Arquivo de setembro de 2008

ainda retornando

domingo, 21 de setembro de 2008

Cada vez que deixo o Rio parece que a coisa fica mais difícil. A cada vez noto como estou sentindo mais falta da minha cidade (que é um desbunde), da minha mãe do meu irmão da minha avó, da minha velha casa, do milk-shake de Ovomaltine do Bob’s. Não acho que seja um lance de estar ficando velha; acho que essa falta de estímulos intelectuais aqui no interior do Malawi é que acaba intensificando a nostalgia generalizada. Sinto falta de conversas inteligentes, e acabo sentindo falta, por tabela, de todo o resto. Quando me peguei analisando a reforma ortográfica com minha mãe e meu irmão me dei conta de que não há NINGUÉM aqui com quem eu possa falar de coisas desse tipo. Ficar repetindo e rindo dos diálogos em inglês de House e Lost e comentando os figurinos de The Tudors, como fiquei com a Newlands, aqui é impossível. Ter alguém brilhante como o meu irmão me explicando como anda o governo Lula e essa confusão da Grampolândia é um privilégio que aqui eu não teria nem pagando. Pra não falar do quanto eu sinto falta de dividir a mesa com gente que não se debruça sobre o prato e não lambe a faca.

Vocês tão carecas de saber, e eu também, que eu não sou retardadinha e tenho mais cultura e céLebro do que 90% dos italianos, que são o povo mais chucro do planeta, e por isso me sinto muito sozinha aqui. Meus amigos são os amigos do Mirco, chucros e ignorantes, apesar de muito legais, e as conversas inevitavelmente giram ao redor de comida, carros, comida, roupas, comida, quem casou, comida, quem morreu, comida. Meus colegas de faculdade já são melhorezinhos, mas como todo adolescente é idiota por natureza e eles ainda estão saindo da adolescência, estão em fase de desidiotização, pra não falar do fato de que, sendo caipiras, têm muito pouca experiência. De tudo. Adoro-os todos e me divirto com eles, mas certos tipos de conversa e de reflexão requerem um mínimo de experiência e maturidade que eles não têm.

Veja bem, não estou reclamando-ando-ando e não me arrependo de coisa nenhuma; estou só constatando que toda escolha tem um revés. O revés da minha é esse: solidão intelectual. Além da falta do milk-shake de Ovomaltine do Bob’s, claro.

por que eu não pretendo mais voar com a TAM

sábado, 20 de setembro de 2008

Vou repetir: eles são inacreditavelmente simpáticos e amáveis e prestativos. Todos eles. E eu conheço gente que trabalha na empresa (um pessoalmente, outra não). Mas não dá.

Não estou nem falando da comida ruim, da lerdeza dos comissários de bordo, cujos carrinhos freqüentemente colidem no meio do corredor por ficarem num vai-e-vem eterno à procura de coisas que ficaram faltando, nem das pouquíssimas telas e do filme único, quase sempre uma merda, nem do uniforme mal acabado, tampouco dos nomes duplos hediondos de todos os funcionários (tipo Anderson Rodrigo, saca), muito menos do inglês pavoroso do presidente da companhia nos vídeos que mostram nos vôos Rio-SP, e nem da dicção imperdoável da maioria das comissárias de bordo (as que não falam cinqüeiiiinta falam feito favelada malandra), que aliás são feias de doer. O problema é a falta de profissionalismo.

