Arquivo de maio de 2005

passeio na roça

terça-feira, 31 de maio de 2005

Eu sou uma criatura da luz.

Não estou dizendo luz no sentido esotérico-babaca da palavra, mas me refiro à luz do sol mesmo. O inverno acaba comigo não só porque o frio é um porre, mas também, e sobretudo, pela curta duração do dia.

Agora que o sol nasce cedo, eu levanto junto com ele, antes das seis. Sempre dormi e acordei com as galinhas, mas no inverno esse levantar é sofrido e gloomy. Com o sol brilhando lá fora e um céu lindo me esperando, ao contrário, acordo no maior pique. Meu dia dura uma eternidade, consigo fazer um monte de coisas, tenho muito mais disposição.

E então deixo o Mirco dormindo, faço café pra ele, tomo um iogurte de morango ou banana e vou correr, ouvindo Elvis e outras coisinhas. Cumprimento todos os velhinhos que encontro, que àquela hora vão limpar suas artérias andando de bicicleta devagariiiiiiiiiinho, sempre de chapéu e paletó. Ainda tá fresquinho e minha corrida rende muito mais, faço quase todo o meu percurso direto, sem parar toda hora como acontece se saio mais tarde, quando já tá quente pra cacete, porque aí o baço dá aquelas cutucadas falando pega leve, minha filha, que nesse calor eu não güento a onda não. Vou correndo meio devagar, porque afinal de contas não sou atleta e sou grande e pesada, ouvindo minha musiquinha, e observando a roça ao meu redor.

Engraçado como a gente nem repara nas plantas que nos rodeiam, até que elas mudem. Meus conhecimentos botânicos são vergonhosamente limitados, mas sei reconhecer um flamboyant, um ipê, uma mangueira, uma bananeira – coisas que não existem aqui. Mas nunca tinha reparado com muitos detalhes na paisagem por essas bandas, e só fui notar, chocada, o abismo entre os tipos de vegetação quando descemos em Foz do Iguaçu no começo do ano. Enquanto os verdes tropicais são exagerados, berrantes, e sempre definitivamente verdes, aqui há verdes acinzentados, verdes azulados, verdes muito escuros, verdes pálidos. Os tipos de pinheiro são tantos que já nem sei mais. As cercas-vivas vêm em milhões de variedades. As plantas nos jardins e nas varandas não têm nada a ver com as que vemos no Brasil. Nada de samambaia, árvore da felicidade, açucena, copos-de-leite, dólar. Aqui o grande must são os gerânios, as cafonérrimas rosas, prímulas, tulipas, oleandros, petúnias.

Mas o mais legal desses passeios é acompanhar o ritmo de crescimento das plantas que já reconheço. O trigo já está começando a amarelar; campos vizinhos às vezes já estão com cores muito diferentes, dependendo de quando foram semeados. O milho cresce literalmente a olhos vistos, e se não fosse essa porcaria de festa barulhenta tenho certeza de que à noite, no silêncio da roça, seria possível ouvir as plantas crescendo. O milho é uma planta feinha, mas as espigas barbudas são muito simpáticas. As videiras, que há dois meses eram carecas e totalmente podadas, agora já estão repolhudas, verdes e lindas, como irmãs de mãos dadas em loooongas fileiras. As oliveiras, que não mudam nunca e só se enchem de azeitonas lá pra novembro, aparecem em muitos jardins, e freqüentemente são plantadas no início de cada fileira de videiras, não sei por qual motivo. Em frente a uma casa aqui perto tem uma oliveira que é claramente centenária e deve valer alguns milhares de euros. Eu adoro oliveiras; junto com as mangueiras e os ficus são as minhas grandes paixões arbóricas. Há muitos, muitos pessegueiros. No meu percurso de corrida vejo também macieiras e muitos arbustos de folhas pequenas que não conheço, encontro caminhões que carregam porcos, vacas e galinhas, cachorros latem pra mim, vejo velhinhos colhendo alface na horta e velhinhas catando erba campagnola na beira da estrada, uma espécie de capim que aqui se come refogado e eu acho horrendo, vejo tratores que levam bandejas imensas de isopor contendo mudinhas de tabaco. Nas hortas e nos jardins das belas casas reconheço as plantas azuladas de alcachofra, os pés de batata que já estão enormes e dão lindas florezinhas brancas, muitas variedades de alface, plantinhas de tomate, ainda jovens, favas e ervilhas, cenouras, e alho. Agora é a época do alho, que se come ainda fresco. Você tira da terra e ele parece uma cebolinha, não tem ainda uma cabeça dividida em dentes mas é um bulbo branquiiiiinho, de sabor muito suave. É só cortar em rodelas fininhas, usando até a parte verde, e refogar rapidamente ou misturar na salada pra dar um tchan. Vejo imensas moitas de alecrim que, ao contrário do meu, dá mini-flores lilás. Lilás também são as flores de sálvia – a minha floresce sempre, o tomilho também.

