ui

Enxaqueca braba hoje.

A essa altura do campeonato, já entendi o mecanismo. Só pode ser de origem hormonal, porque só se manifestou fora do período pré-menstrual uma vez. Acordo de manhã com uma leve dor de cabeça que vai piorando ao longo da manhã. Lá pra hora do almoço já não sei mais nem como me chamo. Dirigir é perigoso, os olhos não se mantêm abertos, não posso mexer a cabeça porque a dor é insuportável. A esse ponto só me resta me enfurnar debaixo das cobertas, no quarto completamente escuro e silencioso; não consigo comer nada porque a náusea é bem intensa. Durmo a tarde inteira e quando acordo, à noitinha, estou um pouco melhor: já sei quem sou e onde estou, e já sou capaz de suportar a TV ligada e de sentar um pouquinho ao computador. Como alguma coisa e vou dormir de novo. No dia seguinte o ciclo se repete, igualzinho; à noite já estou melhor e posso até sair de casa, preferivelmente sem pegar vento frio na cabeça, e depois disso não tenho mais nada, é como se a enxaqueca nunca tivesse existido.

otto dicembre

Feriado nacional hoje; é la festa della Madonna – pelo que eu entendi, já que não me interesso nem remotamente por esses assuntos religiosos, é o equivalente ao nosso 12 de outubro. Na praça em frente à basílica de Santa Maria degli Angeli, já há um certo tempo foi colocado um negócio imenso de ferro que eu não me interessei em saber o que é, mas parece um cálice; é bonito, o ferro é todo trabalhado e há sempre flores frescas como decoração (não vou nem comentar que nada disso sai dos bolsos da igreja, porque seria redundante). Não sei quando foi colocado lá; não presto atenção a essas coisas, mas sei que o período entre a colocação desse troço na praça e o dia 8 de dezembro é chamado de “mese Mariano”, ou mês de Maria. Ou pelo menos acho que é assim que funciona.

Enfim, esse foi o único feriado desse ano que não caiu no fim de semana, e quem pôde aproveitou pra enforcar (ou fazer o chamado “ponte”) e foi esquiar nas montanhas. Nós obviamente ficamos por aqui mesmo, levantamos tarde e fomos pra oficina porque o Mirco tinha que pintar umas peças que eram urgentes, pra hoje de manhã cedo. Eu varri o chão da oficina, manobrei a empilhadeira, e com o ancinho dei uma ajeitada no cascalho do pátio dos fundos, que com as chuvas intermináveis acabou ficando todo irregular. Almoçamos na Arianna, e depois passamos a tarde inteira cortando a maldita forma de parmesão e embalando os pedaços a vácuo. Voltamos pra casa pra tomar banho e tirar o cheiro de queijo e dali fomos pra casa do R., amigo do Mirco que tem, entre outras coisas, uma colina em Mora, uma fração de Assis. Era aniversário da namorada dele, a fadinha C., magra como um grissino, dona das sobrancelhas mais artificiais que eu já vi na minha vida e que tem os olhos quase um de cada lado da cabeça, como uma coruja. É psicóloga e muito, mas muito cri-cri, mas o R. é um grande amigo e fomos lá marcar presença. Quem cozinhou foi a estranhíssima irmã do R., que é cozinheira e fotógrafa e já trabalhou em hotéis e restaurantes em lugares bizarros como Teneriffe e fotografa freqüentemente na África. Essa casa em Mora é uma villa maravilhosa, com piscina coberta e aquecida com teto que se abre no verão, um bosque delicioso e várias casinhas espalhadas pela colina. A mais usada é a casa del maiale (casa do porco), que tem esse nome porque uma metade da casa é reservada aos porcos que o pai, industrial milionário mas filho de açougueiro, compra ainda leitões, engorda, abate e faz lingüiça, salame, presunto e todas as outras mil coisas que se fazem com todas as partes do porco. Na outra metade há uma lareira elooooooooorme, pia, armários, mesas e um sofá; há porcos de cerâmica, plástico, vidro, pintados em pratos, nos panos de prato, no pegador de panela. No andar de cima há um terraço com uma vista linda do vale lá embaixo, e é onde o R. faz as suas famosas festas de aniversário, todo ano.

