Finalmente, senhores… A civilização.
Japinha lindo e Barbara, aguardem-nos. Váaaaaaaaaarios almoços em Londres. E aqui no interior do Butão também, lógico.
Finalmente, senhores… A civilização.
Japinha lindo e Barbara, aguardem-nos. Váaaaaaaaaarios almoços em Londres. E aqui no interior do Butão também, lógico.
Dejan, o garoto sérvio que abre a oficina de manhã cedo, acabou de ligar dizendo que ladrões entraram na oficina essa noite. Dessa vez arrombaram até o escritório, o que não aconteceu da outra vez. Ainda não sei os detalhes, mas digo e repito: pobre tem mais é que morrer. Porque VAI SER AZARADO ASSIM NA CASA DO CA-RA-LHO.
Que a televisão italiana é uma merda vocês estão carecas de saber. Mas nem tudo é um horror. No verão, quando ninguém vê TV porque está “al mare”, de preferência tarde da noite, quando todo mundo está jantando fora, passam coisas interessantes. O melhor da TV italiana, na minha opinião, é SuperQuark.
Quem apresenta é um senhor hiperultramegadistinto, Piero Angela. O cara é um lor-de. Sempre de terno e gravata muito sóbrios, fala bem, em tom de voz NORMAL, explica tudo muito bem explicado mas sem tratar o interlocutor como deficiente mental, e sobretudo os assuntos do programa, que sinceramente não sei até que ponto é ele que determina, são sempre interessantérrimos. O programa começa sempre com um longo documentário inicial, normalmente BBC ou outro órgão competente, e depois há várias seções internas, sempre, sempre, sempre interessantes. Até quando falam de coisas que eu ignoro completamente porque detesto a coisa é interessante. Também falam dos antigos romanos, de objetos antigos (como se fazia antigamante pra passar roupa, esquentar a cama, etc), de como pensam os animais, e esse ano fizeram uma série legal chamada “viaggio di un boccone”, mais ou menos “viagem de uma porção de comida” (traduzam boccone como mouthful), co-apresentada pelo professor Cannella, que ensina nutrição em una universidade em Roma e é figurinha fácil na televisão. Outro senhor distinto, logicamente, ao contrário do outro especialista de comida arroz-de-festa, o doutor Calabrese, que é só um italiano babaca que fala berrando. Seus entrevistados são sempre cientistas ou estudiosos de altíssimo nível, praticamente todos morando fora da Itália porque aqui não se faz pesquisa (rings a bell?). Todos com ótima dicção, idéias claras e coisas interessantes a dizer sobre suas profissões. E Piero Angela sempre aproveita a oportunidade pra bater nas mesmas teclas: é preciso estudar, é preciso investir em pesquisa. Eu amo esse homem.
No último programa Piero Angela entrevistou a maior harpista italiana, uma senhora plastificada de uma antipatia ímpar que qualquer outro italiano teria estapeado na frente das câmeras mesmo. Ele, o lorde, nem se alterou, e ainda botou oclinhos e tocou piano com ela. Porque lordes, lógico, tocam piano. Me deu vontade de ir lá abraçá-lo, de tão fofo. Essas coisas são tão raras por aqui que quando vejo, me emociono.
Tudo bem que os umbros têm fama de estranhos e fechadões, mas assim já é demais.
Simona entra no escritório dos tradutores dizendo que um dos alunos-zumbis, um daqueles que nem sorriem quando dou buongiorno e sempre respondem “nada…” quando pergunto o que fizeram de bom no fim de semana, resolveu aumentar as horas do curso. Das 30 horas iniciais, que em teoria seriam só pra melhorar as notas na escola, resolveu passar pra 50. Tá de sacanagem, falei. Ela: não não, a mãe telefonou dizendo que ele já começou as aulas de reforço na escola e acerta todas as respostas, os colegas perguntam o que ele está fazendo ali se sabe tudo, os professores acham ótimo, ele está cheio de autoconfiança e quer continuar com você porque disse que se deu superbem, que vocês conversam e coisa e tal. A mãe depois veio pessoalmente à escola pra falar comigo e confirmou a história.
