Arquivo de dezembro de 2009

Copélia

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Ontem fui ver um balé naquele teatro horroroso de Santa Maria, o mesmo onde vi o Rigoletto. Fui com Chiara, a irmã dela Valeria, uma prima delas, Azzurra, e o Yari, que ficou órfão depois do divórcio com a Annalisa e foi adotado por Gianni e Chiara, e ultimamente anda querendo experimentar de tudo – inclusive balé, que tanto o Gianni quanto o Mirco obviamente recusaram veementemente.

Eu ADORO balé clássico. Adoro, desde pequena, quando vivia no Municipal (um tio-avô trabalhava no teatro e arrumava entradas). O cheiro do teatro, o gosto do sanduíche de queijo e presunto do Assirius (que vinha em uma caixinha de papelão branca), a dissonância reinante enquanto a orquestra afinava os instrumentos, o zumzumzum das pessoas cochichando enquanto se sentavam em seus lugares, tudo isso está muito vivamente marcado na minha memória. Por isso nem pensei duas vezes quando a Chiara ligou perguntando se eu topava ir. Gostei muito, lógico, apesar de Copélia não ser mais meu balé preferido. Deu uma nostalgia danada, mas gostei. Maaaas…

O teatro. O teatro é aquele horror que eu já descrevi no lance do Rigoleto. A acústica é uma merda (não é frescura minha; fiquei sabendo de um cômico famoso que disse que ali não põe mais os pés enquanto não resolverem o problema). Não tinha orquestra, e espetáculos desse tipo com música de CD ficam meio o fim da picada, mas enfim. O palco é micro, o que acaba fazendo com que os bailarinos meio que restrinjam os movimentos, especialmente nas diagonais.

O corpo de baile. A companhia era russa, chamada “La Classique”, de Moscou. A única bailarina realmente, realmente talentosa era a Swanilda; de resto, vi muitos erros de timing imperdoáveis, um erro de figurino (uma das bailarinas de um pas de huit estava com um filó no braço de cor diferente das outras), e, horror dos horrores, um bailarino com quadris mais largos do que os ombros e rabo de cavalo (da série “no meu corpo de baile não entrava”).

O público. Jeca é uma merda, né; neguinho aplaude toda hora, a gente perde pedaços de música e tal, mas nada grave. O mais engraçado foi que em um certo momento, pouco antes do final do segundo intervalo, o senhor que estava atrás de mim disse assim: “senhora, por que a senhora não pinta o cabelo como aquela senhora ali?”. Todos nós olhamos pra onde ele estava apontando e imediatamente entendemos do que ele estava falando: uma criatura com os cabelos todos feitos tipo algodão-doce, bem no estilo cinquentona italiana, e vermelhos quase fluorescentes. Caímos na risada enquanto o cara continuava: que cor é essa, meudeus, me incomoda muito, a vocês não? Hohohoho : )

A Carol, que tinha passado a tarde inteira na Arianna (emendamos o almoço – era feriado – com o jantar), foi pra casa com o Mirco e estava acordadíssima quando cheguei, lá pra meia-noite. Mandou ver na mamadeira mas ainda demorou uma hora pra dormir. Putz.

o bicho tá peganuuuuu

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Rapaz, a coisa aqui na Bota anda emocionante que é uma beleza.

Vocês sabem que o Berlusca anda tentando de todos os modos passar uma lei que livre o seu próprio rabo, já que está envolvido, como sempre, em trocentos processos judiciários. O Lodo Alfano, que dava imunidade aos quatro mais poderosos do governo, estranhamente não foi aprovado. Agora ele anda doidinho pra aprovar uma outra lei que oficialmente serve pra desatolar o sistema judiciário italiano, que em termos de processos atrasados é pior do que o de Uganda (segundo pesquisas publicadas nos jornais). Não oficialmente, como todo mundo sabe, serve pra reduzir o tempo necessário pra que um processo prescreva. E vejam só que coisa curiosa, se for aprovada os processos nos quais ele é acusado, direta ou indiretamente, vão entrar em prescrição, por pouco. Engraçado, né.

Aí isso dá origem a várias coisas. Uma vai ser o No-B Day (no Berlusconi Day), protesto em Roma que não sei quando vai ser. Outra foi o escândalo que rolou ontem, que na verdade escândalo não seria se esse fosse um país normal. O presidente da Câmara, Fini, ex-fascistoso mas que ultimamente me parece ser a única pessoa lúcida desse país, foi pego comentando com um colega que Berlusconi está confundindo aprovação popular com imunidade total. Em um país normal, esse comentário teria a mesma importância que se ele tivesse dito que o céu é azul, já que em ambos os casos trata-se de uma coisa tão óbvia e indiscutível que não tem nem graça. Mas como a Bota é a Bota, aaaaah, crianças, fez-se um escarcéu, um escândalo, os jornais só falam disso e Berlusca, muito puto da vida, petulantemente disse que Fini “tem que se explicar, senão está fora”.

Esse aspecto do “ou comigo ou contra mim” é a coisa mais idiota, estúpida, maniqueísta, prejudicial da política italiana. Nesse ponto a Itália e o Brasil são praticamente gêmeos, já que em terras tupiniquins a coisa funciona do mesmo jeito, até onde eu sei. Há meses – há VARIOS meses – não se faz mais nada nesse país que não seja legislar contra ou a favor do Berlusconi. Não se faz absolutamente NADA pelo país, pra conter a crise, pra ajudar quem tá na merda, pra modernizar essa carroça medieval que é esse país, nada. Nada, nada, nada; o governo trabalha pra livrar a bunda do Berlusconi e a oposição trabalha pra tentar pulverizar esse filho da puta. Todo o resto ficou esquecido.

Depois ainda reclamam quando a imprensa de outros países sacaneia.