i say, pip, old chap!

Quinta passada terminei The Great Gatsby, várias vezes começado e só agora terminado. Sinceramente, não achei nenhuma Brastemp. E logo depois, porque eu sou chain-reader e quando vejo que o que eu estou lendo está terminando pego logo outro, pra não entrar em abstinência, comecei Great Expectations. Confesso, não sem um tico de vergonha, que nunca tinha lido Dickens. Como esse ano estou num período de amores pelos clássicos, e como trouxe do Rio um monte de Penguin Popular Classics daqueles comprados a 5 reau nas feirinhas de livro da Nossa Senhora da Paz e na Afonso Pena, onde mora minha avó, pelo menos o primeiro semestre vai ser mesmo de ataque aos clássicos. Depois veremos.

“That was a memorable day to me, for it made great changes in me. But it is the same with any life. Imagine one selected day struck out of it, and think how different its course would have been. Pause you who read this, and think for a moment of the long chain of iron or gold, of thorns or flowers, that would never have bound you, but for the formation of the first link on one memorable day.”

Great Expectations, Charles Dickens

uhuuu

Ganhei uma turma nova. É um delicioso grupo de três pessoas, de nível intermediário-avançado; nos encontramos quatro horas por semana, às quartas à tarde e aos sábados de manhã. Foram uma mais que grata surpresa, e não só porque recebo mais por turmas de mais de três alunos. Temos S., namorando há 13 anos, apaixonado pela Escócia e assinante da revista Celtica, que eu nem sabia que existia. Temos M., 34 anos, casado com a irmã de S., consultor de informática, parceiro de xadrez de S. Temos F., 28 anos, casada, um filho de dois anos e uma gravidez de dois meses, formada em Filosofia, terminando um Master em Filosofia da Ciência, seja lá o que isso significa. Todos gostam de viajar, de ver coisas diferentes, de ir ao cinema, de ler ficção científica, fantasia e romances históricos. Não é uma bênção?

Além deles, agora me encontro na seguinte situação pedagógica: tem a Quarentona Estressada, que tem aulas de Português duas vezes por semana e rende um outro post só pra ela; tem o Burbone e a Burbina, pai médico do trabalho e filha figuraça, que têm aulas de Inglês Elementar e são fãs dos meus cookies; tem o Aluno Endocrinologista, em Perugia, que também faz Inglês. Agora parece que vai rolar uma outra turma em Collazzone, que é meio longe daqui mas pagam minha gasolina, então não tem grilo. Nada confirmado ainda, mas outras coisas estão surgindo. Bom.

Bicha Pedagógica ligou pro S. semana passada, depois da aula, pra perguntar o que ele tinha achado. Todo mundo em silêncio na recepção, como se fosse uma conversa reservada, e Bicha Pedagógica repetindo tudo o que o menino falava do outro lado da linha: que tinha levado um choque porque imaginava que o curso seria mais fácil, que não imaginava que ia cair com alguém que falava Inglês tão bem, que ele e os outros se sentiram transportados pros EUA (e confesso que foi difícil conter a risada). O melhor de tudo foi que o Chefe Catanese estava na sala e ouviu tudo. Mais tarde veio comentar comigo que tinha falado pessoalmente com o Burbone, que declarou estar satisfeitíssimo com as aulas. Que eles (e eu também) se divertem, eu sei, porque passamos a aula inteira rindo. Volto pra casa exausta, porque Burbina só tem 9 anos e tem muita dificuldade em acompanhar o ritmo do pai, que bem ou mal se lembra de muita coisa, mas me divirto, e isso é absolutamente crucial.

E pra comemorar a esplêndida relação custo-benefício do meu salário de dezembro, me dei de presente um par de horas na minha livraria preferida. Comprei um livro de exercícios de Francês básico, os contos de Lampedusa, dois Camilleri da série do Commissario Montalbano, Lady Chatterley’s Lover, Billy Budd. Em casa me esperam ansiosamente The Importance of Being Earnest, Bartleby the Scrivener, L’Étranger (olha como eu sou otimista), entre outros. Quase comprei o guia Lonely Planet da Irlanda, mas era caro pra burro e resolvi não exagerar. Até porque daqui a uma semana tem Dusseldorf, e mais tarde tem Argentina.

da série a horripilantemente tenebrosa TV italiana

Voltou o C.S.I., agora às quintas-feiras, em vez das sextas. Não sei que fim vai levar C.S.I. Miami, que não chega nem perto do original, e que tinha ficado nas sextas enquanto Grissom & cia estavam de férias.

