Preciso dizer que meus planos furaram de novo? Essa merda de 2003, quando termina, hein?

Meu pai, que tinha grandes probabilidades de passar Natal e reveillon sozinho em Vila Real, la no c* do judas em Portugal, porque o visto nao saia, agora sabe que pode ir ao Rio porque o visto tah pra sair, etc etc. Eu, que planejava ir pra lah passar as festas com ele e ter alguém pra me levar pro aeroporto, planejava deixar minha tralha na casa dele, planejava partir de Lisboa direto pro Rio, planejava achar passagem sem grandes problemas depois do reveillon, me fodi.

Nossa, realmente fiquei muito animada. Esse ano tah ficando melhor a cada dia que passa. Vai ser otimo ir sozinha ao aeroporto cheia de malas e com cachorro. Alias, vai ser muito facil arrumar um taxi grande o suficiente pra tudo isso. E vai custar pouco também, sair de Vila Real pra Lisboa de taxi… Que beleza.

Mais facil ainda vai ser arrumar passagem antes do Natal – sim, porque eu nao vou passar o Natal sozinha em VILA REAL, sozinha no apartamento do meu pai, né.

E o mais legal ainda é que eu TENHO que ir a Portugal deixar as minhas coisas, porque nao tenho dinheiro pra mandar pro Brasil. Fora que saindo de Lisboa o voo é direto pro Rio, enquanto que saindo de Roma o aviao ainda para em Milao, ou seja, a viagem acaba sendo mais longa, e pro Legolas é mais conveniente um voo direto, obviamente. Muito legal mesmo que tudo esteja dando certo exatamente do jeito que eu, mais do que queria, PRECISAVA. To adorando 2003, realmente. Jah to quase mandando tudo e todo mundo ir tomar no cu e indo morar numa ilha deserta com meus livros e meu cachorro, que essa tomaçao no rabo o tempo todo jah tah me enchendo.

Nao, nao consegui encontrar o meu contato em Roma porque, apesar de ter tido um pouco mais de tempo livre no sabado do que eu esperava, meu telefone arriou a bateria e oh! surpresa! nem a Ane nem o marido dela tem Nokia e nao pude recarregar, e o numero dela tava na memoria.

Feliz ano novo é o caralho.

Então hoje Martinha me conta

Então hoje Martinha me conta que o Chefe pediu a ela, pelo telefone (hoje está fora, em Turim), que ligasse pro commercialista (que seria assim o contador) da empresa pra saber que tipo de providência tomar pra me botar in regola, ou seja, pra passar a assinar minha carteira. Ah, too late, Marlene. Agora também não quero mais. Vai ser linda a cena:
– Então, vamos assinar o contrato?
– Não, estou indo embora.
– COMO, INDO EMBORA?
– Estou indo embora. Voltando pra casa.
– E comé que eu vou achar outra pessoa pra ficar no seu lugar? (leia-se tô fodido, ninguém na Umbria fala Inglês, comé que eu vou comprar cartuchos vazios a preço de banana de fornitores que só falam Inglês?)
– Só lamento. Culpa do seu amiguinho lanterneiro.
Segue risada maléfica.

Amanhã começamos a mudança do escritório. Vamos pra uma cidadezinha aqui perto, pra um galpão novo. Vai dificultar mais ainda a minha vida porque, se a Marta adoece, coisa que acontece com frequência, eu não posso pegar a bicicleta e vir trabalhar, ou pedir uma caroninha, porque o novo escritório é longinho da minha casa – aliás, longinho de tudo. Ainda bem que essa lamúria está pra terminar.

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Cena italiana:
17:15, banheiro da estação Termini, Roma. Uma mulher entra esbaforida, após inserir os 0,60 na roleta. Abre a pequena mala em cima da bancada da pia, saca uma saiona e uma camisa, se despe da roupa do corpo e começa a vestir a saia, coisa que, levando-se em conta o design da mesma, levou um bom tempo. Passa a “tia” do banheiro e vê a mulher em pé no meio do banheiro, de sutiã cor de vinho, tentando abotoar a lateral da saia.

TIA: Nossa, que saia linda!
MULHER DE SUTIÃ: Brigada!
TIA: Bom, também, quando se é magrinha assim*, qualquer coisa fica bem, né…
MULHER DE SUTIÃ: … (sorriso satisfeito)
TIA: Eu nunca fui magra. Um horror pra comprar roupa!
MULHER DE SUTIÃ: Imagino…
TIA: Mas que que eu posso fazer, adoro comer!
Segue-se uma longa gargalhada. A mulher de sutiã termina de se vestir, dá boa tarde e vai embora. A tia do banheiro grita de longe um outro boa tarde e um boa viagem.

* Pra quem está aprendendo italiano: quando se usa um verbo impessoal, ou seja, com pronome si, o adjetivo vai pro plural. Essa frase em italiano fica assim:
– Quando si è magre, tutto ti sta bene…
Outro exemplo?
– Quando si è giovani, tutto sembra possibile.

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Mental note: meia xícara de arroz + 1 brocolão e meio + 2 cenouronas = almoço pra uma semana inteira.

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Acho que não enxaguei direito o Legolas anteontem. Ele tá todo cinza…

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Quero ir ao cinema hoje. Quero ver Kill Bill.

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Run to the water
and find me there
Burnt to the core but not broken
We’ll come through the madness
of these streets below the moon
with a nuclear fire of love in hearts

I can see it now, Lord
Out beyond all the breaking of waves
and the tribulation
It’s the place and the home of ascended souls
Who swam out there in love

Nuclear fire of love in our hearts é MUITO bonito.

