Hoje conheci uma vizinha na faculdade. Ela é romena, feia que nem a fome, casada com um romeno, e mora no prédio mais alto de Bastia, horroroso, aqui do lado de casa. Nem simpática nem antipática, contou que não sente falta nenhuma da terra natal e que quase nunca volta, que parou de trabalhar pra estudar (e mesmo assim tem notas MUITO mais baixas do que as minhas), tem bolsa de estudos, que o marido é pedreiro, que mora há onze anos na Itália. Me deu uma carona até Ponte San Giovanni, que no final atrapalhou mais do que ajudou porque tive que andar um pedação com o laptop, a bolsa, a sacola com os lanchinhos que levo quando passo o dia na faculdade e não quero sair pra almoçar. Um Ford Focus último tipo. Quando trabalhava ela era garçonete. Eu nem posso ir de carro quando quero pra Perugia, porque meu carro é velho e polui, e em certos dias só veículos novos e menos poluentes podem entrar. Mas a garçonete tem um Ford Focus último tipo. O mundo é mesmo muito estranho.
Arquivo mensais:novembro 2007
uni
A faculdade aqui é assim: cada hora de aula tem oficialmente realmente 60 minutos de duração, mas na prática há o maldito “quarto d’ora accademico”, os 15 minutos de folga não-oficiais que nenhum professor ousa desrespeitar. Então quando você vê duas horas seguidas de alguma coisa no seu horário, fique sabendo que vai ter no máximo, se der sorte, uma hora e meia de aula. Porque tem o quarto d’ora accademico antes, a pausa pro café no meio e a saída antecipada no final. Ainda por cima as primeiras aulas dificilmente são antes das onze da manhã, senão os alunos reclamam que é cedo. Vai gostar de mamata assim na casa do chapéu. Por isso que a Itália não vai pra frente.
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Hoje assisti à aula de Informatica Generale I com o primeiro ano (perdi as provas no ano passado porque caíram sempre quando eu tava viajando). O professor é novinho, branquiiiiinho, cabelos preto-graúna, com um bico-de-viúva invejável no meio da testa. O coitado até traz o laptop mas rola sempre algum problema com o projetor e ele nunca consegue dar aula direito. Tenho a impressão que ele não tem muita experiência como professor, porque fala muito baixo e pula metade dos slides que mostra, dizendo que não são importantes, além de dizer várias coisas seguidas de “podem até esquecer isso que não tem importância”. Tipo assim, você até pode incluir curiosidades pra deixar a aula mais interessante, mas os alunos devem ter a capacidade de entender o que é importante e o que é floreio, né não. Eu, hein.
êeeee!!!
Comprei uma bicicleta nova.
A que eu usava antes tinha vários defeitos. O principal era que não é minha, mas do Mirco. Mas também é mountain bike e por isso o quadro é alto, ou seja, nada de saia, não tem cestinha, não tem farol, e o selim é duro. Então passei na loja de um velhinho vesgo famoso em Bastia e escolhi a minha, ontem de manhã. Fiquei de passar pra pegar à tardinha, depois que ele fizesse os ajustes necessários, mas como voltei tarde da faculdade não deu. Hoje a última aula foi transferida pras dez da manhã, então quando voltei larguei o carro na garagem e fui a pé até perto da estação pegar a bici. A bichinha é linda! De alumínio, cinza opaco e preta, selim confortabilíssimo, faróis alimentados a pedaladas, uma cestinha perfeita pra trazer minha compras da Coop, tranca embutida na roda. Vim feliz da vida pra casa, aproveitando que não tava muito frio, e cheguei em casa tão contente e animada que fui fazer ginástica outra vez. Só espero que o frio demore bastante a chegar pra eu poder curtir a magrela nova sem ter que esperar o próximo verão.
murder she wrote
Durante o feriado encontraram uma estudante americana morta na casa onde morava, pertinho do estacionamento onde eu paro o carro quando não consigo ir de ônibus pra Perugia. Do ladinho do prédio principal da Università per Stranieri, o Palazzo Gallenga. Meus colegas de turma nem sabem direito onde fica porque depois da reforma dos outros prédios praticamente todas nossas aulas foram transferidas pros novos edifícios. Mas eu estudei no Gallenga em 2002 e conheço bem a área; a casa da garota é visível do estacionamento.
