passei!

Miraculosamente, passei na prova teórica pra motorista. Digo miraculosamente porque obviamente não tive tempo nenhum pra estudar; dei uma olhada rápida ontem tarde da noite e fiz alguns testes pra praticar, mas considerando a quantidade de informação que tem no livrinho eu até que me saí muito bem: de 30 questões, só errei três (mais dois erros e eu não passava), e bem idiotas – clássicas questões de definições e nomenclatura que não provam nada além da capacidade de memorização do candidato. A minha é ótima; dificilmente eu esqueço de algo que li ou ouvi, e minha memória visual é excelente, o que ajuda na hora de lembrar da legenda embaixo da figura de uma placa de trânsito. Mas definições idiotas não são comigo, fico achando pêlo em ovo, fico com má vontade e acabo sempre errando. E foi exatamente o que aconteceu.

Nós éramos 12. Dez adolescentes, eu, com 8 anos de direção nas costas, e um molambento de seus trinta e cinco anos que eu apostei comigo mesma, só de vê-lo entrar na sala, que não iria passar. O jeito de caminhar, de se vestir, o olhar de pamonha, o fato dele não ter trazido caneta, tudo isso só confirmou a minha certeza. E não deu outra: o cara errou milhões de questões. Além de mim, só mais duas pessoas passaram: um garoto que fez 4 erros e deu um suspiro de alívio que fez todo mundo gargalhar, e uma garota que não errou nada. Uma outra mulinha foi reprovada pela segunda vez. Cara, na boa, fora essas definições idiotas, que são decoreba mesmo, dirigir, e conseqüentemente a prova pra poder dirigir, é como qualquer outra coisa na vida: basta ter bom senso. E feito o teste uma vez você já passa a entender o mecanismo, né. Fora que o livrinho teórico vem com um livrão de testes com TODAS as questões possíveis – são muitas, verdade, mas o teste só tem trinta, divididas em dez enunciados, cada um com três afirmativas que podem ser verdadeiras ou falsas. Os assuntos até que são bastantes: noções de primeiros socorros, que felizmente não caíram pra mim porque não lembro de mais nada, de poluição, de manutenção do carro, de direitos e deveres em caso de acidente, do funcionamento da apólice de seguro do carro, etc. Bem interessante.

Bom, em todo caso, passei. Um alívio, mais pela burocracia que eu teria que enfrentar novamente se fosse reprovada do que pelo medo de não passar de novo, coisa que certamente não aconteceria na segunda tentativa, please. Agora tenho que voltar à auto-escola pra marcar (e pagar, né) a prova prática, e pronto.

E aqui entro com um adendo: eu fui, logicamente, a primeira a terminar, como sempre aconteceu durante toda a minha vida acadêmica, desde que me entendo por gente. Fiz a prova em 5 minutos, contados no relógio. Quando fui entregar a folha, a fiscal, que também é dublê de mulherzinha burocrática às segundas, quartas e sextas (foi ela que me atendeu quando fui entregar o requerimento), pediu, em voz alta, que eu entregasse também a minha pastinha branca, que eles mesmos nos dão, e que contém todos os seus documentos necessários pro andamento do processo. Adivinhem quantas das outras 11 pessoas ouviram o que ela disse, ou se inspiraram nas novas pastinhas brancas que se acumulavam sobre a escrivaninha à medida em que o resto do povo ia terminando? ZERO. A coitada da mulher repetiu ONZE vezes “a pastinha branca também, por favor”. Ou eu sou chata demais ou a imensa média da população é desatenta e desinteressada demais. Eu sei que sou chata, mas tenho a impressão de que nesse caso a segunda hipótese é infinitamente mais provável.

Da série altos e baixos

As listas ficaram muito compridas, então vou dar um alto e um baixo de cada vez, nessa ordem, e quando possível com fotos ilustrativas. Blog didático é isso aí.