(Run to the Water, Live, do CD The Distance to Here, que é FE-NO-ME-NAL.)

ociosa

Binão, o cobra da Ferro Italia que perdeu o emprego quando a empresa fechou e agora trabalha aqui fazendo consultoria, é completamente workaholic e fica nervoso quando não tem muito trabalho. Quando tem zilhões de coisas pra fazer, ele fica todo feliz e passa o dia assobiando (hábito abominável, aliás).

Como eu gostaria de ter essa vocação pro trabalho! Mas não tenho. ODEIO trabalho de qualquer natureza. Aqui no escritório esse ódio é muito maior, claro, porque o trabalho é particularmente chato, porque meu chefe é um imbecil, porque ganho pouco, porque moro sozinha, porque está frio, porque está tudo uma merda, etc. Mas o conceito de trabalho, de forma geral, já me dá urticaria.

Tipo, eu adoro traduzir. Tem vezes que me dá a louca e eu pego um pedaço de um livro que eu particularmente gosto e saio traduzindo. Mas só de saber que tem alguém esperando aquilo dentro de um prazo, ou que dessa atividade dependa a saúde da minha conta corrente, já me vêm os calafrios. Realmente nasci pra ser madame.

Sim, sou preguiçosa, mas isso não me impede de fazer as coisas, significa só que tenho que reunir mais forças pra fazê-las. Minha casa é muito limpinha, cozinho e lavo louça todo dia, não deixo acumular nada (só roupa pra passar, mas é até melhor, em termos de economia de energia) pra fazer dentro de casa, faço compras com uma certa frequência, já que vou a pé ao supermercado e não consigo comprar mais de uma certa quantidade de coisas porque depois como faço pra carregar tudo pra casa?. Saio de manhã às seis e meia pra correr, vou a pé a tudo que é lugar sem reclamar, sou rapidinha em tudo que faço, até no que não gosto de fazer. Mas também adoro ficar sem fazer nada, coçando o saco. E essa coçação so o não-emprego pode te dar.

Meu problema é que as coisas que eu gosto de fazer não são atividades assim digamos empenhativas nem de muita responsabilidade: ler, escrever, ler, cozinhar, ler, bater papo, ler, escrever, fazer compras, cuidar da casa, ler, brincar com meu cachorro espetacular, ler, comer, ler, etc. E agora? Agora não sei.

O lance da responsabilidade é forte comigo. Odeio ter mil coisas ou pessoas dependendo de mim – claro que tem a ver com insegurança, mas também tem muito a ver com preguiça. De qualquer maneira, prefiro trabalhar em equipe, o que não significa que eu jogue tudo pra cima dos outros, muito pelo contrário: normalmente acabo comandando o batatal, mas no final das contas o trabalho é feito por todo mundo junto.

Mas o mais grave dessa história é que a satisfação do trabalho feito, ou bem-feito, eu não tenho. Executar ordens de terceiros não me dá nenhum tipo de alegria. Alias, nem executar ordens de mim mesma: adoro fazer listas e gosto de riscar o que já foi feito, mas depois acabo perdendo a lista e deixando tudo pela metade. Não tenho todo esse estímulo de melhorar sempre, de dar o melhor de mim, de superar limites. Tenho muitao preguiça de superar limites. Acho um saco superar limites. Meu prazer jamais vem de uma coisa bem feita ou de um projeto realizado ou do fato de ter conseguido alguma coisa que eu sempre quis, mas de coisas simples e pequenas, como todas aquelas coisas ali que eu falei que gosto de fazer. Se escrevo um texto bom, do tipo que depois eu fico relendo e pensando putz, mandei benzão, fico contente, mas não saio corrigindo nada nem melhorando nada, escrevo e pronto. Sempre tive problemas com rascunhos; jamais em toda a minha vida escrevi um rascunho que depois, corrigido, virou texto. Escrevia um rascunho pra acontentar professores chatos que exigiam a coisa, mas o texto final era sempre outra coisa completamente diferente, sobre outro tema, escrito em modo diferente, de tamanho diferente, enfim. Voltar atrás e corrigir é muito doloroso pra mim.

Sei lá, sou meio folgada sim, mas tento compensar oferecendo em troca a minha brilhante e solar companhia hohoho Mas falando sério, eu não me incomodo de dar carona a, de cozinhar para, de ajudar a arrumar a casa de, de pagar cinema para, de levar pra passear cachorro/filhos de, de ajudar a estudar pra prova pessoas cuja companhia me é particularmente agradável. Acho uma troca normal: você me faz dar umas risadas, eu lavo a louça depois do jantar. Você me faz companhia pra ir ao cinema, eu dirijo. Você me dá algumas horas de papo interessante, eu pago o chopp (pra mim vinho tinto, por favor). Você me faz companhia na discoteca quando me bate aquela vontade de dançar, eu te hospedo na minha casa. Você me ensina, mesmo sem saber, alguma coisa de útil/interessante/curioso, eu te trago um brigadeiro, te dou um abraço. Acho naturalíssimo, balanceado e super válido, não só quando EU estou fazendo companhia, dando horas de papo, fazendo os outros rirem, mas também quando estou lavando a louça, dirigindo, pagando o chopp. (mas admito que me encontro mais frequentemente na posição de quem faz rir, de quem oferece um ombro amigo, de quem ensina alguma coisa, de quem dá horas de papo interessante). Troca, escâmbio, dar-e-receber, é disso que é feita a vida, né nao?