Ela estudava Letras na outra universidade de Perugia, mas como quem pensa em estudante, estrangeiro e Perugia imediatamente pensa na minha faculdade, o clima anda muito estranho. Os acusados são a roomate americana da vítima, seu namorado italiano e um rapaz do Congo, muito conhecido na cidade por trabalhar como RP de muitas boates e pubs. Parece que as provas científicas são definitivas, embora esteja rolando uma história de álibis de ferro. O caso é que ela foi degolada. Degolada. A hipótese inicial é que ela teria se recusado a participar de uma noite de sexo, álcool e drogas, e por isso foi morta.
E daí que logicamente não se fala de outra coisa na cidade inteira, e em todo o país o comentário é como Perugia virou uma cidade invivível, cheia de estudantes idiotas que passam o dia bêbados coçando o saco e degolando colegas. Eu não moro em Perugia nem nunca morei, mas meus colegas dizem que não mudou nada nos últimos anos: a cidade sempre foi recheada de estudantes universitários, que realmente bebem muito como em toda cidade universitária, e os imigrantes não-estudantes não moram no centro e normalmente não têm carro, então de maneira geral não freqüentam o centro histórico. Quando vamos a Perugia à noite a cidade tá sempre entupida de jovens que ficam subindo e descendo a rua principal, como em toda cidade do interior que não oferece nada de melhor pra fazer. Eu não tenho medo de andar no centro à noite sozinha, embora haja vielas escuras que todo mundo evita – e, segundo dizem, sempre evitou. Então realmente não sei se a coisa tá pior ou melhor do que há dez ou vinte anos atrás. Mas o incidente foi muito desagradável, e logicamente a minha faculdade espera uma certa queda no número de inscrições pros próximos cursos de italiano pra estrangeiros.
os livros
1. Papel Manteiga (Cristiane Lisbôa)
2. The Funny Farm (Jackie Moffat)
3. O Dom da Amizade (Colin Duriez)
4. Istanbul (Orhan Pamuk)
5. The Extended Phenotype (R. Dawkins)
6. A Spot of Bother (Mark Haddon)
7. The Turn of the Screw (H. James)
8. Luuanda (José Luandino Vieira)
9. A Distância Entre Nós
10. The Historian (E. Kostova)
11. Inchiesta su Gesù (Corrado Augias + Mauro Pesce)
12. Ti Prendo e Ti Porto Via (N. Ammaniti)
13. Alentejo Blue (Monica Ali)
14. Love Over Scotland (Alexander McCall Smith)
15. La Pista di Sabbia (Andrea Camilleri)
16. Harry Potter and the Deathly Hollows
17. A Year in the Merde (Stephen Clarke)
18. Quando la Rucola Non CEra (Enrico Vaime)
19. The God Delusion (R. Dawkins)
20. Collapse (Jared Diamond)
21. Fragile Things (Neil Gaiman)
22. Special Topics on Calamity Physics (Marisha Pessl)
23. Thinner (Stephen King)
24. El Club Dumas (Arturo Perez-Reverte)
25. Lord of the Flies (William Golding)
26. Neverending Story (Michael Ende)
27. The Comfort of Strangers (Ian McEwan)
A lista não inclui os livros da faculdade.
un problema non indifferente
A Itália tem poucos imigrantes, quando comparada com a França, a Alemanha, a Áustria. Desses poucos que tem, mais poucos ainda são pretos, ao contrário de França e Inglaterra: como a Itália não tem ex-colônias, os imigrantes que chegam aqui não vêm por afinidade com a língua ou costumes, como “efeito rebote” do período colonial, por acordos entre países. Vêm porque basta atravessar o Mediterrâneo de barquinho – as ilhas menores da Sicília, como Lampedusa, estão praticamente na África. Então temos muitos marroquinos, alguns tunisianos. E muitos albaneses, que chegam do outro lado do mare nostrum.
