Arquivo de novembro de 2009

Incidência de TSI em espécimes de Carolinus filhadepacae

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Abstract

O presente estudo analisa a incidência e o caráter de Terríveis Semanas Insones (TSI) em espécimes de Carolinus filhadepacae, com o objetivo de determinar suas causas e de identificar possíveis soluções. Episódios de TSI tem grande importância econômica e de saúde pública, visto que genitores com déficit de sono rendem menos no trabalho e tendem a dirigir mal, comportar-se mal com terceiros, comer mal e pular sessões de exercícios físicos.

Materiais e métodos

O estudo foi realizado observando um espécime de Carolinus filhadepacae no seu habitat natural, em dois meses consecutivos (outubro e novembro de 2009).

Descrição

No mês de outubro de 2009 o espécime em questão apresentou somente uma TSI, após a qual voltou a sleep through the night (STTN) como vinha fazendo anteriormente. Durante a TSI de outubro o espécime não só despertava várias vezes durante a noite, mas não era capaz de adormecer novamente, permanecendo por longos períodos (de 1 a 3 horas) em um estado que os observadores chamaram de “assanhamento intenso”. Tal estado incluía ficar em pé, falar, rir, escalar os genitores e procurar brinquedos. Entretanto, era claro o estado de necessidade intensa de sono, pois o espécime continuava a esfregar os olhos com as mãos e a coçar a cabeça, sinais claros de vontade de dormir.

O episódio de TSI no mês de novembro de 2009 durou quase o mês inteiro, mas assumiu um caráter completamente diferente. De fato, não houve poucos episódios de despertar total com assanhamento intenso e atividade física acelerada, mas sim numerosos episódios de leve despertar, não necessariamente relacionados à perda da chupeta, rapidamente resolvidos com apenas alguns segundos de colo.

Conclusão

A diversidade dos episódios e a ausência de relações óbvias com eventos particulares levou os observadores a concluir que sua possível causa seja o aparecimento da primeira dentição, que apresenta sintomas claros (esfregação das gengivas, excesso de salivação, irritabilidade, resmungos contínuos).

Mais estudos são necessários para determinar possíveis soluções para o problema, visto que os tradicionais geis contra dor nas gengivas e paracetamol não foram eficazes. Espera-se, contudo, que não haja mais episódios de TSI nos próximos meses.

o crucifixo

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Essa semana aconteceu uma coisa extraordinária.

A Corte Europeia dos Direitos Humanos decidiu que crucifixo em sala de aula viola a liberdade de religião, e condenou o estado italiano a pagar uma quantia praticamente simbólica como indenização por danos morais à mulher que recorreu à Corte, uma finlandesa de cidadania italiana (a história completa está aqui, com a entrevista feita com a família, em italiano). Fiquei emocionada quando ouvi a notícia e mais ainda depois que soube que todo o suporte legal foi dado pelos advogados da UAAR, da qual sou sócia. Ficamos todos emocionados, embora tudo o que está acontecendo agora fosse altamente previsível.

De maneira geral, todos os políticos criticaram a decisão, lógico, porque ninguém tem coragem de ficar contra a Igreja. Berlusconi já disse que vai recorrer, claro. Vários prefeitos disseram coisas tão simpáticas quanto “podem morrer todos eles, mas o crucifixo fica”. Outros escreveram cartas aos diretores das escolas “convidando-os” a expor o crucifixo nas salas. Os argumentos de quem é contra a decisão são dois, e vamos combinar que são os clássicos argumentos de quem não pensa: 1) o cristianismo é uma tradição italiana (imediatamente neguinho comentou, no fórum da UAAR, “vamos pendurar uma pizza em cada sala de aula então!”), e 2) o crucifixo é o símbolo do laicismo italiano. Tipo assim, hellooooooooo crucifixo laico? Oquei, oquei, não dá pra discutir, lógica não é o forte dessa gente.

O problema, logicamente, não é o crucifixo propriamente dito. É um símbolo, de péssimo gosto, por sinal, e mais nada. O problema, como sempre, é o que está por trás dele. E o que está por trás é exatamente esse comportamento arrogante desses prefeitos que, em vez de obedecer a uma lei europeia que tem poder legal na Itália, e que está certa, visto que segundo a constituição italiana este país é laico, fazem comentários absurdos como esses acima. Vou contar outra historinha pra ilustrar melhor.

Há alguns dias morreu uma senhora idosa em Padova (Pádua). Declaradamente ateia e mãe de um membro ativo da UAAR, ela tinha declarado expressamente que não queria nenhum ritual religioso quando morresse. Mas o padre da paróquia local, que fica rondando o hospital onde a velha morreu, cismou que quer dar a extrema-unção. Não só cismou: disse que assim que a família relaxar a vigilância ele vai lá dar os paramentos escondido, que o hospital “é casa dele e ele faz o que quiser”.

Minha mãe diz que nesses casos é melhor deixar pra lá porque jogar aquela aguinha idiota e vomitar meia dúzia de palavras sem sentido sobre uma virgem que pariu um deus “não faz mal”. É claro que não faz mal, já que rezar tem o mesmo efeito de ler uma receita de sopa de cebola, ou um trecho do Código Civil, ou o manual da sua máquina de lavar roupa. O problema não está na reza propriamente dita, assim como não está no crucifixo propriamente dito. Está no poder intocável que esses parasitas católicos tem, no dinheiro que eles sugam, na lavagem cerebral que fazem, no atraso no qual insistem em deixar esse país (e metade do planeta) impedindo as pessoas de pensar por si mesmas e de criticar o que quer que seja. Isso tem que acabar. TEM QUE ACABAR. Essa gente horrível tem que entender que nem todo mundo pensa como eles, que nem todo mundo está cagando pro que eles dizem, que tem gente que quer que vão todos pra puta que o pariu e que parem de indoutrinar as crianças, que a religião é, de verdade, the root of all evil. Se ninguém fizer oposição nunca eles vão continuar intocáveis sempre. Toda revolta tem que começar de algum modo, e espero que esse tenha sido um sinal de que uma lenta mas decidida onda anticatólica está se formando.

