zoinho

Estou com uma dor de cabeça chata que eu não sei explicar. Nunca fui muito de ter dor de cabeça, mas ultimamente anda um horror. Às vezes retro-orbital, às vezes frontal, sempre latejante. Será que eu estou precisando de óculos? Justo eu, campeã mundial de avistamento (e identificação) de buzum à distância?

roça

Aliás, falando em colheita… Como os tratores atrapalham o trânsito, putz!!! Da nossa casa até Torgiano, onde fica a oficina, não tem como ir pela superstrada. Torgiano é meio escondida e não tem jeito, precisa pegar a estrada de mão dupla que atravessa campos e mais campos. Já está terminando a época da colheita do trigo e a maioria dos campos já está carequinha, com aqueles rolos enooooormes de capim/feno espalhados, sabe aqueles clássicos, que se vêem em tudo que é cartão-postal da Toscana? As máquinas que colhem trigo são uns verdadeiros tanques de guerra. Monstros blindados, os mais novos invariavelmente pintados de verde-pistache, altíssimos, com cabine climatizada pros camponeses não assarem lá dentro no verão, cada pneu gigantesco, comendo trigo de um lado e cuspindo caules dourados do outro. É bonito de se ver. Mas dirigir atrás de um desses em estrada estreita onde não dá pra ultrapassar é um PORREEEEE. Queria ter tirado umas fotos hoje, mas o tempo tava uma porcaria. Chegou até a nevar no norte do país, é mole? Non si capisce più un cazzo…

Amélia

E aproveitei que o Mirco ficou enrolado no trabalho e não veio almoçar em casa pra matar o ensopadinho que comemos com torta al testo anteontem – italiano odeia comida requentada, por isso quando sobra alguma coisa eu congelo, e deixo pra comer num dia em que o Mirco não vier almoçar em casa. Fiz arroz branco e farofa e mandei ver. Depois preparei o almoço pro Mirco e pra dois operários dele (spaghetti com o molho do ensopadinho, enroladinho de peito de peru com cenoura cozido no vinho branco, salada, e de sobremesa uma mousse branca com cobertura de abacaxi que eu sempre compro no supermercado de pobre aqui de Bastia, custa uma titica e é uma delicia, além de ter sabor pêssego com maracujá também), e fui levar lá na nova empresa do ex-chefe dele, onde eles tavam trabalhando hoje. Me senti AAAA camponesa que leva a marmita pros homens no campo, na época da colheita. Fiquei até tentada a enrolar um prato num pano, mas como os pratos eram de plástico não foi possível.

E a epopéia da carteira de motorista continua…

Hoje saí de casa mais cedo ainda, e cheguei à Motorizzazione às sete e cinco, mais ou menos. Sete carros na minha frente, todos de auto-escolas (depois fiquei sabendo que o primeiro da fila chegou à meia-noite). Fiquei sentadinha ouvindo rádio dentro do carro, até que alguém começou a clássica distribuição de papeizinhos numerados. Saí do carro e, embora não estivesse muito a fim de papear, acabei fazendo vários amigos entre os veteranos de auto-escola que frequentam há anos os modorrentos escritórios da Motorizzazione. Um deles, Giancarlo, que conhecia (e sacaneava) todo mundo, resolveu ficar meu amigo e não parou de contar piada e fofocar no meu ouvido a manhã inteira.

De repente vemos um carrinho azul-metálico passar direto por todos nós na fila e parar em frente ao portão. Mais tarde, depois de abertos os portões do estacionamento, vimos que o motorista do tal carrinho era um velhinho sem pescoço, com carinha de tartaruga, enfiado numa camisa pólo verde-musgo – mais jabuti, impossível. Pois não é que o jabuti se meteu na frente de todo mundo na maior cara-de-pau? Eu cutucando o ombro dele, outros dois puxando-o pelos braços, o senhor é aposentado, tem tempo pra perder na fila, chega depois de todo mundo e quer passar na frente? Tá doido? O velhinho esperneava, se irritava, discutia, eu puta da vida, até que alguém viu que o documento que ele tinha na mão, e que segundo ele só precisava de um carimbo, não poderia ser carimbado porque faltava um bollo (aqui tudo funciona à base do bollo, que nada mais é do que um selo, que pode ter valores diferentes, que eu acho que substitui, até um certo ponto, o pagamento de taxas. Qualquer tabaccheria vende bollo, então você não tem que ficar na fila do banco pra pagar um imposto e depois ainda perder tempo levando comprovante pra lá e pra cá: basta colar o bollo no documento e pronto). Quando a mulherzinha do balcão foi explicar isso pro jabuti, caiu um silêncio sepulcral na sala: todo mundo querendo ouvir o jabuti se foder e voltar pra casa de mãos abanando. E quando ele foi embora ainda teve direito a vaias. Dei muita risada, e felizmente consegui resolver o que eu tinha que resolver. Agora só tenho que esperar um mês pra pegar o maldito foglio rosa, o que significa o final do mês de agosto, já que na semana de Ferragosto (dia 15) os escritórios públicos (e o resto do país inteiro também) não funcionam.