Só falta o Leguinho, que sempre me acompanhou nas corridas. Sinto falta dele.

kittens

segunda-feira, 30 de maio de 2005

São cinco fêmeas, as filhotas da Priscilla. Todas parecidas, a não ser essa preta, que é danada de arredia e eu só consegui fotografar pela primeira vez ontem. As outras são umas pestes, pentelham os cachorros, se enfiam entre os pedaços de lenha no depósito, comem espaguete com molho de tomate e mamam o tempo todo. A Priscilla é a mãe mais zen que eu já vi: aquelas cinco pestes pisando na cara dela, mordendo o rabo dela, mamando com a maior força, e ela nem tchum: calma, lânguida, de olhinhos fechados. A gente pega os filhotes no colo e ela nem liga, fica lá sentada, os olhinhos piscando, a boca aberta em um bocejo.

roncadores, beware!

domingo, 29 de maio de 2005

Por causa da sensacional repercussão do assunto spray anti-ronco, vamos desenvolver melhor o argumento.

O ronco é, na maioria dos casos, causado pelo atrito de estruturas das vias respiratórias superior, que resulta em barulho. A causa principal desse atrito anormal é uma lubrificação natural insuficiente. Uma outra causa comum do ronco é a obesidade, que pressiona estas mesmas estruturas, diminuindo o diâmetro das vias aéreas e coisa e tal. Muitas vezes o ronco vem acompanhado de apnéia do sono, ou seja, curtas interrupções da respiração, imediatamente seguidas de um roncão daqueles tão altos que é capaz de um sismógrafo conseguir registrar.

Quando perguntei ao Aluno Endocrinologista onde eu podia levar o Mirco pra ver esse lance do ronco, foi por causa da apnéia também, que eu não tinha certeza que um otorrinolaringologista era capaz de tratar. Aluno disse que sim, que um bom otorrino resolve o ronco, qualquer que seja sua causa. Ele deu três possíveis soluções pro problema, no caso de um ronco normal, sem necessidade de intervenção cirúrgica.

O primeiro é o que eu batizei de Método da Princesa e a Ervilha: consiste simplesmente em costurar algo volumoso pero no mucho, tipo um par de bolas de golfe, nas costas do pijama do roncador. Como a posição de barriga pra cima é a que mais favorece o ronco, as bolinhas fazem o que normalmente os pobres companheiros dos roncadores fazem: impedem o roncador de ficar naquela posição. Em vez de eu acordar com o ronco e cutucar o lanterneiro pra ele virar de lado, a bolinha não deixa ele ficar nem dois segundos de barriga pra cima, porque incomoda. Só que no nosso caso isso não funciona, porque o Mirco não dorme de pijama, mas com a camiseta limpa que vai usar por baixo da camisa no dia seguinte. Costurar e descosturar bolinhas todo santo dia é inviável, e por isso o método foi imediatamente descartado.

O segundo são aqueles adesivos que os atletas agora gostam de colar no nariz. Não tem nenhuma substância química envolvida, a ação é, novamente, puramente mecânica: através da sua estrutura muito bem bolada, o adesivo exerce forças mínimas sobre a cartilagem do nariz, abrindo muuuuuuuito ligeiramente as narinas e facilitando a respiração. Aluno Endocrinologista disse que uma vez experimentou o adesivo, porque achava que era uma coisa miraculosa estilo Facas Ginsu, e ficou impressionado como funciona. Nesse caso, se o roncador tem deficiência na parte alta das vias respiratórias, o adesivo pode ajudar.

