bastia – rio

roma – milão: a epopéia

Como ontem era o último dia de férias pra boa parte dos italianos, fiquei com medo do Mirco pegar trânsito na volta e se irritar ou, pior, se envolver em algum acidente horripilante, então levamos o coitado do Gianni pra fazer companhia. Saímos cedo, logo depois do almoço (o vôo era às 17:50), e chegamos com tempo de sobra pra fazer o check-in. Eu já sabia que não seria muito simples porque a perna Milão-SP estava toda com overbooking, segundo minha fonte seguríssima na TAM, então preferimos chegar cedo pra eu fazer o check-in logo, mandar os meninos embora e sentar com o computador pra trabalhar.

Hah.

Na passagem dizia Terminal B, mas ali não tinha nada nas telas, nem o vôo com destino final pra São Paulo, nem o doméstico Roma-Milão. Tentamos o Terminal C: nada. Gianni volta ao Terminal A, onde tínhamos encontrado vaga, pra ver se o vôo estava ali entre os domésticos. Nada. Perguntamos no balcão de informações da Alitalia no Terminal C, a mulher me garantiu que era no A. Voltamos ao A, novamente nada escrito em lugar nenhum. Em um dos balcões de check-in da Alitalia, uma loura desenhava espirais em um papel. Me olhou com cara de nojo e me mandou “pra qualquer balcão de check-in que estiver livre, senhora”. Perguntamos a mais duas pessoas, até que um lourinho simpático disse “Aaaaah, mas é ali, senhora!”, apontando pra um balcão de check-in aleatório que eu, logicamente, tinha a obrigação de saber que era o tal. Nisso já tínhamos perdido 45 minutos, mas não tinha fila e eu estava otimista.

Hah.

– Não estou vendo a senhora neste vôo.

– Bom, mas eu estou aqui, como você pode ver, e com o e-ticket impresso, como você também pode ver.

– Eu estou vendo as outras pernas da viagem, mas não Roma-Milão.

– Pode ser porque a agência [online, ndr] mudou a passagem; antes eu iria a Milão com a Lufthansa, que vai fazer Milão-Roma na volta. Nessa troca pode ser que tenha dado algum problema.

– Pode ser, senhora, mas o fato é que a senhora está sem passagem e assim não pode embarcar. Tente ali na bilheteria pra ver se eles resolvem.

Vamos à bilheteria da Alitalia que, vocês sabem, foi oficialmente falida na sexta, pra poder dividir as partes ainda lucrativas entre os amiguinhos de Berlusconi. A parte endividada vai ser paga pelos contribuintes. Lógico. O atendente, Stefano, italiano clássico, me dá o mesmo diagnóstico: eu não existo. Ligo pro meu contato na TAM, que me dá um número em Milão. Ligo e falo com Angela, que me diz que isso às vezes acontece mesmo e pede pro Stefano ligar pra ela pra ela esclarecer tudo. Stefano ri: mas se o problema é deles, que não mandaram o bilhete atualizado pra nós, por que é que eu é que tenho que ligar pra eles? Bom, já falimos mesmo, não vai ser mais um telefonema interurbano que vai piorar a situação…

Ligou, falou com a Angela, deu o número de telex pra onde ela deveria mandar uma cópia da maldita passagem. Só que, como eu e você sabemos, não havia passagem nenhuma e a Angela teve que fazer a bichinha do zero. O fato é que demorou pacas. Nós três plantados ali do lado da bilheteria, tomando suco de laranja de lanchonete de aeroporto (e com preço de lanchonete de aeroporto), esperando a Angela mandar o telex, e o relógio andando. Enquanto isso, eu perguntando ao Stefano como estava a situação deles com o novo acordo pra falir a Alitalia; ele respondeu com uma imprecação contra o Cavaliere, eu respondi amém. Séculos depois chega o telex. Stefano imprime o cartão de embarque com escrito “STAND BY” em letras garrafais e me manda de volta ao check-in.