Vocês viram o que aconteceu comigo na ida. No meu caso em particular não houve muito problema, pois eu estava indo pra casa da minha mãe, onde ainda tenho roupas, então nada do que eu estava levando nas malas era crucial pra minha sobrevivência. Mas e se fosse? E se eu tivesse perdido o vôo pra Milão e por isso perdido também o pro Brasil? Não bastando isso ter acontecido comigo, o Mirco, prevenido que é, suspeitou que a mesma coisa poderia acontecer com ele, já que o vôo era idêntico. Tentou ligar pra lá pra ver se dava pra resolver, e não conseguiu. Mandou fax pra agência através da qual compramos a passagem, pra ver se eles conseguiam entrar em contato com aTAM, sem resposta. Mandou carta registrada, que foi ignorada solenemente. E a coisa aconteceu com ele também. Por sorte ele já estava escaldado e chegou tão cedo no aeroporto que o problema foi resolvido antes do vôo encher, e ele embarcou com a bagagem e sem ter que sair correndo até o gate feito um desesperado. Agora adivinhem o que houve na volta? Exatamente a mesma coisa. Quando chegamos em Milão a menina no check-in também não nos encontrou na lista dos passageiros. E disse, como já tinha dito o Stefano no dia em que saí de Roma, que sempre acontece isso com a TAM: eles simplesmente esquecem de mandar a passagem pra companhia que faz a outra perna. Legal, né! O problema é recorrente, eles não resolvem, e fica por isso mesmo. Nenhum pedido de desculpa, nenhum upgrade como compensação, nenhum telefonema pra saber se foi tudo bem, bissolutamente nada.

Agradeço aos funcionários pela simpatia e pelos sorrisos, mas essa foi a primeira e última vez que voei com a TAM. Saudades da Varig.

o retorno

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Bom.

A viagem foi ótima. Resolvi umas coisinhas burocráticas, me contive razoavelmente nas compras (mas o roupocídio na Sacada, que acontece todos os anos, rolou de novo), comi quase tudo o que eu queria comer. Mas além da minha epopéia, que descrevi no post abaixo, houve outra, que vou contar porque merece.

O Gianni e a Chiara deveriam ter saído daqui na terça passada e chegado na quarta. O Mirco sairia na quarta e chegava na quinta. Só que o Gianni e a Chiara ODEIAM voar. Normalmente é só um medinho, que passa tomando um calmantinho ou viajando com outras pessoas. Dessa vez a crise de pânico foi forte: palpitações, pernas tremendo, a menina achando que ia morrer, um horror. Fez o Gianni dar meia-volta; não chegaram nem ao anel rodoviário de Roma. Foram direto ao médico pegar um certificado pra conseguir o reembolso, e depois rumaram pra casa totalmente jururus. O Gianni me mandou um SMS super baixo-astral, porque eles tavam planejando ir ao Rio há séculos, e quando finalmente a coisa tava rolando, deu nisso, mas fobia não tratada não dá pra controlar e coisa e tal.

À noite, o Mirco, que sempre é adotado pelos nossos amigos quando eu não estou e dificilmente janta sozinho, foi comer na casa deles. Entramos no Skype pra conversar e pela cara deles dava pra ver a tristeza generalizada. O Mirco, sempre otimista, me confessou de soslaio que eles nem tinham desfeito as malas pois o Gianni não queria nem ver as ditas cujas, e disse que no dia seguinte iria botar uma certa pilha pra ver o que rolava.

No dia seguinte os meninos foram almoçar na casa da mãe do Gianni. Estavam a poucos metros de casa quando o Mirco liga no celular: estou saindo do trabalho, podem descer. Como assim, Bial, perguntaram. Ué, vamos comigo até o aeroporto, quem sabe vocês não se animam. Eles pensaram um pouquinho, voltaram pra casa, desceram com as malas e rumaram pra Roma. Vendo que a Chiara estava calma, começaram a considerar a hipótese maluca de comprar novas passagens e partirem. Já perto do aeroporto, a Chiara começou a ficar pilhada pra viajar, e o Gianni saiu ligando pras companhias aéreas pra ver se achava passagem. Achou com a Air France, mais cara do as de antes mas ainda viável. Reservou pelo telefone, entraram no aeroporto pra ver como a Chiara reagia, ela ainda calma e pilhada, compraram pelo telefone a dois metros do balcão (comprando diretamente no balcão era mais caro), pegaram as passagens e embarcaram. O Mirco tinha pego um certificado médico pro caso de ter que cancelar o vôo dele pra viajar com os meninos em caso de pânico, mas não foi preciso. Viajaram como dois anjinhos. Chegaram na quinta pela manhã, e o Mirco duas horas depois.