O terceiro método é o tal spray, que ele disse que sabia que existia e funcionava mas não conhecia o princípio químico. A mulher da farmácia disse que não tem nada de estranho, simplesmente óleos essenciais que lubrificam as partes que entram em atrito, evitando o rumor. Paguei os 20 euros muito desconfiada e pensando em qual livro poderia comprar com esse dinheiro, mas não é que a coisa funciona? Você dá três borrifadas no fundo e no alto da garganta antes de dormir, depois de ter escovado os dentes e bebido água, espera vinte segundos e depois engole. E voilà, seu roncador parou de roncar. Aluno Endocrinologista ainda me arrumou, dias depois, um vidrinho de outro tipo de produto, que se injeta no nariz e se chama Ronfnyl, produzido ou distribuído, não sei direito, pelo laboratório italiano Geymonat, mas tem o mesmo mecanismo de ação. Funcionou do mesmo jeito, mas é fedido, enquanto que o spray pra garganta, que se chama Snoreeze, do laboratório inglês Passion for Life, tem gostinho de menta.

Lembrem-se de que apnéia do sono é um dos fatores de risco de morte precoce por cardiopatia em homens, e esses produtos não agem contra a apnéia, por isso, se o seu roncador suspende a respiração por breves períodos enquanto dorme, otorrino nele.

Middlesex

sábado, 28 de maio de 2005

Aliás, falando em livro.

Consegui terminar Middlesex, de Jeffrey Eugenides (autor de Virgin Suicides), à custa de muito esperar aluno atrasado e fila no banco e nos correios. Gostei MUITO, não tanto da problemática hermafrodita do personagem principal, mas da história da família de origem grega que migra pra Detroit. Desdemona é um personagem fenomenal e me fez abrir largos sorrisos. Gostei, gostei.

Agora estou com esse In Patagonia, de Chatwin, que não sei quando vou conseguir curtir, porque tenho milhões de páginas (algumas chatas, outras legais) pra traduzir com urgência, turmas novas pintando em horários surreais (sábado de uma e meia a três e meia, sexta das oito às dez da noite!), e na próxima semana um zilhão de faturas pra fazer.

Hoje acordei ainda com dor de cabeça e zonza depois de tanta música chata ontem à noite. Perambulei pela casa, inútil, até as nove, quando finalmente me convenci de que não tinha condições de sair pra correr debaixo do sol forte, com essa dor de cabeça. Dei uma mini-geral na casa e sentei pra escrever. E agora tenho que ir pra cozinha bater um bolo bem gostoso pro Ettore, que foi operado no ombro ontem à tarde e em teoria volta pra casa hoje. Mas cadê a vontade? Cadê a vontade de fazer faxina também? E a vontade de traduzir as coisas chatas? E de lavar o cabelo? E de dar aula até as três e meia da tarde? E de depois ir direto pra casa do Moreno, pra ajudar a mãe dele, que é uma simpatia, com os preparativos do jantar de hoje – finalmente as lesmas vão pra panela, e parece que a coisa vai ser trabalhosa.

Que vontade de passar alguns dias em animação suspensa, quase comatosa, pra descansar os neurônios.

uia

sexta-feira, 27 de maio de 2005

O dia foi pesadíssimo.

Antes das sete e meia eu já estava na oficina, botando a papelada em ordem. Às dez toquei pra Santa Maria, pra pegar umas coisas que um amigo do Mirco deveria ter deixado na recepção do hotel da família – lógico que o tal amigo saiu pra viajar de manhã cedo e com o recepcionista deixou só o telefone sem fio que esquecemos no carro que o Mirco consertou, mas o pagamento que é bom, nada. Aproveitei pra passar no Comune em Bastia pra deixar uma cópia do novo permesso di soggiorno, fui na USL (Unità Sanitaria Locale) pra renovar minha carteirinha do sistema de saúde, passei na Rita pra comprar fruta e verdura, nos correios pra pagar o imposto do lixo e pegar uma carta registrada que chegou pro Ettore (era uma multa que um dos marroquinos levou em março), e no fornecedor de tintas pra pegar dois latões de diluente. Passei em casa pra botar as frutas na geladeira, comi correndo uma salada de macarrão que já estava pronta desde ontem, toquei pra oficina de novo, desovei os latões e fui correndo pra escola. Meio-dia e meia F. chegou pra corrigir um artigo de filosofia comigo, à uma chegaram os outros dois mosqueteiros, fizemos nossa última aula (chuif!), quando saíram M. já tava lá fora me esperando (é estudante de Medicina, tem uma voz potentíssima e é muito, muito inteligente), quando acabei com ele chegou a Quarentona Estressada, que terminou às seis e meia. Direto pra Coop pra aproveitar as ofertas (suco de fruta em caixinha, queijo robiola, macarrão Buitoni, atum em lata), e dali pra casa. Passei roupa até meia-noite e meia, sempre ouvindo essa música miserável. Mirco chegou do jantar-reunião de amigos de escola primária quando eu tava saindo do banho. Ainda tão tocando essa bosta? Sim, caro, e continuaram tocando até uma e meia da manhã, quando finalmente ligamos pros Carabinieri e imploramos pra mandar uma patrulha aqui pra desligar a musiquinha de carrossel, porque tem gente que trabalha amanhã, queridos. Minha cabeça já tava explodindo. Reguei as plantas nas varandas e dormi com Bruce Chatwin na mesinha de cabeceira, untouched.