Era outra mocinha, mais simpática e muito bonita, chamada Alma. Pesou as minhas malas: duas de 23,0 quilos, total 46,0 quilos, EXATAMENTE dentro do limite. O Gianni, que normalmente parte com malas mais numerosas e maiores do que as nossas porque ele e Chiara não sabem viajar lightly, mas que está cansado de ver as malas grandes cheias de compras com as quais sempre voltamos pra Itália, ficou me olhando horrorizado: você é o monstro da bagagem! Um monstro! (Claro que pesei as bichinhas antes de sair de casa, mas a nossa balança da IKEA não é de precisão, lógico, e tudo o que eu consegui ver no display meio coberto pela base da mala foi que estava entre 21 e 23). Beleza, não vou ter problemas, pensei.

Hah.

– Senhora, o problema é o seguinte: a senhora está em quarto lugar na lista de espera [a essa altura do campeonato já eram 17:40] e mesmo que consiga embarcar, o que sinceramente não é muito provável, não tem lugar pras malas na estiva.

– …

– Eles estão fechando o vôo, vou ligar pra ver se há um lugar pra senhora. Senão o próximo vôo é às 21.

– Meu vôo pro Brasil é às 22.

– Vou ver o que eu posso fazer.

Pelo telefone lhe disseram pra mandar pro portão os dois primeiros da fila de espera. Ao meu lado ficou o terceiro, com uma malinha pequena que ele queria despachar. Aparece uma loura de walkie-talkie e diz que o cara pode ir, mas a mala tem que ir na mão pois na estiva não tem mais lugar. O cara vai.

Alma continua pendurada no telefone, de vez em quando dizendo “sim, ainda estou na linha”.

– Senhora, as malas não têm como ir de jeito nenhum, mas se eu for correndo com a senhora até o portão pode ser que dê pra embarcar. Não posso garantir nada, mas se a senhora quiser tentar… Mas vai ter que abrir mão das malas.

Paciência, o Mirco volta pra casa com as malas e depois tenta levar uma com ele, além da sua. E o resto dos presentes vai ficar pra outra vez. Despedida rápida e lá vamos eu e Alma correndo pra porta de acesso aos portões. Boto o laptop e a mala de mão na esteira dos raios-X, passo voando pelo detector de metais, ela discute com o policial que queria me revistar mesmo sem ter apitado nada, saímos correndo pelo corredor. Adivinhem qual era o meu portão? O último, claro.

Chegamos botando os bofes pra fora, a porta do ônibus já estava fechando, o cara da mala de mão ainda sem saber se embarcava, uma meio chinesa no walkie-talkie anotando dois números de assentos num papel que mostra à Alma.

– Tó, sobraram esses dois.

Bota a cara na porta e grita pro motorista de ônibus esperar. Mando um beijo de agradecimento sincero pra Alma e subimos correndo no ônibus, que já tremia de impacência pra ir embora.

Assim que botei os pés no avião lembrei que o livro de Storia Contemporanea, que eu tinha trazido de casa pra estudar, tinha ficado na mala do carro. Eu não tinha absolutamente NADA pra ler, pois sabia que se trouxesse algum livro não estudaria nem trabalharia. Mas agora eu me encontrava sem o livro pra estudar, sem poder ligar o laptop pois o aviãozinho onde eu estava sentada voa baixo e não é permitido usar nada de eletrônico, e sem revista de bordo porque não havia nenhumazinha. PÂNICO TOTAL. Chegando em Milão, céu completamente encoberto, com aquelas nuvens lindas solidonas que dá vontade de comer de colher, e um pôr-do-sol obsceno de bonito. Meno male.

milão – sp

Mas como tudo passa, até a uva passa, o vôo mais curto passou. O vôo mais longo foi MUITO longo, porque só passou um filme (MAL DUBLADO PRA CACETE), eu tava sem livro e só tem uma opção de comida. Que saudade da Varig. Mas pelo menos o pessoal é muito, muito gentil e simpático, e perto de mim não tinha ninguém roncando nem gordo nem fedendo nem com bafo nem tentando puxar assunto. Até porque perto de mim não tinha ninguém e deu até pra esticar as pernas.

sp – rio

A primeiríssima coisa que pensei foi: caralho, exclamou a princesinha, como brasileiro é feio.

A segunda coisa foi, quero um pão de queijo. Nada feito, tudo fechado ainda.