Fiquei de boca aberta. O garoto nunca disse uma palavra além das respostas aos exercícios. Nunca riu, nunca fez uma pergunta, e das minhas piadas só ri educadamente. O progresso que eu notei foi pequeno e eu sempre achei que ele odiava as aulas e morria de tédio. Agora me vem com essa. Dá pra entender?
Tava lendo sobre a depressão pós-férias da Ane, que é, claro, completamente compreensível. A Julie também tem razão: dependendo das férias, é preciso tirar férias pra descansar das férias. Vocês entenderam.
O que eu queria dizer era sobre o comentário da Rosemary sobre esse post da Ane. Por que as pessoas acham que é só brasileiro que sofre longe de casa? Como se isso, aliás, fosse uma vantagem, uma qualidade? Será que neguinho acha que polonês que não mora na Polônia não sente falta de casa? Que japonês que foi morar no sul do Brasil não sente dor no peito quando vê o monte Fuji na TV? Que o congolês não chora à noite pensando na savana? Eu, hein! Tenho certeza que mesmo quem saiu de um lugar fodidíssimo e agora mora em um lugar “melhor” preferiria ter condições de ficar onde nasceu. Ninguém passa incólumo por uma experiência dessas, nem mesmo quem está melhor agora do que antes, no país natal. Que mania essa de achar que só brasileiro se emociona, só brasileiro é “ligado às raízes” (característica que eu acho uma bosta, por sinal), só brasileiro “é brasileiro sempre”! Não só não é verdade, como acho muito triste que não seja. Eu sinto falta do Rio, lógico, porque o Rio é foda e porque meus amigos são foda, mas, quer saber? Nunca fui brasileira típica, nunca fui “carioca da gema”, e acho isso ó-te-mo. Quando as pessoas perguntam se eu já virei italiana, eu digo: eu não virei nada, não deixei de ser nada porque nunca fui nada, eu não sou nem uma coisa nem outra. Eu sou eu.
Eu, hein!
Hoje é aniversário da Hunka. Todo mundo batendo palminha pra Hunka, êeeeeeee!
**
O telejornal mostrou cenas do jogo Brasil x Argentina falando da “nazionale carioca”. Ho ho ho. E que gol foi aquele do Kaká, hein?
**
Minhas plantas estão tão lindas que quando fico no computador por muito tempo trago uma delas pra escrivaninha, pra me fazer companhia.
Eu gosto muito de cozinhar, e uma das coisas mais chatas de trabalhar tanto é a falta de tempo pra cozinhar com calma. Acabamos comendo um monte de porcarias enlatadas e de pacote, mas fazer o quê? Depois de 12 horas na rua a última coisa que eu quero fazer é passar horas cozinhando. Fora que nem dá satisfação cozinhar aqui, com essa falta de espaço e de organização lógica. Não tem lugar pra botar nada, fica tudo espalhado pelos armários, não tem um plano de trabalho pra apoiar os ingredientes todos juntos, fico indo e vindo feito uma barata tonta, sujando tudo. Depois de um certo tempo começa a me irritar. Essa semana a mulher da cozinha que vimos ontem vai me ligar com o orçamento. Dependendo do preço, pode ser que role, até porque eles vêm tirar as medidas todas e instalam pra você. Se não rolar, vai ser IKEA mesmo o problema é que tem que ir láaaaaaaa em Florença, porque aqui perto não tem IKEA, alguém entendido vai ter que tirar as medidas direito pra gente, e montar. Vamos ver.