burocrazia

quinta-feira, 26 de maio de 2005

E então hoje fui à polícia federal pegar meu permesso di soggiorno, meu permit of stay. Foi um suplício, porque eu odeio, odeio, odeio falar ao telefone e sempre me engano, entendo errado, me confundo – em português também, não é uma limitação lingüística, mas acho que eu sou muito teatral e expressiva e não consigo me movimentar direito em situações onde não vejo a expressão do meu interlocutor. Sei lá, acho que é isso.

Então, por causa de uma cagada minha no telefone, entendi errado o que o Paoletto, primo do Moreno que é Carabiniere, me disse na terça. Perdi a manhã inteira em meio àquela gente esquisita, fedorenta, sem dentes e mal vestida, e invariavelmente acompanhada de crianças ranhentas e mal educadas. Uma fila de horas, rodeada de gente que não entende nada de italiano e não tem idéia do que está acontecendo, que leva documentos errados porque não entende nada de coisa nenhuma ou simplesmente porque não tem os documentos certos mas vai assim mesmo, pra ver que bicho que dá. Tudo isso pra nada, e só porque sou retardada telefônica, porque o documento já tava pronto. Liguei pra Assis, onde normalmente pego meu permesso, e ao dar meu sobrenome a Carabiniere, que eu reconheci pela voz, reciprocamente reconheceu meus cinco sobrenomes – aaaaaaaaaaah sim, sim, já sei quem é a senhora, senhora Vieira, o seu documento ainda não chegou, ainda não encontrei seu nome quilométrico esse ano. Ha ha. Não chegou porque eu mandei um fax a Perugia pedindo pra pegar o bendito papel lá, em vez de esperar séculos pra que ele fosse enviado pra Assis. Teoricamente isso permitiria que eu aproveitasse o contato com o Paoletto, que teria deixado o permesso com o Inspetor-Chefe, pra quem eu iria diretamente, sem fazer a fila entre os fedorentos.

Mas tudo bem, hoje fui mais preparada, e encontrei o Paoletto no portão e fui diretamente falar com a Inspetora-Chefe, que foi muito simpática e me deu o maldito papel azul na hora. Só fui constatar o brinde depois que já tava no carro, esperando o volante esfriar um pouco pra poder manobrar: dessa vez a validade é de dois anos. Maravilha! Um perrengue a menos na minha vida de albanesa, até que enfim.

festa

quarta-feira, 25 de maio de 2005

E hoje começou a Festa della Primavera aqui atrás de casa.

O primeiro dia é o melhor. Tradicionalmente a festa abre com um minifestival de bandas de rock locais, e o repertório costuma ser interessante, apesar das vozes terríveis. Hoje rolou muito Pearl Jam, um pouco de Stone Temple Pilots, Queen e até Elvis. Tocaram direitinho, deixei até as portas das varandas abertas pra ouvir melhor.

A partir de amanhã começa o suplício: Riccardi com sua franjinha crespa, músicos vestindo camisa de cetim vermelho, cantoras de meia arrastão e cabelos amarelo-ovo, polcas, mazurcas, musiquinhas de carrossel. Haja saco.

aluninhos

terça-feira, 24 de maio de 2005

Finalmente minha turma do hotel/restaurante tomou tento e resolveu se dedicar mais seriamente às aulas de inglês. Bom, mais ou menos, porque o W., aquele que não entende nada e esquece que tem aula, desistiu oficialmente. I., o filho da companheira de W., que morreu há alguns anos, levou um ai-ai-ai desta que vos escreve e desde então temos conseguido ter aula pelo menos uma vez por semana, às terças-feiras.