ira

Quando eu estou assim irritada, e não estou falando da irritação de um sapato que machuca, ou de um mosquito no ouvido, mas de irritação séria como essa de hoje, fico intratável. E não tem nada nem ninguém no mundo que ajude a melhorar. Tenho que esperar passar mesmo, porque não tem nem Leguinho que dê jeito. Anzi, tudo que acontece ao meu redor é motivo pra me irritar mais ainda e é mais seguro pro mundo que eu fique isolada, totalmente longe do contato com outros seres animados.

Por isso, crianças, cuidado a quem resolver me escrever e-mail hoje. Porque uma simples mas absurda crase antes de verbo (ou, como aconteceu ontem, um estudante de Direito que me escreveu dizendo que esperava não estar encomodando e perguntando se na primeira vez que eu vim à Itália eu já tinha pretenção de ficar) vai ser o suficiente pra desencadear um macabro episódio de Móveis Hediondos Que Voam Janela Afora.

patente italiana, capitolo secondo

Mais legal ainda é que isso tudo foi depois do Capítulo II da Epopéia da Carteira de Motorista Italiana (o Capítulo I foi aquele exame de 15 segundos, na terça-feira). O lance é o seguinte: na terça, na auto-escola, a secretária me deu um formulário pra preencher e completar com duas fotos 3×4 em fundo claro (eu só tinha com fundo escuro e tive que refazer as fotos) e três bollettini, que seriam três carnês de 10,33 € pra pagar – seria algo equivalente ao DUDA, acho. E com tudo isso na mão, mais duas fotocópias do certificado médico, do permesso di soggiorno e da carteira de identidade, eu tinha que ir à Motorizzazione di Perugia – o DETRAN deles. Os horários, como sempre, são ótimos: segundas, quartas e sextas, das 8:30 às 12:00 (abre bem na hora do rush, quando o trânsito pra Perugia fica impraticável) e das 15:00 às 18:30 (fecha bem na hora do rush, quando o trânsito vindo de Perugia fica impraticável), sendo que às sextas só abrem de manhã. Não deu pra ir na quarta, então ficou pra hoje. Já tendo sido avisada da bagunça que é aquilo lá, saí de casa às sete da manhã, pra evitar o trânsito maldito e chegar cedo. Cheguei às sete e vinte, e já havia 9 pessoas na minha frente, sendo que quatro eram auto-escolas, ou seja, com um MONTE de pedidos pra entregar, e uma dessas era uma senhora de maquiagem absurda que tinha chegado às quatro da manhã. E já tinha um antes dela.

A entrada pra Motorizzazione é uma ladeira que faz uma longa curva à direita e termina nos largos portões do departamento. Os carros fazem fila encostados na pista da direita, mas quando a fila chega lá na rua o pessoal, obviamente, não tem mais onde ficar esperando sem atrapalhar o trânsito, e acaba indo lá pra frente, pra perto do portão. Quando eu cheguei não entendi a fila de carros, porque vi os carros das auto-escolas e tive, juro, a vã esperança de que houvesse uma fila pra elas e uma pra nós, particulares. Passei direto pela fila de carros e parei em frente ao portão, onde todos aqueles motoristas estavam em pé, conversando. Perguntei como funcionava a fila, eles disseram que infelizmente não tinha essa de uma fila pra cada tipo de cliente, e que era melhor eu pegar um número, que um senhor baixinho (o terceiro a chegar) de óculos escrevia num bloquinho de comandas e distribuía informalmente aos que chegavam, e voltar correndo pra fila de carros pra não perder o lugar. O tempo foi passando e fui vendo mais e mais carros passando por mim e parando lá na frente, no portão. Às oito e dez abriram os portões do estacionamento, e todo mundo que estava parado em pé batendo papo saiu CORRENDOOOO, correndo mesmo, pros carros pra levá-los ao estacionamento, descer correndo do carro e se aglomerar na porta ainda fechada do departamento, no tradicional coágulo humano não-fila que os italianos são craques em fazer.

