Arquivo de agosto de 2006

inclua-me fora dessa

quinta-feira, 31 de agosto de 2006

E hoje tive aula com o aluno mais escroto do mundo.

O cara tem uma malharia, faz suéteres. É conhecido na cidade por não pagar impostos, não fazer jamais uma fatura, usar material de décima qualidade e fazer produtos de qualidade duvidosa, vendidos por camelôs a imigrantes sem gosto e sem dinheiro. O galpão dele é ao lado do antigo galpão do concessionário do pai da Chiara, e ela contou que há alguns anos a Guardia di Finanza baixou no galpão do cara, de metralhadora em punho (adorei esse detalhe cinematográfico), pra vasculhar tudo. O cara sumiu por meses, sabe-se lá onde (provavelmente no Brasil, onde ele tem casa), e a multa chegou a dez milhões de euros.

Enfim. Eu não sabia de todo esse background quando conheci a figura. Entra esse hominho barrigudo, com cabelos tingidos de acaju, óculos Valentino horrorosos, sapato de pele de cobra. Fala boa tarde e passa por nós como um raio, indo direto lá pra cima, conversar com a chefa, deixando no ar um rastro de perfume em excesso.

Não é burro, lógico, senão não tinha feito a grana que fez. Disse que, se falasse inglês, seria a terceira potência mundial, depois dos EUA e da Rússia. Palavras textuais suas, e tive que me controlar pra não rir, lógico. Tem duas Ferraris, que ele dirige “em pista” nos fins de semana. “Andare in pista” e “fare shopping” são as únicas suas atividades recreativas – palavras dele. Então: não é burro, mas nem preciso dizer que não estudou nada, e por isso não entende nada. Eu falo devagar – JURO! – e ele nada. Boto a fita e ele reclama que falam rápido demais (não é verdade, cacete, é um livro didático!). Mas o pior de tudo é a mãozinha. Porque quando eu estou explicando uma coisa, normalmente pela décima vez, ele acha que entendeu (mas não), e começa a falar junto comigo, explicando a sua teoria. Além do horror de interromper os outros, que eu acho uma das coisas mais terrivelmente grosseiras do mundo, ele ainda levanta a mãozinha, como quem diz, deixa o papai aqui falar, filha. Caracaaaaaaaaaaaaaaaa! Cada vez que ele levanta aquela mãozinha eu me imagino em um desenho animado, pegando aquele braço peludo bronzeado nojento, dando um golpe de caratê e jogando o bicho no chão.

Como desgraça pouca é bobagem, ele quer ter aula todos os dias. Matem-me, por favor.

novos bichos

quarta-feira, 30 de agosto de 2006

Almocei na casa da Simona hoje, e conheci Gilda, a cachorrinha que a companheira da veterinária do gato da Simona achou na rua, abandonada. É uma figura, totalmente pointer mas sem rabo, abana a bunda loucamente, te olha desconfiada com a língua de fora, é alegre. Mas não se dá bem com Pidocchio (piolho), a gata preta, que é surda e por isso não pode sair de casa.

Vou pedir pra Simona me mandar uma foto da Gilda pra botar aqui e vocês vão ver que simpatia : )

de onde viemos? pra onde vamos?

terça-feira, 29 de agosto de 2006

A mutant gene in a beaver is just a change in one letter of the billion-letter text; a change in a particular gene G. As the young beaver grows, the change is copied, together with all the other letters in the text, into the beaver’s cells. In most of the cells the gene G is not read; other genes, relevant to the workings of the other cell types, are. G is read, however, in some cells in the developing brain. It is read and transcribed into RNA copies. The RNA working copies drift around the interior of the cells, and eventually some of them bump into protein-making machines called ribosomes. The protein-making machines read the RNA working plans, and turn out new protein molecules to their specification. These protein molecules curl up into a particular shape determined by their own amino-acid sequence, which in turn is governed by the DNA code sequence of the gene G. When G mutates, the change makes a crucial difference to the amino-acid sequence normally specified by the gene G, and hence to the coiled-up shape of the protein molecule.

These slightly altered protein molecules are mass-produced by the protein-making machines inside the developing brain cells. They in turn act as enzymes, machines that manufacture other compounds in the cells, the gene products. The products of the gene G find their way into the membrane surrounding the cell, and are involved in the processes whereby the cell makes connections with other cells. Because of the slight alteration in the original DNA plans, the production-rate of certain of these membrane compounds is changed. This in turn changes the way in which certain developing brain cells connect up with one another. A subtle alteration in the wiring diagram of a particular part of the beaver’s brain has occurred, the indirect, indeed far-removed, consequence of a change in the DNA text.