. Rever grande parte do pessoal da faculdade no Pizza Park, na Cobal do Humaitá. Na ordem da foto, da esquerda pra direita: dr. Bernardo Lopes, ortopedista, e sua futura senhora, dra. Sabrina Alvim, pediatra; dra. Flavia Pinho, anestesiologista; dr. Rodrigo Buzzatti, ralador no INCA; doutores Claudio e Maria Marta Tortori, pediatras e ex-professores; e por último eu, que não sou nada. Faltou a dra. Yasmine, a.k.a. Djésmine, residente de Neurocirurgia e rainha dos bombeiros, mas vai ser difícil de achar assim na China, hein?

. Andar pela feira Hippie e achar tudo incrivelmente horroroso e absolutamente mal-acabado.

sorry, it’s all that I can say

Pois então. Tenho zilhões de desculpas a pedir, zilhões de pessoas que eu gostaria MUITO de ter encontrado/conhecido, mas que pelos mais variados motivos acabou não rolando. Tento me explicar: fiquei tanto tempo sem voltar ao Brasil que minha agenda ficou apertada, e as três semanas não foram suficientes pra descascar todos os pepinos e abacaxis pendentes, muito menos pra ver todo mundo que eu queria ver. Fora que nos primeiros dias tive aquela enxaqueca bizarra e inédita, e nos dias seguintes peguei um resfriado chatíssimo. Mas acho que posso citar como causa principal da negligência a minha famigerada preguiça social. Eu detesto falar ao telefone e morro de preguiça de entrar em contato com pessoas. Mesmo pessoas queridas. Sim, minha preguiça chega a esse ponto. Mais do que isso, porém, essa viagem ao Rio foi tão, tão estranha, foi tão realidade paralela, tão portal para outra dimensão espaço/tempo, que não deu tempo nem pra me reorientar, reposicionar meus pensamentos, ajustar as idéias. Foram três semanas desorientada, deslocada, perdidona mesmo. Perdida no limbo. Prometo que não vou mais deixar passar tanto tempo sem voltar, se for possivel. Pra dar tempo pelo menos de organizar as idéias na cachola e não olhar pro William Bonner falando na TV como se ele fosse um marciano, nem esquecer a ordem das ruas transversais de Ipanema.

Minhas desculpas oficiais vão, totalmente fora de qualquer ordem, cronológica, sentimental ou alfabética:

. À Marcinha Aguiar. Shame on me.
. À Cora, que mora do lado da casa da minha mãe. No comments.
. À Carol, que hospedou meu cachorro até minha mãe trazê-lo pra cá. Não tenho palavras.
. À Aninha, pra quem eu mandei e-mail antes de viajar, como pra todo mundo, mas o e-mail voltou e eu só fui ver quando voltei à Itália. Nesse caso tenho como comprovar minha inocência ;)
. À Bia Badaud, com quem excrusive eu queria tirar umas clássicas dúvidas lipoaspiratídicas.
. À minha tia Lourdinha, que eu adoro e não tenho absolutamente nenhuma desculpa pra não ter ligado.
. Ao Telmo, professor de Ortopedia e amigo, que tem uns horários de trabalho bizarros na clínica perto de casa (Ortopedistas Associados, na Miguel Lemos) e eu fui lá procurar várias vezes mas nunca dei a sorte de encontrar.

Provavelmente tem mais gente, mas agora não estou lembrando. De qualquer maneira, quem se sentiu ignorado/abandonado tem toda a razão. Podem me bater. Na próxima vez vou tentar me comportar melhor.

domesticidades

. Eu adoro salmão. Acho uma delícia, lindo, maravilhoso. MAS Ô PEIXE PRA DEIXAR VOCÊ E A SUA COZINHA FEDENDO DIAS A FIO, PUTZ GRILA!!!

. Se eu não tinha nenhuma opinião formada sobre organismos geneticamente modificados, nossas últimas incursões ao cinema me fizeram pensar melhor sobre o assunto. O primeiro a desenvolver um milho de pipoca geneticamente modificado de modo a não ter mais aquelas malditas casquinhas que vão parar direto entre o dente e a gengiva vai ter meu voto pro Nobel.

