arre!

Ando meio com a síndrome da Flabb. Primeiro que não tenho tempo mesmo de ficar sentada ao computador, nem pra escrever, que dirá pra ler. Ganhei uma outra turma, a tal de Petrignano que tinha incompatibilidades de horário que acabaram sendo resolvidas; aulas às terças e quintas, das seis e meia às oito da noite, num agriturismo. É legal porque o livro que eles usam (a professora que dava aula pra eles arrumou outro emprego e saiu da escola, por isso herdei a turma) é específico pra quem trabalha com hotelaria e turismo, superinteressante. Talvez eu herde mais uma turma, em Santa Maria, porque a professora que dava aula por lá, uma americana gordinha e simpática, foi mordida pelo basset da empresa e teve que ir ao hospital, e os médicos são legalmente obrigados a fazer a denúncia contra o proprietário do cão. A gordinha acha que o clima não vai ficar legal entre ela e a empresa e já deu umas indiretas de que não quer mais trabalhar lá. Eu já morei em Santa Maria e toda hora tenho que ir ao banco lá, ou entregar faturas, ou medir a pressão da avó do Mirco, por isso não seria um problema dar aulas lá.. A tal da americana vem de Castiglione del Lago, coitada, longe pra caramba, pra ser mordida pelo basset em Santa Maria degli Angeli. Tá fula da vida. Além disso a Bicha Pedagógica também renunciou, porque está ocupadíssimo com outras coisas business-related (ele é formado em Economia) e não dá mais conta da coordenação pedagógica. A maioria dos cursos dele termina em fevereiro ou março, e ele não sabe se vai continuar na escola e pegar novas classes. Melhor pra mim.

Com isso tudo, o cansaço vai acumulando, e não tenho forças pra fazer nada quando chego em casa além de comer um negocinho qualquer, tomar banho e chapar. Durmo mal, por n motivos, e acabo não descansando nunca. Vamos até cancelar a ADSL ilimitada, porque com todos os impostos e todas as roubadas que a Telecom te impõe, acaba saindo uma fortuna, e se ninguém em casa tem tempo de usufruir, não tem sentido. Como não temos tempo pra fazer todas essas contas, essa decisão também acaba se arrastando. A casa anda imunda, porque dou semi-limpadas nos micro-espaços de tempo que acho. Hoje passo o aspirador de pó voando, amanhã tiro o pó a jato, depois limpo o banheiro meteoricamente. Conseqüentemente, a casa nunca fica toda limpa ao mesmo tempo, porque quando chego no banheiro já tá na hora de limpar os vidros outra vez. Porre.

No meio dessa confusão toda, o único que tem tempo e pique pra organizar a viagem à Argentina é o Gianni, que trabalha longe mas praticamente não faz hora extra no início do ano, período de calmaria no mundo do cashmere. Eu, com a minha animação total e absoluta por essa viagem a esse país dos pampas cuja língua me enche os ouvidos de mel e cujos habitantes considero tão simpáticos, educados e humildes, fico mais que feliz em deixar tudo nas mãos dele. Vai na fé, Gianni. E arranje uns vôos internos bem baratinhos, porque senão com meu salário não consigo pagar tudo, e eu de orgulho ferido fico insuportável.

fds tsé-tsé

O fim de semana foi praticamente uma clausura. Na sexta Gianni, Chiara e Moreno vieram comer pizza aqui em casa. O assunto foi, claro, Argentina – meu preferido. Not.

Sábado fui pra oficina cedo com o Mirco, e antes do meio-dia saí pra levar uns documentos pro contador. Voltei pra casa, deixei o almoço engatilhado, dei uma mini-geral na casa, Mirco chegou, almoçamos, eu fui lavar na mão uns suéteres de lã enquanto o Mirco capotava, e lá pras quatro eu também acabei dormindo no sofá. Acordamos às sete da noite, Mirco com o nariz entupido e sinusite e dor no corpo, jantamos, vimos um pouco de TV e fomos dormir de novo.

