enxaqueca incapacitante
Arquivo mensais:outubro 2004
altos e baixos
. Ver o já erudito vocabulário do Mirco aumentar substancialmente: pára com isso, fala baixo, menino, não podje (ele adorou essa frase), quero/não quero, uma água minerau e treish chikabon, homenharanha, sorvetchi, fíume, Autchibéqui, milquishêiqui dji ovomautchíni du Bóbish, Catupiry, maracujá, sapoti, lula, camarão, lagoshta, Seu Zé.
. Ouvir minha mãe tentando falar em espanhol com o Mirco. O detalhe interessante é que ela NÃO FALA espanhol.
Altos e baixos
. Voltar pra casa bêbada de tanto rir depois de rever dr. Pfaender e dra. Raquel (esses filhos da mãe anteciparam o casamento porque o Pfaender tá grávido, ou pelo menos tão barrigudo como se estivesse, e por isso eu não vou poder ir), dr. Alexandre e dra. Fernanda, e o ex-futuro-doutor Raphael Mulé respectivamente médico de barriga, G/O, médico de barriga, pediatra, publicitário (?). Tinha ANOS que eu não ria tanto assim. Até agora tenho ataques de riso sozinha quando lembro do Alexandre contando a piada do concurso de pênis (olha como eu sou educada).
No photos, unfortunately.
. Ter engordado uns duzentos quilos.
No photos, obviously.
hohoho
Por outro lado, a notícia bizarra de hoje é a prisão de não sei quantas pessoas envolvidas no tráfico de viados. Juro. Uma quadrilha que “importava” travestis do Brasil e os empregava oficialmente como pedreiros pra legalizar a situação deles aqui na Itália. O mais engraçado é ouvir o termo “viados” usado como se fosse a coisa mais normal do mundo, no meio de uma frase em italiano.
Arrestate 10 persone coinvolte in traffico di viados dal Brasile all’Italia…
Faça o que eu digo…
O Papa hoje falou sobre como é horrível ser rico, como os ricos não vão pro céu, que é melhor ser pobre e coisa e tal. Quer dizer que o filho da puta pobre vai pro céu, e o rico legal não vai? Legal essa filosofia. Por essas e outras é que eu agradeço aos meus pais todos os dias por não terem me batizado.
passei!
Miraculosamente, passei na prova teórica pra motorista. Digo miraculosamente porque obviamente não tive tempo nenhum pra estudar; dei uma olhada rápida ontem tarde da noite e fiz alguns testes pra praticar, mas considerando a quantidade de informação que tem no livrinho eu até que me saí muito bem: de 30 questões, só errei três (mais dois erros e eu não passava), e bem idiotas clássicas questões de definições e nomenclatura que não provam nada além da capacidade de memorização do candidato. A minha é ótima; dificilmente eu esqueço de algo que li ou ouvi, e minha memória visual é excelente, o que ajuda na hora de lembrar da legenda embaixo da figura de uma placa de trânsito. Mas definições idiotas não são comigo, fico achando pêlo em ovo, fico com má vontade e acabo sempre errando. E foi exatamente o que aconteceu.
Nós éramos 12. Dez adolescentes, eu, com 8 anos de direção nas costas, e um molambento de seus trinta e cinco anos que eu apostei comigo mesma, só de vê-lo entrar na sala, que não iria passar. O jeito de caminhar, de se vestir, o olhar de pamonha, o fato dele não ter trazido caneta, tudo isso só confirmou a minha certeza. E não deu outra: o cara errou milhões de questões. Além de mim, só mais duas pessoas passaram: um garoto que fez 4 erros e deu um suspiro de alívio que fez todo mundo gargalhar, e uma garota que não errou nada. Uma outra mulinha foi reprovada pela segunda vez. Cara, na boa, fora essas definições idiotas, que são decoreba mesmo, dirigir, e conseqüentemente a prova pra poder dirigir, é como qualquer outra coisa na vida: basta ter bom senso. E feito o teste uma vez você já passa a entender o mecanismo, né. Fora que o livrinho teórico vem com um livrão de testes com TODAS as questões possíveis são muitas, verdade, mas o teste só tem trinta, divididas em dez enunciados, cada um com três afirmativas que podem ser verdadeiras ou falsas. Os assuntos até que são bastantes: noções de primeiros socorros, que felizmente não caíram pra mim porque não lembro de mais nada, de poluição, de manutenção do carro, de direitos e deveres em caso de acidente, do funcionamento da apólice de seguro do carro, etc. Bem interessante.
Bom, em todo caso, passei. Um alívio, mais pela burocracia que eu teria que enfrentar novamente se fosse reprovada do que pelo medo de não passar de novo, coisa que certamente não aconteceria na segunda tentativa, please. Agora tenho que voltar à auto-escola pra marcar (e pagar, né) a prova prática, e pronto.