. A melhor escovinha de rímel que eu já tive na minha vida é uma do Boticário. É uma verdadeira maravilha: não precisa dar aquela limpadinha básica dos excessos na borda do frasco, não forma gruminhos, separa os cílios que é uma beleza. Só tem um pequeno problema: basta uma gota de chuva ou de lágrima pra borrar tudo, mas estranhamente, na hora de remover, à noite, antes de dormir, não há santo que consiga tirar tudo. Eu lavo o rosto com sabonete Basis, uso demaquilante pros olhos, e mesmo assim acordo com cara de drogada em heroína que passou a noite se picando na estação de metrô abandonada, com olheiras de dois metros causadas pelo rímel borrado. Assim não dá.

. Eu AMO escova progressiva.

. Amanhã faço a prova teórica pra carteira de motorista. Algo me diz que não vai dar certo.

. A gatinha do Ettore roubou o lugar do friorento do Leo no cesto de trapos onde ele sempre dorme sozinho, como um paxá. Bem feito. Ele é o maior ladrão de lugar quentinho, mas anteontem o pegamos dormindo todo torto numa cadeira num canto da garagem, enquanto a gatinha dormia em meio aos trapos no cesto quentinho, como o diabo gosta…

coisitchas

Vou custar a escrever sobre a viagem. Preciso de tempo pra editar e uploadear fotos e pra lembrar de um monte de coisas. Enquanto isso vamos às frugalidades, que eu adoro:

O tempo aqui está uma merda, como era de se esperar. Chove o tempo todo, minhas plantas sobreviveram bravamente ao excesso de água e continuam lindas, tenho pilhas quilométricas de roupas pra lavar (e depois passar), mas com esse tempo nada seca, tudo fica com cheiro de cachorro molhado. Já fiz o maldito cambio stagione, ou seja, já levei as roupas de verão, devidamente guardadinhas em malas, acompanhadas de sabonetes da Natura, lá pra garagem. Já subi as roupas de inverno, as botas, os casacos. Hoje já fui ao banco, aos correios, ao banco de novo, ao fruttivendolo comprar verduras e legumes e frutas, à peixaria comprar peixe pro almoço de amanhã. Já limpei a sala, que ontem não consegui terminar. Já estendi roupa, na esperança que seque. Já carreguei a máquina de lavar roupa outra vez, a milésima vez. Já troquei os lençóis. Já lavei os cabelos. Já organizei documentos e faturas. Já dormi uma horinha de nada no final da tarde. Já terminei Dois Irmãos, de Milton Haum (adorei), e já vou começar O Vendedor de Passados. Já descongelei e limpei o congelador e a geladeira, finalmente! Agora estamos indo ao Ipercoop fazer compras e repôr os estoques. Amanhã vou trabalhar na oficina, porque a Elisabetta ainda não voltou da licença pra tirar um nódulo sinistro da garganta, causado por uma pronúncia errada da vogal e.

A praga do momento são os percevejos. Aqueles mesmos, famosos pelo fedor vingativo após um cruel esmagamento. A diferença é que os daqui quase não fedem, ou não fedem at all. Mas são UM PORRE. Bichinhos burrésimos, que entram em casa não se sabe por qual motivo, voam que nem a cara deles e, uma vez caídos de barriga pra cima, são incapazes de se levantar outra vez. Morrem todos assim, pateticamente, esperneando. Minha varanda está coberta de pequenos cadáveres verde-radioativo, que depois a chuva se encarrega de levar embora. Vários deles já foram parar no saco do meu aspirador de pó, porque alguns infelizes morrem dentro de casa e, quando não são esmagados por um pé desatento, eu termino por aspirar mesmo.

Legolas ganhou biscoitinhos de couro pra cachorro e uma roupa que ficou meio justa, mas, sendo de lã, vai acabar cedendo. Tava meio sonolento quando chegamos pra visitá-lo, mas abanou a bunda como sempre, antes de pegar o biscoito da minha mão e ir se aboletar na sua caminha outra vez.

Cheguei, ta’? So’ que tenho ZILHOES de coisas pra resolver e nao tenho a menor idéia de quando vou poder escrever/botar fotos. O tempo horrivel aqui na Italia central também nao esta ajudando (leia-se péssimo humor rondando o meu céLebro). Leguinho esta’ lindo, obrigada.

p.s.: O computador foi todo reinstalado e ainda nao ajeitei meu programa de e-mail (Duduzao, esqueci como usar o crack!), por isso sejam pacientes. Com certeza vou atrasar as respostas.