Domingo acordamos às nove e meia da manhã, coisa rara, especialmente pra mim, totalmente early bird. Como todo mundo na casa dos pais do Mirco tá doente, resolvemos dar um pulo lá mais cedo pra dar uma mão com as galinhas, os cachorros, a casa, o almoço. Acabou que a Arianna já tava melhor e quando chegamos tava se preparando pra servir o café da manhã pros cachorros e pras gatas (no início ela comprava ração pras gatas, mas os cachorros comiam tudo. Como as gatas adoram a ração dos cachorros, agora todo mundo, inclusive elas, come comida de cachorro e pronto. Comem todos juntos, os seis, trocando toda hora de tigela, uma suruba só.). Mirco foi dar uma volta de ônibus com o Moreno, que tava no volante desde as cinco e meia da manhã. Eu fiquei lá curtindo o galinheiro e o Leguinho, enchendo o “bondinho” de lenha. O bondinho é uma caixa com rodinhas que é enganchada num cabo de aço e levantada até a varanda da cozinha através de um motorzinho instalado ali mesmo na varanda; o depósito de lenha fica lá embaixo, antes do galinheiro, então quando a caixa esvazia é só descê-la com o motorzinho até o quintal, descer as escadas, desenganchar a caixa, levá-la até o depósito de lenha, enchê-la de lenha, voltar pro quintal, enganchá-la no cabo de aço, subir as escadas, ligar o motorzinho, aterrissar cuidadosamente a caixa na varanda, e transferir a lenha do bondinho pra caixa de lenha da varanda. Depois de colhermos uns ovos frescos no galinheiro, subimos pra fazer a massa pro almoço. O molho já tava pronto, simples, de tomate e manjericão. A carne já tava pronta pra cozinhar, foi só descongelar e botar na brasa com azeite e sementes de funcho – carneiro, que eu não gosto muito porque é gordurosa demais, e com sementes de funcho não há santo que me faça comer. O contorno também já tava engatilhado – corações de alcachofra com azeite, salsinha e o maldito limão. O almoço foi tranqüilo, mas enquanto fazia a massa comecei a sentir a danada da enxaqueca e assim que acabamos de comer voltamos pra casa. Dormimos até as cinco da tarde, e como eu estava um pouco melhor resolvemos ir ao cinema. Vimos Neverland, uma delícia de filme! Voltamos, vimos um pouco de TV e dormimos de novo, eu já devidamente enxaquecada outra vez. Emocionante, né.

uff!

O dia foi corrido ontem, como tem sido sempre nos últimos meses. Manhã na oficina corrigindo as faturas, aula com o Aluno Endocrinologista em Perugia e um giro rápido no centro pra comprar feijão preto e procurar farinha de mandioca (que não tinha mais na única loja que vende), almoço voado, oficina, mais faturas corrigidas, tentativa de enviar as Ri.Ba. pro banco, irritação, tempo que voava, o feijão que me esperava, compras a fazer, Ipercoop lotado, compras feitas em DEZ MINUTOS, casa, feijão no fogo, faxina meteórica feita igual à minha cara, banho, Moreno chegando e eu em casa sozinha fazendo cuca de banana, papos sobre a Argentina, eu fingindo muito interesse, a irmã do Gianni chegando com o namorado que se chama Marco mas nós chamamos de Bruno, depois Gianni e Chiara chegando com o Mauro e o Mauro não-Mauro (ele se chama Pietro mas todo mundo o chama de Mauro), o último a chegar foi o Mirco, as cadeiras não bastam, tem que pegar as extras da IKEA na garagem, acabou a água mineral, tem que pegar mais na garagem, não deu tempo nem de trocar os lençóis da cama, nem de pendurar a roupa na corda, usei a couve italiana e ficou bem razoável, o feijão ficou qualquer coisa, a farofa não deu nem pro buraco do dente, sobrou só uma colherada de arroz pro meu almoço de hoje, a cuca de banana sumiu todinha, a caipirinha ninguém quis, a louça tá toda lavada e a casa tá toda arrumada, fomos dormir às três da manhã, ainda não consegui terminar Great Expectations, a turma nova que iam me dar não era compatível com meus horários e fiquei na beiça, que merda, ainda não fiz as contas das horas de aula de janeiro por falta de tempo, hoje tem oficina de manhã + aulas non-stop até as sete e meia da noite, não tenho tempo de tocar no meu livro de Francês, que passeia comigo de carro todo dia, na esperança de conseguir uma meia horinha básica que nunca vem. Meu cabelo tá horrível. Estou cansada.