Como o tempo tá uma delícia e nossas aulas são das seis e meia às oito da noite, quando o sol não torra mais e um ventinho fresco arrepia os cabelinhos do braço, fazemos as aulas no jardim do hotel. Passarinhos cantando ao fundo, o jardineiro que apara a cerca-viva gigante com tesouronas igualmente gigantes, hóspedes idosos que tomam sol na porta do quarto, e nós estudando inglês para hotelaria e turismo, na mesinha de plástico verde no gramado, em meio às margaridinhas primaveris. Uma diliça.

I. é simplesmente a pessoa mais gentil que eu já conheci na minha vida. Um doce de menino. O nosso consultor (leia-se vendedor), que fez a entrevista inicial com ele e lhe vendeu o curso, outro dia veio comentar isso comigo. Caramba, que gente gentil, aqueles dois! É tão raro ver essas coisas hoje em dia que a gente até se espanta. Hoje levei um alfajor pra ele de presente, porque foi o único aluno que não ganhou (simplesmente porque levamos séculos pra conseguir nos encontrar desde que cheguei de viagem; eles são enroladíssimos e toda hora têm algum problema ou então esquecem que tem aula e somem). Ficou todo bobo, tadinho. A aula foi tranqüilex e cheguei até a ficar triste de não ter ido de lambreta, porque o tempo tava lindo. Adoro a primavera.

**

Terça também é dia de Aluno Endocrinologista, em Perugia, bem na hora do almoço. Ele é um cara muito divertido, com uma expressão facial difícil de se encontrar entre os umbros. Ele tá lá lendo um texto do livro, ou respondendo a um exercício, e de repente, do nada, começa a rir sozinho.

- Quê que foi, Stefano.
- Tô lembrando da velhinha.
- Que velhinha?
- Aquela que…

E aqui ele entra com uma piada, normalmente em dialeto perugino, o que significa que ele tem que me explicar porque a graça toda está justamente em certas palavras e expressões típicas de Perugia, enquanto que aqui no vale onde moramos fala-se uma variante do italiano bastante diferente em termos de pronúncia e léxico. Ou então conta um causo que aconteceu no ambulatório – todo médico ou ex-médico tem dúzias de histórias bizarras de pacientes pra contar. Até eu tenho várias, e olha que minha experiência no ramo foi muito limitada. Ele tem um estoque aparentemente infinito. Ficamos horas dando risada. Ou então é alguma coisa maluca que aconteceu com ele, como quando, tentando expulsar um sapo da varanda de casa, o sapo espirrou alguma coisa no olho dele. No dia seguinte ele acordou cego de um olho, e todos os colegas com quem ele falava estavam mais interessados na história do sapo do que nos sintomas do olho, porque achavam curiosíssimo esse negócio de sapo que esguicha. No final o olho voltou sozinho ao normal, depois de algumas semanas, mas agora toda vez que eu olho pra ele penso no sapo e dou risada.

Isso quando a mãe dele, que mora no mesmo prédio e me adora, não vem me perguntar como vai o filho, como se estivesse no conselho de classe da escola primária.

Como é bom conhecer gente engraçada! Como é VITAL conviver com gente engraçada! :)

essa bota tá apertando meus calos

segunda-feira, 23 de maio de 2005

A notícia da semana é a crise no país. Depois de meses e meses de Berlusconi e seus cabelos implantados afirmando categoricamente que essa história de crise é complô do centro-esquerda, que tudo vai muito bem, obrigado, embora todo mundo soubesse que tudo ia muito bem só pras nêgas dele porque as abobrinhas estão pelos olhos da cara, o macarrão aumenta a olhos vistos e daqui a pouco o pão vai virar artigo de luxo, especialistas da União Européia vieram aqui na Bota dar uma zoiada e constataram o óbvio: que a Itália está, literalmente, in mezzo alla merda.

