Arquivo de junho de 2008

finalmente!

segunda-feira, 30 de junho de 2008

[ring ring]
[paca] Pronto.
[voz feminina] Vieira?
[paca] Sì.
[voz feminina] É a polícia.
[paca, raciocinando] Ãn.
[voz feminina] Teu documento tá pronto.
[paca] AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!!! ALELUIA!
[voz feminina, rindo] Sabia que você ia gritar! Pode vir hoje, se quiser, eu estou aqui até as duas.
[paca] Tô indo, tô indo!

Fiz uma fornada de cookies com gotas de chocolate e lá fui eu correndo pra Assis pra pegar o maldito documento no Commissariato. Quem me ligou, e quem estava lá sozinha, porque os colegas estão todos de férias, foi a minha policial preferida, a que há anos renova os meus documentos e que me reconhece sempre (”você não é aquela dos mil sobrenomes?”). Atacou os cookies, agradeceu e me mandou embora rindo, “agora tão cedo a gente não se vê!”.

O novo permesso di soggiorno por motivos familiares vence só em 2012, e até lá, espero fervorosamente, a minha cidadania portuguesa já terá saído e não terei mais que me preocupar com essas coisas de pobre. A missão da semana agora, então, é encontrar passagens baratas com a RyanAir de Perugia pra Barcelona, porque temos um casal de CouchSurfers que nos convidam praticamente todo mês, e além disso tem o José, que está indo passar uma semana lá com a família e tem um apartamento livre nos esperando. Yaaaaaaaaaaay!

viajando sem sair de casa

domingo, 29 de junho de 2008

Tá certo, a gente até que viaja bastante. Mas nada comparado ao que muitos dos nossos hóspedes CouchSurfers fazem. A maioria das pessoas que recebemos está viajando pelo mundo há meses. Algumas têm empregos portáteis, como eu, outras simplesmente vendem tudo e vão dar uns rolés por aí, outras alugam a casa ou apartamento na cidade natal e se mantêm com essa grana. Se pra mim e pra você esse conceito é meio estranho mas interessantérrimo, pros italianos é motivo de susto e incredulidade, e a reação deles é INEVITAVELMENTE o comentário “mas você é maluco!”. Não preciso nem dizer que ouvimos esse mesmo comentário várias vezes quando contamos que jamais nos casaríamos na igreja, e quando ficam sabendo que não sou batizada, e principalmente quando digo que jamais, JAMAIS JAMAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAIS batizarei filho nenhum.

Mas, cara, se você pára pra pensar esse povo que passa a vida viajando tem, no final das contas, muito menos despesas do que eu e você, que ficamos em casa pagando impostos, água, luz e gás, academia, mensalidade do carnê do Baú. Claro que não é pra todo mundo, tipo eu tenho tendências acumulativas e adoro comprar – nunca voltei de viagem nenhuma sem uma mala extra com coisas inúteis ou não compradas in loco – e isso causaria problemas logísticos de uma certa gravidade. Mas pra quem é menos materialista a coisa é perfeitamente possível, e não só isso: fundamental. Viajar é FUNDAMENTAL. Como respirar.

Hoje, com o meu trabalho portátil, se eu estivesse sozinha faria o que essas pessoas fazem. O Mirco não pode fazer uma coisa dessas porque a profissão dele envolve possuir um galpão cheio de equipamentos pesados, mas sei que ele também faria, se pudesse. Então, enquanto não se chega a uma solução ideal, recebemos gente do mundo inteiro, e viajamos com eles.

Já falei muito do CouchSurfing aqui, e vou continuar propagandeando o site sempre, porque a idéia é bárbara. Fora os americanos bizarros que desaparecem da sua vida depois de ir embora e que não trazem nem um cartão-postal de presente, mantemos contato com praticamente todo mundo que já passou por aqui, e temos convites pra nos hospedar em tudo que é lugar. Mas sobretudo conhecemos muita, muita gente muito, muito interessante.

Em maio recebemos duas garotas da Estônia superdocinhas, dois amores. Tiraram fotos lindas da Toscana, pra onde foram depois que saíram daqui. Antes delas tivemos um casal de americanos gays que foram hóspedes absolutamente deliciosos. Jantamos na varanda uma noite e batemos papo até altas horas. Junho começou com um pitéu, mas um pitéu, meninas, que vocês não imaginam: um jovem cirurgião belga com um sotaque francês absolutamente tchutchuco, um sorriso de fazer fêmeas desmaiarem, alto, bonitão, suuuuupergentil e educado. Não é engraçado mas acha graça de tudo, e também foi um hóspede ótimo. No dia seguinte à sua partida chegou um rapaz da África do Sul, 23 anos, louro, alto, bonitão, sorriso Colgate, simpático e curioso. Levamos o menino a Bevagna, pra ver Le Gaite, o festival medieval que rola todo ano em julho. Jantamos comida medieval, fomos servidos por meninos e meninas vestidos a caráter, ouvimos música medieval, visitamos uma das Gaite (um métier, digamos; cada bairro tem dois ou três), que era a fabricação da seda. Vou falar mais disso mais tarde porque foi muito bacana.