Sei que agora, na onda do sucesso da série, apareceu uma outra série italiana no mesmo estilo: R.I.S. Delitti Imperfetti. O RIS é o Reparto Investigazioni Scientifiche (pron. Reparto Investigatsioni Shentifike) dos Carabinieri, e ultimamente andava-se falando muito deles, sem motivo aparente. Só fui entender o porquê depois que começaram a passar as primeiras chamadas pra série. A semelhança com C.S.I. não é, absolutamente, mera coincidência. TUDO é copiado: a abertura, a trilha sonora, os flashbacks explicativos com closes repentinos nos detalhes que fazem a diferença e imagem distorcida ou com cores diferentes; as frases de efeito; as sobrancelhas franzidas e os olhares 43; os diálogos cheios de duplos sentidos; expressões tipicamente Grissom como “vou ouvir o que o morto tem a me dizer”. Uma boa parte da diversão do programa é ficar contando as semelhanças. Mas a série é bem produzida e, até onde eu sei, baseia-se em fatos reais, solucionados pelo RIS. A maior parte do elenco é sofrível, mas isso é só um detalhe. Há belas tomadas de Parma, cidade onde se passa a história e que eu infelizmente não conheço. O chefe da equipe é um bonitão, e há só uma mulher na esquadra. Há as clássicas situações do tipo começamos com preconceito contra as mulheres mas ela acabou nos conquistando com sua competência e seu ponto de vista feminino que muitas vezes gera insights decisivos.

Eu adoro essas séries sobre as Forze dell’Ordine – Carabinieri, RIS, Guardia di Finanza. E não, não é fetiche de farda, é porque são bem feitinhas mesmo, e eu gosto do assunto. Fora essas séries, o programa de documentários Solaris, que vai ao ar às quatro da tarde, quando não há ninguém em casa pra assistir, Superquark e La Macchina del Tempo, dois documentários sérios que também vão ao ar em horários infelizes, e Le Falde del Kilimangiaro (Aos Pés do Kilimanjaro), programa sobre viagens que vai ao ar no sábado à tarde, quando todo mundo tá dormindo depois do almoço, não há absolutamente mais nada assistível na TV italiana. Tudo isso junto deve dar, no máximo, uma hora de programaçao decente por dia. E ainda querem quase 100 euros por ano de assinatura obrigatória, sendo que a RAI, além de ser uma bosta, ainda tem uma quantidade impressionante de publicidade.

Pior de tudo é a mania dos reality shows. Além do Grande Fratello, que esse ano foi decidido entre uma bicha escandalosa filho de iranianos, nascido em Israel e criado em Milão, um pedreiro toscano de longos cabelos louros estilo Conan, neto de uma etíope, e uma galesa completamente louca (ganhou a bicha escandalosa, o Jonathan, que é uma simpatia e mereceu), há várias outras coisas do tipo rolando.

Tem o Amici di Maria de Filippi, que um dia já se chamou Saranno Famosi (literalmente Serão Famosos) e é tipo o tal de Fama, do qual eu ouvi falar; acompanha a vida de um bando de jovens aspirantes a artistas de dança, canto e artes dramáticas dentro de uma escola especializada, plantada nos estúdios da Mediaset (leia-se Berlusca). Sábado à tarde tem programa ao vivo, com desafios entre os participantes, bate-boca na platéia e os cortes de cabelo mais estranhos que o mundo já viu.

Tem a Isola dei Famosi, que leva ex-famosos decadentes pra um lugar isolado (esse ano o tal lugar isolado era simplesmente o lado mais deserto de uma ilha não sei onde, que no outro lado hospeda um resort milionário), na tentativa de ressuscitá-los. Esse ano quem ganhou foi um modelo espanhol leeeeeeeeeendo e muito simpático.

Teve La Fattoria (a Fazenda), que levou outros ex-famosos decadentes pra uma espécie de chácara, onde deviam tocar adiante a coisa – arar, plantar, colher, secar, preparar, estocar, abater, tosar, alimentar – como se estivessem no século sei lá o quê, sem luz elétrica nem nenhum tipo de eletrodoméstico ou máquina sofisticada, com roupas de tecido cru, sem água corrente, etc. Não sei quem ganhou, e o programa não foi pra frente.