Semana passada fomos televisionalmente massacrados com assuntos Holocáusticos. Eu DETESTO esse assunto. Primeiro porque sempre fui fã de história antiga, medieval, renascimental, e sempre detestei história moderna e contemporânea. Segundo porque a hipocrisia, a visao monoteísta e parcial e a mentirada da mídia sobre esse assunto, com conseqüente ignorância da galera, me dão uma irritação sem fim. Então quando eu leio uma coisa assim (leiam também o outro post do Rafael, “Ainda Israel”) é mais que justo que eu bote pilha pra todo mundo ler. Porque nunca é tarde demais pra rever seus conceitos.

dusseldorf streisend

Nosso vôo saía de Eindhoven às duas e pouco da tarde, então tínhamos que sair cedo de Düsseldorf pra pegar a estrada com calma, reabastecer e devolver o carro, e fazer o check-in com tranqüilidade. Até que nem nos perdemos muito e caímos na estrada sem problemas. Chegamos em Eindhoven com muita calma, e aproveitamos a meia hora de tempo a mais pra dar uma olhada a jato na cidade. Estacionamos o carro na estação de trem e demos uma volta rápida por ali mesmo. Como não tinha nada pra ver, porque, honestamente, não tem nada pra ver ali mesmo além do estádio Philips, fomos fazer compras num supermercado onde já tínhamos ido em Rotterdam, ano passado. Eles têm umas sopinhas enlatadas ótimas, e fizemos um estoque, até porque com a falta de tempo e o horário em que chegamos em casa ultimamente essas coisas quebram o maior galhão: gorgonzola, lagosta, aspargos, salmão, frango, e só não compramos mais coisas porque não entendíamos o que estava escrito no rótulo e os desenhos não eram exatamente elucidativos. Também compramos couve-de-Bruxelas que tava em oferta e nós adoramos, dois tipos de pão de forma com grãos estranhos, e os xaropes de laranja e frutti di bosco que o Mirco adora, pra fazer refresco. Pegamos o carro e fomos direto pro aeroporto, não sem antes dar uma volta danada e inevitável, seguindo as instruções de uns holandeses simpáticos que passeavam por ali, naquele frio. Carro devolvido, check-in feito, sentamos pra comer uns sanduíches que tínhamos trazido do hotel em Düsseldorf, porque a única cafeteria do aeroporto não tinha nada a oferecer além de caríssimos sanduíches de pão de forma que não davam nem pro buraco do dente da galera esfomeada. O vôo foi light como sempre, dormimos todos como pedras, e depois foi só encarar a estrada de Ciampino até em casa.

Tio Ryan, eu te amo. Mas se não fosse o Euro, hein, Tio, cê não tava com essa bola toda não, podes crer. Trocar dinheiro é uma encheção de saco cara demais pra um mero fim de semana. Os preços aumentaram, principalmente aqui e na Grécia, mas pelo menos tornou tudo mais fácil.

A brincadeira toda saiu meio cara porque 1) alugamos carro e 2) dormimos em hotel e não em albergue. O carro, incluindo gasolina e pedágios e estacionamento, saiu por € 44 por cabeça. Uma noite no hotel saiu € 66 por casal. A passagem, a € 0,42/pessoa em cada trecho, acabou ficando uns € 40, por pessoa, ida e volta, depois das taxas. Não achamos a comida tão cara. Pena que não deu pra entrar em supermercado nenhum na Alemanha, porque tava tudo fechado no domingo.

Agora da Alemanha a única coisa que ainda tenho vontade de ver é a Bavaria. Da Holanda quero ver Utrecht, Delft e Maastricht. E aceito sugestões, obviamente. Até porque eu gostaria de curtir mais um fim de semana europeu, cortesia Tio Ryan, antes de partir pra Argentina.