Anteontem chegou um rapaz indiano com a namorada alemã. Ele é advogado, deixou o apartamento alugado em Mumbay e está viajando com essa grana. Conheceu a namorada em Goa, onde ela estava de férias durante um período de intercâmbio profissional em Delhi. O e-mail que ele me mandou pedindo hospedagem não foi exatamente exemplar, mas ele é amigo do Benny, o irlandês que trabalhou comigo lá no manicômio e que foi quem me apresentou ao CouchSurfing. O Benny é uma das pessoas mais extraordinárias que eu já conheci, e todo amigo dele é amigo meu. Então assim foi que na sexta levamos os dois de novo a Bevagna, que eles adoraram, e ontem jantamos indiano aqui em casa.

Descobrimos que indiano é meio italiano: fanático por comida ao ponto de levar sempre alguma coisa típica quando viaja. No caso do Rahul ele viaja com uma icebox que faz um barulho danado e tá lá ligada na tomada perto da porta da sala, pra não incomodar. Dentro tem frutas tropicais compradas em lojas especializadas em Berlim, ervas e especiarias típicas, pacotes de comida semi-pronta que é só misturar com água ou ovos ou sei lá o quê e pronto. O jantar de ontem estava absolutamente DELICIOSO e agora de manhã a casa toda ainda estava perfumada de curry e arroz com cravo e anis. Eles ainda deram sorte porque o vizinho de baixo estava dando uma festa e tinha música italiana rolando no gramado (Rahul disse que ele estava se sentindo dentro da cena inicial do Poderoso Chefão, com aquela gente tocando pandeiro e cantando muito, muito alto). Vão levar pra casa uma garrafa de azeite e uma de limoncello; nós ganhamos um pacote de curry pra frango, incenso, um porta-moedas indiano, um cartão-postal lindo. E dois novos amigos, que é a coisa mais importante.

uêba

sábado, 21 de junho de 2008

Achamos passagens miraculosamente baratas pro Rio em setembro. Ainda mais miraculosas porque, vocês sabem, o meu problema burocrático dificulta muito as coisas: enquanto meu permesso di soggiorno definitivo não chegar, não posso pisar na área Schengen, que é praticamente toda a Europa menos a Grã Bretanha, e isso limita muito o meu leque de opções na hora de viajar, excluindo as companhias européias. Dessa vez vamos de Alitalia até Milão e de lá com a Tam pra SP e depois Rio.

Minha lista de coisas pra fazer e comprar e de pessoas pra visitar no Rio já tem umas três páginas. E olha que eu escrevo pequeniniiiinho…

maturità

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Essa semana os estudantes italianos estão sofrendo com as provas chamadas “esami di maturità”, um primo distante do vestibular (porque é o governo que faz a prova e não as faculdades, mas é preciso passar pra poder entrar pra universidade). Tudo muito parecido com o que acontece no Brasil: fica-se falando do assunto a semana inteira, os estudantes reclamam do volume de coisas pra estudar, discute-se a roupa que os alunos usam quando vão fazer as provas, reclama-se do calor (que chegou só ontem à Bota), etc.

Quase todos os anos rola algum problema com as provas, mas dessa vez a coisa foi séria. Em primeiro lugar, a prova de italiano tinha um erro grosseiro: uma questão pedia pra comentar o papel da mulher em uma poesia de Montale (um chato de galochas), quando na verdade o poema tinha sido escrito pra um homem, um amigo seu. Um problema também na prova de grego antigo (sim, aqui ainda estudam-se grego antigo e latim), que parece que tinha um pronome faltando. A prova de inglês tinha erros descritos como inacreditáveis.

O mais legal foi que dez minutos antes da prova o site studenti.it mostrava as questões e as respostas, com direito à imagem escaneada do problema de matemática e tudo! Sempre vaza alguma coisa, não tem jeito. E apesar dos celulares proibidos, é lógico que muita gente usou e abusou dos SMS em telefones escondidos sabe-se lá onde, e as perguntas e respostas apareciam em tempo real nos celulares dos pais, enviadas pelos filhos, teoricamente incomunicáveis nas salas onde foram feitas as provas.