E aqui entro com um adendo: eu fui, logicamente, a primeira a terminar, como sempre aconteceu durante toda a minha vida acadêmica, desde que me entendo por gente. Fiz a prova em 5 minutos, contados no relógio. Quando fui entregar a folha, a fiscal, que também é dublê de mulherzinha burocrática às segundas, quartas e sextas (foi ela que me atendeu quando fui entregar o requerimento), pediu, em voz alta, que eu entregasse também a minha pastinha branca, que eles mesmos nos dão, e que contém todos os seus documentos necessários pro andamento do processo. Adivinhem quantas das outras 11 pessoas ouviram o que ela disse, ou se inspiraram nas novas pastinhas brancas que se acumulavam sobre a escrivaninha à medida em que o resto do povo ia terminando? ZERO. A coitada da mulher repetiu ONZE vezes “a pastinha branca também, por favor”. Ou eu sou chata demais ou a imensa média da população é desatenta e desinteressada demais. Eu sei que sou chata, mas tenho a impressão de que nesse caso a segunda hipótese é infinitamente mais provável.
Da série altos e baixos
As listas ficaram muito compridas, então vou dar um alto e um baixo de cada vez, nessa ordem, e quando possível com fotos ilustrativas. Blog didático é isso aí.
. Rever grande parte do pessoal da faculdade no Pizza Park, na Cobal do Humaitá. Na ordem da foto, da esquerda pra direita: dr. Bernardo Lopes, ortopedista, e sua futura senhora, dra. Sabrina Alvim, pediatra; dra. Flavia Pinho, anestesiologista; dr. Rodrigo Buzzatti, ralador no INCA; doutores Claudio e Maria Marta Tortori, pediatras e ex-professores; e por último eu, que não sou nada. Faltou a dra. Yasmine, a.k.a. Djésmine, residente de Neurocirurgia e rainha dos bombeiros, mas vai ser difícil de achar assim na China, hein?

. Andar pela feira Hippie e achar tudo incrivelmente horroroso e absolutamente mal-acabado.
sorry, it’s all that I can say
Pois então. Tenho zilhões de desculpas a pedir, zilhões de pessoas que eu gostaria MUITO de ter encontrado/conhecido, mas que pelos mais variados motivos acabou não rolando. Tento me explicar: fiquei tanto tempo sem voltar ao Brasil que minha agenda ficou apertada, e as três semanas não foram suficientes pra descascar todos os pepinos e abacaxis pendentes, muito menos pra ver todo mundo que eu queria ver. Fora que nos primeiros dias tive aquela enxaqueca bizarra e inédita, e nos dias seguintes peguei um resfriado chatíssimo. Mas acho que posso citar como causa principal da negligência a minha famigerada preguiça social. Eu detesto falar ao telefone e morro de preguiça de entrar em contato com pessoas. Mesmo pessoas queridas. Sim, minha preguiça chega a esse ponto. Mais do que isso, porém, essa viagem ao Rio foi tão, tão estranha, foi tão realidade paralela, tão portal para outra dimensão espaço/tempo, que não deu tempo nem pra me reorientar, reposicionar meus pensamentos, ajustar as idéias. Foram três semanas desorientada, deslocada, perdidona mesmo. Perdida no limbo. Prometo que não vou mais deixar passar tanto tempo sem voltar, se for possivel. Pra dar tempo pelo menos de organizar as idéias na cachola e não olhar pro William Bonner falando na TV como se ele fosse um marciano, nem esquecer a ordem das ruas transversais de Ipanema.
Minhas desculpas oficiais vão, totalmente fora de qualquer ordem, cronológica, sentimental ou alfabética:
. À Marcinha Aguiar. Shame on me.
. À Cora, que mora do lado da casa da minha mãe. No comments.
. À Carol, que hospedou meu cachorro até minha mãe trazê-lo pra cá. Não tenho palavras.
. À Aninha, pra quem eu mandei e-mail antes de viajar, como pra todo mundo, mas o e-mail voltou e eu só fui ver quando voltei à Itália. Nesse caso tenho como comprovar minha inocência ;)
. À Bia Badaud, com quem excrusive eu queria tirar umas clássicas dúvidas lipoaspiratídicas.
. À minha tia Lourdinha, que eu adoro e não tenho absolutamente nenhuma desculpa pra não ter ligado.
. Ao Telmo, professor de Ortopedia e amigo, que tem uns horários de trabalho bizarros na clínica perto de casa (Ortopedistas Associados, na Miguel Lemos) e eu fui lá procurar várias vezes mas nunca dei a sorte de encontrar.