Senta que o post é longo

O fim de semana foi OK. Sexta-feira o Ralph, o cão corso aqui do escritório, mordeu a batina de um padre que veio comprar cartuchos. Cachorro esperto! À noite fui jantar com o Samuele, que não conseguiu convencer a Carmen de nos acompanhar. Eu tava exausta e concordei em comer uma pizza, uma coisa rapidinha, mas o menino me chega de gravata pra me buscar! Eu semi-molamba, com jeans novos e suéter de lã normalzinho, mas não tive saco de mudar de roupa. Acabamos indo pro Bistrot, aquele do risoto ão (camarão, salmão e açafrão). Ainda comemos um secondo e a sobremesa, um tiramisù com creme de gianduia em vez de mascarpone. Nada de vinho porque ele é abstêmio. Conversamos, ele me explicou os detalhes da caça ao javali, eu falei pouco porque estava muito cansada e já sentia os primeiros sintomas do resfriado que agora chegou pra valer.

Sábado Martinha não trabalhou; vim pro escritório com o Stefano, que faz os cartuchos inkjet, e voltei com outro Stefano, o marido da microsarda. Só que em vez do horário costumeiro de sábado, das 9 ao meio-dia, trabalhamos das oito e meia à uma. E todo esse tempo passamos, todos nós, em pé, limpando, etiquetando, ensacando, encaixotando cartuchos. Minha hiperlordose agradece. Em casa almocei correndo, fui ao supermercado comprar a base da minha alimentação ultimamente (água mineral e leite desnatado), deixei o Legolas em casa e fui a pé até S. Maria pegar o ônibus pra Assis. No meio da tarde me liga a Ane, que estava comemorando um ano de casamento na Umbria, em Trevi, não muito longe daqui. Acabou vindo com o Alfredo me visitar na loja. Conheceu a figura que é o Fabrizio, viu a mostra do fotógrafo sem mão, batemos muito papo, compraram um molho de trufas e cogumelos, foi ótimo! É tão bom reencontrar gente legal e querida. Levantou meu astral. Depois trabalhei sozinha com o louco do Fabrizio das quatro às oito, fui pra casa, levei o Leguinho na rua, tomei banho e fui dormir.

Dormir uma vírgula! Passei a noite inteira no banheiro, vomitando sabe-se lá o quê, já que não tinha comido nada além do almoço (frango grelhado com abobrinha e cenoura) o dia inteiro. Uma dor de cabeça avassaladora, enjôo, dor nas costas, frio, tudo junto. Uma clássica noite de merda. E no domingo acordei, levei o Legolas no parquinho, botei roupa pra lavar, tomei banho e lavei os cabelinhos, varri a casa, liguei pro Ettore, que não podia vir pegar o Legolas porque ia colher cogumelos sabe-se lá onde, troquei de roupa e saímos, eu e Leguinho, em direção a S. Maria. Deixei-o na casa do Ettore com os outros cachorros, voltei pra Basilica pra pegar lugar pra sentar no ônibus e lá fui eu pra Assis de novo.

[Pausa para reflexão: na meia hora em que fiquei sentadinha no banco da praça esperando o buzão, contei cinco exemplares diferentes de Jaguar, 12 de Audi, 23 de BMW, 20 de Mercedes, vários modelos novos da Lancia. Entre outros.]

O problema é que as pessoas nao lêem, não olham, não observam, foi o que eu falei no post filosófico-cachorral. Se você quer ir pra estação e tem escrito outra coisa no ônibus, você não pega, certo? Pega o ônibus onde tem escrito “Stazione”, ou não? Não. Aí neguinho chega no meio do percurso, vê que o ônibus não está descendo o morro mas subindo, e entra em pânico pedindo pra descer porque senão perde o trem. Aí o motorista fica puto e pede pelamordedeus pro pessoal OLHAAAAAAARRRRRRRR as placas dos pontos de ônibus, e olhar o destino da linha, que fica piscando no alto do ônibus. O pessoal ainda erra o jeito de botar o bilhete na máquina pra “obliterar”. Tipo, se a maquininha tem que carimbar uma data e um horário no seu bilhete, e a maquininha engole o bilhete de todo mundo, faz trrrr-trrrr, depois cospe o bilhete com um beep!, e você bota o bilhete, a maquininha chupa o bichinho e o cospe com um biiiruuuubiiiruuuu, será que não dá pra perceber que você botou o bilhete do jeito errado? Não. E lá vai o motorista explicar pros passageiros mongos que o biiiiruuuuubiiiruuuu significa que a maquininha não carimbou o bilhete (coisa que dá pra saber simplesmente olhando o bilhete, lógico. Mas só vê quem olha, e a maioria não olha). Ontem o trânsito estava horrível, e o motorista estava particularmente irritado. Já chegou na Basilica di S. Maria com quase meia hora de atraso, de forma que quando chegou na parada principal, a de S. Francesco, já em Assis, o ônibus que vinha meia hora depois dele chegou praticamente junto. Aí dá-se a seguinte cena, impensável em qualquer outro pais mais sério e consequentemente menos divertido (leia-se Alemanha): o motorista desce do ônibus, e grita pro motorista do ônibus que vinha atrás:
– Andrea!!! Você tá subindo?
Deduz-se que o Andrea disse que sim, porque o nosso motorista subiu de novo no ônibus e gritou pra galera:
– Quem quiser ir pro ponto final desce e pega o outro ônibus, que esse aqui mudou de itinerário e vamos voltar pra estação!