DusseldorfstrEss

Quando acordamos, às sete e meia, a vista da nossa janela era essa, não muito convidativa:

Descemos pra tomar café e os Mauros já estavam na mini-restaurantezinho do hotel. Eu AMO café da manhã de hotel. Como muito, me farto, e não preciso nem almoçar. E se tem uma coisa que a Alemanha tem de bom é o pão. Mil tipos diferentes, com grãos malucos, cereais estranhos, texturas diferentes, cores apetitosas. ADORO! Comi vários tipos diferentes de pãezinhos com gergelim, com semente de abóbora, com semente de girassol, com semente de papoula, com queijo na massa, com queijo por cima. Recheei com queijo, com presunto, com peito de peru defumado. Comi maçã, uva e pera. Comi cereal com leite. Comi mini-Brie e mini-queijinho-redondinho. Comi torrada integral com Philadelphia. Tomei iogurte de frutas e iogurte branco com mel. Tomei suco de laranja e leite achocolatado. Aaaaaah, que maravilha!

Fomos direto pra parte da cidade que hospeda esses grandes show-rooms permanentes de moda. Visitamos a sala da malharia do Gianni, cumprimentamos o pessoal, vimos como funciona a coisa. Vocês sabem que eu sou curiosa, e como nunca conheci ninguém que trabalhasse com moda, tudo isso é um mundo estranho pra mim. A sala deles, que é como se fosse uma loja meio intimista, é assim: em um canto há umas poltronas de couro branco muito estilosas. Ao lado, uma mesa onde as meninas selecionavam combinações de roupas pras modelos vestirem. Bem no meio, uma ilha com máquina de fazer café, uma bandeja de Baci Perugina, bloquinhos timbrados, essas coisas. Num lado, o banheiro e o trocador; no outro, os armários pros casacos dos hóspedes. Na outra parte da loja, outras duas mesas. Em torno à loja inteira, araras com as roupas, da coleção que sai em outubro nas lojas. Então o negócio funciona assim: o cliente (dono de loja) chega, dá uma olhada, hm, gostei desse casaquinho aqui; uma das meninas diz assim como quem não quer nada que o casaquinho fica muito bem com uma calça assim ou assada; o cliente faz hmmmmm pode ser, a tal das meninas chama a modelo, que pega as peças de roupa, vai pro trocador e veste o casaquinho e a tal calça e uns acessórios pra dar um tchan. O cliente olha, vê que a roupa fica legal no corpo, pergunta que outras combinações de cores são possíveis (porque o casaquinho tem, digamos, a borda interna das mangas de uma cor diferente da cor da malha), a menina da equipe pega uma pastinha de papel reciclado onde estão colados pedacinhos de tecidos coloridos e mostra as combinações possíveis. O cliente acha legal, pega um anel de madeira colorida de um negócio comprido porta-anéis em cima de uma das mesas, enfia o anel no gancho do cabide e recoloca a peça na arara. E assim vai. No final, anotam-se as peças que o cliente escolheu, marcadas com o anel da sua cor, o cliente escolhe as quantidades, e pronto, foi feito o negócio. Não é legal? Achei um sistema interessantíssimo. O que não é interessantíssimo é que eu adorei várias peças, mas não dá pra comprar agora, porque, como eu disse, só vão aparecer nas lojas em outubro. Bosta!

Dali fomos dar uma volta pelas ruas desse mesmo bairro. Eu gosto da arquitetura germânica, precisa e lógica; adoro as janelas quadradas e os telhadinhos que parecem de brinquedo. O Mirco já odeia tudo, acha os tijolinhos escuros deprimentes e as janelas quadradas com jeito de hospital psiquiátrico. Claro que o clima não ajudava em nada: neblina, frio, chuvinha chata às vezes. Claro que os bêbados nas ruas às nove da manhã também não ajudavam. Apesar do frio desgraçado, nos distraímos batendo papo e dando risada, e nem percebemos que nossos pés estavam morrendo lentamente, e prestes a cair.

Ao lado dessa casa bonitinha havia um show-room multi-marcas e, pro meu espanto, vi Havaianas no letreiro também! Pena que não tinham vitrine.

