Depois de um almoço tardio e uma sesta que durou das quatro às seis, resolvemos mover nossos traseiros gordos e passar na Arianna pra pegar o Leguinho e dar uma volta antes da pizza com Gianni, Chiara & cia. Demos de cara com os gansos da Arianna, que estranhamente estavam passeando pelo quintal como se estivessem passeando na ciclovia da Lagoa, observando a paisagem e coisa e tal. Não entendemos nada. Chamamos os cachorros e não ouvimos resposta. Demos a volta na casa e vimos Lucia, a avó fofa do Mirco, procurando os gansos. Ela tinha aberto a “porta” do cercadinho onde os gansos ficam durante o dia, pra pastar capim (aquele cercadinho com o guarda-chuva que serve de guarda-sol pra eles, se derem um scroll down acham a foto), entrou pra mudar a água da bacia, e quando levantou o olhar os gansos tinham picado a mula. Lá fui eu pastorear os gansos (que em italiano é palavra feminina, l’oca – plural le oche) de volta pro cercadinho, enquanto os cachorros observavam através do portão dos fundos. A coisa boa é que os gansos andam sempre juntos, então basta convencer um a voltar pro cercado que os outros vão atrás. Quando se separam, por culpa de algum obstáculo, entram em pânico, é de rolar de rir – me lembra aquela cena de FormiguinhaZ (ou seria A Bug’s Life?) quando as formigas se desesperam quando a fila é interrompida.

Acabamos não indo a lugar nenhum porque o tempo estava horrível. Ficamos brincando com os cachorros no campo e colhendo (e comendo) favas na horta, enquanto Ettore e Arianna aumentavam a altura de todas as cercas da casa, pra evitar que os cachorros fujam à noite. Leguinho semana passada passou uma noite fora, namorando; voltou de manhã em estado bagaçal total e dormiu o dia inteiro. Leo toda hora faz isso, e ultimamente o Demo também. Desde que eu vim morar aqui, e muito antes do Leguinho vir, vivo enchendo o saco da Arianna pra cercar os cachorros – caramba, ela já tem uma cachorra aleijada em casa porque foi atropelada; do outro lado do campo tem uma estrada onde os carros passam voando, e todos nós sabemos que os cachorros vão muito além dessa estrada porque quando eu ia correr praqueles lados muito freqüentemente dava de cara com Demo e Leo voltando de alguma missão secreta. Todos os cachorros da casa, inclusive o Leguinho, desde que foi morar lá, já foram encontrados passeando pela cidade, ou em Assis, ou lá na casa do chapéu; já nos ligaram tantas vezes avisando que tinham encontrado os cachorros perdidos por aí que já perdemos a conta. Não sei o que se passa na cabeça de quem não entende, mesmo com todos esses sinais mais do que claros, que uma tragédia está por vir. Demoraram, mas finalmente, por pressão minha e do Mirco, resolveram cercar a casa, no ano passado. Só que o Leo é pequeno e cava por baixo de qualquer coisa ou se enfia em qualquer buraco e foge; o Demo é leve e pula por cima de qualquer cerca; e o Leguinho é preto e à noite, depois do jantar, quando Ettore vai fumar o último cigarro do dia na companhia da cachorrada no campo, é fácil pra ele se afastar sem que se perceba. Foi numa dessas que ele atendeu ao chamado uterino da namorada coletiva deles e deu no pé, pra passar a noite na gandaia. Agora vocês imaginem um carro vindo a 100 por uma estrada não iluminada e pegando de frente um cachorro de 40 quilos como o Legolas, preto e conseqüentemente invisível. Não só morreria o cachorro, mas muito provavelmente haveria feridos humanos também, e quero ver quem encararia os custos e a responsabilidade perante à lei. Realmente, lidar com gente ignorante é quase tão irritante, cansativo, exasperador, desagradável e impossível do que lidar com gente maluca.

o último dos moicanos

Murilo tinha quarenta e poucos anos. Quantos poucos, exatamente, nem ele sabia – aliás, ninguém sabia nem mesmo que ele já passava dos quarenta. Seu cérebro se petrificara aos vinte anos, e ele permaneceu para sempre naquela idade mental. A coisa já durava tanto tempo que nem mesmo sua própria mãe, que ainda lhe pregava os botões e remendava meias, se lembrava de que ele já passava dos quarenta. Ele mesmo acabara se convencendo de que ainda tinha vinte, e comportava-se como tal. Ou vice-versa.