Desce todo mundo do ônibus, um bando de senhoras inglesas distintíssimas que não estavam entendendo nada mas davam muita gargalhada, um outro bando de napolitanos mal educadíssimos, um monte de adolescentes, um punhado de freiras. Subimos no ônibus do Andrea, que aliás era um pedaço de mau caminho, e pronto, tutto a posto. No final das contas levei 50 minutos pra chegar em Assis, ao invés dos 15 minutos habituais. Chego na loja e tá rolando um furdúncio como nunca se viu! Claudia e Fabrizio desesperados fazendo uma média de 57,6 sanduíches por minuto, e ao mesmo tempo explicando pros clientes que o nosso molho de trufas é melhor porque no supermercado é misturado com pasta de anchova e de azeitona preta pra parecer que é trufa e o nosso é só trufa, e explicando que o salame coglione di mulo não é feito de colhão de mulo e sim de suíno, mas tem esse nome por causa do formato, e fazendo contas, e fazendo notas fiscais, e por aí vai. Resultado: trabalhamos feito loucas (porque depois o Fabrizio foi pra casa e nos deixou sozinhas, eu, Claudia e a louca da Bettina) até umas cinco, quando não havia mais uma migalha de pão de qualquer espécie, e eu e Claudinha almoçamos pão de hot-dog, que só sobrou porque eu separei, senão nem esse tinha sobrado, com capocollo e queijo – tuuuudo a ver. Capocollo, como todos os frios umbros, é muito temperado, e é mais gostoso com um pão mais simples, como o clássico pão umbro sem sal. Eu fui de presunto cozido mesmo e um queijinho básico, esquentei na chapa, virou um misto quente em pão fofinho, fiquei toda feliz.

E aí chegamos no ponto crucial: a louca da Bettina. Bettina é uma alemoa, que pra não fugir à regra é imensa, feia e super mal vestida, e graciosíssima como ela só, e só não é ranzinza porque é completamente biruta, e passa o tempo todo rindo sem motivo, como uma japonesa. É meio freira, tipo, não fez os votos mas os cumpre anyway, e vive em meio a rosários, beatificações e aparições de santos. E queria botar música religiosa no rádio da loja, a Claudia quase infartou quando soube, e cortou logo as asinhas da alemoa. Mas coitada, é biruta mas é um amor, muito bem intencionada, toda simpatiquinha. Largou um vida de pecado, segundo ela mesma diz, pra esposar-se com Jesus. Eu acho esse termo horrível, ser “noiva de Jesus”.

A coisa mais chata de gente que tem religião é a mania de catequisar. Essa é a diferença principal entre ateus e fiéis: ateu não perde tempo tentando convencer os outros de que Deus não existe, até porque, se pra ele não existe, qual é o sentido de discutir esse assunto? Mas os cristãos, nãaaaao, esses são todos meio jesuítas, uma encheção de saco. Bettina é assim; deve ter sido uma garota super interessante quando era pecadora, mas agora é só uma quarentona muito da chatinha. Ficou a tarde toda nos contando histórias da Bíblia, no seu jeito particular de falar, como se a história tivesse acontecido com amigos dela, ou como se fosse um filme muito maneiro ao qual ela tivesse assistido. E quando a história acabava, invariavelmente com final feliz, ela ficava toda empolgada, dando mil risadas, felicíssima. Deve ser ótimo ser bitolada assim. Pelo menos ela come de graça em tudo que é convento – e todo mundo sabe que em convento se come muitíssimo bem, primo, secondo, contorno, pane, dolce, frutta e caffè todo dia. Depois a Claudia foi embora e a Bettina ficou tentando me convencer a fazer um curso sobre amor humano (?!?!), ou então a ir à Iugoslávia (nesse frio!) num tal monte famoso onde N. Senhora teoricamente aparece todas as noites. Tô mais pra Paris, Bettina, respondi. É mole?

Cheguei em casa destruída. Passei uma outra noite do cão, aliás, sem cão, porque o Ettore só me trouxe o Leguinho de volta hoje de manhã. Passei a manhã toda ensacando cartuchos no almoxarifado, mas agora realmente não estou me aguentando em pé; já caminhei até a agência dos Correios pra depositar meu salário e pra mandar meus currículos, mal deu tempo de comer, tá um frio do cacete. Precisaria de uma semana de coma induzido pra descansar direito, sem falar língua nenhuma, sem falar com ninguém, sem mastigar, sem pensar, sem cachorro, sem influências externas, nada. Assim pra zerar totalmente o céLebro.

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Quarta-feira, jantar brasileiro em casa. Fiquei com pena da Bettina e chamei-a também. Vêm os castelanos (o engravatado Samuele já me trouxe o feijão preto e os limões verdes), Carmen, que acaba de terminar com o namorado e já está fazendo sua carteirinha do Clube das Infelizes no Amor, Claudia, vice-presidente do Clube. Menu: pão de queijo, arroz com feijão preto e farofa, nada de carne porque senão neguinho vai morrer de tanto comer. E de sobremesa a torta de limão da vovó. Os meninos estao curiosíssimos pra saber se além de linda e interessante, eu também sei cozinhar bem (palavras deles. Não tenho culpa de ser interessantíssima, o que me torna automaticamente bonita, mesmo que eu não seja bonita de verdade). Na geladeira tem duas cervejas que o finado lanterneiro deixou e eles vão ter que me ajudar a desencalhar, porque estão me incomodando ali, ocupando espaço. O Massimo me emprestou um aparelho de som, assim pelo menos tenho companhia durante o almoço, e vamos ouvir muita Marisa Monte e Rita Lee no jantar de quarta. Mas ele me fez um super favorzão: escuto meus CDs velhos que há séculos não ouvia, e escuto com calma os dois CDs que a Marcinha me mandou, eras atrás. Considerando a qualidade da TV italiana, acho que estou melhor com a música do que com a TV…

modéstia à parte – mesmo.

E já que estamos nos assuntos polêmicos, e respondendo a um e-mail muito legal da Julie, vamos falar de modéstia hoje.