Oquei, vamos combinar que Guarulhos é o aeroporto mais feio, confuso, velho, idiotamente construído do mundo, você anda quilômetros puxando a malinha feito um retirante, tudo é antiquado e escuro e gloomy, simplesmente horrível. E como se não bastasse TEM CRASE ERRADA NOS CARTAZES! Tipo “portões de 1 à 12”. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!!!

rio

Chegamos cedo e saí rapidinho, a única vantagem de viajar sem malas. Do avião tínhamos visto o trânsito completamente parado tanto na Av. Brasil quanto na Linha Vermelha, então decidi não pegar táxi. Mas first things first: primeira parada, Casa do Pão de Queijo. 2,50 por um pão de queijo, cara, assalto total! Mas comi. Depois subi no Frescão e desci na Central, disposta a pegar o metrô até a casa da minha avó, que mora a dois metros da estação Afonso Pena. Maaaaaas… Digamos que um grupo de pivetes me dissuadiu. Voltei correndo pra calçada, me cagando de medo de levarem meu laptop, e parei o primeiro táxi que passou. Fui conversando animadíssima com o coitado do velhinho. O porteiro fleumático da minha avó abriu o portão como se eu estivesse voltando da padaria e não de uma ausência de um ano e meio. Mais tarde chegaram minha mãe e meu irmão, fofocamos um pouco e almoçamos. Muito. Strogonoff, arroz de brócolis, batata sautée, lasanha de berinjela. Comi feito um porco.

Chegando em casa, banho pra tirar a inhaca do viajante, mais fofoca, trabalhei um pouco, fofoquei mais, li uma Época, trabalhei, comi torrada de Plus Vita com requeijão (eu tava SONHANDO com requeijão desde que comprei a passagem) e blanquet de peru, vi Friends com o Tuco, trabalhei, li meu livro dos Malvados que chegou mês passado, terminei o trabalho e fui dormir.

tchau

Estou terminando a primeira metade do trabalho hediondo que tenho que entregar na terça, depois vou tomar meu banhinho, botar as comidas na mala (piadina, prosciutto crudo, scamorza etc) e vamos almoçar na Arianna. Meu vôo sai às 17.50 de Roma mas hoje vai ser o dia mais caótico em termos de trânsito, porque tá todo mundo voltando de férias, então vamos sair de casa BEM cedo pra evitar problemas. Gianni vai com a gente pra fazer companhia pro Mirco na volta.

Roma-Milão, Milão-SP, SP-Rio. Yay. Pães de queijo, me aguardem!

Fui-me.

a viagem

Ontem perdi algumas horas de sono estudando o guia Lonely Planet de Istambul, o Wikitravel e as dicas que a Lia me mandou por email. Sempre tento nao me assanhar muito antes de ir a algum lugar que ainda nao conheço, pra evitar desilusoes e tal, mas tenho a impressao que eu vou AMAR Istambul. O lance da pechincha nas lojas me preocupa um pouco, pois nao herdei bulhufas do sangue de comerciante arabe do meu bisavo sirio, mas mesmo assim acho que vou adorar.

Como sempre, antes de qualquer viagem eu ja’ vou planejando tudo o que eu vou comer quando chegar la’. Gostaria de ser menos obcecada com comida, mas agora ja’ era, nasci assim, fazer o que. Ja’ fiz uma listinha e ja’ anotei a pronuncia fonética de todos os pratos que me interessam. Apesar de nao ser dramatica como os italianos e nao deixar que uma ma’ experiencia gastronomica arruine a minha viagem, uma boa refeiçao pode se transformar numa das melhores memorias de uma visita ao exterior. (A lista das coisas que pretendo comer no Rio ja’ tem assim umas duas paginas cheias.)