Murilo não trabalhava. Não só porque o conceito de ganhar a vida era algo de desconhecido para ele, mas também porque não sabia fazer nada. Nunca aprendera nada de útil, jamais fizera nada de útil ou interessante, de verdadeiramente interessante, em toda a sua vida. Mas essa era outra coisa que Murilo não sabia: de onde vinha o dinheiro para pagar certas comodidades. Nem ele nem ninguém sabia de onde vinha o dinheiro, mas também não interessava, assim como não interessava o fato dele ter passado dos quarenta. Porque era suficiente saber que Murilo era grisalho, estava sempre de óculos escuros de marca, sapatos pontudos de couro de crocodilo, calça jeans cujo preço exorbitante era justificado somente pelo poder de duas iniciais gravadas no bolso de trás, camisas bem passadas. Ninguém sabia também quem passava as camisas, mas isso também não interessava. O que interessava era que Murilo dirigia um Porsche prateado superhipermegaesportivo, daqueles colados no chão, que zuniriam nos seus ouvidos se pudessem fazer uso de todos os seus cavalos ao mesmo tempo – infelizmente não podem, as leis de trânsito estão aí pra isso mesmo. Murilo vivia em um centro habitado cuja velocidade máxima era limitada em 50 quilômetros por hora, mas mesmo assim nunca tivera poucos cavalos à sua disposição. Mudava de carro como mudava de camisa, mas a imaginação era pouca: já tivera uma BMW Z4, daquelas coladas no chão; Mercedes esportivas, daquelas coladas no chão; uma Ferrari, daquelas… Murilo era assim.

Agüentava as sessões de tiração de sobrancelha com a força e a coragem que só um macho de verdade tem. Horas e horas de bronzeamento artificial. Linha direta com o maior produtor nacional de gel para os cabelos. E, claro, cartas de felicitação da Philip Morris de vez em quando, agradecendo a preferência. Porque, como todos os outros espécimes de Homo sapiens tabacoscrotus, Murilo jamais, jamais saía de casa sem acender imediatamente um cigarro. Gostava particularmente de acender um Marlboro (coisa de cowboy moderno mesmo, coisa de macho que tem carro esportivo conversível e, conseqüentemente, o maior órgão reprodutor masculino da fauna terrestre e marinha) enquanto esperava o elevador. Batia as cinzas no vaso de planta do condomínio, e entrava. Ou então, para ser mais democrático e distribuir de forma mais justa o fedor nicotínico, às vezes usava as escadas, empesteando homogeneamente todos os três andares do pequeno edifício onde vivia com sua fêmea. Quando chegava ao térreo, apagava o cigarro no capacho, acendia outro e entrava no carro, inevitavelmente estacionado de modo a ocupar o máximo de vagas possível. Dirigia sempre assim: bem afastado do painel, para poder esticar o braço direito e dirigir com a palma da mão, o cigarro aceso displicentemente encaixado entre os dedos. O braço esquerdo apoiado na janela aberta, o vento se esforçando para mover os cabelos engomados, os óculos escuros combinando com a pele artificialmente morena, a fumaça se acumulando dentro do carro. Às vezes, esperando o sinal vermelho abrir, mudava o cigarro para a mão esquerda, que pendurava, cheio de charme, do lado de fora do carro. Por sorte jamais queimara nenhuma velhinha que passara ao seu lado de lambreta, mas também, se o tivesse, jamais perceberia. Poucas coisas percebia, o Murilo.