Em vez de fazer aqueles adesivos “a inveja é uma merda”, eu faria um escrito “a modéstia é uma merda”. Modéstia é um daqueles sentimentos que, como a piedade, não serve pra coisa nenhuma. Quem tem pena fica depenado, e ter pena mas não tomar uma atitude não adianta nada, entao é melhor poupar seu sistema límbico e nem sentir essas coisas. Na minha opinião, acontece o mesmo com a modéstia, que não serve pra bissolutamente nada. Se você nao tem nem o direito de curtir um talento especial, ou o resultado de um esforço hercúleo, qual é a graça da coisa?

Sempre achei que quem é bom em alguma coisa tem mais é que se achar bom mesmo. Acho que o Romário tem todo o direito do mundo de dizer “eu sou foda”, porque ele é mesmo, oras. Acho a arrogância um defeito super light, desde que justificado. Há defeitos piores, muito piores.

Claro que não ser modesto não significa achar que não se pode melhorar. Perfeição não existe, e sempre há espaço pra melhoras. Saber que você é ótimo em alguma coisa e ao mesmo tempo saber que pode ser ainda melhor não é modéstia, nem humildade. É coerência. Admitir que não sabe uma coisa nao é humildade, é sinceridade. Humildade é outra coisa que eu detesto. É coisa de pobre, seja de bolso que de espírito, e a pobreza é sempre, sempre uma coisa ruim, limitante. A humildade é limitante. Dizer “pô, cara, não sei, não entendo nada disso” não é humildade, é honestidade. Assim como admitir que se é bom em alguma coisa também é um sinal de honestidade.

Eu sou honesta comigo mesma. Sou ótima em um monte de coisas, e horripilante em milhões de outras. Quando me perguntam alguma coisa que não sei, primeiro penso bem, porque pode ser que eu saiba mas ache que não sei, e se não sei mesmo digo que não sei e pronto (ficou meio Rolando Lero essa frase, mas é isso).

Pior que a modéstia é a falsa modéstia. Essa, então, é de lascar! Você sabe que o sujeito se acha o ó do borogodó, você elogia, e ele fala, “aaah, mas são seus olhos…” Seus olhos o escambau! É como dizer a uma modelo lindíssima (estou falando de bonita mesmo, não esses varapaus de rosto horroroso que vemos nos desfiles famosos, mulheres que só desfilam porque são secas de corpo, mas têm orelhas de abano, pouco cabelo, cara de cavalo, dentes tortos, enfim. Feias.), você se acha bonita? E ela dizer, não, não me acho bonita. Ora, faça-me o favor! Tá querendo enganar quem, jacaré? Claro que ninguém se acha linda todo dia, o tempo todo; todo mundo tem dias em que acorda com cara de sei lá, mas sejamos coerentes, né. Ou então uma magricela, como a menina da calça dourada, que de repente diz “estou tão inchada hoje”! Eu agora aprendi a responder “é, tá mesmo”.

É como quando entram americanos na loja do Fabrizio o Louco e perguntam de qual parte dos EUA eu venho. Quando respondo que sou do Brasil, a reação é invariavelmente a mesma: nooooooooossa, mas seu ingles é óooooootimo! Vou responder o quê? Ah, não, impressão sua, depois que eu começo a falar mais se percebe que não sou americana? Eu falo, falo, falo e ninguém percebe coisa nenhuma, então eu respondo “brigada” e já tá muito bom. Só me faltava ter que ficar arrumando desculpas por ser boa em alguma coisa! E não faz diferença nenhuma o fato de que eu ter jeito pra línguas é independente do meu esforço, porque eu realmente não me esforço nada, tenho facilidade e pronto, assim como escrevo bem sem fazer esforço; me vem naturalmente. Deveria me sentir culpada por isso? Eu não, acho é muito bom, detesto estudar e sempre tive uma enorme vantagem sobre meus colegas de escola que era não precisar estudar nem português, nem inglês, nem literatura, nem redação. Sobrava mais tempo pra ler Tolkien e outras coisas.

Já pra outras coisas sou uma negação total. Dê-me seu ano de nascimento e eu levarei no mínimo 5 minutos pra calcular quantos anos você tem. Retardada numérica total e absoluta. E não tenho a menorrrrrrr intenção de mudar isso, porque detesto calcular, detesto fazer continhas, meu modo de pensar é totalmente anti-matemático.

E pra fazer esportes? Nossa, eu sou AAAAA prega. Fora que não tenho o menor espírito competitivo, e mesmo quando ganho fico com pena de quem perdeu e não consigo nem curtir a vitória. E quando perco fico com pena de mim mesma, então não é legal. A única coisa que eu gosto de jogar é conversa fora…

conceitos

Ontem escrevi à Criss contando as minhas atuais intenções, que são 1) voltar pro Rio e 2) depois não sei bem o que fazer. Ela me respondeu mais ou menos assim: que tem raiva da bagunça, do descaso, do falso moralismo, do modo nojento dos italianos de falar mal de estrangeiros e acrescentar “mas com você é diferente”. Bom, pra começar, acho a bagunça deles muito parecida com a nossa. O descaso idem. Falso moralismo também não é exclusividade deles. E quanto ao modo de falar mal dos estrangeiros, vou dar o meu pitaco. Precisava mesmo de um gancho pra falar de preconceito…