Quando chegamos R. estava acendendo as velinhas da IKEA na mesona que ficou depois que quatro mesas quadradas foram juntadas. A irmã tava botando pedaços de pão pra bronzear na brasa, pra fazer bruschetta; a outra irmã, caladona mas com olhos e ouvidos que não perdem na-da, brincava com os dois cachorros, Ercole e Scotti. Uma gatinha bebê miava lá fora, na janela, e dava patadas no vidro, mas quando abri ela não quis entrar, com medo do banana do Ercole, que abanava o rabo feito um louco, doido pra brincar com a bichinha. Mais tarde foram chegando os outros convidados, que nós não conhecíamos; eu sentei perto do fogo porque sou friorenta, e acabei batendo papo a noite toda com um casal muito simpático e esperto. Francesca é de Foligno e tem aquele sotaque engraçado deles, que tem um quê de romano; é formada em Filosofia e estudou um ano em Londres. O namorado, Stefano, é advogado, como o pai, famoso aqui na área, e morou em NY e em Madrid. Nunca conheci gente tão cosmopolita aqui no vale, fiquei pasma! Batemos um papo ótimo, troquei receitas com a irmã do R., expliquei que o que ela comeu num restaurante brasileiro em Rimini não foi farofa mas farinha de mandioca crua com feijão, e que essa farinha ela acha em Perugia, numa loja de queijos e produtos gastronômicos esquisitos na escadaria de S. Ercolano. Todo mundo deu livro de presente pra chatinha; eu dei Alta Fedeltà (ui), do Nick Hornby, já que não tenho a menor intimidade com ela e não conheço seus gostos. Digamos que vai ser um termômetro: se ela não vier depois comentar que achou graça, já vai cair mais ainda no meu conceito.

Enfim, detonamos juntos (éramos 12) cinco garrafas de um excelente Brunello de 1998 (pena, a melhor safra do último século foi a de 97), brincamos com os cachorros, e a festa terminou com a gatinha passeando sobre a mesa e comendo restos de bolo dos pratos. All in all, foi ótimo; agora infelizmente vai ser necessário aturar a chatinha outra vez se quisermos convidar Francesca e Stefano pra jantar, já que são amigos do R. e por isso temos que convidar todos juntos. Mas vai valer a pena; a chatinha é chatinha porque é boring, e não porque incomoda. Afinal de contas, no pain, no gain, né não?

:(

Não pára de chover na Itália central. Chove há dias, e quando não chove, o sol não dá o ar da graça. Minhas plantas estão em um estado lastimável. O ficus que o Mirco me deu de aniversário tá todo manchado e as folhas caem com a mínima brisa. Mudei-o pra varanda do quarto hoje, quando vi que tinha um fiapo de luz do sol batendo, mas agora o tempo já fechou horrivelmente outra vez e acho que o ficus vai mais é subir no telhado mesmo. A pianta grassa, presente da Arianna, também tá amarelada e manchada, os pés de manjericão já secaram há muito, os pés de peperoncino estão amarelados e a única pimenta de cada um não fica vermelha de jeito nenhum. As tulipas da cunhada também ainda não apareceram, porque a umidade é excessiva e o frio ainda é pouco pra elas. As plantas estão morrendo por incapacidade de fazer uma fotossíntese comme il faut e também, suspeito eu, por saudades do sol.

:)

Ontem à noite jantamos na casa do Gianni e da Chiara. Foi ótimo, eles são realmente muito simpáticos. A Chiara é o tipo de pessoa que você acaba de conhecer e já considera a sua melhor amiga – não por forçação de barra, mas porque ela é muito engraçada e bobona, e não tem como não gostar dela. Conversamos principalmente de viagens, porque eles também adoram viajar, e vamos com eles a Heindover no fim de janeiro. Fiquei encantada com as fotos que eles tiraram no sul da Espanha; morro de vontade de conhecer a Espanha moura.

O menu não tava lá essas coisas, mas o importante foi que batemos altos papos até uma da manhã e demos muita risada também. Bom, isso.

Gianni, Chiara, Bruno e a namorada Roberta (irmã do Gianni), eu e Mirco

eita queijão

Tiramos a tarde pra fazer compras, como quase sempre fazemos nos fins de semana – é a nossa terapia de casal, digamos. Fomos à Metro, que é como o Makro no Brasil, ou seja, vende no atacado pra quem tem partita IVA (o equivalente ao velho CGC). Claro que só quem tem partita IVA de hotelaria, restaurantes etc é que pode comprar por lá, mas em novembro e dezembro qualquer um que tenha uma empresa pode entrar, pra fazer as compras de Natal, cestos pros funcionários e clientes, etc. Nós sempre morremos de curiosidade de ver como era a Metro por dentro, ver latonas gigantes de molho de tomate, pacotes imensos de macarrão, lagostas congeladas inteiras. Fomos, e gastamos uma grana considerável, mas todos os preços foram muito pesquisados antes e por isso economizamos bastante, em relação ao que teríamos gasto comprando as mesmas coisas em outros supermercados. Compramos, entre outras coisas, uma forma inteira de parmesão – TRINTA E DOIS QUILOS. Eles não tinham o equipamento de fio de aço que corta o queijo, mas um dos funcionários cortou a forma a mão em quatro imensos pedaços, e a Arianna vai se encarregar de cortar esses quatro monstros em pedaços mais, digamos, manuseáveis, e embalá-los a vácuo (sim, ela tem a maquinha de embalar a vácuo). Uma parte vai pros cestos de Natal, mas a maioria do queijo vai é parar nos nossos estômagos mesmo.