Aonde ia no seu Porsche prateado, nunca ninguém soube. Nem ele mesmo. Tampouco com quem tanto fala em seu celular último tipo, que tira fotos, transmite os melhores momentos de Inter x Juventus, e bate claras em neve ao mesmo tempo. Aquele que um clone de sua fêmea anuncia na TV, de biquini vermelho, com uma praia no fundo e sempre, sempre, o vento nos cabelos.

A maioria das fêmeas da sua espécie eram hipotrofiadas em muitos sentidos. Para não engordar, comiam muito pouco – a espécie ainda não se desenvolvera o suficiente para surgir sem glândulas sudoríparas, e fêmeas de Homo sapiens tabacoscrotum não gostam de suar, não, não, não, e conseqüentemente não se exercitam. Gostam de freqüentar academias, em conjuntos cor-de-rosa da Nike, maquiagem, argolas prateadas e cabelos soltos, mas jamais levantam sequer um polegar. Comendo quase nada, pouco a pouco desenvolveram uma hipotrofia de todo o sistema nervoso central, que quase sempre comanda um corpo miúdo, lordótico, cujo centro gravitacional não funciona na ausência de saltos-agulha. A imensa maioria das fêmeas desta espécie tem cabelos cor de mico-leão dourado, sobrancelhas arqueadas estilo Conde Drácula, a pele sem viço por causa da alimentação carencial (problema facilmente resolvido com cerca de 150 gramas de base e pó-de-arroz). Muito freqüentemente usam, além da maquiagem excessiva, perfumes sufocantemente doces na estação e na quantidade erradas, saltos ortopedicamente não recomendáveis, e, principalmente, lápis para contorno labial, sem batom. Muito freqüentemente também fumam, e obviamente lançam tanto as guimbas quanto os maços vazios pela janela do carro, o que as torna parceiras ideais para os machos de sua espécie. Como eles, também não fazem nada, nem nunca fizeram, além de falar no celular, e, como eles, também são imunes à passagem do tempo – a diferença é que normalmente tendem a se petrificar nos quinze anos.

Murilo era o último de sua espécie. Talvez tenha durado tanto porque fazia parte de uma minoria que preferia estrangeiras exóticas e vulgares em vez dos micos-leão dourados. Mas era o último de sua espécie. Gerações e mais gerações de inatividade cerebral, de bronzealmento artificial, de dores sobrancelhais suprimidas à força de puro poder mental, de conversas vazias sobre carros e louras micos-leão dourados, e principalmente de cigarro em espaços confinados (o carro esportivo de dois lugares, o elevador de pequenos edifícios familiares, o banheiro de restaurantes) esterilizou-os todos. Machos e fêmeas. Os espermatozóides, ocupados demais em ver quem tinha o rabo mais longo, também acabaram por sofrer atrofia, e não mais fecundavam os óvulos, mal nutridos e intoxicados pela tintura cor mico-leão dourado.

É assim que uma espécie entra em auto-extinção.

E todas as pacas mancas do mundo viverão felizes para sempre.

the house of mirth

He caught her hand, and she felt in his the vibration of feeling that had not yet risen to his lips. “Lily – can’t I help you?” he exclaimed.

She looked at him gently. “Do you remember what you said to me once? That you could help me only by loving me? Well – you did love me for a moment; and it helped me. It has always helped me. But the moment is gone – it was I who let it go. And one must go on living. Goodbye.”

She laid her other hand on his, and they looked at each other with a kind of solemnity, as though they stood in the presence of death. Something in truth lay dead between them – the love she had killed in him and could no longer call to life. But something lived between them also, and leaped up in her like an imperishable flame: it was the love his love had kindled, the passion of her soul for his.

The House of Mirth, by Edith Wharton

Lindo, lindo, lindo. Os últimos três capítulos são absolutamente deslumbrantes. Mas preparem os lencinhos, porque rapadura é doce mas né mole não.

banana

Eu devo estar ficando muito velha mesmo. Porque ando de uma sentimentalidade ímpar.