Tem o chatérrimo I Campioni del Cuore (Os Campeões do Coração, ô nome cafona), que acompanha as desventuras de jovens machos italianos e não, na luta por um lugar ao sol no mundo do futebol. É apresentado por uma morena estonteante e muito simpática, que apresenta também Timbuctu, um programa sobre curiosidades do mundo animal que eu espero sinceramente que não saia do ar.

E agora inventaram uma palhaçada que anda me irritando muito, porque deslocou o Comissário Rex, companheiro de sesta: Il Ristorante. Mais uma vez temos ex-VIPs decadentes, agora enfurnados num restaurante. Eles mesmos têm que decidir quem cozinha, quem serve, quem passeia entre as mesas e finge que trabalha, quem faz as compras, quem limpa e coisa e tal. É possivel ligar pra RAI e reservar uma mesa, porque teoricamente funciona como um restaurante de verdade. A mestra-de-cerimônias é a Antonella Clerici, linda loura simpática, gorducha e atolada que apresenta o La Prova del Cuoco todos os dias, na hora do almoço. Só se mete em roubada e todos os outros programas que caem na mão dela são um horror. O confessionário do Ristorante é a despensa; em vez de dizer que fulano foi eliminado se diz que foi demitido; e outras coisas do gênero, mas o modelo é exatamente idêntico ao do Grande Fratello, claro. O chato é que as puntate (os episódios) ao vivo vão ao ar bem depois do almoço, quando normalmente estou com as mãos cheias de espuma de detergente pra lavar louça e não posso nem mudar de canal. Acabo assistindo àquela bosta. Os únicos participantes que conheço são uma condessa ou baronesa, sei lá, chamada Patrizia De Blank, uma perua toda esticada, mãe de uma retardada que participou do primeiro Isola dei Famosi e foi imitada durante MESES por todos os programas humorísticos, por causa da voz de taquara rachada e dos comentários nonsense; e uma tal de Tina, que inventou um personagem meio vamp e basicamente ficava sentada numa poltrona em forma de boca, com vestido de gala e bois enrolado no pescoço, com um mordomo em pé ao seu lado, fazendo comentários maldosos sobre as roupas dos participantes durante um programa cafonérrimo da Maria de Filippi, que ainda vai ao ar. Depois que engravidou e engordou uma tonelada, a Tina sumiu, e agora foi desencavada e jogada nesse Ristorante, com seu cabelo descolorido e seus cachinhos à base de baby-liss. Lembram que uma vez eu comentei que saiu num jornal inglês uma matéria sobre a péssima qualidade da TV italiana? A manchete estava no alto da primeira página, ilustrada com uma foto dessa Tina. Pra vocês verem que eu não estou exagerando.

O pior de tudo é que eu sei de tudo isso não porque assisto aos programas, mas porque qualquer acontecimento mais ooooooh que se passe durante esses programas vai parar no TELEJORNAAAAAAL. Então você tá lá jantando numa boa, ouvindo aquelas notícias fofas sobre crimes passionais, guerras de clãs mafiosos, atentados no Iraque, a última gafe do Bush, os resultados das partidas de futebol, e de repente o âncora solta aquela notícia-bomba sobre a fulana de tal, que brigou com a beltrana ao vivo, no ar, durante o programa de ontem. É mole ou quer mais?