Outra coisa que nao vejo a hora de fazer é nadar. Nosso hotel tem piscinona, e como eu nao nado ha’ anos – a ultima vez foi na piscina do hotel na Toscana, lembram, com as baby-sitters daquela familia americana milionaria – e agora, vendo os pitéus da nataçao deslizando como peixes na agua azul do Cubo, me deu uma vontade danada. Aqui nao tem esse lance de clube como tem no Brasil; existem piscinas fechadas, que so’ abrem no inverno, e algumas poucas abertas, aonde na verdade o povo vai pra torrar no sol. Paga-se caro pra entrar e nao tem exame médico, é obrigatorio usar touca, se voce sair de la’ de biquini, canga e chinelo, sem tomar banho e secar o cabelo, fica todo mundo te olhando, ou seja, é tudo muito estranho. Entao estou programando varias nadadas na piscina do hotel. Comprei um maio ontem, na liquidaçao, porque o que eu tinha ficou guardado por tantos anos que ficou todo troncho, sabem como é lycra velha. Ainda nao fiz as malas, mas as roupas de banho e os chinelos ja’ estao alinhados no sofa’ do quarto de hospedes, so’ esperando. Nao vejo a hora, looking forward to it, non vedo l’ora.

barcelona – bastia

Despedimo-nos da Anna, que foi nadar, e deixamos o Edwin em casa editando as fotos do casamento de sexta. Fomos ao supermercado mais próximo fazer as nossas comprinhas básicas e tomar café num bar. Nós já adoramos um supermercado nas CNTP; viajando, então, nem se fala. Todas aquelas coisas estranhas nos deixam enlouquecidos. Acabamos comprando dois queijos parecidos com Minas, um outro tipo caciotta, um outro curado pro Mirco, umas fatias de jamón serrano, o presunto cru ótimo dos espanhóis, uns iogurtes pra agüentar até a hora do embarque. O supermercado fica no subsolo de uma espécie de galeria, e no térreo ficam um bar, um açougue, uma loja de fatiados, uma peixaria, etc. Quase tudo fechado, mas no bar várias velhinhas tomavam café e conversavam em catalão. Pedi um bikini (misto-quente) com suco de laranja e um pedaço de tortilla de patatas, porque embora eu já tenha visto a Anna fazer duas vezes a minha não sai direito, e não sei quando vou poder comer outra de novo. Voltamos pra casa, fizemos as malas, pesamos as malas (um e dois quilos abaixo do peso máximo permitido, respectivamente. Espartanos!) e demos tchau pro Edwin. Quando chegamos à estação um ônibus estava pronto pra sair pro aeroporto, e lá fomos nós.

Em Girona, uma certa confusão, porque neguinho acaba sempre passando das medidas com as bagagens e a fila pra pagar a multa era quilométrica. Nós também tivemos que entrar na fila pra pagar os 5 euros por cabeça do check-in feito no balcão, porque Girona não é Perugia e a garota da Ryan Air não perdoou. Acabei batendo papo com uma brasileira na fila, que mora em Perugia e contou uma história meio estranha. Totalmente previsível; não confio em mulher com cabelo tingido de AMARELO e com as raízes pretas aparecendo. Saímos do avião correndo pra ela não vir atrás de mim pegar meu telefone, como tinha dito que faria. Tô fora. Arianna chegou logo depois, nos deixou em casa, botei os queijos na geladeira, desfiz as malas, fiz duas máquinas de lavar roupa, reguei as plantas moribundas e sentei no sofá pra ler. Aaaaaaaaaah diliça…

Não vejo a hora da Ryan botar vôos pra Paris saindo de Perugia. É Beauvais e não Paris, mas who cares?

barcelona

Saímos de casa tarde, decididos a visitar o Parc Güell pra ver mais coisas do Gaudí. Em vez de fazer o que a Anna disse segui as instruções do guia, e descemos uma estação antes. Tivemos que andar pra caramba, naquele sol líbico, e entramos pelo lado oposto do parque. Cheio de brasileiros. Quando finalmente chegamos na parte com as casinhas estranhas do Gaudí e tal eu já estava botando os bofes pra fora. Fila pro banheiro, italiana furando a fila e levando olhar radioativo da paca, muitas muitas fotos pois tudo era muito estranho, mais souvenirs, e descemos a colina pra pegar o metrô de volta pro centro.