Sempre fui chorona – choro de raiva, de tanto rir, de felicidade, de angústia depressiva, de dor, de cansaço – mas ultimamente a coisa anda passando dos limites. Ou então é o mundo que está passando dos limites, já não sei mais.

A história da cadelinha Preta, que não consigo nem reproduzir aqui pra não cair no choro outra vez, me fez, nessa ordem: vomitar, chorar e doar uns merréis pra SUIPA (falando nisso, doem, crianças, e adotem, se possível; sigam o exemplo da querida Marcinha, vejam que maravilhas de canídeos que ela trouxe para o seio de seu lar). Não posso nem imaginar nenhuma cena de bicho ou criança ou velho sofrendo sem chorar ou entrar em taquicardia. Em todo o filme A Queda, em meio a pedaços de corpos, cirurgiões empapados de sangue serrando pernas, e outras coisas deliciosas, a única cena que me fez chorar foi o doutor sei lá o quê entrando num hospital, presumivelmente abandonado, pra pegar remédios, e dando de cara com um quarto cheio de velhinhos doentes, sozinhos, largados, olhando pra ele em silêncio. Lendo Io Non Ho Paura (ainda não consegui ver o filme, caramba) chorava em todas as descrições do menino no poço. E o que me tirou a fome no domingo, coisa que quem me conhece sabe que é praticamente impossível porque eu consegui a proeza de engordar dois quilos no pós-operatório da remoção de um dente do siso – nada abala meu apetite – foi ver, no telejornal, a imagem daquele americano, Rocco não sei o quê, chorando e dizendo “I ain’t killed anyone!” com voz embargada enquanto era levado pro corredor da morte. Acusado de matar a ex-namorada, foi condenado por provas de DNA analisadas pelo mesmo laboratório que, descobriu-se, já mandou gente inocente pra morte antes, e fala-se inclusive na possibilidade de tais “erros”, se é que erros são, terem sido causados pela “pressão” exercida pelo governador do estado (no caso, a Virginia, e o governador é republicano, só pra constar). Caramba, aquilo acabou comigo. Não sei nada sobre o caso, e pode ser mesmo que o cara seja culpado, mas a mera possibilidade dele ter morrido inocente, ou simplesmente ouvi-lo chorando e dizendo aquela frase com aparente sinceridade, foi o suficiente pra me fazer afastar o prato. Que estava cheio de tagliatelle fatte in casa, diga-se de passagem. Né pouca merda não.

Mas tenho que admitir que sou mais sensível às causas animal, criançal e velhal. Não necessariamente, mas quase certamente, nessa ordem. Até de bicho asqueroso tenho pena, e imploro pra não matarem, se for possível, mas pra jogar pra longe de mim. Ultimamente há muitos, mas muitos gatos atropelados nas ruas, o que me leva a crer que não são bichos tão espertos quanto imaginamos, ou então têm um tesão que move montanhas. Caramba, que nervoso que me dá. Cada vez que vejo uma massa de pêlos achatada na estrada penso no Leguinho e fico com vontade de ir correndo na Arianna dar um abraço naquele monstro bobão. Tem um gato preto e branco que foi atropelado na bifurcação pra Perugia, na superstrada. Não foi achatado, mas deve ter levado uma porrada e caiu no acostamento. Isso foi há semanas. Eu vou a Perugia pelo menos duas vezes por semana, o que significa que venho acompanhando seu processo de decomposição com um misto de interesse e tristeza. Fico pensando se ele era de alguém, se morava na rua, se tinha amigos cachorros tipo o mongo do Leguinho, se estava a fim de alguma gatinha das redondezas (isso supondo que fosse macho), se comia restos de comida que neguinho às vezes deixa nos cantos pros bichanos.

Vou começar a investigar serviços de castração grátis por aqui. Tá na hora de castrar a Priscilla. Seus filhotinhos são uma diliça, mas quem vai garantir a saúde deles enquanto crescerem?

haja…

Nos últimos dias fiz dois estranhos muito felizes com a minha incomensurável gentileza.