O resultado do recurso vai sair em breve, e se a decisão da Corte não mudar essa vai ser a solução final pra história; não há mais possibilidade de recurso ou apelo. Se assim for, vai abrir precedentes. E o dia em que a Carolina entrar na escola, se tiver crucifixo na sala de aula o bicho vai pegar, amiguinhos.

piuí

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Eu adoro andar de trem. Acho um meio de transporte fenomenal. Além das vantagens óbvias – não polui, é mais barato – ele tem duas outras que eu considero fundamentais: é MUITO mais seguro do que andar de carro entre os motoristas selvagens aqui da Bota, e, putz, DÁ PRA LER! Dá-pra-ler. Dá pra ler no trem, cês tão entendendo? (Alguém vai dizer “ler ou trabalhar”, mas eu sou daquelas que acredita que o trabalho aborrece o homem, dá trabalho demais e atrapalha a vida, por isso tento pensar no assunto o menos possível. Além do mais acho que o lento passar da paisagem é perfeito pra descansar os olhos do livro, pra repetir mentalmente uma bela frase, pra tentar lembrar o nome de um personagem, pra absorver uma descrição e fazê-la funcionar no céLebro.)

Aqui na Itália, e em particular no interior da Libéria, onde eu moro, os trens são uma merda. São sujos (vocês devem lembrar da história dos carrapatos) e atrasam sempre, sempre, sempre. Não lembro se eu cheguei a comentar aqui, mas uma vez perguntei ao hominho da estação em Perugia por que raios o trem das 19:15 estava sem-pre atrasado, e a explicação dele me deixou de boca aberta. Vou tentar explicar brevemente antes de continuar com a minha reflexão ferroviária.

Os tipos de trem em circulação por aqui são os seguintes: diretto, regionale, inter-regionale, InterCity e Eurostar. Nunca entendi a diferença entre os três primeiros, que são os famosos catejecas. O InterCity é melhorzinho mas na única vez que peguei achei o trem velho demais pra diferença de preço. O Eurostar é o bam-bam-bam dos trens: custa beeem mais caro, tem beeeem menos paradas, em teoria é beeeem mais rápido e, ao contrário dos catajecas, seu bilhete tem dia e data pra usar e lugar marcado.

Pois então. O tal trem das 19:15 de Perugia pra Foligno, que era o que eu pegava pra descer em Assis, fazia conexão com um Eurostar que vinha de Milão. Como passageiro de Eurostar que perde conexão é reembolsado, a empresa prefere atrasar TODAS as conexões se o Eurostar partir com atraso pra não ter que reembolsar os passageiros desse trem. Os passageiros de todos os outros trens que se fodam. Então tá né.

Mas então. Como eu já cansei de dizer aqui, a Itália é lanterninha europeia em praticamente tudo, e no caso dos trens também não faz por menos. Além do transporte de passageiros ser ridiculamente eficiente, o transporte de mercadorias por via ferroviária é um dos menores da Europa: só 10% de tudo o que circula no país viaja de trem. É muito, muito pouco. Isso eu fiquei sabendo ontem, vendo Report (que eles pronunciam “réport”…), o único programa de jornalismo investigativo da televisão italiana, aproveitando que a Carolina chapou às nove da noite depois de um megaprograma de índio (more on that later). Em um certo ponto do programa começou-se a falar do acidente em Viareggio que matou mais de trinta pessoas em abril desse ano. O trem de carga simplesmente saiu voando dos trilhos e foi parar entre as casas ao redor da ferrovia. Não se sabe exatamente o que houve ainda, mas basicamente o lance é o seguinte: uma peça de um dos vagões estava fodidaça, com uma rachadura gigante. Tinha sido construída em 1974, na Alemanha. Aí a parada começou a ficar interessante: o vagão tinha sido matriculado na Alemanha e mais tarde foi vendido a uma empresa americana, apesar de fazer a linha Novara-Nápolis e portanto jamais sair do país. Segundo os acordos entre a Ferrovia dello Stato e as empresas de transporte, o dono de cada vagão é responsável pela manutenção, de modo que a Ferrovia dello Stato diz que a culpa foi dos alemães que não fizeram a revisão com ultrassom, o que teria evidenciado a rachadura; a empresa alemã diz que fez a revisão em novembro de 2008 mas que não encontrou defeitos e que portanto o problema era outro. Disso tudo ficou certa uma coisa: o que circula de trem caindo aos pedaços por aí não tá no gibi, porque não é possível inspecionar todos os trens que entram na Itália vindo de outros países (inclusive porque eles não são capazes de inspecionar nem os trens deles mesmos…) e porque, com essa confusão de não saber de quem é o quê, fica difícil apurar quem é responsável por qual coisa. Tudo muito confuso. E muito perigoso.

Não pego trem há muito tempo, mas estávamos considerando ir de trem a Firenze pegar meu visto americano no final do mês e mudamos de ideia. Vai que o nosso vagão também foi construído em 1974 na Alemanha e não fizeram ultrassom nele…