O Gianni e a Chiara são ótimos companheiros de viagem, e amigos que nós adoramos, mas quando ele cisma com alguma coisa, não tem santo que dê jeito. Pois desde que ele ouviu do Mirco a descrição do Frescão que ele cismou que queria pegar. Tinha dito inclusive que não precisava ir pegá-los no aeroporto, que eles iriam de Frescão até a Zona Sul. Ahã, falei, vou mesmo deixar dois gringos pegarem ônibus sozinhos no Rio, atravessando favelão… Espera sentado, disse, e fui lá buscá-los com meu pai. Só que não cabíamos nós todos e mais as malas, e acabei mandando os meninos de Frescão mesmo. Desceram na Vieira Souto com a Vinícius, tomaram água de coco na praia e foram pra casa da minha mãe a pé, achando tudo ótimo. Eu e Chiara ficamos tomando guaraná no sofá de casa, esperando os machos.

A outra cisma foi Paraty. Cara, quatro horas de viagem na ida, quatro na volta, mais o adorável percurso até a rodoviária, que normalmente é uma coisa bem traumatizante, tudo isso pra passar um dia (ou parte dele) num lugar. Eu pessoalmente não iria, mas quando o Gianni encafifa, não tem jeito. Então foram, e gostaram.

A terceira cisma foi Búzios. Tipo, você está planejando ir a uma cidade de praia cuja única atração é a praia. Chove e a previsão é de chuva até o fim da viagem. O que você faz? Não vai, né. Mas ele tinha enfiado na cabeça que queria ver Búzios, e acabou indo. Ainda não sabemos o que acharam porque eles não telefonaram depois da chegada em Roma, hoje na hora do almoço, mas pelo último SMS que mandaram de lá parece que não estavam arrependidos da viagem.

Acabou que eles adoraram a viagem, surpreendentemente. Fiquei surpresa porque o Rio não é pra amadores; o Mirco fica exausto com tanta gente, tanta bagunça, tanto trânsito, tanta atenção que a gente tem que prestar pra não ser assaltado, tanta falta de estrutura. E apesar do Gianni ser muito esperto, eles são todos caipirérrimos, e nesse caso a viagem tinha tudo pra não dar muito certo. Mas deu. Não só eles adoraram tudo, como pretendem voltar pra ver as coisas que não conseguiram ver. E coisa inédita: Gianni disse que nem sentiu falta da comida italiana, o que me fez cair o queixo, já que ele é chatíssimo pra comer. Ficaram enlouquecidos com as vitaminas de frutas, com o pão de queijo, com o arroz com feijão. Acharam tudo lindo e interessante, apesar deu ser uma péssima cicerone que se perde na própria cidade e não sabe nada de história (ele me mostrou no mapa a Praça 15 de Novembro e eu só fui entender que era a Praça XV quando chegamos lá. Anta…). Não vou dizer que fiquei orgulhosa, pois não sou de patriotismos e vocês sabem, mas é bom ver que a minha opinião sobre a minha cidade não é biased: o Rio é um desbunde mesmo, apesar.

**

Como sempre, não consegui ver todo mundo. Ficaram faltando os colegas da faculdade, por motivos logísticos (leia-se criança pequena). Faltaram as meninas do colégio, pras quais não tive tempo de ligar. Ficou faltando o Duduzão, idem. Mas teve reunião de família com primos e tios que eu não via há muito tempo, com direito à feijoada FENOMENAL do meu tio Alfredo (que Gianni e Chiara adoraram, por sinal). Conheci a Lulu, filha do meu primo de terceiro grau, que eu ainda não conhecia e que é uma figurinha (nos seus tenros 9 meses ela já fica tão contente depois de comer que vira outra pessoa, toda pimpã, afetuosa e risonha. Tenho a impressão de que vamos nos dar muito bem). E de bônus ainda consegui encontrar o Hiro, que calhou de estar no Rio na mesma época e que foi almoçar no Porcão com a gente.