cani e chiacchere

Ontem fomos jantar uma pizza básica na nossa pizzaria preferida, agora melhor ainda sem gente chata fumando do seu lado. Tinha pouca gente, porque tá frio demais pra sair à noite, e os adolescentes que normalmente freqüentam o lugar chegam de lambreta – queria ver vocês encarando lambreta à noite com temperaturas em torno de zero Celsius. Depois, como fazemos sempre, fomos dar um pulo na Arianna pra cumprimentar os cachorros. Encontramos a seguinte situação: na garagem, Demo dormindo sozinho, com o buraco nas costelas do lado esquerdo que um cachorro da vizinhança lhe deu com uma dentada, domingo passado. Na cozinha, lá em cima, um presépio vivente: Arianna e Lucia (a avó do Mirco; mais conhecida como Laspo’, apelido de La Sposa, que era como o falecido marido a chamava) cobertas de farinha, despejando um fio de mel e de Archemis (um licor vermelho horripilante) sobre um prato de chiacchere. Leo deitado num tapetinho na lareira, com a barriga virada pro fogo, a cabeça apoiada na pata direita, essa por sua vez apoiada na borda da grelha pra bisteca, a mo’ de travesseiro. Ao lado dele, quase caindo, Virgola, sua mãe aleijada (aqui se diz handicapped, mas pronuncia-se ândi-kappáta), com três metros de língua de fora. Ela sempre dorme ali perto da lareira, mas quando começa a esquentar demais começa a suar e logo olha pra gente desesperada pedindo água. Quando tem que dividir o espaço com o Leo, que é um folgado como eu nunca vi na vida e espaçoso como ele só, acaba sendo deslocada pro lado, a ponto de cair no chão. Legolas estava sentado embaixo da mesa, só com o focinho aparecendo por baixo da borda do tampo, encarando o prato de chiacchere com a cara mais séria do mundo e abanando a ponta do rabo.

Chiacchere* (ou frappe, o nome muda dependendo da zona) são doces típicos de Carnaval. São feitas, como a massa de macarrão, com farinha de grão duro e ovos, mais “uma gota de vinho ou de Martini pra ficar crocante, uma pitada de açúcar e raspas de limão”. A massa é cortada em fitas largas, que depois são meio que trançadas, ficando mais ou menos com a forma da fitinha vermelha da campanha anti-AIDS. Depois são fritas, escorridas, polvilhadas com açúcar de confeiteiro (zucchero a velo) e cobertas com um fio de mel ou de Archemis, o tal licor maldito. Eu detesto, porque não sou muito chegada em fritura nem em quase nenhum doce que não leve chocolate na receita, mas aparentemente o Legolas adorou, porque depois que comeu a primeira ficou com aquela cara de pastel, encarando fixamente o prato e grunhindo quando fingíamos que não estávamos entendendo. Depois foi se sentar perto do balcão, bem debaixo do prato, encostou a cara na fórmica e soltou um suspiro imeeeeenso, até despertar a compaixão do Mirco, que lhe deu duas das pequenas. E depois chega, né, hora de dormir; levamos o pimpolho lá pra baixo pra dormir com as gatas, chafurdando em meio a velhos suéteres de lã e edredons furados. Leo ficou lá na lareira, claro, porque afinal de contas quem comanda o batatal cachorral da casa é ele, e sultão que é sultão tem todo o direito de ficar no quentinho até a hora que bem entender.

* Chiaccherare (pr. kiakerare) quer dizer conversar, bater papo. Os italianos têm o hábito de dizer “due” (ou “un paio”, um par, a couple) ou “quattro” quando se fala um número indefinido de palavras, passos, conversas ou qualquer outra coisa. Então “vou ali bater um papo” se diz “vado a fare due/quattro chiacchere”, e “vou dar uma voltinha” se diz “vado a fare due/quattro passi”. Não é incomum ouvir senhoras fazendo compras na barraca de fruta e verdura da Rita, dizendo “Dammi un po’ quattro pere, o’ Ri'”, ao que a Rita responde, “Quattro di numero?” (“Me dá umas quatro pêras, Rita”; “Quatro quatro mesmo ou quatro por assim dizer?”). É ou não é uma delícia essa língua? :)

resposta

Oi Rosemary, tudo bem? Primeiro de tudo, obrigada pela sua educação.

Eu não entendi uma coisa: por que marroquino não é legal, e sim magrebino? Marroquino não é quem veio do Marrocos? Aqui quando usam magrebino é sempre em um sentido muito ambíguo, significando vagamente norte-africano. Como a minha experiência pessoal é com marroquinos mesmo, usei marroquinos.

