Arquivo de abril de 2010

carolinices e a era da pracinha

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Carol anda uma ferinha. Aprendeu a subir na poltrona e nas cadeirinhas de plástico tamanho criança que ficam na varanda. Há semanas tenta pegar o paninho de pia Perfex-like, se esticando toda nas pontas dos pés. Começou a fase dos tantrums quando não consegue o que quer, e quase sempre tenho ataque de riso porque o beiço estica todo pra frente e com aquela cabelação toda a cara dela fica muito engraçada. Anda tentando se vestir sozinha, o que na verdade significa que ela pega qualquer coisa de tecido que vê pela frente, inclusive toalhas e tapetes, e bota na cabeça, puxando pra um lado e pro outro como se eventualmente a eventual gola do objeto fosse passar pela cabeça dela e ela acabasse vestida. Eventualmente. Tem dias que só come se for sozinha, logicamente fazendo uma lambança danada. Eu nem olho pra não ter um treco. Tem loucura por cachorro, porque quando vai pra Arianna aquele pamonha do Demo se joga no chão na frente dela pra ela ficar lá dando tapinhas nele, puxando as orelhas, coçando a barriga, puxando o pelo, beliscando as costas, então tenho que segurá-la toda vez que passa um cachorro na frente, pra ela não sair correndo atrás. Aprendeu a piscar o olho (leia-se fechar os dois olhos) quando a gente diz “pisca”, a esfregar a barriga quando eu digo “lava a barriga”, a botar a língua pra fora quando a gente diz “como a Virgola bebe água?”, a fazer sim com a cabeça. Conhece todos os seus livros preferidos pelo nome e vai lá pegar quando a gente pede. E por aí vai.

E com o tempo melhorando começou a era da pracinha. Aqui atrás de casa tem um parquinho, mas não rola. Porque fica nos fundos dos prédios desvalorizadores de bairro aqui do meu, uma espécie de conjunto habitacional quadradão estilo mussolínico, infelizmente habitado pela pior gente que há: os napolitanos. Desconfiei logo na primeira vez em que fomos lá: muitas, muitas crianças gordas, usando roupas cafonas, meninos pequenos de cabelo comprido, mães gritando nomes equivalentes aos Jennifers e Wellingtons brasileiros (uma desgraçada botou o nome de Illia no filho, pena de morte nela), crianças comendo bolinho Ana Maria tabajara do Lidl e jogando a embalagem no chão. E foi aí que comecei a ouvir o sotaque. Socorro. Logo depois houve um encontro de primeiro grau muito, muito estranho. Um menino lourinho de óculos fundo de garrafa, de uns oito, nove anos, se aproximou da Carolina, sorriu e PREPAROU UM CHUTE na direção dela. “Ma sei scemo?”, exclamei, “Tá maluco, meu filho?”. Olha a resposta do psicopatinha: “Quero que ela chore pra eu descrever suas lágrimas”. WTF??? “Faz isso de novo e você vai ver quem vai sair chorando, seu louco!”, gritei, e saí literalmente correndo.

Então passei a frequentar o parquinho atrás da escola primária, no centro da cidade. Outro nível, embora viva cheio de romenas perpetuamente grávidas e rodeadas de crianças ranhentas. De muçulmanas não vemos nem a cor, porque a coitadas não podem se dar ao luxo de ficar passeando por aí sozinhas, mostrando a figura na medina (vamos repetir o mantra “a religião é uma merdammmmmmmmm a religião é uma merdammmmmm”). Mas a maior parte é de italianas mesmo, coisa que pode ser vista pela qualidade das roupas das crianças, os carrinhos de marcas conhecidas e não genéricos de supermercado que parecem frágeis como se fossem feitos de canudos de plástico, pelos nomes normais dos pimpolhos, pela ausência de gritos histéricos e inúteis à distância típicos de mães que estão cagando pro que os filhos estão fazendo, porque quando você realmente está tentando educar seu filho vai lá e diz o que tem que dizer em vez de ficar berrando “Giovanniiiiiiiiiiiiiiiii” a três quilômetros de distância sabendo que o Giovanni vai cagar e andar e continuar batendo no coleguinha.