Já discuti n vezes com o Ettore esse ano, porque ele acha que a queda no movimento da oficina é culpa do Mirco, que se recusa a atender clientes que não pagam e nos obrigam a botar advogado pra correr atrás do prejuízo. O gerente de um dos nossos bancos já tinha me cantado a pedra, há meses, de que, em mais de 30 anos trabalhando em banco, jamais ele vira tanto cheque voltando, tanta gente no vermelho, tanta queda no movimento em geral. Nossos amigos confirmam isso; todos que conhecemos relatam quedas brutais, brutais, no movimento das empresas onde trabalham. O lado bom é que a crise realmente não é só aqui em casa, o que não deixa de ser ligeiramente reconfortante. O lado ruim é que sabemos que nada vai mudar e o destino é, provavelmente, o porão do fundo do poço – a Itália foi comparada no rádio, outro dia, com Portugal e Grécia, os dois patinhos feios da Comunidade Européia. Há coisas alucinantes correndo soltas por aqui – pagamos mais de 400 euros de gás pelos três primeiros meses do ano aqui em casa, coisa que jamais acontecera antes, e quando fui à CEG local pra reclamar vi que não era a única, porque perdi a manhã inteira na fila em meio a gente com contas mais altas ainda do que a minha, apesar de morarem sozinhas, ou em apartamentos minúsculos, ou de viajar freqüentemente a trabalho e conseqüentemente quase nunca ligar o aquecimento. Um dos nossos bancos foi comprado por um conglomerado de bancos e o preço do talão de cheques pulou de 0,10 centavos pra 1 euro; a gasolina aumenta em ritmo meteórico; as contas de luz vêm sempre com valores sem pé nem cabeça, e nem adianta reclamar porque a resposta que recebemos é sempre “é assim mesmo, senhora”. Enquanto isso, clientes que sempre pagaram direitinho agora estão dando calote, implorando pra esticar prazos, chorando migalhas. Trabalho até que tem tido, porque caminhão na estrada é igual a caminhão que de algum jeito acaba se danificando e portanto precisa de conserto, e as máquinas industriais que o Mirco pinta são pra exportação, não muito dependentes da situação econômica local, mas é muito chato e desgastante ficar implorando pro cliente te dar o TEU dinheiro, que você ganhou com o suor do rosto.

O Mirco entra na categoria artigiano – artesão, uma palavra antiga que poderia ser traduzida como microempresário, nos dias de hoje. Os artigiani são os trabalhadores mais castigados do país. Normalmente têm atividades pouco salubres – Mirco freqüentemente volta pra casa com mechas coloridas nos cabelos e bolinhas de tinta nas pontas dos cílios – mas pagam impostos altíssimos, se aposentam mais tarde e ganham pensões menores. As leis trabalhistas são malucas, manter um funcionário custa caríssimo ao empregador mas não traz lindas vantagens ao funcionário, e assim a bola de neve vai se criando em uma velocidade assustadora. É claro que em uma situação assim os produtos italianos não podem ser competitivos. E não é só culpa da ameaça chinesa, que apesar de ter sua fatia de culpa não pode ser o único bode expiatório dessa história. A Itália é um país de gente pouco preparada, ignorante, de tecnologia atrasada em muitos setores, onde pesquisa é só uma palavra bonita no dicionário, de pouco contato com o resto do mundo, de superproteção ao presunto de Parma e nenhum interesse pelo que vem de fora, de gente que vive em um lugar incrivelmente rico de história e de arte mas não tem a menor idéia do que isso signifique, porque está preocupado demais em fazer os tortellini pro almoço de domingo. E agora Berlusca e seus capangas levaram um esporro da tal comissão da União Européia, porque estão fazendo tudo errado há anos, e contribuindo pra puxar ainda mais pro fundo a já nada simples situação do Velho Mundo.

O negócio é comprar uma fazenda na Austrália e passar a vida tosando ovelhas, já tô até vendo.

Excrusive Gianni outro dia achou umas passagens em oferta da Singapore Airlines pra Perth, se não me engano; se a notícia for confirmada, fica imediatamente decidida a próxima (e provavelmente última, por falta de grana) Grande Viagem de 2005.

