The mind é mesmo a powerful thing.

Ontem passei o dia inteiro torcendo pra hoje acordar com alguma febre estranha que me impedisse de ir trabalhar. Fiz melhor ainda: ontem à noite, depois que levantei do computador e fui fazer o derradeiro xixi antes de ir dormir, dei simplesmente com a cara na porta. Esqueci (Freud explica) que tinha deixado a janela do banheiro aberta pra secar uma toalha de banho, e, pra não criar corrente de ar que bate a porta de vidro do corredor, fechei a porta do banheiro. Dei realmente uma carada na porta, com vontade. Fiquei estatelada no chão de tanta dor uns dez minutos, sem saber o que fazer – era meia-noite e meia, eu sozinha em casa.

Hoje minha cabeça dói um pouco, compreensivelmente, mas fora isso estou bem, só não fui correr porque ontem a chuva molhou meus tênis que eu tinha deixado na varanda pegando um arzinho. Vou ligar pro escritório pra dizer que, além da dor de cabeça, estou tonta e não quero dirigir. Se melhorar, mais tarde eu vou, mas agora não tô podendo. Se eu perder meu tempo trabalhando, nunca vou encontrar um emprego melhor, concordam?

sempre livros

Ontem terminei What it means to be 98% chimpanzee. Achei tão arrogante! Tão cheio de lugares-comuns! Mas também tem pontos de vista interessantes, e algumas boas tiradas, que eu, burra que sou, esqueci de marcar pra colocar aqui e agora não consigo mais achar.

E hoje acordei cedo, li metade de Survivor (Chuck Palahniuk), fui fazer faxina enquanto o Mirco foi pra oficina inventar um bebedouro pra adaptar ao garrafão de 5 litros de água mineral que eu descobri na Coop por € 0,60, tomei banho, corri pra varanda pra tirar as flores da chuva fortíssima, e aproveitei que o almoço era ridículo (pappardelle all’uovo com molho pronto de faisão) pra continuar lendo. No final da tarde Mirco partiu pra Milão pra fazer outro curso como o do ano passado, quando eu o acompanhei e aproveitei pra conhecer a Simone. FeRnanda e Fabião passaram aqui pra checar e-mail, já que em Ripa ainda não há ADSL e de qualquer forma o computador deles ainda não foi ligado por falta de espaço. Agora há pouco, lá pras nove, terminei Survivor. Sabe que eu gosto do estilo desse cara? Tudo muito absurdo, meio realismo fantástico, mas nessa ele acaba mandando muito bem. A paginação do livro é toda ao contrário, a numeração dos capítulos idem. Achei o livro muito legal.

The Prayer for a Parking Space

Oh, divine and merciful God,
History is without equal for how much I will adore
You, when You give me today, a place to park.
For You are the provider.
And You are the source.
From You all good is delivered.
Within You all is found.
In Your care will I find respite. With Your
Guidance, I will find peace.
To stop, to rest, to idle, to park.
These are Yours to give me. This is what I ask.
Amen.

You realize there’s no point in doing anything if nobody’s watching.
You wonder, if there had been a low turnout at the crucifixion, would they have rescheduled?
You realize the agent was right. You’ve never seen a crucifix with a Jesus who wasn’t almost naked. You’ve never seen a fat Jesus. Or a Jesus with body hair. Every crucifix you’ve ever seen, the Jesus could be shirtless and modeling designer jeans or men’s cologne.
(…)
Because the only difference between a suicide and a martyrdom really is the amount of press coverage.
If a tree falls in the forest and nobody is there to hear it, doesn’t it just lie there and rot?
And if Christ had died from a barbiturate overdose, alone on the bathroom floor, would He be in Heaven?