O parquinho é grande e vive entupido de crianças de todos os tamanhos, de modo que a Carol fica entretidíssima, andando feito uma barata tonta de lá pra cá, pegando folhas e pedrinhas que ela leva de um lugar pro outro, de olho na bola dos meninos, querendo pegar os parafusos (don’t ask) das bicicletas dos outros e molhar a mão na torneira de água potável perto dos bancos. Volta pra casa exausta e começa a beliscar o próprio pescoço (sinal de que está com sono) já às sete da noite. Ainda não conversei com nenhuma mãe porque ela ainda não interage com as outras crianças e fica perambulando sozinha, mas sei que daqui a pouco vai rolar. Por enquanto tá bom assim: queimo muitas calorias power walking até o parquinho, paro na Coop pra fazer compras se precisar, ela vai falando “boyoboyoboyoboyo”, “manhamanhmanhamanha”, “atcheatcheatcheatche” sem parar na volta, e chegamos em casa devidamente exercitadas.

sleeping 101

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Tem gente que não sabe dormir. Não falo do ato de dormir em si, mas da técnica envolvida. Porque tudo nessa vida tem técnica, não é mesmo.

Quando acontece do Mirco capotar no sofá e não acordar de madrugada pra voltar pra cama, eu acordo, levanto, simplesmente puxo a ponta da coberta pro lugar e ecco, a cama está feita. Porque eu sou uma pessoa que tem técnica pra dormir, sabe. Quando mudo de posição, rolo por baixo da coberta, e não levando a coberta junto comigo, como faz o Mirco. Volta e meia acordo de madrugada porque fui mudar de posição e senti o contato direto com o edredom, porque o Mirco consegue desvincular totalmente o lençol de cobrir do edredom. A coisa me dá um nervoso sem precedentes, e lá vou eu sentar na cama e ajeitar as cobertas antes de voltar a dormir. Saco. Não precisa nem dizer que pela manhã a cama está um ninho de rato. Ódio.

Minha mãe também é assim. Quando levanta a impressão é a de estar em um quarto cheio de cobertas espalhadas por todos os lados, travesseiros e almofadas idem. Gente que não sabe dormir consegue criar a ilusão de bagunça infinita mesmo em cômodos espartanos; uma coberta amarfanhada fica parecendo dez, um travesseiro torto fica parecendo doze, e a aparência do quarto fica um horror.

Acho que vou começar a oferecer cursos. “Como dormir de modo a gastar 10 segundos pra fazer a cama no dia seguinte”. “Como rolar por baixo das cobertas e não com elas”. Será que cola?

odontoplebe

domingo, 18 de abril de 2010

Meus queridos, meu dia chegou. Saí da reduzidíssima elite de indivíduos totalmente desprovidos de cáries desde o nascimento e entrei pra gigantesca torcida do Flamengo que é maioria cariada.

Eu não percebi nada. A coisa estranha é que não percebi nada. Quando vi, estava cariada. Fui percebendo uma sensação desagradável em algum dente inferior esquerdo, mas juro que não me toquei. Cansaço, estresse, sono atrasado, pegar no sono na cama ao lado da Carolina, com a mão dentro do berço pra ela deitar em cima e beliscar até dormir, ficando portanto várias horas depois do jantar sem escovar os dentes, you name it. O fato é que quando finalmente fui olhar dentro da boca com calma achei não uma cárie, mas uma CRATERA entre os dois últimos dentes (não sei nome de dente nenhum e nem pretendo pesquisar sobre o assunto, thank you). Dei um ataque: comé que eu não vi isso, gente? Cega! Anta! Desleixada! Sujona! Ca-ri-a-da!