**

Achei tudo caríssimo, como a Barbara. Os meninos também. Fora isso, a outra coisa que mais me impressionou (além da feiúra generalizada dos brasileiros, lógico) foi o número incrível de pessoas que trabalham nos lugares, coisa na qual o Hiro também reparou. Em qualquer loja de qualquer lugar tem sempre um monte de vendedores parados esperando chover cliente. No aeroporto há muito mais pessoas trabalhando do que seria realmente necessário. Na Itália a incompetência (porque italiano não sabe trabalhar) é compensada com horas de trabalho a mais. No Brasil, onde a mão-de-obra não custa nada, compensa-se empregando mais gente. Não só nenhuma das duas soluções é a ideal como acho bem difícil escolher qual é a pior, viu.

**

Hunka chegou hoje. Yay!

ode ao rio

sábado, 6 de setembro de 2008

Sem internet por um certo período, graças à Net. Pânico. A lista de pessoas às quais preciso telefonar é infinita, mas quando chego em casa acabo caindo no sono e não ligo pra ninguém. Várias coisas burocráticas resolvidas, outras semi. Tudo bem. Basicamente venho batendo perna em Ipanema com a minha mãe. Boticário, Sacada (recomendo a loja do Centro, perto da Travessa do Ouvidor, e em particular a Luciene), padaria Eldorado, sapatos na Datelli, a Travessa, as galerias da Visconde de Pirajá, a feira na N. S. da Paz. Compramos umas uvas ótimas.

**

Isso dito, vocês me desculpem, mas a minha cidade é absolutamente um desbunde.

Tipo:

desbunde
substantivo masculino
ato ou efeito de desbundar
1 ato ou efeito de ficar deslumbrado, extasiado com alguém ou algo
2 Derivação: por extensão de sentido.
pessoa ou coisa deslumbrante, que causa impacto
Ex.: o irmão dela é um d.
3 estado de quem fica desconcertado, estupefato com algo imprevisto, inesperado
4 o Rio de Janeiro

O Rio é um desbunde, apesar. Tudo no Rio é um desbunde. E não estou falando só da parte física, que por si só já é um desbunde, mas de todo o resto. Do ar, da atmosfera, das pessoas, dos cheiros, das idéias, da personalidade. De tudo.

Eu viajo mais do que a média mas muito menos do que gostaria, e, com a exceção talvez da Sérvia, sempre pra lugares civilizadinhos. Não existe outro lugar, de todos os que eu já visitei, que chegue aos pés do Rio. O Rio deixa o resto do mundo no chinelo. Não consigo imaginar uma cidade com tamanho potencial pro turismo, pra negócios, ou mais simplesmente pra felicidade. Istambul? Qual o quê. É irmã quase gêmea do Rio, se você descontar a quantidade de bigodes e mulheres de cabeça coberta e o aaaaaaaaaaaiaaaaaaaaaaaaiaaaaaaaaaaaaa das mesquitas chamando pra reza e a relação com o mar completamente diferente. Essa intimidade do Rio com o mar é uma coisa fascinante – e olha que eu ODEIO mar e não vou à praia há anos, e não sinto falta nenhuma. Não sinto falta da praia, mas sim de como as pessoas aqui se relacionam com ela. Acho bárbaro, um desbunde. Nápolis, que dizem ser a outra gêmea? É bonita mas não tão bonita quanto; também zoneada e cheia de mazelas, embora não tanto quanto; simpática e interessante, mas não tanto quanto. Paris é Paris, Roma é tudo na vida, mas têm um charme muito diferente. São cidades sensacionais, que eu amo de paixão e nas quais tenho a impressão de que adoraria viver, mas o conjunto da obra não é o Rio. Já visitei muitas cidades bonitas, mas nenhuma delas é um desbunde. Só o Rio.

O que vêm fazendo com a minha cidade é desumano.

