prognóstico sinistro

Depois do debate final de segunda-feira, Berlusconi chamou de coglioni (acho que a melhor tradução é “otários”) quem não votar nele. É engraçada a campanha eleitoral por aqui; fala-se de tudo, passa-se a ofensas pessoais com a maior naturalidade (Berlusconi deveria subir num banquinho pra falar, Prodi está ficando gagá, etc), a esquerda só sabe falar mal da direita, a direita só sabe falar mal da esquerda, e, como no Brasil, a discussão do futuro do país nem entra em campo. O importante é falar mal do outro. Nesse quesito acho que a esquerda tá um pouco melhor, porque algumas propostas foram feitas, pelo menos. Mas de modo geral eu acho tudo tão nojento que mudo o canal assim que vejo a cara de qualquer um deles.

A grande tristeza é que Berlusconi é, hoje, a cara da Itália. O arquétipo do italiano – a começar da aparência física. A cara cor de tijolo de quem faz bronzeamento artificial, os cabelos asquerosamente implantados e penteados, o sorriso falso, a testa franzida em desdém. A incrível capacidade de passar os outros pra trás e achar superlegal. A preocupação ZERO com quem está ao redor, coisa facilmente verificável no dia-a-dia aqui na Itália, no trânsito, em qualquer estacionamento, na fila de qualquer lugar, nas menores decisões, que nunca, NUNCA levam em consideração os possíveis efeitos pro resto do mundo. Berlusconi é isso; Berlusconi é a Itália. Esse país tá fodido e eu tenho muito medo que a coisa piore terrivelmente se ele continuar no poder. Não que a esquerda vá fazer milagres, porque político bom é político morto, mas pelo menos é tão contra tudo o que a direita diz que só pode ser um pouco melhor. Só o fato da esquerda querer tirar o crucifixo da escola já seria motivo suficiente pra eu votar pra eles… ;)

Pra quem vive me escrevendo perguntando como é a vida na Itália, sugiro o
post histórico da Daiza. Eu amo essa mulher.

ela

Lógico que uma terça-feira pós-segunda de onze horas de aula, uma terça-feira que começou com Cascia e terminou com uma hora e meia chatérrima com o Homem Mais Feio do Mundo, não poderia terminar bem. Cheguei em casa com uma das piores crises de enxaqueca que já tive. Tinha tomado o remédio ao meio-dia, quando senti a primeira pontada, e ela ficou dormente o dia inteiro, pra me atacar de surpresa justamente no meio da coisa com o Homem Mais Feio do Mundo. Não sei como cheguei viva em casa, mas voei pra cama chorando de dor. Nessas horas o Mirco fica assustado porque não sabe o que fazer. Consegui me arrastar pra tomar banho e fui direto dormir.

porradas eleitorais

Mas o que eu queria comentar mesmo foi o golpe baixo final do Berlusconi no debate de segunda. Eu não vi, lógico, primeiro porque cheguei tarde e já tava no final, segundo porque jantar olhando praquele homem me dá vontade de vomitar, mas ontem de manhã os telejornais só falavam da sua última jogada mortal: vou eliminar o ICI (o equivalente ao IPTU) da primeira casa. Vocês ouviram bem, vou eliminar o ICI! Sem comentários. O pessoal do curso de narração (doravante conhecidos como povo do Cantiere – o curso se chamava Cantiere 33) enxurrou a mailing list com comentários do debate, então fiquei meio que sabendo o que aconteceu, e nosso caro Berlusca soltou essa pérola ridícula (porque irrealizável) no último minuto da prorrogação, pra não deixar que o Prodi respondesse. Deve ter sido emocionante. Uau.

então…

Então acordei cedo mas não fui caminhar porque estou muito cansada ainda. Acordo sempre cedo, com o sol, mesmo se o quarto estiver totalmente escuro. Dou bom dia pras minhas plantinhas, todas devidamente transferidas do Móvel Hediondo da sala pra varanda ensolarada, faço a cama e normalmente depois vou correr, mas hoje não deu, realmente. Então sentei aqui pra atualizar a paca, porque não quero mais acumular semanas de posts mentais que não vão pro papel. Tive que escolher entre responder a mil e-mails acumulados ou atualizar a paca. A paca venceu. Muito provavelmente não vou conseguir escrever nada a ninguém durante a semana por causa das aulas com o Homem Mais Feio do Mundo, mas no fim de semana juro que vou tentar.