A história das enfermeiras polonesas me veio à mente ontem porque naquela manhã eu tinha ouvido, na rádio RAI, uma matéria exatamente sobre isso. Agora que a Polônia faz parte da Comunidade Européia, profissionais poloneses que queiram vir trabalhar aqui não precisam mais fazer prova de conhecimentos lingüísticos – uma decisão tão idiota quanto a do Itamaraty, de não mais exigir fluência em Inglês pros novos diplomatas. Não importa de onde vem a criatura; se vai trabalhar num outro país, tem que falar a língua, oras! Nada mais lógico, mas enfim, lógica anda em falta no mundo. O problema é que aqui faltam enfermeiros (faltam tipo 40.000), já que, como no Brasil, e por motivos que ignoro, enfermagem é uma carreira considerada meio, digamos, meio coisa de Suely Maria. E aí neguinho sai pescando enfermeiros em tudo que é lugar, pagando uma baba (já vi anúncios oferecendo € 3.350,00/mês). Só que é uma coisa séria, né. Uma enfermeira que dá um remédio errado, ou faz um curativo errado, ou encaminha um paciente errado pra um procedimento porque não entendeu o que estava escrito no prontuário é uma coisa MUITO grave. Eu nunca tinha ouvido falar dessa história e fiquei meio assustada quando pintou isso no rádio. Mas talvez nem tivesse comentado se não tivesse caído como uma luva pra ilustrar o que eu queria dizer àquela mala que me escreveu.

Eu acho, sim, que a maioria dos extra-comunitários que caem de pára-quedas aqui (ou melhor, vêm de barquinho até Lampedusa) trazem problemas, de verdade. Talvez porque a Itália não tenha ex-colônias, por isso nenhum dos grupos extra-comunitários que vêm pra cá fala italiano, e isso dificulta enormemente a integração. Já falei aqui várias vezes de como é, de forma geral, distribuída a criminalidade aqui na Itália; não vou me repetir. Confirmo o que eu sei a respeito de marroquinos – de outras nacionalidades não posso dizer nada: CEM POR CENTO dos marroquinos que já passaram pela oficina, e são realmente muitos, deram algum tipo de problema, do mais grave, com advogado e Carabinieri e ameaças de morte no meio, à simples encheção de saco. Cem por cento é muito, muito mesmo, mesmo quando a amostra é relativamente pequena. Conhecemos outras pessoas que têm microempresas e contam histórias parecidas, com estatísticas semelhantes. Não dá pra fingir que isso é normal.

Um abraço,

Leticia

p.s.: explica mesmo essa história do magrebino que eu fiquei curiosa!

jump

Eu cheguei a contar que vimos Alexander semana passada? Já sabíamos que seria uma bela bosta; qualquer filme cujo protagonista tenha cabelos à la Van Halen não pode dar em nada de bom. Mas nós adoramos esses filmões épicos (que aqui se chamam kolossal, sílaba tônica ko), e o Mirco nem dormiu. Eu babei, como sempre, no figurino, nos tecidos, nas espadas, nas armaduras. Também gosto de cenas de guerra pré-pólvera, qualquer uma, até mal feita, desde que eu não veja nenhum cavalo (e, nesse caso, também camelos – ou dromedários? Não lembro – e elefantes) sofrendo. Pra não falar nas risadas que eu dava quando rolava um sentimento entre o Alex e Hefestinho, e a galera fazia hmmmmmmmm! Ah, gente, são essas bobeiras que dão sentido à vida, né não?

como tem gente cri-cri nesse mundo!

Vamos por partes, como sempre.

Primeiro: eu respondo SEMPRE a TODOS os e-mails que me mandam. Quando não respondo logo de cara, é porque o e-mail deu tilt, coisa que infelizmente acontece muito freqüentemente. Qual seria o problema de dizer “não respondo a e-mail”? Assim como deixo bem claro, no TEMPLATE do paca, que não gosto de comments, não teria nenhum problema em dizer que não gosto de e-mail. Coisa mais sem lógica. E depois a idiota sou eu.

Segundo: eu não “não me dei bem” na Alemanha. Não gostei de Berlim, o que é uma coisa totalmente diferente, como qualquer pessoa semi-alfabetizada é capaz de compreender. Depois a idiota sou eu…

Terceiro: se eu falasse só de coisas bonitas e legais, esse seria um blog docinho e fofo. Eu não sou docinha e fofa e minha única intenção é divertir as pessoas – admitam, vocês se divertem, tanto é que continuam voltando. Provas disso são as inúmeras amizades que fiz com Brasileiras Legais que Moram na Alemanha e Não se Acham AAAAAS Alemãs, os e-mails educados e inteligentes que recebo de gente que não concorda com o que eu digo mas acha graça mesmo assim, e principalmente o fato de que a Alemanha é, desde o Incidente Berlim, o segundo país que mais visita o paca. Gozado, né?