Os albaneses são problemáticos porque têm sua própria máfia, muito mais cruel do que as italianas. Mas é uma imigração antiga, tanto é que há ilhas lingüísticas no sul do país onde falam-se dialetos albaneses há muitos séculos. Quase todos trabalham como peões de obra.
Os marroquinos são problemáticos porque seu muçulmanismo é atrasadíssimo, porque não aprendem nunca a falar italiano, porque as mulheres não trabalham, porque mandam todo o salário pro Marrocos pra sustentar as famílias que não trabalham e nunca têm dinheiro pra nada, porque cheiram mal, porque compram as carteiras de motorista, porque não têm seguro do carro e se se metem em acidente, é impossível tirar nenhuma indenização deles porque não têm nenhum bem em seu próprio nome, nunca. Marroquinos e tunisianos às vezes se envolvem em tráfico de drogas, nas grandes cidades. Mas nos pequenos centros são só chatinhos e normalmente não se metem em confusão.
Os romenos não. Os romenos são um problema MUITO sério. Sempre foram, mas depois que a Romênia entrou na Comunidade Européia a coisa piorou a olhos vistos. Vêm todos pra Itália porque a língua é fácil de aprender pra eles, e com o novo oba-oba da CE a Bota está entupida deles. Não estou falando dos ciganos, que até os romenos mesmo desprezam, mas de romenos-romenos. Estão no topo das listas de crimes cometidos por estrangeiros, são os estrangeiros mais numerosos nas prisões italianas, são os reis da clonação de cartão de crédito e de picaretagens generalizadas. A maioria das prostitutas estrangeiras é de nacionalidade romena – algumas porque forçadas a se prostituir pelos romenos que as trouxeram pra cá, outras por falta de oportunidade. Eu só conheço 4: minha ex-faxineira, que parecia ótima até o dia em que o Mirco chegou em casa mais cedo e a encontrou com uma amiga fazendo a faxina (ora bolas, você tem a chave da minha casa, tem a minha confiança, sempre te paguei em dia, o mínimo que você pode fazer é perguntar antes se tem problema botar alguém que não conheço dentro de casa); a mulher de um amigo do Mirco, que é ligeiramente antipática; a garota que trabalhou comigo lá na agência e seu marido, que “roubou” a senha da esposa e entrou no site pra roubar tradutores e clientes. Eu sabia da história mas não o conhecia; o vi pela primeira vez no jantar de aniversário da Kate, mês passado, e a impressão foi a pior possível e imaginável. Sabe O cafajeste, o picareta por definição? E mal educado, fazendo cara de nojo quando chegavam os pratos, perguntando o que era “aquilo” na hora da sobremesa – uma coisa marrom com cheiro de chocolate, do que será que é feita, hein? Ainda por cima é supermachista e não quer que a mulher trabalhe nem saia sozinha. Ia sempre pegá-la no trabalho de carro, em vez de deixar que ela pegasse o trem com a Patrizia, que ia pro mesmo lugar. Pior: há anos não trabalha, vive de vender bolsas falsificadas e máquinas fotográficas de origem duvidosa no ebay. Hmmmmm. Então vocês vejam que apesar da amostra muito pequena, estatisticamente a coisa tá ruim pro lado deles, no meu score particular.
Essa semana um romeno matou uma mulher numa periferia de Roma. Escândalo, escândalo, só se fala disso. A direita, lógico, já tá enchendo o saco botando a culpa no governo porque “deixa entrar todo mundo”. Mas se os romenos agora são cidadãos europeus, não há como controlar a imigração, oras. Pede-se cooperação com o governo romeno, mas pra fazer o quê? Pra convencer seus cidadãos a não migrar? A se comportar direitinho?
Há algumas semanas falou-se do assunto em Terra!, um programa documentário bem feitinho que passa tarde da noite e só às vezes tenho forças pra assistir. Descobrimos que Bucareste é uma das cidades européias com menor índice de criminalidade, como testemunharam alguns italianos que vivem e trabalham lá. Ou seja, o maior produto de exportação da Romênia pra Itália são os filhos da puta. Legal, né.
Pra ninguém vir dizer que eu sou racista, preconceituosa et al., vejam aqui que não são só os italianos que sofrem com o Problema Romeno.