Aí começou a bagunça, porque um barrigudo arrogante que tinha acabado de chegar tava plantado logo na cara da porta. Todo mundo que tinha seu papelzinho não-oficial na mão e tinha chegado super cedo obviamente reclamou, e a discussão tava formada. Porque um sistema de fila deve existir pra todo mundo, e não só pros 15 primeiros que chegam! Porque organizar a fila é dever da Motorizzazione e não dos clientes! Sim, mas já que eles não fazem nada, os clientes pelo menos tentam organizar! Eu dei meu pitaco dizendo que em tudo que é lugar civilizado do mundo, quando a fila é uma bagunça as pessoas educadas simplesmente perguntam quem foi o último a chegar, e se enfiam depois dela. O povo continou discutindo, brigando, gesticulando, todo mundo se espremendo em frente à porta com medo do vizinho passar à frente, uma coisa horrorosa. Pelo menos o tempo tava fechado e soprava uma brisa fresca, senão os ânimos teriam esquentado ainda mais.

Às oito e meia em ponto uma funcionária vem em ritmo de cágado abrir as portas. O pessoal cai dentro como torcedores no Maracanã, só faltava gritar êeeeeeeeeeeeeeeeeeeee u-tererê uhuuuuuuuuuuu!. Fila? Nem pensar. Consegui chegar perto da ÚNICAAAAAAA FUNCIONÁRIAAAAAAAAAAAA no balcão, mas quando vi que vários dos senhores que tinham chegado antes de mim estavam logo atrás, deixei passar todos e só depois do nono barrigudo entreguei meus documentos. Era a chamada richiesta del foglio rosa, ou pedido do papel rosa, que de rosa só tem um retângulo na parte de cima, e que permite ao portador de dirigir na presença de alguém que tenha carteira há mais de dez anos. E depois de um mês e um dia (DON’T ASK) com esse papel na mão você pode entrar com o pedido dos exames teórico e prático. Normalmente eles levam dez dias pra te dar o papel rosa, depois da entrega do pedido. Mas durante a longa permanência na fila fiquei sabendo que atualmente o período de espera é de quarenta dias. Tudo bem, minha carteira internacional vale até setembro, pra mim o foglio rosa não faz a menor diferença, é simplesmente a primeira fase da obtenção da carteira. Pacientemente e com um sorriso esperançoso esperei a mulherzinha examinar minha papelada. A mulherzinha ajeita os óculos na ponta do nariz, ajeita o vestido de velha, ajeita os cabelos repicados anos 80 totalmente nada a ver, e sentencia:

– Tá errado aqui, senhora.
– Como, tá errado? O quê que tá faltando? Foi a auto-escola quem me deu os papéis.
– Deram-lhe os bollettini errados. Eram dois com a tarja verde e um com a tarja azul, lhe deram dois azuis e um verde.
– E agora?
– E agora precisa pagar de novo.

E me deu um maldito bollettino com tarja verde pra eu pagar. De novo.

Eu quero que alguém, qualquer um, alguém, por favor, me dê uma explicação razoável pra existência de uma diferença substancial entre uma tarja verde e uma tarja azul. Alguém? Não. C.Q.D.

A essa altura já eram dez da manhã e saí desembestada à procura de uma agência dos correios pra pagar o maldito bollettino. Levei horas pra achar uma, porque o trânsito em Perugia é uma coisa louca, não tem sentido nenhum, e se você erra uma esquina leva três horas pra voltar pro ponto de onde saiu, tendo que dar mil voltas por causa das inúmeras Z.T.L. (zone traffico limitato) e ladeiras de mão única. Quando finalmente achei a agência, havia 7 pessoas na minha frente. Paguei o bollettino e fui a uma papelaria em frente fotocopiar o recibo, que eu não sou boba e bem vou lá reclamar na auto-escola por me terem feito pagar 10,33 € duas vezes. Voltei pra Motorizzazione e a fila chegava lá fora. Entrei na cara-de-pau mesmo, achando que a mulherzinha do balcão ia me fazer passar direto, já que eu tava lá desde cedo e não foi por culpa minha que eu tive que ir embora e dar lugar ao número 11 (que era uma família de Gubbio, bem longe daqui, que acompanhava o filho adolescente pra pegar o patentino, a carteirinha de motorista pras lambretas que agora é obrigatória). Que nada. Logo me enxotaram, dizendo que eu tava furando fila, que eu era desonesta, que era mentirosa porque não estava lá desde cedo coisa nenhuma. Fui embora chorando de ódio, antes que alguém viesse dizer que eu era mal-educada por ser estrangeira. Porque aí eu matava alguém. Juro.

É nesses momentos que eu entendo gente que entra no McDonald’s metralhando todo mundo. Bem momento Dia de Fúria. Faz sentido.

anta

O dia em que eu aprender a mentir ao telefone eu vou ser uma pessoa mais feliz.

Ligaram-me de uma agência de tradução em Milão, uma das mil às quais mandei meu currículo. Diziam que estavam me mandando um fax, em casa, com um questionário que eu deveria preencher, assinar e devolver via fax. Depois do almoço ligaram de novo, dizendo que nem todas as páginas da minha resposta chegaram direito mas a pergunta importante era uma só: eu tenho corretor ortográfico de Português no Word? E o que a idiota aqui responde, sem nem piscar, num primor de sinceridade? Não. O suspiro de decepção do outro lado foi tão nítido que me deu até dor no coração.