Depois de umas voltas nos mandamos pra cidade velha, Altstadt. Que é bem bonitinha e tem uma pracinha linda, mas eu acho que estava esperando algo de muito mais velho. Entramos na igreja de S. Andreas, com um interior tardo-renascimental germânico/barroco muito claro e bonito, e um homem que roncava terrivelmente num dos bancos do fundo. Achamos interessante o mijador logo na entrada da Altstadt. Achamos terríveis os cartazes anti-mijo colados em tudo que é lugar, que provavelmente querem dizer “vai mijar na tua casa, seu nojento”.

Descobrimos com surpresa que chegamos no meio do carnaval Dusseldorfense. Carnaval em Düsseldorf significa, pelo que entendemos, desfiles em trajes militares típicos de não sei qual época. O estranho é que os uniformes e as perucas brancas com rolinhos laterais tinham toda a pinta de uniforme do exército Inglês da época do Último dos Moicanos, sabe? Chegamos na praça principal, que não fotografei porque a luz tava péssima, e vimos um palco com umas meninas vestidas assim de militar, fazendo umas coreografias muito simples, estilo chacretes do programa do Bolinha, sabe, perninha pra cá, um passinho pra lá, e coisa e tal, ao som de algo que deveria ser uma marchinha militar, latida em alemão. Um bêbado berrava coisas estranhas no microfone, mas além de umas risadinhas discretas não vimos nenhuma outra manifestaçao de alegria do público. No meio da praça, uma barraca distribuía cerveja, obviamente. Ficamos esperando pra ver se o pessoal se animava, mas nada. Ficou naquilo mesmo.

Então continuamos a dar voltas pelo centro antigo e fomos parar nas margens do rio – juro que esqueci o nome em Português; em italiano é Reno. No verão a vista deve ser deslumbrante, porque as casas do outro lado do rio são LIIIINDAS e as pontes são muito bonitas, mas a neblina que pegamos dava vontade de chorar. Olha que horror:

Bateu uma fominha básica e fomos almoçar. Queríamos comer no Schumacher, que estava no guia de Düsseldorf que o Gianni baixou da internet, mas foi só a gente chegar perto que vimos um dos grupos carnavalescos (cada grupo, que eu suponho que corresponda a um bairro, tem cores diferentes) entrando e entupindo o lugar, e tivemos que desistir. O centro antigo é cheio de restaurantes de cozinha de tudo que é lugar: tailandesa, libanesa, chinesa, argentina, italiana, espanhola, irlandesa, americana. Aliás, o que eu vi de restaurantes e lojas com nome italiano e letreiros exibindo “made in Italy”, “italianisch”, “Roma”, “Luigi”, etc, não tá no gibi. Acabamos indo comer no Maredo, uma rede de comida pseudo-espanhola/pseudo-mexicana que as meninas da malharia nos tinham recomendado na noite anterior. Eu não almocei, claro, depois daquele café da manhã nababesco. Um garçom simpático, Boris, mandado por uma gerente ASQUEROSA, veio tentar nos ajudar a decidir o que fazer depois do almoço, comunicando-se através de mímica, expressões faciais e canetadas no nosso mapa. Lá fora víamos passar outros grupos carnavalescos, e quando saímos um outro desfile fresquinho estava começando, envolvendo cavalos, meninas de tranças que pulavam pra esquentar as pernas protegidas só por meia-calça fina, e um adorno de chapéu muito estranho: COLHERES DE PAU. Alguém, pelamordedeus, sabe me explicar o que colheres de pau fazem nos chapéus de um uniforme militar antigo alemão? Fiquei me coçando de curiosidade, mas como ninguém fala Inglês em lugar nenhum dessa terra, não tinha ninguém pra quem perguntar. Alguém sabe alguma coisa a respeito disso?

Passeamos ao longo da Königsallee, uma avenidona bonita com um canal no meio e mil lojas chiques de moda francesa e italiana. Como as lojas estavam TODAS fechadas, inclusive nos shoppings, não tinha mais muita coisa pra fazer. Então resolvemos ver a única coisa que nos restava: a torre Rheinturm. Sabíamos que daria pra ver muito pouco lá de cima, porque lá de baixo a situação era essa:

Mesmo assim subimos, feito seis otários, e obviamente não vimos xongas porque das vidraças só se via o branco da névoa. A vista deve ser lindíssima quando o tempo tá legal, e a torre é também um relógio de alta precisão cujo funcionamento ignoro. Descemos os cento e tantos andares no elevador rapidíssimo e voltamos pro hotel.