Tutto il mondo è un paese, e assim é se lhe parece

Saíram ontem os resultados da última grande pesquisa de opinião sobre a Itália, vista pelos próprios italianos. Ouvi os primeiros comentários pelo giornale radio, enquanto dirigia a Ponte San Giovanni pra dar aula. Os números não mentem: a coisa que mais dá medinho aos italianos é o carovita, ou seja, o preço alto das coisas mais básicas, contas, seguros, comida, impostos obrigatórios. A percentual de italianos preocupados com esse negócio é muito inferior à média européia, que tem mais medo do desemprego do que de qualquer outra coisa. Depois vêm, compreensivelmente, a situação econômica do país, a criminalidade, a imigração, os impostos, o terrorismo e as pensões.

Primeiro que é engraçado ver como as preocupações são completamente diferentes das do povo tupiniquim. Mas o mais engraçado mesmo é ver como cada partido puxou a brasa pra sua sardinha, como cada jornal, dependendo da sua posição política, interpretou os resultados de um modo diferente.

Os partidos e jornais da situação apressaram-se em afirmar que, surprise, surprise, a Itália não é pobre, e os de oposição dizem que o italiano tem medo de ficar pobre. O governo insiste que o italiano prefere impostos mais baixos a uma melhoria no welfare (que eles usam assim mesmo, sem traduzir), a oposição menciona a greve geral de segunda-feira.

Mas o mais triste mesmo foi ver os dados sobre o uso da internet e do computador. Três italianos em quatro nunca se conectam à internet; 74% não sabem usar o computador. Coisa que eu já tive oportunidade de confirmar n vezes durante esses 3 anos aqui. Entre a minoria que usa a internet, 60% a usa pra correspondência eletrônica, 34% usa ferramentas de busca, e um terço do total aproveita pra ler notícias online. Pelo que eu ouvi no rádio outro dia, o detalhe interessante é que neguinho lê só e exclusivamente notícias italianas – por falta de interesse sobre o que ocorre fora da bota, e por incapacidade de falar Inglês mesmo.

O Mirco é que tem razão. O Terceiro Mundo é aqui.

L’articolo sul Corriere.

greve macarrônica

Eu até esqueci de comentar, mas segunda-feira passada foi dia de sciopero generale (pron. chópero generale), greve geral, aqui no interior do Butão. Claro que, sendo uma greve geral italiana, não foi exatamente uma greve geral no sentido clássico da expressão, até porque senão não teria sido uma greve italiana, não sei se vocês estão acompanhando o meu raciocínio.

Começamos pela motivação da greve: Berlusconi prometeu abaixar os impostos. Não, vocês não leram errado nem eu estou ficando maluca: Berlusca prometeu ABAIXAR os impostos, e o povo foi pra rua reclamar. Porque obviamente isso é tudo uma palhaçada pra aumentar a popularidade do governo e, por mais que a situação diga e repita que não vai haver nenhuma redução de investimentos nas áreas básicas (saúde, educação etc), só acredita nisso quem ainda espera o coelhinho da Páscoa todo ano. Por favor, né. Se ainda fosse outro falando, mas o Cavaliere Berlusconi! Please. Fora que é ca-la-ro que isso só iria beneficiar quem paga muito imposto, leia-se quem ganha muita grana, porque a ralé mesmo, o peppe popolone (minha versão italiana de zé povão), iria economizar algo em torno dos 30 euros por ano. Faz-me rir.

Mas então. Eu já falei que italiano adora uma greve. Em termos de greve, reclamação, resmungos, os italianos estão ali, cabeça a cabeça com os franceses, juro. Tudo é motivo pra greve. A coisa engraçada (porque a Itália é um pais tão surreal que chega a ser engraçado) é que a greve tem hora certa pra começar e acabar – hora certa que nem sempre é respeitada, obviamente. Cada cidade tem a sua hora certa pra começar e acabar a greve, mas dentro da mesma cidade diferentes categorias têm diferentes horários de greve. Então em Roma os ônibus pararam das dez às duas, digamos; os trens das nove à uma, os bancos só de manhã, os correios quase todos pararam – mas não todos. Em Turim e em Milão os horários já foram diferentes, claro. Os técnicos de rádio e TV aderiram à greve, então os telejornais e os GR (giornale radio) foram ao ar em versão reduzida. Aqui na roça os correios fecharam, porque tudo é motivo pra fechar quando se trata dos correios; dois dos três bancos que eu freqüento pro Mirco tinham colocado avisos na semana anterior dizendo que não asseguravam o funcionamento normal na segunda de manhã, mas ambos abriram normalmente. Vai entender. Algumas lojas fecharam, outras não. Alguns restaurantes fecharam, outros funcionaram normalmente. Os turistas não devem ter entendido nada, tadinhos.