Depois de uma manhã na oficina, botando umas coisas em ordem, fomos almoçar na Arianna. Chiara pediu umas avelãs de presente, e começamos a catar as muitas que tinham no chão. Arianna já tinha colhido um saco inteiro, e no total deve ter dado uns quatro quilos de avelãs. Leguinho, que não é bobo, come não só a avelã propriamente dita mas inclusive a casca. E já que estávamos por ali, começamos a colher figos também vou levar alguns pra Simona, já que eu não como e o Mirco não acha nada de especial. Aí passamos pra horta, e pegamos uns tomates, a última abobrinha, e muitas maçãs e peras. Ainda trouxemos um pedaço de planta de peperoncino, aquela pimenta vermelha italiana, pra botar pendurado na varanda pra secar. Depois bato no liquidificador e vira pó, que o Mirco sempre bota no molho de tomate. Também trouxemos ovos frescos, ainda quentinhos, e umas bananas que a Rita deu de presente pra Arianna mas, sendo fruta exótica, eles não são chegados. Como estavam mais pra maduras, e eu gosto de banana mais pra verde, me meti a fazer uma cuca de banana. Dessa vez mudei a receita da minha tia e botei banana amassada na massa também. Eu não como doce que não seja de chocolate, mas depois o Mirco vai servir de cobaia.
Depois de ver mais algumas cozinhas num show room em Perugia, fomos ao cinema ver Superman Returns. Os meninos não gostaram, mas eu gostei. Tudo bem que o Super tem toda a expressividade de um galho de figueira, apesar de ser um pi-téu, e tudo bem que a garota que faz a Lois Lane não é nada de particular, e tudo bem aquele corte de cabelo hediondo do filho da Lois, mas eu gostei. A abertura é maneira, e, admitamos, darlings, a musiquinha é de arrepiar os cabelos. Os efeitos são ótimos, e a história não é assiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim tão inverossível quanto parece eu tinha acabado de ler o lance dos cristais no livro do Dawkins. Cristais crescem por acumulação uniforme de moléculas, inclusive copiando eventuais erros de posicionamento, que o Lex chamou de copia a forma dos minerais ao redor. Daí uma das teorias que diz que é possível que a vida na Terra tenha surgido a partir de um mineral. A cópia de eventuais erros seria o equivalente da mutação no DNA.
Mas viajei completamente na maionese. Gostei do filme, e fiquei com vontade de levar o Superpitéu pra casa.
Pra compensar a segunda aula com o Escrotão, a mãe de um aluno veio hoje falar comigo.
Não lembro mais se comentei aqui, mas devo ter comentado: um menino chamado Giulio que veio sozinho, de livre e espontânea vontade, ter aula de inglês porque acha que na escola não tem oportunidade de falar. Esperto, interessado, observador, com ele não falta assunto. Pois hoje a mãe veio me dizer que o menino vai voltar a ter aulas, só precisa ajeitar o horário com o da escola, e que, como foi à Áustria com os pais nas férias, comentou com a mãe que está cheio de novidades pra contar pra Letizia.
No início do mês veio um novo aluno de francês, recomendado pela Chiara, aquela outra menina esperta que melhorou as notas na escola. A mãe do garoto disse à Simona no telefone que a mãe da Chiara recomendou muito a escola, por causa do milagre que eu fiz com a Chiara (vocês conhecem a história, a garota é muito esperta e só precisava de uma mãozinha).
Meu aluno ruivo, aquele que melhorou muito a pronúncia e que a mãe comentou que vai todo feliz pras aulas, está cada vez melhor. Esteve na Irlanda em agosto e adorou a viagem. E me contou todos os detalhes em inglês, corrigindo a pronúncia direitinho. A mãe ficou toda boba quando eu disse que ele já conversa em inglês com uma certa facilidade, e me agradeceu longamente. E ele ficou todo vermelho, por baixo das sardas ; )
E a companhia de cruzeiros marítimos pra quem traduzi um monte de coisas mandou um e-mail parabenizando o tradutor (eu! eu!) pela qualidade do trabalho.
Se elogio pagasse, eu estaria com um apartamento na Piazza Navona…