Tipo:

desumano
adjetivo
1 falto de humanidade; bárbaro, cruel, desalmado
2 que demonstra desumanidade; anti-humano, atroz, duro
3 o que vêm fazendo com o Rio de Janeiro

A paranóia constante, a desconfiança; a maneira com que o medo molda nossas vidas, decide por nós, planeja por nós, nos impede de fazer coisas, muda nossos hábitos de maneira impensável, nos impede de viver comme il faut, são desumanas. E tudo isso fica tão enraizado que mesmo depois de todos esses anos morando no interior do Butão eu ainda mantenho todos os meus pavores. Voltando pra casa de táxi em Barcelona, depois de uma festa, no meio da madrugada, um motociclista pára ao lado do nosso táxi e se aproxima da janela. Pensei: “morremos”. O taxista abriu a janela na maior calma, o motociclista levantou o visor, sorriu e pediu uma informação. O taxista respondeu, o sinal abriu, fomo-nos todos. Mirco perguntou por que eu tinha ficado tão pálida de repente; respondi “porque sou carioca”.

Toda vez que viajo a alguma grande cidade fico imaginando o quão seria maior o desbunde do Rio se fosse possível sair de casa com todos os documentos originais e cartões de crédito na carteira; se fosse possível voltar pra casa a pé à noite de onde quer que seja; se fosse viável subir num ônibus qualquer a qualquer hora sem ficar olhando com cuidado pra todos que entram, pronto pra sair voando pela porta de trás em caso de passageiro suspeito; se fosse possível escolher o itinerário de acordo com a sua própria vontade e não pela probabilidade estatística de assalto; se o metrô não fosse a máfia que é e seguisse uma logística civilizada (sim, o metrô funciona, mas não tem sentido e é ridiculamente caro e anti-turista); se a bicicleta fosse um meio de transporte viável em termos de segurança e com isso aliviasse o trânsito; se tirar a máquina fotográfica da bolsa pra poder mandar aquele pôr-do-sol pro Flickr fosse seguro e possível. E pensando nisso tudo me dá vontade de chorar.

bastia – rio

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

roma – milão: a epopéia

Como ontem era o último dia de férias pra boa parte dos italianos, fiquei com medo do Mirco pegar trânsito na volta e se irritar ou, pior, se envolver em algum acidente horripilante, então levamos o coitado do Gianni pra fazer companhia. Saímos cedo, logo depois do almoço (o vôo era às 17:50), e chegamos com tempo de sobra pra fazer o check-in. Eu já sabia que não seria muito simples porque a perna Milão-SP estava toda com overbooking, segundo minha fonte seguríssima na TAM, então preferimos chegar cedo pra eu fazer o check-in logo, mandar os meninos embora e sentar com o computador pra trabalhar.

Hah.

Na passagem dizia Terminal B, mas ali não tinha nada nas telas, nem o vôo com destino final pra São Paulo, nem o doméstico Roma-Milão. Tentamos o Terminal C: nada. Gianni volta ao Terminal A, onde tínhamos encontrado vaga, pra ver se o vôo estava ali entre os domésticos. Nada. Perguntamos no balcão de informações da Alitalia no Terminal C, a mulher me garantiu que era no A. Voltamos ao A, novamente nada escrito em lugar nenhum. Em um dos balcões de check-in da Alitalia, uma loura desenhava espirais em um papel. Me olhou com cara de nojo e me mandou “pra qualquer balcão de check-in que estiver livre, senhora”. Perguntamos a mais duas pessoas, até que um lourinho simpático disse “Aaaaah, mas é ali, senhora!”, apontando pra um balcão de check-in aleatório que eu, logicamente, tinha a obrigação de saber que era o tal. Nisso já tínhamos perdido 45 minutos, mas não tinha fila e eu estava otimista.

Hah.

- Não estou vendo a senhora neste vôo.

- Bom, mas eu estou aqui, como você pode ver, e com o e-ticket impresso, como você também pode ver.

- Eu estou vendo as outras pernas da viagem, mas não Roma-Milão.

- Pode ser porque a agência [online, ndr] mudou a passagem; antes eu iria a Milão com a Lufthansa, que vai fazer Milão-Roma na volta. Nessa troca pode ser que tenha dado algum problema.