chico bento perde

Eu realmente adoro essa vida na roça. Hoje de manhã fui dar a minha corrida básica em meio aos campos de trigo aqui perto de casa, olhando com muita inveja as gigantescas moitas de sálvia e alecrim, as parreiras, os tratores, as mudinhas de alface enfiadas em buraquinhos de um negócio estranho acoplado ao trator. Voltei, bebi meio litro de água e fui levar o carro do Mirco a S. Maria pra lavar. Depois fui dar um pulo na Arianna, que estava reformando o pombal. Parece que os dois machos tinham caído na porrada no dia anterior e precisavam ser separados. Dali pra ir ajudar a pegar os ovos de pata foi um pulo. Uma das patas tinha botado três ovos num ninho lá nos cafundós do judas, dentro da oca improvisada que a Arianna fez pra proteger os bichos do frio. Dentro da outra oca, que fica numa parte separada do galinheiro, a outra pata tinha chocado quatro patinhos leeeeeeeeeeeeeeendos, microscópicos, foférrimos, que esperneiam quando a gente pega na mão. Segundo a Arianna, os outros 7 ovos que ficaram vão morrer, porque dificilmente a pata vai chocá-los. Não consegui entender o porquê, talvez porque não dava pra ouvir as explicações berradas pela sogra – experimente conversar tendo gansos por perto e você vai entender o que eu estou dizendo.

(Isso tudo rolando e os cachorros todos dentro do galinheiro, passeando calmamente entre perus albinos, os malditos gansos, galos que cantam fora do horário, galinhas que ciscavam restos de alface.)

Dali fomos pra horta. As favas já estão prontas pra colher, ela me avisa. Pego uma cesta de vime e lá vou eu me embrenhar na floresta de favas. Ainda estão novinhas e tenras, por enquanto são boas pra comer cruas. Mais tarde, quando estiverem mais secas e durinhas, ficam mais gostosas cozidas. Então tá. Confesso que não sou grande fã de fava crua, mas aqui é uma iguaria, pra ser degustada com um bom pecorino. O Mirco adora, então enchi o cesto. Colhi umas ervilhas também, mas ainda falta um pouco pra elas ficarem no ponto. Alface ainda tenho, ela me deu dois pés bem folhudos terça-feira. As mudas de tomate que ajudei a plantar domingo passado já estão bem grandinhas. São 54 plantas de tomate pra salada e 54 de tomate pra fazer molho e deixar em conserva pro ano inteiro. Os pés de alho estão enormes, as batatas e cenouras ainda não estão prontas pra colher, as cebolas estão lindas, entremeadas de ervas daninhas que dão lindas florezinhas brancas e lilás. Ficamos batendo papo à toa enquanto ela rega os pés de insalata (já falei aqui mas repito: insalata não é só o nome do prato, mas o nome genérico de qualquer planta que se use pra fazer salada), Legolas sentado num canto prestando atenção, os gansos de vez em quando fazendo um barulho desgraçado quando escutam alguém passando na estrada ao lado. Eu, ignorantérrima nesses assuntos vegetais, vou fazendo perguntas idiotas: e aquilo ali, é funcho? Não, é cenoura. E aquela parte lá, é tomate também? Não, são as batatas. E lá no fundo, o que é? Alcachofra. Putz, não acerto uma! A única planta que eu aprendi a reconhecer é a fava, que tem uma aparência particular, com folhas arredondadas e da mesma cor meio cinza, meio azul das oliveiras. Por enquanto, o resto pra mim parece todo igual…

Voltamos pra velha horta, que agora é um espaço pros cachorros, cheio de vasos de flores espalhados sem ordem nenhuma pra lá e pra cá. Arianna me mostra um arbustão de alecrim que ela achou jogado no campo, coitado, e trouxe pra casa. Vai arrancando mudas e distribuindo pelos cantos, pelos vasos, pelos canteiros. É só dar um pouquinho de água que ele pega, ela diz. Aponta pra uma fileira de vasinhos iguais, cada um com uma mudinha verdinha dentro. Sei que são plantinhas de feijão, mas fico impressionada com a velocidade de crescimento: terça-feira eram só brotinhos ridículos! Eu plantei grão-de-bico numa jardineira que estava sobrando na varanda e em uma semana já estão devidamente brotados. Impressionante.

Encho uma sacola de plástico com as favas, a meia dúzia de vagens de ervilha, meia dúzia de ovos de galinha que ficam num cesto de plástico na cozinha de baixo, dois ovos de pata e quatro mudas de peperoncino – duas plantinhas de pimenta redonda e duas de pimenta compridinha. Já estão dando flor, espero que dêem logo o peperoncino. Fresco, assim, no molho de tomate, é uma coisa de louco.

E agora dá licença que eu já plantei o peperoncino e é hora de preparar o almoço: fettina (filezinho de vitela, pálido e sem gosto de nada, que eles adoram e eu quase nunca como) com salada da horta da Arianna, arroz branco que ainda tenho no congelador, e fava fresca, pro lanterneiro. E tenho que preparar as abobrinhas recheadas pro jantar, senão depois fico com preguiça… Consegui achar aquelas abobrinhas redondas bonitinhas, que são deliciosas. Aquelas normais também são ótimas, mas como são bem finas e não precisa nem jogar fora o miolo, não dá pra rechear.