Now it happens that this particular part of the beaver’s brain, because of its position in the total wiring diagram, is involved in the beaver’s dam-building behaviour. Of course, large parts of the brain are involved whenever the beaver builds a dam but, when the G mutation affects this particular part of the brain’s wiring diagram, the change has a specific effect on the behaviour. It causes the beaver to hold its head higher in the water while swimming with a log in its jaws. Higher, that is, than a beaver without the mutation. This makes it a little less likely that mud, attached to the log, will wash off during the journey. This increases the stickiness of the log, which in turn means that, when the beaver thrusts it into the dam, the log is more likely to stay there. This will tend to apply to all the logs placed by any beaver bearing this particular mutation. The increased stickiness of the logs is a consequence, again a very indirect consequence, of an alteration in the DNA text.

The increases stickiness of the logs makes the dam a sounder structure, less likely to break up. This in turn increases the size of the lake created by the dam, which makes the lodge in the centre of the lake more secure against predators. This tends to increase the number of offspring successfully reared by the beaver. If we look at the whole population of beavers, those that possess the mutated gene will, on average, tend therefore to rear more offspring than those not possessing the mutated gene. Those offspring will tend to inherit archive copies of the self-same altered gene from their parents. Therefore, in the population, this form of gene will become more numerous as the generations go by. Eventually it will  become the norm, and will no longer deserve the title “mutant”. Beaver dams in general will have improved another notch.

The fact that this particular story is hypothetical, and that the details may be wrong, is irrelevant. The beaver dam evolved by natural selection, and therefore what happened cannot be very different, except in practical details, from the story I have told. (…) You will notice that in this hypothetical story there were no fewer than 11 links in the causal chain linking altered gene to improved survival. In real life there might be even more. Every one of those links, whether it is an effect on the chemistry inside a cell, a later effect on how brain cells wire themselves together, an even later effect on behaviour, or a final effect on lake size, is correctly regarded as caused by a change in the DNA. It wouldn’t matter if there were 111 links. Any effect that a change in a gene has on its own replication probability is fair game for natural selection. It is all perfectly simple, and delightfully automatic and unpremeditated. Something like this is well-nigh inevitable, once the fundamental ingredients of cumulative selection – replication, error and power – have come into existence in the first place.(…)

The Blind Watchmaker (Richard Dawkins) – Chapter V – The power and the archives (o negrito é meu)

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Eu acho tudo isso de uma beleza indescritível. Como é possível alguém precisar de deus sabendo de todas essas coisas? A vida é infinitamente mais bonita vista pela biologia do que pela religião. Qualquer uma. É chocante de tanto que é bonita. Chocante.

hm

segunda-feira, 28 de agosto de 2006

Revolução lá na agência hoje. Depois da minha aula que termina às dez, subi pra traduzir e caí na reunião geral, com as novas meninas que estão trabalhando no planning, no lugar da Vanessinha, que fez muito bem em sair daquela gaiola das loucas e já achou emprego em Perugia, e da Laura, que ganha mais e se estressa menos escrevendo horóscopo pra jornal. Várias mentiras foram soltas no discurso da chefa, como sempre, inclusive a loucura de que todo mundo lá dentro se dá suuuuuuuuperbem. Mas pelo menos ganhamos cadeiras novas. Ainda estamos desconfortáveis, porque as escrivaninhas são altas demais e meus cotovelos estão cobertos de calos, além da dor nos ombros. Mas melhor do que nada.

Então agora estamos com um setor de planning com três meninas completamente inexperientes: uma é amiga da chefa, o que não é boa coisa, e, nunca tendo trabalhado de verdade na vida, é completamente lenta e zen, despreocupada demais pra um trabalho desses. As outras duas jamais fizeram nada de parecido na vida. Vamos ver no que vai dar. Ainda bem que só fico lá em cima por algumas horas por dia…

outro programa de índio

domingo, 27 de agosto de 2006

Como se não bastasse o programa de índio gastronômico de ontem, hoje acordamos às cinco da manhã pra passar em Ponte San Giovanni, onde mora a nova namorada do Moreno, encontrar com os pombinhos e nos dirigir a Castiglione della Pescaia, na Toscana, na costa do mar Tirreno. Não é longe do lugar onde estive com os Salames há dois anos, lembram? O Moreno faz mergulho e queria mergulhar no fim de semana. Nós, em vez de aproveitar o domingo pra dormir, acompanhamos os dois, que têm empregos SUUUUUUUUUPERlight e nunca estão cansados nem preocupados com dinheiro, acordamos de madrugada e enfrentamos três horas de carro numa estrada bonita mas cheia de curvas.