Semana passada, final da tarde, eu na labuta tradutória no computador, toca o telefone da sala. Atendo, uma vozinha educada de homem com língua presa (não esse que vira effe, mas presa que vira pguesa, sabe? Não era a “r moscia” italiana, era defeito mesmo) pedindo um minuto do meu tempo pra responder a algumas perguntas da pesquisa de opinião sobre a Coop, meu supermercado preferido. O tom de voz deixava muito claro que o dia tinha sido improdutivo e cheios de patadas telefônicas, e percebi que ele estava quase implorando pra que eu respondesse. Então resolvi ser boazinha (quando não querem me vender nada eu quase sempre sou) e pedi licença pra abaixar a televisão, que sempre fica ligada enquanto estou sozinha em casa. Ficamos uns bons dez minutos no telefone, ele repetindo aquelas perguntas bobas mecanicamente, de um a dez que nota a senhora dá à arrumação dos produtos no supermercado Coop que a senhora freqüenta, de um a dez que nota a senhora dá à preocupação da Coop com a ecologia, de um a dez que nota a senhora dá à disponibilidade dos funcionários Coop, de um a dez que nota a senhora dá às ofertas semanais dos supermercados Coop, e por aí vai. Respondi tudo rapidinho, com seriedade e sinceridade, ainda fiz umas piadinhas com algumas perguntas particularmente idiotas (quanto à sua atual situação econômica, a senhora acha que nos próximos doze meses vai piorar, se manter estável ou melhorar? Que raio de Vox Populi resolve botar uma pergunta dessas?), e como recompensa ouvi um suspiro de alívio do outro lado e um agradecimento longo e sincero – Lei è stata veramente gentilissima, signora, la ringrazio tantissimo!!! Buona serata e buon fine settimana!

E hoje à tarde, quando estava me preparando pra sair pra dar aula no restaurante, o telefone toca outra vez. Era um motorista de courier, que não conseguia saber onde ficava a minha rua, e precisava fazer uma entrega aqui. Eles fazem assim: se não conseguem descobrir como se chega a um determinado lugar, coisa que às vezes não é fácil porque as numerações são malucas e muitas vezes nem existem, eles catam na lista telefônica o número de alguém que more ali na área e possa dar explicações de como chegar. Calhou que o cara precisava fazer uma entrega exatamente no meu prédio. Tava perdido no centro de Bastia, e não sabia como vir parar aqui – compreensível, visto que Cipresso é uma fração de Bastia, mas sempre Bastia é, e, partindo-se do pressuposto que quem está em Bastia conhece a cidade, senão não teria nada o que fazer aqui, estima-se que sabe também onde fica Cipresso. Ou seja, nada de placas. O coitado do homem tava plantado em frente à Coop, e disse que já tinha dado várias voltas sem entender pra onde tinha que ir. Fui dando as direções enquanto ele ia seguindo adiante e descrevendo o que via: tô passando em frente ao cinema… Ah, tá, tô vendo a placa pros correios… Viro à esquerda, a senhora disse? Sim, tô vendo o edifício romano em restauração à minha esquerda… Padaria Mela, tô vendo, viro à direita… Tá, tô atravessando a ponte… Praticamente guiei o homem até a porta do meu prédio, coitado. Fiquei me achando A escoteira com a minha boa ação. Semana que vem é capaz de rolar uma velhinha pedindo ajuda pra atravessar a rua.

Eu sou paciente com quem merece. Com gente chata ou burra, e principalmente com gente chata E burra ao mesmo tempo, não consigo. Fora isso, eu sou a gentileza em pessoa. Às vezes.

reino dos céus

Dia das mães aqui não é essa badalação toda como no Brasil. Como além disso a mãe do Mirco não tá nem aí pra coisa nenhuma, muito menos pro dia das mães, almoçamos lá ontem como almoçamos praticamente todos os domingos, e depois tocamos diretamente pro cinema. Chegamos tão cedo que ainda tava tudo fechado, coisa que nunca tínhamos visto antes. Como eu não tinha comido quase nada no almoço, por causa de uma coisa desagradável na TV que me revirou o estômago, acabamos indo tomar um sorvetinho básico antes do filme começar, inclusive como parte da preparação psicológica pro filme.