Mais tarde vamos a Ripa. Longa história, depois eu conto.

Estou tendo problemas pra enviar e-mail de novo, não fiquem achando que sou negligente. É problema técnico mesmo. Da outra vez resolveu sozinho, vamos ver se agora também vai.

Estou tendo problemas pra enviar e-mail de novo, não fiquem achando que sou negligente. É problema técnico mesmo. Da outra vez resolveu sozinho, vamos ver se agora também vai.

Há flores em tudo que eu vejo

Pois é, a primavera parece que chegou, mas não conta pra ninguém não, que eu tenho medo do frio voltar.

De qualquer maneira, desde o início da semana que o sol tá lá, firme e forte – forte de verdade, a gente sente a pele queimando, mas não morre de calor porque ainda rola um vento frio. Aqui nos jardins atrás de casa estão preparando tudo pra festa da primavera, que começa semana que vem. Ano passado eu nem reparei – but then, how could I?

Há flores pipocando em tudo que é lugar. Jardineiras nas janelas, mil vasos nas varandas, petúnias, violetas, tulipas, flores cujo nome não sei. Os italianos gostam de jardinagem, mas estão longe da organização dos ingleses, então os jardins são a imagem da ordem no caos: percebe-se a mão de alguém na distribuição das plantas, mas não é possível detectar nenhum padrão de nada. Os jardins das casas italianas são muito visivelmente italianos, e eu acho isso super divertido. Eu adoro essa floração em tudo que é lugar, apesar de ter que admitir que tenho pena das plantas (eu não falei que eu tava brigittebardoziando cada vez mais? Daqui a pouco vou ter pena até de bactéria, espera só pra ver), enfurnadas em pequenos vasos, as raízes doidas pra dar uma expandida e dando de cara com aquela barreira sólida. Pobres florezinhas que não sobreviverão ao próximo inverno! Sinto pena, de verdade. Toda vez que rego minhas flores na varanda fico me martirizando por mantê-las dentro de vasos apertados em vez de livres e serelepes num jardim. Mas não tenho jardim, então tem que ser em vaso mesmo. Tadinhas!

A única coisa que eu não gosto da primavera é essa abundância de rosas em tudo que é lugar. Eu detesto rosa, acho a flor mais cafona do planeta, repolhuda, vulgar, exibida. E ainda por cima tem espinho! Gosto de florzinhas pequenas, espontâneas, alegres e bobinhas – flores do campo, margaridinhas danadas que crescem sem ser convidadas, papoulas vermelho-berrante (sábado colhi várias do chão – novamente a pena de arrancá-las – enquanto passeava com o Legolas e enfiei por dentro da coleira dele. Ficou um cachorro primaveril, papoulento, maravilhoso.) igualmente caras-de-pau que nascem em qualquer lugar; amo as tulipas, elegantes, clean, simples. As miniflores do meu tomilho e da minha sálvia são lindas, apesar de microscópicas – ou então exatamente por serem microscópicas. Minhas petúnias estão divinas. Os cravos foram transplantados ontem a dois vasos maiores, porque achei que as mudinhas não estavam gostando muito da apertação do vasinho onde estavam antes e estavam empacadas na mesma altura há duas semanas. Vamos ver se agora crescem direito. As dálias-anãs estão firmes e fortes; eu dividi um pacotinho de sementes em dois vasos, então eu acho que o espaço é suficiente. Arianna anteontem me deu um vasinho bonitinho com três flores vermelhas estranhas cujo nome nem ela sabia. Perguntei logo se podia passar pra um vaso maior, mas ela falou que não. Tadinhas.

E aqui o ditado diz que uma andorinha não faz primavera. E é verdade. Há andorinhas em tudo que é lugar. De manhã é uma bagunça danada, elas voam feito flechas pra lá e pra cá, indo e vindo dos ninhos construídos embaixo das bordas dos telhados, fazendo o maior escândalo com aquele piu-piu estranho delas. Há outros passarinhos também, mas no meio desse bando de andorinhas a gente nem consegue ver direito.