Descemos na Sagrada Familia de novo porque tínhamos visto vários lugares legais pra comer ontem. Acabamos almoçando num all-you-can-eat logo atrás da igreja. Frango assado, muita salada, arroz integral, nada gostosérrimo mas pelo menos saudável e levinho, e por 10 euros por cabeça. Ainda saímos com uma banana e um pêssego na mochila. Pegamos o Passeig de Grácia, onde paramos pra uma soneca pós-prandial, e depois fomos parando na Casa Batlló, La Pedrera etc. E pra onde vamos agora? Pro Passeig de Sant Joan, lógico, via Avinguda Diagonal (demos uma volta danada). Deixei o Mirco dormir por mais de duas horas enquanto lia o meu Pérez-Reverte (La Piel del Tambor, falarei dele mais tarde) e admirava o pessoal que passava. Quando já era quase hora do jantar voltamos pra casa.

Tomamos nosso banhinho (eles não) e fomos a pé até a Ciutat Vella procurar um lugar pra jantar. Muitos restaurantes e bares fechados pra férias, e acabamos comendo em um restaurante argentino meio caro mas gostoso, sentados na calçada. Eu acho estranhíssimo estar de bermuda e chinelo jantando num lugar onde a conta sai uns 35 euros por cabeça, mas enfim. Batemos muito papo, trocamos figurinhas sobre o sistema de saúde espanhol e o italiano, rimos da filosofia da Anna e do Edwin que preferem pagar o aluguel de um apartamento velho do que comprar uma casa nova, pois isso significaria trabalhar mais (lembre-se de que ele trabalha só umas duas vezes por mês e ela 6 horas por dia, sem fins de semana), e caminhamos até em casa. Chegamos já devidamente digeridos. Li mais um capítulo do Pérez-Reverte e caí no sono.

barcelona

Acordamos com o Edwin batendo na porta perguntando se não estávamos com fome, porque ele estava. Tomamos café e depois saímos pra um passeio a pé pela Ciutat Vella. Achei tudo lindo, muito diferente da Itália. Passamos por pracinhas deliciosas, sempre cheias de ripongas, por vielas estreitas, por igrejas escondidas. Entramos na Iglesia de Santa Maria del Mar, onde estava rolando um casamento, e continuamos passeando pelo bairro Born. Tudo muito interessante. Fomos até La Rambla e entramos na Fnac da Plaça Catalunya e aproveitei pra comprar uma Mafalda, outro Pérez-Reverte e um outro romance histórico de um autor que não conheço. Lá pro que seria a nossa hora normal de almoço o Edwin começou a franzir o nariz tentando adivinhar se ia ventar à tarde ou não; decidiu que sim e que portanto eles iam à praia pra ele fazer windsurf. Nós continuamos rodando pela La Rambla, admirando a fauna local e os muitos turistas torrados pelo sol, e quando bateu a fominha viramos à esquerda num lugar que o Mirco conhecia e fomos catar um lugar pra comer. Os menus dos bares de tapas estavam ótimos, mas nenhum tinha ar condicionado, e tava MUITO MUITO calor. Então acabamos caindo na heresia: almoçamos num restaurnante italiano, com o ar condicionado soprando na nossa cara. Paciência.

Depois do almoço o meu bebezão precisa dormir, então paramos no Passeig de Sant Joan, por onde tínhamos passado ontem voltando pra casa, e sentamos na sombra. Os bancos estavam quase todos tomados, ou por velhinhos, ou por pais com crianças em carrinhos, ou por gente com cachorros. Fiquei lendo a minha Mafalda enquanto o Mirco dormia feito um mendigo no banco, e umas duas horas depois levantamos e fomos até a Sagrada Familia.

Na praça em frente um grupo de estudantes portugueses tocava e cantava músicas espanholas; tinha até um contra-baixo. Não entendemos o porquê da coisa, porque se ficássemos lá pra investigar perderíamos o horário pra visitar a igreja, e fiquei curiosa. Ah well.

Bom, acho que tudo o que há pra se dizer sobre a Sagrada Familia se resume em uma frase: é a construção mais bizarra do planeta terra. Não tenho a menor idéia do tipo de droga que o cara usava, mas era uma coisa muito muito power, porque vai ser esquisito assim lá em casa, vou te contar. Não é exatamente bonita, e nem pode, sendo tão não-convencional, mas é interessante, e vale a pena visitar. Qualquer foto que você achar no Google vai ser melhor do que as minhas, mas de qualquer maneira vá lá no Flickr dar uma olhada. Compramos os souvenirs habituais (marcadores de livros, ímãs de geladeira etc) e voltamos pra casa, a pé.

