mas vai ser fodida assim no inferno

Não venham me dizer que sorte não existe.

Comprei a lambreta, caí da lambreta.

Peguei a Punto do Mirco, destruí a Punto.

Pego o Volvo do Mirco, fura o pneu do Volvo NO MEIO DA ESTRADA.

Pego a Uno da oficina, toda recauchutada – freios novos, óleo trocado, amortecedor novo, MOTOR novo porque o velho morreu domingo passado, bateria nova – e a Uno falece NO MEIO DA ESTRADA. Mais precisamente em frente à igreja de Rivotorto, no exato lugar onde o pneu do Volvo estourou há duas semanas.

Melhor arranjar um emprego embaixo de casa, sabe. Movimentar-me está ficando perigosamente azarado.

mafia, de novo

Hoje de manhã fiquei em casa porque meu aluno salame da fábrica de peças pra avião teve um problema no trabalho e não pôde ter aula. Acabei aprendendo muito sobre a máfia, coisa que não só é interessante mas vai servir pra prova de Linguaggi della Devianza, em junho.

Uno Mattina é um programa de variedades da Rai Uno que ocupa toda a manhã. É apresentado por uma jornalista ruiva que já esteve cobrindo guerras no mundo todo e é muito inteligente, por uma loura ex-participante do Grande Fratello e por um retardado, imbecil, debilóide, jumento, asno, que diz ser jornalista e atende pelo nome de Luca Giurato. É de uma imbecilidade irritante; basta olhar pra cara dele que eu tenho vontade de chorar de nervoso. Mas como quem se ocupa dos assuntos sérios é a ruiva, a longa entrevista dessa manhã com pessoas diretamente relacionadas com a máfia foi muito interessante. Fiquei sabendo, pelo juiz e pelo chefe da polícia especial que comandaram a operação de prisão do Provenzano, que, ao contrário do que eu disse outro dia aqui, não houve nenhum pentito, nenhum arrependido, nenhum alcagüete. Não houve nenhum tipo de interceptação telefônica de ninguém envolvido ou suspeito de envolvimento na história, por um motivo muito simples e que faz todo o sentido do mundo: pra conseguir a autorização da justiça pra plantar uma escuta, o pedido roda na mão de tanta gente que a probabilidade da informação vazar e chegar aos ouvidos dos mafiosos era grande demais. Porque their arm has grown long indeed, e que há peixes grandes com o rabo preso e que a máfia é infiltradíssima no governo é coisa há muito sabida. O objetivo foi então reduzir o número de pessoas envolvidas na investigação, e se concentrar em observar membros da família de Provenzano e seus antigos colaboradores. Foi assim que chegaram à casa muito simples, na periferia de Corleone, onde o chefão se escondia. Por que ele não picou a mula e foi cantar em outro galinheiro? Porque quando se fala de máfia, presença é poder: quem abandona o território acaba perdendo força e sendo substituído por outro mais esperto. É aquela velha história: quem foi à roça perdeu a carroça…

Aliás: imperdível isso aqui.

cosa nostra

E a outra grande notícia do dia foi que finalmente prenderam Bernardo Provenzano, histórico chefe da Cosa Nostra que era fugitivo há QUARENTA E TRÊS ANOS. Mole? Adivinha onde encontraram a criança? Em Corleone, onde mais. Depois de não sei quantas cirurgias plásticas e de absolutamente ne-nhu-ma pista em todos esses anos, um dos seus ajudantes parece que abriu a boca e contou, tim-tim por tim-tim, como foi possível manter a criatura escondida por tanto tempo. Nada de tecnologia, nem mesmo celulares; toda e qualquer comunicação com o capo era feita só através de bilhetinhos. Como ninguém sabia direito a cara que ele ganhou depois das plásticas, ficava realmente difícil encontrar o homem, apesar das viagens de carro à França pra se operar da próstata. Documentos falsos, nomes falsos, e o sólito paredão de gente que nada vê e nada ouve e torna impossível chegar ao topo das organizações. Agora as opções são duas: ou já existe outro capo no lugar dele, ou vão começar novas guerras entre os clãs mafiosos pra decidir quem vai comandar o batatal.