Esse país é realmente uma pândega.

burô

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Se você acha a burocracia brasileira um pé no saco, experimenta dar um pulinho aqui na Bota.

Meu pedido de renovação do permesso di soggiorno foi feito em maio… DO ANO PASSADO! Com o documento provisório que te dão até o definitivo chegar eu posso fazer tudo – tirar novos documentos, renovar a carteira do sistema de saúde, abrir minha própria atividade, o que eu quiser – menos uma coisa crucial: botar os pezinhos em países da área Schengen. Que inclui praticamente toda a Europa, à exceção da Grã Bretanha e da Suíça (essa última só até o final do ano, quando assinarão o tratado).

O dedo na ferida: a partir desse mês a Ryan Air passa a ter vôos diretos de Perugia pra Barcelona (atualmente só tem Londres, que é caríssima e chata, e Frankfurt, que não me interessa). Mirco achou um vôo ontem por 10 euros, taxas incluídas. MAS NÃO PODEMOS IR PORQUE O MALDITO DOCUMENTO NÃO CHEGA! Poderia estar dando um pulo em Paris pra visitar a Newlands, mas não posso. A Hunka vem pra cá em setembro e quero ir a Praga visitá-la, mas se o documento não chegar até lá, nada feito. Veja bem, uma passagem pra Barcelona por DEZ EUROS significa que o cidadão tem a obrigação moral de ir. Ele simplesmente TEM QUE. E eu que quero, não posso! Ódio.

Ô pai, dá uma agilizada na cidadania lusitana da mamãe, plís (é muito mais rápido por aí, logicamente), porque essa vida de subdesenvolvido já encheu e eu também quero ser civilizada. Não vejo a hora de chegar a minha vez.

lo stato sono io

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Desculpem, mas não consigo mudar de assunto.

Berlusconi está tentando aprovar um decreto que suspende por dois anos os processos com penas inferiores a 10 anos, em teoria pra “agilizar os processos mais longos e graves”. O processo pendente contra ele está na primeira categoria. Além desse decreto salva-premier ele também já avisou que não aceita a juíza desse seu processo, com a desculpa que ela é claramente de esquerda, de acordo com declarações e textos seus encontrados online, e portanto parcial. Os juízes estão putos, putos da vida, e a coisa está esquentando. A falta de uma esquerda forte e conseqüentemente de uma oposição forte deixou Berlusca com as rédeas tão, tão soltas que ele está literalmente deitando e rolando, e a minha esperança é que chegue uma gota d’água que seja realmente a última, e alguém, pelamordedeus, alguém se rebele e faça alguma coisa pra parar esse homem!

Enquanto isso, desbarataram um esquema que rolava na Sicília que funcionava assim, ó: a maçonaria (que pra quem não sabe inspirou vários grupos mafiosos italianos e não) tinha gente infiltrada nos tribunais e cortes sicilianos, e juízes comprados pra simplesmente não tocar processos contra mafiosos, não fazer nada, até que os crimes entrassem em prescrição. Estamos falando de crimes pros quais a pena pedida era a prisão perpétua, vejam bem! Não sei direito os detalhes da descoberta do esquema, mas felizmente foram presos vários juízes e vários maçons, e os processos estão sendo trabalhados pra mandar os mafiosos pra prisão.

Vocês tinham alguma dúvida de que eu sempre torço contra a Itália? Juro. Ainda mais quando jogam contra a França, que eu adoro, e ainda mais quando jogam pior, o que acontece quase sempre. Acho horrível que haja lugar no esporte pra sorte; os italianos ontem jogaram pior, os dois gols que fizeram foram por sorte ou por erro da França, eles forçam faltas no adversário. E comemoram como se tivessem feito um jogão, sacam. Isso me deixa irritada assim bem mais que um pouquinho. Mas ninguém disse que a vida é justa, e olhe a Itália indo pra frente no Campeonato Europeu e a França eliminada sem ter merecido. Domingo a Itália joga contra a Espanha, que tem um time ótimo. Acendamos velinhas.

da série “pára a Itália que eu quero descer”

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Quando você acha que chegou ao fundo do poço, algo acontece e te prova que fundo do poço tem porão.

Não contente com esse lance da proibição de publicar escutas telefônicas (com pena de até 3 anos de prisão pro jornalista que publicar, e obrigatoriedade de uma junta de juízes pra solicitar uma escuta), a notícia do dia é que agora Don Berlusca quer passar uma lei que proíbe processos contra os premiers (lembrem-se de que ele foi absolvido de tipo OITO há alguns anos, alguns por prescrição do crime, e ainda há outros pendentes atualmente). Não, não estou ficando maluca; leiam de novo: o premier quer uma lei que dê imunidade total aos premiers. Na minha terra isso se chama ditadura; e na sua?