Provavelmente tem mais gente, mas agora não estou lembrando. De qualquer maneira, quem se sentiu ignorado/abandonado tem toda a razão. Podem me bater. Na próxima vez vou tentar me comportar melhor.
domesticidades
. Eu adoro salmão. Acho uma delícia, lindo, maravilhoso. MAS Ô PEIXE PRA DEIXAR VOCÊ E A SUA COZINHA FEDENDO DIAS A FIO, PUTZ GRILA!!!
. Se eu não tinha nenhuma opinião formada sobre organismos geneticamente modificados, nossas últimas incursões ao cinema me fizeram pensar melhor sobre o assunto. O primeiro a desenvolver um milho de pipoca geneticamente modificado de modo a não ter mais aquelas malditas casquinhas que vão parar direto entre o dente e a gengiva vai ter meu voto pro Nobel.
. A melhor escovinha de rímel que eu já tive na minha vida é uma do Boticário. É uma verdadeira maravilha: não precisa dar aquela limpadinha básica dos excessos na borda do frasco, não forma gruminhos, separa os cílios que é uma beleza. Só tem um pequeno problema: basta uma gota de chuva ou de lágrima pra borrar tudo, mas estranhamente, na hora de remover, à noite, antes de dormir, não há santo que consiga tirar tudo. Eu lavo o rosto com sabonete Basis, uso demaquilante pros olhos, e mesmo assim acordo com cara de drogada em heroína que passou a noite se picando na estação de metrô abandonada, com olheiras de dois metros causadas pelo rímel borrado. Assim não dá.
. Eu AMO escova progressiva.
. Amanhã faço a prova teórica pra carteira de motorista. Algo me diz que não vai dar certo.
. A gatinha do Ettore roubou o lugar do friorento do Leo no cesto de trapos onde ele sempre dorme sozinho, como um paxá. Bem feito. Ele é o maior ladrão de lugar quentinho, mas anteontem o pegamos dormindo todo torto numa cadeira num canto da garagem, enquanto a gatinha dormia em meio aos trapos no cesto quentinho, como o diabo gosta…
coisitchas
Vou custar a escrever sobre a viagem. Preciso de tempo pra editar e uploadear fotos e pra lembrar de um monte de coisas. Enquanto isso vamos às frugalidades, que eu adoro:
O tempo aqui está uma merda, como era de se esperar. Chove o tempo todo, minhas plantas sobreviveram bravamente ao excesso de água e continuam lindas, tenho pilhas quilométricas de roupas pra lavar (e depois passar), mas com esse tempo nada seca, tudo fica com cheiro de cachorro molhado. Já fiz o maldito cambio stagione, ou seja, já levei as roupas de verão, devidamente guardadinhas em malas, acompanhadas de sabonetes da Natura, lá pra garagem. Já subi as roupas de inverno, as botas, os casacos. Hoje já fui ao banco, aos correios, ao banco de novo, ao fruttivendolo comprar verduras e legumes e frutas, à peixaria comprar peixe pro almoço de amanhã. Já limpei a sala, que ontem não consegui terminar. Já estendi roupa, na esperança que seque. Já carreguei a máquina de lavar roupa outra vez, a milésima vez. Já troquei os lençóis. Já lavei os cabelos. Já organizei documentos e faturas. Já dormi uma horinha de nada no final da tarde. Já terminei Dois Irmãos, de Milton Haum (adorei), e já vou começar O Vendedor de Passados. Já descongelei e limpei o congelador e a geladeira, finalmente! Agora estamos indo ao Ipercoop fazer compras e repôr os estoques. Amanhã vou trabalhar na oficina, porque a Elisabetta ainda não voltou da licença pra tirar um nódulo sinistro da garganta, causado por uma pronúncia errada da vogal e.
A praga do momento são os percevejos. Aqueles mesmos, famosos pelo fedor vingativo após um cruel esmagamento. A diferença é que os daqui quase não fedem, ou não fedem at all. Mas são UM PORRE. Bichinhos burrésimos, que entram em casa não se sabe por qual motivo, voam que nem a cara deles e, uma vez caídos de barriga pra cima, são incapazes de se levantar outra vez. Morrem todos assim, pateticamente, esperneando. Minha varanda está coberta de pequenos cadáveres verde-radioativo, que depois a chuva se encarrega de levar embora. Vários deles já foram parar no saco do meu aspirador de pó, porque alguns infelizes morrem dentro de casa e, quando não são esmagados por um pé desatento, eu termino por aspirar mesmo.
Legolas ganhou biscoitinhos de couro pra cachorro e uma roupa que ficou meio justa, mas, sendo de lã, vai acabar cedendo. Tava meio sonolento quando chegamos pra visitá-lo, mas abanou a bunda como sempre, antes de pegar o biscoito da minha mão e ir se aboletar na sua caminha outra vez.