Anna e Edwin estavam prontos pra sair (leia-se com as mesmas roupas com as quais saíram de manhã, chinelo e camiseta): rolava uma festa de despedida da Irene, uma das meninas que conhecemos ontem, que é basca e depois de 2 anos em Barcelona está voltando pro norte. A festa era na casa do Luís, estudante de Direito que mora num apartamento microscópico, cuja varanda nua é maior do que a casa propriamente dita, mal localizado pacas mas tem vista de frente pra Sagrada Familia. Iluminada de noite é um espetáculo de se ver.

O legal dessa coisa de Couchsurfing é que você participa da vida quotidiana das pessoas. Você já foi a uma festa de espanhóis? Tenho certeza que não. Pois eu fui :P A festa era tipo americana, cada um levava uma coisa. Mas o lance estranho, além da molambice generalizada, era que cada um levava QUALQUER COISA, tipo o que tiver no armário, inclusive pacotes de batatas fritas já abertos, sanduíches com recheio faltando porque acabou a maionese, etc. A coisa da batata aberta deixou o Mirco chocado; italiano, especialmente da roça, é cheio de mumunha com essas coisas sociais e quando você come na casa de amigos leva sempre uma planta ou uma garrafa de vinho bom, mesmo que sejam amigões do peito e que o jantar seja só uma pizza comprada na esquina. Nós estávamos cansadíssimos e o povo nada de ir embora; a música tocando, o pessoal todo amontoado na varanda, um calor do cacete, gente fumando por todos os lados, gente que vinha nos cumprimentar com beijinhos (o Mirco tem horror e dá a mão pra apertar, eles ficam meio sem saber o que fazer), gente que vinha puxar papo falando em catalão, que obviamente não entendemos. O pouco espanhol que aprendi na faculdade e lendo foi-se todo nessa noite; o Mirco fala espanhol argentino, que me dá nos nervos, e por isso evita usá-lo na minha presença, de modo que ficamos ligeiramente isolados num canto, detonando a tortilla de patatas da Anna e os sanduíches de queijo e presunto que a Silvia levou. SÉCULOS depois o pessoal resolveu ir pra discoteca. Era uma da manhã. Céus! Eu não agüento nem mais meia hora acordada, Anna, socorro! Pegamos as chaves, montamos num táxi e voltamos pra casa.

bastia – barcelona

Normalmente o dia de uma viagem é um dia perdido. Hoje não. De manhã limpei a casa, passei roupa, fui ao supermercado comprar umas bananas pra levar, terminei um trabalho. Depois do almoço o Mirco ainda dormiu uma horinha, e depois a Arianna veio nos buscar, por um motivo muito simples: não sabíamos se o estacionamento do aeroporto de Perugia, que na verdade fica mais perto de Assis do que de Perugia, já estava cobrando ou não, e preferimos não arriscar.

Gente, não existe coisa mais linda do que morar perto do aeroporto – desde que não se ouça o barulho, lógico, que é o nosso caso. Não ouvimos nada, não vemos nada, mas poderíamos ir de bicicleta até a porta do avião, se quiséssemos. Coisa linda de mamãe. Nada de horas e horas de antecedência, porque viajamos com duas malinhas de mão completamente espartanas, com cuecas e camisetas contadas e muito espaço pras inevitáveis compras in loco. Sem bagagem de estiva o check-in é feito online e você passa direto pro gate.

