do que tempo pra perceber o que tava acontecendo e meter o pé no freio. Comigo não aconteceu bissolutamente nada, só bati com a mão esquerda na porta (muito menos grave do que as topadas que eu vivo dando por aí), mas o carro ficou completamente detonado. Não porque a batida tenha sido violenta, mas porque a Fiat é mal feita pra cacete e quando subi no canteiro a parte inferior direita foi pras cucuias. O carro já tava velho, valia pouco, e não vale a pena consertar. Então peguei a Uno da oficina.

Mas tudo isso, que no final das contas não interessa muito, pra explicar a maratona que veio depois. Porque quando o seu carro sobe no telhado você tem que se desfazer dele de alguma maneira. Ou então juntar toda uma papelada e comunicar às autoridades competentes que o carro não vai ser mandado pra um ferro-velho autorizado, mas também não vai ficar abandonado no seu quintal, pegando chuva e funcionando como ponto de encontro pra ratos, insetos e afins. Porque é proibido, entende. Então você tem que ir ao P.R.A. (Pubblico Registro di Automobili), que é maaaaais ou menos como o Detran, levar as placas e os documentos do carro e mais um monte de chatices, e declarar o que você vai fazer com ele.

O problema é que todo mundo anda muito ocupado ultimamente, e não tivemos tempo de investigar direito o que tínhamos que fazer. O IPVA vencia amanhã, e a mulherzinha do Automobile Club Italiano me disse que tínhamos que entregar as placas antes do dia 30 pra não ter que pagar o imposto. Mas não falou nada dessa coisa da rotamazione (a destruição do carro), de ser obrigatório mandar o bicho pra um ferro-velho, nem de coisa nenhuma. Quando liguei pra central do ACI me disseram que se eu declarar que o carro ficar na minha garagem, não posso nem vender as peças, porque se vier um fiscal checar eu levo uma multa. Ora, o carro está em perfeito estado fora a parte batida, e afinal de contas a oficina não é especializada em carros mas sempre rola algum amigo que deu uma batidinha, ou então quebraram um farol, ou arranharam a lateral, ou uma pedrinha que rachou o vidro, e ter peças de reposição do carro mais vendido na Itália não seria nada mau. Mas não, jacaré, não pode. Ligamos pra todos os donos de ferro-velho da zona, todos clientes da oficina, e todos disseram a mesma coisa: quero o carro inteiro, senão pra mim não vale a pena, porque eu vivo é de vender as peças. Cacetes tatuados! A manhã passando e eu ainda na oficina, ouvindo o Mirco e o Ettore se esgoelando no telefone tentando entender o que fazer. No fim das contas alguma alma caridosa explicou que se eu fosse ao ACI pagaria 60 euros, e se fosse diretamente ao P.R.A., só a metade, e eles ainda saberiam explicar melhor a coisa toda. Essa alma caridosa já foi dono de ferro-velho, mas agora tem uma outra atividade que não sei qual é, mas de qualquer maneira se prontificou a resolver a situação – normalmente o ferro-velho COBRA pra fazer a rotamazione, e ainda por cima revende as peças do seu carro batido; esse não cobrou nada mas ficou com o carro. Tudo resolvido, lá fui eu ao P.R.A., onde já estivera outras vezes, pra entregar as placas.

Chegando lá, com procuração do Mirco e quinhentos documentos xerocados, me dizem que não posso fazer nada porque não sou a proprietária. Eram dez e meia da manhã e um cartaz avisava que em vez de fechar ao meio-dia e meia, ontem fechavam uma hora antes, por motivo de assembléia do pessoal. Fiquei sem saber o que fazer, expliquei pra mulher, que por sorte é muito prestativa, que tinha que resolver a coisa ali na hora senão teria que pagar IPVA tudo de novo, que o proprietário do carro estava rodando ali em Perugia (mentira) e eu poderia encontrar com ele e dar os documentos pra ele assinar (leia-se eu iria ficar fazendo hora sentada no meu carro e fazer um rabisco qualquer imitando a assinatura do Mirco), que do escritório da oficina poderiam mandar por fax uma xerox da identidade do Mirco, mas nada feito. Só faltei chorar através do vidro, até que um outro funcionário resolveu chamar o chefe, explicou a situação, e ficou resolvido que eu poderia fazer a coisa toda sim, desde que assinasse um certificado de proprietaria non intestataria, ou seja, que eu uso (usava…) o carro direto mesmo ele não sendo oficialmente meu. Agora me diz: por que raios todos os funcionários de uma repartição pública não têm as mesmas informações? Por que essa mania de cada um dizer uma coisa diferente? Ô coisa chata!

Felizmente consegui entregar e preencher e assinar tudo antes das onze e meia, senti uma pontada de tristeza ao ver as plaquinhas da nossa Punto querida jogadas ali em meio a muitas outras, e depois pra compensar fui direto pra Libreria Grande gastar meu gift certificate. Comprei Middlesex (Jeffrey Eugenides, o autor de Virgin Suicides), The Kite Runner (Khaled Hosseini), e o primeiro livro da série The No. 1 Ladies’ Detective Agency, de Alexander McCall Smith. E pronto.

joão e o pé-de-feijão

E ainda no assunto plantas: há algo de muito estranho acontecendo no minúsculo círculo botânico que é a minha varanda da cozinha, que na primavera e no verão passa a ter algumas horas de sol de manhã cedo.