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Essa semana o governo decretou que pra resolver o problema da segurança pública o que tava faltando mesmo era o exército. Então deslocou 2500 soldados em 15 grandes cidades do país, pra ajudar a patrulhar as ruas. O problema, como sempre, é que não se sabe bem o que acontecerá quando um soldado vir, por exemplo, um ladrão roubando uma loja, suponhamos uma joalheria, que é coisa bastante comum por aqui (comum pros padrões europeus, bem entendido). Visto que, como em todos os países do mundo, quem cuida da segurança interna é a polícia, e SOMENTE a polícia, em teoria o soldado em questão deverá chamar a polícia pra pedir autorização pra agir.

Quem mais já tá careca de saber que essa palhaçada não funciona levanta a mão.

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E a raiz do problema, onde estará? Todos os dias ligo a TV religiosamente às 7:30 (a essa hora já acabei de malhar e estou tomando café) na La7, único canal que presta, pra ouvir o Enrico Vaime. Já falei dele aqui, mas vou falar sempre mais, porque é uma das poucas cabeças pensantes desse país estranho. Hoje o assunto era a educação. Os professores italianos são muito mais numerosos do que em outros países europeus; são também os mais mal pagos e os mais velhos. Há alguns anos tentou-se criar um sistema de avaliação periódica dos docentes da escola pública, dando aumentos e incentivos aos que se saíssem melhor; os professores se revoltaram e fizeram uma greve que durou séculos. Como tudo aqui, as escolas também funcionam na base do pistolão, e se o sistema da meritocracia fosse realmente introduzido metade desse povo sairia voando pela janela. Uma pesquisa com os estudantes mostrou que 80% deles ODEIA a escola – veja bem, não aquela coisa normal de aluno que reclama mas na verdade fica contente quando volta às aulas: ODEIA foi o termo utilizado – e que não sei quantos por cento acreditam que a educação não serve pra nada, já que basta conhecer as pessoas certas pra arrumar um bom emprego (leia-se um emprego onde não se faz absolutamente nada e ganha-se bem). Os alunos não têm o menor respeito pelos professores; as salas de aula são uma bagunça desgraçada, e o professor praticamente fala sozinho. Vejo isso na minha turma na faculdade; isso tem que ter começado em algum lugar, e certamente foi na escola elementar. Os pais têm menos respeito ainda, e volta e meia há casos de professor surrado pelos pais porque deu nota baixa a um aluno. “Como o senhor ousa dar essa nota ao meu filho?” é o clássico sinal de alarme antes dessas surras. Os pais detestam os professores porque acham que trabalham pouco (os três meses de férias), não sabendo que ensinar é uma coisa muito, muito, MUITO cansativa e que as tardes livres na verdade são passadas preparando as aulas, preenchendo papelada, corrigindo deveres e provas. E tem o lance das férias, que o Vaime comentou muito naturalmente mas eu acho tão nonsense que jamais passaria pela minha cabeça: se o professor manda o aluno em recuperação, a família não pode sair de férias. E férias aqui são sagradas, porque senão como é que o povo vai se tostar na praia? Não se esqueçam que aqui na Europa poucos moram em cidade de mar, que normalmente são estações balneárias que só funcionam no verão, e mesmo os que moram o ano todo não têm, nem de longe, a relação que os brasileiros têm com a praia. Praia é igual a férias, e férias é igual a praia. Criar problemas desse tipo é uma coisa grave por aqui.

Estou ficando muito cansada de tudo isso.

hm

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Eu não sei vocês, mas eu achei o trailer de Hellboy II MUI-TO maneiro. Não sei do que se trata e não vi o primeiro, mas esse é dirigido ou produzido, já não lembro, pelo diretor do Labirinto do Fauno. E os efeitos, meus queridos, são fodaaaaaaa. Quero ver.

italianices

quinta-feira, 12 de junho de 2008

O escândalo da semana é tão escandaloso que eu não tenho palavras pra descrever.