Cheguei, ta’? So’ que tenho ZILHOES de coisas pra resolver e nao tenho a menor idéia de quando vou poder escrever/botar fotos. O tempo horrivel aqui na Italia central também nao esta ajudando (leia-se péssimo humor rondando o meu céLebro). Leguinho esta’ lindo, obrigada.

p.s.: O computador foi todo reinstalado e ainda nao ajeitei meu programa de e-mail (Duduzao, esqueci como usar o crack!), por isso sejam pacientes. Com certeza vou atrasar as respostas.

no rio

Oi! Estou aqui no trabalho da minha mãe, aproveitando a internet. Eu deveria estar no centro resolvendo umas coisinhas básicas, mas desde ontem estou com uma enxaqueca, coisa que eu nunca tive na vida, que está me dando vontade de chorar.

[Detalhe: tem microondas aqui no escritório e acabaram de fazer pipoca. Surreal.]

Mas comecemos do começo.

A viagem foi OK. Sexta almoçamos pesce na Arianna e dali fomos correndo pra estação, que fica pertinho. Meu trem pra Roma Termini saiu às 14:07, não sem os habituais 5 minutos de atraso, claro. Não sei por qual motivo o trem não era aquele compriiiiido que normalmente é usado pra ir a Roma ou Firenze, porque o movimento de passageiros é grande. Era um trem de só três vagões, um bem velhão mesmo, igual ao que eu pegava quando malhava em Perugia e voltava pra Assis com o trem das nove da noite, cheio dos senegaleses que moram em Perugia e trabalham na fundição em S. Maria. Mas esse pra Roma estava entupido era de chineses. A cada dois minutos um chinês levantava e ia ao banheiro, pra voltar logo depois. Fiquei intrigada, mas não tive coragem de perguntar. Depois pensei no que a Cora relatou depois da sua viagem por aquelas bandas, que os chineses não acham muito legal reter fluidos no organismo, e por isso quando vem a vontade de escarrar, escarram, onde quer que estejam. Não tem outra explicação. TODA HORA um chinês levantava pra ir ao banheiro; a única outra explicação possível seria uma incontinência urinária coletiva que obriga suas vítimas a mijar em dois segundos e voltar correndo pro seu assento no trem. Não, não, eles iam era escarrar mesmo, coisa de segundos, não precisa nem de concentração nem de inspiração literária, ao contrário da necessidade fisiológica número dois.

Chegamos em Roma atrasados e lá fui eu atravessar a estação inteeeeira empurrando o carrinho com as malas, porque os trens que vêm da Umbria descem na plataforma 1 e a navetta pro aeroporto sai da plataforma 26 – diametralmente oposta, claro. Cheguei no último minuto, esbaforida como sempre, e felizmente consegui lugar pra sentar, mas minhas malas ficaram no meio do corredor mesmo, atrapalhando, porque realmente não tinha outro lugar pra botá-las. E chegando no aeroporto foi tudo muito light.

De Roma a Madrid voei de AirEuropa, uma companhia… espanhola. Ai meus sais, a viagem inteira ouvindo aquela gente falando aquela língua medonha… Desço no aeroporto de Madrid, que é imenso e muito bonito (pelo menos a parte que parece ser ou mais nova ou reformada há pouco tempo), e tenho que dar a volta toda outra vez, porque novamente eu desci no terminal, sei lá, F, e meu vôo saía do terminal B. Fiz um check-in tabajara num balcão no meio de um corredor, notei que é permitido fumar em certas zonas do aeroporto, que obviamente ninguém respeita, e continuei até o portão B8, onde fui chamada pelo microfone pra fazer um novo cartão de embarque, não-tabajara. O vôo saiu no horário, mas era um vôo da Varig… Operado pela Pluna. Companhia uruguaia. O que significa DEZ HORAS CERCADA DE GENTE FALANDO ESPANHOL. Juro, achei que fosse morrer. Ao meu lado, no corredor, uma senhora simpática de 76 anos que nasceu na Itália mas morou 55 anos na Argentina e agora mora na Espanha, onde vivem seus dois filhos, há 14 anos. A velhinha era um amor, mas eu não consigo ouvir espanhol por mais de 10 segundos sem me irritar seriamente, e ela obviamente praticamente não falava mais nada de italiano. Pior: eu com fone no ouvido, vendo Shrek 2, e ela querendo conversar! Pelo menos consegui dormir depois do filme, embora tenha acordado várias vezes, até porque rolou um pouco de turbulência.