E assim eu me fodi e perdi uma talvez bela oportunidade de trabalho.

E o mais legal é que não foi, nem de longe, a primeira vez.

curtas

Engraçado que agora que não estou trabalhando parece que tenho menos tempo pra ficar online. Tô sempre cheia de coisas pra resolver na rua. Novidades:

– A casa da FeRnanda e do Fabio já tá praticamente pronta. Os móveis do quarto já chegaram, a cozinha já tá quase toda montada, as paredes já estão pintadas. Domingo à tarde eu e Mirco carregamos o caminhão com os móveis IKEA deles, que estavam armazenados na nossa garagem, e lá fomos nos pra Ripa. Montamos os móveis da sala, sofá, mesinha de TV, mesinha pra trás do sofá, mesa de jantar e cadeiras azuis foférrimas. Segunda-feira fomos levar as persianas que o Mirco pintou e jantamos lá mesmo, pappardelle com molho de javali e sorvete de sobremesa, que nós levamos. E hoje à tarde provavelmente vou dar um pulo lá pra ajudar a FeRnanda na limpeza final.

– Segunda também saiu, finalmente, meu permesso di soggiorno. A primeira coisa que eu fiz foi ir a uma auto-escola pra engatilhar o lance da carteira de motorista. Eu tô dirigindo com a carteira internacional, mas um ano depois do pedido de residência (o meu foi feito em setembro do ano passado) ela não vale mais, tem que tirar a carteira do país mesmo. Ontem à tardinha fui fazer o exame médico, que durou 15 segundos (tapa o olho esquerdo e me diz que letra é essa. Ele. Tapa o olho direito, que letra é essa? Ó. Cabou o exame.) e custou 16 euros. Hoje tenho que ir aos correios pagar três taxas de € 10,33 (o equivalente às velhas 20.000 liras) e sexta-feira de manhã vou sair cedo de casa pra ir à Motorizzazione em Perugia, pra dar entrada no pedido da carteira. Vai dar trabalho e tudo vai ser muito lento porque agosto vem aí e em agosto a Europa pára, mas a garota da auto-escola me garantiu que em setembro eu consigo a carteira – se passar nas provas, é claro.

– Acabei de ler o terceiro livro de Camilleri sobre o Commissario Montalbano. O primeiro eu já tinha, La Forma dell’Acqua. O segundo e o terceiro eu comprei em Siena enquanto esperava os Salames. São Il cane di Terracotta e Il Ladro di Merendine. O Cane eu comecei na véspera da partida dos Salames, e terminei três dias depois. O Ladro comecei anteontem e terminei ontem. São ótimos, estou doida pra ler os outros!

– Benetton de Bastia em liquidação com descontos de até 70%. Comprei uma jaqueta jeans, muito precisada, e umas camisetinhas pra esse verão nojento.

– Comprei adubo pras minhas plantas. Meu manjericão tá anêmico, a salsinha só dá flor mas não cresce, a sálvia tá amarelando. E não foi culpa do Mirco, porque ele lembrou de regá-las durante a minha ausência. Pelo menos o peperoncino já deu uma pimenta, que ainda tá verde e feia. Quando virar vermelha eu tiro uma foto.

– O ministro da economia do Berlusconi pediu demissão no último fim de semana. Hohohoho.

tem quem ganha, tem quem perde…

Ontem rolou o primeiro Palio di Siena (o outro é em agosto). Eu estive lá em 2002 e expliquei como funciona; quem quiser vai lá dar uma zoiada que eu tô com preguiça de explicar tudo de novo. Foi transmitido pela TV, como sempre, mas eu não vi. Ouvi no rádio que ganhou a Girafa, contra todas as expectativas, já que a favorita era a Torre.

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Falando em ganhar e perder: nas últimas eleições (segundo turno) de semana passada, a esquerda papou um monte de cidades que “pertenciam” ao governo. A besta-mor do Berlusconi veio logo todo pimpão, pra disfarçar a cara de tacho, dizendo que isso não faz a menor diferença, que o governo vai continuar governando do mesmo jeito. Parece óbvio, mas aqui não é: meses atrás o governo Berlusca comemorou 4 anos de mandato (são seis), batendo o recorde de permanência no cargo. Quando vi essa matéria na televisão lembrei de um dos nossos professores de italiano no Rio, que dizia que toda hora tinha eleição na Itália porque toda hora um governo caía e ninguém terminava o mandato, e eu achei incrivelmente surreal. Agora a oposição, se achando a rainha da cocada depois dessa grande vitória nas urnas por todo o país, já anda pedindo pro governo renunciar. Quem dera.