Porque eu não segui o conselho do meu irmão, que é um amor mas tem gostos cinematográficos completamente diferentes dos meus. E lá fomos nós ver Kingdom of Heaven, que aqui foi traduzido como As Cruzadas.

Tenho que concordar com a Mary em alguns pontos: o filme é bem produzido, bonito às pampas de se ver. Os figurinos são leeeendos, coisa que já havia notado n’O Gladiador – os brincos e tecidos são enlouquecedores. As paisagens são lindas, os cenários deslumbrantes, as cenas de guerra são maneiras, apesar de idênticas às d’O Gladiador. Mas pára por aí. Porque fora tudo isso o filme é UMA BOSTA. Que roteiro é esse, sem pé nem cabeça, com diálogos de meia frase por cabeça? Em um segundo o cara é ferreiro viúvo na França, no segundo seguinte descobre que é filho do fulano, no outro segundo está a caminho da Sicília, e meio segundo depois já está em Jerusalém, como se fosse assim, ele mora na Vinícius de Morais e quer chegar no Jardim de Alá, sabe, pertíssimo? Que raio de ritmo maluco é esse? Teria sido mais negócio botar tudo isso em flashback e começar o filme com o Orlandinho já dando espadada a torto e a direito em Jerusa. Do jeito que ficou, demora séculos pra engrenar, e muito pouco faz sentido.

E falando em Orlandinho… Até que ficou melhorzinho de cabelo comprido e barba, mas, convenhamos, vai interpretar mal assim na Maria do Bairro. Ainda bem que, com esse roteiro maluco, ele quase não fala nada. Melhor assim.

O melhor do filme é, definitivamente, uma fala do Orlandinho, quando o feladaputa bispo da cidade propõe que eles se convertam ao islamismo pra se salvar:

– O senhor me ensinou muitas coisas sobre a igreja, seu bispo.

Amém.

vovó

Essa é a minha avó. Morreu jovem, quando meu pai era rapazinho, deixando 4 filhos e 1 filha pro meu avô criar. Além de ser linda de morrer, como é claramente visível, era uma mulher educada e requintada, e, sobretudo, modernérrima, muito à frente do seu tempo. Até hoje, em reuniões de família, fala-se muito dela – não só os familiares, mas também amigos e ex-vizinhos, e inevitavelmente todo mundo acaba chorando.

Sempre tive a impressão de que se tivesse vivido mais ela talvez tivesse virado uma grande amiga da minha mãe, que é outra que está muito à frente do seu tempo – e não sou só eu que estou dizendo; outro dia ela recebeu o telefonema de um ex-aluno (ela não dá mais aula há quanto, vinte anos?) que viajou o mundo com a Marinha, viu e compreendeu coisas que minha mãe já havia comentado séculos antes na sala de aula, e resolveu catar o nome dela na lista telefônica e ligar pra dizer o quanto ela tinha sido foda. Também sempre tive a impressão de que nossa família seria muito melhor hoje, em muitos sentidos, se ela não tivesse morrido tão jovem. Minha avó é a pessoa que eu mais gostaria de ter conhecido, no mundo inteiro. Meu avô até hoje só senta à mesa de frente pro quadro dela, na parede oposta da sala. Meu pai e meus tios dizem que ela foi uma mãe muito alegre, com uma intimidade com os filhos que naquela época era unheard of, mas eu vejo no seu olhar uma melancolia que, infelizmente, foi a única coisa que eu herdei dela.

bigodim

Falei que fomos ver A Queda semana passada? Fomos no Teatro Pavone, em Perugia, que era um teatro e hoje funciona praticamente só como cinema, inclusive com sessões em língua original, em parceria com a Universidade para Estrangeiros da cidade. É incrivelmente desconfortável, mas tem o charme que só um teatro antigo tem, e ainda por cima fica no centro de Perugia, que é uma cidade deslumbrante.