Mais detalhes com a Ig, aqui.

bologna fiere

domingo, 22 de maio de 2005

Acordamos cedo e partimos na direção de Bologna pra tal feira de produtos pra consertar carro, caminhão, essas coisas legais. O dia tava esquisito, abafado, um calor desagradável. A estrada pra Emilia-Romagna, região onde fica Bologna, é TERRÍVEL. Deveria ser linda, porque atravessa vales cobertos de florestas. São quilômetros de estrada alta, como um viaduto longuíssimo, atravessando os Apeninos Tosco-Emilianos (entre a Toscana e a Emilia-Romagna). O visual é deslumbrante, mas a estrada é terrível, terrível, terrível. É o pavor dos caminhoneiros. O asfalto é esburacadíssimo, no melhor estilo Rio-Santos. Tudo está em obras há ANOS, então há milhões de desvios, tratores, luzinhas; zilhões de túneis, lógico, e, sendo domingo, uma infinidade de morrinhas. A coisa mais ridícula é que é uma estrada importantíssima, já que é a principal ligação entre quem está abaixo dos Apeninos e quem está acima. Se quiser evitar essa buracação toda, tem que ir até Florença e dar uma volta do cacete. Cesena, que fica do outro lado dos Apeninos, é um ponto rodoviário estratégico, e pra chegar lá tem que passar por esse viadutão todo. Mas é realmente uma pena, porque é uma área muito bonita. Já falei dela aqui, inclusive, quando fomos visitar a Fran, ainda morando em Faenza na época. Muitas casonas maneiríssimas de pedra, abandonadas no alto das colinas; cidadezinhas de 3 casas, com nomes curiosos; crianças tomando banho de rio. Aliás, falando em rio, ô rio pra dar voltas e mais voltas, esse Tiber! Toda hora a gente passa por cima dele. Vai meandrar assim na China.

A feira foi mais ou menos como no ano passado, embora menos interessante. A coisa legal é que, apesar de ser um assunto tradicionalmente masculino, há muitas mulheres no ramo. E não falo de pin-ups contratadas pra ficar atrás do balcão vendendo ferramentas das quais ela nunca ouviu falar, mas de proprietárias das empresas, ou filhas ou esposas do dono, que entendem muito do riscado e falam de parafusos, filtros de ar, fornos pra pintura de peças e equipamento de soldar com a maior desenvoltura. Legal, isso. Encontramos inclusive um stand de uma empresa brasileira de kit pra consertar pneu. Os meninos, muito simpáticos, confirmaram a nossa teoria de que domingo, sempre o último dia da feira, é o dia dos caçadores de brindes e de gente que leva a família pra olhar os caminhões e comer chocolatinhos de graça. Nós também caçamos brindes: voltei pra casa cheia de sacolas de plástico, que nunca são demais; algumas de pano, ótimas pra fazer compras; chaveiros, bonés, canetas, bloquinhos, pastas de papelão e outras coisas do gênero. Tudo aquilo me fez lembrar do primeiro congresso internacional a que fomos durante a faculdade, um mundial de Cardio no Riocentro que pra nós, pobres segundanistas, só serviu mesmo pra comer de graça e pegar tanto post-it e bloco de papel que até hoje eu escrevo com canetas da Schering-Plough, em folhas timbradas da Pfizer. E olha que eu me formei em 2001 e não cheguei a exercer.

Saímos da feira às três da tarde e fomos passear pela cidade. Só que tava realmente muito calor, e aquela abafação tirou toda a nossa vontade de bancar o turista. Àquela hora não havia um só restaurante aberto, e o que nos salvou foi, shame on us, o McDonald’s da estação. Comi uma saladinha com frango grelhado e molho de iogurte, chá de pêssego e um Chicken McNugget que o Mirco não conseguiu matar. Notei que, por causa dos mochileiros estranhos, dos drogados pseudo-hippies que vivem nas ruas e dos ciganos filhos da puta (ô raça miserável!), os banheiros são trancados, como no Rio, e pra lavar as mãos e fazer xixi tem que pedir a chave pra gordinha que limpa o chão. Mas tudo bem; de estômago cheio, voltamos pro carro e viemos embora.

Ainda tivemos forças pra jantar na festa do santo padroeiro de Castelnuovo, inaugurando assim o circuito das sagras. Gnocchi com molho de ganso e torta al testo com lingüiça, na companhia do Marco e da Michela, que eu pensei que fosse ficar mais chata com a gravidez mas, ao contrário, desenchatizou.