Acho que seria uma boa idéia arrumar uma andorinha doméstica pra comer as moscas, que já começam a encher o saco. Cada moscona tão grande que parece um helicóptero. Bicho nojento. Insetos malditos, abusados! Ontem à tardinha eu e Mirco fomos correr aqui nas redondezas, em meio aos campos de trigo, e a quantidade de inseto que deu topada na gente foi impressionante. Primavera na roça é assim mesmo, tenho que me conformar…

procura-se sponsor

Estamos à procura de um patrocinador para um revolucionário produto que com certeza vai mudar, para melhor, a vida de milhões de pessoas em todo o planeta. Trata-se do Super Hiper Mega Decapitador de Fumantes de Elevador, copyright pacamanca Inc. O funcionamento é simples, rápido, e infelizmente indolor: um sensor ultra-eficaz posicionado no teto do elevador* ativa, ao menor sinal de fumaça de cigarro, um jato de água direcionado a laser que apaga o cigarro imediatamente. Mas não é só isso! O sistema também ativa, imediatamente depois da apagação do cigarro, um machado afiadíssimo que cortará, com precisão cirúrgica, a cabeça do idiota. E na versão 2.0 Deluxe a lâmina já vem automaticamente coberta com um potente coagulante, que impede assim quaisquer jorros de sangue e consequentemente elimina o incômodo da limpeza pós-decapitação.

Também estamos tentando um acordo com o cadastro de cidadãos para eliminar possíveis cônjuges do idiota decapitado, para evitar assim a transmissão dos cromossomos da falta de educação às futuras gerações.

*O sensor, naturalmente, é invulnerável a qualquer tipo de agressão, seja ela de natureza química ou física.

vai uma massaje aí?

Pois é, então, nem contei do maluco-beleza que está fazendo minhas massagens shiatsu. O cara é uma figuraça, todo descabelado, mas competente, pois já estou me sentindo melhor. Ontem foi a primeira sessão, e logo de cara ele sacou qual era o problema: ao sentir a rigidez do músculo, perguntou na cara dura se eu estava contente no meu emprego. Dei uma risada e deixei por isso mesmo. Ele respondeu com outra risada de quem entendeu tudo muito bem.

Hoje, durante a segunda sessão, botei meu bedelho pra funcionar e perguntei há quanto tempo ele faz massagem, e principalmente como foi parar nesse tipo de atividade. Resposta: desde 89. Antes disso ele administrava discotecas e pubs (tuuudo a ver), até que uma amiga a quem ele deve ter administrado uma bela massagenzinha erotico-básica disse que ele tinha “energia nas mãos”, coisa que eu considero uma balela ímpar, que seria melhor traduzível em “mãos boas pra massagem”. Ele resolveu ir adiante, e, não achando na Itália nenhuma escola séria de shiatsu, foi parar na Suíça, onde estudou por 3 anos (e eu que achava que era uma coisa simples…). Voltou à Itália, continuou sempre os estudos, acompanhou de perto um médico “alternativo” por 15 anos (esse guru dele hoje tem quase 90 anos), e resolveu abrir seu próprio consultoriozinho de massagem.

Perguntei tudo isso não só porque sou irremediavelmente curiosa, mas por um motivo muito down-to-earth: ele cobra 20 euros por cada sessão de 40 minutos. Eu levo 15 horas e meia como estagiária pra juntar 20 euros. Sacaram?

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A coisa curiosa nessa história toda é que ele pegou, compreensivelmente, o mesmo vício de todas as manicures que já fizeram minhas unhas: o de me dar tapas pra me fazer relaxar. Eu não consigo relaxar. Não tenho nenhum prazer particular com massagem, não me dá sono nem me tranquiliza, e eu fico rígida O TEMPO TODO. Detesto ter gente mexendo no meu corpo sem que eu saiba exatamente o que estão fazendo. Então volta e meia ele pergunta, beliscando meu ombro: “Por que você não está morta? Quero você morta, relaxada”. Ao que eu respondo: “Eu estou morta… só que em rigor mortis“. Que infame que sou.

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Segunda-feira, sempre às oito, a terceira e, espero, pro bem do meu bolso, última sessão. Mas sei que enquanto minha vida não se ajeitar por aqui e eu não me divertir mais um pouquinho vou continuar com o ombro duro, e todos os habitantes de Hokkaido podem vir massagear shiatsudamente meu músculo trapézio que o bicho vai continuar emperrado.