Os uruguaios são bonitos! As comissárias altas, elegantes, de traços finos e andar elegante. Uma era linda estilo Miss, de verdade. Pena que fala aquela língua hedionda. Quando abre a boca pra perguntar se você quer pollo, com aquele som do LL que não é nem L nem J, mas algo inbetween, imagino que broxante não deve ser pra um homem de bom senso, que, como eu, acha até swahili mais bonito que espanhol. E tinha um comissário que era UM-PI-TÉU, uma coisa de louco! Alto, aloirado, um nariz ma-ga-vi-lho-so. Só precisava lavar os cabelos, mas enfim, vai ver que não deu tempo de tomar banho antes de viajar, né…

A comida: até notei uma certa boa vontade, pois o frango era ao curry com arroz branco, e havia também a opção por massa, que eu escolhi sem pestanejar. Eram cappelletti com recheio de ricota e espinafre, até gostosinhos (eu ADORO comida de avião), mas com molho de… PIMENTÃO. O arroz do frango também tinha pimentão, a minha vizinha comeu e eu vi. Eu tenho verdadeiro horror a pimentão. E honestamente nunca ouvi falar de pimentão combinando bem com massa de recheio leve como ricota e espinafre. Mas enfim, a gente encara de tudo nessa vida quando a fome bate, e comi numa boa – ou quase. Tinha até pãozinho quentinho com Polenghinho, diliça.

Cheguei ao Rio às cinco e meia da manhã e foi só botar o pé no aeroporto e ver a cara das caça-gringos que tinham descido do vôo de Frankfurt pra querer me esconder no trem de pouso do avião da Pluna e voltar correndo pro interior do Haiti. Socorro! A próxima vez que alguém vier dizer que acha brasileiro bonito eu vou mandar dar um pulo no Galeão. Ou então ver o DVD do casamento da FeRnanda, que também foi assustador em alguns momentos.

Como madrugada não é o melhor momento do dia pra passear na Linha Vermelha, minha mãe chegou com minha avó lá pras seis e meia. Cheguei em casa, tirei toda aquela comida das malas, tricotamos um pouco, tomamos café da manhã (pão francês com requeijão e peito de peru defumado, leite com Toddy e duas bananas pratas deliciosas), tomei banho e capotei na cama. Acordei pra almoçar (filé mignon assado no forno com bacon, salada de legumes, arroz e feijão manteiga) e fiquei alternando sono e Sony até umas cinco da tarde, quando fomos ao cabeleireiro em Copacabana alisar a juba e fazer as patas.

Às sete rolou o casamento da Dani, irmã da minha amigona Mari, que estudou comigo desde o Jardim 11, no Andrews. Foi na capela da UFRJ da Praia Vermelha e estava tudo lindo. Eu tava com um tailleur da minha mãe que cheirava a naftalina, porque a viagem foi tão corrida que não deu tempo de arrumar coisa melhor. Vi muitas caras conhecidas do Andrews e encontrei Briza e Patricia; a Briza estudava em outra turma mas a gente tinha amigas em comum, mas mesmo assim me surpreendi dela ter me reconhecido imediatamente, e a Patricia também estudou comigo a vida inteira e é uma figura. Fui com ela e o namorado pra festa, no Rio Vista, lá no alto da torre do Rio Sul (onde um dia foi o Maxim’s). Eu nem lembrava que existia aquilo lá, nem lembrava mais da vista deslumbrante. Me diverti horrores. A festa foi divina, dancei a noite inteira com gente que eu não via há anos, bebi caipirinha e prosecco, dancei forró com o tio Morris, pai da noiva, tirei foto com Mari e o namorado Habib, mas em um certo ponto não agüentei mais e fui, de scarpins na mão e meia-calça rasgada nos pés, pegar o taxi pra voltar pra casa. Lembro de bater altos papos com o motorista do taxi, mas não lembro sobre o quê e também não lembro a que horas cheguei em casa. Dormi feito uma pedra mas acordei ontem às oito da manhã.