Meu dentista, que tem agenesia de dois dentes da frente e portanto parece desleixado, sujão e desdentado, inspirando muito pouca confiança em quem não sabe da história, disse pra eu relaxar porque a maldita começou entre os dentes e por baixo, ou seja, ninguém, nem ele nem nenhum outro dentista e muito menos eu, teria notado a bichinha antes dela criar o dano gigante que causou. Porque, queridos, a minha estreia no mundo dos cariados não foi pra menos: a cratera quase chegou no nervo e havia risco de ter que desvitalizar o dente (!!!!!!!!!!!!!!!), e, pasmem, a cratera não estava sozinha! Havia outra cárie, praticamente gêmea, exatamente na mesma posição, mas na arcada superior. Essa era a irmã menor, digamos assim, felizmente.

Sei é que estou horrorizada. Toda vez que mastigo tenho a impressão que há buracos em todos os outros dentes da boca que a obturação vai explodir ou se desintegrar, que vou precisar de coisas cujos nomes sempre foram misteriosos pra mim – ponte, coroa, implante. Coisas de odontoplebe, sabe como é.

Não nasci pra ter doença nenhuma não, vou te contar.

tem alguém aí?

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Vou postar assim como se nada tivesse acontecido, como se isso aqui não estivesse abandonado, tá bom? Tipo, eu finjo que tenho uma vida normal, com tempo pra postar, e vocês fingem que acreditam.

Então. Minha mãe passou quase três meses aqui, desde o final do ano até o aniversário da Carol, e tive a oportunidade de fazer uma coisa que não rolava desde que pari (eu sei que a expressão é feia em português, mas é que em italiano é supercomum e já me acostumei a ouvir “Sabe quem pariu? A Fulana”): ler. Porque há coisas que dá pra fazer com filho em casa, tipo cozinhar, dar uma geral na casa, tomar banho (ela fica no berço dentro do banheiro brincando com as coisinhas dela), pendurar roupa na corda, essas coisa legais. E há coisas que são impossíveis na presença de criança, como ler, ver (ou ouvir) televisão, usar o computador, fazer ginástica. Essa segunda categoria de coisas eu faço quando ela está dormindo, ou então quando ela está na Arianna. Mas como deixar filho na casa da avó pra ler é meio tipo assim o fim da picada, a coisa não tava rolando mesmo. Só consegui quando minha mãe veio: ela ficava com a Carol, eu ia dormir pra me recuperar das noites em branco e lia uma meia horinha antes de pegar no sono.

Logicamente, a oportunidade era preciosa e não podia ser desperdiçada com paulo coelhos e dan browns, pé de pato mangalô três vezes. Então pensei, pensei, pensei e escolhi The Poisonwood Bible, que andava na minha estante há um bom tempo. Gostei MUITO. Muito legal acompanhar as mudanças, a evolução das personagens. Muito legal também aprender pequenas coisas sobre a África, no início, e depois coisas mais hardcore – política, guerras. O texto é muito bem escrito, as personagens são marcantes, os subplots que vão aparecendo conforme a história vai avançando se encaixam muito bem. Ótima pedida.

Depois desse eu dei um megamole e comecei a ler uma chatura que levei séculos pra terminar: The Book Thief, que se não me engano foi traduzido no Brasil como A Menina que Roubava Livros e, que se não me engano de novo, teve capa da Newlands. Caralho, exclamou a princesinha, QUE LIVRO CHATO! Eu não sei de onde tirei a ideia idiota de comprar um livro sobre a WWII. Detesto esse assunto, detesto, detesto, acho que já deu o que tinha que dar, chega, torrou a paciência, sim, tadinhos dos judeus e coisa e tal. Porreeeeeeee! Terminei porque sou teimosa e porque a ideia era razoavelmente original, então insisti. Mas jurei a mim mesma que nunca mais vou ler nada sobre esse assunto porque me irrita uma quantidade.