[pausa para explicar o funcionamento das companhias low-cost pra quem não conhece] As pessoas sempre me perguntam como é possível que essas companhias aéreas consigam sobreviver cobrando tão pouco – as nossas passagens custaram 20 euros por cabeça, ida e volta, vocês já sabem. Bom, parte-se de coisas simples: é você mesmo que imprime o e-ticket, o cartão de embarque muitas vezes é um pedaço de papel tabajara que mais parece bilhete do jogo do bicho, se a tua mala pesar 50 gramas a mais do que o peso permitido você paga uma multa horrorosa, se quiser mudar a data ou o nome na passagem paga uma multa horrorosa, não tem lugar marcado no avião (o que te força a embarcar rapidinho pra não ficar longe dos seus companheiros de viagem; isso com certeza ajuda a Ryan Air a NUNCA atrasar), as poltronas não são reclináveis, são de couro pra facilitar a limpeza, se quiser um copo d’água pra tomar um remédio durante o vôo tem que pagar. As reduções de custo mais importantes são devidas ao fato de que muitas delas trabalham com aeroportos lá no fim do mundo, cujas taxas são muito mais baixas: a Ryan Air desce em Girona, que está a uma hora de Barcelona; em Beauvais, que está a uma hora de Paris; em Hahn, que está a uma hora de Frankfurt, e por aí vai. Lógico que eles ganham uma percentual do valor da passagem de ônibus do aeroporto até a cidade; os horários dos ônibus são sincronizados com os dos vôos. Além disso tudo eles têm parcerias com hotéis, agências de aluguel de carros, etc, e pra completar a coisa vendem cartões telefônicos e raspadinhas. Pronto, explicados os preços baixos. [fim da explicação]

O nosso caso foi meio diferente: não tinha escrito muito claramente no site que só cidadãos comunitários podem fazer o check-in online, que é grátis; em teoria o check-in no balcão custa 5 euros por pessoa, e como a nossa reserva foi feita junta o Mirco também teria que pagar, mesmo sendo comunitário. Mas como Perugia é uma bagunça, eles só agora estão aprendendo a trabalhar com volumes maiores de passageiros (a Ryan tem vôos pra Londres e Barcelona agora) e sobretudo como o funcionário que estava no balcão fazendo o check-in não era da Ryan Air, mas sim do aeroporto mesmo, o cara nem mencionou nada da taxa e depois do check-in passamos diretamente pro gate sem pagar nada. Uêba. Entre a nossa chegada ao aeroporto e a entrada no avião passaram 45 minutos. Di-li-ça.

Quando descemos em Girona já havia uns três ônibus esperando os passageiros pra levá-los ao centro de Barcelona. 21 euros por pessoa ida e volta, mais do que a passagem de avião. Coisas da vida. Descemos na Estació del Nord, que fica a 300 metros da casa dos nossos anfitriões, mas como a Anna só chegava do trabalho às oito e meia e o Edwin estava trabalhando (ele é fotógrafo de casamento, mas só trabalha duas vezes por mês), tínhamos uma horinha pra matar. Fomos pro Arc de Triomf, ali pertinho, puxando nossas malinhas levinhas. Sentamos na beira do Passeig Lluís Companys admirando o arco e vendo o pessoal passeando com cachorros, crianças, patins. As palmeiras que ladeiam o Passeig são habitadas por pequenas maritacas barulhentas, marcadas com colares azuis numerados. Os cachorros ficam enlouquecidos.

O astral é bem legal, a cidade é cheia de jovens, o clima é de muita alegria e pouco trabalho. O problema é que Barcelona é uma cidade de ripongas. E eu odeio ripongas. Vejam bem, é calor, é cidade de praia e tal, mas nada justifica o molambismo. Pra quem está acostumado à pseudo-sofisticação (leia-se overprodução) dos italianos, que botam maquiagem até pra comprar pão no supermercado e andam de bicicleta e salto alto, esse desleixo excessivo incomoda. Eu não sou vaidosíssima mas também não gosto desse outro extremo, que beira a sujeira. Cabelos ensebados, roupas não passadas e claramente não muito limpas também, sandálias de dedo que dão chulé, you name it. Não gosto. Um rimelzinho não custa nada, se for à prova d’água consegue agüentar o calor e dá um aspecto mais arrumadinho, né. Eu não me pinto pra ir ao supermercado, mas também não vou de moletom e chinelo, que pra mim é roupa de ficar em casa. Mas tudo bem, cada um é cada um, il mondo è bello perché è vario, etc.