Castiglione é bonitinha, mas nada de especial. Moreno tinha achado na internet uma companhia que faz passeios de barco de um dia, com almoço a bordo e tudo. Escolhemos um que ia até a Isola del Giglio e depois até a Isola di Giannutri, ambas parte do Arcipelago Toscano, um parque marinho protegido por lei. Moreno todo babando com o mar, aaaah, uuuuuh, e eu pensando, vê-se que você nunca foi a Angra, né, filho. O Tirreno é muito mais bonito e limpo do que o badalado Adriático, dizem (nunca vi a costa Adriática e não posso dizer), mas definitivamente não é o Caribe. Caribe mesmo é a Sardenha, parece. Não sei, vocês sabem que o assunto mar não me interessa, absolutamente.

Enfim. A viagem até o Giglio dura duas horas e aproveitamos pra dormir, todos tortos, apoiados nos braços sobre a mesa como crianças de castigo na escola. Chegamos ao Giglio às onze e pouco, e foi o tempo de subir com o ônibus até a parte antiga da ilha, onde há um castelo fortificado, dar uma olhada rápida e voltar. O que eu sei sobre a ilha é só o que o capitão do barco, muito simpático, explicou: que antigamente havia alguma atividade de agricultura, mas como a ilha é toda rochosa, não era muito prático, e quando começou essa coisa do turismo de massa toda a atividade da ilha se voltou pra isso. Hoje não se planta bissolutamente nada na ilha. O nome não significa lírio (que é o que significa giglio), até porque ali não há flores mas só cactus e arbustos de aspecto africano, ressequidos e retorcidos, mas parece que tem origens gregas: os navegadores antigos largavam cabras nas ilhas por onde passavam, de modo que, se precisassem aportar, tinham uma reserva de comida. Parece que a palavra que deu origem a “giglio” significava cabra. Muito romântico.

A ilha mesmo não tem nada de particular: só tem três praias, duas das quais não utilizáveis porque absolutamente rochosas. A única praia de areia, chamada Campese, é realmente bonita vista do alto, com o mar turquesa e tal, mas é relativamente pequena, entupida de gente, e, como tudo na Europa, caríssima. Mas o castelo é interessante e foi uma pena não termos tido mais tempo pra passear pelos becos.

À uma da tarde embarcamos de novo e almoçamos a bordo: risoto de frutos do mar, fritto di mare (anéis de lula, polvinhos e camarões fritos) e torta de damasco. O tempo, que pela manhã cedo estava estranho e oferecia o risco de não permitir a ida até Giannutri, finalmente melhorou, e lá fomos nós.

Se o Giglio já é ridiculamente pequeno, Giannutri é um ovinho de codorna. Só tem uma família que vive ali em modo regular – são 11 pessoas. Há algumas dezenas de casas de praia, de gente milionária que conseguiu construir ali antes que tudo virasse parque de proteção ambiental e fosse proibido fazer casa. A minúscula ilha só tem dois lugares onde é possível atracar, mas tem também uma vila romana, em estado lastimável, que nem nos demos ao trabalho de ir ver de longe porque está fechada pra restauração. Ficamos na praia mesmo, de cascalho. Eu, que odeio mar, fiquei na sombra de um barco lendo Dawkins, enquanto o Mirco e Moreno dormiam ao sol e Marta, que é professora de natação, dava seus mergulhos. A água é bonita, mas tem muito ouriço, o chão não é de areia mas de cascalho, ou seja, escuro, e a praia é realmente minúscula. Passado o nosso tempo de recreação, começou a trovoar e chuviscar. Todo mundo correndo pro barco, voltamos pra Castiglione della Pescaia. Dormimos os quatro durante as duas horas de viagem. Tomamos banho no quarto de hotel onde o Moreno dormiu e fomos jantar na casa de um amigo dele.

Queridos… Acho que vou entrar no negócio de venda de peixe. O cara vende peixe, mas vocês têm que ver a casa dele. Piscinona, dois andares, toda equipada, gramadão, tudo novinho, tinindo. E um cachorro lindo, Coby, um labrador banana que não saiu de perto da gente o tempo todo, rezando pra que caísse algum mexilhão pros lados dele. Comemos pra cacete, tudo fresquíssimo, lógico – entrada fria de batata e lulinhas, mexilhões, depois spaghetti com mexilhões e vongoli, depois fritto di mare, e, finalmente, sorvete que tínhamos comprado na cidade. Diliça!

Saímos de lá tardão e, como as placas de trânsito na Itália têm a desagradável mania de desaparecer depois de um certo ponto, fomos parar em Grosseto em vez de pegar a direção geral de Siena. Perdemos uma meia hora. E ainda encontramos um monte de lerdos na estrada, voltando do fim de semana como nós. A estrada é estreita e não dá pra ultrapassar, e levamos um tempão pra chegar em casa.