Morar nesse país é como viver dentro d’Os Intocáveis.

shoo, fly

Já falei que não entendo nada do sistema eleitoral daqui, que aliás sofreu algumas reformas salva-rabo durante o governo do Cavaliere, mas o fato é que a esquerda ganhou. Ganhou por algo do tipo 0,06%, o que na verdade é muito preocupante, porque quer dizer que ainda tem MUITA gente que acha o Bronzeado-Implantado um cara legal e bom caráter. Muito perigoso. O que decidiu a partida foram, surpreendentemente, os votos dos italianos que moram no exterior. Até as dez da manhã de hoje a direita estava na frente, no Senado, por cerca de 0,02%. Mas mesmo com a esquerda saindo vencedora, vai ser muito difícil governar, porque praticamente a outra metade do Senado e da Câmera dos Deputados foi pra direita. Lógico que a possibilidade de uma coalizão pacífica com fins comuns de desenvolvimento do país, como está rolando na Alemanha, é absolutamente impensável em um país onde as pessoas estacionam ocupando dezoito vagas, onde ninguém ouve o outro, nunca, onde você liga pro cliente que não pagou e ele responde “e daí?”. Então quero só ver. O bom é que o Prodi tem o apoio do resto da Europa, que, logicamente, não quer ver Berlusconi nem cravejado de brilhantes. Vamos ver no que vai dar.

elezioni…

E então as eleições acabaram hoje às três da tarde, e o país está enlouquecido esperando os resultados oficiais. Porque todo mundo tava achando que a esquerda iria ganhar de lavada, mas na verdade tá tudo pau a pau. Um medo danado daquele crápula do Berlusconi voltar a governar. Eu não entendo NADA do sistema político deles, e as pessoas às quais perguntei também não entendem coisa nenhuma, então eu só posso é ficar na torcida e esperar pelo Grande Resultado Final. Acendam velinhas, darlings.

:))))

Comecei ontem a ler Equador, do Miguel Sousa Tavares. Uma delíiiiiiicia de livro! Trouxe o menino comigo em novembro passado, mas só lembrei que ele existia quando fui à livraria semana passada, comprar um guia de Hong Kong pro Homem Mais Feio do Mundo, e vi o livro na seção “altamente recomendados”. A versão italiana tem a mesma capa da Nova Fronteira, que acredito seja a mesma original portuguesa, não sei e não me interessa, mas foi por isso que bati logo o olho e imediatamente me deu coceira de vontade de ler. Não me arrependi: hoje dois alunos faltaram e devorei metade do livro nessas duas horas de folga forçada. Os personagens são deliciosos, vivos, interessantes, as florestas tropicais parece que estão aqui do lado, sinto o cheiro da clorofila, a umidade sufocante, o cecê dos angolanos que trabalham na colheita do cacau, Wagner tocando no gramofone do Luís Bernardo. Estou amando.

findi

O fim de semana foi o mais light possível. Sábado Mirco chegou pra almoçar em um horário decente, em torno das três, e em vez de chapar na cama, os dois, resolvemos ir fazer compras, nosso programa preferido de sábado. Largamos as compras em casa e fomos pegar os cachorros. O tempo tava ótimo, um solão gostoso, um arzinho fresco; carregamos os meninos na mala da Uno e lá fomos nós. Mas não deu pra ficar muito porque o vento trouxe nuvens que esconderam o sol, e começamos a sentir frio. Acabamos jantando na Arianna mesmo, que fez pizza no forno a lenha do quintal. Diliça.