Chegamos na casa dos meninos às quinze pras nove, com o sol ainda brilhando lá fora. A Anna já tinha chegado e estava lavando a louça acumulada da semana. O apartamento é alugado, velho, com ladrilhos horripilantes no banheiro e chão de escritório dos anos 80, mas é bem localizado pacas: da janela da sala (que virou o nosso quarto) vêem-se as espirais da Sagrada Familia, a estação de metrô mais próxima fica a 5 minutos a pé, tem uma infinidade de supermercados, quitandinhas, verdureiros, restaurantes, cafés, bares pertíssimo, o clube onde ela faz natação também fica a 5 minutos a pé, etc. Ela é dermatologista e trabalha num hospital, que fica a poucas estações de metrô de distância, e num consultório particular, onde ela chega a pé ou de bicicleta.

As bicicletas: como Paris, Barcelona também tem um sistema de bicicletas genial. Você paga uma titica por ano – tipo 20 euros – e tem direito a usar, gratuitamente, as bicis do sistema Bicing. Há estações de bicicleta espalhadas pela cidade; você passa o seu cartão na máquina, ela diz qual bici liberou pra você, você vai lá, pega a magrela, anda meia hora grátis e depois disso tem duas opções, ou devolve a bichinha em outra estação qualquer e não paga nada, ou então continua com ela e paga uma microtitica por cada meia hora adicional. O resultado é que todo mundo anda de bicicleta, quase todo mundo as do sistema Bicing e pouquíssimos com as suas próprias. Por enquanto o serviço é só pra residentes, de modo que não pudemos usufruir. Uma pena, porque a cidade vazia de carros nesse período de férias vira um paraíso de ciclistas.

Banho pra tirar aquele cheiro de avião e ônibus, e fomos encontrar com umas amigas da Anna, no bairro de Grácia. Pegamos o metrô, limpo, pontual e com ar condicionado power. Descemos poucas estações depois, na Fontana, da linha 13, e andamos um pouco pelas ruas estreitas do bairro até achar as meninas. Uma delas, a Silvia, fala italiano, e ficamos batendo papo a noite toda. Apesar de estar cedo ainda pros padrões espanhóis, elas já tinham jantado, porque os restaurantes japoneses trabalham em horário japonês (leia-se civilizado; não consigo compreender jantar às dez da noite, por mais que me expliquem o lance da siesta etc). Eu, Mirco e Anna estávamos morrendo de fome e acabamos parando todos numa pracinha legal, cujo nome não me lembro, com uma torre estranha no meio, onde por acaso estava rolando um concerto de música clássica a céu aberto. Achamos mesas livres no lado oposto da praça, num bar de tapas, e lá fomos nós. A indefectível tortilla de patatas, minha preferida; um sanduichão de peito de frango com queijo de cabra e berinjela grelhada; croquetes de frango e batata; e o tradicional pa amb tomaquet, o pão esfregado com tomate tão típico da cozinha catalã. Conversamos até altas horas e depois, pra digerir, voltamos a pé pra casa. Uma bela caminhada, por ruazinhas escondidas mas sempre cheias de gente batendo papo, bebendo e comendo. E depois cama que ninguém é de ferro.

de novo

Não sei se vocês perceberam, mas estou com viajite aguda esse ano. Além das viagens já marcadas pra Barcelona no final de julho, Istambul em agosto e Rio em setembro, acabei de comprar uma passagem pra Paris pra outubro, onde vou me encontrar com a Lulu (de Luxemburgo ;). 100€ com a Vueling, horários mais decentes do que os da Ryan Air e da EasyJet. A Ryan Air tinha passagens a zero euros, que com taxa e tudo saíam a 50 paus, mas te deixa em Beauvais, que está a uma hora de Paris. Você tem que adicionar os 13 euros de ônibus na ida e mais 13 na volta; somando a isso as duas horas a mais de viagem, não tem sentido, vira epopéia de pobre. A EasyJet sai de Roma Ciampino e desce em Orly, mas como a Lulu vai pra Paris depois de uns dias aqui com a gente (e em Roma, que é tudo na vida), e ela sai de Fiumicino, achei mais fácil pegar um vôo que sai do mesmo aeroporto e também desce no CDG. O preço era o mesmo, então beleza.

Esse 2008 está sendo o ó, né não :)