Foi legal? Foi. Mas eu teria preferido ficar em casa. Pelo menos o Mirco deu uma dormidinha…

sábado, 26 de agosto de 2006

Minha faxineira ganha mais do que eu, porque não paga impostos, e tira férias mais longas do que eu. Isso que é democracia.

E é por isso que hoje passei o sábado faxinando e passando roupa, adubando as plantas, coisa que me prometi fazer todo sábado até o inverno chegar, e arrumando a casa. Mirco trabalhou o dia inteiro e aproveitei a tarde pra examinar o novo catálogo da IKEA, que já está online. Sinceramente? Adoro esses sábados perdidos : )

À noite fomos jantar com Moreno e a sua nova namorada, Marta, na festa da lesma. Só os meninos gostam de lesma, mas como tem sempre alguma outra coisa pra comer – torta com lingüiça, penne alla norcina – resolvemos topar. Mas além da fila imensa, só tinha lesma no menu! Acabei me acontentando de um sanduíche de lingüiça, mas com esse maldito pão umbro sem sal. Ô programa de índio!

auguri!

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

Não comentei, mas perdi outro casamento: Hiro, o japonês mais popular do Rio de Janeiro, casou com a Fabulosa Barbara no domingo. Tenho certeza de que foi uma festa muito maneira e fiquei tristíssima de não poder ir. Quando recebi o convite, que chegou junto com o DVD de Curtindo a Vida Adoidado, deu aquela dor no coração. Mas agora que eles estão vindo pras Zoropa a gente vai dar um jeito de dar um pulo em Londres pra visitá-los : ) Aguardem-nos, meus amores : )

não reclamem

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

que os posts estão longos. Diarinho de viagem é mais pra mim do que pra vocês.

Dawkins

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

Em vez de levar o Dickens pra viagem, que pesa muito, levei The Blind Watchmaker, do Dawkins. Não consegui terminar porque estava sempre cansada demais pra ler na cama, mas já detonei a metade. E estou adorandooooooo. Porque é tudo o que você sempre quis saber sobre a vida na Terra, uma diliça. Fora que, já falei, sempre gosto de lembrar dos termos médicos e biológicos que já fizeram parte da minha vida mas hoje não mais.

Como é bom aprender! Tem gente que se realiza trabalhando. Eu acho uma bosta trabalhar, apesar de gostar do que faço. Se pudesse não trabalharia nunca, jamé, sai pra lá. Mas aprender coisas me deixa completamente doidona. Nessas horas eu fico querendo ter filhos crescidos pra discutir animadamente coisas como meiose, capacidade de replicação do DNA, RNA ribossomal e transportador, qual é o sentido da vida (o sentido da vida é mandar o DNA pra frente, e só, e quer missão mais nobre?).

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Já mandei o pedido de inscrição pra universidade de novo. O documento que faltou no ano passado já chegou. Será que dessa vez vai?

desabafim

terça-feira, 22 de agosto de 2006

Como foi bom ter ficado em casa ontem! Passei a manhã inteira subindo fotos pro Flickr e guardando os panfletos, bilhetes e ingressos da viagem na pastinha que criei pra não perder essas coisas, que tipicamente se espalham pela casa e caem no limbo infinito de onde nunca mais saem. Almocei com o Mirco, passei roupa à tarde e fui comprar fruta fresca na Rita. Tive uma leve enxaqueca, é verdade, mas fingi que não era comigo pra poupar um comprimido.

E agora estou me preparando psicologicamente pra voltar a trabalhar.

Não me levem a mal, acho ótimo finalmente ter um contrato de trabalho decente e todos aqueles direitos trabalhistas legais, mas é que trabalhar longe de casa (leia-se não almoçar em casa) é chato pacas. E ter chefe maluca é muuuuuito desagradável. O pessoal do “nosso” lado da força está todo debandando. Só sobramos eu, Simona (que está procurando outras paragens) e Stefano, que é mais ou menos imune à loucura da chefa. O resto já foi-se. É tão chato trabalhar assim! Podia ser uma coisa tão legal. Só gente jovem, motivada, um trabalho interessante (falo da agência de tradução), clientes do país inteiro e tradutores do mundo inteiro, uma casa linda com vista pro rio e cerejeira no quintal… Mas é um porre. Impressionante como uma maçã podre inutiliza um barril inteiro de maçãs legais. Uma maluca consegue infernizar a vida das pessoas ao redor de uma maneira realmente impressionante. Quero ver até quando EU vou resistir. Porque vocês sabem que eu não tenho nem papas na língua nem paciência com gente maluca, e ainda por cima vulgar. Aturo muita coisa, mas vulgaridade não.