El Club Dumas
Liana Taillefer decidió concederle algo más de interés; las acciones Corso experimentaban una nueva subida, moderada, en la bolsa local. Se quitó las gafas para limpiarlas con el pañuelo arrugado. Sin ellas su aspecto era más vulnerable, y lo sabía de sobra. Todo el mundo experimentaba la necesidad de ayudarle a cruzar la calle cuando entornaba los ojos como un conejito miope.
– Ése es su trabajo? – preguntó ela -. ¿Autentificar manuscritos?
Hizo un vago gesto afirmativo. La viuda estaba un poco desenfocada ante sus ojos, insólitamente más próxima.
– A veces. También busco libros raros, grabados y cosas por el estilo. Cobro por ello.
– ¿Cuánto cobra?
– Depende – se puso las gafas, y los contornos de la mujer se perfilaron de nuevo, nítidos, en su retina-. A veces mucho y otras poco; el mercado tiente sus altibajos.
– Una especie de detective, ¿no? – aventuró ella, en tono divertido -. Un detective de libros.
Era el momento de sonreír. Lo hizo mostrando los incisivos, con una modestia calculada al milímetro. Adóptenme en el acto, decía son sonrisa.
El Club Dumas, Arturo Pérez-Reverte
uni, de novo
Previsivelmente, a faculdade anda muito divertida.
Antes eu era só A Velha da Turma, e ninguém nem sentava na mesma fileira que eu. Eu tinha falado brevemente com algumas meninas durante as provas, mas aparentemente tenho uma cara muito nondescript e ninguém se lembrava de mim. Então foi começar do zero. Aos poucos começaram a me cumprimentar, outros perguntavam se eu tinha me inscrito diretamente no segundo ano (Ahn… Não… Até porque não é possível), alguns me viam trabalhando com o laptop e perguntavam diretamente o que diabos eu tava fazendo ali. Na última aula da segunda semana uma outra estrangeira, com cara de russa, bonitona, veio perguntar umas coisas de Diritto Internazionale que ela não tinha entendido bem, e outra garota, da província de Latina e com um corte de cabelo abominável veio tirar dúvidas de espanhol. Semana passada fiz amizade com a tal russa, que é lituana e se chama Indre, e com a Outra Velha, Alessandra. Só que a situação da Alessandra é a seguinte: ela tá na faculdade há seis anos, e ainda faltam 10 “provas” (equivalente a dez matérias; aqui ninguém mede curso em termos de tempo, mas de número de provas). Aqui não existe ser jubilado, então neguinho fica se arrastando com matérias “fuori corso” (pendentes dos anos anteriores) por anos a fio. Eu estou com três fuori corso, uma porque o livro era horrível e não consegui estudar, outra porque estava viajando nas duas chamadas, e outra, Politica Economica, porque sem ir às aulas é impossível pra mim. Mas cacetes estrelados, eu trabalhava, não assisti a aula nenhuma, tenho casa e marido pra tomar conta e não tenho pressa de me formar – minha colegas não têm nenhuma dessas desculpas, e mesmo assim muitas ficaram com matérias penduradas. Acho estranhíssimo.
O professor de Linguistica Generale é realmente confuso, e continua fazendo os barulhos estranhos com a boca. A de espanhol fica pau da vida porque neguinho não cala a boca na aula dela. O de Relazioni Internazionali, o pitéu, dá uma aula ótima, apesar de nunca se preparar e ter que ficar lendo algumas anotações suas em cartões de visita, bilhetes de ônibus, marcadores de livros. O de Diritto Internazionale é meio biruta e tendencialmente confuso, descabelado, amarrotado, mas repete tudo tantas vezes que todo mundo entende. E estou achando interessantíssima a matéria. Semana que vem começa Diritto dell’Integrazione Europea, e em janeiro volta Linguistica Italiana II. Por enquanto estou achando tudo ótimo, inclusive esse esquema de levar o laptop pra faculdade e poder trabalhar no intervalo entre as aulas. Pena que, estando na Itália e não na Suécia, não tem wi-fi na universidade…