Os meninos foram fazer sauna e bater papo; eu fiquei lendo Dickens. Mirco voltou, tomou banho, reclamou da falta de civilização que é não ter bidê (todos os italianos que eu conheci até hoje aqui na Itália central medem o nível de civilização de um país predominantemente através do fato de ter ou não ter bidê), vimos uma meia horinha da cobertura CNN das eleições no Iraque, e encontramos o resto do povo na recepção. Onde vamos jantar? Voltamos pra Altstadt, tentamos um restaurante libanês, comi um quibe ótimo e uma esfiha hedionda, desistimos, rodamos, chovia, pelamordedeus vamos entrar em qualquer lugar antes que os pés e os narizes caiam, e acabamos parando no mesmo restaurante da noite anterior. Que felizmente estava bem menos cheio, e conseqüentemente com o ar mais respirável – parece que a precisão dos alemães ainda não chegou ao departamento de saúde pública, porque todo mundo fuma em tudo que é lugar, mais ainda do que na Itália, e quando eu perguntei ao garçom velho e antipático se eles não tinham uma seção não-fumantes recebi como resposta um grunhido e uma risada de desprezo. Conseguimos achar o tal garçom simpático da outra vez, e com a ajuda de um menu em Inglês finalmente conseguimos fazer o pedido. Dessa vez todo mundo atacou o joelho de porco, menos eu e Chiara, que fomos de filé com pirê de batatas mesmo. Estava uma delícia, com um acompanhamento de brócolis num molhinho de ervas que não conseguimos evitar. Tínhamos pedido o prato sem molho nenhum, zero molho, nein sauce, porque na noite anterior os filés vieram soterrados por uma coisa amarela muito estranha que tinha toda a pinta de salsão num molho de maionese, mas não conseguimos descobrir exatamente o que era. Italiano não é chegado em molhos bizarros e normalmente não come coisas que vêm escondidas ou nadando em molhos bizarros, por isso quase todos que pediram filé na outra noite acabaram comendo só os croquetinhos de batata que por um acaso do destino foram salvos do molho bizarro. Mas o molhinho no brócolis eles não resistiram. Pelo menos não era à base de maionese, que eu abomino. Comemos muito bem, batemos altos papos filosóficos, religiosos e históricos, e voltamos pro hotel pra dormir.

Düsseldorfstrass

Mirco acordou às cinco e foi direto pra oficina, pra deixar umas coisas organizadas pros meninos pintarem mais tarde. Eu não conseguia mais dormir e fiquei lendo Dickens, depois tomei meu banho, um bom café da manhã, peguei o carro do Mirco e fui pegar o Gianni e a Chiara em Santa Maria. Dali fomos pra Torgiano pegar o Mirco, e pegamos a estrada. O Mauro e o não-Mauro, que moram em Bastardo (juro), já meio que no caminho pra Roma, nos encontraram num Autogrill na estrada mesmo. Passamos um ligeiro excesso de bagagem pro carro deles e fomos direto até o aeroporto de Ciampino.

O vôo saiu na hora, como sempre, porque Tio Ryan não nos decepciona jamais, e todo mundo dormiu direitinho. Chegamos no aeroporto de Eindhoven, que é minúsculo e todo bonitinho limpinho moderninho, e logo de cara vimos um ruivo com uma menininha que segurava um cartaz com o nome do Mirco. É que nós estávamos levando três caixotes de aventais com o nome da escola de cozinha da irmã do Mirco, que o namorado dela deveria ter vindo de Rotterdam pegar. Como estava de cama com a gripe que pegou a Europa de jeito, mandou o amigo ruivo, que nós já tínhamos conhecido no aniversário do tal namorado, em abril do ano passado, na Toscana. Descarregamos os caixotes de aventais, pegamos o carro alugado da Hertz (um Wolks Sharan de 9 lugares) e, até que com poucos problemas, porque quem estava co-pilotando não era o Mirco e quem dirigia era o Gianni, caímos na auto-estrada.