A polícia desmantelou um esquema em uma clínica de Milão, do qual participavam médicos e enfermeiros, e que prejudicou centenas de pessoas nos últimos anos. Prestem atenção: os cirurgiões simplesmente falsificavam laudos e operavam pacientes de coisas que não tinham, “escolhendo” as patologias que pagam mais ao médico. Exemplo: paciente com tuberculoma foi operado com o diagnóstico de câncer do pulmão, porque o médico recebe por um tumor quase dez vezes mais do que por um tuberculoma ou outro nódulo bobinho. Não só o paciente não ficou curado, porque tuberculose se cura com antibióticos e não com cirurgia, como voltou ao ambiente de estudo ou trabalho, já não lembro mais, e contaminou outras pessoas. Paciente com nódulo fibroso no seio, operada de mastectomia com diagnóstico falso de tumor de mama, porque, novamente, tumor paga mais. Paciente que quase sofreu uma tireoidectomia absolutamente sem necessidade. Entre outras coisas igualmente fofinhas.

As conversas telefônicas gravadas eram assim de dar calafrios. Os cirurgiões ficavam putos da vida quando alguém contestava o “diagnóstico” ou pedia mais exames complementares. E quando alguém da administração pediu que eles fossem mais cuidadosos ao abrir material esterilizado, porque a esterilização é cara pra cacete e se você abre um pacote e depois não usa tem que mandar pra esterilizar outra vez, o cirurgião prontamente respondeu: olha, se pra vocês isso é um problema eu posso perfeitamente usar o parafuso [da embalagem aberta, e portanto não mais estéril] em um paciente idoso, com pouca expectativa de vida… Prestem atenção de novo: estava-se falando de um parafuso pra prótese óssea, que é portanto enfiado DENTRO do osso do paciente com um instrumento muito parecido (leia-se igual) a uma furadeira Bosch. Ao contrário do que pode parecer, o osso não é uma coisa morta, mas um órgão muito vivo, sim senhor, e ainda por cima com a medula óssea no interior (se for osso longo tipo o fêmur), produzindo as células brancas de defesa e as vermelhas carregadoras de oxigênio (e que são meio lemmings, se auto-extingüem em 120 dias, “suicidando-se” lá no baço, por isso a necessidade constante de repor as que morrem) sem as quais não vivemos. Osteomielite (a infecção dos ossos e da medula óssea) é uma coisa muito, muito difícil de tratar, dolorosa pra cacete e deformante, e não importa se o paciente tem 100 anos e muito provavelmente não vai passar do próximo outono; ninguém merece. Digamos que eu, que normalmente sou contra a pena de morte, apesar do que possa parecer, acho que nesses casos o requinte de crueldade seria inclusive um complemento de muito bom tom.

Além dos pacientes diretamente prejudicados, muitos dos quais morreram na sala operatória, a coisa toda criou problemas pros outros 800 funcionários da clínica, que se viram sem trabalho e sem salário (a clínica foi fechada e todos os pagamentos suspensos), e pros outros não sei quantos pacientes, que precisam de tratamento e ficaram de mãos abanando. Legal, né.

Enquanto isso, na Sala da Justiça, Berlusca quer porque quer aprovar a lei que proíbe a publicação de toda e qualquer escuta telefônica. Coisa de quem tem rabo preso, lógico, porque como diz o Tonino (ex-Ministro da Infra-Estrutura e meu ídolo político por essas bandas), quem não faz besteira não tem medo de ser pego. Que nojo de homem, nojo, nojo, nojo. A minha esperança de que a opinião pública se rebele contra essa lei idiota depois do escândalo na tal clínica, que só foi descoberto justamente através das escutas telefônicas, é praticamente nula; estou aqui há tempo demais pra achar que alguém liga pra alguma coisa.

Bush está visitando Roma, que, como vocês sabem, é tudo na vida, e a cidade está totalmente bloqueada. O trânsito, que já é uma delícia, está pior ainda. Não sei quantos mil policiais foram deslocados pra fazer a segurança das ruas por onde o senhor DWI vai passar. Estacionar ficou mais impossível do que o normal. E pra completar a pantomima, foram retiradas não sei quantas caçambas de lixo das ruas, pra não estragar o visual, digamos assim. Vocês reclamam do Lula, mas ele pelo menos tem a desculpa de ser pobrinho e ignorante, no controle de um país pobrinho e ignorante. Aqui na Bota a desculpa qual é?

A impressão que eu tenho é a de estar testemunhando a queda do Império Romano.

P.S.: Hoje, se não me engano, Bush e Berlusca vão encontrar o Papa. Uma bombinha bem mirada resolveria tantos problemas, né não… Longe de monumentos históricos, por favor.

next stop…

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Istambul. Uma cidade que eu morro de vontade de conhecer, há anos. Achamos passagens e hotel baratos pra agosto, na semana do dia 15, quando a oficina do Mirco fecha pra férias. Poucos dias, mas vai dar pro gasto. Estou curiosíssima. Aceitam-se dicas e recomendações.