Pra me recuperar do trauma, voltei ao fantasy. Fui de The Steel Remains, que foi uma sensação quando lançado. Sim, o texto é bom; sim, tem algumas tiradas ótimas; não, não gosto das cenas de sexo desnecessárias e sobretudo da forçação de barra total sobre a homossexualidade do personagem principal. O cara é macho pra cacete, mas é bicha. E daí, você pergunta aos seus botões. Por que ficar jogando isso na nossa cara o tempo todo como se fosse uma coisa importantíssima? Ainda não decidi se vou continuar lendo a série.

Depois resolvi escolher um stand-alone, pra não ficar me desesperando enquanto o próximo livro não sai. Só que, sendo uma anta, não fui conferir na internet se o livro era realmente sozinho ou se parte de uma série. Adivinhem? É o primeiro de uma série. Adivinhem quando sai o próximo? Em DOIS MIL E ONZE! Puta que me pariu. De qualquer maneira, gostei pra caramba: The Name of the Wind. A resenha fala de uma mistura de Harry Potter com sei lá o que mais, porque uma parte da história se passa em uma universidade, mas achei o paralelo meio forçado. O cara escreve bem pra caramba, a história é envolvente e eu fiquei com ódio de mim mesma por ter escolhido um livro que acaba em cliffhanger e a continuação só sai ano que vem. Merda. Meu único problema com esse livro foram os nomes dos personagens. Kvothe? Que merda de nome é esse? Jack e David? Oi? Metade dos personagens tem nomes inventados de fantasy, quase sempre no mesmo nível de horror de “Kvothe”; a outra metade se chama Jack, Jimmy, Mary. Coisa mais broxante. Mas enfim, não se pode ter tudo, não é mesmo.

Li também os dois primeiros da série Millenium, e adorei. Engraçado como livro sueco é tudo muito parecido em termos de estilo; não sei se é mérito da tradução em inglês que uniformiza tudo, mas todos os que eu já li até hoje, de vários autores diferentes, me pareceram muito semelhantes. Tipo, você lê meia frase e imediatamente sabe que é uma parada sueca, embora eu não saiba nada sobre a Suécia. De qualquer forma, o bom dos livros é obviamente a história, porque de literatura ali tem muito pouco. Claro que já comprei o terceiro, que chegou ontem, e não vejo a hora de ler. Por favor ignorem as capas.

Não resisti e voltei pro fantasy. Dessa vez peguei um Guy Gavriel Kay que tava me olhando da estante há o maior tempão: Ysabel. Não chega aos pés das outras obras-primas dele, mas dá bem pro gasto, principalmente porque se passa na França. Nham. E aí lembrei que tem um livro novo dele saindo, e os reviews são fenomenais, e acabei dando um pre-order na Amazon e agora estaria roendo as unhas de ansiedade pra ler o bichinho, se eu fosse o tipo de pessoa que come as unhas. Pra matar o tempo enquanto Under Heaven não vem, estou relendo Tigana, sempre dele, depois de muuuuito tempo. A edição que eu tenho foi um Couchsurfer que deixou de presente no ano retrasado; ele já tinha lido e não queria ficar carregando aquele murundu pra cima e pra baixo (mais uma razão pra você se inscrever no Couchsurfing: hóspedes frequentemente deixam livros que não querem levar durante as viagens). Tinha esquecido como esse livro é bom, putz.

Que horas eu leio isso tudo? Meia horinha (cof cof digamos que um pouco mais) antes de dormir. Infelizmente não tem outro jeito; tenho que abrir mão de horas de sono pra poder ler. Mas eu sou o que eu leio, e por isso prefiro dormir menos e passar o dia em zumbi mode, sinceramente. Quando leio Lúcia-Já-Vou-Indo pra Carol depois da mamadeira quem já vai indo sou eu, mas felizmente a Carolina agora pega no sono rápido e eu vou correndo pra baixo do meu edredom pra ler mais uns capitulozinhos básicos. E assim vamos que vamos.