A paisagem é bonitinha mas muito triste no inverno. As casas holandesas são tão arrumadinhas, sempre com uma florzinha, um bicho, uma coisinha fofa na janela, cortininhas brancas, telhadinhos impecáveis, cerquinhas simétricas. Mas as árvores secas e nuas, o céu cinza, o termômetro do carro que marcava 3 graus lá fora, os campos marrons, tudo isso dá uma tristeza!

Paramos num hotel/restaurante na estrada pra almoçar. Eu adoro os holandeses; são quase sempre muito simpáticos e sempre falam Inglês direito. Comemos bem; os meninos atacaram uns hamburgers abertos com salada e eu e Chiara fomos de bruschetta de cogumelos com presunto e salsinha. Voltamos pra estrada e logo depois ultrapassamos a pseudo-fronteira com a Alemanha – e imediatamente neguinho começou a ultrapassar nosso carro a um milhao de quilômetros por hora. Chegamos a Düsseldorf quando já estava escuro. Custamos um pouco pra achar o hotel, entre Platz de cá e Strass de lá, mas finalmente chegamos.

O hotel era… estranho. Não me levem a mal, tudo muito arrumado e limpo, funcionários cordiais (eu disse cordiais, não simpáticos), mas os quartos eram… estranhos. Estávamos no último andar, e todos os quartos eram duplex. No andar de baixo, a TV com duas poltronas, o banheiro e a porta que dava pra uma varanda comum a todos os quartos daquele andar. No segundo andar do quarto, acessível somente através de uma escada íngreme assassina, da qual por pouco não caí e quebrei o pescoço mais de uma vez por ter cometido o crime de querer fazer xixi no meio da noite, a cama e um armário. É melhor não acordar e levantar de repente da cama, por causa do alto risco de dar uma cabeçada no teto baixo e inclinado. Atrás do hotel, a estação de trem, que felizmente não era muito barulhenta. O aquecimento do quarto não funcionava nem com reza forte; o da parte de baixo funcionava, e muito bem, e o calor que subia era suficiente pra dormir direito.

Então; tomamos banho, trocamos de roupa e fomos jantar com o pessoal da malharia onde o Gianni trabalha. Eles mantêm um show-room permanente em Düsseldorf, que é, e eu não sabia, um importante pólo de moda na Europa. Havia uma feira internacional de moda entre 31 de janeiro e 2 de fevereiro, e todo ano, nesse evento, uma equipe da malharia vai a Düsseldorf, cuidar pessoalmente dos clientes. Eu e Mirco também fomos convidados e fomos jantar na cidade velha com o pessoal da empresa. Ao todo, éramos 15. O restaurante, cujo nome não consegui decifrar entre as letras excessivamente góticas do cartão de visitas, era tipicamente alemão, freqüentado por alemães, o que não é necessariamente um elogio. A cerveja é de produção própria e, disseram todos, gostosa e bem leve – eu não sei, tenho pavor de cerveja, fiquei na Pepsi horrivelmente sem gás mesmo. Só um garçom foi simpático com a gente, talvez porque alemães e italianos estejam, moralmente e comportamentalmente falando, em pólos opostos. Falava um Inglês muuuuuuuuuuuuuito xexelento, mas dava pro gasto. Quase todo mundo comeu salsichão branco (…) com repolho (…); eu e Gianni pedimos peito de frango grelhado com arroz de ervilhas e um outro acompanhamento gostoso, de cogumelos e umas coisas que jamais identificamos nadando num molhinho pálido. Mauro não-Mauro foi de joelho de porco com repolho. Coitado do Mauro, que dividiu o quarto com ele.

Demos muita risada; a equipe da malharia (que pega até mal chamar de malharia; eles só trabalham com cashmere e lã Merinos e apliques de vison verdadeiro e coisas do gênero, e as roupas custam uma fortuna já aos lojistas, imagina pra nós, pobres mortais) é simpática, ainda mais quando a cerveja corre solta. Mas lá pra uma certa hora ninguém se agüentava mais em pé, e fomos nanar.