Não acho que o preconceito seja uma coisa necessariamente horripilante ou abominável. E acho que vai existir sempre, porque é uma forma de defesa, baseada predominantemente em estatística. Por exemplo: se TODOS os marroquinos que eu já vi, e todos os que eu vi foram aqui na Itália, são filhos da puta, a próxima vez que eu vir um, ainda que em outro contexto, vou ficar de pezinho atrás que eu nao sou boba. Se quase 100% das brasileiras encontradas num vôo Rio/SP/Roma são mulatinhas caça-gringo, que falam alto, se vestem como as prostitutas que são, jamais aprendem a língua e vêm pra Italia pra virar um misto de escrava sexual e doméstica, é ÓBVIO que quem pega um vôo desses e não conhece a realidade da classe média alta das grandes cidades brasileiras vai ficar achando que todas as brasileiras são assim. E quer saber? Não estão errados não. Ontem mesmo vi uma caça-gringos, nos correios em Bastia. Chamava-se Rosemeire (meus olhos mais afiados do que o Hubble conseguiram ler de longe os endereços nos caixotes que ela queria enviar à Freguesia do Ó, a uma pessoa chamada Maria Pureza. Ui.). Vestida como uma piranha, parada em pé na fila emanando aquela vulgaridade que só as mulheres latino-americanas têm, os olhos lançando aquela pobre arrogância sem sentido que só os brasileiros furrecas que vão morar fora adquirem (lembrem-se dos patetinhas brasileiros que se acham oooooooos germânicos. Aqueles do forum. Aqueles que me acusaram de ter comprado o diploma porque não gostei de Berlim. Hohoho). Podemos realmente culpar os europeus por ter essa imagem horrível de nós, mulheres brasileiras? Eu acho sinceramente que não. Acho que é só estatistica mesmo, é defesa; eu também não gostaria de ver esse tipo de gente desfilando pelas ruas da minha pacata cidade, se eu fosse nativa de uma pacata cidade. Não tenho raiva nem de quem acha que eu sou ou fui prostituta, nem raiva dessas pobres mulheres, que OBVIAMENTE não se submeteriam a sair do conforto de seus lares pra virar escravas sexuais se houvessem um lar confortável, um emprego legal, famílias normais, um mínimo de grana pra se divertir. Tenho raiva de nós, que escolhemos mal nossos governantes; tenho raiva dos nossos governantes de merda, que com seu descaso e filha-da-putice criam uma massa de gente sem perspectiva, que acaba tendo que se submeter a tudo pra ter o que comer, pra ter um mínimo de conforto; tenho raiva dos nossos órgãos de divulgação, que só vendem bundas, bundas, sempre essas MERDAS de bundas, como se no país todo não houvesse nada de mais interessante; tenho raiva de quem deveria coibir o turismo sexual mas fica de bico calado; tenho raiva dos hotéis que admitem prostitutas, de luxo ou não, quando há turistas estrangeiros; tenho raiva de todos os homens idiotas do mundo que têm que pagar por um buraco pra enfiar o dito cujo.

O dia em que eu encontrar um marroquino, ou cigano, ou albanês, que não seja filho da puta, eu também vou pensar “mas você é diferente”. A amostra pode ser pequena, afinal tive contato com muito poucos aqui, mas se 100% dessa amostra é filha da puta, alguém pode querer que eu tenha uma boa opinião sobre eles? Levanta a mão quem, mesmo depois de ser assaltado cem vezes por gente de cor (e não vou entrar no mérito disso agora, não venham me chamar de racista porque todo mundo sabe que quem assalta é pobre, fora os retardados drogadinhos filhinhos de papai, e os pobres são negros, e os negros são pobres porque foram escravos, e etc etc etc. Mais uma vez, é pura estatística.), não fica com medo quando vê um negão suspeito na rua, no ônibus, na porta de casa. Levanta a mãozinha, quero ver.

O que quero dizer é que preconceito não é ódio gratuito, e não é uma coisa contra a qual se deve lutar cegamente. Não adianta nada eu sair por aí dizendo que nem toda brasileira é caça-gringo, se na TV as propagandas que se referem ao Brasil só mostram bundas, se os vouchers de companhias de turismo que voam para o Brasil só mostram bundas, se a imensa maioria das brasileiras no exterior é caça-gringo mesmo. O que adiantaria seria, e aqui sou muito hipotética porque não creio absolutamente que o Brasil tenha jeito, a gente ter um país melhor, com oportunidades mais justas, de modo que ninguém precisasse sair caçando gringo por aí.

Estou indo embora. Não sei quando, preciso me livrar do apartamento, mas vou embora. Não porque aqui tem preconceito, porque aqui tem bagunça, porque isso ou aquilo. Vou embora porque sair de casa, ainda mais pro brasileiro, e mais ainda pro carioca, é muito difícil, um sacrifício muito grande. Sacrifícios valem a pena se há um objetivo, uma compensação. Senão deixa de ser sacrifício pra virar desperdício, e pra mim desperdcio é sinônimo de imbecilidade. Como estou longe de ser imbecil, vou-me embora. Vim, como muitas outras brasileiras educadíssimas, pra curtir uma história de amor. A minha história acabou, e com isso acabaram também as minhas razões pra ficar nesse fim de mundo. A Umbria é pequena demais pra mim, não tem mais nada a me oferecer. Vou ficar fazendo o que aqui, jogando fora a minha juventude, a educação que meus pais me deram, meu céLebro brilhante, vou jogar fora tudo isso numa cidadezinha onde nada acontece, em um emprego chatíssimo, com um chefe que eu desprezo profundamente? Se eu ainda estivesse em Roma, ou Firenze, ou Bologna, ou qualquer outra cidade animada, cheia de gente diferente na rua, cheia de opções de lazer ou cultura, se eu tivesse um emprego muito legal, um chefe super interessante que me ensinasse taaaaaantas coisas, provavelmente não pensaria em voltar. Mas não é absolutamente o caso. Regredi. Saí do conforto do meu lar pra ir parar num buraco onde nada acontece, onde vivo sozinha e faço sozinha todas as refeições, a menos que chame alguém pra jantar em casa, não tenho carro, a bicicleta que uso não é minha, nao tenho TV nem telefone fixo nem computador nem internet. Regredi! Então chega, chega de andar pra trás! É hora de cortar o cabelo e voltar correndo pra casa. Assim que encontrar alguém pra ficar com o apartamento, é claro – o aviso prévio é de seis meses…