o tronco

Quando eu acho que finalmente vou ter tempo pra estudar, aparece alguém enchendo os poucos buracos do meu horário. Semana passada foi o Engenheiro Legal, que fez só uma semana e a essa altura já deve estar no Texas explicando a montagem das vitrines de sorvete. E hoje outros dois apareceram: o diretor da escola técnica de Foligno, que quer dar uma “refrescada” no inglês pra se comunicar com outras “figuras importantes da cultura mística européia” (medo), e o Homem Mais Feio do Mundo, que precisa também refrescar o inglês por uma semana, porque depois vai pra Hong Kong por quatro dias pra um contrato sei lá do quê – ele é consultor de qualidade, que deve ser o trabalho mais chato do mundooooooooooo. Até aí tudo bem; o diretor da escola foi devidamente colocado no único buraco de hoje, deixado pelo filho do dentista que vai repôr a aula na quarta. Mas o Homem Mais Feio do Mundo só pode fazer aula tarde da noite. Como abril é cheio de feriados e no verão trabalho menos e eu quero porque quero pagar a cozinha nova sozinha, aceitei o ridículo horário das oito e meia às dez da noite. Hoje não agüentei e terminamos às nove e meia porque eu tava caindo pelas tabelas.

Hoje então foi dia de record mundial de horas seguidas de ensinamento de inglês: ONZE. Sem direito a pausa pra comer ou fazer xixi. Tinha ido trabalhar com a Panda da Arianna, porque a Uno tava na revisão, e quando cheguei na casa dela pra deixar o carro eu já nem sabia quem eu era, onde estava, que dia era hoje. Mirco chegou logo depois, falamos rapidinho com os cachorros e fomos pra casa jantar. Mirco tinha aproveitado que eu ia chegar tarde pra ficar na oficina resolvendo pepinos, e tava roxo de fome. Por sorte Arianna tinha mandado a lasagna do domingo, que esquentamos em banho-maria e jantamos às onze da noite. Tipo assim, totalmente errado, mas não tinha outro jeito porque estávamos quase desmaiando de fome. E de sono. Boa noite.

aria di cultura ;)

Tínhamos um almoço combinado em Gubbio já há quase um mês. Com o pessoal do curso de narração, que se mantém sempre em contato através da mailing list. Então eu acordei cedo, fui caminhar – de camiseta de manga curta! – ouvindo música, tomei meu banhinho, fiz vitamina de banana e laranja pro café da manhã e tocamos pra casa da Arianna. Tivemos que pegar o carro do Ettore, porque o do Mirco tá esperando o pneu novo e a Uno que eu dirijo não chega viva a Gubbio nem rezando. Direto pra estação de Perugia, onde a Laura (a.k.a. Ola’ porque, vocês sabem, apelido aqui é quase sempre a repetição do nome até a sílaba tonica, então o pessoal chama a Laura assim: O La’, vieni qua!) já estava esperando. Trinta segundos depois apareceu a outra Laura, a Bortoloni, com o namorado. Os dois têm um estúdio gráfico e ela é a maior fã da Newlands. Muda como um peixe, mas é um amor de menina. Ola’ montou no carro com eles e lá fomos nós pra Gubbio.

A estrada é horrível, cheia de curvas e subidas, e fica impraticável quando neva pesado, mas a paisagem é um deslumbre. Aquelas casonas antigas de pedra sentadas sobre as colinas, campos cultivados, bosques de oliveiras, carneirinhos pastando. A Umbria é um desbunde mesmo. E a chegada a Gubbio é sempre triunfal, porque ela fica amontoadinha aos pés do monte cujo nome esqueci, e as torres e construções superantigas são visíveis já de longe; a cidade parece desenhada. Com o céu azul de hoje, então, nem vos digo.