- Pode ser, senhora, mas o fato é que a senhora está sem passagem e assim não pode embarcar. Tente ali na bilheteria pra ver se eles resolvem.

Vamos à bilheteria da Alitalia que, vocês sabem, foi oficialmente falida na sexta, pra poder dividir as partes ainda lucrativas entre os amiguinhos de Berlusconi. A parte endividada vai ser paga pelos contribuintes. Lógico. O atendente, Stefano, italiano clássico, me dá o mesmo diagnóstico: eu não existo. Ligo pro meu contato na TAM, que me dá um número em Milão. Ligo e falo com Angela, que me diz que isso às vezes acontece mesmo e pede pro Stefano ligar pra ela pra ela esclarecer tudo. Stefano ri: mas se o problema é deles, que não mandaram o bilhete atualizado pra nós, por que é que eu é que tenho que ligar pra eles? Bom, já falimos mesmo, não vai ser mais um telefonema interurbano que vai piorar a situação…

Ligou, falou com a Angela, deu o número de telex pra onde ela deveria mandar uma cópia da maldita passagem. Só que, como eu e você sabemos, não havia passagem nenhuma e a Angela teve que fazer a bichinha do zero. O fato é que demorou pacas. Nós três plantados ali do lado da bilheteria, tomando suco de laranja de lanchonete de aeroporto (e com preço de lanchonete de aeroporto), esperando a Angela mandar o telex, e o relógio andando. Enquanto isso, eu perguntando ao Stefano como estava a situação deles com o novo acordo pra falir a Alitalia; ele respondeu com uma imprecação contra o Cavaliere, eu respondi amém. Séculos depois chega o telex. Stefano imprime o cartão de embarque com escrito “STAND BY” em letras garrafais e me manda de volta ao check-in.

Era outra mocinha, mais simpática e muito bonita, chamada Alma. Pesou as minhas malas: duas de 23,0 quilos, total 46,0 quilos, EXATAMENTE dentro do limite. O Gianni, que normalmente parte com malas mais numerosas e maiores do que as nossas porque ele e Chiara não sabem viajar lightly, mas que está cansado de ver as malas grandes cheias de compras com as quais sempre voltamos pra Itália, ficou me olhando horrorizado: você é o monstro da bagagem! Um monstro! (Claro que pesei as bichinhas antes de sair de casa, mas a nossa balança da IKEA não é de precisão, lógico, e tudo o que eu consegui ver no display meio coberto pela base da mala foi que estava entre 21 e 23). Beleza, não vou ter problemas, pensei.

Hah.

- Senhora, o problema é o seguinte: a senhora está em quarto lugar na lista de espera [a essa altura do campeonato já eram 17:40] e mesmo que consiga embarcar, o que sinceramente não é muito provável, não tem lugar pras malas na estiva.

- …

- Eles estão fechando o vôo, vou ligar pra ver se há um lugar pra senhora. Senão o próximo vôo é às 21.

- Meu vôo pro Brasil é às 22.

- Vou ver o que eu posso fazer.

Pelo telefone lhe disseram pra mandar pro portão os dois primeiros da fila de espera. Ao meu lado ficou o terceiro, com uma malinha pequena que ele queria despachar. Aparece uma loura de walkie-talkie e diz que o cara pode ir, mas a mala tem que ir na mão pois na estiva não tem mais lugar. O cara vai.

Alma continua pendurada no telefone, de vez em quando dizendo “sim, ainda estou na linha”.

- Senhora, as malas não têm como ir de jeito nenhum, mas se eu for correndo com a senhora até o portão pode ser que dê pra embarcar. Não posso garantir nada, mas se a senhora quiser tentar… Mas vai ter que abrir mão das malas.

Paciência, o Mirco volta pra casa com as malas e depois tenta levar uma com ele, além da sua. E o resto dos presentes vai ficar pra outra vez. Despedida rápida e lá vamos eu e Alma correndo pra porta de acesso aos portões. Boto o laptop e a mala de mão na esteira dos raios-X, passo voando pelo detector de metais, ela discute com o policial que queria me revistar mesmo sem ter apitado nada, saímos correndo pelo corredor. Adivinhem qual era o meu portão? O último, claro.