Eu gosto da Itália, e acho que um dia vou acabar voltando. Acho um país muito divertido, cheio de pessoas divertidas. Só sair na rua e ver aqueles italianos todos vaidosíssimos, montadíssimos, cheios de gel, de óculos abelhão, de calça justa, de olhar Cepacol, sempre gesticulando muito, batendo papo até enquanto dirigem lambreta, a gente já tem vontade de rir. Eles sabem se divertir, mas, ao contrário dos espanhóis, que segundo testemunho de amigos que moram na Espanha não querem saber de dureza, os italianos trabalham muito. Mas brincam, sacaneiam uns aos outros, cantam, comem bem, bebem idem. Claro que ainda são terceiro mundo em muitos aspectos – nos banheiros sem ralo e na frequência com a qual se lavam, no serviço bancário que é neanderthalesco, no quesito atendimento ao cliente em qualquer loja/banco/agência dos correios, nos correios que funcionam malíssimo; claro que há muitos defeitos – as cenouras que são nojentamente adocicadas, o limão que não é verde mas aquele abominável amarelo, o pão sem sal de todo o centro da Itália, a mania de comer lentilhas com molho de tomate, a mania de fumar em tudo que é lugar, enfim. Mas pombas, o paraíso nao existe, e home is where the heart is. Ou não?

Post cachorro-filosófico

A única parte da minha vida que não mudou nada aqui na Italia é o Legolas. Mesmo depois de tanto tempo na casa da Carol, lá no Rio, e depois de todos esses meses na casa da Arianna, aqui na roça em Santa Maria degli Angeli, ele não perdeu nenhuma das suas manias. Me acorda em torno das seis e meia sempre do mesmo jeito: senta ao lado da cama e fica me encarando. Eu me finjo de morta; ele começa a respirar forte, fazendo barulho. Eu continuo de olhos fechados, morrendo de vontade de rir, e ele começa a abanar o rabo. Continuo quieta, e ele finalmente me dá uma nada sutil patada no braço, e aí não tem jeito, tenho que levantar.

Nada mudou na nossa rotina, mas mesmo assim ainda me espanto com a facilidade com a qual ele entende as coisas, memoriza percursos, assimila hábitos. Depois de um aquecimento rápido vamos caminhando através do parque, pegamos a rua Vietnam, e é só a gente virar na estrada transversal por onde corremos sempre, e ele já começa a acelerar, olhando pra minha cara, as orelhas saltitando. Quando nos aproximamos de casa ele começa a se agitar; quando chegamos se deita no capacho do lado de fora e fica quietinho lá no sol, enquanto eu dou uma varrida na casa. Quando volto do trabalho, na hora do almoço, ele vem com a cara toda amassada de sono e um tênis na boca (nem sapato nem chinelo, sempre tênis, sabe-se lá por quê). Quando cruzo os talheres ele sabe que eu acabei de comer e logo vou levá-lo pra sair, então é só ouvir o barulho do garfo e da faca sobre o prato que ele levanta todo animadinho, doido pra dar uma volta. Ou então se estou no telefone, é só ele ouvir um “então, tá…”, ou então “um beijo!”, ou ainda “allora ci sentiamo dopo”, que sabe que acabei a conversa e posso voltar a dar-lhe atenção, e já começa a se agitar.

A infantilidade dos cachorros me encanta : )

Mas aí entramos na questã principal dessa história: é impressionante a capacidade que algumas pessoas têm de passar batido pela vida, sem olhar pros lados, sem observar, sem aprender nada. Outro dia estava com Leguinho no parque em frente de casa quando passa a minha vizinha de cima, a que tem o jardim no final do edifício (o apartamento dela equivale a dois apartamentos do andar térreo, onde eu moro, e ela ainda tem o jardim no térreo ao final do lado esquerdo). Ela vai caminhar todo dia de manhã com a Nina, insuportável basset velha e chatíssima, infernal latidora que faz um escândalo quando passo com o Legolas em frente à grade do jardim. Leguinho foi lá cheirar a cachorra – normal, cachorros se saúdam. A mulher não só não me reconheceu (nem a mim, nem ao Legolas, e olha que nem eu nem ele costumamos passar inobservados em terras italianas), como ainda botou a cachorra, que a essas alturas já estava latindo como uma doida e avançando no Legolas com a petulância que só os microcães têm, protetivamente no colo. Isso porque o Legolas nem encostou nela; cachorros pequenos são, pra ele, mera curiosidade e pouco dignos de interesse. A vizinha pediu pra eu afastá-lo porque a Nina estava com medo dele. Tipo, hello? Você tem cachorro há anos (a Nina é bem velhinha) e mesmo assim não entende NADA do assunto? Não sabe que macho e fêmea não brigam, e quando brigam é a fêmea que bota o macho pra correr? Não conhece nada de raças, não sabe que labrador, depois do tatu-bola, é o bicho mais bobão do mundo? Nunca viu meu cachorro na rua comigo, brincando com as crianças que saem da creche na hora do almoço, com velhinhos que passam de bengala e param pra dar bom dia bem embaixo da janela dela?