Tomei meu café, li jornal, encarei uma verdadeira maratona Sony, almocei, dormimos até umas quatro da tarde, e foi nessa hora que a dor de cabeça atacou. Não venham me dizer que é ressaca porque se fosse o caso eu já teria acordado de manhã me sentindo a última das criaturas, e não foi nada disso. Sei que mesmo com a cabeça explodindo pentelhei minha mãe e fomos à Primavera dos Livros, no Jóquei. Conseguimos encontrar a Newlands, batemos um papo, comprei mil livros (nenhum da minha lista, hohoho) mas não dava mais pra mim. Voltamos pra casa, jantamos um risotto ai funghi porcini da Coop que eu trouxe, fiz um bolo de chocolate de caixinha pros amigos do meu irmão, que tavam lá em casa jogando RPG, batemos papo com eles, e antes das dez e meia eu já tava roncando outra vez.

Hoje ainda tive forças pra descer ao play e fazer meia hora de esteira e meia de ergométrica na sala de ginástica. Depois saímos pro Itaú do Rio Sul pra resolver o lance do meu cartão, que bloqueou-se todo depois que eu errei a senha da internet três vezes, e viemos pra cá. Não pretendo fazer mais nada hoje além de dormir e ver TV. Estou péssima.

***

Tudo é muito estranho ainda. As placas dos carros parecem minúsculas perto das italianas, bem maiores. As ruas fedem e são imundas. Eu tinha esquecido da feiúra das pessoas, da miséria constante, do trânsito enlouquecedor, a ponto de botar o de Napoli no chinelo, do carro velho da minha mãe, do gosto da água do filtro de barro, do toque do telefone da cozinha. Esqueci onde ficam os talheres, os lençóis, as calcinhas, embora nada disso tenha sido mudado de lugar desde que fui embora. A chave roda fácil na fechadura da porta da cozinha, ao contrário da nossa em Bastia, que é dura feito pedra. A geladeira está recheada de coisas que eu não via há dois anos e meio. As gavetas têm dimensões diferentes, as camas são mais estreitas, a paisagem deixou de ser familiar, o quadro com o poster do TinTin que o japa me deu eu nem lembrava mais que tinha, meus livros estão espalhadas pela casa porque minha mãe está reorganizando a estante, há prédios novos na rua e mais um subindo na rua sem saída atrás de casa, o computador do meu irmão tem a tela tãaaaao pequena, há cadeiras novas na sala, a revista de domingo do Globo eu não sabia que existia, o feijão com arroz não são tão gostosos quanto eu lembrava, ainda não me reacostumei ao carioquês falado ao meu redor, me faltam palavras pra descrever tanta coisa. Estou numa realidade paralela. O que não é necessariamente bom.

ciao, carissimi!

Bom, a manhã vai ser agitada porque tenho ainda últimas coisitchas pra resolver em casa e ainda vou a Perugia pegar as cópias das radiografias do Ettore. Vamos almoçar na Arianna e depois vou de trem até Roma e de lá pego o shuttle (navetta) até o aeroporto. Meu vôo sai às oito da noite.

Como o computador do meu irmão subiu no telhado, aliás, foi subido, porque foi meu próprio irmão que involuntariamente o matou, provavelmente vou dar uma sumida boa daqui. Podem continuar escrevendo, mas saibam que só vou responder quando voltar, dia 13 de outubro. Se for alguma coisa urgente, escrevam pro endereço velho, aquele superleticia arroba libero ponto it. Só peço a cortesia de mandar uma cópia pro pacamanca ponto com, porque senão eu me perco depois e não sei o que já li, o que já respondi, etc. Sim, eu sou chata com essas coisas.