Chegamos botando os bofes pra fora, a porta do ônibus já estava fechando, o cara da mala de mão ainda sem saber se embarcava, uma meio chinesa no walkie-talkie anotando dois números de assentos num papel que mostra à Alma.

- Tó, sobraram esses dois.

Bota a cara na porta e grita pro motorista de ônibus esperar. Mando um beijo de agradecimento sincero pra Alma e subimos correndo no ônibus, que já tremia de impacência pra ir embora.

Assim que botei os pés no avião lembrei que o livro de Storia Contemporanea, que eu tinha trazido de casa pra estudar, tinha ficado na mala do carro. Eu não tinha absolutamente NADA pra ler, pois sabia que se trouxesse algum livro não estudaria nem trabalharia. Mas agora eu me encontrava sem o livro pra estudar, sem poder ligar o laptop pois o aviãozinho onde eu estava sentada voa baixo e não é permitido usar nada de eletrônico, e sem revista de bordo porque não havia nenhumazinha. PÂNICO TOTAL. Chegando em Milão, céu completamente encoberto, com aquelas nuvens lindas solidonas que dá vontade de comer de colher, e um pôr-do-sol obsceno de bonito. Meno male.

milão – sp

Mas como tudo passa, até a uva passa, o vôo mais curto passou. O vôo mais longo foi MUITO longo, porque só passou um filme (MAL DUBLADO PRA CACETE), eu tava sem livro e só tem uma opção de comida. Que saudade da Varig. Mas pelo menos o pessoal é muito, muito gentil e simpático, e perto de mim não tinha ninguém roncando nem gordo nem fedendo nem com bafo nem tentando puxar assunto. Até porque perto de mim não tinha ninguém e deu até pra esticar as pernas.

sp – rio

A primeiríssima coisa que pensei foi: caralho, exclamou a princesinha, como brasileiro é feio.

A segunda coisa foi, quero um pão de queijo. Nada feito, tudo fechado ainda.

Oquei, vamos combinar que Guarulhos é o aeroporto mais feio, confuso, velho, idiotamente construído do mundo, você anda quilômetros puxando a malinha feito um retirante, tudo é antiquado e escuro e gloomy, simplesmente horrível. E como se não bastasse TEM CRASE ERRADA NOS CARTAZES! Tipo “portões de 1 à 12″. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!!!

rio

Chegamos cedo e saí rapidinho, a única vantagem de viajar sem malas. Do avião tínhamos visto o trânsito completamente parado tanto na Av. Brasil quanto na Linha Vermelha, então decidi não pegar táxi. Mas first things first: primeira parada, Casa do Pão de Queijo. 2,50 por um pão de queijo, cara, assalto total! Mas comi. Depois subi no Frescão e desci na Central, disposta a pegar o metrô até a casa da minha avó, que mora a dois metros da estação Afonso Pena. Maaaaaas… Digamos que um grupo de pivetes me dissuadiu. Voltei correndo pra calçada, me cagando de medo de levarem meu laptop, e parei o primeiro táxi que passou. Fui conversando animadíssima com o coitado do velhinho. O porteiro fleumático da minha avó abriu o portão como se eu estivesse voltando da padaria e não de uma ausência de um ano e meio. Mais tarde chegaram minha mãe e meu irmão, fofocamos um pouco e almoçamos. Muito. Strogonoff, arroz de brócolis, batata sautée, lasanha de berinjela. Comi feito um porco.

Chegando em casa, banho pra tirar a inhaca do viajante, mais fofoca, trabalhei um pouco, fofoquei mais, li uma Época, trabalhei, comi torrada de Plus Vita com requeijão (eu tava SONHANDO com requeijão desde que comprei a passagem) e blanquet de peru, vi Friends com o Tuco, trabalhei, li meu livro dos Malvados que chegou mês passado, terminei o trabalho e fui dormir.