Estacionamos na praça principal e o Matteo veio ao nosso encontro. O resto do pessoal tava esperando à sombra de uma banca de jornais. Matteo é de Veneza, estuda Letras; a namorada, pequeniniiiiiiinha, se chama Virginia e estuda Relações Internacionais em Trento, mas a família é de Terni, aqui na Umbria. Livia é de Riccione, se não me engano, e não me lembro que coisa faz; o namorado tem cara de salame, desses com jaqueta acinturada e colarinho alto, mas não parece ser má pessoa. Arturo é ginecologista, de origem napolitana mas mora em Gubbio há anos e ajudou a parir metade da cidade, então andar com ele pelas ruas é como andar em Ipanema com o Hiro: paradas a cada trinta segundos pra cumprimentar alguém. Sabe O cara legal? É o Arturo. Demos uma volta no centro pra esperar o Maurizio, e fomos batendo papo, falando de livros e filmes (o que mais?) e discutindo menus. O Maurizio trabalha na Coop, o supermercado, e dirige um minicentro cultural de cinema na cidade. Depois de um aperitivo rápido num barzinho quase na praça, fomos pro “restaurante” que o Arturo tinha reservado.

De restaurante não tinha era nada, como muitos bons lugares pra se comer por aqui. Cardápio limitadíssimo, mesas na cantina subterrânea com teto em arcos, salames pendurados no teto no andar térreo. Um lugar típico, em suma. Todos acabamos pedindo a mesma coisa: Piattone del Re (Pratão do Rei), um pratão realmente enorme com as seguintes coisas, a serem comidas nessa ordem, conforme explicou o proprietário quando nos serviu: crostini (pão tostado) de dois tipos, com molho à bolonhesa e com lardo (a parte gorda do porco fatiada. Banha, digamos.), depois feijão manteiga ligeiramente apimentado, comido com um pedaço de torta al testo, que em Gubbio se chama crescia (pronuncia-se crêsha), depois ovos mexidos com lingüiça despedaçada em cima de uma meia fatia de torta, depois lombinho fatiado em uma caminha de rúcola e vinagre balsâmico, depois batata assada e berinjela à milanesa, depois fatias de torta com prosciutto crudo, depois fatias de queijo com trufa negra. Parece um mundo de comida, e é, quando vista toda junta num pratão gigante, mas na verdade cada porção é pequena (MEIA batata assada, UMA fatia de berinjela, UMA fatia de queijo por cabeça) e a gente comeu muito bem, sem se entupir. Mirco até continuou com fome depois (classic…) e ainda comeu uma fatia de torta com lingüiça e verdura. O vinho não era local, e de uma variedade que eu nunca tinha experimentado, mas uma delícia. Estávamos numa ponta da mesa com Maurizio e a mulher, que é enfermeira e chegou depois, direto do turno da noite. Altos papos.

Dali fomos direto a Fossati di Vico, a estação de trem mais próxima a Gubbio, pra deixar a Livia e o namorado. Bortoloti e o namorado também tiveram que ir embora mais cedo. Maurizio e Sonia foram pegar as filhas na sogra e levá-las pra passear no parque. Nós restantes resolvemos ir a Perugia pra Virginia, namorada do Matteo, visitar a avó, e depois fomos ao cinema. Como todo mundo já tinha visto tudo o que tava passando, fomos ver Notte Prima degli Esami, que é MUITO engraçado e nada idiota. Demos muita risada, até eu, que vivi os anos 80 brasileiros e não italianos. Muita coisa em comum, lógico, e muita risada com a moda cafona da época. O elenco é terríiiiiiiiiiiiivel e a atuação da maioria dos jovens e desconhecidos atores é péssima, mas o texto é muito engraçado. Saímos do cinema desopilados e com fome, e fomos ao centro de Perugia comer pizza na Mediterranea, a melhor pizza da cidade. De novo, altos papos. Infelizmente tivemos que nos despedir do Matteo, da Virginia e do Arturo, e fomos levar a Ola’ em casa, em Tordandrea, onde mora o tio do Mirco.