E domingo não foi muito diferente: de manhã Mirco foi votar, almoçamos na Arianna, visitamos a gatinha que pariu dois gatinhos de manhã cedo (a outra gata na foto é amiga dela, dormem juntas e aparentemente essa outra gata fez as vezes de parteira), voltamos pra casa, vimos TV, falei com minha mãe no Skype, Moreno veio pra cá e fomos juntos pro cinema em Perugia. Comemos um sanduba no Pans & Company e depois vimos Inside Man, que não é nada de especial – né carne né pesce, como se diz aqui. E vamos dormir cedo porque amanhã a labuta nos espera.

pacamania

A IG pediu, eu respondo.

Eu sou chata, mas não tenho muitas manias bizarras. Deixa eu ver…

1) A de balançar os pés quando estou sentada, como a IG. Mania que muito me irrita mas que não consigo abandonar (senão não seria mania, duh!).

2) A de cutucar os cantos das unhas com as outras unhas, sempre da mesma mão. Isso resulta em i) aumento exponencial da quantidade de cutícula a ser removida e ii) um uso excessivo da musculatura do antebraço, causando dores musculares inclusive. A única vantagem é que o antebraço é a única parte do meu corpo que não tem celulite.

3) Falar sozinha. Em tudo que é língua. Quando dirijo, então…

4) Ler tudo o que é letrinha que eu vejo, automaticamente. É absolutamente inevitável, como quem tem dons matemáticos e tem mania de somar os números das placas dos carros que vê. Eu não posso ver nada escrito; tudo o que é letra que eu vejo, eu leio. Mas é realmente automático: quando me dou conta, já li. Isso inclui tudo, tudo, tudo: adesivo de carro, outdoor, manchetes nos jornais pendurados na banca, livro na mão de uma pessoa distante, letreiro de loja atrás do repórter enviado na televisão, post-its colados no monitor da secretária, a marca gravada nos botões da roupa da chefa. Can’t help it.

5) Mania horrível de deixar tudo pra amanhã, que é um dos meus piores defeitos. O Mirco é exatamente o contrário e sei que melhorei muito seguindo o exemplo dele, mas os genes paternos são mais fortes e sei que nunca serei totalmente eficiente por causa disso…

prognóstico sinistro

Depois do debate final de segunda-feira, Berlusconi chamou de coglioni (acho que a melhor tradução é “otários”) quem não votar nele. É engraçada a campanha eleitoral por aqui; fala-se de tudo, passa-se a ofensas pessoais com a maior naturalidade (Berlusconi deveria subir num banquinho pra falar, Prodi está ficando gagá, etc), a esquerda só sabe falar mal da direita, a direita só sabe falar mal da esquerda, e, como no Brasil, a discussão do futuro do país nem entra em campo. O importante é falar mal do outro. Nesse quesito acho que a esquerda tá um pouco melhor, porque algumas propostas foram feitas, pelo menos. Mas de modo geral eu acho tudo tão nojento que mudo o canal assim que vejo a cara de qualquer um deles.

A grande tristeza é que Berlusconi é, hoje, a cara da Itália. O arquétipo do italiano – a começar da aparência física. A cara cor de tijolo de quem faz bronzeamento artificial, os cabelos asquerosamente implantados e penteados, o sorriso falso, a testa franzida em desdém. A incrível capacidade de passar os outros pra trás e achar superlegal. A preocupação ZERO com quem está ao redor, coisa facilmente verificável no dia-a-dia aqui na Itália, no trânsito, em qualquer estacionamento, na fila de qualquer lugar, nas menores decisões, que nunca, NUNCA levam em consideração os possíveis efeitos pro resto do mundo. Berlusconi é isso; Berlusconi é a Itália. Esse país tá fodido e eu tenho muito medo que a coisa piore terrivelmente se ele continuar no poder. Não que a esquerda vá fazer milagres, porque político bom é político morto, mas pelo menos é tão contra tudo o que a direita diz que só pode ser um pouco melhor. Só o fato da esquerda querer tirar o crucifixo da escola já seria motivo suficiente pra eu votar pra eles… ;)

Pra quem vive me escrevendo perguntando como é a vida na Itália, sugiro o
post histórico da Daiza. Eu amo essa mulher.