O lance é o seguinte: no meio do inverno plantei os bulbos de tulipa que a Stefania mandou da Holanda. Dois bulbos de tulipa negra (que todo mundo sabe que é roxa e não preta, mas é linda assim mesmo) eu plantei num vaso grande que está na varanda da cozinha. Na varanda do nosso quarto plantei dois bulbos de um outro tipo de tulipa que não me lembro qual é. As tulipas negras estão enormes e lindas, mas as outras levaram séculos pra dar as caras. De repente uma das plantas deu uma crescidona assim estilo adolescente que espicha, e virou uma coisa esquisita que não parece nada nada com tulipa. Mas tudo bem, eu gosto de plantas e não tive coragem nem de arrancar a coisinha estranha que nasceu no vaso onde ficava o defunto manjericão. A bichinha tá lá, amarradona, crescendo horrores, e com toda a cara de que vai dar florezinhas minúsculas. Mas então, essa pseudo-tulipa foi crescendo, e notei que na outra parte do vaso brotavam coisinhas verdes que não conseguiam crescer muito. Imaginei que fosse porque a outra plantona estivesse roubando espaço e nutrientes, e arrumei um outro vaso pra transplantar a plantona e deixar espaço pras coisinhas verdes. Semana passada comprei a terra, segunda-feira peguei uns cacos de cerâmica e um prato pro vaso na Arianna, e agora à tarde tomei vergonha na cara e sentei na varanda pra operação transplante.

Qual não foi minha surpresa quando, com terra até nas sobrancelhas e os dedos enfiados no vaso procurando a raiz da pseudo-tulipa pra tirá-la inteira, encontrei um caule imenso, larguíssimo e longuíssimo! Fui seguindo o tal caule e notei que ele dá voltas e mais voltas dentro do vaso. Fui tirando terra, curiosíssima, e achando mais centímetros de caule. Fui parar num murundu de raízes que ocupam praticamente TODO o vaso. Por isso que essa miserável levou tanto tempo pra aparecer do lado de fora! Eu achando que não tava rolando nada, que o bulbo tava hibernando, mas lá dentro da terra tava rolando a maior festa! Coitada da planta, imagina o tempo que ela perdeu dando voltas e voltas na terra, crescendo aquela infinidade de raízes malucas e sem sentido! Agora vou ter que comprar um vaso grande como uma banheira pra botar essa planta. Mirco vai adorar. Daqui a pouco não tem mais espaço pra gente na varanda, de tanto vaso…

O mais ridículo é que eu só acho o panfletinho da tulipa negra, que veio junto com os bulbos, explicando que espécie é, quando plantar, quanta água dar, essas coisas. Nada de panfletinho da outra planta. Então agora já não tenho mais certeza de que a plantona esquisita seja uma tulipa. Se for, não sei de que tipo é. E se não for, não tenho a menor idéia do que é. Mas se continuar crescendo nesse ritmo, daqui a pouco expulsa a gente de casa.

prantas

Não consigo me acostumar com a idéia de ter que podar plantas. Entendo o mecanismo e concordo que faz sentido, mas não acho legal, sei lá. Tenho pena das plantinhas. Pra arrancar um raminho de alecrim só falta eu pedir desculpas à planta, imagina a preparação psicológica que não teria que rolar se eu tivesse que podar uma árvore.

No final do inverno começa o frenesi da poda. Por todo o lado vêem-se pobres árvores nuas, os galhos cortados até o talo; cercas-vivas que não parecem tão vivas assim, meio carecas que ficam depois da poda; arbustos que passaram o inverno secos e pelados e agora estão secos, pelados e cotós.

Mas começa a primavera e os primeiros brotinhos verdes começam a surgir, saindo muitas vezes diretamente desses cotos de tronco que ficaram. É engraçado, porque há um tipo de árvore muito comum por aqui, cujo nome desconheço, que tem um tronco estranho: chegando a uma certa altura, vira uma espécie de nó gigante, e dali partem os galhos, curvando-se pra cima. Quando podadas, essas árvores ficam reduzidas a um tronco seco com essa bolota em cima, com todos os cotoquinhos em volta, onde antes ficavam os galhos. Na primavera os brotinhos saem diretamente desses cotoquinhos, e o resultado é uma bola verde estranhíssima, até que os ramos cresçam e dêem uma aparência mais digna à árvore.

Eu não consigo podar nada. No máximo dou uma aparada no tomilho da varanda, quando vejo que tá ficando descabelado demais. Em uma semana ele dobra de volume. Mas mesmo assim fico com pena.

uia

Feriados são realmente uma invenção maravilhosa. Só é chato quando o tempo não ajuda.

Além de ser feriado, hoje é o aniversário da minha prima dentista, a Erica. E ontem foi o aniversário de uma amiga querida, a Bebel, com quem estudei a vida toda no Andrews. Ontem me peguei pensando nelas enquanto dirigia, e do nada me veio à cabeça uma das muitas musiquinhas que nós, meninas criativas, escrevíamos no colégio. Essa de ontem, a única da qual me lembro do começo ao fim, escrevi com a Bebel e com a maluca da Patricia. A melodia não preciso nem dizer qual é. Vejam que primor.

Penso numa
paisagem muito bela
Abro a janela e dou de cara
com uma favela

Vejo os molequinhos se matando
E vem um logo me assaltando

Meu relógio não estava no seguro
Não recebi outro relógio
no lugar do meeeeeu

Cocaína, traficante, maconheiro
Que interessante

Vejo um assalto a banco,
é tão engraçado
que me faz chorar
de emoção

E todos vão roubar…

Cada moleque
vai se tornar um marginal
E isso aqui já é normal
Você sabe bem

E todos vão roubar…