Imediatamente lembrei de uma coisa que muito me surpreendeu, ano passado. Tudo bem, eu sempre fui espertinha, além da média; sempre tive o hábito de reparar em tudo, perguntar tudo, querer entender tudo, de ler tudo, de fazer comparações com coisas já vistas ou ouvidas, de extrapolar, de aprender. Mas hoje em dia entendo que eu não sou tãaaao acima da média assim, ou melhor, não sou tão fenomenal assim – é a média é que é baixa. Porque as pessoas simplesmente NÃO OLHAM o que há ao redor. São incapazes de assimilar, de comparar, de aprender. Ano passado, antes de voltar pra Itália, dei aula de Inglês pra uma turma muito, digamos, complicada. Todos adolescentes, sem saber uma palavra de Inglês (o que, sejamos sinceros, já é muito estranho. Não saber NENHUMA palavra de Inglês, nos dias de hoje? Meninos e meninas da classe média baixa? Mas nenhuminha mesmo, nem good morning?). Um dia boto no quadro, como introdução a vocabulário novo, a palavra hard. Entre os alunos, dois com camiseta do Hard Rock Cafe. Pois não é que me olharam TODOS como se nunca tivessem visto a palavra na vida? Ainda perguntei, mas vocês realmente nunca viram essa palavra escrita em lugar nenhum? Não. Fiquei chocada. Como é possível um ser humano passar tão incólume pela vida? Como é possivel ignorar coisas que nos são bombardeadas todo dia, o tempo todo? Como é possivel uma pessoa ter um cachorro e não entender NADA de cachorro? Como é possível uma pessoa ter um videocassete em casa e não saber nem ligá-lo? Como é possivel alguém comer um prato particularmente gostoso e não querer saber que ingredientes leva? Como é possivel alguém usar uma camiseta e não ter a mais longínqua idéia do que está escrito nela?

Sou eu que sou maluca?

**

Coisas a incluir na lista de coisas que deveriam ser proibidas, junto com dente de ouro: malhar/correr/caminhar com tênis sem meia (sinto o chulé fúngico só de pensar, as micoses borbulhantes, todos os funguinhos fazendo festa no suor, aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah), malhar de cabelo solto, malhar maquiada, malhar de argolona nas orelhas. Muito dedo no olho pra essas criaturas.

Eu juro que eu quero parar, mas nao consigo! Olha o quanto sao brilhantes no Portugues, e olha que lisonja eles acharem que eu devo ser velha por ser tao cheia de qualidades e experiencias:

eMail von Eu (eu@tepego.com) Inviato: 10/09/2003 10:02

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

URL zum Thema: http://www.kippenhan.net/cgi-bin/dcforum/dcboard.cgi?az=show_thread&om=528&forum=DCForumID14
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Nachricht: #0
Titel: Paula,NAO È CERTO
Geschrieben von Valeria am 10-Sep-03 at 00:47 Uhr

Oi,Paula tudo bem que voce tomou essa atitude mais eu acho que nao é certo ,eu sei que essa discursao pode demorar,voce viu o exemplo dos politicos falando em relacao as ferias dos alemaes na Italia ,houve uma desculpa dipomatrica e a repercursao foi mundial.Nao quero dizer que uma Maria ninguem tenha este mesmo exito,mas como ela apareceu aqui e esta se sentindo tao superior e com nojo de todos nós brasileiros que moramos na Alemanha temos o direito de nós defender.Ela tem que entender uma coisa se nao é a Alemanha dar uma forma de viver aos italianos do Sul que sao chamados por eles de TERRONES oque seria da Italia já que terrones sao tambem pessoas nascidas no territorio italiano.Isso tudo dessa senhora é inveja ,ela ela deve ter pensado como a Alemanha dar ha essa pessoas a possibilidade de progredir já que eles mesmo sao racistas com a sua propria raca BAIXO ITALIA SAO TERRONES só prestam os italianos do NORD.Eles falao que eles pagao taxas paa as pessoas do sul viverem !
é aqui que pagamos para eles tambem e nao deixamos de comer pizza e ajudar os patriotas que eles rejeitao.
Alemao é Alemao do sul ao norte,e eles sao os primeiros a ajudar outros paíse em caso de emergencia
Um abraco
VL

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Nachricht: #1
Titel: RE: Paula,NAO È CERTO
Geschrieben von VL am 10-Sep-03 at 01:03 Uhr
In response to message #0

AHH!! Esqueci uma coisa visitei amigos em Rimini,eles pagao aluguel lá em uma casa com 3 quartos com jardim oque se paga aqui numa com 50 metros sem balcao .Eminha amiga nao acredita que o aluguel aqui e tao caro
VL

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Nachricht: #2
Titel: RE: Paula,NAO È CERTO
Geschrieben von Carol am 10-Sep-03 at 09:59 Uhr
In response to message #0

Eu acho que a Paula agil correto, essa moca aí já é uma berracao no Brasil (imagina só que até os outros estados do Brasil ela odeia), entao para que continuar colocando lenha no Fogo? Ela gostou da discussao voces nao perceberam que assim ela tinha o que fazer.

Além do que quem quer perder seu tempo para responder as mensagens absurdas dela que envie um email a ela oras bolas.

Se fossemos contar as experiencias dela, tipo : estudou medicina, deu aula de ingles por 2 anos, trabalhou como tradutora por 8 anos, vive na Italia a nao sei quanto tempo, mas isso e mais aquilo, a coitada deve ser uma velhota que está com falta né gente. Imaginem só solterona, feia, neurótica, etc. Tenhamos respeito perante seus Hormonios!!!!!!! }>

Acho que por aqui está faltando uns temas legais.

Ah so, wie gesagt, eu concordo com a decisao da Paula, acho até que demorou demais.
Ok. Fuiiiiiii

Ou seja, eu sou um fenomeno! Aos 26 anos tenho tantas qualidades e tanta experiencia acumulada que ninguém acredita que eu soh tenho 26 anos! Gente, eu sou foda. Ainda bem que esses pseudo-alemaes me alertaram, senao eu ia morrer sem saber!

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Nada de post pra abalar as estruturas da sociedade burguesa hoje. Patrulha anti-internética intensa aqui no escritorio, e muito o que fazer também. A dopo.