Eu normalmente DE-TES-TO o assunto II Guerra. Por n motivos que não importam agora. Mas cismei que queria ver esse filme, e não me arrependi. Achei o elenco muito bom, e a escolha de não abordar a história, as causas, as filosofias da guerra foi acertadíssima. O filme é ótimo, muito realista, bem feito, a produção é acurada. Sai da mesmice dos filmes sobre esse assunto, definitivamente. Recomendo.

Hear, hear

As três principais notícias do dia aqui na Bota são de arrepiar os cabelos.

Angelo Izzo, que há alguns anos estuprou, torturou e matou um monte de gente e estava devidamente preso, recebeu liberdade condicional por bom comportamento. A primeira coisa que fez quando saiu foi matar uma mulher e sua filha de 14 anos. A única pessoa que conseguiu sobreviver a um ataque seu e de seu bando, uma mulher que nas entrevistas parece ser muito esperta e justamente indignada até a raiz dos cabelos, só conseguiu sair viva depois de 30 horas trancada num banheiro sem ventilação e mais não sei quantas na mala de um carro porque se fingiu de morta, depois que Izzo a estrangulou e encheu de porrada. “Ele não é louco coisa nenhuma”, ela diz. “Nem louco e nem bobo. Gosta de causar sofrimento aos outros, planeja tudo com cuidado. Não é louco. Doente, mas não louco, e não sei no que os juízes estavam pensando quando deixaram aquela coisa sair da prisão.” A foto do então jovem Izzo algemado, acompanhado de policiais a caminho da prisão, mostra um cabeçudo de olhos claros, camisa listrada e um sorriso do qual nem Hannibal Lecter seria capaz. Mais aqui (em italiano).

Há 36 anos, uma bomba explodiu numa agência de um banco nem sei onde, matando 17 pessoas. Há várias hipóteses políticas, e exatamente por isso ao longo desses anos provas sumiram, pessoas calaram, e nada se descobriu de concreto sobre quem plantou o raio da bomba. Hoje saiu a sentença final: oficialmente, NÃO HÁ CULPADOS. E AS FAMÍLIAS DAS VÍTIMAS SERÃO OBRIGADAS A PAGAR AS DESPESAS LEGAIS QUE ROLARAM NESTES 36 ANOS. Você não leu errado, é isso mesmo. Não há culpados; a bomba se materializou do nada, veio andando com suas próprias perninhas, se escondeu na agência, apertou o botãozinho on/off e explodiu, tudo sozinha, de vontade própria. E as famílias das pessoas que nada tinham a ver com a história e morreram na explosão vão ter que arcar com 36 anos de despesas legais. Mais detalhes aqui (em italiano).

Como era de se esperar, a versão italiana sobre como morreu Calipari, que levava a jornalista comunista Giuliana Sgrena pra casa depois de semanas de seqüestro no Iraque, não bate com a versão americana. O carro que levava Sgrena foi baleado por soldados americanos, que dizem ter atirado porque o carro vinha em alta velocidade e não se identificou ao passar por essa espécie de blitz (blocking position). Sgrena rebate dizendo que não iam a mais de 50 km/h, que o blocking point era feito por soldados estressados, nervosos e mal treinados, e que acha que o alvo era ela, porque sabia demais (e é comunista e anti-EUA). Calipari era um fodão, chefe de departamentos de segurança e coisas do gênero, herói militar, e sua morte foi um baque por aqui. Mais ainda: segundo o relatório italiano, no relatório americano faltam muitas, mas muitas informações, omitidas propositalmente. Mais ainda: o carro, um Toyota Corolla, foi removido do local antes que sua posição exata pudesse ser determinada e fotos decentes batidas, de modo que não é possível determinar com exatidão a distância da qual os tiros foram feitos, a velocidade em que o carro vinha, a trajetória precisa das balas, etc e tal. Aqui (em italiano).

Nada mais me surpreende por aqui, juro.