Me ne vado. Arrivederci!

da série a escalafobética TV italiana

Existe coisa mais engraçada do que concurso de Miss? Eu me divirto horrores. Essa semana começou o Miss Italia e tenho que admitir que dei muita, mas muita risada. Ontem FeRnanda e Fabião vieram jantar strogonoff de despedida aqui e rimos muito vendo o programa.

Pra começar que quem apresenta é um chato de galocha, capa e guarda-chuva que se acha engraçadíssimo e está sempre bronzeado, 365 dias por ano. O júri é composto de VIPs ridículos, modelos, gente que é famosa só porque é famosa mesmo (aqui tem muito disso) e figurões do alto escalão da RAI – ontem tinha o del Noce, o diretorzão, uma bicha louca antipática e nojenta que deu uma microfonada no repórter do Striscia la Notizia ano passado, quebrando-lhe o nariz. Águas passadas, águas passadas.

As candidatas a miss são 100, todas devidamente numeradas. A primeira puntata (o primeiro programa) selecionou 40 das 50 misses com número ímpar. Ontem foi a puntata das meninas de número par. Tem de tudo: miss com ombros estreeeeeeeeitos, os narizes de batata abundam, as franjas absurdas idem, muitos cabelos estilo As Panteras, sobrancelhas artificialíssimas, sorrisos acéfalos, ritmo zero nas coreografias, vozes de taquara rachada. Não me levem a mal, algumas são realmente lindas de chorar, mas pelo menos a metade é FEIA. Feia de verdade. Imaginem a combinação cara de bolacha + pescoço de Mike Tyson + narinas de dimensões claramente diferentes. Tem. Imaginem franja surreal + nariz de ponta caída + beiços estilo salsichão. Tem. E a imensa maioria, A IMENSA MAIORIA, tem dentes feios. Impressionante como a gente no Brasil cuida bem do sorriso. No resto do mundo parece que isso não tem importância nenhuma. E não tô falando de dentes meio tortinhos estilo Laetitia Casta não. Tô falando de dentes claramente acavalados, de gengivas gigantes e minidentes, de dentes quebrados, de dentes MARRONS.

E os nomes? Nunzia (que seria o equivalente a Anunciada). Clinzia. Jennifer. Ora, por favor, miss italiana chamada Jennifer é um pouco demás para mim.

Mas o melhor de tudo é que, fervidos todos os cérebros delas juntos, não daria pra fazer nem uma bala Soft de Q.I. Raros são os olhares inteligentes, as respostas rápidas às perguntas simples, os comentários irônicos, a firmeza na voz, a postura de quem sabe o que está fazendo ali. A maioria tem Q.I. de uva sem caroço mesmo. Olhem os diálogos nível ameba constipada de ontem:

– Essa é a senhorita Fulana de Tal, Miss Bio-Etyc (whatever) de [inserir o nome de uma região italiana qualquer]. Ficamos sabendo que a senhorita gosta muito de Marylin Monroe. Por quê?
– Ah, porque eu gosto de tudo dela.

– Que apelido carinhoso você usa pra chamar seu namorado?
Cucciolo (muito comum aqui esse apelido idiota, significa “filhote”. Pronuncia-se “cútcholo”).
– Ah… E o que você dá pra ele comer? (rindo maliciosamente)
– (pensa um pouco) Ração…

Uma pesquisa mostrou que o personagem histórico mais amado e admirado pelas misses desse ano é Garibaldi. A mala do apresentador perguntou a cinco delas coisas simples sobre a vida de Garibaldi, tipo, o nome da esposa, onde nasceu, pelo que ele lutou (o apresentador ainda dava a primeira sílaba: Garibaldi ha lottato per l’Uni… l’Uni…? Nada. A resposta: l’Unità d’Italia.). NENHUMA soube responder. Ele mesmo fez o comentário inevitável: imagina se elas não gostassem nem admirassem o coitado!

Esse fim de semana tem a repescagem, que eu infelizmente vou perder. Mas já sei que vai ganhar uma feia qualquer. Ontem todas as que nós achávamos bonitas foram eliminadas. Ficamos todos indignados, os quatro. É marmelada, é marmelada!

***
Programaço-aço-aço que eu infelizmente vou perder, em Roma, que é tudo na vida. Quem estiver de bobeira aqui, ! E depois em conte.