Eu tenho muita sorte com esses colegas de turma dos poucos cursos que faço. Esse pessoal é muito legal, muito simpático, aberto, CULTO, divertido. Tipo assim o pessoal do curso de italiano, que são das melhores pessoas que já entraram na minha vida. Lulu, Syrléa, Valéria, Fabiano, Serginho, Leo… Todas pessoas maravilhosas de quem tenho muito orgulho de ser amiga e de quem sinto uma falta imensa. Esse pessoal do curso de narração foi um achado pra mim. São meus primeiros amigos só meus por aqui (a FeRnanda não conta porque já virou irmãzinha), a nossa amizade começou por termos alguma coisa grande em comum e que ainda é o ponto central das nossas conversas, ao vivo ou por mailing list, e a sensação de finalmente ter com quem conversar é absolutamente maravilhosa. Mirco adorou todos e deu muita risada a noite inteira. Ficamos de nos ver de novo em maio, porque no início do mês tem a feira do livro em Torino, e no meio do mês tem a festa dos Ceri em Gubbio, aquela coisa louca que presenciamos no ano passado. Não posso deixar escapar essa gente da minha vida.

Então fomos ver V for Vendetta. Nem eu nem o Mirco tínhamos lido os quadrinhos, mas achamos o filme MOITO maneiro. O visual é bacana, a história é legal, eu gosto muito da Natalie Portman, e nem a dublagem estragou. Gostamos, gostamos.

era ora, cazzo!

Primeira saída de lambreta do ano, uhu! Fui a Bastia comprar umas plantinhas e uns fichários bonitos pra organizar a minha papelada da universidade. O dia tava lindo, glorioso, fresco mas com o sol que esquentava a pele, uma diliça. Quase – quase – fiz a faxina com prazer, com as portas das varandas escancaradas. Adoro esse início de primavera. Adoro terminar o dia de trabalho com luz no céu ainda. Me sinto outra.

gomma bucata

Estava quase na altura da saída pra Rivotorto, ultrapassando um velhinho e ouvindo Green Day nas alturas, quando começo a ouvir um barulho estranho. Putz, o pneu. Bosta. Não tinha onde encostar na estrada, então rodei mais uns cem metros e peguei a saída. Como em Rivotorto nada acontece nunca e ninguém passa, consegui parar o carro em uma espécie de baia lateral, sem incomodar ninguém. Desci e olhei o pneu: completamente estourado, caramba. Liguei pra escola pra avisar pra Simona que eu chegaria atrasada, porque nunca troquei pneu e provavelmente iria demorar. Ela teve a feliz idéia de ligar pro meu aluno engenheiro brilhante, que, morando em Bastia, tinha necessariamente que passar por ali. Cinco minutos depois lá vem ele com o seu Toyota. Trocou o pneu em inglês e lá fui eu, a oitenta por hora como uma velhinha, até a escola. Conversamos por uma hora e nos despedimos. Mas ganhei uma aluna particular, a mulher dele, obá. O resto do dia foi light; sexta-feira é o dia dos alunos educados: um engenheiro, um filho de dentista, um filho de médico, um médico. E que coisa linda sair da escola com um pouquinho de luz ainda no céu! Dilissa!

promoção?

Minha chefa hoje me convocou pra um papo na cozinha do segundo andar (os tradutores trabalham full-time e não voltam pra casa pra almoçar, cozinham lá mesmo). Me propôs o “cargo” de director of studies, posição que aquela louca da Cristina, com quem trabalhei na outra escola, ocupou por um ano, com competência duvidosa. Fiquei de pensar. A proposta é boa porque o contrato seria a tempo determinado, o que eliminaria os meus gastos com INPS (sou eu que pago, como doméstica do Ettore, pra poder ter uma aposentadoria um dia), e teria direito a férias, décimo-terceiro, e todas aquelas coisas legais que eu nunca tive na vida. Só que eu não sei se quero criar um vínculo oficial com a minha chefa desvairada. Porque eu não gosto nada dela, sabe. E não poder almoçar em casa é uma coisa muito chata; se eu conseguisse emprego mais perto de casa trocaria numa boa. Não discutimos salário porque não deu tempo, mas fiquei de pensar. Tenho que fazer algumas contas, pra entender o limite mínimo de euros por hora que eu posso aceitar. Semana que vem eu resolvo.