As coisas mais engraçadas da vida são as cafonices, as gafes, os imprevistos, os incidentes bobos, as trapalhadas. Qual é o programa humorístico que faz piada de acontecimentos normais? As memórias mais duradouras de uma viagem são as coisas que deram certo ou o que deu errado? Eu falo de coisas boas aqui, sim, falo bem de pessoas sobre as quais tenho algo a dizer, falo de coisas bonitas, de comidas boas, de livros maravilhosos, mas tanto não tem graça que ninguém lembra. Já pararam pra pensar por que eu nunca falei dos meus outros vizinhos? Porque são todos normais. Os únicos vizinhos bizarros e incomodativos que eu tenho são a Suely Maria e seu companheiro com pinta de cafetão. Se eu começar a falar dos outros, que são tão normais que a gente nem lembra que eles existem, isso aqui vai ficar um porre.

Quarto: o botão “fechar” é serventia da casa. Em vez de ficar torrando o meu saco, vá fazer algo de mais útil, ou ler alguém que só escreva coisas com as quais você concorda.

Quinto: se eu caso ou não caso, isso é problema meu. Se todo mundo que não casa começar a ser rotulado disso ou daquilo, vai ser uma beleza. Conheço uma dúzia de brasileiras muito decentes e competentes e que escrevem muito bem em blogs muito badalados que se ofenderiam imensamente com esse comentário idiota.

Sexto: nome cafona não significa NECESSARIAMENTE baixo nível, mas vamos admitir que a probabilidade é grande. Pais bem educados dificilmente botam nomes esdrúxulos nos filhos, e pais bem educados têm mais probabilidade de criar filhos bem educados. Pura lógica, mas lógica requer inteligência, sabe, nem todo mundo é capaz de absorver esses conceitos óbvios. E prestaram atenção naquele “não significa necessariamente…” ali em cima? É importante, viu?

Sétimo: EU dizer que EU sou ex-médica é ofensivo pra quem, cara-pálida? Isso é assunto meu, se EU me formei e resolvi não exercer isso não é ofensa pra ninguém – é uma decisão minha e pronto, e não quer dizer absolutamente nada, a não ser isso mesmo: que eu me formei e resolvi não exercer. Se dizem que o Harrison Ford já foi carpinteiro (ex-carpinteiro, pois), isso é uma ofensa pros carpinteiros do mundo? Ora, por favor, vamos permanecer dentro dos limites da sanidade mental, tá?

Oitavo: parasita quem? Se eu pago todos os meus impostos direitinho e pontualmente, TANTO AQUI QUANTO NO BRASIL? Trabalho feito um cachorro, penso em três línguas diferentes por dia, cuido da casa, faço compras, mantenho vivas as minhas plantas, ajudo na contabilidade, levo a família inteira ao médico e meço a pressão de todo mundo, entrego faturas, pago contas, busco peças, atendo telefone, faço a contabilidade, vou ao banco falar com o diretor, brigo com cliente que não paga, dirijo caminhão e empilhadeira, dou banho nos 4 cachorros, ajudo a plantar tomate e tulipa, faço pequenos consertos em casa, traduzo, ensino, cozinho, organizo, arquivo, escrevo, perco o meu tempo dando satisfação a gente chata, não erro uma crase e ainda me chamam de parasita? E que história é essa de não cuspir no prato em que comi? O governo italiano por acaso me sustenta? Me dá alguma coisa de graça? Eu estou trazendo problema pros outros aqui? Quem traz problemas pro país são os marroquinos que se jogam na frente dos carros pra ganhar indenização, são as enfermeiras polonesas que botam em risco as vidas dos pacientes porque não entendem as instruções em italiano, são os chineses que trabalham por salários de fome e roubam o emprego dos italianos, são os mafiosos do sul que matam a torto e a direito. Tenho todo o direito de cuspir no prato, sim, porque eu ajudei a preparar a comida que estava nele.

E quer saber? Vá encher o saco de outro, faz favor.

p.s.: A data da viagem à Argentina ainda não foi decidida, porque ainda não sei exatamente quando vou poder ir.

p.s.2: No outro fim de semana (não esse, o outro) estaremos em Dusseldorf. Dicas…?